

Leon Tolstoi

Guerra e Paz


Livro II





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      2a edio
      
      Publicaes Europa- Amrica
      c Publicaes Europa- Amrica,
      
      Traduo de Isabel da Nbrega
      e Joo Gaspar Simes
      
      Editor: Francisco Lyon de Castro
      Edio n. 006112129






Livro Terceiro





Primeira Parte
      

      
      
      
      Nota. - Grafamos em itlico o que no texto russo est em francs. Era costume da alta sociedade da poca usar habitualmente a lngua francesa nas conversaes mundanas.
      
      
      Captulo I
      
      Em fins de 1811 principiaram os armamentos intensivos e a concentrao das foras da Europa ocidental e, em 1812, estas foras, ou seja, milhes de homens, no nmero das quais se contava transportes e abastecimentos, puseram-se em marcha do ocidente para o oriente, em direco s fronteiras da Rssia, para onde se encaminhavam, igualmente, a partir de 1811, os exrcitos russos. No dia 12 de Junho, os exrcitos da Europa ocidental atravessaram a fronteira e a guerra principiou, isto , produziu-se ento um acontecimento em desacordo completo com a razo e a prpria natureza do homem. Estes milhes de homens praticaram, em relao uns aos outros, to grande nmero de abominaes, de fraudes, de traies, de roubos, de falsificaes de moeda, de pilhagens, de incndios e de morticnios como no h exemplo nos arquivos dos tribunais do mundo inteiro, funcionando h sculos, e sem que, no entanto, durante todo este perodo, aqueles que cometeram tais crimes fossem considerados, realmente, criminosos.
      Que produziu to monstruoso acontecimento? Quais as suas causas? Os historiadores, com uma segurana ingnua, foram busc-las ao insulto de que foi vtima o duque de Oldemburgo, no observncia do bloqueio continental,  ambio de Napoleo,  resistncia de Alexandre, aos erros da diplomacia, etc. Por conseguinte, teria bastado que Metternich, Rumiantsov ou Talleyrand, entre uma recepo na corte e uma reunio poltica, conviessem em redigir com arte uma nota bem cozinhada ou que Napoleo pegasse na pena para escrever a Alexandre: Senhor meu irmo, consinto em devolver o ducado ao duque de Oldemburgo, para que no tivesse havido guerra.
       natural que fosse este o ponto de vista dos contemporneos. Concebe-se que Napoleo tivesse atribudo a guerra s intrigas da Inglaterra, como declarou na ilha de Santa Helena. Admite-se que os membros do Parlamento ingls pensassem que deveriam ir buscar-se-lhe as causas  ambio de Napoleo; que o duque de Oldemburgo as tivesse visto na violncia de que fora vtima; o comrcio no bloqueio que arruinava a Europa; que os velhos militares e os generais tenham dado como pretexto do conflito a necessidade de ocupar os seus homens; os legitimistas da poca a urgncia em restabelecer os bons princpios, enquanto os diplomatas pensavam que tudo provinha de a aliana da Prssia com a ustria em 1809 no ter sido habilmente escondida de Napoleo e de o memorando n 178 haver sido mal redigido. Compreende-se que os contemporneos tenham invocado estas e ainda outras razes, tantas ou to poucas que o nmero delas pode variar consoante os numerosos pontos de vista.
      Para ns, a posteridade, que contemplamos em toda a sua amplitude este acontecimento considervel e que penetramos o seu sentido simples e terrvel, todas elas so, evidentemente, insuficientes. No podemos conceber como milhes de cristos puderam matar-se uns aos outros e torturar-se mutuamente s porque Napoleo era ambicioso, Alexandre firme, a poltica da Inglaterra tortuosa e o duque de Oldemburgo se sentia ofendido. No  possvel compreender a ligao que existe entre todas estas circunstncias e as violncias e os morticnios propriamente ditos.
      Para ns, a posteridade, ns, que no somos historiadores, nem nos deixamos levar pelo entusiasmo das investigaes, e examinamos, por conseguinte, com um bom senso imperturbvel os acontecimentos, as causas aparecem-nos em nmero incalculvel. Quanto mais nos enfronhamos na investigao dessas causas mais numerosas elas se nos revelam e cada uma em si ou uma srie delas se nos afiguram igualmente justas, embora falsas tambm, dada a sua insignificncia quando comparadas com a imensidade do acontecimento, e igualmente falsas pela sua insuficincia, independentemente de todas as demais causas concordantes poderem ter produzido o resultado encarado, Uma delas, por exemplo, o facto de Napoleo se ter recusado a retirar as suas tropas para o outro lado do Vstula e restituir o ducado de Oldemburgo, parece-nos valer tanto como a recusa de um primeiro-cabo francs a realistar-se, pois a verdade  que, se este no tivesse querido voltar  actividade e o seu exemplo houvesse sido seguido por milhares de soldados, teria havido muito menos homens no exrcito de Napoleo e este ver-se-ia impossibilitado de declarar a guerra.
      Se Bonaparte se no houvesse sentido ofendido ao receber a comunicao em que se lhe pedia que se retirasse para a outra margem do Vstula e no tivesse dado s suas tropas ordem de marcha, no teria havido guerra. Mas se todos os seus sargentos se houvessem recusado a realistar-se tambm a agresso no se daria. Fosse como fosse, no se teria dado se no tivesse havido intrigas da Inglaterra, se no existisse o prncipe de O1demburgo, se Alexandre no fosse to susceptvel, se a Rssia no tivesse um governo autocrtico, se no tivesse havido a Revoluo Francesa e assim por diante. Sem qualquer destas causas nada teria acontecido.  muito possvel que para que o acontecimento se produzisse tivesse sido preciso o encontro de todas estas causas, de milhares de causas, o que s quer dizer no haver causas exclusivas e que as coisas acontecem porque tm de acontecer.
      Milhes de homens, repudiando todo o sentimento humano e toda a espcie de razes, tinham de marchar do Ocidente para o Oriente dispostos a matar os seus semelhantes, tal qual, sculos antes, massas de homens tinham marchado do Oriente para o Ocidente matando igualmente o seu semelhante.
      Os actos de Napoleo e de Alexandre, cuja palavra, na aparncia, s por si podia impedir ou desencadear os acontecimentos, eram to pouco livres e arbitrrios como os do simples soldado destinado pela sorte ou o recrutamento a tomar parte na campanha.
      As coisas no podiam passar-se de outra maneira, pois, para que fosse cumprida a vontade de Napoleo ou de Alexandre, na aparncia senhores omnipotentes, era absolutamente necessria a concordncia de numerosas circunstncias, e bastava faltar uma s que fosse para nada vir a produzir-se. Era necessrio que milhes de homens entre cujas mos se encontrava a fora actuante - soldados para disparar e transportar abastecimento,, e canhes- estivessem de acordo para cumprir a vontade daqueles dois fracos indivduos, se isolados, e que a tal fossem conduzidos por um nmero infinito de razes, to complicadas quo diversas.
      A interveno do fatalismo na histria  inevitvel para explicar estas manifestaes desprovidas de sentido, ou, antes, cujo sentido nos no  dado compreender. Quanto mais procuramos explic-las logicamente tanto mais desarrazoadas e incompreensveis se nos apresentam.
      O homem vive para si mesmo, goza de liberdade para alcanar os seus objectivos particulares; todo o seu ser lhe diz que pode realizar ou no imediatamente este ou aquele acto; mas assim que age, realizado que seja o seu acto em tal ou qual momento da continuidade temporal, ei-lo que passa a ser irrevogvel e a pertencer da para o futuro  histria, perdendo o seu carcter de acto livre para ocupar um lugar que lhe  previamente designado.
      A vida do homem tem duas faces. H, em primeiro lugar, a vida individual, tanto mais livre quanto mais gerais os seus interesses, quanto mais abstractos; e depois a vida como um elemento social, a vida do cortio humano, em que o homem tem inevitavelmente de se submeter s leis que lhe so prescritas.
      O homem vive conscientemente a sua vida individual, servindo de instrumento inconsciente  realizao dos fins histricos da humanidade inteira. O acto realizado torna-se irrevogvel, e, graas  sua concordncia com os milhes de outros actos realizados ao mesmo tempo, assume valor histrico. Quanto mais alto o homem est colocado na escala da humanidade, quanto mais importantes as personagens com quem entra em contacto, tanto maior, igualmente, o seu poder sobre os outros homens e mais evidente o carcter de predestinao e de fatalidade de cada um dos seus actos.
      O corao dos reis est na mo de Deus. O rei  escravo da histria.
      A histria, quer dizer, a vida inconsciente, geral, elementar, da humanidade serve-se de todos os minutos da vida dos reis para alcanar os seus objectivos.
      Embora ento, em 1812, Bonaparte estivesse mais do que nunca convencido de que no dependia seno dele fazer ou no verter o sangue dos povos, como dizia Alexandre na ltima carta que lhe escreveu, a verdade era mais do que nunca encontrar-se sujeito a essas leis fatais que, enquanto lhe davam a iluso de agir por si, segundo o seu prprio capricho, o compeliam o, colaborar na obra comum, a histria, realizando o que necessariamente tinha de realizar-se.
      Os homens do Ocidente puseram-se a caminho do Oriente para se chacinarem uns aos outros. E, segundo a coincidncia das causas, colaboraram neste acontecimento e encontraram-se em correlao com ele milhares de pequenas causas desse movimento e dessa guerra, entre as quais a violao do bloqueio continental, a ofensa ao duque de Oldemburgo, os deslocamentos de tropas na Prssia, realizados, segundo pensava Napoleo, com o nico fim de se conseguir uma paz armada; o amor da guerra do imperador dos Franceses e o hbito em que estava de a fazer, de acordo com as disposies particulares do seu povo; o entusiasmo a que levavam os preparativos grandiosos; as despesas que estes preparativos determinaram; a necessidade de conseguir vantagens que compensassem tais despesas; as honrarias inebriantes que recebera em Dresde; as conversaes diplomticas que, de acordo com a opinio dos contemporneos, haviam sido realizadas com o sincero desejo de alcanar a paz e que no fim de contas s serviram para irritar o amor-prprio de parte a parte; milhes de milhes de outras causas, enfim, que concorreram para a realizao do acontecimento ou que coincidiram com ele.
      Uma ma cai quando est madura. Porqu?  o peso que a faz cair? Ou porque se lhe seca o p, porque o sol a queima, porque se tornou pesada de mais, porque o vento a sacudiu ou, muito simplesmente, porque um garoto junto da rvore morria por com-la?
      Nenhuma destas causas  a vlida. No h mais que uma concordncia de condies favorveis na realizao de qualquer dos acontecimentos elementares da vida orgnica. O botnico que descobre que a ma cai como consequncia da decomposio do tecido celular ou qualquer coisa semelhante no tem mais razo que o garoto dizendo que a ma caiu porque ele a desejava comer e nesse intuito rezou a Deus. Igual razo ou sem-razo ter aquele que vier dizer que Napoleo entrou em Moscovo por ser esse o seu desejo e que a se perdeu por ser essa a deciso de Alexandre. Igualmente estar em erro e ter razo aquele que disser que uma montanha de milhes de puds que acabou por se desmoronar minada na base caiu graas ao ltimo golpe de picareta do ltimo dos sapadores. Nos factos histricos, esses a quem se d o nome de grandes homens no passam, no fundo, de etiquetas para designar o acontecimento. Aqueles tm to pouca relao com tais factos como as prprias etiquetas que lhes pem.
      Nenhum dos seus actos que a eles se lhes afigurem produto do livre arbtrio podem considerar-se em verdade voluntrios no sentido histrico da palavra, pois esto relacionados com a marcha geral da histria, onde o seu lugar se encontra assinalado para toda a etcrnidade.
      

      
      
      
      Captulo II
      
      No dia 29 de Maio, Napoleo abandonou Dresde, onde passara trs semanas, rodeado por uma corte de prncipes, de duques, de reis e at por um imperador. Antes da sua partida, agradecera aos prncipes, aos reis e ao imperador que mereceram os seus elogios, dera uma lio aos reis e aos prncipes de quem tinha razes para estar descontente, presenteara com prolas e diamantes do seu prprio escrnio, isto , roubados a outros reis, a imperatriz da ustria, e, depois de estreitar amorosamente nos braos Maria Lusa, deixara-a, assim dizia um historiador, profundamente dorida com uma despedida que, ao que parece, esta Maria Lusa muito sentia, considerando-se j esposa de Bonaparte apesar da outra esposa que ficara em Paris.
      No obstante a confiana dos diplomatas na manuteno da paz, para que trabalhavam com afinco, no obstante a carta autgrafa de Napoleo a Alexandre, em que o tratava por Senhor meu irmo e lhe dava a sincera garantia de no querer a guerra e de nunca vir a deixar de lhe consagrar estima e amizade, no obstante tudo isso, ps-se em marcha, em seguimento do exrcito, dando as suas ordens, em cada muda, para se activar o movimento das tropas para oriente. Numa sege de viagem tirada por seis cavalos, rodeado de pajens, de ajudantes-de-campo e seguido de uma escolta, ei-lo que toma a estrada de Posen Thorn, Danzigue e Conisberga. Milhares de pessoas vieram ao seu encontro em cada uma destas cidades movidas por um entusiasmo a que se misturava algum terror.
      O exrcito deslocava-se para oriente e aps ele o levava aquela sege tirada por seis cavalos mudados em cada nova posta. A 1O de Junho alcanou o exrcito e passou a noite em plena floresta de Wilkowyski, na propriedade de um conde polaco, onde lhe haviam reservado aposentos.
      No dia seguinte ultrapassou o exrcito, seguindo de sege at s margens do Nimen, e, disposto a estudar um local propcio  passagem das suas tropas, envergou um uniforme polaco e apeou-se do cavalo para examinar o rio.
      Ao ver os cossacos na outra margem, as estepes perdendo-se na distncia, no meio das quais estava Moscovo, a cidade santa, a capital desse mesmo imprio dos Citas por onde passara Alexandre da Macednia, Napoleo, com espanto de todos, e contrariamente a todas as consideraes, quer estratgicas quer diplomticas, deu ordem para avanar, e no dia seguinte as suas tropas atravessaram o Nimen.
      A 12, de madrugada, saiu da tenda armada sobre uma eminncia da margem esquerda e ps-se a observar com o culo a vaga das tropas que saam da floresta de Wilkowyski e enfiavam pelas trs pontes que mandara lanar sobre o rio. Os soldados, sabendo que o imperador estava presente, procuravam-no com os olhos, e quando o descobriram sobre a escarpa, diante da tenda, afastado do resto da comitiva, de redingote e chapu, lanaram ao ar as barretinas de plo, gritando: Viva o imperador! E, inesgotvel, l continuava a correr, da enorme floresta em que se ocultava, aquela torrente de homens que, dividindo-se pelas trs pontes, inundava a margem oposta.
      Desta  que vamos longe. Quando ele prprio intervm no assunto a coisa aquece... Com mil demnios!... Ei-lo!... Viva o imperador!... So estas, pois, as estepes da sia! De qualquer modo, uma terra feia. Adeus, Beauch; reservo-te o mais belo palcio de Moscovo. - Adeus, boa sorte.- Viste o imperador? Viva o imperador... rador...! - Se me nomearem governador das ndias, Grard, fao-te ministro de Caxemira, fica combinado. - Viva o imperador! Viva! Viva! Viva! -  ver como eles fogem, esses marotos dos cossacos. Viva o imperador! Ei-lo! Viste-o? Vi-o duas vezes tal como te estou a ver a ti. O pequeno cabo... Vi-o dar a cruz a um dos velhos... Viva o imperador!...
      Eis o que diziam velhos e novos, homens de todos os feitios e posies sociais. Em todos os rostos se reflectia a mesma alegria por verem iniciada uma campanha to ardentemente esperada e o mesmo entusiasmo e a mesma dedicao pelo homem do redingote cinzento que l estava em cima naquela eminncia.
      A 13 de Junho trouxeram a Napoleo um cavalinho rabe, puro-sangue, que ele montou, e a galope despediu em direco a uma das pontes de Nimen, sempre no meio do mesmo clamor, clamor que ele apenas tolerava, via-se bem, por no ser possvel impedir os seus soldados de assim exprimirem o amor que lhe tinham. Esses gritos que o perseguiam por toda a parte fatigavam-no e distraam-no das preocupaes militares que o assoberbavam desde que se juntara ao exrcito. Atravessou uma das oscilantes pontes de barcas e, embrenhando-se na outra margem, meteu  esquerda, e a galope seguiu na direco de Kovno, precedido pelos caadores da Guarda, que, loucos de alegria, lhe abriam caminho por entre os soldados. Quando chegou junto do curso do grande Vstula, parou ao p de um regimento de ulanos polacos que estacionava ali.
      Viva!, gritavam os polacos com no menor entusiasmo que os prprios franceses, rompendo fileiras e acotovelando-se para melhor o verem.
      Napoleo examinou o rio, desmontou e foi sentar-se num tronco de rvore junto das guas. A um seu gesto, trouxeram-lhe o culo, que ele apoiou no ombro de um pajem, contentssimo, que logo aparecera, e ps-se a olhar para a margem oposta. De- pois enfronhou-se no estudo do mapa aberto sobre o tronco da rvore. Sem erguer a cabea, pronunciou duas ou trs palavras e imediatamente dois dos seus ajudantes-de-campo despediram a galope em direco aos ulanos polacos.
      Que foi? Que disse ele?, ouvia-se nas fileiras,  medida que se aproximava o ajudante-de-campo.
      Fora dada ordem para se procurar um vau por onde passar  margem oposta. O coronel dos ulanos, homem idoso, mas de bela presena, corando e com a lngua entaramelada pela emoo, perguntou ao oficial se lhes seria permitido, a ele e aos seus homens, atravessarem o no a nado, sem se darem ao trabalho de procurar um vau. Receoso que lhe recusassem o que pedia, como um garoto que pede para montar a cavalo, solicitou autorizao para atravessar o no na presena do imperador, o ajudante-de-campo replicou ser muito natural que este excesso de zelo no deixasse de ser agradvel ao imperador.
      Ao ouvir estas palavras, o velho oficial de grande bigodeira, felicidade no rosto e os olhos cintilantes, puxou do sabre, gritando: Viva! Depois, dando ordem aos seus ulanos para que o seguissem, esporeou o cavalo e meteu-se ao rio. Fustigando, colrico, o animal, que vacilava, entrou na gua, dirigindo-se para um local profundo onde a corrente era impetuosa. Atrs dele iam centenas de homens. L para o meio do rio, o frio principiou a apoquent-los. Os soldados tropeavam uns nos outros e caam das montadas. Houve cavalos que se afogaram e alguns soldados tambm, enquanto outros procuravam nadar, agarrando-se s selas ou s crinas dos animais. Embora a meia versta apenas houvesse um vau, eles, procurando alcanar a outra margem, mostravam-se orgulhosos de nadar e morrer afogados  vista daquele homem sentado num tronco de rvore que nem sequer olhava para eles. Quando o ajudante-de-campo voltou para junto do imperador e, aproveitando um momento favorvel, se permitiu chamar-lhe a ateno para a prova de lealdade dos polacos, o homenzinho do redingote cinzento levantou-se, chamou Berthier e ps-se a passear com ele de um lado para o outro, ao longo da margem, dando-lhe ordens e lanando de tempos a tempos um olhar descontente para aqueles homens que se afogavam, distraindo-lhe a ateno.
      No era a primeira vez que podia convencer-se de que bastava a sua presena, em qualquer parte do mundo, da frica s estepes da Moscvia, para despertar nos homens como que a loucura do sacrifcio. Mandou que lhe trouxessem o cavalo e regressou ao acantonamento.
      Quarenta ulanos se afogaram, apesar das barcaas que foram socorr-los. A maior parte dos corpos foi arrastada para a cidade que acabavam de deixar. O coronel e alguns soldados atravessaram o no e com grande dificuldade conseguiram escalar a margem. Assim que l chegaram, com os uniformes a pingar, gritaram: Viva!, procurando com os olhos o local onde se devia encontrar Napoleo, que j l no estava, e nesse momento sentiram-se plenamente felizes.
      Pela noite, aps ter tomado duas decises, a primeira no sentido de apressar o envio de notas de banco eslavas falsificadas com destino  Rssia e a segunda de se executar um saxo em poder do qual se haviam encontrado informes relativos  situao do exrcito francs, ainda tomou uma terceira, mandando que fosse condecorado com a Legio de Honra, de que era chefe supremo, o coronel polaco que, sem necessidade, se precipitara no rio.
      Quos vult perdere dementat...
      

      
      
      
      Captulo III
      
      Entretanto havia mais de um ms que o imperador da Rssia se encontrava em Vilna, onde passava revista s tropas e assistia s manobras. Nada estava disposto para a guerra que toda a gente esperava e para a preparao da qual o imperador deixara Petersburgo. No havia qualquer plano geral para as operaes. As dvidas e hesitaes sobre o plano a seguir ainda eram maiores um ms depois de o imperador se achar no quartel-general. Cada um dos trs corpos de exrcito tinha um general-chefe, mas no havia generalssimo e o imperador no queria assumir semelhantes funes.
       medida que o tempo ia passando em Vilna mais atrasados estavam os preparativos. Toda a gente se sentia cansada de esperar. Dir-se-ia que a maior preocupao do squito de Sua Majestade era fazer que ele passasse agradavelmente o seu tempo e esquecesse a guerra iminente.
      Depois de muitos bailes e festas oferecidos pelos magnates polacos, personagens da corte e pelo prprio imperador, um dos generais polacos ajudante-de-campo teve a ideia de organizar um jantar e um baile oferecidos pelos seus colegas. Esta ideia obteve o mais jovial acolhimento. O prprio imperador lhe deu o seu apoio. Os generais ajudantes-de-campo abriram uma subscrio. A senhora que gozava de maior prestgio junto do imperador aceitou desempenhar o papel de anfitrio. O conde de Bennigsen, proprietrio na provncia de Vilna, ps o seu castelo de Zakreta, nos arredores da cidade,  disposio dos organizadores da festa, e 13 de Junho foi a data marcada para o festival, que se compunha de banquete, baile, passeio no rio e fogo de artifcio.
      No mesmo dia em que Napoleo dera ordem para se atravessar o Nimen e em que as guardas avanadas do seu exrcito, repelindo os cossacos, atravessavam a fronteira da Rssia, encontrava-se Alexandre no festival promovido pelos seus ajudantes-de-campo na propriedade de Bennigsen.
      A festa foi alegre e brilhante; os entendidos opinaram que raramente se tinha visto um conjunto de to lindas mulheres. A condessa Bezukov, que, na companhia de outras senhoras russas, seguira o imperador at Vilna, assistiu  festa eclipsando com a sua beleza tipicamente russa, um pouco pesada, a das mais airosas polacas. Chamou as atenes e o imperador concedeu-lhe a honra de a ir buscar para danar.
      Bris Drubetskoi, de novo solteiro, como ele dizia, deixara a mulher em Moscovo, e tambm assistiu ao baile. Embora no fosse ajudante-general, contribura com uma bonita soma para a colecta. Agora era o que se chama um homem rico, dado ao culto de honrarias de toda a espcie, sem precisar j de proteces e tratando de igual para igual as mais altas personalidades do tempo. Encontrou-se com Helena em Vilna; no a via h muito e no lhe lembrou o passado, mas, como ela estava nas graas de uma personalidade muito importante, desde logo passaram a ser velhos amigos.
      A meia-noite ainda se danava. Helena, que no via  sua volta par digno de si, props a Bris que a fosse buscar para a mazurca. Bris,, indiferente aos resplandecentes ombros nus de Helena, que emergiam de um corpinho de gaze escura bordado a ouro, falava de pessoas conhecidas sem deixar de seguir com os olhos, como que inconscientemente, o imperador, que se encontrava no mesmo salo. Este no danava; estava de p junto de uma porta e ora detinha este ora aquele, dirigindo a cada um a sua palavra amvel como s ele sabia fazer.
      No princpio da mazurca Bris notou que o general ajudante-de-campo Balachov, um dos ntimos do imperador, se aproximou do monarca e esperava a seu lado, numa atitude inteiramente contrria ao protocolo, enquanto este conversava com uma senhora polaca. Quando a conversa acabou, o imperador interrogou-o com a vista e, compreendendo que Balachov no teria procedido daquela maneira se no fosse por qualquer grave motivo, fez uma mesura  senhora e voltou-se para o general. Poucas palavras ele dissera ainda e j no rosto do imperador se pintava um profundo espanto. Travou do brao de Balachov e atravessou com ele a sala, sem prestar a mais pequena ateno s pessoas presentes, que abriram largas alas para o deixar passar. Bris reparou que Araktcheiev, ao ver o imperador com Balachov, mostrara certa perturbao. O ministro, olhando para o monarca com olhos baixos e resfolgando pelo afogueado nariz, destacara-se da multido, como que  espera que o imperador lhe dirigisse a palavra. Bris percebeu que Araktcheiev sentia cimes de Balachov e estava contrariado com o facto de uma notcia, sem dvida importante, no ser transmitida por ele.
      No entanto, o imperador e Balachov atravessaram o salo sem o ver e penetraram no jardim iluminado. Araktcheiev, com mo na bainha da espada e olhares colricos, seguiu-os a uns vinte passos de distncia.
      Enquanto durou a marcao da mazurca, Bris deu voltas  imaginao para descobrir o que teria dito Balachov ao imperador e a maneira de o vir a saber antes de mais ningum.
      Como naquele momento lhe competia escolher outro par, murmurou ao ouvido de Helena que ia tirar a condessa Potochka, o qual, segundo pensava, sara para a escada. Deslizando pelo parquet, precipitou-se para a porta que dava para o jardim e ao ver o imperador e Balachov entrarem no terrao deteve-se. Ambos se encaminhavam para a porta. Bris, pressuroso, como se no tivesse tido tempo de se afastar, colou-se, respeitosamente, contra o alizar, numa grande vnia.
      O imperador, com a expresso de um homem pessoalmente ofendido, pronunciava estas palavras:
      - Entrar na Rssia sem declarao de guerra! S assinarei a paz no dia em que no houver sobre o meu territrio um nico inimigo armado.
      Afigurou-se-lhe, a Bris, que Alexandre punha uma espcie de satisfao em exprimir-se daquela maneira: a forma que dera ao pensamento agradava-lhe. No entanto, pouco satisfeito se mostrou pensando ter sido ouvido.
      -  preciso que ningum saiba! - acrescentou, franzindo o sobrolho. Bris percebeu que aquela advertncia lhe dizia respeito e, baixando os olhos, vergou a cabea. O imperador voltou ao salo e permaneceu no baile ainda cerca de meia hora.
      Foi assim que Bris veio a saber antes de mais ningum que os Franceses haviam atravessado o Nimen e deste modo lhe foi possvel mostrar a algumas altas personalidades que tinha conhecimento do que os outros ignoravam. E isto tornou-o aos seus olhos maior ainda.
      A notcia de que os Franceses haviam atravessado o Nimen caa de improviso no meio do baile depois de um ms de expectativa! O imperador, no primeiro momento de indignao e de clera, encontrara a frmula, mais tarde clebre, que a ele prprio agradara, e que em verdade exprimia plenamente os seus sentimentos. No regresso do baile, s duas horas da madrugada, mandou chamar o seu secretrio, Chichkov, a quem ditou uma ordem do dia dirigida s tropas e um rescrito com vista ao prncipe Soltikov. Teve o cuidado de transcrever a frase clebre em que declarava s assinar a paz no dia em que no houvesse um nico francs armado sobre a terra russa.
      No dia imediato dirigiu a Napoleo a carta que se segue:
      
      Senhor meu irmo. Soube ontem que, apesar da lealdade com que mantive os meus compromissos para com Vossa Majestade, as suas tropas atravessaram as fronteiras da Rssia, e acabo de receber de Petersburgo uma nota em que o conde Lauriston, por causa dessa agresso, anuncia que Vossa Majestade se considerou em estado de guerra para comigo desde o momento em que o prncipe Kurakine fez o pedido dos seus passaportes. Os motivos em que o duque de Bassano fundamentava a recusa de lhos passar nunca me fariam supor que essa diligncia viria alguma vez a servir de pretexto para a agresso. Com efeito, o embaixador no fora a tal autorizado, como ele prprio o declarou, e logo que fui disso informado comuniquei-lhe quanto desaprovava essa deslocao, dando-lhe a ordem de se manter no seu posto. Se Vossa Majestade no tem a inteno de fazer verter o sangue das nossas gentes por um mal-entendido desta espcie e se consentir em retirar as suas tropas do territrio russo, encararei o que se passou como se nada fosse, e ser possvel as coisas comporem-se entre ns. No caso contrrio, Vossa Majestade, ver-me-ei forado a repelir um ataque que ns no provocmos. Depende ainda de Vossa Majestade evitar  humanidade as calamidades de uma nova guerra.
      
      Sou, de Vossa Majestade, etc.
      ALEXANDRE
      

      
      
      
      Captulo IV
      
      No dia 13 de Junho, s duas horas da madrugada, o imperador mandou chamar Balachov, leu-lhe a carta que acabara de escrever a Napoleo, dando-lhe ordem para que a fosse entregar pessoalmente ao imperador dos Franceses. Ao despedir-se dele repetiu as palavras que pronunciara no baile, ordenando-lhe que as repetisse fielmente a Napoleo. No as transcrevera na sua carta, pois sentia, com o seu tacto habitual, que seriam ali deslocadas, visto tratar-se de uma ltima tentativa de conciliao. No entanto, ordenou a Balachov que lhas repetisse textualmente.
      Tendo partido na noite de 13 para 14, Balachov, acompanhado de um trombeta e de dois cossacos, chegou de madrugada  aldeia de Rykonty, guarda-avanada dos Franceses nessa margem do Nimen. As sentinelas da cavalaria francesa detiveram-no.
      Um sargento de hssares, de uniforme amaranto e barretina de plo, gritou-lhe que parasse. Balachov no obedeceu imediatamente e prosseguiu a passo.
      De sobrancelhas franzidas e soltando palavres, o sargento atravessou-se na estrada com o seu cavalo, fazendo parar o general russo. Depois desembainhou o sabre e perguntou-lhe grosseiramente se era surdo, pois no parecia entender o que ele dizia. Balachov declinou a sua identidade. O francs deu ordens a um soldado para que fosse chamar um oficial.
      Indiferente ao enviado russo, o hssar ps-se a conversar com os seus camaradas sobre assuntos que lhes diziam respeito, sem se dignar pousar nele os olhos.
      Estranha impresso causou isto a Balachov. Ele, que estava em comunicao contnua com o poder supremo e as autoridades, ele que, algumas horas antes, falava com o imperador, ele, que no desempenho das suas funes estava habituado a ser tratado com todas as honras, via-se agora, em terra russa, tratado como um inimigo e, pior ainda, sem qualquer respeito, por semelhantes representantes da fora bruta.
      O sol principiava a romper as nuvens; o ar era fresco e repassado de humidade. Um rebanho ia da aldeia a caminho dos montes. As andorinhas, umas aps outras, como bolhas que rompem  superfcie de gua, saam das sebes, soltando trinados.
      Balachov olhava  sua roda enquanto aguardava o oficial que haviam ido buscar  aldeia. Os cossacos e o trombeta, em silncio, de tempos a tempos, trocavam olhares com os hssares franceses.
      O coronel dos hssares, que naturalmente acabara de saltar da cama, apareceu montado num belo cavalo cinzento, bem tratado, escoltado por dois dos seus homens. O oficial, os soldados, os seus prprios cavalos, respiravam contentamento e abastana.
      Estava-se no princpio da guerra, nesse momento em que as tropas, de ponto em branco, parecem preparadas para uma parada do tempo da paz, apenas com qualquer coisa de mais blico no equipamento e esse matiz de jovialidade e animao, trao caracterstico de um exrcito quando principia uma nova campanha.
      S muito a custo o coronel francs reprimiu o bocejar, mas mostrou-se polido e percebeu, evidentemente, a importncia da misso de que Balachov vinha incumbido. F-lo atravessar as linhas e garantiu-lhe que o desejo manifestado de ir  presena do imperador seria imediatamente satisfeito, visto o quartel-general, assim o supunha pelo menos, estar situado ali perto.
      Atravessaram a aldeia de Rykonty pelo meio dos piquetes de hssares, de sentinelas e de soldados que faziam continncia ao seu coronel e olhavam curiosos para o uniforme russo, e assim atingiram a outra extremidade da povoao. Segundo dizia o coronel, a dois quilmetros dali estava o comandante da diviso, que receberia Balachov e o conduziria ao seu destino.
      O Sol surgira no horizonte e brilhava alegremente sobre os campos muito verdes.
      Mal ultrapassaram a estrada do monte viram surgir diante de si, descendo a encosta, um grupo de cavaleiros,  frente dos quais, montado num cavalo preto, cujos arreios brilhavam ao sol, cavalgava um homem de grande estatura, de chapu emplumado, com os negros cabelos encaracolados caindo-lhe pelas costas, embrulhado numa capa vermelha e as pernas estendidas para a frente, caracterstica maneira de montar dos Franceses. Este homem galopava ao encontro de Balachov, e a sua pluma, as suas pedras preciosas, os seus gales dourados ondulavam e brilhavam ao ardente sol de Junho.
      Estava Balachov a menos de dois cavalos daquele cavaleiro em atitude solene e teatral, coberto de cordes, de plumas, de colares e de gales dourados, quando Ulner, o coronel francs, lhe segredou ao ouvido respeitosamente: O Rei de Npoles. Era, efectivamente, Murat, a quem chamavam ento rei de Npoles. Embora fosse absolutamente impossvel saber porqu, o certo  que era rei de Npoles, assim lhe chamavam, e ele prprio disso estava convencido, circunstncia que lhe dava um aspecto mais imponente e solene. To persuadido estava da situao que na vspera da sua partida de Npoles, andando a passear com a mulher nas ruas da cidade e ouvindo alguns italianos aclam-lo, gritando Viva il re!, se voltou para a mulher com um triste sorriso e disse: Desgraados! Ignoram que os deixo amanh!
      Apesar da sua ntima convico de ser realmente rei de Npoles e de que os seus sbditos suspiravam por ele, naqueles ltimos tempos, depois de receber ordem para regressar ao servio do exrcito, principalmente aps a sua entrevista com Napoleo em Danzigue, quando ouviu o seu augusto cunhado dizer-lhe: Eu tornei-o rei para que reinasse  minha maneira, no  sua, confiou-se alegremente ao seu mister familiar e como um cavalo bem tratado e sem gorduras em excesso, que, sentindo-se atrelado, brinca entre os varais, arreado com as cores mais vistosas e as mais preciosas jias, ei-lo que vai caracolear, sem que ele prprio saiba muito bem aonde nem porqu, pelas estradas da Polnia.
      Ao ver o general russo, atirou majestosamente para trs, numa atitude verdadeiramente real, a sua cabea ornada de compridos cabelos encaracolados, e interrogou com os olhos o coronel francs. Este informou respeitosamente Sua Majestade da identidade de Balachov, cujo nome no conseguia pronunciar.
      - De Bal-Machve! - articulou o rei, superando com deciso a dificuldade que o coronel no soubera vencer - muito prazer em conhec-lo, general - acrescentou com um gesto de condescendncia verdadeiramente augusto.
      Assim que ergueu a voz e principiou a falar depressa, toda a, sua dignidade real desapareceu como por encanto e, em vez dela, surgiu, sem que ele prprio desse por isso, um tom de bonomia familiar. Passou a mo pela crina do cavalo de Balachov.
      - Pois bem, general, estamos ento em guerra, ao que parece - disse, como se lamentasse uma circunstncia de que se no sentia responsvel.
      - Sire - replicou Balachov - o imperador, meu senhor, no deseja a guerra, como Vossa Majestade pode verificar. - Para o que desse e viesse, Balachov resolvera tratar Murat por Majestade, evidente despropsito, visto que se dirigia a algum para quem esse ttulo constitua uma novidade.
      O rosto do rei de Npoles todo se abriu numa estpida satisfao enquanto lhe dirigia a palavra Monsieur de Balachoff. Mas, realeza obriga, teve de reconhecer ser indispensvel abordar negcios de Estado com o enviado de Alexandre, uma vez que era rei e aliado. Desmontando, pegou no brao de Balachov, afastou-se alguns passos da comitiva, que aguardava numa atitude respeitosa, e ps-se a passear com ele de um lado para o outro, procurando imprimir autoridade s mais pequenas palavras que pronunciava. Lembrou que o imperador Napoleo ficara ofendido com o pedido que lhe fora dirigido no sentido de retirar as suas tropas da Prssia, sobretudo porque essa intimao fora divulgada por toda a parte, ferindo assim a dignidade da Frana.
      Balachov replicou-lhe no haver a mais pequena ofensa num tal pedido, uma vez que.- Murat interrompeu-o.
      - Com que ento, na sua opinio, o instigador no  o imperador Alexandre? - exclamou, de chofre, com o seu estpido sorriso bonacheiro.
      Balachov explicou-lhe porque entendia ser, de facto, Napoleo o causador da guerra.
      - Eh!, meu querido general - interrompeu de novo Murat -, desejo de todo o corao que os imperadores cheguem a um acordo e que esta guerra de que eu no sou responsvel ter- mine o mais cedo possvel. - Dizendo o que, assumiu o tom dos criados que conversam entre si, querendo continuar bons amigos, embora os amos andem desavindos.
      Em seguida quis saber como ia de sade o gro-duque, recordando os agradveis momentos que haviam passado juntos em Npoles.
      E de sbito, como se se tivesse lembrado da sua dignidade real, empertigou-se majestosamente, tomou a atitude que assumira por altura da coroao e com um gesto da mo direita:
      - No o retenho mais, general, e desejo-lhe o xito da sua misso - exclamou, e, resplandecente no seu manto vermelho bordado a ouro, as plumas do chapu a esvoaar, as jias faiscantes, encaminhou-se ao encontro da comitiva que o aguardava respeitosamente.
      Balachov prosseguiu o seu caminho, supondo, de acordo com o que lhe dissera Murat, que no tardaria a encontrar-se na presena de Napoleo. Mas, em vez disso, as sentinelas do corpo de infantaria de Davout detiveram-no ainda na localidade prxima, como acontecera na primeira linha, e um ajudante-de-campo conduziu-o  aldeia,  presena do marechal Davout.
      

      
      
      
      Captulo V
      
      Davout era o Araktcheiev do imperador Napoleo, Araktcheiev em tudo menos na covardia, como ele meticuloso e cruel e incapaz de provar a dedicao que tinha ao amo de outra maneira que no fosse pela crueldade.
      Nas engrenagens de um Estado, homens assim so to necessrios como os lobos na natureza. Existem sempre, aparecem sempre e mantm-se, por mais absurda que a sua presena possa parecer, junto do chefe do Estado ou na sua intimidade. Graas  fatalidade desta lei se pode explicar que este cruel Araktcheiev, habituado a arrancar com as prprias mos os bigodes aos granadeiros, e de resto incapaz, por fraqueza nervosa, de enfrentar o menor perigo, que este homem sem cultura e sem educao tivesse podido manter uma tal influncia sobre a natureza nobre, cavalheiresca e doce de um Alexandre.
      Balachov encontrou o marechal Davout na isb de um aldeo, sentado num barril e ocupado a verificar umas contas. A seu lado, de p, estava um ajudante-de-campo. Ter-lhe-ia sido possvel arranjar uma instalao mais prpria, mas Davout pertencia ao nmero dos homens que gostam de viver nas mais difceis condies de vida para terem o direito de se conservar tristes e severos. E  por isso tambm que tais homens andam sempre apressados e esmagados com trabalho. Como se h-de pensar nas coisas agradveis da vida quando, como vocs esto a ver, uma pessoa tem de sentar-se em cima de um barril numa isb srdida, sempre que precisa de trabalhar? Eis o que parecia ler-se-lhe na cara. O maior prazer, a necessidade capital destas pessoas quando em presena de algum contente de viver  atirar-lhes  cara o seu trabalho obstinado e taciturno. Eis a satisfao que sentiu Davout com a chegada de Balachov. Ainda mais se enfronhou nas suas contas ao ver aparecer o general russo, e, depois de lanar um olhar por cima das lentes quela figura animada pela corrida matinal e a conversa que tivera com Murat, sem se erguer, sem fazer um movimento, ainda franziu mais as sobrancelhas, com um sorriso mau.
      Vendo a impresso desagradvel que o acolhimento provocava no recm-chegado, acabou por levantar a cabea e perguntar-lhe friamente o que desejava.
      Como Balachov s podia atribuir aquela recepo ao facto de Davout ignorar a sua dupla qualidade de general ajudante-de-campo e de enviado, junto de Bonaparte, do imperador Alexandre, tratou de declinar a sua identidade e de enunciar o objectivo da sua misso. Ao contrrio, porm, do que esperava, Davout ainda se mostrou mais rude e severo.
      - Onde est a sua mensagem? - interrogou ele. - D-ma, que eu envio-a ao imperador.
      Balachov replicou que recebera ordens para a entregar pessoalmente ao imperador.
      - As ordens do seu imperador s tm curso no exrcito dele; aqui o senhor tem de fazer o que se lhe diz.
      E, como que para fazer compreender ao general russo que estava na dependncia de uma fora brutal, mandou um ajudante-de-campo procurar o oficial de servio.
      Balachov sacou do invlucro que continha a carta do imperador e pousou-o em cima da mesa, a qual era formada por uma porta donde pendiam ainda os gonzos, assente sobre dois barris. Davout pegou no sobrescrito e leu o endereo.
      -  consigo tratar-me ou no com respeito - disse Balachov -, mas permita que lhe observe que tenho a honra de pertencer ao nmero dos generais ajudantes-de-campo de Sua Majestade.
      Davout olhou-o sem dizer palavra e a irritao que se lia no rosto do oficial russo foi para ele evidente motivo de satisfao.
      - Ser tratado com as honras devidas - replicou, e, metendo a mensagem na algibeira, saiu da cabana.
      Um minuto mais tarde entrou o ajudante-de-campo do marechal, o Sr. De Castries, que conduziu Balachov ao alojamento que lhe fora destinado.
      Balachov jantou nesse dia com o marechal, na choupana, em cima da mesa de barris.
      No dia seguinte Davout partiu logo de madrugada, depois de haver convocado Balachov e de lhe ter ordenado que permanecesse onde estava, que apenas se afastasse com o comboio, no caso de este receber instrues para se deslocar, e que no falasse fosse com quem fosse,  excepo de Castries.
      Depois de quatro dias de tdio e solido, agravados pelo sentimento de sujeio e de impotncia, tanto mais impressionantes para ele quanto acabava de abandonar um meio onde era todo poderoso, aps vrias etapas com as bagagens pessoais do marechal e as tropas francesas que ocupavam toda a regio, Balachov entrou em Vilna, ento ocupada pelos Franceses, pela mesma porta da cidade por onde havia sado quatro dias antes.
      No dia seguinte, o camareiro do imperador, Monsieur de Turenne, veio anunciar-lhe que o imperador Napoleo lhe concedia uma audincia.
      Quatro dias antes, sentinelas do regimento de Preobrajenski estavam de guarda  porta da casa onde conduziram Balachov; no lugar delas, agora, havia dois granadeiros franceses, de uniforme azul com largas bandas e barretinas de plo, uma escolta de hssares e de ulanos, uma brilhante comitiva de ajudantes-de-campo, pajens e, generais, que aguardavam a sada de Napoleo  roda do cavalo do imperador, mantido pela arreata pelo mameluco Roustan. Napoleo recebeu Balachov na mesma casa de Vilna em que Alexandre lhe entregara a mensagem.
      

      
      
      
      Captulo VI
      
      Embora Balachov estivesse muito habituado s magnificncias da corte, o luxo e o fausto da de Napoleo impressionaram-no.
      O conde de Turenne introduziu-o numa grande antecmara onde esperavam muitos generais, camareiros e magnates polacos, a maior parte dos quais ele vira j na Rssia. Duroe veio anunciar que Napoleo receberia o general russo antes do passeio habitual,
      Aps alguns minutos de espera, apareceu o camareiro de servio, que, com uma polida reverncia a Balachov, o convidou a segui-lo.
      Balachov entrou numa salinha cuja porta dava para um gabinete, para esse mesmo gabinete em que recebera as ltimas ordens do imperador da Rssia. Esperou dois ou trs minutos. Atrs da porta ouviram-se passos precipitados. Os dois batentes foram bruscamente abertos, toda a gente se calou, e novos passos firmes e enrgicos ressoaram no gabinete: era Napoleo. Acabava de vestir-se para o seu passeio a cavalo, Envergava um uniforme azul, cujas bandas abertas deixavam ver o colete branco que lhe moldava a rotundidade do ventre, e cales brancos tambm cingindo-lhe as coxas gordas e as curtas pernas metidas em botas altas, de montar. Via-se que acabara de pentear os cabelos curtos, mas uma madeixa se lhe derramava pela ampla testa. O branco e anafado pescoo ressaltava da gola negra do uniforme; rescendia a gua-de-colnia. Em seu rosto cheio, ainda novo, de queixo proeminente, pintava-se a benevolncia e a majestade de um acolhimento imperial.
      Entrou apressado, uma espcie de estremecimento nervoso a cada passo que dava, a cabea ligeiramente atirada para trs. Toda a sua figura, repleta e curta, de ombros largos e espessos, o ventre e o arcabouo do peito fugindo-lhe para avante, davam-lhe esse aspecto representativo e imponente prprio dos quarentes que sempre viveram vida folgada. E, depois, via-se que nesse dia estava muito bem disposto.
      Com uma ligeira inclinao de cabea respondeu  profunda e respeitosa saudao de Balachov, depois aproximou-se dele e imediatamente se ps a falar como um homem para quem todos os minutos so preciosos, que no se d sequer ao trabalho de preparar os seus discursos, persuadido de que dir sempre o que  preciso.
      - Bons dias, general! - exclamou. - Recebi a carta, que me trouxe, do imperador Alexandre e tenho muito prazer em v-lo. - Fitou Balachov com os seus grandes olhos, desviando-os, porm, imediatamente.
      Era evidente que a personalidade de Balachov o no interessava: o que tinha interesse para ele era o que se passava na sua prpria alma. Tudo o que lhe era exterior no tinha qualquer importncia, uma vez que no mundo - pensava ele - tudo dependia da sua vontade.
      - No desejo, nem desejei a guerra - disse ele. - Obrigaram-me a faz-la. E mesmo agora - acrescentou, acentuando estas palavras - estou pronto a aceitar todas as explicaes que me possa dar.
      E ps-se a expor, pormenorizadamente, as causas do seu descontentamento em relao ao Governo russo. Graas ao tom tranquilo, moderado e at mesmo amistoso que tomou ento, Balachov persuadiu-se de que na verdade ele desejava a paz e estava disposto a entabular negociaes.
      - Sire!... O imperador, meu senhor... - tentou dizer Balachov, quando Napoleo, que se calara, o interrogou com o olhar.
      O russo trazia preparado o seu discurso, mas aqueles olhos fitos nele desorientaram-no. Est perturbado, calma, parecia dizer Napoleo, que examinava, com um imperceptvel sorriso nos lbios, o uniforme e a espada de Balachov.
      Este, serenando, continuou. Disse que o imperador Alexandre no considerava casus belli suficiente o pedido de passaportes de Kurakine, que este agira por iniciativa prpria, sem conhecimento do monarca, que Alexandre no queria a guerra e no assinara qualquer pacto com a Inglaterra.
      - Ainda no - interveio Napoleo, mas, receoso de se deixar arrastar pelos seus sentimentos, franziu as sobrancelhas e baixou ligeiramente a cabea, dando a entender a Balachov que podia continuar.
      Exposto que foi quanto lhe fora ordenado que dissesse, Balachov concluiu que o imperador Alexandre desejava a paz, porm que s entabularia negociaes com a condio de... Neste ponto hesitou: lembrava-se das palavras que Alexandre no escrevera na sua carta mas que ordenara fossem introduzidas, sem esquecimento, no seu rescrito a Saltikov e que ele fora encarregado de repetir textualmente a Napoleo. Lembrava-se das palavras: ... enquanto houver um s inimigo em armas sobre a terra russa, mas um sentimento muito complexo reteve-lhe a frase, prestes a escapar-lhe, Foi-lhe impossvel pronunci-la, embora o desejasse. Acrescentou: - Com a condio de que as tropas francesas se retirem para o outro lado do Nimen.
      Napoleo dera-se conta da perturbao de Balachov no momento de pronunciar estas palavras: o rosto estremeceu-lhe e os msculos da barriga da perna esquerda tremeram-lhe. Sem se mover do stio em que estava, mas em voz mais alta e mais precipitada, ps-se a falar. Durante todo o discurso que se seguiu, Balachov, sempre que baixava os olhos, reparava, sem querer, no tremor da barriga da perna esquerda de Napoleo, que se ia acentuando  medida que o soberano levantava a voz.
      - No desejo menos a paz que o imperador Alexandre - principiou ele. - No fui eu quem durante dezoito meses fez tudo para a conseguir? H dezoito meses que espero explicaes. E que exigem de mim para entabular negociaes? - acrescentou, franzindo o sobrolho e fazendo um gesto enrgico com a pequena mo branca e anafada.
      - A retirada das tropas para o outro lado do Nimen, Majestade - disse Balachov.
      - Para o outro lado do Nimen? - repetiu Napoleo. - Ento agora querem que eu retroceda para l do Nimen? - insistiu, fitando Balachov nos olhos.
      Este inclinou respeitosamente a cabea.
      Em vez de lhe exigirem, como quatro meses antes, a evacuao da Pomernia, agora apenas lhe pediam a retirada para o outro lado do Nimen. Napoleo voltou as costas, num movimento brusco, e ps-se a andar de um lado para o outro.
      - Com que ento, exigem de mim que retire para o outro lado do Nimen para entabular negociaes? Mas h dois meses queriam que me retirasse para o outro lado do der e do Vstula, e apesar disso esto prontos agora a entabular negociaes.- Percorreu a sala em silncio de um extremo ao outro, depois deteve-se novamente diante de Balachov. Este notou que a barriga da perna esquerda do imperador ainda tremia mais e que a sua mscara se havia como que petrificado numa expresso severa. Napoleo conhecia esta sua particularidade: A vibrao da barriga da perna esquerda , em mim, um grande sinal, costumava dizer.
      - Proposta como essa, o abandono do der e do Vstula,  para fazer ao gro-duque de Baden, no a mim - exclamou, de sbito, com uma violncia que o surpreendeu a ele prprio. Mesmo que me oferecessem Petersburgo e Moscovo, no aceitaria as vossas condies. Dizem os senhores que eu principiei esta guerra! Mas quem primeiro concentrou as suas tropas? O imperador Alexandre e no eu. E vem o senhor falar-me de negociaes quando eu j gastei milhes, quando sois aliados de Inglaterra e a vossa situao  m. Propem-me negociaes? Mas qual o objectivo da vossa aliana com a Inglaterra? Que vos deu Ela? - Falava precipitadamente; via-se que o seu discurso no tentava mostrar as vantagens da paz e discutir a viabilidade desta, mas apenas demonstrar quer o seu direito, quer a sua fora e provar os erros e as faltas de Alexandre.
      Quando principiara a falar, tinha por finalidade, evidentemente, chamar a ateno para as vantagens da sua situao e que apesar de tudo aceitava as negociaes. Mas agora, quanto mais falava menos senhor era das suas palavras.
      - Diz-se que assinaram a paz com os Turcos?
      Balachov inclinou a cabea afirmativamente.
      - A paz foi assinada... - principiou.
      Mas Napoleo cortou-lhe a palavra. Havia nele uma necessidade imperiosa de monologar, e prosseguiu com essa eloquncia irritada e essa intemperana de linguagem prpria, s vezes, das pessoas favorecidas pela sorte.
      - Sim, bem sei, assinaram a paz com os Turcos sem terem conseguido nem a Moldvia nem a Valquia. E eu teria dado essas provncias ao seu imperador, da mesma maneira que lhe ofereci a Finlndia. Sim  continuou - prometera e daria ao imperador Alexandre a Moldvia e a Valquia, mas a verdade  que essas belas provncias lhe fugiram das mos. E no entanto teria podido anex-las ao seu imprio e sob o seu reinado a Rssia alargar-se-ia do golfo de Btnia at s embocaduras do Danbio. Nem a grande Catarina faria mais. -  medida que falava ia ficando mais exaltado.
      De um lado para o outro, na sala, repetia a Balachov, quase palavra por palavra, o que dissera na entrevista de Tilsitt. - E teria tido tudo isso devido  minha amizade. Ah, que belo reino, que belo reino! - Repetiu vrias vezes estas palavras, parou, tirou da algibeira uma caixa de rap, de ouro, e sorveu avidamente uma pitada.
      - Que belo reino poderia ter sido o do imperador Alexandre!
      Olhou para Balachov com ar de compaixo e, como este ia dizer qualquer coisa, interrompeu-o:
      - Que pode ele desejar e procurar que eu lhe no pudesse oferecer com a minha amizade?... - pronunciou, encolhendo os ombros. - E pensou que seria melhor rodear-se dos meus inimigos, e que inimigos? Chamou para junto de si os Stein, os Armfeld, os Bennigsen, os Wintzengerode. Stein, um traidor expulso do seu pas, Armfeld, um libertino e um intriguista, Wintzengerode, um sbdito francs foragido, Bennigsen, um pouco mais militar que os outros, mas to inepto como eles, que no foi capaz de fazer fosse o que fosse em 1807 e cujo nome deve despertar no imperador Alexandre tremendas recordaes... Se eles prestassem para alguma coisa, vamos, podiam ser teis - prosseguiu Napoleo, cuja palavra dificilmente lhe obedecia, tantos os argumentos que lhe acorriam para demonstrar o seu direito e a sua fora, a seus olhos, afinal, uma e a mesma coisa. - No, para nada prestam, nem na guerra nem na paz! Barclay, segundo dizem,  o mais esperto deles todos, mas eu no sou dessa opinio, a julgar pelos seus primeiros passos. E eles que fazem? Que fazem todos estes cortesos? Pfuhl prope, Armfeld discute, Bennigsen examina. Quanto a Barclay, chamado para agir, no sabe por onde comear. E o tempo vai passando sem nada acontecer de novo, Militar s Bagration.  estpido, mas tem experincia, golpe de vista e deciso... E que papel desempenha o vosso jovem imperador no meio dessa massa amorfa? Comprometem-no e fazem pesar sobre ele a responsabilidade de tudo. Um soberano s deveria encontrar-se  frente do exrcito quando fosse general - concluiu Bonaparte, como se estas palavras fossem uma provocao directa ao czar. Ele bem sabia que Alexandre tinha o sonho de ser um grande capito.
      - H oito dias que a campanha principiou e os senhores no souberam defender Vilna. O exrcito russo est cortado em dois e foi expulso das provncias polacas. As tropas rebelam-se.
      - Perdo, Majestade - interrompeu Balachov, que, com dificuldade, apreendia aquela torrente de palavras - Pelo contrrio, as tropas ardem em desejos...
      - Sei tudo - interrompeu Napoleo. - Sei tudo e o nmero dos vossos batalhes to bem como dos meus. Os senhores nem duzentos mil homens tm em armas e eu tenho mais do triplo. Dou-lhe a minha palavra de honra -  acrescentou, esquecendo-se de que esta sua garantia no podia ser tomada a srio -, dou-lhe a minha palavra de honra que tenho quinhentos e trinta mil homens deste lado do Vstula. Os Turcos no os podem ajudar: para nada prestam, e mostraram-no bem quando assinaram a paz convosco. Os Suecos, esses esto predestinados a ser governados por loucos. Tinham um rei louco: mudaram de rei e arranjaram outro, Bernadotte, que logo enlouqueceu tambm, pois  preciso estar doido para, sendo sueco, assinar uma aliana com a Rssia.
      Napoleo sorriu malevolamente e sorveu mais uma pitada de rap. Cada frase sua sugeria uma rplica a Balachov, que gesticulava, como se fosse pedir a palavra. Napoleo, porm, interrompia-o sempre.
      A propsito da pretensa loucura dos Suecos queria dizer que a Sucia se transformava numa ilha, com a Rssia por detrs dela, mas Napoleo vociferava, para lhe abafar a voz. Estava nesse estado de irritao em que as pessoas tm necessidade de falar, de falar, de falar sempre, apenas para provarem a si prprias terem razo. A situao de Balachov era penosa.
      Como embaixador, receava comprometer a sua dignidade e sentia dever apresentar objeces; como homem, encolhia-se moralmente perante os excessos de ira sem causa a que o imperador se entregava. Sabia que aquela torrente de palavras no tinha grande importncia, que Napoleo, quando voltasse a si, seria o primeiro a envergonhar-se do que dissera. Conservava-se diante dele com os olhos baixos, observando as grossas pernas do imperador e procurando evitar-lhe o olhar.
      - Que importam, no fim de contas, todos os vossos aliados? - dizia este. - Tambm os tenho, os Polacos: oitenta mil homens que se batem como lees. E no tarda que sejam duzentos mil.
      E indignado, provavelmente por ter a conscincia de estar a mentir e da atitude de Balachov, o qual, dando a impresso de resignado perante a sua sorte, no dizia palavra e se mantinha sempre na mesma atitude, voltou-se bruscamente, veio colocar-se  frente do seu interlocutor e, com violentos gestos das suas mos brancas, quase gritou:
      - Fique sabendo que, se levantarem a Prssia contra mim, eu apag-la-ei do mapa da Europa.
      Estava plido e desfigurado - pela ira e uma das suas pequenas mos sobre a outra simulava o gesto de apagar.
      - Sim, f-los-ei retroceder para l do Dvina, para l do Dniper e restabelecerei contra vs essa barreira que a Europa, cega e criminosa, permitiu que desaparecesse. Sim, eis o que vos espera, eis o que ganharam afastando-se de mim - concluiu. Depois, em silncio, deu alguns passos, os largos ombros agitados por movimentos nervosos.
      Guardou a caixa do rap na algibeira do colete, voltou a tir-la, levou-a vrias vezes s narinas e de novo veio postar-se diante de Balachov. Calado, por momentos, olhou ironicamente nos olhos o general russo, dizendo em voz serena:
      - E no entanto que belo reino poderia ter sido o do seu senhor!
      Balachov, sentindo ser preciso objectar fosse o que fosse, disse que da parte dos Russos as coisas no se apresentavam sob um aspecto to ttrico. Napoleo continuou calado, olhando-o sempre com a mesma ironia, naturalmente sem o ouvir. Balachov acrescentou que na Rssia se esperavam ptimos resultados da guerra. Napoleo abanou a cabea, condescendente- mente, como a dizer-lhe:
      Bem sei, falas assim por obrigao, mas nem tu prprio acreditas no que ests a dizer. Convenci-te.
      No fim da tirada de Balachov, Napoleo puxou de novo da caixa de rap, tomou outra pitada, e, como se fizesse um sinal, bateu duas vezes com o p no cho. A porta abriu-se; um camareiro, respeitosamente vergado pela cintura, entregou ao imperador o chapu e as luvas, outro ps-lhe na mo o leno de assoar. Napoleo, sem lhes prestar a mnima ateno, voltou-se para Balachov:
      - Assegure, em meu nome, ao imperador Alexandre - disse, pegando no chapu -, que continuo a ter por ele a mesma devoo de sempre: conheo-o e aprecio altamente as suas grandes qualidades. No continuo a ret-lo, general, receber a minha carta para o imperador.
      E Napoleo encaminhou-se rapidamente para a porta. Todos os que estavam na sala de espera se precipitaram para a escada.
      

      
      
      
      Captulo VII
      
      Depois de tudo o que Napoleo lhe dissera, dos seus arrebatamentos colricos e das suas ltimas palavras secas em extremo: No o retenho mais, general, receber a minha carta dirigida ao imperador, Balachov persuadiu-se de que o imperador no s no tinha o mais pequeno desejo de o tornar a ver, mas at evitaria mesmo voltar a encontr-lo, a ele, embaixador humilhado, e sobretudo testemunha da sua intempestiva exaltao. Mas, com grande espanto seu, foi convidado por Duroe, nesse mesmo dia, para sentar-se  mesa do imperador.
      Bessires, Caulaincourt e Berthier eram tambm convivas do jantar.
      Napoleo recebeu Balachov alegre e afavelmente. No s no deu mostras de molestado ou arrependido pelo que se passara nessa manh, mas, muito pelo contrrio, procurou por o seu hspede perfeitamente  vontade. Era evidente de h muito estar convencido de que no podia enganar-se e que aos seus prprios olhos tudo quanto ele prprio fizesse estaria bem feito, no porque os seus actos estivessem de acordo com a ideia que ele tinha do bem e do mal, mas simplesmente por ser ele o autor de tais actos.
      Voltara muito alegre do seu passeio a cavalo pelas ruas de Vilna, onde a multido o acolhera e aclamara com entusiasmo. Todas as janelas das casas nas ruas que ele atravessara ostentavam colgaduras e bandeiras com as suas armas e as senhoras polacas haviam-no saudado agitando os lencinhos.
      A mesa sentou Balachov a seu lado e no s o tratou amavelmente, mas como se fosse um dos seus cortesos, como se pertencesse ao nmero dos que aprovavam os seus planos e deviam alegrar-se com os seus xitos. Entre outras coisas, veio  fala Moscovo, e Bonaparte interrogou-o acerca da capital, ao mesmo tempo como um viajante, desejoso de se instruir, que colhe informaes sobre um pas desconhecido que deseja visitar, mas tambm com a convico de que Balachov, russo que era, se sentiria muito lisonjeado com esse interesse.
      - Quantos habitantes tem Moscovo? Quantas casas?  verdade que lhe chamam Mouscou la sainte? Quantas igrejas tem? - perguntou.
      E, ao ouvir que mais de duzentas, observou:
      - Para qu tantas igrejas?
      - Os Russos so muito tementes a Deus - replicou Balachov.
      - Convm notar que grande nmero de conventos e de igrejas  sempre sinal de atrasada civilizao - disse o imperador, procurando a aprovao de Caulaincourt.
      Balachov, respeitosamente, ousou exprimir opinio contrria. 
      - Cada terra com seus usos - disse.
      - Mas nada h na Europa que se parea com isso - voltou Napoleo.
      - Que Vossa Majestade me perdoe - tornou o russo -, mas, alm da Rssia, h a Espanha tambm, onde existem, igualmente, muitos conventos e igrejas.
      Esta resposta, aluso  recente derrota dos Franceses em Espanha, foi muito apreciada na corte da Rssia quando Balachov aludiu a ela, mas no produziu o mais pequeno efeito na mesa de Napoleo, onde passou despercebida.
      Via-se na indiferena das mscaras atentas dos senhores marechais que eles no haviam apreendido o sal da resposta, bem sublinhado pela entoao de Balachov. Se isso levava gua no bico, no demos por tal, o que quer dizer que graa nenhuma tem, pareciam dizer.
      To bem apreciada foi tal resposta que Napoleo lhe no prestou qualquer ateno e se limitou a perguntar a Balachov quais as cidades atravessadas pela estrada directa para Moscovo. Balachov, sempre de sobreaviso, respondeu que assim como todos os caminhos levavam a Roma, todos os caminhos levavam a Moscovo, que, alis, eram muitas as estradas e que no nmero delas se contava a que passava por Poltava, escolhida por Carlos XII. Balachov corou involuntariamente, satisfeito com resposta to feliz. Mas ainda no acabara de pronunciar o nome de Poltava j Caulaincourt falava dos incmodos da estrada de Petersburgo a Moscovo e das suas recordaes da capital.
      Depois do jantar foram tomar caf para o gabinete de Napoleo, o qual, quatro dias antes, pertencera ao imperador Alexandre.
      Bonaparte sentou-se, mexendo o seu caf numa chvena de Svres, e apontou a Balachov uma cadeira a seu lado.
      Depois do jantar o homem est sempre numa disposio bem conhecida, a qual, mais persuasiva que qualquer razo lgica, o leva a sentir-se satisfeito consigo mesmo e disposto a no ver seno afeies  sua roda. O imperador estava nessa feliz disposio. Imaginava-se rodeado de amigos que o adoravam. Estava convencido de que o prprio Balachov, depois daquele jantar, tambm era seu amigo e admirador. Observou-lhe com um sorriso amvel e ligeiramente trocista:
      - Disseram-me que o imperador Alexandre ocupava esta mesma sala,  curioso, no acha, general? - No lhe passou pela cabea que esta observao no podia agradar ao seu interlocutor, visto ser uma prova da sua superioridade, dele, Napoleo, sobre Alexandre.
      Balachov, como no podia responder, limitou-se a inclinar a cabea silenciosamente.
      - Sim, h quatro dias, discutiam nesta mesma sala Wintzengerode e Stein - continuou Napoleo, sempre com um sorriso trocista e seguro de si. - Eis o que eu no posso perceber, que e imperador Alexandre se haja rodeado de todos os meus inimigos pessoais.  o que eu no posso compreender... No teria ele pensado que eu poderia vir a fazer o mesmo? - Formulando a pergunta, a Balachov, sentia-se, evidentemente, arrastado pela ira que o tomara nessa manh, recordao bem presente no seu esprito.
      - Pois  bom que ele saiba que o farei - acrescentou, levantando-se e afastando de si a chvena. - Enxotarei da Alemanha toda a sua parentela, os Wurtemberg, os Bade, os Weimar.... sim, correrei com eles. Trate de lhes arranjar refgio na Rssia!
      Balachov abanou a cabea, dando a entender que desejava retirar-se e que no ouvia semelhantes consideraes seno por lhe ser impossvel proceder doutra maneira. Napoleo no dera por coisa alguma; continuou a tratar Balachov no como um enviado do seu inimigo, mas como um homem agora absolutamente dedicado e que devia sentir-se contente com a humilhao infligida ao seu antigo amo.
      - Porque assumiu o imperador Alexandre o comando dos seus exrcitos? Que significa isso? A guerra  o meu mister, o dele  reinar, no comandar as tropas. Para que assumiu ele uma tal responsabilidade?
      Bonaparte tornou a puxar da caixa de rap, deu alguns passos em silncio e de repente abeirou-se de Balachov. Com um ligeiro sorriso, num gesto firme, pronto e simples, como se executasse um acto no s importante, mas em extremo lisonjeiro para o general russo, aproximou a mo do rosto daquele homem de quarenta anos e puxou-lhe ao de leve uma orelha.
      Receber um puxo de orelhas do imperador era considerado na corte de Frana uma grande honra e uma alta merc.
      - Ento, no diz nada, admirador e corteso do imperador Alexandre? - pronunciou, ele, como se houvesse qualquer coisa de divertido de na sua presena ser-se corteso e admirador de outro homem que no ele, Napoleo. - Os cavalos para o general esto prontos? - acrescentou, respondendo com um aceno de cabea  saudao de Balachov. - Dem-lhe os meus, tm muito que andar.
      A carta que Balachov levou consigo seria a ltima que Napoleo escreveria a Alexandre. Todos os pormenores da precedente conversa foram transmitidos ao imperador russo e a guerra principiou.
      

      
      
      
      Captulo VIII
      
      Depois da sua conversa em Moscovo com Pedro, o prncipe Andr dirigiu-se a Petersburgo para tratar de negcios, dissera ele  famlia, mas em verdade para se encontrar com Anatole Kuraguine, encontro que ele considerava indispensvel. Procurou logo informar-se do paradeiro deste, mas Kuraguine j no estava em Petersburgo, Pedro fizera saber ao cunhado que Andr o procurava. Anatole obtivera imediatamente do ministro da Guerra uma comisso e partira a incorporar-se no exrcito da Moldvia. Em Petersburgo, o prncipe Andr encontrou Kutuzov, seu antigo general, sempre muito bem disposto a seu favor. Props-lhe que fosse com ele para o Moldvia, de cujo exrcito o velho general fora nomeado comandante-chefe. Andr, nomeado adido ao estado-maior do quartel-general, partiu para a Turquia.
      O prncipe considerava inconveniente escrever a Kuraguine desafiando-o para um duelo. Achava que desafi-lo sem alegar um pretexto plausvel seria, da sua parte, comprometer a condessa Rostov; por isso procurava encontr-lo pessoalmente, o que lhe proporcionaria a oportunidade desejada. Mas tambm no encontrou Kuraguine no exrcito da Turquia; este mal soubera da chegada de Andr regressara  Rssia. Naquele pas desconhecido e nas suas novas condies de existncia a vida pareceu-lhe mais fcil. Depois da traio da noiva, tanto mais penosa para ele quanto mais procurava esconder o desgosto que sofrera, o meio em que fora feliz tornara-se-lhe insuportvel e a liberdade e a independncia, que to caras lhe eram, ainda mais penosas. No voltara ao estado de esprito que se apoderara dele pela primeira vez diante do cu de Austerlitz e s ideias que tanto gostava de discutir com Pedro e as quais lhe haviam enchido a solido de Bogutcliarovo e, depois, da Sua e de Roma. Receava mesmo tornar a evoc-las, a essas ideias, que lhe abriam horizontes luminosos e infinitos. Agora no se ocupava de mais nada seno de interesses prticos imediatos, sem relao com os de outrora, e punha nisso tanto maior ardor quanto mais distantes lhe ficavam as antigas ideias. Dir-se-ia que a abbada do cu perdida no infinito que tivera por cima da cabea se transformara de sbito numa abbada baixa, limitada, que o esmagava, e tudo era ntido e claro, sem nada j de misterioso e etcrno.
      De todas as ocupaes a que podia consagrar-se, o servio militar era a mais simples e a mais familiar. Nas suas funes de adido ao estado-maior de Kutuzov ocupou-se com perseverana e zelo do seu mister, surpreendendo o chefe com o af e a pontualidade do seu trabalho. No topou com Kuraguine na Turquia, julgou desnecessrio ir atrs dele para a Rssia, o que o no impediu de dizer de si para consigo que, apesar do tempo que passara j, se viesse a encontrar Anatole, no obstante o desprezo que tinha por ele e as razes que alegava para o julgar indigno de se bater consigo, consideraria indispensvel, no entanto, desafi-lo, pela mesma razo que um esfomeado que v um prato de sopa no pode deixar de se atirar a ele. E o certo  que o sentimento de que a ofensa que recebera ainda no fora vingada, que a sua ira ainda no extravasara, continuando entranhada no fundo do seu corao, lhe envenenava a calma fictcia que criara na Turquia graas a uma actividade cheia de zelo e preocupaes e de certa ambio e vaidade.
      Quando, em 1812, chegou a Bucareste, onde, havia dois meses, Kutuzov passava os dias e as noites em casa de uma amante valquia, a notcia da guerra com Napoleo, o prncipe Andr pediu licena para ser transferido para o exrcito do Ocidente. Kutuzov, a quem o zelo de Bolkonski ofuscava, como uma censura viva  sua indolncia, de muito boa vontade lhe deu consentimento, confiando-lhe uma misso junto de Barclay de Tolly.
      Antes de se juntar ao exrcito, que em Maio estava no acampamento d6 Drissa, Andr passou por Lissia Gori, que ficava no seu caminho, a trs verstas da estrada real de Smolensk. Naqueles trs ltimos anos houvera tantas modificaes na sua vida, tantas revolues nas suas ideias e nos seus sentimentos, vira tantas coisas nas suas viagens no Ocidente e no Oriente, que, ao chegar a Lissia Gori, sentiu uma impresso estranha verificando que a vida ali se mantinha imutvel nos seus mais pequenos pormenores. Entrou na alameda e transps o prtico de pedra da residncia como se entrasse num castelo encantado. Sempre o mesmo alinho, o mesmo asseio, a mesma serenidade em casa: os mveis eram os mesmos, as mesmas paredes; os rudos os mesmos; o mesmo cheiro, as mesmas caras tmidas, embora um pouco envelhecidas. A princesa Maria a mesma, j no muito nova, feia e medrosa, vivendo continuamente em terrores e transes morais e assim passando os melhores anos da sua existncia sem utilidade nem alegria. Mademoiselle Bourienne no mudara, apreciando alegremente os mais curtos momentos, fabricando para si prpria as mais belas esperanas, coquette e satisfeita. Apenas adquirira mais segurana em si prpria, assim pensou Andr. O preceptor, Dessalles, que ele trouxera da Sua, vestia um redingote de talho eslavo, mastigava o russo com os criados e era sempre o mesmo pedagogo mediocremente inteligente, mas instrudo, honestssimo e um pouco pedante. O velho prncipe mudara fisicamente apenas nisto: a um canto da boca notava-se que perdera um dente; moralmente estava na mesma. Tornara-se apenas mais irritvel e mais desconfiado de tudo neste mundo. S Nikoluchka crescera, transformara-se, ganhara cores rosadas, e os seus cabelos eram agora castanhos encaracolados, rindo sem saber porqu, divertido com tudo. Soerguia o lbio superior da sua linda boca, tal qual a me, a falecida princesinha. Era o nico que no queria saber da regra imutvel que parecia reinar naquele castelo encantado. Mas, embora as aparncias fossem as mesmas, as relaes ntimas dos habitantes tinham mudado muito desde que Andr partira. Havia dois campos opostos naquela casa, estranhos um ao outro e inimigos, que apenas agora na sua presena se aproximavam, renunciando provisria- mente aos seus hbitos. A um desses campos pertencia o velho prncipe, Mademoiselle Bourienne e o arquitecto; ao outro, Maria. Dessalles, Nikoluchka e todas as criadas e amas.
      Durante a sua estada todos comeram juntos; sentia-se, porm, um mal-estar geral e o prncipe Andr tinha a sensao de ser um hspede a favor de quem se faz uma excepo, e de que a sua presena era um embarao para toda a gente. No primeiro dia,  mesa, sentindo esse embarao, quedou-se silencioso, e o velho prncipe, que notava o seu ar pouco  vontade, mostrou-se igualmente taciturno e silencioso, retirando-se assim que a refeio acabou. Quando, pela noite, Andr o veio ver, e, para o distrair, se ps a contar-lhe a campanha do jovem conde Kamenski, o pai, de repente, principiou a falar da princesa Maria, acusando-a de ser supersticiosa e de no gostar de Mademoiselle Bourienne, em sua opinio a nica pessoa que lhe era verdadeiramente dedicada.
      O velho prncipe assegurou ao filho que se estava doente a culpa era de Maria, pois o atormentava de propsito e o irritava, estragando o prncipezinho com os seus excessos de indulgncia e as suas tolas histrias. Sabia muito bem que atormentava inutilmente a filha, que a vida dela, em tais condies, era muito penosa, mas tambm sabia que no podia impedir-se a si prprio de a atormentar e que ela merecia esse tratamento.
      Por que razo o Andr, dizia de si para consigo, que v tudo isto, no me fala da irm? Naturalmente porque julga que eu sou algum malfeitor ou um velho doido, que, sem motivos, se afastou da filha para se aliar com a francesa? Ento ele no me compreende.  por isso que preciso de lhe explicar,  preciso que ele me entenda. E ps-se a demonstrar as razes por que no podia tolerar o carcter absurdo da filha.
      - Se o pai me no tivesse pedido - volveu Andr, sem olhar para o prncipe, e era a primeira vez em sua vida que se atrevia a censur-lo -, no lhe teria falado no caso, mas, desde que o pai pede a minha opinio, vou dizer-lhe francamente o que penso de tudo isto. Se existe entre o pai e Macha qualquer mal-entendido ou desacordo, no posso de maneira alguma acus-la disso. Pois sei perfeitamente quanto ela lhe quer e quanto o venera. Desde que me pergunta a minha opinio - continuou Andr, irritando-se, o que, de resto, nesses ltimos tempos se lhe tornara habitual -, s lhe direi uma coisa: se h qualquer mal-entendido, a nica culpada  a insignificante dessa mulher, indigna de ser amiga de sua filha.
      O velho, no primeiro momento, no cabia em si de surpreendido, os olhos fitos em Andr, mostrando, com um sorriso forado, a falta do dente, coisa a que o filho no conseguira habituar-se.
      - Que amiga  essa, meu caro? Hem! Ests a repetir a lio que aprendeste! Hem!
      - Meu pai, no pretendo ser seu juiz - disse Andr num tom azedo e duro -, mas obrigou-me a isso e eu digo e direi sempre que a princesa Maria no tem culpa, que os culpados... a culpada  essa francesa...  essa francesa...
      - Ah! Tu ests a julgar-me!... Ests a julgar-me! - exclamou o velho, em voz serena, e, assim pareceu a Andr, com um certo embarao. Mas, de sbito, erguendo-se de um salto, gritou: - Fora daqui! Fora daqui! No voltes a pr aqui os ps!...
      
      O prncipe Andr resolveu abalar imediatamente, mas Maria implorou-lhe que ficasse mais um dia, Durante todo esse dia no viu o pai, que no saiu dos seus aposentos nem admitiu ao p de si mais algum alm de Mademoiselle Bourienne e de Tikon. Por vrias vezes perguntou se Andr j partira. No dia seguinte, antes da abalada, o prncipe Andr foi despedir-se do filho. A criana, saudvel e de cabelos encaracolados, como sua me, sentou-se-lhe nos joelhos. O pai ps-se a contar-lhe a histria do Barba- Azul, mas, antes de chegar ao fim, calou-se, pensativo. No era na gentil criana que tinha nos joelhos que pensava, mas em si prprio. Procurava em si mesmo, sem nada encontrar, qualquer coisa que lhe dissesse estar arrependido de ter provocado a ira do pai ou penalizado por se ver obrigado a deix-lo zangado com ele pela primeira vez na sua vida. E o mais importante ainda  que procurava debalde em si mesmo vestgios da sua antiga ternura pelo filho, tentando despert-la acariciando-o e sentando-o nos seus joelhos.
      - Anda! Conta-me o fim - dizia o filho.
      Sem lhe responder, f-lo saltar dos seus joelhos e saiu. Logo que deixava as suas ocupaes quotidianas, sobretudo assim que voltava a sentir-se no meio antigo, em que fora feliz, o tdio da existncia apoderava-se dele to intenso que procurava fugir o mais depressa que podia das suas recordaes, fazendo por encontrar uma ocupao qualquer.
      - Decididamente, vais-te, Andr? - disse-lhe a irm.
      - Louvado seja Deus que me posso ir embora - respondeu-lhe ele- e s lamento no poderes fazer outro tanto.
      - Porque falas assim? - voltou Maria.- Porque falas assim quando partes para essa guerra terrvel e ele  to velho! Mademoiselle Bourienne disse-me que perguntou por ti...
      Maria no podia abordar este assunto sem que a emoo lhe fizesse tremer os lbios e as lgrimas se lhe soltassem dos olhos. O prncipe Andr afastou-se e principiou a passear na sala.
      - Meu Deus, meu Deus! Quando uma pessoa pensa que seres desprezveis podem ser a causa da infelicidade dos outros! - exclamou, com uma raiva que assustou a irm.
      Compreendera que os seres de quem ele falava eram no s Mademoiselle Bourienne, que a fizera infeliz a ela, mas tambm o homem que o fizera infeliz a ele.
      - Andr, s te peo uma coisa, suplico-te - disse-lhe ela, travando-lhe do brao e fitando-o com uns olhos que cintilavam atravs das lgrimas.- Vai, compreendo-te - acrescentou, baixando os olhos.- Mas no penses que so os homens a causa das nossas dores. Os homens no so mais do que os Seus instrumentos. - O olhar de Maria passou por cima da cabea de Andr, como se ela procurasse, confiante, com os olhos, uma imagem familiar no seu lugar habitual.- As dores so-nos enviadas por Ele e no pelos homens. Os homens so instrumentos, no so culpados. Se ests convencido de que algum andou mal contigo, esquece e perdoa. Ns no temos o direito de castigar. Um dia compreenders a felicidade de perdoar.
      - Se eu fosse mulher, assim faria. Perdoar  uma virtude de mulher. Mas o homem no deve nem pode esquecer e perdoar. - Embora at ento no tivesse pensado em Kuraguine, toda a sua clera insatisfeita lhe afluiu subitamente ao corao.
      Se Maria me pede tanto que perdoe  porque h muito que eu o devia ter castigado, disse de si para consigo. E, sem responder  irm, pensou, com uma alegria raivosa, no momento em que encontraria Kuraguine, que sabia no exrcito.
      A princesa Maria ainda suplicou ao irmo que ficasse mais um dia; disse-lhe saber muito bem que o pai sofreria caso ele partisse sem se reconciliarem. O prncipe Andr respondeu-lhe que podia muito em breve estar de volta do exrcito e que no deixaria de escrever ao pai, mas que naquela altura quanto mais tempo ali estivesse mais o seu desentendimento se acentuaria.
      - Adeus, Andr. Recorde-se de que as desgraas provm de Deus e que os homens nunca so culpados. - Tais foram as ltimas palavras que a irm lhe disse no momento da despedida.
      Assim deve ser!, pensava o prncipe Andr ao deixar a alameda de Lissia Gori. Ela, pobre e inocente criatura, aqui vai ficar entregue a este velho meio doido. O velho sabe que  culpado, mas no pode modificar-se. O meu pequeno cresce e sorri  vida, a vida, onde, como todos os outros, vir a enganar ou ser enganado. Eu vou para a guerra, porqu? Nem eu prprio o sei, e s desejo encontrar esse homem que desprezo para lhe dar uma oportunidade de me matar e de se rir de mim! Os elementos de que a sua existncia se compunha no deixavam de seios mesmos, mas antes formavam um conjunto uno e agora iam por gua abaixo,
      E uma srie de vises insensatas e incoerentes se lhe foi representando no esprito.
      

      
      
      
      Captulo IX
      
      O prncipe Andr chegou em fins de Junho ao quartel-general. As tropas do primeiro exrcito, sob o comando do imperador, estavam concentradas no campo fortificado de Drissa, as do segundo recuavam, esforando-se por juntar-se ao primeiro exrcito, de que as separavam, dizia-se, foras francesas muito considerveis. Toda a gente se mostrava descontente com a marcha geral das operaes, mas a ningum passava pela cabea que se pudesse vir a dar uma invaso das provncias russas, ningum mesmo supunha que a guerra pudesse ultrapassar as provncias polacas de oeste.
      O prncipe Andr encontrou Barclay de Tolly, junto do qual fora nomeado adido, estabelecido nas margens do Drissa. Como no havia qualquer casal ou povoado nas imediaes do acampamento, grande nmero de generais ou dignitrios da corte que estavam no exrcito tinha-se espalhado por uma rea de dez verstas em volta, nas melhores casas das aldeias de um lado e outro do rio. Barclay de Tolly alojara-se a quatro verstas do imperador, Acolheu Bolkonski seca e friamente e disse-lhe, com o seu sotaque estrangeiro, que informaria o czar para que se lhe desse algum destino e que entretanto ficaria pertencendo ao seu estado-maior, Anatole Kuraguine, que Andr supunha no exrcito, tambm ali se no encontrava. Estava em Petersburgo, e esta notcia no lhe foi de todo desagradvel.
      Todo o seu interesse se concentrava agora naquela guerra gigantesca e sentia-se feliz por se ver livre por algum tempo do nervosismo que lhe, causava a lembrana de Kuraguine. Durante os primeiros dias, em que ningum lhe perguntou fosse o que fosse, deu-se a percorrer todo o campo fortificado, e, graas aos seus prprios conhecimentos e s conversas que teve com pessoas competentes, tratou de formar uma ideia exacto, da situao militar. Um problema, porm, no foi capaz de resolver: o da utilidade daquela posio, A sua experincia da guerra ensinara-lhe que os planos mais cuidadosamente elaborados pouco valor tm, coisa que pudera verificar por si prprio em Austerlitz, e que tudo depende da maneira como se riposta aos ataques inesperados e imprevisveis do inimigo e da forma como so conduzidas as operaes, bem como da capacidade daqueles que as dirigem. Na inteno de obter pormenores sobre este ltimo ponto, procurou, merc da situao que ocupava e dos conhecimentos que tinha, penetrar o carcter do comando e das pessoas e dos grupos que nele tomavam parte, e acabou por obter do conjunto o quadro seguinte:
      Quando o imperador se encontrava ainda em Vilna, o exrcito achava-se dividido em trs partes: o primeiro exrcito estava sob o comando de Barclay de Tolly o segundo, sob o de Bagration; o terceiro, sob o de Termassov. O imperador encontrava-se junto do primeiro corpo do exrcito, sem, no entanto, desempenhar funes de comandante-chefe. Na ordem do dia dizia-se apenas que ele estava presente, no que o comandava. Alm disso, o imperador, pessoalmente, no tinha junto de si um estado-maior de comandante-chefe, mas o estado-maior do quartel-general imperial.
      Sob as suas ordens tinha o chefe do estado-maior imperial, o general quartel-mestre prncipe Volkonski, generais, ajudantes-de-campo, diplomatas, uma turbamulta de estrangeiros, mas a verdade  que no existia estado-maior do exrcito. Tambm estavam com o czar, sem misso especial: Araktcheiev, o antigo ministro da Guerra, o conde Bennigsen, o general mais antigo da sua patente, o czarevitch, gro-duque Constantino Pavlovitch, o conde Rumiantsov, chanceler. Stein, antigo ministro prussiano. Armfeld, general sueco, Pfuhl, principal organizador do plano de campanha, Paulucci, ajudante-de-campo general e foragido da Sardenha, Woltzogen e muitos outros. Estas personalidades, embora no desempenhassem funes oficiais, exerciam pessoalmente grande influncia, e muitas vezes um comandante de corpo de exrcito e at mesmo o comandante-chefe no sabiam em que qualidade Bennigsen ou o gro-duque, Araktcheiev ou o prncipe Volkonski lhes perguntavam isto ou aquilo ou lhes davam este ou aquele conselho, ignorando se tais observaes provinham do seu comandante ou da parte do imperador, e se era mister ou no execut-las. Tudo isto, alis, no passava de um cenrio. No fundo ningum se enganava sobre o que queria dizer a presena junto do exrcito do imperador e de todas essas personagens, as quais, necessariamente, na intimidade, no passavam, de cortesos.
      O imperador no assumira o ttulo de comandante-chefe, mas na realidade tinha nas mos todos os corpos do exrcito. As pessoas que o rodeavam eram seus colaboradores. Araktcheiev era o fiel mantenedor da ordem e o guarda do corpo do soberano; Bennigsen, grande proprietrio da regio de Vilna, parecia limitar-se a fazer as honras do pas, quando na realidade era um bom general, til no conselho e ptimo para conservar de reserva e substituir Barclay. O gro-duque, esse apenas ali estava porque isso lhe dava prazer. O antigo ministro Stein encontrava-se presente na qualidade de conselheiro e por Alexandre ter em alta estima as suas qualidades pessoais. Armfeld era o inimigo implacvel de Napoleo e um general muito seguro de si prprio, coisa que sempre impressionava o imperador. Paulucci era ousado e enrgico por palavras. Os generais ajudantes-de-campo estavam onde estivesse o imperador, e finalmente, ponto principal, Pfuhl achava-se presente por ser o autor do plano de campanha contra Napoleo, aprovado por Alexandre, que o considerava perfeito no seu conjunto, sendo ele quem na realidade dirigia todas as operaes, Ao lado de Pfuhl, Woltzogen encarregava-se de dar uma forma prtica s ideias deste terico de gabinete, homem violento, cheio de uma tal confiana em si prprio que tinha um soberano desprezo por tudo e todos.
      Alm destas personagens, russas e estrangeiras, principalmente estrangeiras - e estas, com a ousadia caracterstica de todo o indivduo que actua num meio que no  o seu prprio, todos os dias propunham novos planos -, ainda havia muitas mais, homens em posies subalternas, que se encontravam ali por os seus superiores l estarem tambm.
      Entre todas as ideias e opinies que ganhavam corpo no meio daquela massa de gente inquieta, vaidosa e vida de honrarias no tardou que Andr pudesse distinguir correntes bem ntidas, partidos vrios e diversas tendncias.
      O primeiro partido era formado por Pfuhl e os seus apaniguados, tericos convencidos de que existe uma cincia da guerra fiel a leis imutveis, como as do movimento oblquo, do envolvimento do inimigo, etc. Pfuh1 e os seus sequazes preconizavam a retirada para o interior do pas, em virtude de leis estritas, fixadas pela pretensa teoria da guerra, e consideravam qualquer infraco a esta teoria como uma prova de barbrie, de ignorncia ou de m-f. A este partido pertenciam os prncipes alemes, Woltzogen, Wintzengerode, e outros, numa palavra, sobretudo os alemes.
      O segundo partido era diametralmente oposto. Como sempre acontece, pecava por excesso contrrio. As pessoas que dele faziam parte reclamavam a ofensiva na Polnia, a partir de Vilna, e opunham-se a todos os planos traados de antemo. Ao mesmo tempo que defendiam a ousadia na aco encarnavam o esprito nacional. Por isso eram ainda mais intransigentes nas discusses. Eram os russos: Bagration, Ermolov, que ento principiava a elevar-se, e outros ainda. Contava-se ento uma anedota de Ermolov. Dizia-se que ele pedira ao imperador uma nica merc: ser promovido a alemo. Os membros deste partido repetiam, lembrando-se de Suvorov, ser intil conceber lindas teorias e espetar alfinetes num mapa, dizendo que o que era preciso era lutar, vencer o inimigo, no o deixar penetrar na Rssia e no dar tempo a que as tropas se desmoralizassem.
      O terceiro partido, aquele que inspirava mais confiana ao imperador, era formado por cortesos partidrios de combinaes entre as duas tendncias extremas. As pessoas deste partido, pela sua maior parte civis, pensavam e diziam o que geralmente dizem os que no tm convices, embora desejem mostrar-se convencidos de alguma coisa. Eram de opinio de que a guerra, sobretudo com um gnio como Bonaparte (de novo o chamavam assim), exigia combinaes profundas e conhecimentos cientficos e que de tal ponto de vista Pfuhl era um talento. Nem por isso, no entanto, devia deixar de reconhecer-se que os tericos so por vezes exclusivistas, Da que se no depositasse neles uma confiana absoluta. Deviam ouvir-se tambm os adversrios de Pfuhl e o que diziam as pessoas prticas, experimentadas na arte da guerra, preferindo um meio-termo.
      Teimavam na necessidade de se manter a posio do Drissa, de acordo com o plano de Pfuhl, e de modificar o movimento dos demais corpos de exrcito. Embora desta sorte no se alcanasse nem uma nem outra soluo, as pessoas deste partido pensavam ser aquele o caminho mais acertado.
      A quarta tendncia tinha por representante mais saliente o gro-duque herdeiro, que no podia esquecer o desastre de Austerlitz, em que ele se apresentara como numa parada militar,  frente da Guarda, de capacete e plumas, convencido de que num abrir e fechar de olhos esmagaria os Franceses, tendo-se surpreendido de repente nas primeiras linhas, e s com grande dificuldade conseguindo escapar no meio da debandada geral. As pessoas deste partido tinham o mrito e ao mesmo tempo o de- feito de serem sinceras. Temiam Napoleo, reconheciam ser forte e elas fracas e diziam-no s claras. Iam repetindo: De tudo isto no nos vir seno vergonha, desgraa e a derrota! J abandonmos Vilna e Vitehsk, Tambm acabaremos por abandonar Drissa. A nica coisa razovel a fazer  assinar a paz, e o mais depressa possvel, se no quisermos ser expulsos de Petersburgo!
      Esta opinio, muito espalhada nas altas esferas, obtinha eco tambm em Petersburgo e junto do prprio chanceler Rumiantzov, que outrossim sustentava o ponto de vista da paz por razes de Estado.
      O quinto partido agrupava-se em volta de Barclay de Tolly, no tanto pelo seu valor pessoal como pelo facto de ser ministro da Guerra e comandante- chefe. Os membros deste partido diziam: Seja como for (era assim que principiavam sempre),  um homem honesto e activo e no temos melhor. Dem-se-lhe poderes absolutos, pois a guerra no pode ter xito sem unidade de comando, e ele se encarregar de demonstrar do que  capaz, como aconteceu na Finlndia. Se o nosso exrcito  organizado e forte e j pde recuar at ao Drissa sem nenhuma derrota, a Barclay, e s a Barclay, o devemos. Se agora o substitussemos por Bennigsen tudo estaria perdido. Bennigsen j mostrou a sua incapacidade em 1807.
      O sexto grupo, de que faziam parte os partidrios de Bennigsen, dizia, pelo contrrio, no haver homem mais activo e experimentado e que fizessem o que fizessem acabariam sempre por recorrer a ele.
      E os membros deste grupo demonstravam ser a retirada russa at ao Drissa o mais vergonhoso dos desastres e uma cadeia ininterrupta de erros. Quanto mais erros cometerem melhor!  a nica maneira de compreenderem que as coisas no podem continuar assim, diziam. No precisamos de um Barclay qualquer, mas de um homem como Bennigsen, que j se revelou em 1807, e a quem o prprio Napoleo fez justia. E o nico homem a quem todos reconheciam poderes  Bennigsen.
      As pessoas que constituam a stima categoria pertenciam a essa espcie de criaturas que sempre se encontram na roda dos jovens soberanos e que eram sobretudo numerosos junto do imperador Alexandre: generais e ajudantes-de-campo apaixonadamente devotados mais ao homem que ao soberano, que o adoravam sincera e desinteressadamente, como acontecera a Rostov em 1805, e que atribuam ao imperador no s todas as virtudes, mas tambm todas as qualidades humanas. Essa gente, ao mesmo tempo que exaltava a modstia do seu imperador, que se escusara a chamar a si o comando das tropas, censurava to excessiva modstia, declarando s desejarem uma coisa: que o seu soberano bem-amado vencesse essa desconfiana exagerada, declarasse francamente que tornava o comando do exrcito, organizasse em torno de si um estado-maior de comandante-chefe e, depois de se ter aconselhado junto dos tcnicos, prticos mais experimentados, conduzisse ele prprio no campo de batalha as suas tropas, a quem a sua presena, s por si, encheria de um entusiasmo desbordante.
      O oitavo grupo, o mais importante de todos - em relao ao anterior na proporo de noventa e nove para um - era constitudo por pessoas que no queriam nem a paz, nem a guerra, nem a ofensiva, nem campos entrincheirados em Drissa ou em qualquer outra parte, nem Barclay, nem o imperador, nem Pfuhl, nem Bennigsen: no procuravam seno uma coisa, para eles mais substancial que tudo o mais: o maior nmero possvel de vantagens pessoais e de diverses. Nestas guas turvas de intrigas e de enredos que formigavam no quartel-general do imperador era possvel atingir situaes que noutra altura se no poderiam conseguir. Um, para no perder uma situao vantajosa, era hoje partidrio de Pfuhl, amanh do adversrio deste, e depois de amanh afirmava no ter opinio sobre determinado ponto, e isto apenas para evitar assumir responsabilidades e agradar ao imperador.
      Outro, desejoso de se colocar bem, chamava sobre si a ateno do soberano fazendo muito barulho a propsito de unia, observao que o imperador fizera na vspera, discutia, gritava no conselho, batendo no peito, desafiava para duelo aqueles que no eram da sua opinio e tudo isto para demonstrar que estava pronto a sacrificar-se pelo interesse geral. Um terceiro, entre dois conselhos, e na ausncia dos seus inimigos, solicitava muito simplesmente auxlio pecunirio por motivo dos seus fiis servios, convencido de naquele momento no haver tempo para lho recusarem. Um quarto procurava encontrar-se sempre, como que por acaso, esmagado de trabalho ante os olhos do imperador. Um quinto, para alcanar um objectivo ardentemente ambicionado - sentar-se  mesa imperial -, demonstrava encarniadamente a justeza ou a falsidade de uma opinio recentemente adoptada e para tal servia-se de argumentos mais ou menos slidos e justos,
      Toda esta gente no pensava noutra coisa seno em caar dinheiro, cruzes, categorias, e nessa caada no seguia outra pista que no fosse o penacho da merc imperial, e assim que verificava que esse penacho se voltava para determinado ponto, todo esse enxame de zangos batia as asas na mesma direco, de tal sorte que se tornava por assim dizer impossvel ao imperador faz-lo girar noutro sentido. Em presena da incerteza da situao, da gravidade de um perigo iminente, que dava a todas as intrigas um carcter muito alarmante, no meio daquele remoinho de intrigas, de ambies e conflitos entre pontos de vista e tendncias diferentes, na confuso daquela gente de nacionalidades vrias, este oitavo grupo, o mais numeroso, exclusivamente preocupado com os seus interesses pessoais, contribua de maneira singular para tornar a marcha geral mais difcil e complicada. Fosse qual fosse a questo que se levantasse, este enxame de zangos, sem ter ainda resolvido um problema, tratava de voar para outro, ensurdecendo com os seus zumbidos e abafando cada vez mais as vozes sinceras que tomavam parte na discusso.
      Na altura da chegada do prncipe Andr ao exrcito acabava de se constituir um novo partido, cuja voz apenas principiava a ouvir-se, Era o partido das pessoas idosas, sensatas, com experincia de assuntos polticos e que sabiam, sem partilhar nenhuma das opinies contraditrias enunciadas, examinar objectivamente tudo quanto se passava no quartel-general, procurando maneira de acabar com a incerteza, a indeciso, a confuso e a fraqueza.
      Esta gente dizia e pensava que o mal provinha antes de mais nada da presena do imperador e da sua corte militar junto do exrcito, que se haviam transplantado para o campo de batalha os hbitos de versatilidade, de hesitao e de indiferentismo, talvez prprios da corte mas fatais no exrcito, e que o papel de um soberano era o de reinar e no o de comandar tropas, e que a, nica sada para a situao consistia na partida do imperador e da sua corte. Bastava a sua presena para paralisar cinquenta mil soldados, indispensveis para assegurar a sua guarda pessoal, e que o mais medocre dos generais- chefes, sentindo-se independente, valia mais que o melhor deles enleado pela presena e pela vontade soberana do imperador.
      Quando o prncipe Andr vivia em Drissa, sem ocupar-se em quaisquer funes definidas, o secretrio de Estado, Chichkov, um dos membros mais influentes deste partido, escreveu uma carta ao imperador, que Balachov e Araktcheiev concordaram em assinar tambm.
      Aproveitando a autorizao que lhe fora concedida de apreciar a marcha geral das operaes, propunha ao soberano, em termos respeitosos e salientando a necessidade de acordar o valor blico do povo da capital, que abandonasse o exrcito.
      Esta necessidade de animar o moral do povo, de cham-lo  defesa da ptria, aco que mais tarde se tornou eficaz com a presena pessoal de Alexandre em Moscovo e que veio a ser uma das razes principais da vitria russa, foi exposta ao imperador e por ele aprovada, ficando decidida a sua partida.
      

      
      
      
      Captulo X
      
      Ainda esta carta no fora entregue ao imperador quando um dia Barclay, durante uma das refeies, disse a Bolkonski que Sua Majestade desejava v-lo para o interrogar sobre a Turquia e que devia apresentar-se a Bennigsen nesse mesmo dia s seis horas.
      Nessa mesma altura chegou ao quartel-general do imperador a notcia de um novo avano de Napoleo que podia tornar-se perigoso para o exrcito, notcia esta que depois se reconheceu ser inexacta. Pela manh, o coronel Michaux percorrera com o imperador as defesas de Drissa e provara que aquele campo entrincheirado construdo Por Pfuhl, e que gozava da fama de obra-prima de tcnica, destinado a vir a ser a runa de Napoleo, no s no passava de uma utopia mas poderia vir a ser a perda do exrcito russo.
      O prncipe Andr apresentou-se no alojamento de Bennigsen, que estava instalado numa casa senhorial nas margens do rio. No encontrou nem Bennigsen nem o imperador, mas Tchernichov, o ajudante-de-campo do czar, recebeu Bolkonski e explicou-lhe que o soberano fora, na companhia do general Bennigsen e do marqus Paulucci, inspeccionar, pela segunda vez nesse dia, as fortificaes do campo, sobre cujo valor defensivo principiavam a correr srias dvidas.
      Tchernichov lia um romance francs  janela da primeira sala. Esta dependncia servira provavelmente outrora de salo; ainda l se via um harmnio, sobre o qual se empilhavam tapetes. A um canto estava a cama de campanha do ajudante-de-campo de Bennigsen. O ajudante-de-campo estava presente. Provavelmente cansado por algum divertimento ou por muito ter trabalhado, dormitava na cama de campanha, Duas portas abriam Para esta dependncia: uma, em frente, dava directamente para o antigo salo, a outra,  direita, para um gabinete. Atravs da primeira ouvia-se falar alemo e de longe em longe francs. No antigo salo, por desejo do Imperador, reunira-se no um conselho de guerra, pois o czar gostava das designaes vagas, mas um grupo de pessoas cuja opinio queria conhecer rias circunstncias actuais. No era um conselho de guerra, mas uma espcie de reunio de personalidades selectas para esclarecer certos problemas para interesse prprio do imperador. Tinham sido convocados: o general sueco Armfeld, o ajudante-de-campo Woltzogen, Wintzengerode, a quem Napoleo chamava o sbdito francs foragido, Michaux, Toll, o conde Stein, que no era militar, e finalmente Pfuhl, que, como Andr veio a perceber, era a trave mestra do caso de que se tratava. Andr teve ocasio de o examinar muito bem, pois Pfuhl chegou pouco depois dele e passou pelo salo, detendo-se um momento a falar com Tchernichov.
      A primeira vista, Pfuhl, com o seu uniforme de general russo mal feito, e que lhe ficava to mal que parecia disfarado, deu-lhe a impresso de algum muito seu conhecido, embora nunca o tivesse visto antes. Parecia-se muito vagamente com os Weirother, os Mack, os Schmidt, com tantos outros generais tericos que ele tivera oportunidade de ver em 1805, embora fosse mais tpico que todos os demais. Nunca vira um alemo que reunisse a tal ponto os traos caractersticos de todos os alemes.
      Pfuhl era de pequena estatura, mas de slida compleio, bacia larga e omoplatas ossudas. Tinha a cara sulcada de rugas f, os olhos profundamente enterrados nas rbitas.
      Devia ter passado uma escova pelos cabelos,  frente e nas tmporas, mas atrs mechas soltas pendiam, ridiculamente. Entrou lanando  sua roda olhares inquietos e furiosos, como se tudo receasse na vasta sala em que penetrava. Segurando na espada desajeitadamente dirigiu-se a Tchernichov, perguntando-lhe em alemo onde estava o imperador. Era evidente que desejava atravessar a sala  pressa e desembaraar-se das saudaes e dos cumprimentos habituais para se instalar diante de um mapa, o seu elemento natural. Fez com a cabea repetidos e breves acenos, enquanto ouvia Tchernichov, e teve um sorriso irnico quando este lhe disse que o imperador examinara o entrincheiramento que ele, Pfuhl, construra segundo as suas teorias. Numa voz rude de baixo, como  prpria dos alemes muito seguros de si, resmungou para si mesmo: Imbecil... est tudo estragado... Daqui no sai coisa que preste. (Em alemo no texto original. (N dos T.) O prncipe Andr, que no conseguia perceber distintamente o que ele dizia, quis afastar-se, mas Tchernichov apresentou-o a Pfuhl, dizendo que ele acabava de chegar da Turquia, onde a guerra findara vitoriosa, Pfuhl mal o olhou: disse rindo: Devia ter sido uma rica guerra tctica. (Em alemo no texto original. (N dos T.) E com um riso desdenhoso penetrou na sala onde se ouviam vozes.
      Pfuhl, irritvel por natureza e propenso  ironia, estava evidentemente furioso por terem ousado na sua ausncia examinar o seu campo entrincheirado, atrevendo-se a critic-lo. Merc daquela rpida entrevista com Pfuhl, e graas ao que vira em Austerlitz, no foi difcil ao prncipe Andr ficar com uma ideia muito ntida de tal personagem. Pfuhl era criatura de uma s pea e de uma teimosia tal que seria capaz de afrontar o martrio em defesa das suas ideias; era como s os Alemes sabem ser, pois s eles so capazes de uma cega confiana nas noes abstractas, na cincia, isto , no conhecimento pressuposto da verdade absoluta.
      O Francs  um homem seguro de si, persuadido de que, pessoalmente, quer pelo esprito, quer pelo fsico, exerce uma irresistvel seduo tanto nos homens como nas mulheres. O Ingls tambm, goza da mesma segurana por estar persuadido de que  cidado do Estado mais bem organizado do mundo, e da saber sempre, na sua qualidade de ingls, que o que deve fazer e faz  indiscutivelmente perfeito. Pelo seu lado, o Italiano tem confiana em si prprio porque facilmente se emociona, esquecendo-se ainda mais depressa de si e dos outros. Ao Russo tambm no falta confiana, visto que tudo ignora e nada quer saber e estar convencido de que ningum pode saber seja o que for. No que diz respeito ao Alemo, porm, esse  o pior de todos, mais obstinado que ningum e mais desagradvel para todo o mundo, convencido de que conhece a verdade, ou seja a cincia que ele prprio fabrica, para ele, a verdade absoluta.
      Evidentemente Pfuhl era assim mesmo, Tinha na sua mo uma cincia: isto , a teoria do movimento oblquo, colhida na histria das guerras de Frederico, o Grande, e vai da tudo quanto observava na histria das guerras recentes a seus olhos no passava de insensatez, barbaria e um tremendo caos. Tailtos eram os erros nelas cometidos que a bem dizer nem sequer mereciam o nome de guerras. Como no acertavam com a sua teoria, no podiam mesmo ser objecto de estudo,
      Em 1806, Pfuhl fora um dos autores do plano que conduzira a leria e a Auerstaedt, mas o resultado dessa campanha no lhe Provara a falsidade da sua teoria, Pelo contrrio, em sua opinio haviam sido precisamente os desvios dela as nicas causas do seu malogro e por isso dissera com ironia, muito contente de si prprio, coisa que lhe era peculiar: Imbecil... est tudo estragado... vai tudo por gua abaixo...  (Em alemo no texto original. (N dos T.)
      Pfuhl pertencia  famlia desses tericos que de tanto amarem as teorias em si acabam por esquecer-lhes os fins, ou seja a sua aplicao prtica. Por amor da prpria teoria odiava tudo quanto fosse prtico, recusando sistematicamente prestar ateno a esse aspecto. At o prprio fracasso lhe dava satisfao, uma vez que o insucesso provocado pela violao da teoria na sua aplicao prtica s servia para lhe provar a ele a justeza da teoria que professava.
      As poucas palavras que trocara com o prncipe Andr e Tchernichov sobre a guerra em curso foram pronunciadas no tom de quem sabe de antemo que tudo correr mal e nada mais pode fazer seno lamentar que assim seja. O tufo de cabelos que lhe fustigava a nuca e as tmporas penteadas a preceito estavam a dizer isso mesmo com particular eloquncia. Entrou na sala contgua e imediatamente se principiou a ouvir a sua voz rabugenta de baixo.
      

      
      
      
      Captulo XI
      
      Ainda o prncipe Andr no tivera tempo de ver desaparecer a figura de Pfuhl quando entrou, apressadamente, o conde de Bennigsen. Cumprimentando- o com um aceno de cabea, penetrou no gabinete depois de ter dado ordens ao ajudante-de-campo. Como o imperador vinha logo atrs dele, tinha pressa de tomar algumas disposies antes de o receber. Tchernichov e Andr vieram at  escadaria da entrada. Com ar fatigado, o imperador desmontava. O marqus Paulucci dirigiu-lhe a palavra. O czar, inclinando a cabea para a esquerda, ouvia, descontente, o que Paulucci lhe dizia, e este exprimia-se com uma violncia desusada. O imperador, que evidentemente queria pr ponto final naquele discurso, principiou a andar, mas o italiano, muito afogueado pela exaltao de que se achava possudo, esquecendo as convenincias, foi-lhe no encalo, falando sempre.
      - Quanto aquele que aconselhou este campo, este campo de Drissa - dizia Paulucci, enquanto o imperador, subindo os degraus da escada, fixava o prncipe Andr, que, de momento, parecia no conhecer. - Quanto aquele, Sire - teimava ele num mpeto de quem no pode dominar-se -, que aconselha o campo de Drissa, no vejo outra alternativa seno a casa amarela (Hospital de alienados, geralmente pintado de amarelo (N, dos T.) ou a forca.
      Sem esperar pela concluso do discurso e como se no tivesse ouvido o que dizia o italiano, o imperador, que acabava de reconhecer Bolkonski, dirigiu-se-lhe, muito corts:
      - Gostei muito de te ver: entra para a sala em que eles esto reunidos e espera l por mim.
      O czar penetrou no gabinete, onde o seguiram o prncipe Piotre Mikailovitch Volkonski e o baro Stein, e a porta fechou-se.
      O prncipe Andr, servindo-se da autorizao do imperador, entrou com Paulucci, a quem conhecera na Turquia, no salo onde estava reunido o conselho.
      O prncipe Piotre Mikailovitch Volkonski desempenhava ento as funes de chefe do estado-maior do imperador. Veio do gabinete com uns mapas que desdobrou em cima da mesa do salo. Depois ps  assembleia as questes acerca das quais desejava conhecer a opinio dos presentes. Recebera-se durante a noite a notcia - que depois veio a saber-se, alis, ser falsa -, de que os Franceses se propunham contornar o campo de Drissa.
      O primeiro a usar da palavra foi o general Armfeld. Inesperadamente, para enfrentar as dificuldades que se levantavam, props que se ocupasse uma posio completamente nova e que nada justificava (salvo o desejo que tinha de fazer ver que tambm podia ter uma opinio) a retirada das estradas de Petersburgo e Moscovo, posio essa na qual, segundo ele, o exrcito devia concentrar-se para ai aguardar o inimigo. Via-se perfeitamente que este plano de h muito estava elaborado pelo seu autor, o qual, se o expunha naquele momento, era menos para responder s questes formuladas, a que, alis, nenhuma resposta dava, que para aproveitar a ocasio de o tornar conhecido, Era uma dessas numerosas propostas, nem melhor nem pior que qualquer outra aos olhos de quem quer que fosse sem a menor ideia do que aquela guerra viria a ser. Houve quem a combatesse e quem a defendesse. O moo general Toll, com mais ardor que nenhum outro, criticou esse plano, e, extraindo da algibeira um manuscrito, pediu licena para proceder  sua leitura. Nessa exposio, amplssima, propunha um plano de campanha inteiramente oposto ao de Armfeld e de Pfuhl. Para o refutar, Paulucci aconselhou a ofensiva e o ataque, nica soluo, em seu parecer, para arranc-los a todos da incerteza e da ratoeira, nome que dava ao campo de Drissa, onde se encontravam. Durante a discusso, Pfuhl e o seu intrprete Woltzogen - era obrigado a fazer passar atravs dele todas as suas comunicaes com a corte mantinham-se calados. Pfuh1 limitava-se a fungar desdenhosamente e a voltar as costas, mostrando que nunca desceria a refutar as tolices que ouvia. Quando o prncipe Volkonski, que presidia ao debate, lhe pediu que expusesse a sua opinio, limitou-se a dizer:
      - Para qu? O general Armfeld props-lhe uma posio magnfica com as retaguardas descobertas. Podem escolher, igualmente, ou o ataque desse senhor italiano, que tambm  ptimo, ou ento a retirada, que  melhor ainda (Em alemo no texto original. (N, dos T,). Para que pedem a minha opinio? Os senhores sabem tudo melhor do que eu.
      Quando Volkonski franziu o sobrolho, dizendo pedir-lhe a sua opinio em nome do imperador, ele levantou-se, exaltando-se de repente, e prosseguiu:
      - Estragaram tudo, complicaram tudo: toda a gente queria saber mais do que eu e agora recorrem a mim. Como reparar o que est mal? Nada h a reparar. O que  preciso  aplicar exactamente os princpios que eu estabeleci - afirmou, batendo com o dedo ossudo em cima da mesa. - Onde est a dificuldade da situao? Tolices! Kinderspiel! (Brincadeira de crianas. (N, dos T)
      Aproximou-se da mesa e ps-se a falar muito depressa, enquanto ia batendo no mapa com a ponta do dedo seco, demonstrando que nenhum acontecimento imprevisto poderia modificar a eficcia do campo de Drissa, que tudo fora previsto e que se de facto o inimigo tentasse um movimento de flanco acabaria inevitavelmente por ser aniquilado.
      Paulucci, que no sabia alemo, interrogou-o em francs. Woltzogen acorreu em auxlio do seu chefe, que falava mal o francs, e traduziu as suas explicaes, seguindo-o com muita dificuldade, pois Pfuhl demonstrava, cada vez mais rpido, que, tudo, tudo, fora previsto no seu plano, no s o que acontecera, mas tambm o que viria a acontecer, e que se presentemente algumas dificuldades se levantavam o mal advinha de o no terem executado tal qual. E continuava a fungar ironicamente, prosseguindo na sua demonstrao. Por fim deixou de argumentar pela mesma razo que um matemtico desiste de apresentar provas de um problema demonstrado, Woltzogen substituiu-o, e continuou a expor, em francs, as ideias de Pfuhl, dizendo de vez em quando: No  verdade, Excelncia? (Em alemo no texto original. (N, dos T) Pfuhl, como um soldado que na excitao da batalha se pe a disparar contra os seus camaradas, gritava, furioso, a Woltzogen:
      - Pois claro, pois claro, para qu tantas explicaes? Tanto Paulucci como Michaux refutavam Woltzogen,  mesmo tempo, em francs. Armfeld dirigia-se a Pfuhl em alemo. Toll explicava em russo a Volkonski o que todos eles diziam. O prncipe Andr ouvia e observava em silncio.
      De entre todas aquelas personalidades, a que lhe despertava maior simpatia era Pfuhl, esse homem irascvel, decidido e doidamente seguro de si prprio. De todos quantos ali estavam era aquele o nico que nada queria para ele, a ningum tinha inimizade. Apenas pretendia uma coisa: pr em execuo um plano assente numa teoria que lhe custara anos de trabalho. Evidentemente que era ridculo e desagradvel com a sua permanente ironia, mas apesar de tudo inspirava respeito, graas  absoluta devoo pelas suas ideias. Alis, em todos os discursos pronunciados,  excepo de Pfuhl, havia um trao comum, coisa que se no verificava nos do conselho de guerra de 1805: sentia-se neles uma espcie de terror pnico, conquanto dissimulado, perante o gnio de Napoleo, e esse pnico transparecia nos argumentos mais insignificantes. Estavam convencidos de que aquele homem era capaz de tudo, esperavam v-lo aparecer em toda a parte ao mesmo tempo e o seu temido nome servia a cada um para dar um golpe de morte na posio do adversrio. S Pfuhl se atrevia a considerar brbaro Napoleo, pela mesma razo que considerava brbaro qualquer que se opusesse s suas teorias, Alm do respeito que Pfuhl lhe inspirava, o prncipe Andr sentia por ele uma espcie de piedade. Pelo tom que tomavam os cortesos ao dirigir-se-lhe, pelo que Paulucci se permitira dizer ao imperador, e sobretudo pelo amargor e pela violncia de que as suas prprias palavras vinham repassadas, era evidente todos estarem certos, e ele mesmo j desconfiava disso, de ser chegada a hora da sua runa. Eis porque, no obstante a sua segurana e a sua acerba ironia de alemo, causava d, com as melenas empastadas nas fontes e os tufos de cabelo a carem-lhe na nuca. Embora dissimulasse os seus sentimentos por detrs de umas maneiras irritadas e desdenhosas, via-se que estava desesperado por ver fugir-lhe a ocasio nica de verificar em vasta escala as suas teorias e de poder prov-las aos olhos do mundo.
      Os debates prolongaram-se por muito tempo e quanto mais se prolongavam mais exaltados se mostravam os contendores, que gritavam e faziam aluses pessoais, e menos probabilidades havia de extrair qualquer concluso prtica de tudo quanto se dissera.
      No meio de toda aquela confuso de lnguas, de todas aquelas hipteses, de todos aqueles planos, de todas aquelas contradies e de todos aqueles gritos no pde o prncipe Andr deixar de se mostrar surpreendido que fosse possvel falar-se tanto. Enquanto estivera no exrcito vrias vezes fora levado a pensar que no havia nem podia haver uma cincia da guerra e que por isso mesmo se no devia falar num suposto gnio militar. E eis esta ideia confirmada agora com a plena evidncia da verdade. ,Como falar-se em teoria e cincia numa matria em que as condies e as circunstncias so desconhecidas, no podendo ser definidas de antemo, e em que as foras actuantes mais dificilmente ainda podem ser determinadas? Nunca ningum soube nem nunca ningum poder saber qual a posio do nosso exrcito e a do inimigo dentro de vinte e quatro horas e qual a aco deste ou daquele destacamento. Partindo do princpio de que na primeira fileira, em vez de um poltro que debande a gritar: Estamos cortados! se ouve, em seu lugar, um moo, valente e decidido, gritando Hurra!, a temos como um destacamento de cinco mil homens vale mais de que um corpo de exrcito de trinta mil. Esse o caso de Schngraben. O que no impede que, noutra altura, cinquenta mil homens debandem diante de oito mil. Assim acontecera em Austerlitz. Como falar em cincia numa matria em que, como sucede com todas as coisas da vida prtica, nada pode ser previsto antecipadamente e tudo depende de circunstncias imponderveis cuja importncia surge de um momento para o outro, sem que ningum saiba quando chegar a sua hora? Armfeld sustenta que, o nosso exrcito est cortado: Paulucci, pelo contrrio, afirma que colocmos o exrcito francs entre dois fogos; Michaux diz que o campo entrincheirado de Drissa  desvantajoso, pois o no lhe fica na retaguarda, enquanto Pfuhl mantm ser precisamente isso que lhe d fora. Toll prope um plano, Armfeld prope outro.
      Todos estes planos so igualmente bons e igualmente maus e as vantagens de cada um deles no podem tornar-se evidentes seno no prprio momento em que os acontecimentos vierem a cumprir-se. Porque falta ento toda a gente em gnio militar? Ser gnio aquele que saiba abastecer a tempo de biscoitos o exrcito e envie Fulano para a direita e Sicrano para a esquerda? A verdade  esta: os gnios militares so brilhantes e poderosos e h uma multido de cobardes sempre pronta a lisonjear o poder, chamando a tais homens gnios e atribuindo-lhes qualidades extraordinrias. Em vez de gnios, os melhores generais que eu conheci eram estpidos ou pouco srios. Bagration, por exemplo, o melhor de todos, como o prprio Napoleo o reconheceu. E Bonaparte? Lembro-me perfeitamente da sua mscara cheia de suficincia na batalha de Austerlitz. Um bom militar nem precisa de ser gnio nem de ter qualidades especiais. Pelo contrrio, deve ser desprovido do que h de melhor e de mais elevado no homem: o amor, a poesia, a ternura, a dvida filosfica, filha da experincia. Deve ser limitado, estar persuadido de que  de alta importncia tudo quanto faz. De outro modo faltar-lhe- a persistncia; s assim ser um valoroso capito. Que Deus o de- fenda de amar algum, de se afeioar seja a quem for, de ser compadecido, de pensar no que  justo e no que o no . Compreende-se que desde tempos imemoriais se tenha inventado para galardo seu a teoria do gnio, pois, em verdade, representa o poder. O xito ou o desaire de uma aco militar no podem ser-lhe atribudos, mas ao soldado que nas fileiras grita: Estamos perdidos! ou ento exclama Hurra! Somente nas fileiras um homem pode servir convencido de que  til!
      Assim pensava o prncipe Andr enquanto ouvia as discusses e s deu por si quando todos se levantaram e Paulucci o chamou. No dia seguinte, durante a revista, o imperador perguntou a Andr onde desejava prestar servio. E foi ento que ele para sempre perdeu os seus crditos junto da corte pedindo que o deixassem prestar servio na frente de batalha, em lugar de se deixar ficar na comitiva do soberano.
      

      
      
      
      Captulo XII
      
      Antes do princpio da campanha, Rostov recebera uma carta dos pais onde estes o informavam sumariamente da doena de Natacha e do seu rompimento com o prncipe Andr, rompimento que lhe explicaram como tendo sido provocado pela irm, e de novo lhe rogavam que pedisse baixa do exrcito e voltasse para junto deles. Nicolau, quando recebeu esta carta, no tentou sequer obter licena ou autorizao para deixar a tropa, e escreveu aos pais a dizer-lhes estar muito zangado por causa da doena de Natacha e do malogro do seu noivado, e que faria todo o possvel para cumprir os desejos deles. A Snia escreveu separadamente:
      
      Adorada amiga do meu corao.
      Nada, a no ser a honra, me impediria de regressar a casa. Mas neste momento, na altura em que se inicia u campanha, considerar-me-ia desonrado, no s perante os meus camaradas mas aos meus prprios olhos, se preferisse a minha felicidade ao meu dever e ao meu amor pela ptria. Esta ser, porm, a nossa ltima separao, podes crer: assim que a guerra acabar e se eu for vivo e tu ainda me quiseres, deixarei tudo e correrei a apertar-te para sempre contra o meu corao fervoroso e apaixonado.
      
      E, com efeito, s o incio da campanha retivera Rostov e o impedira, como prometera, de voltar a casa para casar com Snia.
      O Outono em Otradnoie, com as suas caadas, o Inverno, com as suas festas do Natal, e o amor de Snia prometiam-lhe toda uma perspectiva de serenas alegrias e o, sossego de uma fidalga vida que ele outrora no conhecera e tanto o seduzia agora. Uma esposa dedicada, filhos, uma boa matilha de ces com dez ou doze casais de vigorosos galgos, os trabalhos agrcolas, os vizinhos e as funes que competem  nobreza..., pensava Nicolau.
      Mas havia guerra e impunha-se-lhe ficar no regimento. E como tinha de ser, Nicolau Rostov, por ndole, parecia satisfeito com a vida assim que levava no exrcito, procurando torn-la agradvel.
      No regresso da licena fora acolhido com grande alegria pelos camaradas. E, encarregado da remonta, trouxera consigo da Pequena Rssia ptimos cavalos, que muito o entusiasmaram e lhe mereceram as felicitaes dos chefes. Durante a ausncia fora promovido a capito e quando o regimento foi colocado em p de guerra, com os efectivos reforados, deram-lhe o comando do seu antigo esquadro.
      A campanha principiou, o regimento foi enviado para a Polnia, dobraram os soldos, chegaram novos oficiais, praas novas, cavalos, e especialmente passou a reinar na tropa a animao de todas as novas campanhas. Rostov, que apreciava as vantagens da sua posio, entregou-se inteiramente aos prazeres e aos deveres do servio militar, sabendo perfeitamente que mais tarde ou mais cedo teria de abandonar o exrcito.
      As tropas tinham evacuado Vilna por diversas e complicadas razes: razes de Estado, razes polticas e tcticas. Cada passo  retaguarda era pretexto para toda uma rede de complicaes de interesses, de combinaes, e todo um jogo de paixes do estado-maior. Para os hssares do regimento de Pavlogrado esta retirada, na melhor estao do ano, com abastecimentos em abundncia, no passava de uma agradvel excurso. Tudo quanto fossem tristezas, inquietaes, intrigas, era com o quartel-general no seio do exrcito ningum perguntava para onde iam e qual o motivo daquela retirada.
      A nica coisa que levava a tropa a lamentar ter de bater em retirada era o facto de se ver obrigada a mudar do alojamento a que estava afeita, renunciando  bela polaca local. Se porventura algum dos oficiais se lembrava de pensar que as coisas no corriam bem, logo tratava de se sentir alegre, como  prprio de todo o bom soldado, e no pensava na situao geral, preocupando-se exclusivamente com as suas ocupaes imediatas. De princpio estiveram alegremente acantonados em volta de Vilna, travando conhecimento com os proprietrios polacos e preparando-se constantemente para as revistas que eram passadas pelo imperador e outros altos postos militares.
      Depois vieram ordens para retirarem sob Sventsiany e destrurem os abastecimentos que no fosse possvel transportar. Sventsiany ficou memorvel para os hssares, pois esse acampamento veio a ser conhecido por todo o exrcito pelo campo dos borrachos, sendo muitas as queixas que se receberam por virtude de as tropas, que tinham ordem para se abastecer junto dos habitantes, haverem requisitado aos proprietrios polacos, em matria de abastecimentos, cavalos, equipagens e tapetes. Rostov lembrava-se muitssimo bem de Sventsiany. No prprio dia da chegada vira-se obrigado a meter na ordem o sargento, nada podendo conseguir dos soldados do seu esquadro, que se tinham emborrachado, bebendo cinco barris de cerveja velha roubada. Depois de Sventsiany cada vez recuava mais at ao Drissa, e ainda para alm do Drissa, aproximando-se das fronteiras russas.
      A 13 de Julho, pela primeira vez, o regimento de Pavlogrado tomou parte numa operao sria.
      A 12, pela noite, levantou-se uma grande tempestade com forte chuva e granizo. O Estio de 1812 foi particularmente assinalado por numerosas tempestades.
      Dois esquadres do regimento de Pavlogrado acampavam numa seara de cevada pisada pelos homens e pelo gado. Chovia a cntaros, e Rostov, mais o moo oficial Iline de nome, a quem tomara sob a sua proteco, abrigaram-se numa cabana construda ao deus-dar.
      Um oficial do regimento, de grandes bigodaas, que regressava do quartel-general e fora surpreendido pela chuva, entrou no abrigo de Rostov:
      - Acabo de chegar do estado-maior, conde. J ouviu falar da faanha de Raievski?
      E o oficial ps-se a contar o que soubera acerca da batalha de Saltanovka.
      Rostov, voltando o pescoo, onde a chuva penetrava, fumava o seu cachimbo e ouvia, com ar distrado, olhando de vez em quando para Iline, todo encolhido junto dele. Este oficial, um rapazote dos seus dezasseis anos chegado havia pouco ao regimento, era agora tratado por Nicolau como ele o fora, anos antes, por Denissov. Iline fazia por imitar Rostov em tudo e dir-se-ia enamorado dele como uma mulher.
      O oficial da bigodaa, Zdrzinski, contava, enftico, como o dique de Saltanovka era agora as Termpilas russas e como o general Raievski a realizara uma faanha digna da antiguidade. Raievskl, sob intenso fogo inimigo, conduzira os seus dois filhos at ao dique e lanara-se na batalha com eles a seu lado. Rostov escutava o relato no s sem uma palavra que encorajasse o narrador, mas inclusivamente com uma cara que dir-se-ia envergonhada pelo que ouvia, embora nada tivesse que objectar. Depois de Austerlitz e da campanha de 1807, sabia, por experincia prpria, que quem conta um episdio militar nunca fala inteiramente verdade, como com ele prprio acontecera ento. Alm disso, j era bastante experimentado na guerra para saber que nada se passa no campo de batalha como as pessoas o imaginam ou como  costume virem a cont-lo mais tarde. Por tudo isso, no lhe agradava o relato e tambm porque no morria de amores por Zdrzinski, que, com as suas bigodaas, tinha o pssimo costume de se debruar sobre o interlocutor, estando a ocupar muito espao na acanhada choupana. Rostov olhava para ele sem dizer palavra. Em primeiro lugar, no dique em que se deu o ataque deve ter-se produzido uma tal barafunda e uma tal compresso que mesmo ainda que Raievski tivesse levado consigo os filhos, esse acto apenas poderia ter impressionado os dez ou doze homens que o rodeavam, pensava Rostov. Os outros no podiam ter visto com quem  que Raievski pusera os ps no dique. E aqueles que porventura o tivessem visto no deviam ter sentido uma impresso por a alm, pois a verdade era esta: que lhes importavam a eles os sentimentos paternais do general, quando eles prprios estavam a dar o corpo ao manifesto? E depois, o destino da ptria no dependia da tomada de tal dique. No vinha, pois, a propsito falar-se das Termpilas. E para que servia aquele sacrifcio? Que ideia era aquela de arriscar a pele dos prprios filhos no campo de batalha? Eu, por mim, nunca me lembraria de expor assim roeu irmo Ptia, nem mesmo Iline, que no  meu parente, embora seja um belo moo. Pelo contrrio, tudo faria para o deixar em lugar seguro. E Rostov assim ia pensando enquanto Zdrzinski falava, embora no lhe passasse pela cabea dizer a algum o que lhe ocorria naquele momento: a sua experincia pessoal dizia-lhe que era intil. Sabia que todas aquelas histrias tinham por fim a glorificao dos exrcitos russos; por isso o melhor era no p-las em dvida. E eis o que estava a fazer.
      - J no posso mais! - disse, por fim, Iline, que percebera que a algaraviada de Zdrzinski no agradava a Rostov. - As botas, a camisa, estou todo a escorrer. Vou tratar de arranjar outro abrigo. Parece-me que a chuva est a passar.
      Iline abalou e Zdrzinski abalou tambm.
      Cinco minutos depois j Iline estava de volta, patinhando na lama.
      - Hurra! Rostov, despacha-te! Encontrei! A duzentos passos temos uma taberna, e os nossos j l esto. Ao menos podemos enxugar a roupa. E est l a Maria Henrikovna.
      Maria Henrikovna era a mulher do mdico do regimento: uma jovem e bonita alem com quem ele se casara na Polnia. Ou porque no tivesse recursos para deixar a mulher em qualquer outra parte, ou porque no quisesse separar-se dela, nos primeiros tempos de noivado levava-a sempre consigo atrs do regimento, e os cimes que isso lhe causava tornaram-no motivo de troa entre a oficialidade.
      Rostov embrulhou-se no capote, e, chamando Lavnichka, mandou que levasse as suas coisas para a taberna. E l foi com Iline, patinhando na lama, debaixo da chuva, que ia passando, no meio das trevas da noite, de onde em onde iluminadas pelos relmpagos longnquos.
      - Rostov, onde ests tu?
      - Aqui. Olha, isto  que so relmpagos - iam dizendo um para o outro.
      

      
      
      
      Captulo XIII
      
      A kibitka do mdico estacionava diante da porta da taberna, onde j estavam quatro ou cinco oficiais. Maria Henrikovna, uma lourita alem, rolia de carnes, de casaco e de touca de dormir, estava sentada, em lugar de honra, num grande banco, O marido, o mdico, dormia atrs dela. Rostov e Iline foram recebidos com joviais exclamaes e grandes risadas. - Ena! Vocs esto muito alegres por estes stios! - disse Rostov, rindo.
      - E vocs, porque esto vocs aborrecidos?
      - Ah!, vm em bonito estado! Deitam gua por todos os lados! Nada de inundar o salo.
      -  proibido sujar o vestido de Maria Henrikovna.
      Rostov e Iline trataram de descobrir um recanto onde pudessem mudar de roupa sem ofender o pudor da mulher do mdico. Passaram para o outro lado do tabique, para a se despirem, mas o cubculo, iluminado por uma candeia pousada em cima de uma arca vazia, estava inteiramente ocupado por trs oficiais que jogavam as cartas e por nada deste mundo lhes quiseram ceder o lugar. Maria Henrikovna ento ofereceu-lhes a saia, que tirou para esse fim, com que eles fizeram um reposteiro, atrs do qual, auxiliados por Lavruchka, que lhes trouxera um carregamento de roupa, despiram as fardas molhadas e vestiram outras enxutas.
      Acenderam a estufa desmantelada, Depois arranjaram uma tbua, que colocaram sobre duas selas de montar, cobriram-na com a gualdrapa de um cavalo, puseram-lhe em cima um samovar, uma cantina e meia garrafa de rum, e, tendo pedido a Maria Henrikovna que fizesse as honras da casa, juntaram-se todos  sua volta. Um deles ofereceu-lhe o leno de assoar para enxugar as rolias mos: outro ps-lhe debaixo do,-, ps, para os resguardar da humidade, o seu capote de hssar: um terceiro tapou a janela com o seu para no deixar entrar o vento, e um quarto deu-se a afugentar as moscas da cara do mdico para ele no acordar.
      - Deixem-no em paz - exclamou Maria Henrikovna, com um sorriso jovial e nada tmido. - Est a dormir, porque passou a, outra noite em claro.
      - Impossvel, Maria Henrikovna - replicou o oficial -, temos de ter cuidado com o doutor. Talvez seja a maneira de ele ter pena de ns quando for obrigado a cortar-nos um brao ou uma perna.
      S havia trs copos. A gua, de to suja, tornara impossvel saber se o ch estava forte ou fraco de mais, e no samovar apenas havia beberagem para seis copos. Contudo era uma satisfao para todos receber o seu copo,  vez, e por ordem de antiguidade, das mos rechonchudas, de curtas unhas, e nada limpas, de Maria Henrikovna. Naquela noite dir-se-ia que todos os oficiais estavam realmente enamorados dela. At os que se encontravam atrs do tabique a jogar as cartas acabaram por deixar o jogo, vindo juntar-se em volta do samovar, dispostos a fazer a corte a Maria Henrikovna. Ao ver-se rodeada de tantos moos distintos e corteses, a mulher do mdico no cabia em si de contente, embora procurasse esconder essa satisfao e estivesse receosa de que o marido entretanto acordasse.
      Havia apenas uma colher. O acar era de sobra, mas no se conseguia dissolv-lo na beberagem. Foi por isso resolvido ser ela a mexer o acar de todos, cada um por sua vez. Rostov, depois de ter deitado rum num copo, pediu a Maria Henrikovna que lhe mexesse o ch.
      - Mas o senhor no tem acar - exclamou ela, sorrindo sempre, como se tudo o que ela, dizia ou o que os demais diziam fosse engraadssimo e se prestasse a um segundo sentido.
      - No preciso de acar, o que eu queria era v-la a mexer o meu ch com a sua linda mozinha.
      Maria Henrikovna acedeu e ps-se  procura da colher de que algum se havia apropriado.
      - Mexa com o seu dedinho, Maria Henrikovna - disse Rostov -, ainda ser mais gostoso.
      - Mas est muito quente! - protestou ela, toda ruborizada de satisfao.
      Iline pegou num jarro de gua, deitou-lhe dentro algumas gotas de rum e aproximou-se de Maria Henrikovna, a quem pediu que o mexesse com o dedo.
      -  a minha chvena - disse ele. Ponha l o seu dedinho que eu bebo tudo.
      Unia vez despejado o samovar, Rostov pegou nas cartas e props-se jogar aos reis com Maria Henrikovna. Tiraram  sorte, para ver quem seria o parceiro dela. Rostov props, e foi aceite, que quem fosse rei teria o direito de beijar a mo de Maria Henrikovna e aquele que perdesse seria obrigado a preparar um novo samovar para o mdico, quando este acordasse.
      - E se o rei for Maria Henrikovna? - perguntou Iline.
      - J  rainha! E uma ordem sua  uma lei.
      Assim que principiou o jogo, por detrs de Maria Henrikovna ergueu-se a cabea toda esguedelhada do mdico. Havia algum tempo j que estava acordado, ouvindo o que se dizia. E via-se perfeitamente que aqueles ditinhos alegres nada tinham, para ele, de engraado ou divertido. Era triste e aborrecida a sua expresso. Sem saudar os oficiais, coou a cabea e pediu licena para sair, pois vedavam-lhe o caminho. Mal ele desapareceu, todos romperam num estrondoso riso, o que fez com que Maria Henrikovna corasse muito, razo por que ainda ficou mais atraente aos olhos dos companheiros. Quando voltou a entrar, o mdico disse  mulher, a qual perdera a vontade de rir e o olhava como se aguardasse, ansiosamente, a sentena que ele ia lavrar, que deixara de chover e que era melhor irem dormir para a kibitka, pois de outra maneira lhe roubariam as suas coisas.
      - Se quiser mandarei uma sentinela... at duas - disse Rostov. - No se preocupe, doutor.
      - Eu prprio me encarrego de fazer de sentinela! - acrescentou Iline.
      - No, meus senhores, os senhores dormiram bem, mas eu h duas noites que no prego olho - disse o mdico, sentando-se de m catadura ao p da mulher,  espera que a partida acabasse.
      O aspecto carrancudo do mdico, que olhava a mulher de soslaio, ainda lhes tornou a cena mais divertida, e alguns deles no puderam reter o riso, rompendo em gargalhadas para que buscavam justificaes adrede. Quando o mdico e a esposa foram alojar-se na pequenina kibitka, os oficiais deitaram-se no cho, cobrindo-se com os capotes molhados. Mas muito tempo levaram antes que adormecessem: ora se punham a comentar o ar carrancudo do mdico e a jovialidade da mulher, ora vinham  porta espreitar o que se estava passando dentro da kibitka.
      Por vrias vezes, Rostov, cobrindo a cabea, tentara dormir, mas os ditos deste e as sadas daquele no lho consentiam, e as conversas recomeavam, bem como as gargalhadas infantis, joviais, sem tom nem som, que rompiam de todos os lados.
      

      
      
      
      Captulo XIV
      
      As trs horas da manh, ainda no tinham conseguido conciliar o sono, apareceu um sargento com ordem de retirarem imediatamente para a aldeia de Ostrovno.
      Sem deixarem de palestrar e de rir, fizeram os oficiais apressadamente os preparativos da partida, e de novo acenderam o samovar, metendo-lhe dentro a mesma gua suja. Rostov, sem aguardar que o ch estivesse pronto, tratou de abalar para o esquadro. J era dia, deixara de chover, as nuvens abriam clareiras no cu. Sentia-se frio e humidade, sobretudo os que tinham em cima, do corpo roupas mal secas. Quando saram da taberna, Rostov e Iline, ao passarem, lanaram um olhar, atravs da semi-obscuridade da madrugada, s cortinas de couro da kibitka, todas reluzentes da chuva, por baixo das quais se estiraavam as longas pernas do mdico, e para o seu interior, onde se descortinava, numa almofada, a touca de noite de Maria Henrikovna, ouvia-se l dentro ressonar.
      - Realmente,  uma linda mulher - disse Rostov para Iline.
      -  encantadora! - replicou Iline, com a gravidade dos seus dezasseis anos.
      Meia hora mais tarde estava o esquadro alinhado na estrada. A voz de comando Montar! ressoou. Os soldados persignaram-se e montaram a cavalo. Rostov tomou o comando da coluna e gritou: Marchar! Os hssares, quatro a quatro, no meio do estrpito das patas dos cavalos na lama da estrada, do entrechocar dos sabres e do rumor das conversas surdas, puseram-se a caminho ao longo da ampla estrada orlada de lamos, atrs da infantaria e da artilharia, que caminhavam na vanguarda.
      O vento varria rapidamente as nuvens de um azul-violceo, todas avermelhadas l para os lados donde nascia o Sol. Ia clareando cada vez mais. Via-se agora nitidamente a erva rasteira e frisada que corre sempre ao lado das estradas vicinais e que estava toda repassada da chuva da vspera. Os ramos dos lamos, todos molhados tambm, balanando ao vento, despediam gotas de gua brilhantes. As caras dos soldados desenhavam-se cada vez mais distintamente. Rostov, com Iline, que o no deixava um s momento, cavalgava, ao longo da berma da estrada, entre duas fileiras de lamos.
      Em campanha, Rostov dava-se ao luxo de montar, no um cavalo regimental, mas um cavalo de cossaco. Como aficcionado e entendedor que era, arranjara ultimamente um alazo do Dom, de crinas brancas, belo animal, vigoroso e possante, que nenhum outro podia vencer. Mont-lo era para ele um grande prazer. Pensando no seu cavalo, na manh que chegava e na mulher do mdico, nem um s momento lhe vinha  mente o perigo grande que os esperava.
      Outrora, Rostov, antes de um combate, tinha medo; agora no sentia o mais pequeno receio. No porque se tivesse acostumado  metralha (ningum pode habituar-se ao perigo), mas aprendera a dominar a alma. Acostumara-se, quando ia para o combate, a pensar em tudo menos no que mais importava, a proximidade do perigo. Apesar de todos os seus esforos, no obstante chamar-se a si prprio cobarde, nos primeiros tempos fora-lhe muito difcil chegar quele resultado, mas com os anos as coisas vieram naturalmente. L ia cavalgando, ao lado de Iline, entre os lamos, arrancando, de quando em quando, um ramo que lhe passava junto das mos, outras vezes aflorando de leve com as esporas o ventre do cavalo, ou, sem se voltar, estendendo o cachimbo ao hssar que o seguia, to tranquilo e despreocupado como se fosse em passeio. Grande era a compaixo que lhe inspirava o rosto alterado de Iline, que falava muito e se mostrava inquieto. Conhecia por experincia aquela angstia na expectativa do medo e da morte que apertava o corao do porta- estandarte Iline e sabia que s o tempo lhe daria remdio.
      Assim que o disco do Sol apareceu numa faixa de cu descoberta, emergindo de entre as nuvens, o vento serenou como se no quisesse perturbar aquela magnfica manh de Vero aps a, tempestade da noite. Ainda caram algumas gotas de chuva, mas verticalmente j, e tudo se acalmou... O Sol descobrira-se por completo, surgindo por cima da linha do horizonte e desaparecendo em seguida por detrs de uma longa e estreita nuvem. Minutos depois despontou de novo, mais brilhante ainda, pela parte superior da nuvem, cujos bordos se franjaram, Tudo se iluminou e cintilou. E, como que para saudar esta onda de luz, ouviu-se, l longe, o troar do canho. Ainda Rostov no tivera tempo de se dar conta da distncia a que estavam a troar os canhes quando surgiu, a galope, dos lados de Vitebsk, um ajudante-de-campo do conde Ostermann Tolstoi com ordem de meterem a trote.
      O esquadro, ultrapassando a infantaria e, a bateria de artilharia, que igualmente aceleraram a sua marcha, meteu por uma ladeira, atravessou uma povoao abandonada pelos habitantes, e outra vez subiu a encosta. Os cavalos estavam cobertos de suor e os rostos dos soldados afogueados pela cavalgada,
      Alto! Alinhar!, gritou a voz do comandante. A esquerda, marchar!
      Os hssares seguiram ao longo do flanco esquerdo das tropas e foram colocar-se por detrs dos ulanos da primeira linha, A direita, formando uma coluna compacta, estava a infantaria, que constitua a reserva. Por cima dela, na colina, destacavam-se os canhes russos iluminados pela luz clara e oblqua da manh. L para diante, no vale, divisavam-se as colunas e os canhes do inimigo. As primeiras linhas russas j tinham entrado em aco, trocando vivo tiroteio com os franceses,
      Como se ouvisse os primeiros compassos de uma alegre melodia, Rostov regozijou-se com o rudo da fuzilaria, que havia muito no ouvia! Trap, ta, ta, tap! As descargas sucediam-se, ora simultaneamente, ora sucessivas, Depois tudo ficava silencioso, e de repente os estampidos recomeavam, como se fossem petardos que algum tivesse pisado,
      Os hssares permaneceram quase uma hora no mesmo stio, o canhoneio recomeou. Seguido da sua escolta, passou o conde Ostermann por detrs do esquadro. Parou, trocou algumas palavras com o comandante do regimento e afastou-se na direco dos canhes instalados na colina.
      Pouco depois de ele se ter afastado ouvia-se a voz do comandante dos ulanos gritar: Formar, colunas! Atacar! A infantaria, que os encobria, abriu fileiras para deixar passar a cavalaria. Com as flmulas das suas lanas flutuando ao vento, os ulanos desceram a trote a encosta ao encontro da cavalaria francesa, que se divisava no sop da colina,  esquerda.
      Assim que os ulanos abandonaram a sua posio, os hssares receberam ordem de subir  cumeada para cobrirem a bateria. Enquanto este movimento se executava, algumas balas, gemendo e assobiando, passaram, perdendo-se no ar.
      Este rudo, que Rostov h muito no ouvia, ainda mais o estimulou que os primeiros que ouvira, enchendo-o de fora e de alegria.
      Endireitou-se na sela e ps-se a observar o campo de batalha, que se descortinava do alto, e com toda a sua alma tomou parte no ataque dos ulanos. Estes caram sobre os drages franceses.
      No meio da fumarada houve um momento de confuso e cinco minutos depois os ulanos retrocediam a galope, no para o lugar que anteriormente ocupavam, mas um pouco mais para a esquerda. Por entre os uniformes alaranjados dos ulanos em seus cavalos alazes, e tambm na sua retaguarda, distinguia-se um grupo compacto de drages azuis montados em cavalos cinzentos.
      

      
      
      
      Captulo XV
      
      Rostov, com o seu penetrante olhar de caador, fora um dos que primeiro vira os drages azuis na cola dos ulanos. Estes fugiam em debandada, e os franceses, que os perseguiam, cada vez se aproximavam mais deles. J se podiam ver os homens, que l no sop da colina pareciam pequenssimos, investirem agitando os sabres e os braos.
      Rostov olhava para o espectculo como se assistisse a uma caada. Por instinto, compreendia que, se casse, naquele momento, COM os seus hssares, sobre os drages franceses, estes no resistiriam, mas era preciso agir imediatamente, de chofre; de outra maneira seria tarde de mais. Olhou  sua volta. O capito, que estava a seu lado, tambm no perdia de vista a cavalaria l no fundo da encosta.
      - Andr Sevastianitch - disse. - Ns podamos dar cabo deles...
      - Realmente, que golpe magnfico - exclamou o capito - e se...
      Sem ouvir mais, Rostov esporeou o seu cavalo e ps-se  frente do esquadro. No teve tempo de dar qualquer voz de comando; todos os seus homens, impelidos pelo mesmo sentimento, se precipitaram atrs dele. Nem ele prprio sabia como e porque agira daquela maneira. Procedera como se estivesse numa caada, sem pensar, nem reflectir. Ali muito perto via os drages que galopavam. Tinha a convico ntima de que no resistiriam. Sabia que, se perdesse a oportunidade, aquele minuto no voltaria. O assobio das balas excitava-o tanto, tamanha era a impacincia do seu cavalo, que no pudera resistir. No momento em que esporeava a montada, soltando o grito de comando, sentiu atrs de si todo o esquadro que se agitava, e despediu a trote largo, pela encosta abaixo, direito aos drages. Mal atingiram o fundo da encosta, os cavalos, espontaneamente, puseram-se a galopar, galope que se tornava cada vez mais rpido  medida que se aproximavam dos ulanos e dos drages que os perseguiam. Estes estavam muito prximos. Os que iam na vanguarda, ao verem carregar os hssares, deram meia volta, e os da retaguarda pararam. Impelido pelo mesmo entusiasmo de quando se lanava atrs de um lobo, Rostov, lanando  rdea solta o seu cavalo do Dom, precipitou-se atravs das fileiras desordenadas dos drages. Um ulano estacou, um soldado de infantaria deitou-se ao cho para no ser esmagado, um cavalo sem cavaleiro veio embater nos hssares. Quase todos os drages fizeram meia volta. Rostov firmou-se num montado num cavalo cinzento, correu sobre ele. Na sua galopada surgiu-lhe diante uma moita; o seu rico cavalo empinou-se e galgou-a de um salto. Aguentando-se a custo em cima do selim, momentos depois Nicolau verificava ter apanhado o inimigo que se propusera atacar. Este, oficial, naturalmente, como se depreendia do uniforme, todo alapardado sobre o cavalo, galopava a mais no poder, fustigando-o com o sabre. Num abrir e fechar de olhos a montada de Rostov veio embater com os peitorais na garupa do cavalo do drago, que por pouco no atirou a terra, ao mesmo tempo que Nicolau, sem saber o que fazia, brandia o sabre e feria o inimigo.
      De sbito todo o seu entusiasmo se desvaneceu por completo.
      O oficial caiu, no tanto em virtude da sabrada que recebera, a qual apenas lhe rasgara o brao um pouco acima do pulso, mas por causa do choque dos dois animais e do medo que o tornou. Refreando o seu cavalo, Rostov procurou-o com a vista para ver o homem a quem acabava de atacar. O oficial de drages saltava, coxo, um dos ps preso no estribo. Fechava os olhos, franzia as sobrancelhas, cheio de medo, sempre  espera de receber uma nova cutilada, horrorizado, olhando, de baixo para cima, para o hssar. Aquele rosto, plido e sujo de lama, muito infantil, de cabelos louros, olhos azul-claros, uma covinha no queixo, no era um rosto de guerreiro, um rosto de inimigo, mas a mais simples das caras, uma cara de filho de famlia. Ainda Rostov no sabia o que ia fazer dele quando o oficial gritou: Rendo-me!
      Tentando libertar o p do estribo, sem o conseguir, continuava a fitar Rostov com os olhos azuis espavoridos. Os hssares que acorreram soltaram-lhe o p e ajudaram-no a montar. Por todos os lados havia hssares a bater-se contra os drages. Um deles estava ferido, e embora o sangue lhe escorresse pela cara abaixo no largava o cavalo; outro, com um hssar nos braos, cavalgava montado na garupa; um terceiro montava amparado por um hssar. A infantaria francesa acorria em reforo, disparando. Os russos trataram de se retirar, levando consigo os prisioneiros. Rostov ia atrs deles, dominado por uma penosa sensao, que lhe alanceava a alma. Despontava nele um pensa- mento obscuro, complicado, que no compreendia, desde que fizera prisioneiro aquele homem, e sobretudo desde que o atingira com o sabre.
      O conde Ostermann Tolstoi acolheu os hssares, mandou chamar Rostov, felicitou-o e disse-lhe que comunicaria ao imperador o seu acto herico, propondo-o para a cruz de S. Jorge. Quando o chamaram  presena do conde, lembrando-se de que atacara sem ordens superiores, ia convencido de que o iriam castigar por ter agido de moto prprio. Maiores foram por isso a sua surpresa e o contentamento que sentiu ao ouvir as palavras elogiosas de Ostermann e a promessa de uma recompensa. No entanto, o tal sentimento obscuro e penoso continuava a pesar-lhe no corao. Ento, que me est a atormentar?, perguntava a si Prprio, no regresso. Iline? No; esse est so e salvo. Procederia eu mal? No. No  nada disso. Qualquer outra coisa o atormentava como um remorso. Sim, sim,  aquele oficial francs com a covinha no queixo. Ah!, sim, j sei! Foi o meu brao que se deteve quando o ergui para o acutilar.
      Ao ver aproximar-se a leva dos prisioneiros quis tornar a Olhar para o francs. L vinha ele, com o seu estranho uniforme, montado num belo cavalo de hssar, lanando em roda olhares inquietos. A ferida que recebera no brao era por assim dizer insignificante. Sorriu para Rostov, com um ar embaraado, acenando-lhe com a mo, como se o cumprimentasse. Tambm Rostov se sentiu embaraado e quase com vergonha.
      Durante todo aquele dia e no que se lhe seguiu, amigos e camaradas notaram que, embora no estivesse aborrecido ou zangado, permanecia silencioso, pensativo e concentrado. No lhe apetecia beber, procurava estar s e dir-se-ia obcecado por uma ideia qualquer.
      Rostov no se cansava de pensar na proeza que com grande espanto seu lhe valera a cruz de S. Jorge e lhe fizera ganhar a reputao de heri, dizendo de si para consigo haver ali qualquer coisa que ele no podia compreender. Ento eles ainda tm mais medo do que eu!, dizia com os seus botes. E  a isto que se chama herosmo? Foi, realmente, pela minha ptria que eu fiz isto? E que culpa cabe quele outro com a sua covinha no queixo e os seus olhos azuis? E o medo que teve! Julgava que eu o ia matar. E porque havia eu de o matar? Alis, tremeu-me a mo. E dar-me-o a cruz de S. Jorge! Realmente no consigo perceber!
      A verdade, porm,  que enquanto Rostov ia debatendo consigo todas estas interrogaes, sem conseguir uma ideia clara do que o perturbava a tal ponto, a roda da fortuna, como tantas vezes acontece, rodava a seu favor. Depois da aco de Ostrovno foi promovido, nomearam-no comandante de batalho e quando precisavam de um oficial corajoso para qualquer misso a ele se dirigiam.
      

      
      
      
      Captulo XVI
      
      Quando teve conhecimento da doena de Natacha, a condessa, que ainda no estava restabelecida e se sentia fraca, partiu para Moscovo com Ptia e toda a criadagem. A famlia abandonou a casa de Maria Dmitrievna e foi instalar-se na sua residncia da capital, onde todos se reuniram.
      A doena de Natacha era to sria que, felizmente para ela e para os pais, as causas que a tinham provocado - o seu procedimento e o desmanchar do casamento - foram relegadas para segundo plano. To grave era o seu estado que ningum pensava nas suas culpas e em tudo o que acontecera. No comia, no dormia, emagrecia a olhos vistos, tossia e corria srio risco, como os mdicos davam a entender. No se podia pensar noutra coisa seno em trat-la. Os mdicos iam v-la, quer separadamente, quer em conferncia, discutiam muito em francs, alemo e latim, criticavam-se mutuamente, prescreviam os remdios mais variados, aptos para curar todas as doenas de que tinham conhecimento, mas nunca pela cabea de qualquer deles passou a ideia to simples de que a doena de que ela padecia estava to pouco ao seu alcance como qualquer dos muitos males de que sofre a criatura humana. Cada homem, com efeito, tem sua constituio particular e traz consigo a sua doena especial, uma doena s dele, nova, complicadssima, desconhecida da medicina, uma doena que no  dos pulmes, nem do fgado, nem da pele, nem do corao, nem dos nervos, etc., no est descrita nos livros, mas  produto de inumerveis combinaes produzidas pela alterao dos rgos. Esta ideia simplssima no podia vir  cabea dos mdicos - pela mesma razo que uma bruxa no pode renunciar aos seus bruxedos -, pois que o mister deles era curar, para isso eram pagos, e a essas funes consagravam os melhores anos da sua vida. Se antes de mais nada, porm, lhes no vinha  cabea uma tal ideia,  porque sabiam incontestavelmente serem teis, e o facto  que eram de grande utilidade para todos os habitantes da casa Rostov. No por fazerem com que a doente ingerisse drogas geralmente prejudiciais, cujo nefasto efeito era, de resto, atenuado por serem tomadas em pequeninas doses. Eram teis, indispensveis, inevitveis pelo facto de darem satisfao s necessidades morais da doente e daqueles que lhe queriam, e  essa a razo por que h e sempre haver curandeiros, charlates, homeopatas e alopatas. Davam satisfao aos desejos, perenes no homem, de consolao,  avidez de simpatia que h nele,  necessidade de que se ocupem dele sempre que sofre. Davam satisfao a essa perene necessidade que nas crianas se observa sob a sua forma elementar esfregando o stio em que se magoam. A criana que se magoa vai logo lanar-se nos braos da me ou da ama, na esperana de que elas a beijem e lhe esfreguem o lugar ofendido, e o certo  que se sente consolada assim que obtm estes carinhos. No lhe passa pela cabea que as pessoas mais fortes e mais crescidas do que ela sejam capazes de a no socorrer. E com efeito a esperana de um lenitivo, a simpatia que lhe testemunham enquanto a me lhe passa a mo pelo stio lesado, eis quanto basta para a consolarem. Os mdicos desempenhavam junto de Natacha o papel da me que beija o filho e lhe passa a mo pelo di-di. Diziam-lhe que o mal de que padecia se curaria desde que o cocheiro fosse comprar ao farmacutico da Praa de Arbate, por um rublo e sete grivens, certos ps ou certas plulas, numa caixinha muito bonita, e ela tomasse esses ps, sem falta, de duas em duas horas, nem mais nem menos, em gua fervida.
      Que seria de Snia, do conde, da condessa, se todos tivessem de cruzar os braos em vez de cuidarem em dar-lhe essas plulas de hora a hora, essas poes mornas, em vez de lhe prepararem esses caldos de galinha e tantas outras coisas prescritas pelos mdicos, coisas para eles uma ocupao e uma consolao apreciveis? Teria o conde podido suportar a doena da sua filha querida se no pudesse dizer consigo mesmo que esta j lhe custara mil rublos e que de bom grado despenderia outros mil para lhe dar alvio, se no pudesse pensar que para a restabelecer no se importaria de gastar outros mil rublos, levando-a a consultar mdicos no estrangeiro sem olhar a despesas; se lhe no tivesse sido dado contar a toda a gente que Mtivier e Feller nada tinham percebido do estado dela e que Friese acertara com o mal, mas que Mudrov ainda fora mais feliz no seu diagnstico? Que teria sido da condessa se lhe no fosse dado zangar-se de quando em quando com a doente por esta no seguir  risca as prescries mdicas?
      - Assim nunca mais te curas - dizia-lhe ela numa irritao que a fazia esquecer o desgosto -, se no ouves o que diz o mdico e no tomas o teu remdio a tempo e a horas! No  ocasio para brincadeiras, quando tudo isso pode degenerar numa pneumonia - acrescentava, consolada por poder empregar aquele termo cientfico nem s para ela ininteligvel.
      E Snia, que teria feito Snia pela sua parte se no lhe fosse dada a satisfao de dizer a si mesma que passara, de princpio, trs noites sem se despir, sempre pronta a executar pontualmente as prescries do mdico e que ainda ento mal fechava os olhos para no esquecer a hora de lhe administrar as plulas assaz inofensivas da linda caixa dourada? E a prpria Natacha, conquanto estivesse sempre a dizer que nenhum medicamento a poderia curar e que todas aquelas drogas eram tolice, ela prpria sentia uma certa satisfao ao ver que as pessoas faziam por ela tantos sacrifcios, e tomava as suas poes a horas fixas. E at alegre se sentia descuidando-se do cumprimento das prescries, por poder mostrar que no acreditava na cura e que no apreciava a vida.
      Todos os dias vinha o mdico, que lhe tomava o pulso, lhe olhava a lngua e gracejava com ela, sem prestar ateno ao seu parecer desfeito. Depois, quando entrava no quarto contguo, a condessa seguia-o, e ele, com um ar grave e abanando a cabea pensativamente, afirmava que, embora a situao fosse bastante grave, tinha confiana no efeito do ltimo remdio, que era preciso aguardar e ver, que a doena era sobretudo moral, mas que...
      A condessa, procurando dissimular o pormenor, tanto aos seus prprios olhos como aos do mdico, introduzia-lhe na mo uma moeda de ouro e voltava sempre com o corao mais aliviado para ao p da doente.
      As caractersticas da doena de Natacha consistiam em que comia e dormia pouco, tossia e no tinha nimo para coisa alguma. Os mdicos diziam que ela no podia estar sem assistncia clnica e por isso a mantinham na atmosfera sufocante da cidade. Os Rostov passaram o ano de 1812 sem irem  aldeia.
      Apesar da imensidade das plulas absorvidas, das gotas e dos ps em garrafinhas e caixas, caixas de que Madame Schoss, que muito apreciava esse gnero de bugigangas, fizera uma coleco completa, apesar de a terem privado dos ares do campo, a mocidade venceu. O desgosto de Natacha foi pouco a pouco absorvido pelas impresses da vida quotidiana. Deixou de sentir uma dor to violenta, que, lentamente, se foi desvanecendo e as foras fsicas principiaram a reanim-la.
      

      
      
      
      Captulo XVII
      
      Natacha estava mais tranquila, mas no mais alegre. No s evitava todas as oportunidades de se distrair - os bailes, os passeios, os concertos, os espectculos -, como nunca na sem que sentisse as lgrimas a borbulhar por detrs do riso. J no podia cantar. Se se punha a rir, ou se tentava cantar s para si, as lgrimas sufocavam-na: lgrimas de arrependimento, lgrimas choradas sobre o seu inocente passado, que no mais volta- ria, lgrimas de pesar por ter dissipado daquele modo a sua juventude, que to feliz podia ter sido. O riso e o canto afiguravam-se-lhe como que uma profanao da sua dor. Nem sequer pensava em ser coquette, pelo que no precisava de se reprimir. Dizia Para si mesma que todos os homens agora lhe eram to indiferentes como Nastsia Ivanovna, o bobo. Uma voz ntima lhe interdizia ainda toda a espcie de prazeres. J no sentia em si o amor  vida como outrora, no tempo em que fora rapariga descuidada, cheia de esperanas. Lembrava-se, com muitas saudades, dos meses do Outono, da caa, do tio, das festas do Natal, na Companhia de Nicolau, em Otradnoie. Que no teria ela dado Para voltar atrs, um dia s que fosse, a esses felizes tempos! Mas no, tinham passado para sempre. No a enganava o pressentimento de que nunca mais voltaria a encontrar a alma livre que tivera outrora, aberta, a todas as alegrias. No entanto era preciso viver. Consolava-a pensar que no era mais feliz do que os outros, como imaginara antigamente, mas menos, muito menos feliz do que qualquer outra pessoa. O presente, contudo, pouco lhe importava. Desconfiava dele e perguntava a si mesma muitas vezes: Que acontecer mais tarde? E o futuro tambm nada lhe dizia. J no sentia alegria na vida e a vida continuava a passar. A nica coisa que desejava era no ser pesada a ningum, no incomodar fosse quem fosse, embora para si mesma nada pedisse. Conservava-se muitas vezes afastada de todos os que a cercavam e a nica satisfao que tinha era junto de Ptia, seu irmo.
      Divertia-se muito mais com ele do que com os outros e por vezes a ss com a criana voltava a ser alegre. Quase no saa de casa, e de todas as pessoas que a visitavam uma s lhe era simptica: Pedro. Ningum era capaz de lhe falar com tanta ternura, tanto tacto e ao mesmo tempo tanta seriedade como o conde Bezukov. Sem dar por isso, sentia bem toda aquela ternura, da o grande prazer que lhe dava a companhia do amigo. E no entanto nem sequer lhe agradecia. Sabia que a bondade nada custava a Pedro. To natural lhe parecia a ele dever ser bom para toda a gente que lhe no advinha da qualquer mrito. Por vezes Natacha percebia-o embaraado e confuso na sua presena, principalmente quando ele queria ser-lhe agradvel ou ento quando receava que a conversa lhe pudesse trazer penosas recordaes. Reparava nisso e atribua o facto ao seu bom corao e sua timidez, que tmido, supunha-o ela, devia ele ser com toda a gente.
      Desde aquele dia em que lhe dissera inopinadamente que se fosse livre lhe pediria de joelhos que lhe quisesse e casasse com ele, palavras pronunciadas num momento de profunda emoo, Pedro nunca mais lhe falara dos seus sentimentos e para ela era evidente que aquelas palavras, que ento lhe haviam sido de grande lenitivo, no tinham tido mais importncia do que o que se diz Para consolar uma criana que chora. No por Pedro ser casado, mas por Natacha sentir entre eles, no mais alto grau, aquela barreira moral que tanta falta lhe fizera na presena de Kuraguine; nunca lhe ocorrera que das suas relaes pudesse nascer amor, no s nela, mas muito menos nele, ou sequer essa espcie de amizade amorosa, s poesia natural entre um homem e uma mulher, como ela conhecia alguns casos.
      Depois da Quaresma de S. Pedro, Agrfena Ivanovna Bielova, vizinha dos Rostov em Otradnoie, chegou a Moscovo para orar aos santos moscovitas. Props a Natacha que fizesse com ela as suas devoes e esta aceitou a ideia com alegria.
      Apesar da advertncia dos mdicos, que a proibiam de sair de manh cedo, ela insistiu em fazer as suas devoes, e no era como de costume em casa dos Rostov, ou seja mandando rezar trs ofcios na capela particular, mas como as fazia Agrfena Ivanovna, isto , durante uma semana inteira, sem faltar s matinas,  missa e ao ofcio de vsperas.
      Esta devoo religiosa agradou  condessa, que no fundo esperava, depois do tratamento pouco profcuo dos mdicos, que a orao fosse mais eficaz do que as drogas. E embora receosa, escondendo o caso ao mdico, cedeu aos desejos da filha, confiando-a  senhora Melova. Agrfena Ivanovna costumava chamar Natacha s trs horas da manh, e geralmente j a encontrava acordada. Arranjada  pressa, tendo enfiado o seu mais simples vestido e um casaco velho, l ia a tremer de frio, pela algidez da noite, ao longo das ruas desertas, que a aurora comeava j a iluminar. A conselho da companheira, Natacha no se dirigia  igreja paroquial, mas ao templo em que a devota Bielovna dizia haver um sacerdote muito austero e digno. Havia ali sempre muito poucos fiis. As duas mulheres iam colocar-se no seu recanto habitual, diante do cone da Virgem, que pendia da parte posterior do coro esquerdo. Um desconhecido sentimento de humildade invadia a alma de Natacha na presena de qualquer coisa de grande e de inacessvel quando, quela hora da manh, contemplando o rosto enegrecido da Me de Deus iluminado pelos crios e a luz da madrugada filtrada pelas janelas, prestava ateno ao ofcio divino, que procurava compreender. Se percebia as palavras, os seus sentimentos ntimos fundiam-se com a orao, se as no percebia, ainda lhe era mais grato pensar que o desejo de tudo compreender nascia do orgulho e no era possvel saber tudo e que cada qual deve limitar-se a crer e a confiar-se a Deus, que ela, naqueles instantes, sentia reinar no seu corao. Persignava-se, posternava-se e quando no compreendia limitava-se, horrorizada perante as suas inquietaes, a pedir a Deus que lhe perdoasse e se amerceasse dela. As oraes que proferia eram de contrio. No regresso a casa, a uma hora ainda muito matinal, quando nas ruas apenas se viam os operrios a caminho do trabalho, os porteiros que varriam os passeios diante das portas, e toda a gente dormia, Natacha experimentava um sentimento novo para ela, a possibilidade de corrigir os seus defeitos e vir a conhecer ainda uma vida de regenerao pura e feliz.
      Durante toda a semana em que se consagrou a estas piedosas prticas cresceu nela este sentimento de regenerao. E a felicidade que era para ela comungar, ou, como Agrfena Ivanovna gostava de dizer, recorrendo a um trocadilho, comunicar com Deus, afigurava-se-lhe tamanha que receava morrer antes da chegada desse bem-aventurado domingo.
      Essa venturosa data chegou, por fim, e quando Natacha, nesse domingo memorvel, voltou da comunho, com o seu vestido de musselina branca, foi a primeira vez aps muitos meses que se sentiu em paz consigo mesma e a vida deixou de lhe parecer penosa.
      O mdico,  hora da visita habitual, observou-a e mandou que continuassem a dar-lhe os ps que prescrevera quinze dias antes.
      -  preciso tom-los de manh e  noite, sem falta - disse, convencido da eficcia da droga -, e com toda a regularidade, se fazem favor. Esteja descansada, condessa  - gracejou, fechando com presteza, na palma da mo, a moeda de ouro costumada -, no tarda que a tornemos a ver cantar e divertir-se. Est com muito melhor parecer,
      A condessa, olhando para as unhas, cuspiu (Entre o povo russo, cuspir correspondia a um exorcismo. (N, dos T)  voltando muito contente ao salo.
      

      
      
      
      Captulo XVIII
      
      Em princpios de Julho espalharam-se em Moscovo boatos cada vez mais inquietantes sobre a marcha das operaes militares; falava-se numa proclamao do imperador dirigida ao povo e no seu regresso  capital. Ora como a 11 ainda se no tinha conhecimento de qualquer manifesto nem de qualquer proclamao, mais exagerados se espalharam os rumores a esse respeito e a propsito da situao. Dizia-se que o imperador abandonava o exrcito por este estar em perigo, que Smolensk se rendera, que Napoleo dispunha de um milho de homens e que s um milagre podia salvar a Rssia.
      Sbado, 11, recebeu-se o manifesto, mas ainda no fora tornado pblico, Pedro, que se encontrava nessa altura em casa dos Rostov, prometeu vir jantar no dia seguinte, domingo, e trazer o manifesto e a proclamao, que esperava obter atravs do conde Rostopchine.
      Nesse domingo, como de costume, os Rostov foram ouvir missa  capela particular dos Razumovski. Estava muito calor. Desde as dez da manh, hora a que os Rostov se apearam da sua carruagem diante da capela, que o vento quente, os preges dos vendedores ambulantes, a multido com os seus trajos claros do Estio, as rvores das avenidas cobertas de poeira, o ratapl da banda de um regimento de pantalonas brancas dirigindo-se  parada, o rolar das carruagens ao longo dos pavimentos, o resplandecer de um sol de fogo, tudo se misturava, transmitindo j essa impresso amodorrante, misto de satisfao e de desgosto, que costuma sentir-se numa grande cidade em dia de muito calor. Boa parte da nobreza moscovita, personagens dos conhecimentos dos Rostov, estava reunida na capela dos Razumovski. Nesse ano, por causa dos acontecimentos, muitas das mais ricas famlias haviam ficado na capital, embora habitualmente passassem esses meses nas suas propriedades no campo. Seguindo atrs de um lacaio que afastava a multido, Natacha, ao lado da me, ouvia um rapaz falar dela em voz baixa.
      -  a Rostov, a que...
      - Que magra, mas ainda assim  uma linda rapariga!
      Julgou ouvi-los pronunciar os nomes de Kuraguine e de Boikonski. Alis, isso acontecia-lhe frequentemente. Estava sempre a pensar que toda a gente falava da sua aventura. Dolorosamente sentida e de corao apertado, que assim estava sempre no meio da multido. Natacha continuou a andar, com o seu vestido de seda lils guarnecido de rendas pretas, num passo tanto mais calmo e majestoso quanto maior a vergonha e o desgosto no fundo da alma, Sabia muito bem, e no se enganava, que era muito bonita; mas no sentia com isso o prazer de outrora. Pelo contrrio, ultimamente o reconhecer que assim era fazia-a sofrer, sobretudo num dia como aquele, claro e quente, em plena cidade. Mais um domingo, mais uma semana, dizia de si para consigo, lembrando-se de que ali viera no domingo anterior, e sempre a mesma vida, que no chega a ser vida, sempre a mesma gente agradvel de antigamente. Sou bonita, sou nova e agora tambm sei que sou bondosa; antigamente era m, mas agora no, tenho a certeza, e assim, em pura perda, vo passando os meus dias sem proveito para nada, sem proveito Para ningum. Ficou ao lado da me e cumprimentou com acenos de cabea as pessoas conhecidas mais prximas. Como de costume, examinou os vestidos das senhoras, criticou o porte e a maneira pouco fina como uma delas fazia o sinal da cruz, e ali a dois passos, na estreita capela, pensou com despeito que diziam dela o que ela dizia das demais, mas de sbito, assim que principiou o servio divino, sentiu-se como que assustada diante da sua prpria baixeza e como que aterrada ao ver que perdera de novo a pureza de outrora.
      Um velhinho, de venervel aspecto, oficiava, com a serena uno de to apaziguadora influncia na alma dos fiis. As portas reais abriram-se; a cortina afastou-se lentamente; ouviu-se l dentro uma voz misteriosa e doce. Lgrimas, cuja causa ela no compreendia, oprimiam Natacha, e uma impresso alegre e enervante a invadiu,
      Ensina-me o que tenho de fazer, como me devo conduzir na vida, como corrigir-me para sempre, orava ela.
      O dicono subiu ao plpito, afastou com o dedo polegar as longas madeixas que lhe saram do stikar, e depois de ter levado a cruz ao peito leu, em alta voz e solenemente, as palavras da orao.
      Oremos em paz a Deus nosso Senhor!
      Oremos em paz todos juntos, isto , sem distines de classe, sem dios, unidos no mesmo amor fraternal, disse Natacha para si mesma.
      Oremos para que nos seja dado o reino dos Cus e a salvao das nossas almas!
      Sim, o reino dos anjos e de todos os espritos celestes que vivem por cima de ns, pensou ela, ao mesmo tempo.
      Quando rezaram pelo exrcito lembrou-se do irmo e de Denissov. Quando rezaram pelos que andam sobre a terra e sobre o mar, rezou pelo prncipe Andr, pedindo que o Senhor lhe perdoasse o mal que lhe fizera. Quando oraram pelos entes queridos, rezou pelos seus, pelo pai, pela me e por Snia, e pela primeira vez sentiu quanto era culpada para com eles e quanto lhes queria. Quando rezaram pelos que tm dio, procurou saber quais os seus inimigos e os que lhe queriam mal, para rezar por eles. No achou, porm, seno os credores de seu pai e aqueles que com ele haviam questionado. E assim lhe veio  mente Anatole, que tanto mal lhe fizera, e embora o no considerasse no nmero dos que a odiavam, rezou por ele, satisfeita, como se de um inimigo se tratasse. S enquanto rezava era capaz de se lembrar serenamente e sem comoo do prncipe Andr e de Anatole, pois os sentimentos que nesse momento sentia nada eram ao p do seu temor e do seu amor de Deus. Quando rezaram pela famlia imperial e pelo Santo Snodo, ainda se posternou mais contra o solo, persignando-se e dizendo para si mesma que, embora o no compreendesse, lhe era impossvel duvidar e que, fosse como fosse, tinha de amar o Snodo e rezar por ele.
      Dita que foi a lektenia, o dicono fez com a estola o sinal da cruz sobre o peito e murmurou:
      Encomendemo-nos, e encomendemos as nossas vidas a Jesus Cristo Nosso Senhor!
      Encomendemo-nos a Deus, repetiu Natacha no seu ntimo. Deus meu, entrego-me  Tua vontade, orou ela. Nada quero nem desejo mais. Ensina-me o que devo fazer, como hei-de empregar a minha vontade! Mas toma-me, toma-me!, murmurou ela mentalmente com exaltao e impacincia, sem se benzer, deixando cair os braos, como se esperasse que uma fora invisvel, naquele mesmo instante, tomasse conta dela e a libertasse de si prpria, das suas mgoas, dos seus desejos, dos seus remorsos, das suas esperanas e dos seus erros.
      A condessa, por vrias vezes durante o ofcio, relanceara os olhos ao rosto recolhido e aos olhos fulgurantes da filha e rogara a Deus que a ajudasse.
      Subitamente, no meio da cerimnia, e alterando a ordem que Natacha muito bem conhecia, o sacristo trouxe um escabelo, o escabo que costumava servir para ler as oraes da Santssima Trindade, e colocou-o diante das portas reais. O sacerdote, com a sua sotaina de veludo lils, emergiu das portas, comps os cabelos e ajoelhou com dificuldade. Todos os fiis repetiram o seu gesto, olhando uns para os outros com grande surpresa. Ia-se rezar a orao, recentemente emanada do Santo Snodo, rogando a Deus a salvao da Rssia, sob a ameaa da invaso estrangeira.
      Senhor Deus todo-poderoso, Deus da nossa salvao, principiou o sacerdote nessa voz ntida, suave e sem nfase to caracterstica dos eclesisticos eslavos quando oram e que to grande Poder exerce sobre a alma russa.
      Senhor Deus todo-poderoso, Deus da nossa salvao! Concede a Tua graa e a Tua misericrdia s Tuas humildes criaturas e ouve a nossa orao, amerceia-Te de ns e tem piedade.
      O inimigo enche de confuso a Terra e quer transformar o mundo num deserto. Este inimigo levanta-se contra ns. Homens criminosos reuniram-se para destruir o Teu bem, para arrasar a Tua fiel Jerusalm, a Tua Rssia bem-amada, para conspurcar Os Teus templos, derrubar os altares e profanar os Teus santurios. At quando, Senhor, at quando triunfaro os pecadores?
      Senhor todo-poderoso! Escuta-nos a ns, que Te imploramos: ampara com a Tua fora o nosso mui piedoso imperador autocrata Alexandre Pavlovitch. Lembra-Te da sua lealdade e da sua doura, recompensa-o pela bondade com que ele nos protege, a ns, a Tua Israel bem-amada. Abenoa as suas decises, as suas empresas, as suas obras. Revigora com a Tua dextra todo-poderosa o seu reino e concede-lhe a vitria sobre o inimigo, como a Moiss sobre Amalek, Gedeo sobre Madian, David sobre Golias. Protege os seus exrcitos, sustm o arco de cobre debaixo do brao dos que se armaram em Teu nome e cinge-os com a Tua fora para o combate. Pega nas Tuas armas e no Teu escudo e vem em nosso auxlio. Que a confuso e a vergonha caiam sobre aqueles que nos querem mal e que eles sejam diante do rosto dos Teus fiis armados como a poeira diante do vento e que o Teu Anjo todo-poderoso os expulse e persiga. Que uma rede os envolva sem eles darem por isso e que as armadilhas que escondem sirvam para que caiam nelas. Que eles caiam aos ps dos Teus escravos e que eles sejam esmagados pelos Teus exrcitos, Senhor! Tens o poder que salva grandes e pequenos. Tu s Deus e o homem nada pode contra Ti.
      Deus de nossos pais! Lembra-Te da Tua generosidade e da Tua graa, que so etcrnas. No nos afastes da Tua presena, no Te apartes das nossas iniquidades, mas, na grandeza da Tua bondade e na imensidade da Tua misericrdia, esquece os nossos crimes e os nossos pecados. Edifica em ns um corao puro e renova no nosso seio um esprito recto. Fortalece-nos a todos na nossa f em Ti, revigora a nossa esperana, inspira-nos um verdadeiro amor ao prximo, une-nos a todos para a defesa legtima do patrimnio que Tu nos deste, a ns e a nossos pais, e que o ceptro dos mpios se no eleve sobre a terra daqueles a quem abenoaste.
      Senhor nosso Deus, em quem ns cremos e em quem temos firme confiana, no desiludas a nossa esperana na Tua graa c, faz um milagre para nosso bem. Que o vejam aqueles que nos odeiam, a ns e  nossa f ortodoxa, e que eles sejam confundidos e que peream e que todas as naes saibam que o Teu nome  Senhor e que ns somos Teus filhos. Revela-nos, Senhor, hoje mesmo, a Tua misericrdia e concede-nos a Tua salvao. Regozija o corao dos Teus escravos com a Tua graa. Fulmina os nossos inimigos e aniquila-os debaixo dos ps dos Teus fiis. s o apoio, s o socorro e a vitria dos que confiam em Ti. Glria ao Pai, ao Filho e ao Esprito Santo, agora e por todos os sculos dos sculos. Amen.
      No estado impressionante em que se encontrava, Natacha sentiu-se profundamente abalada por esta orao. Escutando as palavras referentes  vitria de Moiss sobre Amalek, de Gedeo sobre Madian, de David sobre Golias e  runa de Jerusalm, rezava com toda a doura e toda a ternura do seu corao. Contudo, no compreendia l muito bem o que estava a rogar a Deus.
      Com toda a sua alma pedia que se lhe purificasse o esprito, que se lhe fortalecesse o corao com a f e a esperana e que nela reinasse o amor. Era-lhe impossvel, porm, orar para que os seus inimigos fossem esmagados quando minutos antes desejara ter ainda mais inimigos para por eles poder rezar. No entanto, no podia duvidar da justia da orao que se rezara de joelhos. No fundo do seu corao sentia um terror pleno de reconhecimento ao pensar no castigo que fulmina os pecadores e sobretudo no castigo a que a expunham os seus prprios pecados e pediu a Deus que lhes perdoasse a eles e a ela prpria e que lhes concedesse a todos, igualmente, o descanso e a felicidade nesta vida. E parecia-lhe que Deus ouvia a sua orao.
      

      
      
      
      Captulo XIX
      
      Desde o dia em que Pedro, ao sair de casa dos Rostov sob a impresso do olhar reconhecido de Natacha, contemplara o cometa e sentira como que desvendar-se-lhe um novo horizonte, deixara de ser atormentado pelo etcrno problema da vaidade e da loucura de tudo quanto existe  face da Terra. A terrvel pergunta: Porqu? Para qu?, que outrora vinha associar-se s suas ocupaes, achava-se substituda no por qualquer outra pergunta ou por qualquer soluo, mas pela imagem que guardara dela. Quando escutava ou falava de coisas insignificantes, quando lia ou se inteirava de qualquer baixeza ou loucura humana, no se horrorizava como antigamente. No estava sempre a perguntar-se a si prprio porque se agitam tanto os homens quando a vida  to curta e depois os espera o desconhecido. Bastava evoc-la, no aspecto em que a vira pela ltima vez, e todas as suas dvidas desapareciam, e no era porque ela desse resposta a estas perguntas, mas porque a sua imagem o transportava num instante a uma regio luminosa da alma onde no podia haver nem justos nem culpados,  regio da beleza e do amor, as nicas razes pelas quais vale a pena viver. Fossem quais fossem as misrias morais que a existncia lhe oferecia, para si mesmo Pedro murmurava:
      Que me importa a mim que fulano roube o Estado e o czar e que o Estado e o czar o tenham cumulado de honrarias? Ontem ela sorriu-me e pediu-me que a fosse ver e eu amo-a e ningum o saber jamais. E a alma de Pedro ganhava a serenidade e a paz.
      Pedro continuava a frequentar a sociedade, a beber muito, a levar a mesma vida ociosa e dissipada, pois, no falando nas horas que passava em casa dos Rostov, as demais tinha ele de as preencher de qualquer maneira. Os seus hbitos e as suas relaes arrastavam-no vitoriosamente para aquela vida que o absorvia.
      Mas ultimamente, quando principiaram a chegar do campo de batalha notcias cada vez mais alarmantes, quando a sade de Natacha principiou a restabelecer-se e deixou de lhe inspirar aquele antigo sentimento de compaixo, uma vaga inquietao, cada vez mais inexplicvel a seus olhos, se apoderou dele. Pressentia que a vida que levava no podia durar muito, que uma catstrofe se preparava que transformaria toda a sua existncia, e ei-lo a espiar com impacincia os sinais anunciadores. Um dos pedreiros-livres seu irmo desvendara-lhe a profecia seguinte, referente a Bonaparte, extrada do Apocalipse de S. Joo.
      No captulo XIII do Apocalipse, versculo 18, diz-se: Aqui est a sabedoria. Aquele que tem entendimento conte o nmero da besta; porque  nmero de homem, e o seu nmero  seiscentos e sessenta e seis.
      No mesmo captulo, versculo 5: E deu-se-lhe a boca para falar grandezas e blasfmias: e deu-se-lhe poder para assim o fazer quarenta e dois meses.
      As letras do alfabeto francs, iguais s do hebraico, podem exprimir-se por meio de algarismos, e atribuindo as dez primeiras letras o valor das unidades e o das dezenas s restantes, o seu valor numrico  o seguinte:
      
      a 	b 	e 	d 	e 	f	g 	h 	i 	j 	k 
      1 	2 	3 	4 	5	6 	7 	8 	9 	10 	20
      l 		m 	n 	o 	p 	q 	r 	s 	t 	u 	v
      30 	40 	50 	60 	70 	80 	90 	100 	110 	120 	130
      x 	y 	z
      140 	150 	160
      
      Utilizando este alfabeto cifrado, as palavras lempereur Napolon correspondem, pelas suas letras, a uns nmeros que, somados, davam o resultado 666. E a estava como Napoleo era a, besta de que falava o Apocalipse. Alm disso, ao escrever-se, com esse alfabeto, as palavras quarante-deux, isto , o limite que fora assinalado  besta para falar grandezas e blasfmias, a soma das cifras obtidas era de novo igual a 666. Resultava, pois, que o poder de Napoleo teria o seu termo em 1812, data em que o imperador faria quarenta e dois anos. Esta profecia impressionara muito Pedro, que frequentemente perguntava a si prprio quem acabaria com o poder da besta, isto , de Napoleo, e, graas  mesma representao das letras por algarismos e merc dos mesmos clculos, deu-se a procurar uma resposta para a interrogao. Escreveu como resposta a essa pergunta: O Imperador Alexandre? A nao russa? Calculou as letras, mas a soma era maior que 666. Unia vez em que estava entregue a estes clculos escreveu: Comte Pierre Bsouhoff, mas no conseguiu obter o resultado desejado. Alterou a grafia e ps um z no lugar do s, acrescentou a preposio de, o artigo le, mas tambm sem conseguir o resultado que esperava. Ento ocorreu-lhe que, se a resposta  pergunta estivesse no seu nome, seria naturalmente necessrio mencionar a nacionalidade. Escreveu ento: le russe Bsouhoff e adicionando os algarismos obteve como resultado 671. Sobravam apenas cinco letras, e o cinco representava a letra e, a mesma letra e que em francs se suprime do artigo da palavra lempereur. Suprimindo este e, no obstante resultar um erro, escreveu le russe Bsouhoff, isto , precisamente 666. Esta descoberta perturbou-o. Como estava ele relacionado com aquele acontecimento previsto pelo Apocalipse? Eis o que a si prprio no sabia explicar. Mas no hesitou um momento. O amor por Natacha Rostov, o Anticristo, a invaso de Napoleo, o cometa, o nmero 666, lempereur Napolon e lrusse Besouhoff, todo aquele conjunto de factos misteriosos devia amadurecer, tinha de acabar por explodir, impelindo-o para fora do crculo vicioso dos hbitos mundanos moscovitas de que se sentia prisioneiro, e levando-o, por fim, a realizar um acto herico e- a alcanar uma grande felicidade.
      
      Na vspera daquele domingo em que fora lida a orao, Pedro prometera trazer aos Rostov a proclamao do imperador e as ltimas novas sobre o que se passava no exrcito, que procuraria obter junto do conde Rostoptchine, com quem estava em boas relaes. Na manh em que se apresentou em casa deste encontrou ali um correio que acabava de chegar do exrcito. Este correio era um dos melhores danarinos dos bailes de Moscovo, e, conhecido seu.
      - No querer ajudar-me? - disse-lhe o correio - Trago uma mala cheia de cartas para pessoas de famlia.
      Entre essas cartas havia uma de Nicolau Rostov dirigida ao pai. Pedro tomou conta dela. Por seu lado, o conde Rostoptchine entregou-lhe a proclamao do imperador ao povo de Moscovo, que acabava de receber, as ltimas ordens do exrcito e o ltimo apelo por ele redigido. Ao percorrer as ordens do exrcito, Pedro descobriu, na lista dos, mortos, dos feridos e dos agraciados, o nome de Nicolau Rostov, que fora condecorado com a cruz de S. Jorge, de 4 classe, pelo acto de bravura que cometera em Ostrovno, e na mesma ordem do exrcito a nomeao de Andr Bolkonski para comandante de um regimento de caadores. Embora no lhe parecesse muito agradvel lembrar aos Rostov o nome de Bolkonski, no quis deixar de lhes comunicar a boa nova da distino concedida, e, resolvendo ser ele prprio a levar-lhes as outras ordens do exrcito, a proclamao e o apelo,  hora do jantar, tratou de lhes mandar imediatamente a relao impressa e a carta.
      A conversa que teve com o conde Rostopchine, o ar inquieto e azafamado deste, o encontro com o correio e as ms novas do exrcito que o ltimo lhe comunicara despreocupadamente, o boato que corria segundo o qual se haviam descoberto espies em Moscovo encarregados de distribuir panfletos em que se dizia que Napoleo prometera ocupar as duas capitais antes do Outono e as conversaes sobre a chegada do imperador, esperado no dia seguinte, tudo concorria para agravar a agitao e a inquietao em que andava Pedro desde a apario do cometa, e sobretudo depois do comeo da guerra.
      Havia muito que lhe ocorrera a ideia de alistar-se no exrcito, e j o teria feito se, por um lado, no pertencesse  sociedade manica, a que estava ligado por um juramento, e a qual pregava a paz perptua e a abolio das guerras, e, por outro, no tivesse visto como avultado nmero de moscovitas vestia o uniforme militar com grande alarde de patriotismo, coisa que, sem que ele soubesse muito bem porqu, o fazia sentir-se um pouco envergonhado de dar esse passo. A causa principal do seu retraimento, no entanto, era aquela vaga convico de ser ele lrusse Bsouhoff, quem representava o nmero 666, e de que a sua participao na grande obra de destruio do poder da besta estava decidida desde toda a etcrnidade, facto que o levava a pensar, por conseguinte, no dever tomar por si prprio qualquer resoluo, mas esperar pelo que fatalmente tinha de acontecer.
      

      
      
      
      Captulo XX
      
      Em casa dos Rostov, como era costume todos os domingos, havia algumas pessoas ntimas a jantar.
      Pedro chegou mais cedo para encontrar a famlia s. Engordara tanto nesse ano que, se no fosse a sua grande estatura, estaria disforme. Os seus largos ombros e a sua grande robustez aguentavam perfeitamente aquela obesidade.
      Subiu as escadas resfolgando e murmurando qualquer coisa entre dentes. O cocheiro no lhe perguntara se devia esperar; sabia muito bem que teria de aguardar at  meia-noite. Os lacaios de Rostov haviam-se precipitado para o ajudar a despir o casaco e tomarem conta do chapu e da bengala. Deixava-os sempre no vestbulo, como costumava fazer no clube.
      A primeira pessoa que ele avistou foi Natacha, Ouvira-a mesmo antes de a ver quando despia o casaco ira antecmara. Dava-se a exerccios de solfejo no salo, como Pedro sabia que ela no voltara a cantar desde que adoecera, o som da sua voz foi para ele uma surpresa muito agradvel. Entreabriu a porta de mansinho e viu-a com o seu vestido lils, o que levara  missa, andar de um lado para o outro cantando. Estava de costas quando ele abriu a porta, mas, tendo-se voltado bruscamente, descobriu, assombrada, a sua espessa figura, Corando muito, correu para ele.
      - Estou com vontade de cantar outra vez - disse ela. - Ajuda-me a passar o tempo - acrescentou, como que a desculpar-se.
      - Muito bem.
      - Estou muito contente por ter vindo! Sinto-me hoje to feliz! - continuou com a mesma animao de outrora, animao que Pedro lhe no via h muito. - Sabe? O Nicolau teve a cruz de S. Jorge! Estou cheia de orgulho por ele!
      - Sim, bem sei, fui eu quem mandou a ordem do exrcito. Mas no a quero importunar- acrescentou, dispondo-se a passar ao salo contguo.
      Natacha deteve-o.
      - Conde! Acha que fao mal em cantar? - disse, corando, enquanto o interrogava com os olhos.
      - Mas... porqu? Pelo contrrio... Porque me pergunta isso?
      - No sei - replicou ela precipitadamente. - No gostava de fazer fosse o que fosse que lhe desagradasse. Tenho tanta confiana em si! Nem calcula a importncia que tem para mim e o bem que me tem feito!- prosseguiu ela, no mesmo tom, sem reparar que Pedro ia corando  medida que ela falava.- Ah!, tambm vi nessa mesma ordem do exrcito que ele est na Rssia, ele, Bolkonski - pronunciou o nome em voz baixa e precipitadamente -, e que voltou para o exrcito. Que acha? Cr que vir a Perdoar-me? - acrescentou, em voz sumida, como se receasse que as foras lhe faltassem antes de acabar a frase. - Acha que ficar para sempre zangado comigo? Diga. Que lhe parece?
      - Acho... - volveu Pedro - que nada tem a perdoar-lhe... E se eu estivesse no lugar dele...
      Por associao de ideias, transportara-se, subitamente, ao momento em que, para consol-la, lhe dissera que se estivesse livre lhe pediria de joelhos que se casasse com ele, e os mesmos sentimentos de piedade, de ternura, de amor lhe encheram o corao e as mesmas palavras de ento lhe vieram aos lbios. Natacha, porem, no lhe deu tempo de pronunci-las.
      - Oh, o Pedro... o Pedro... - articulou a palavra com exaltao - o Pedro  muito diferente. Ningum conheo melhor, mais generoso, mais nobre e no pode haver outro. Se o no tivesse a meu lado ento, e agora mesmo, no sei o que teria sido de mim, pois...
      De sbito encheram-se-lhe os olhos de lgrimas. Voltou a cabea para o lado, ergueu o caderno de msica para esconder a emoo que a tomava e ps-se a cantar, passeando na sala de um lado para o outro.
      Nessa altura Ptia entrou no salo.
      Era um rapazinho de quinze anos, fresco e rosado, com grossos lbios vermelhos, que se parecia com Natacha. Estava a preparar-se para entrar na universidade, mas ultimamente, tanto ele como o seu camarada Obolenski, congeminavam, s escondidas, fazer-se hssares.
      Ptia precipitou-se a falar do problema ao seu homnimo. Pediu-lhe que se informasse se o aceitariam no corpo de hssares.
      Mas Pedro, sem o ouvir, continuava a andar de c para l. Ptia travou-lhe do brao para lhe chamar a ateno.
      - Ento, como vo as minhas coisas, Pedro Kirilovitch? Por amor de Deus!  a minha nica esperana! - exclamou Ptia.
      - Ah, sim! O teu caso? Os hssares? Hei-de falar nisso, hei-de falar nisso. Hoje, sem falta.
      - Ento, meu caro, ento! Arranjou a proclamao? - disse-lhe o velho conde assim que o viu. - A condessa foi  missa,  capela dos Razumovski. Rezaram uma nova orao. Parece que  muito bonita. Ela assim o diz.
      - Sim, arranjei - redarguiu Pedro - O imperador chega amanh... Haver uma reunio extraordinria da nobreza e faia-se num recrutamento de dez por cada mil homens. E os meus parabns!
      -  verdade,  verdade! Louvado seja Deus! E do exrcito, que notcias h?
      - Os nossos recuaram outra vez. Esto j nas proximidades de Smolensk, segundo se diz - replicou Pedro.
      - Meu Deus, meu Deus! - exclamou o conde. - E onde  que tem a proclamao?
      - A proclamao! Ah!, sim!
      Pedro ps-se a mexer nos bolsos e no pde dar com ela. Sempre revolvendo as algibeiras, ia beijando a mo  condessa, que entretanto penetrara na sala, e lanando olhares inquietos  sua roda, preocupado com Natacha, que deixara de cantar e no aparecia.
      - Ora que isto, no sei onde a meti - disse ele.
      - Perde tudo! - murmurou a condessa.
      Natacha entrou nessa altura na sala com um ar enternecido e emocionado e sentou-se, sem dizer palavra, a olhar para Pedro. Ao v-la na sala, o rosto deste, triste at ento, iluminou-se de sbito, e, continuando nas suas pesquisas, olhava-a de vez em quando.
      - Eu vou procur-la. Devo t-la deixado em casa. Com certeza...
      - Vai chegar tarde para o jantar.
      -  verdade, e o cocheiro foi-se embora.
      Mas Snia, que fora procurar os papis ao vestbulo, encontrara-os no chapu de Pedro, onde ele os guardara cuidadosamente debaixo da vira, Pedro ia principiar a ler.
      - No, depois do jantar - atalhou o velho conde, que se preparava para apreciar devidamente a leitura.
      Durante o jantar, em que se bebeu champanhe  sade do novo cavaleiro de S. Jorge, Chinchine contou o que se dizia na cidade: falou na doena da velha princesa georgiana, no desaparecimento de Mtivier, na histria de um alemo que fora conduzido  presena de Rostoptchine, a quem disseram que se tratava de um champignon, mas que, como o prprio Rostoptchine contara, mandara soltar dizendo que no era um champignon francs, mas apenas um velho cogumelo alemo.
      - Sim, sim, deitam-lhes a mo, deitam-lhes a mo  disse o conde -, e j tenho dito muitas vezes  condessa que no fale francs. No  momento para isso.
      - E querem saber? - voltou Chinchine. - O prncipe Galitzine contratou um preceptor russo, est a aprender russo. Comea a ser perigoso falar francs pelas ruas.
      - Ento, Pedro Kirilovitch, quando recrutarem a milcia, l verei a cavalo - disse o velho conde.
      Pedro estivera silencioso e pensativo durante toda a refeio. Fitou o conde, que o interpelava, sem parecer t-lo compreendido.
      - Sim, sim, a guerra! - exclamou ele. - E eu, que belo guerreiro! De resto,  tudo to estranho! Realmente no percebo coisa alguma. No sei, sou um homem com muito pouca propenso para a guerra, mas nos tempos que correm ningum pode responder por si.
      Depois do jantar, o conde instalou-se tranquilamente numa poltrona, e, com grave semblante, pediu a Snia, que tinha fama de pronunciar muito bem, que lesse a proclamao.
      Dada em Moscovo, a nossa primeira capital.
      O inimigo atravessou com foras considerveis as fronteiras da Rssia. Vem assolar a nossa ptria bem-amada, leu Snia, meticulosamente, com a sua vozita fina. O conde ouvia-a de olhos fechados, suspirando de vez em quando em certos passos. Natacha, na sua cadeira, muito atenta, ia fixando, escrutadoramente, ora o pai ora Pedro. Este, sentindo que ela o olhava, evitava voltar-se para o seu lado. A condessa, sempre que havia uma frase solene na proclamao, abanava a cabea num ar descontente e desaprovador. Em tudo aquilo via apenas que os perigos que ameaavam o filho estavam longe de acabar. Chinchine, a boca franzida num sorriso trocista, preparava-se evidentemente para aproveitar todas as oportunidades que se lhe oferecessem para fazer esprito, quer a propsito da leitura de Snia, quer do que o conde diria, quer ainda da prpria proclamao,  falta de qualquer outro pretexto.
      Depois de ter lido os passos relativos aos perigos que ameaavam a Rssia, s esperanas que o imperador depositava em Moscovo e sobretudo na sua gloriosa nobreza, Snia, em voz trmula, principalmente por virtude da ateno que lhe prestavam, chegou ao fim:
      No tarda que ns prprios nos encontremos entre o nosso povo nesta capital e em outros locais do nosso Imprio, prontos a deliberar e a guiar todas as nossas milcias, tanto as que actualmente cortam o passo ao inimigo como as que se vo formar para combat-lo onde quer que ele se encontre. Que a perdio em que ele quer precipitar-nos recaia sobre a sua prpria cabea e que a Europa, liberta da escravido, glorifique o nome da Rssia!
      - Muito bem! - exclamou o conde, entreabrindo os olhos humedecidos e fungando por vrias vezes, como se lhe dessem sais a cheirar. E acrescentou: - Basta uma palavra do imperador, e estamos prontos a tudo sacrificar, sem poupar nada.
      Ainda Chinchine no tinha tido oportunidade de proferir o seu gracejo sobre o patriotismo do conde quando Natacha correu para o pai.
      - Que pai encantador eu tenho! - exclamou ela, beijando-o, e ao mesmo tempo relanceava de novo um olhar a Pedro com uma galanteria inconsciente, que acordava nela ao mesmo tempo que a alegria.
      - Isto  que  uma patriota! - disse Chinchine.
      - No sou patriota, sou apenas... - ripostou Natacha, ofendida. - Ri-se de tudo, mas isto no  para rir...
      - Que h nisto que d vontade de rir...? - observou o conde. - Basta uma palavra sua, e todos ns nos levantaremos... Ns no somos como os Alemes...
      - Repararam que a proclamao diz: prontos a deliberar?
      - Ou seja para isso ou para qualquer outra coisa.
      Nesse momento Ptia, a quem ningum prestava ateno, aproximou-se do pai, e, muito corado, numa voz entrecortada, ora vibrante ora quase surda, disse-lhe:
      - Pois bem, pai, dir-lhe-ei agora, e a si tambm, minha me, se assim o querem; digo-lhes: deixem-me ingressar no exrcito, porque no posso mais... e  tudo...
      A condessa, aterrorizada, elevou os olhos, apertou as mos uma na outra e disse para o marido:
      - Aqui tens! Foi isto o que tu conseguiste!
      Mas o conde imediatamente baixou o calor do seu entusiasmo.
      - Bom, bom - disse ele. - Olhem para este guerreiro. No digas tolices! Trata mas  de ir para a escola.
      - No so tolices, pai. Obolenski Fdia  mais novo do que eu e tambm vai para a guerra. Alm disso, por mais que faa, no sou capaz de estudar agora, que... - Ptia calou-se, corando at s meninas dos olhos, e concluiu: - a ptria est em perigo. 
      - Basta, basta! Deixa-te de disparates...
      Mas o pai ainda agora disse que estava pronto a sacrificar tudo.
      - Ptia! J te disse que te calasses! - gritou o conde, trocando um olhar com a mulher, a qual, muito plida, no retirava Os olhos do seu filho mais novo.
      - E vou dizer-lhe... Pedro Kirilovitch lhe dir...
      - J disse, so disparates. Ainda ontem era um menino de mama e j hoje quer ser soldado. Bem, bem, j te disse o que tinha a dizer-te.
      E o conde, pegando na proclamao, naturalmente para voltar a l-la no seu gabinete, antes de ir para a cama, dispunha-se sair.
      - Pedro Kirilovitch - disse ele -, venha fumar um cigarro...
      Pedro estava muito perturbado e indeciso. Sentia postos nele a todo o momento os olhos brilhantes e animados de Natacha, com uma insistncia que no era apenas amabilidade.
      - No. Parece-me que vou para casa...
      - Que diz? Para casa? Mas o senhor vinha passar a noite connosco... Vem poucas vezes a nossa casa. E esta... - continuou o conde, bonacheiro, apontando para Natacha - esta s parece alegre na sua presena.
      - Sim, mas esqueci-me... Tenho de voltar a casa sem falta... Uns assuntos... - replicou Pedro, pressuroso.
      - Bem, ento adeus - disse o conde, retirando-se. 
      - Porque se vai embora? Porque est to perturbado? Porqu? - perguntou-lhe Natacha, fitando-o provocadoramente nos olhos.
      Porque te amo!, teria ele desejado dizer, mas no abriu a boca e corou at  raiz dos cabelos, baixando a vista. 
      - Porque seria melhor para mim visit-los menos vezes... Porque... No, seriamente,  porque tenho uns assuntos... 
      - Porqu? Diga-me porqu... - teimou Natacha, num tom decidido. De repente, porm, calou-se.
      Os dois entreolharam- se, receosos e confusos. Pedro procurou sorrir, mas no pde. No seu esgar havia sofrimento. Beijou a mo de Natacha em silncio e desapareceu.
      Pedro decidiu no voltar a casa dos Rostov.
      

      
      
      
      Captulo XXI
      
      Ptia, depois de to formal negativa do pai, fechou-se no quarto e chorou amargamente. Todos fingiram no dar por coisa alguma quando ele apareceu para o ch, triste e calado, com os olhos todos vermelhos.
      No dia seguinte chegava o imperador. Alguns dos criados de Rostov pediram licena para assistir  chegada do czar. Naquela manh Ptia levou muito tempo a vestir-se e a pentear-se e ps um colarinho de homem. Franzia as sobrancelhas diante do espelho, esboava grandes gestos, encolhia os ombros. Finalmente, sem dizer nada a ningum, ps o chapu e saiu pela porta de servio, procurando no ser visto. Decidira ir directamente ao local onde estivesse o imperador e explicar a um dos camaristas - pensava que o imperador andava sempre rodeado de uma nuvem de camaristas - ser o conde Rostov e que, no obstante muito novo, era seu desejo servir a ptria, e que a sua pouca idade no podia ser obstculo quando se tratava de uma coisa assim e que estava disposto... Preparara uma srie de lindos discursos para recitar ao dito camarista.
      Ptia contava ser bem sucedido ao apresentar-se ao imperador precisamente porque era uma criana - pensava, inclusivamente, assombrar toda a gente com a sua juventude -, e, no entanto, na maneira como arranjara o colarinho, na forma como se penteara, no seu andar grave e moderado, procurava dar a impresso de ser um homem feito, A medida, porm, que ia avanando, mais distrado se mostrava com a multido que aflua ao Kremlin, esquecendo-se de manter o ar grave que convinha. Ao aproximar-se do palcio, tratou de no deixar que a multido o arrastasse e ps-se a distribuir empurres para a direita e para a esquerda, com ar ameaador. Na porta da Trindade, apesar de toda a sua energia, a multido, que provavelmente ignorava as suas intenes patriticas, de tal modo o comprimiu de encontro  muralha que ele no teve outro remdio seno ficar ali parado espera que as carruagens que passavam sob o arco, estrondeando, houvessem desfilado. Ao p dele estava uma mulher do povo, um lacaio, dois negociantes e um soldado reformado. Depois de algum tempo imobilizado, Ptia, sem esperar que desfilassem todas as carruagens, quis passar adiante dos demais e resolveu abrir caminho  fora de cotovelos. Porm a mulher que estava a seu lado, a primeira pessoa a ser acotovelada, interpelou-o, colrica:
      - Que  l isso, senhorito? No v que esto todos  espera? Onde vai com essa pressa?
      - Assim todos ns podamos caminhar - corroborou o lacaio, que, servindo-se tambm dos seus cotovelos, o empurrou de encontro a um malcheiroso recanto da porta.
      Ptia passou a mo pela cara coberta de suor e deu um jeito ao colarinho todo amarrotado que com tanto esmero pusera,  imitao das pessoas crescidas.
      Reconhecia j no estar com aspecto decente e que se se apresentasse ao camarista no o deixariam aproximar-se do imperador. Mas recompor-se e sair daquele labirinto no lhe era possvel. A certa altura viu passar um general conhecido da famlia. Pensou pedir-lhe que o ajudasse, mas logo reconsiderou, achando que isso no era atitude digna de um homem como ele. Assim que acabaram de desfilar as carruagens, a multido precipitou-se c, arrastou-o consigo at  praa, coalhada de povo. Havia gente Por todos os lados, at em cima dos telhados, Assim que desembocou na praa ouviu distintamente o repicar dos sinos que enchia todo o Kremlin e o burburinho da turba-multa. De sbito abriu-se uma clareira entre a multido, todas as cabeas se descobriram e mais uma vez toda a gente se lanou para diante. Ptia, esmagado pela multido, mal podia respirar. Todos gritavam: Hurra! Hurra! Hurra! O pequeno erguera-se na ponta dos ps, empurrava os vizinhos, agarrava-se a eles, mas nada mais podia ver alm da multido que o cercava.
      Em todos os rostos havia o mesmo entusiasmo e o mesmo carinho.
      Uma vendedeira, a seu lado, rompeu em soluos, e as lgrimas caam-lhe pela cara.
      - Paizinho, meu anjo, meu paizinho! - balbuciava ela, enxugando as lgrimas com as mos.
      Hurra!, continuava a ouvir-se por todos os lados.
      Por momentos, a multido imobilizou-se, e de novo se lanou para a frente.
      Ptia sem dar conta do que fazia, de dentes cerrados e os olhos esbugalhados, precipitou-se tambm, distribuindo socos e gritando: Hurra! Dir-se-ia que naquele momento estava pronto a matar os outros e a matar-se a si. A seu lado, pessoas com expresses idnticas e igualmente selvagens, soltavam os mesmos clamores.
      Finalmente, l est o imperador!, pensava ele. Ah!, mas como apresentar-lhe a minha petio? Seria um atrevimento! Nem por isso deixava contudo de furar a multido desesperadamente, e por cima dos ombros dos que iam diante dele pde ver um espao livre com uma passadeira encarnada. No mesmo momento, porm, a multido recuou, pois os polcias que estavam na frente tinham repelido os que haviam chegado perto de mais do cortejo na altura em que o imperador, vindo do palcio, entrava na catedral de Uspenki. Foi ento que Ptia recebeu de repente uma grande pancada na cabea e se sentiu de tal modo esmagado pela multido que a vista lhe toldou e caiu sem sentidos. Quando voltou a si, um dignitrio da igreja, com um rabicho de cabelos brancos na nuca, vestindo uma sotaina azul desbotada, naturalmente um sacristo, amparava-o com uma mo por debaixo de um brao, enquanto com a outra o protegia da vaga da multido.
      - Iam matando este rapazinho! - clamava o sacristo. - No vem?... Cuidado!... Est esmagado, esmagado!
      O imperador entrava na catedral. A multido apaziguou-se outra vez e o sacristo levou consigo Ptia, muito plido, mal podendo respirar, at ao p do rei dos canhes. Vrias pessoas se compadeceram de Ptia e a multido refluiu, de sbito, direita a ele, comprimindo-se  sua volta. Os que estavam mais .perto desapertaram-lhe o fato, obrigaram-no a sentar-se no pedestal do canho, manifestando a sua revolta contra os que o haviam Posto em tal estado.
      Podiam t-lo liquidado! Sempre te digo!  um crime! Olhem para ele, pobre mido, est branco como a cal da parede! murmurava-se na turba.
      No tardou que Ptia voltasse completamente a si. As faces tornaram a ficar coradas, a dor passou e graas a esta passageira indisposio pde conseguir um bom lugar em cima do canho, donde esperava poder ver agora perfeitamente o imperador no seu regresso da catedral. No pensava mais, porm, na sua petio. V-lo que fosse j era uma grande felicidade.
      Durante a cerimnia na catedral, em que se celebrava um servio de aco de graas pelo regresso do imperador e outro pela concluso da paz com os Turcos, a multido dispersou-se. Apareceram ento os vendedores de kvass, de rosquilhas de amndoa e de sementes de papoula, de que Ptia gostava muito; soltavam os seus preges enquanto a multido tagarelava. Uma vendedeira expunha o xale rasgado e dizia quanto lhe custara, outra garantia estarem as sedas por um preo doido. O sacristo que salvara Ptia falava com um funcionrio sobre as personalidades que oficiavam com Sua Eminncia. Por vrias vezes pronunciou a palavra conclio, cuja significao Ptia ignorava. Dois comerciantes novos chalaceavam com duas moas que rilhavam nozes. Todas estas conversas, principalmente a dos rapazotes com as moas, coisa prpria para o interessar na sua idade, no lhe despertavam a mais pequena curiosidade naquele momento. Ali estava empoleirado no pedestal do canho, comovidssimo, a pensar no imperador e no amor que lhe tinha. E a dor e o medo que experimentara quando se vira por terra, juntos ao entusiasmo que sentia, ainda lhe tornavam mais memorvel aquela hora solene.
      De repente estrondearam tiros de canho ao longo do cais - eram salvas para comemorar a paz com os Turcos -, e a multido arrojou-se em peso para aquele lado na esperana de desfrutar o novo espectculo. Ptia quis fazer o mesmo, mas o sacristo, que o tomara  sua guarda, no consentiu. Ainda as salvas no tinham cessado quando saram apressadamente da catedral oficiais, generais, camareiros, e atrs deles outra gente que caminhava menos apressada, Todos os presentes se desbarretaram e a multido que ocorrera ao cais de novo afluiu quele lado da praa. Finalmente quatro senhores de uniforme de gala apareceram  porta. Hurra! Hurra!, gritou a multido,
      Qual ? Qual ?, perguntava Ptia com lgrimas na voz, mas ningum lhe respondia. Toda a gente estava embasbacada com o espectculo. E, escolhendo ao acaso uma das quatro personagens que mal podia distinguir atravs das lgrimas de alegria que lhe inundavam os olhos, foi a ela que consagrou todo o seu entusiasmo. Gritou Hurra!, numa voz arrebatada, e ali mesmo resolveu definitivamente, custasse o que custasse, que a partir do dia seguinte seria soldado.
      A turba correu atrs do imperador, acompanhando-o at ao palcio e em seguida dispersou, Era tarde, e Ptia, em jejum, sentia-se alagado de suor, que lhe gotejava da testa. No saa, porm, de ao p dos basbaques, cada vez mais raros, mas ainda muitos nessa altura. Enquanto durou o banquete do imperador deixou-se ficar diante do palcio, a olhar para as janelas, sempre  espera de um acontecimento qualquer, e cheio de inveja, ao mesmo tempo, quer dos dignitrios que chegavam para tomar parte no jantar, quer dos lacaios que serviam  mesa e que se viam atravs das janelas.
      Durante o banquete, Valuiev, lanando um olhar para a rua, disse:
      - O povo ainda espera tornar a ver Vossa Majestade.
      O jantar estava no fim, o imperador levantou-se, a trincar ainda um biscoito, e apareceu  varanda.
      Nosso anjo! Nosso pai! Hurra! Nosso pai!..., gritava a multido, e Ptia com ela. E de novo as mulheres e alguns homens tambm, mais discretamente, em cujo nmero se contava Ptia, choraram lgrimas de alegria.
      Um pedao de biscoito que o imperador tinha na mo caiu sobre o parapeito da varanda e da para a rua. Um cocheiro, de avental, que estava mais perto, precipitou-se para apanh-lo. Os que se encontravam nas imediaes lanaram-se sobre ele. Vendo o que, o czar mandou lhe trouxessem o prato dos biscoitos e despejou-o do alto da varanda. Os olhos de Ptia injectaram-se de sangue. O perigo de ser pisado ainda mais o excitava, e precipitou-se. No sabia porqu, mas sentia que precisava absolutamente de um dos biscoitos arrojados pela mo do imperador e por nada deste mundo teria desistido do seu intento. Na sua carreira atirou ao cho uma velha que ia deitar a mo a um deles, a qual se no deu por vencida, embora de joelhos em terra. Tinha, porm, o brao muito curto. Ptia deu-lhe uma joelhada, apanhou o biscoito, e, para no ficar atrs dos outros, gritou de novo: Hurra!, mas desta vez numa voz rouca.
      O imperador recolheu-se e ento a maior parte do povo dispersou.
      Eu bem te disse que era bom esperar. Aqui tens, conseguimos v-lo!, dizia-se, alegremente, no meio da multido.
      Apesar da alegria que experimentava, Ptia no estava satisfeito por voltar para casa; o prazer daquela jornada findara para ele. Por isso, em vez de regressar ao lar, dirigiu-se a casa do seu camarada Obolenski, que tinha quinze anos e ia ingressar no exrcito. Quando voltou a casa, Ptia declarou resoluto que fugiria se o no deixassem alistar-se. E no dia seguinte, embora sem ter dado ainda a sua autorizao formal, o conde Ilia Andreitch foi informar-se de qual seria a melhor maneira de alistar o filho sem o expor demasiado.
      

      
      
      
      Captulo XXII
      
      No dia 15, de manh, trs dias depois dos acontecimentos relatados, grande nmero de carruagens estacionava diante do Palcio Slobotski.
      Os sales estavam cheios de gente. No primeiro havia nobres envergando os seus uniformes; no outro, comerciantes de grandes barbas, com as suas condecoraes e os seus cafets azuis.
      Na sala da nobreza tudo era bulcio e agitao. Diante de uma grande mesa, sob o retrato do imperador, em cadeiras de alto espaldar, sentavam-se as personalidades mais importantes, mas a maior parte das pessoas deambulava pela sala.
      Toda esta fidalguia, a mesma gente que Pedro encontrava todos os dias no clube ou a quem visitava, vestia uniformes de pocas diferentes, do tempo de Catarina, de Paulo, de Alexandre, ou ento a farda vulgar da nobreza. Mas esses uniformes, no fundo bastante parecidos, davam um aspecto estranho e fantstico a essas figuras, jovens ou idosas, to diferentes e ao mesmo tempo to conhecidas. Os mais extraordinrios eram os velhos: desdentados, calvos, meio cegos, cobertos de uma gordura amarelenta ou ento magros e rugosos. A maior parte permanecia sentada, sem dizer palavra, e, se alguns se levantavam para conversar, iam instalar-se ao p dos mais novos.
       semelhana do que acontecia com os rostos da multido estacionada na praa em que estivera Ptia, tambm na expresso desta gente se reflectiam as mais variadas preocupaes: a expectativa de um acontecimento memorvel ou a recordao do facto mais banal da vida, uma partida de boston, um bom jantar preparado pelo cozinheiro Petrushka, a boa sade de Zenaida Dmitrievna e coisas do mesmo teor.
      Desde manh muito cedo que Pedro, que a custo se enfiara no seu uniforme de fidalgo, muito apertado, se encontrava na sala. Uma grande emoo o dominava. Esta reunio extraordinria, no s da nobreza, mas dos prprios comerciantes, aquela reunio das diversas classes, os estados gerais, despertava nele uma revoada de ideias h muito abandonadas, embora profundamente arreigadas no seu esprito, relativas ao Contrato Social e  Revoluo Francesa.
      As palavras da proclamao anunciando que o imperador iria a Moscovo para deliberar com o seu povo confirmavam-no na sua maneira de ver. E na suposio de que se preparava, nesta ordem de ideias, qualquer coisa de importante, que h muito esperava, ia e vinha, observava, prestava o ouvido s conversas, sem de resto nada encontrar em parte alguma que viesse ao encontro dos pensamentos que o absorviam.
      Foi lida a proclamao, que despertou entusiasmo, depois formaram-se grupos fazendo comentrios. Alm dos assuntos triviais de conversa, Pedro reparou que se falava do lugar em que deviam ficar colocados os marechais da nobreza quando entrasse o imperador, da data do baile em sua honra, e as pessoas perguntavam umas s outras se deveriam reunir-se por distritos ou por provncias, etc. Sempre porm que se falava da guerra e do objecto preciso daquela reunio, s se diziam coisas vagas e indecisas. As pessoas preferiam ouvir a falar.
      Um homem de certa idade, com ar marcial, bonita figura e farda de oficial da marinha reformado, falava numa das salas a um grupo de pessoas que o rodeavam. Pedro aproximou-se e ps-se a escutar.
      O conde Ilia Andreitch, com o seu cafet de voivoda do tempo de Catarina, cirandava com um sorriso nos lbios por meio da multido, tudo gente sua conhecida. Aproximando-se igualmente do grupo, apurou o ouvido, com esse ar bonacheiro que tinha sempre em tais casos, enquanto abanava a cabea aprovadoramente. O marinheiro sustentava opinies muito atrevidas, como podia depreender-se da expresso dos que o ouviam e do facto de pessoas que Pedro conhecia como pacficas e serenas se afastarem dele com modos reprovadores ou contradizendo-o. Abrindo caminho at meio do grupo, Pedro, depois de escutar por algum tempo, convenceu-se de que quem falava era realmente um liberal, mas um liberal de uma natureza muito diversa da sua, o orador tinha uma voz de bartono, sonora e cantante, comia os rr e abreviava as consoantes, uma dessas vozes que costumam gritar: Apraz, o meu cachimbo! e coisas idnticas. Falava com e entono e a segurana de quem est habituado a mandar.
      - E ento? Que tem que os de Smolensk tenham oferecido milcias ao imperador? So eles quem faz as leis? Se a digna nobreza da provncia de Moscovo assim o entender, tem outras maneiras de mostrar a sua dedicao. J esquecemos a milcia de 1807? S ganharam com isso os ladres e os filhos de pope...
      O conde Ilia Andreitch, sorrindo docemente, abanava a cabea, aprovador.
      - E ento? De que serviram ao Estado os milicianos? De nada. A nica coisa que fizeram foi arruinar as nossas propriedades. Ainda o melhor  o recrutamento... Se assim no for, aqueles que voltarem da guerra nem sero soldados nem camponeses, mas malandros, malandros, nada mais. Os nobres no poupam a sua vida, todos ns l iremos individualmente e levaremos connosco os recrutas. Basta que o imperador chame por ns, e estaremos prontos a morrer por ele - concluiu o orador, cada vez mais entusiasmado.
      Ilia Andreitch engasgava-se, de to contente, e ia dando cotoveladas a Pedro, pela sua parte desejoso de dizer alguma coisa tambm. Deu alguns passos em frente, arrebatado pelas circunstncias, mas sem saber ao certo o que ia dizer.
      Mal abriu a boca, logo foi interrompido por um senador desdentado, de expresso inteligente, mas furibunda, que estava ao lado do orador. Via-se ser homem habituado a presidir a debates, e falava numa voz serena, mas precisa.
      - Suponho, meu caro senhor - disse, com a sua boca desdentada -, no termos sido convocados para discutir o que  prefervel para o imperador na hora que passa: o recrutamento ou a milcia. Temos de responder  proclamao com que o imperador nos honrou. Quanto a escolher entre o recrutamento e a milcia, deixemos que o poder supremo decida...
      Pedro encontrou logo uma sada para a exaltao que o tomava.
      Estava indignado com as vistas curtas e com as limitaes que o senador queria impor s opinies da nobreza. Deu um passo em frente e interrompeu-o. Ele prprio no sabia o que ia dizer, mas ps-se a falar com vivacidade, usando palavras francesas intercaladas num russo assaz livresco.
      - Perdoe-me, Excelncia - principiou ele. Era ntimo do senador mas entendia dever dar-lhe esse tratamento. - Embora eu sei a da opinio deste senhor... - Engasgou-se. Era sua inteno dizer: meu muito digno preopinante... - Deste senhor... que no tenho a honra de conhecer, suponho que a nobreza no foi convocada apenas para exprimir a sua simpatia e o seu entusiasmo, mas tambm para discutir as medidas que entenda teis  ptria. Suponho - prosseguiu ele, cada vez mais animado - que o prprio imperador ficaria descontente se visse que no passvamos de proprietrios de campnios postos s suas ordens para... carne de canho, em vez de um... conselho.
      Vrios circunstantes afastaram-se ao verem o sorriso desdenhoso do senador, alm de acharem que Pedro empregava uma linguagem muito livre. S Ilia Andreitch aprovou o discurso deste, tal qual como havia aprovado antes o do marinheiro, o do senador e em geral de todos quantos fossem os ltimos a falar.
      - Suponho - prosseguiu Pedro - que antes de discutirmos estas questes devemos pedir respeitosamente ao imperador que nos comunique o nmero de soldados de que dispomos e a situao em que est o nosso exrcito e ento...
      Mas Pedro no pde continuar. Interpelaram-no de trs lugares distintos. E o mais violento dos seus antagonistas foi um homem que ele conhecia havia muito, seu parceiro no jogo do boston, sempre nos melhores termos com ele, um tal Stepan Stepanovitch Adraksine. Este tal Stepan Stepanovitch envergava o uniforme, e, ou fosse por essa ou por outra razo, Pedro viu diante de si um homem completamente diferente. Com uma sbita clera senil pintada no rosto, gritou para Pedro:
      - Em primeiro lugar, devo chamar-lhe a ateno para o facto de no termos o direito de formular tais perguntas ao imperador, e, em segundo lugar, ainda mesmo que a nobreza russa tivesse esse direito, o imperador no podia responder-nos, A marcha das nossas tropas est subordinada  do inimigo. Ora vo ora vm...
      Outra voz ressoou, a voz de um homem de estatura mdia, dos seus quarenta anos, que Pedro outrora vira em casa das ciganas e que conhecia por batoteiro. Completamente outro, talvez tambm merc do uniforme que vestia, avanou para Pedro, interrompendo Adraksine.
      - O momento no  para discusses - disse ele -, mas para agir: temos a guerra em casa. O nosso inimigo avana disposto a esmagar a Rssia, a profanar os tmulos dos nossos antepassados, a levar consigo as nossas mulheres, os nossos filhos. - Ao dizer estas palavras o orador bateu no peito. - Levantar-nos-emos todos, daremos tudo ao nosso pai, o czar! - Gritava com os olhos injectados fora das rbitas, e na multido ouviram-se algumas palavras de aplauso - Somos russos e no pouparemos e nosso sangue na defesa da f, do trono e da Rssia. E se somos dignos filhos da nossa ptria, deixemos de lado todas essas quimeras. Mostraremos  Europa como a Rssia  capaz de se levantar pela Rssia.
      Pedro teria querido replicar, mas achou melhor no abrir a boca. Tinha percebido que as suas palavras, independentemente das ideias que exprimissem, teriam menos repercusso que as daquele nobre exaltado.
      Ilia Andreitch, l atrs do grupo, aprovou tambm o orador. Quando este terminou o seu discurso, alguns dos presentes voltaram-se para ele e exclamaram:
      Muito bem! Muito bem!
      Pedro teria querido dizer estar pronto tambm a todos os sacrifcios monetrios, e em homens igualmente, e at a sacrificar-se a si prprio, mas que entendia ser preciso conhecer a situao para lhe dar remdio. No o pde fazer porm. Toda a gente gritava e falava simultaneamente. Ilia Andreitch no tinha tempo de os aprovar a todos. E o grupo aumentava, dispersava-se, refazia-se, at que, finalmente, no meio do rumor das conversas, l foi, atravs da sala, direito  grande mesa. No s Pedro no lograva dizer uma nica palavra, como o interpelavam grosseiramente, repeliam-no, voltavam-lhe as costas, como se ele fosse um inimigo comum, No  que estivessem descontentes com o sentido do seu discurso - tinham esquecido por completo o que, ele dissera depois dos que haviam falado em seguida -, mas aquela multido excitada necessitava de um objecto palpvel que amasse ou odiasse. Pedro, eis o bode expiatrio. Muitos foram os oradores que falaram ainda, e todos eles no mesmo tom. Alguns discursavam bastante bem e de maneira original.
      O director do Mensageiro Russo, Glinka, a quem saudaram, ao reconhec-lo, gritando: O escritor! O escritor!, disse que o Inferno devia ser repelido pelo Inferno, que vira uma criana sorrir  luz dos relmpagos e ao ribombar dos troves, mas ele no era uma criana.
      Sim, sim, o ribombar dos troves!, repetia-se l para trs, nas ltimas filas.
      A multido aproximou-se da grande mesa onde, de uniforme de gala, se sentavam as personalidades da alta nobreza, septuagenrios de cabelos brancos uns, outros calvos. Pedro tinha-os visto quase todos, quer nas suas prprias casas, com os seus bufes, quer no clube, sentados s mesas do boston. As conversas nem por isso cessaram. Uns aps outros, e s vezes ao mesmo tempo, iam os oradores tomando a palavra, comprimidos contra os altos espaldares das cadeiras. Os que estavam atrs notavam o que o orador precedente no dissera, para se darem pressa de o expressarem. Outros, no meio daquele calor e daquele aperto, procuravam no crebro as ideias que lhes escapavam para que os outros as tomassem. Os nobres conservavam-se nos seus tronos, olhavam uns para os outros, um pouco sobressaltados, e na expresso dos seus rostos apenas se percebia estarem cheios de calor. No entanto, Pedro sentia-se emocionado tambm e aquele desejo de tudo sacrificar pela ptria que palpitava em todos os discursos acabou por comunicar-se-lhe. No renegava qualquer das suas convices, mas sentia-se confusamente culpado e que- na justificar-se.
      - Apenas digo que seriam mais fceis os nossos sacrifcios se soubssemos quais as necessidades a enfrentar - gritou, procurando dominar a outras vozes.
      Um velhinho que estava perto de Pedro encarou-o, mas logo o distraram os gritos que ressoaram na outra extremidade da mesa.
      Sim, Moscovo render-se-! Ser a expiadora, gritava algum.
       um inimigo da humanidade!, vociferou outra voz. Deixem-me falar... Os senhores sufocam-me!...
      

      
      
      
      Captulo XXIII
      
      Naquele momento entrou na sala, apressadamente, por entre a multido, que se afastava, o conde Rostoptchine, de uniforme de general, banda militar a tiracolo, queixo proeminente e olhos coruscantes.
      - Sua Majestade o imperador est a chegar - disse ele - Venho l de dentro. Creio que na situao em que nos encontramos no temos muito tempo para discutir. O imperador dignou-se reunir-nos, bem como aos comerciantes.  dali que viro os milhes - acrescentou, apontando para a sala contgua. - A ns cabe-nos formar a milcia e no nos pouparmos a ns prprios...  o menos que podemos fazer.
      Entre os notveis que se sentavam em volta da mesa principiou uma espcie de conselho. Tudo se dizia em voz segredada. E depois da algazarra anterior era triste ouvir aquele rouquejar de velhos, emitindo as suas opinies um por um. Dizia uma voz: Estou de acordo; e outra, para variar a frmula, murmurava: Sou da mesma opinio.
      Ao secretrio foi dada ordem de inscrever a resoluo seguinte da nobreza moscovita: Os Moscovitas, seguindo o exemplo dos habitantes de Smolensk, daro dez homens por mil com equipamento completo. Em seguida levantaram-se, satisfeitos por poderem desentorpecei, as pernas, afastando as cadeiras com fragor, e espalhando-se pela sala, de brao dado, dando  lngua.
      O imperador! O imperador!, gritaram da a pouco, e toda a gente se precipitou para a entrada.
      Em passos largos, pelo meio de uma fila de nobres, o imperador caminhou sala dentro. Em todos os rostos havia uma curiosidade respeitosa e assustada. Pedro, bastante longe, no pde distinguir muito bem as palavras pronunciadas. Compreendeu apenas que o imperador falava do perigo em que se encontrava o imprio e das esperanas que tinha na nobreza de Moscovo. Outra voz respondeu ao imperador para lhe comunicar os termos da resoluo que acabava de tomar-se.
      - Meus senhores - disse o imperador em voz trmula. Um ligeiro sussurro percorreu a multido, que instantaneamente se calou, e Pedro ouviu distintamente a voz simptica e comovedora do soberano, que dizia: - Nunca duvidei da dedicao da nobreza russa. Mas hoje sinto que ultrapassou as minhas esperanas. Agradeo-vos em nome da ptria. Meus senhores, mos  obra, o tempo e precioso...
      O imperador calou-se, a multido comprimiu-se  sua roda e exclamaes de entusiasmo irromperam de todos os lados.
      Sim, e o que  mais precioso ainda...  a palavra do czar, dizia, soluando, nas ultimas filas, Ilia Andreitch, que nada ouvira e tudo compreendera  sua maneira.
      Da sala da nobreza o imperador passou  dos comerciantes. Esteve ali perto de dez minutos. Pedro, e como ele tantos outros, viram-no abandonar a sala com lgrimas de reconhecimento a bailar-lhe dos olhos. Como depois veio a saber-se, mal principiara c seu discurso aos comerciantes, as lgrimas saltaram-lhe dos olhos e foi em voz trmula que pronunciou as ltimas palavras. Quando Pedro o viu saa ele da sala acompanhado por dois dos assistentes, Um deles era seu conhecido, um grande produtor de lcool; o outro era administrador local, de rosto magro e amarelento, barba rala. Ambos choravam. O magro tinha lgrimas nos olhos, mas o outro soluava como uma criana, repetindo constantemente: Majestade! Ofereo-vos a minha vida e a minha fortuna!
      Naquele momento Pedro no desejava outra coisa seno mostrar que para ele no havia obstculos e que estava disposto a tudo sacrificar. Lamentava o seu discurso de tendncias constitucionais. Procurava uma oportunidade para o fazer esquecer. Ao saber que o conde Mamonov oferecia um regimento inteiro, declarou imediatamente ao conde Rostoptchine que daria mil homens e se encarregaria da sua manuteno.
      O velho Rostov no pde contar sem lgrimas,  mulher, que o ouvia, o que se tinha passado, dando desde logo a Ptia o consentimento que ele pedia e indo ele prprio alist-lo.
      No dia seguinte o imperador partiu. Todos os nobres que tinham sido convocados despiram o uniforme, retomando os seus hbitos, tanto em casa como no clube, e foi resmungando que deram ordem aos intendentes respectivos para a formao das milcias, surpreendidos eles prprios dos seus oferecimentos.






SEGUNDA PARTE
      

      
      
      
      Captulo I
      
      Napoleo iniciou a guerra contra a Rssia porque no podia deixar de ir a Dresde, porque no podiam deixar de lhe subir  cabea as honrarias, porque precisava de envergar um uniforme polaco e de se deixar envolver nos encantos de uma linda manh de Junho, porque no pde resistir  clera na presena de Kurakine depois de Balachov.
      Alexandre recusara-se a parlamentar, pois se sentia pessoalmente ofendido. Barclay de Tolly procurava comandar o exrcito o melhor que podia no cumprimento do seu dever e na esperana de conquistar a fama de grande cabo-de-guerra. Rostov lanara-se contra os franceses porque no podia resistir  tentao de galopar em campo aberto. E eis como agiam, consoante as suas disposies pessoais, os seus hbitos, a sua condio ou as suas intenes, as numerosas personagens que tomavam parte na guerra. Os seus receios, as suas vaidades, as suas alegrias, os seus descontentamentos, as suas crticas vinham de suporem saber o que faziam e de julgarem agir por si prprios, quando afinal no passavam de instrumentos inconscientes da histria, realizando um trabalho oculto para eles, mas inteligvel para ns. Tal  o destino imutvel de todos os comparsas, tanto menos livres quanto mais alto na hierarquia social.
      Os actores dos acontecimentos de 1812 j no pertencem ao nmero dos vivos, os interesses que os impeliam no deixaram o mais pequeno vestgio, e s restam os resultados histricos da sua poca.
      Mas, se admitirmos que os habitantes da Europa conduzidos Por Napoleo deviam penetrar no corao da Rssia e ali ficar, toda a conduta contraditria, insensata e cruel dos actores dessa guerra se nos torna inteligvel.
      A Providncia obrigava todos esses homens na peugada de fins pessoais a colaborar num nico e enorme resultado, resultado que ningum conhecia, nem Napoleo nem Alexandre, e ainda muito menos qualquer dos que participavam na guerra.
      No momento actual vemos claramente o que provocou a perda do exrcito francs. Ningum contestar que a causa desse desastre foi, por um lado, a sua penetrao tardia e sem preparao suficiente no corao da Rssia, sujeito a arrostar com uma campanha de Inverno, e, por outro, o carcter que a guerra assumiu em virtude do incndio das povoaes e o dio que germinou no corao do povo russo. Mas ento ningum podia prever o que actualmente  a prpria evidncia, isto , que bastavam estas causas para aniquilar um exrcito de oitocentos mil homens, o melhor que ainda houvera no mundo, conduzido pelo melhor dos capites, diante do exrcito russo, duas vezes mais fraco, sem experincia, e dirigido por generais igualmente inexperientes. E no s ningum podia prever semelhante desfecho como todos os esforos da parte dos Russos tendiam constantemente a impedir a nica coisa susceptvel de salvar a Rssia e os da parte dos Franceses, apesar da experincia e do suposto gnio militar de Napoleo, igualmente tendiam a levar as suas vitrias at Moscovo antes do fim do Estio, ou seja, a fazer exactamente o que deveria perd-los.
      Nas obras histricas respeitantes a 1812 os autores franceses insistem no facto de Napoleo sentir o perigo que para ele havia em estender demasiado as suas linhas, e dizem que procurava dar batalha, que os seus generais o tinham aconselhado a deter-se em Smolensk e em quejandos argumentos da mesma sorte que provam no se ignorar ento o perigo que ameaava o exrcito francs, Por outro lado, os autores russos insistem, com mais peso ainda, no plano estabelecido, segundo eles, desde o princpio da campanha, de guerra cita, o qual consistia em atrair Napoleo ao corao da Rssia, e atribuem esse plano uns a Pfuh1, outros a um certo francs, outros ainda a Toll, e outros, por fim, ao prprio Alexandre, documentando-se nas notas, nos projectos e nas cartas em que existem, de facto, aluses a esta maneira de ver. Mas a verdade  que todas estas aluses a uma previso do que veio a acontecer, tanto do lado francs como do russo, se agora so postas em relevo  precisamente porque os acontecimentos as justificam. Se tivesse acontecido o contrrio, teriam sido completamente esquecidas, como sucede a milhares de aluses e de hipteses espalhadas ento e que se verificaram ser inexactas. O resultado de cada acontecimento d sempre lugar a tantas suposies que, sejam elas quais forem, h sempre pessoas prontas a afirmar: Eu bem dizia que as coisas se passariam assim. Esquecem que entre todas estas numerosas suposies algumas h absolutamente contraditrias.
       evidente que a esta categoria de suposies sem fundamento pertence a do perigo entrevisto por Napoleo na extenso da sua linha de comunicaes e a relativa  guerra cita, e os historiadores s com muitas reservas devem atribuir tais vistas a Bonaparte e tal plano aos chefes militares russos. Todos os factos esto em contradio absoluta com essas hipteses. No s no decurso de toda a guerra se no observou qualquer desejo da parte dos Russos de atrarem os Franceses ao interior do seu pas, mas, pelo contrrio, tudo quanto se fez foi no sentido de os deter, uma vez verificado o seu primeiro avano. Por outro lado, no s Napoleo no receava o alongamento da sua linha, mas at se regozijava, como se se tratasse de uma vitria, de cada passo em frente, indo com maior entusiasmo para a luta do que no decurso das suas campanhas anteriores.
      Desde o princpio que os exrcitos russos se encontraram cortados, e o nico objectivo dos seus chefes foi reuni-los de novo, quando  certo que para bater em retirada e atrair o inimigo ao corao do seu pas tal juno no representava qualquer vantagem. O imperador esteve junto das suas tropas para encoraj-las na defesa de cada palmo da terra russa, e no para ordenar a retirada. Construiu-se o enorme campo entrincheirado de Drissa, de acordo com os planos de Pfuhl, na inteno bem clara de no se recuar mais. Cada passo  retaguarda custou aos comandantes-chefes repreenses do imperador. No s este no Podia imaginar que os Russos deitariam fogo a Moscovo, como nem sequer previa que deixariam avanar o inimigo at Smolensk, e, quando os exrcitos operaram a sua juno, exasperou-se pelo facto de aquela cidade ser tomada e incendiada e de se no ter travado uma batalha geral  volta das suas muralhas.
      Assim pensava o imperador, mas assim pensavam tambm os chefes russos, e o povo inteiro indignou-se com a ideia de que o seu exrcito recuava at ao interior do pas.
      Napoleo, depois de cortar em dois o exrcito de Alexandre, Penetra cada vez mais a fundo em territrio russo, deixando escapar vrias oportunidades para dar combate. Em Agosto est em Smolensk e no pensa noutra coisa seno em avanar mais ainda, embora, como hoje se v perfeitamente, esse movimento fosse perigoso para ele.
      Os factos mostram com toda a evidncia que Napoleo no previa o perigo de um movimento em direco a Moscovo e que Alexandre e os chefes russos no pensavam em atrair Napoleo, mas sim exactamente no contrrio. O facto deu-se no em resultado de um plano qualquer - e o certo  que ningum teria acreditado na possibilidade de o pr em prtica -, mas como consequncia de um complicadssimo jogo de intrigas, de ambies, de desejos da parte dos comparsas da guerra, os quais no adivinhavam o que iria acontecer e seria a nica salvao da Rssia.  inopinadamente que as coisas sucedem. Os exrcitos so cortados em dois no princpio da campanha. Os Russos tentam reuni-los na inteno evidente de travar uma batalha e de deter o inimigo, mas no decurso desta tentativa, quando as tropas russas evitavam um recontro com foras muito superiores, eis que os exrcitos de Alexandre batem involuntariamente em retirada, formando um ngulo agudo, e os Franceses se vem deste modo atrados at Smolensk. Ainda no  tudo dizer-se que os Russos retrocedem em ngulo agudo, pois os Franceses avanam entre os dois exrcitos. O ngulo torna-se ainda mais agudo e os Russos recuam ainda mais, porque Barclay de Tolly, esse estrangeiro impopular.  odiado por Bagration, que lhe deve ser subordinado, e o qual,  frente do 2 exrcito, procura realizar a sua juno com elo, quanto mais tarde melhor, para no vir a encontrar-se sob as suas ordens. Durante muito tempo Bagration no opera a juno, embora seja esse o objectivo de todos os comandantes do exrcito, porque se lhe afigura que se realizar esse movimento por em perigo as suas tropas e por lhe parecer melhor recuar mais  esquerda e para o sul, inquietando o flanco e a retaguarda do inimigo, o que lhe permitir completar o seu exrcito na Ucrnia. Ao mesmo tempo parece ter imaginado semelhante tctica para no querer ver-se subordinado ao estrangeiro Barclay, a quem detesta e  mais novo na promoo,
      O imperador est com o exrcito para o animar com a sua presena, mas o certo  que a sua estada junto das tropas, a ignorncia das decises que devem tomar-se e o nmero incrvel de conselheiros e de planos propostos anulam a fora ofensiva do 1 exrcito e as tropas batem em retirada.
      As coisas dispem-se para as tropas irem deter-se no campo de Drissa, mas inesperadamente Paulucci, que aspira ao posto de comandante-chefe, influi, graas  sua energia, no esprito de Alexandre, e todo o plano de Pfhul  abandonado, passando tudo para as mos de Barclay. Como este porm no inspira confiana, o seu poder  limitado. E ai temos os exrcitos fraccionados. J no h unidade de comando, e Barclay no goza de popularidade, Desta confuso, deste fraccionamento, desta impopularidade do general-chefe, resultam, por um lado, a indeciso e a recusa de travar batalha, a qual se no teria podido evitar se os exrcitos estivessem reunidos e se Barclay no tivesse o comando, por outro, um descontentamento cada vez maior em relao aos estrangeiros e um despertar do sentimento patritico.
      Finalmente o imperador retira-se de junto do exrcito e o nico e mais plausvel pretexto da sua retirada  que a ele compete incitar o entusiasmo nas capitais com vista a criar o esprito de uma guerra nacional. E esta viagem a Moscovo triplica as foras do exrcito russo.
      O imperador abandona o exrcito para no prejudicar a unidade do comando e espera-se que, aps a sua partida, se tomem decises mais enrgicas. Mas no. Pelo contrrio, a situao do chefe do exrcito complica-se e enfraquece cada vez mais. Bennigsen, o gro-duque, todo um enxame de generais ajudantes-de-campo, permanecem no exrcito para vigiar os actos do comandante-chefe e despertar, em caso de necessidade, a sua energia, e Barclay, que de dia para dia se sente menos livre sob a vigilncia de todos estes olhos do imperador, torna-se ainda mais hesitante nas suas decises e evita a batalha.
      Barclay , pela prudncia. O gro-duque herdeiro chega a pronunciar a palavra traio, e pede que se trave a batalha geral. Liubomirski, Bronnitski, Blotski e outros ainda do tanta repercusso a este boato que Barclay, a pretexto de entregar uns documentos ao imperador, faz com que partam para, Petersburgo todos os ajudantes-de-campo polacos e entra em luta aberta com Benngsen e o gro-duque.
      Finalmente, apesar da oposio de Bagration, em Smolensk opera-se a juno dos dois exrcitos.
      Bagration chega, de carruagem,  residncia ocupada por Barclay. Este afivela o cinturo, vai ao seu encontro e faz-lhe o seu relatrio como se fosse de patente inferior a ele. Bagration, num rasgo de magnanimidade, embora mais antigo, submete-se a Barclay. Feito o que, no entanto, cada vez se mostra em maior desacordo com ele. Por ordem do imperador, dirige-lhe pessoalmente o seu relatrio. Escreve a Araktcheiev: Apesar de ser esse o desejo do imperador, no posso de maneira nenhuma permanecer com o ministro [assim designava Barclay]. Por amor de Deus, enviai-me para qualquer parte, ainda que no seja seno Para comandar um regimento. Aqui  que eu no me posso ver.
      O quartel-general est cheio de alemes, e de tal modo que um russo no pode viver no meio deles.  de perder a cabea. Julguei servir realmente o imperador e a ptria e afinal a quem eu sirvo  Barclay. Confesso que me recuso a isso. A praga dos Bronnitski, dos Wintzengerode e quejandos continua a envenenar cada vez mais os relatrios dos comandantes-chefes e de dia para dia  menor a unidade de vistas. Preparam-se para atacar os Franceses diante de Smolensk.  enviado um general para examinar as posies. Este general, que detesta Barclay, dirige-se a casa de um dos seus amigos comandante de corpo de exrcito, passa com ele o dia, regressa ao quartel-general e faz crtica cerrada, ponto por ponto, do campo de batalha que no viu nem de longe.
      Enquanto os Russos discutem e intrigam e se disputam sobre o futuro campo de batalha, enquanto procuram os Franceses e se enganam sobre as suas posies, estes caem sobre a diviso Nevierovski e aproximam-se dos muros de Smolensk,
       preciso aceitar, quer queiram quer no, a batalha s portas de Smolensk a fim de salvar as linhas de comunicao dos Russos. A batalha d-se. Caem milhares de homens de um lado e do outro. Smolensk  abandonada contra a vontade do imperador e de todo o povo. Os habitantes porm, enganados pelos seus governantes, queimam a cidade. Completamente arruinados, chegam a Moscovo, s pensando nos prejuzos que sofreram, para darem o exemplo aos outros russos e comunicar-lhes o seu dio ao inimigo. Napoleo prossegue a sua rota. Os Russos recuam, e assim se encaminham as coisas para que os Franceses sejam vencidos.
      

      
      
      
      Captulo II
      
      No dia seguinte ao da partida do filho, o prncipe Nicolau Andreievitch mandou chamar a princesa Maria.
      - Bom, ests contente agora? - disse-lhe ele. - Conseguiste que eu me zangasse com o meu filho! Ests satisfeita? Era isso que querias, no  verdade? Ests contente?... Mas a mim isso faz-me pena, faz-me pena. Sou velho e fraco e foi isso que tu quiseste. Anda, alegra-te, alegra-te...
      Depois disto a princesa Maria no tornou a ver o pai durante todo o resto da semana. Estava doente e no saa do seu gabinete.
      Com grande espanto seu, a princesa notou que durante todo o perodo da doena o velho prncipe tambm no deixou que Mademoiselle Bourienne entrasse rios seus aposentos, Tikon era a nica pessoa que cuidava dele.
      No cabo de oito dias voltou a sair e retomou a sua vida habitual, dedicando-se com particular actividade  edificao e s plantaes, sem, no entanto, voltar a ver Mademoiselle Bourienne, No seu rosto, na maneira fria como tratava a filha, parecia ler-se: Vs, foste contar histrias a meu respeito, caluniaste-me junto de Andr por causa das minhas relaes com a francesa e conseguiste que eu me zangasse com ele. Como vs, no preciso de ti nem da francesa.
      A princesa Maria passava parte do dia com Nikoluchka: assistia s suas lies, dava-lhe mesmo, ela prpria, lies de lngua russa e de msica e entretinha-se com Dessales. O resto do seu tempo levava-o a ler ou com a velha ama e os homens de Deus, que a vinham s vezes visitar pela porta do servio. Pensava na guerra o que em geral as mulheres pensam. Temia pelo irmo, que por l andava, horrorizava-a, sem poder perceb-la, a crueldade dos homens chacinando-se uns aos outros. E no compreendia a importncia daquela guerra, que se lhe afigurava igual a todas as outras. No entanto, Dessales, o seu habitual interlocutor, seguia apaixonadamente a marcha das operaes, procurando expor-lhe as suas ideias. Tambm os homens de Deus,  sua maneira, lhe falavam do que se dizia sobre a vinda do Anticristo, e Jlia, agora princesa Drubetzkoi, voltara a corresponder-se com ela, escrevendo-lhe de Moscovo cartas cheias de sentimento patritico.
      
      Escrevo-lhe em russo, minha querida amiga - dizia-lhe ela - porque odeio os Franceses e a lngua que eles falam, que j no posso ouvir... Em Moscovo estamos todos entusiasmados com o nosso adorado imperador.
      O meu pobre marido est passando fome e toda a sorte de incmodos nas srdidas estalagens judias, mas as notcias ainda me animam mais.
      Provavelmente ouviu falar no feito herico de Raievsy, o qual, abraando os seus dois filhos, lhes disse: Morrerei convosco, mas daqui no samos! E efectivamente, embora o inimigo fosse duas vezes mais forte, no recumos. Passamos o tempo como podemos, mas a guerra  a guerra! A princesa Aline e Sofia esto dias inteiros comigo e as pobres de ns, infelizes vivas de maridos vivos, enquanto preparamos ligaduras entretemo-nos a falar de coisas edificantes, S temos saudades da nossa querida amiga...
      
      A princesa Maria no se dava conta da importncia da guerra, principalmente porque o velho prncipe, que nunca falava em tal, parecia ignor-la e troava de Dessales quando ele se lhe referia, O tom do prncipe era to calmo e seguro que a filha, sem raciocinar, acreditava nas suas palavras.
      Durante todo o ms de Julho o velho andou muito ocupado e at mesmo atarefado. Mandou plantar uma nova mata e construir um novo edifcio para a criadagem. A nica coisa que apoquentava a filha era o facto de ele passar mal as noites e de ter acabado com o seu antigo costume de dormir no gabinete: todos os dias mudava de quarto. Ora mandava pr a cama de campanha na galeria, ora ficava num div ou na cadeira de braos do salo, onde dormitava sem se despir, enquanto o jovem Petrucha, que substitura Mademoiselle Bourienne, lhe lia em voz Outras vezes pernoitava na sala de jantar.
      No dia 1 de Agosto chegou a segunda carta do prncipe Andr, Na primeira, recebida pouco depois da sua partida, pedia docilmente ao pai lhe perdoasse o que se permitira dizer-lhe e rogava-lhe que voltasse a conceder-lhe a sua afeio. O velho prncipe respondera-lhe em termos afectuosos e depois dessa carta afastara de si a francesa. A segunda, datada de Vitebsk, depois da ocupao da cidade, era uma rpida descrio de toda a campanha, com um plano desenhado por ele e algumas consideraes sobre a marcha da guerra. Chamava a ateno do pai para a inconvenincia de estar a residir muito prximo do teatro da guerra, precisamente na linha de movimento das tropas, e aconselhava-o a que partisse para Moscovo.
      Ao jantar, nesse mesmo dia, ao ouvir dizer a Dessales que corria o boato de que os Franceses se encontravam j em Vitebsk, o velho prncipe lembrou-se da carta do filho.
      - Recebi hoje uma carta do prncipe Andr - disse ele para Maria. - No a leste?
      - No, meu pai - volveu-lhe ela, assustada.
      No lhe teria sido possvel, efectivamente, ler uma carta que nem sequer sabia que tinha chegado.
      - Falava da guerra, desta guerra - voltou o prncipe, com esse sorriso desdenhoso que se lhe tornara habitual sempre que abordava o assunto.
      - Deve ser, com certeza, muito interessante - observou Dessales. - O prncipe deve estar bem informado...
      - Ah!, interessantssima! - exclamou Mademoiselle Bourienne.
      - V busc-la - disse o velho prncipe para a francesa. - Est na mesinha, debaixo do pesa-papis.
      Mademoiselle Bourienne ia j a sair, muito contente.
      - No, no! - exclamou ele, franzindo as sobrancelhas. - Vai tu, Mikail Ivanovitch.
      Mikail Ivanovitch levantou-se e dirigiu-se ao gabinete. Mal ele saiu, o velho prncipe, olhando desassossegadamente  sua roda, atirou com o guardanapo e foi atrs dele.
      - Nada sabem fazer. Vo-me mexer em tudo.
      Durante a sua ausncia, Maria, Dessales, Mademoiselle Bourienne, o prprio Nikoluchka, olharam uns para os outros sem dizer palavra. O velho prncipe voltou dai a pouco em passos apressados, seguido de Mikail Ivanovitch, com a carta e o plano, que pousou a seu lado, sem consentir que ningum a lesse antes de findo o jantar.
      Quando passaram ao salo, o velho prncipe entregou a carta  filha, e, estendendo o plano diante de si, ps-se a estud-lo, pedindo a Maria que lesse a carta em voz alta, Acabada a leitura, Maria olhou para o pai, mas este observava o plano, parecendo absorto nos seus pensamentos.
      - Que pensa de tudo isto, prncipe? - permitiu-se dizer Dessales.
      - Eu? Eu? - replicou ele, sem erguer os olhos do plano e como se emergisse de um sonho.
      -  muito possvel que o teatro da guerra realmente se aproxime de ns...
      - Ah! Ah! O teatro da guerra - repetiu o prncipe - Disse e repito: o teatro da guerra  a Polnia e o inimigo nunca avanar para alm do Nimen.
      Dessales fitou-o, estupefacto e falava ele do Nimen quando e, inimigo j estava no Dniepre. Mas a princesa Maria, que esquecera a geografia, aceitava como verdicas as palavras do pai.
      - Quando as neves principiarem a derreter-se morrero todos afogados nos pntanos da Polnia. Agora no podem dar-se conta disso - disse o prncipe, que naturalmente estava a pensar na campanha de 1807, para ele de h dois dias. - Bennigsen devia ter entrado mais cedo na Polnia. Ento as coisas teriam tomado outro rumo...
      - Mas, prncipe - interveio Dessales, timidamente -, na carta fala-se em Vitebsk...
      - Na carta? Ah! Sim... - replicou ele, enfadado - Sim... Sim... - E de repente ficou triste, calando-se- Sim  voltou -, ele diz que os Franceses foram batidos junto a que rio?
      Dessales baixou os olhos.
      - O prncipe nada diz que se parea com isso - observou mansamente.
      - Qu? No fala nisso? Fui eu quem o inventou ? Todos permaneceram calados por muito tempo.
      - Sim... sim... Bom, Mikail Ivanovitch - continuou ele, de sbito, levantando a cabea e mostrando o projecto do edifcio que andava a fazer. - Como  que queres modificar isto?
      Mikail Ivanovitch aproximou-se e o prncipe, depois de ter conversado com ele sobre o edifcio em construo, relanceou um olhar furibundo a Maria e Dessales, desaparecendo em seguida.
      A princesa Maria reparou no espanto do preceptor e na maneira como olhara o prncipe. Notou o seu silncio e impressionou-a o facto de o pai ter esquecido em cima da mesa do salo a carta do filho. Receava interrogar Dessales sobre as causas do seu estarrecimento e do silncio a que se votara; temia no s falar neste assunto, mas, inclusivamente, pensar nele. Pelo fim da tarde, Mikail Ivanovitch veio pela carta, da parte do prncipe. A princesa Maria entregou-lha. Embora isso a contrariasse, perguntou ao arquitecto que fazia seu pai.
      - Nunca est quieto - replicou ele, com um sorriso entre respeitoso e irnico, o que fez empalidecer Maria - Est muito preocupado com os novos edifcios. Leu um bocado e agora - acrescentou Mikail Ivanovitch, baixando a voz - foi para o escritrio, Parece-me estar s voltas com o testamento.
      Naqueles ltimos tempos uma das ocupaes favoritas do prncipe era compulsar os papis que queria deixar depois da sua morte: aquilo a que ele chamava o seu testamento.
      - E sempre vai mandar Alpatitch a Smolensk? - inquiriu a princesa Maria.
      - Isso mesmo. H muito tempo j que ele espera ordens.
      

      
      
      
      Captulo III
      
      Quando Mikail Ivanovitch voltou com a carta, encontrou o prncipe sentado diante da papeleira aberta, as lunetas no nariz e um quebra-luz na testa. A chama das velas lia uns papis que conservava a certa distncia dos olhos, numa atitude assaz teatral: lia o que ele chamava as suas anotaes, anotaes estas que deviam ser entregues ao imperador depois da sua morte.
      Quando Mikail Ivanovitch entrou, viu que o prncipe tinha lgrimas nos olhos: recordava-se do tempo em que escrevera aquelas pginas. O prncipe pegou na carta, meteu-a na algibeira, e depois de juntar os papis chamou Alpatitch, que aguardava h muito tempo ali perto.
      Escrevera, num papel tudo quanto era preciso comprar em Smolensk e deu as suas ordens, andando sempre de um lado para o outro do quarto, a Alpatitch, que continuava no limiar da porta.
      - Em primeiro lugar, papel de carta, percebes? Oito mos, aqui tens o modelo, Com os cantos dourados, sem falta, como o modelo. Verniz, lacre, como diz a nota de Mikail Ivanovitch.
      Continuando a passear, ia consultando o caderninho de algibeira.
      - Depois entregars pessoalmente ao governador a carta que vou dar-te.
      Eram ainda precisas fechaduras para o novo edifcio, exactamente do modelo que ele prprio inventara. E tambm necessitava de uma pasta para depositar o testamento.
      Mais de duas horas levou o prncipe a dar as suas instrues a Alpatitch. E no o largava. Sentou-se, ficou um momento pensativo, e em seguida, fechando os olhos, adormeceu. Alpatitch fez um movimento.
      - Anda, vai-te embora, vai-te embora. Se precisar de mais alguma coisa, chamo-te.
      Alpatitch saiu. O prncipe aproximou-se de novo da papeleira, percorreu-a com a vista, remexeu os papis, voltou a fech-la e foi sentar-se  mesa de trabalho, onde se ps a escrever uma carta ao governador.
      Era, tarde quando se levantou da mesa, depois de ter lacrado a carta. Tinha sono, mas sabia que no poderia dormir e que desde que se deitasse o assaltariam os mais tristes pensamentos. Chamou Tikon e percorreu com ele vrias dependncias da casa  procura de onde instalar a cama para a noite. A cada canto tomava medidas.
      No lhe agradava stio algum, mas o que acima de tudo lhe repugnava era o local do costume, no div do gabinete. Esse div causava-lhe um imenso desgosto, naturalmente por virtude dos Penosos pensamentos que a tivera deitado. No lhe convinha sitio algum, mas apesar de tudo o recanto do gabinete, por detrs do piano, era o que lhe parecia prefervel, naturalmente por ainda a no ter passado noite alguma. Tikon, ajudado pelo mordomo, transportou para ali a cama e preparou-a.
      - Assim no! Assim no! - gritou o prncipe, afastando ele prprio e leito do recanto onde Tikon o armara e voltando a coloc-lo no mesmo stio.
      Bom, finalmente agora est tudo pronto, vou poder descansar, disse de si para consigo, consentindo que Tikon principiasse a despi-lo.
      Entre trejeitos, devidos ao esforo que tinha de fazer para deixar que lhe tirassem o cafet e as calas, acabou por despir-se, caindo pesadamente sobre a cama, onde ficou pensativo a olhar tristemente as pernas ressequidas e amarelentas. No estava propriamente a pensar, apenas adiava o momento difcil em que teria de soerguer as canelas e estender-se na cama. Oh, que penoso que tudo isto ! Se tudo isto pudesse acabar dentro de pouco e se vs outros me pudsseis deixar tranquilo!, dizia para si mesmo. Tantas vezes tentou que, cerrando os dentes, acabou por se deitar. Mal se estendera, ps-se-lhe a cama a balouar. Dir-se-ia que o mvel ganhava vida. Era assim todas as noites. De novo abriu os olhos, que acabava de fechar.
      No me deixam em paz estes malditos, resmungou, increpando, colrico, pessoas invisveis. Bom, que tinha eu reservado para me lembrar quando estivesse deitado? Era uma coisa muito importante. Ah!, j sei, as fechaduras. No, as fechaduras j esto. Mas h qualquer coisa, qualquer outra coisa que se passou no salo. No teria sido qualquer tolice da princesa Maria?... Ou qualquer coisa que contou esse imbecil de Dessales?... No ser qualquer coisa que eu tenha na algibeira?... J me no lembro.
      - Tikon! De que se falou  mesa?
      - Do prncipe Andr...
      - Cala-te, cala-te - gritou o prncipe, fazendo um gesto violento. - Ah, sim, j sei, a carta do prncipe Andr. Dei-a a ler  Maria, Dessales disse lrias sobre Vitebsk. Agora  que tenho de a ler.
      Deu ordens para lhe irem buscar a carta, que estava na algibeira. Mandou que lhe aproximassem da cama uma mesinha com o copo de limonada e uma vela de cera e depois de encaixar as lunetas no nariz principiou a ler. S ento, no silncio da noite, quela plida luz coada pelo abat-jour verde, compreendeu, de sbito, a importncia do que nela vinha escrito.
      Os Franceses esto em Vitebsk. Estaro em Smolensk em quatro etapas. Talvez j l estejam at. - Tichka! - Tikon, sobressaltado, ps-se de p. - No, nada quero, no quero coisa alguma!...
      Pousou a carta debaixo da palmatria e cerrou as plpebras, E diante dos olhos surgiu-lhe o Danbio, por um radioso meio-dia, uns canaviais, o acampamento russo, e ele, moo general, sem uma ruga ento, vigoroso, fresco e rosado, a penetrar na tenda bordada de Potemkine. E um pulgente sentimento do cime diante do favorito despertou nele to poderoso como outrora. E lembrou-se de tudo quanto se disse nesse primeiro encontro, nos mais pequenos pormenores. E diante dele est uma mulherzinha de pequena estatura, cheia, as faces rechonchudas e tez amarelada:  a nossa me, a imperatriz. E tinha diante dos olhos o sorriso dela, ouvia as palavras amveis que ela lhe dirigira a primeira vez que o recebeu, e lembrou-se desse mesmo rosto no catafalco e a  altercao com Zubov junto do atade por causa do direito de beijar a mo da morta.
      Ah, se eu pudesse voltar atrs a esse tempo e se o presente pudesse desaparecer por completo, rapidamente, muito rapidamente! Se eles me deixassem em paz!
      

      
      
      
      Captulo IV
      
      Lissia Gori, o domnio do prncipe Nicolau Bolkonski, ficava a sessenta verstas mais alm de Smolensk e a trs verstas da estrada de Moscovo.
      Na mesma noite em que Bolkonski dera as suas ordens a Alpatitch. Dessales pediu uma entrevista  princesa Maria e respeitosamente fez-lhe ver, que visto a sade do prncipe lhe no permitir tomas as medidas necessrias  segurana da sua gente e a carta do prncipe Andr indicar claramente que a permanncia em Lissia Gori no podia deixar de constituir um perigo, seria prudente enviar por Alpatitch uma carta ao governador da Provncia de Smolensk pedindo-lhe que a informasse, da verdadeira situao e do risco que corria se continuasse na aldeia. Ele prprio escreveu a carta, que a princesa Maria assinou, a qual foi confiada a Alpatitch que recebeu instrues para a entregar ao governador e no caso de urgncia regressar a Lissia Gori o mais cedo possvel.
      Alpatitch munido, de todas estas instrues, rodeado de gente da casa, gorro de pelo branco, presente do amo, bengala na mo exactamente como o prncipe, quando saa, instalou-se numa pequena kibitka, de capota de couro, tirada por trs nutridos cavalos rues.
      Tinha amarrado as campainhas e metido papel nos guizos.. O prncipe no consentia que se usasse cascveis no seu domnio. Mas Alpatitch gostava de guizalhar quando partia para uma longa viagem. Foram despedir-se o cartorrio, o guarda-livros, uma cozinheira, uma moa de cozinha, duas velhas, um moo de recados, cocheiros e vrios criados.
      A filha pusera-lhe no assento e nas costas almofadas de penas. A velha cunhada meteu-lhe no carro, s escondidas, um embrulhinho. Pegando-lhe por um brao, um dos cocheiros ajudou-o a subir para a carruagem.
      - Bom! Bom!, estes arranjos mulherengos! As mulheres! As mulheres! - exclamou Alpatitch, resfolegando, exactamente como costumava fazer o amo. E sentou-se no seu lugar.
      Depois de ter dado as suas ltimas instrues ao chefe da polcia rural a respeito dos trabalhos e desta vez sem imitar o prncipe, Alpatitch descobriu a cabea calva e por trs vezes se persignou.
      - Se acontecer alguma coisa... volta logo para casa, Iakov Alpatitch. Por Deus, tem piedade de ns - gritou-lhe a mulher, aludindo aos rumores que corriam sobre a guerra.
      Ah! Coisas de mulheres! Coisas de mulheres! Sempre com histrias!, murmurou Alpatitch para com os seus botes quando a kibitka se ps em marcha. E lanava um olhar para a direita, outro para a esquerda, mirando ora os campos de centeio que amareleciam, ora a aveia ramalhuda e ainda verdejante, ora os campos ainda negros, que principiavam a ser preparados para as sementeiras.
      Alpatitch, ao longo do caminho, ia admirando as belas searas de trigo, excepcionais naquela Primavera, os regos de centeio onde, em certos locais, j principiava a ceifa, e para si mesmo ia deitando os clculos s sementeiras e s prprias colheitas, ao mesmo tempo que se interrogava a si mesmo sobre se no se teria esquecido de qualquer recado do amo.
      Depois de se deter duas vezes para dar de comer aos cavalos, chegou  cidade na noite de 4 de Agosto.
      J encontrara no caminho comboios e tropas que ultrapassara. Ao aproximar-se de Smolensk, ouvira tiros de canho a distncia, mas a nada prestara ateno. Impressionou-o bem mais o facto de ter visto, nos arredores da cidade, uma magnfica seara de aveia que os soldados ceifavam, naturalmente para rao dos cavalos, e onde se instalara um acampamento. No entanto, at este pormenor esqueceu em breve, preocupado que ia com o que tinha a fazer.
      Havia mais de trinta anos que Alpatitch no vivia seno para cumprir as ordens do prncipe, e era tudo. O que no dissesse respeito ao cumprimento das ordens do amo no s no o interessava como nem sequer existia para ele.
      Tendo chegado na noite de 4 de Agosto a Smolensk, deteve-se do outro lado do Dniepre, no arrabalde de Gatcha, na estalagem de Ferapontov, antigo porteiro do prncipe, onde havia trinta anos se hospedava. Trinta anos atrs, com a cumplicidade de Alpatitch, comprara Ferapontov uma mata ao prncipe, pusera-se a negociar e agora era dono de uma casa, de uma estalagem e de uma tenda de cereais na capital da provncia. Era um campnio dos seus cinquenta anos, gordo, vermelhusco, cabelo preto, lbios grossos, nariz batatudo, pana e lobinhos por cima das espessas sobrancelhas. Estava  porta da tenda que dava para a rua, de colete e em mangas de camisa. Ao ver Alpatitch velo a ele.
      - Bem-vindo sejas, Iakov Alpatitch! Os habitantes vo-se da cidade e tu vens - exclamou.
      - Que dizes tu? Vo-se da cidade? - inquiriu Alpatich. - E eu entendo que so estpidos. Tm medo dos Franceses.
      - Coisas de mulheres!, coisas de mulheres! - replicou Alpatitch.
      -  o que eu digo, Iakov Alpatitch. Desde que deram ordens para no deixar passar o inimigo, o inimigo no passa. E a tens tu os campnios a pedir trs rublos por um carro. Que hereges!
      Iakov Alpatitch ouvia distrado. Pediu o samovar e feno para os cavalos e depois do ch foi deitar-se.
      Durante toda a noite desfilaram tropas pela porta da estalagem. No dia seguinte, Alpatitch envergou o trajo que s vestia quando vinha  cidade e desandou  sua vida. Estava uma manh soalheira e s oito horas j fazia calor. Rico tempo para as colheitas!, pensava Alpatitch. Do outro lado da cidade, desde manh se ouvia a fuzilaria.
      A partir das oito horas salvas de artilharia vieram juntar-se aos tiros de espingarda. As ruas transbordavam de gente, que se agitava apressada, e de soldados, mas os carros de praa circulavam, e os comerciantes conservavam-se nas suas lojas. Nas igrejas celebravam-se os ofcios matinais. Alpatitch percorreu as lojas, as reparties, foi ao correio e a casa do governador. Nas reparties, nas lojas, no correio, no se falava seno na guerra e tio inimigo, que estava j a atacar a cidade; perguntavam todos uns aos outros o que deviam fazer e cada um procurava tranquilizar o vizinho.
      Em casa do governador havia muita gente, cossacos e carros de viagem pertena desse alto funcionrio. Na escadaria de entrada encontrou dois indivduos, um deles seu conhecido. Este, ex-comissrio da polcia do distrito, falava acaloradamente:
      - No se trata de uma brincadeira - dizia ele. - Isso , bom para quem est sozinho. Quando se  s e pobre, passa, mas quando se tm treze pessoas de famlia a seu cargo e tudo quanto  nosso... A  que est, fica-se sem nada. Que, espcie de autoridades so estas?... Devamos enforc-los a todos. Bandidos... 
      - Bom, bom, basta - dizia o outro.
      - Que me importa a mim? Pois que ouam! No somos ces.- E, tendo-se voltado, viu Alpatitch.
      - Eh, Iakov Alpatitch, que fazes tu por aqui?
      - Trago uma incumbncia de Sua Excelncia para o governador - replicou Alpatitch, empertigando a cabea e metendo a mo na carcela da camisa, atitude que tomava sempre que se referia ao amo. - Encarregou-me de me informar da situao.
      - Ento, trata de te informares - gritou o outro. - Vais ver ao que estamos reduzidos. No h mais carros, nada mais h. E eles a esto, ouves? - prosseguiu ele, apontando para os lados donde se ouvia a fuzilaria.
      - Arranjaram as coisas to bem que estamos todos liquidados... Bandidos! - repetiu, enquanto descia a escada.
      Alpatitch encolheu os ombros e meteu pela escadaria acima. Na sala de espera havia negociantes, mulheres, funcionrios, olhando todos uns para os outros, sem dizerem palavra. A porta do gabinete abriu-se: todos se levantaram e deram um passo em frente. Aodado, saiu l de dentro um funcionrio, que disse qualquer coisa a um dos negociantes, e depois se dirigiu a um gordo burocrata que trazia uma condecorao ao pescoo, desaparecendo em seguida, como que a eximir-se s perguntas e aos olhares que lhe endereavam. Alpatitch colocou-se na primeira fila, e quando o funcionrio voltou a aparecer, metendo a mo na carcela do cafet, puxou das duas cartas, que lhe apresentou,
      - Para o Sr. Baro Asch, da parte do general-chefe prncipe Bolkonski - articulou ele, numa voz to importante e to solene que o funcionrio no teve outro remdio seno aceitar as cartas.
      Alguns minutos depois, o governador recebia Alpatitch e dizia-lhe apressadamente:
      - Diz ao prncipe e  princesa que nada sei: procedo de acordo com as ordens superiores. Toma, aqui tens  acrescentou, entregando-lhe um papel. - Alis, se o prncipe est doente, aconselho-o a que v para Moscovo, eu prprio vou partir imediatamente. Diz-lhe...
      O governador no pde concluir a frase. Um oficial coberto de suor e de poeira precipitou-se na sala e ps-se a falar-lhe em francs. No rosto do governador havia uma expresso de pnico.
      - Vai-te embora - disse ele, fazendo-lhe um sinal com a cabea, e ps-se a interrogar o oficial,
      Olhares vidos de notcias, assustados e impotentes, interrogaram Alpatitch quando ele saiu do gabinete do governador, Dando f, mesmo sem querer, da fuzilaria cada vez mais intensa e mais prxima, tratou de regressar  estalagem. O  papel que o governador lhe dera dizia o seguinte:
      
      Asseguro-lhe que a cidade de Smolensk no corre perigo algum e no  de crer que venha a estar ameaada. O prncipe Bagration e eu avanamos cada um pelo seu lado para nos reunirmos diante de Smolensk, juno esta que estar realizada no dia 22 deste ms, e os dois exrcitos, na totalidade das suas foras, defendero os seus compatriotas da provncia que lhe foi confiada at que os nossos esforos afastem deles o inimigo da ptria ou at que caia o ltimo soldado das nossas valorosas fileiras. Portanto j v que pode tranquilizar os habitantes de Smolensk; quando se  defendido por dois exrcitos io valentes pode estar-se seguro da vitria. (Ordem do dia de Barclay de Tolly ao governador civil de Smolensk, baro Asch, no ano de1812.)
      
      O povo girava inquieto pelas ruas. Carroas carregadas de panelas, de cadeiras, de arcas, saam a cada momento dos portais e seguiam ruas fora. Diante da casa contgua  de Ferapontov estacionavam vrios carros, e algumas mulheres soluavam, despedindo-se. Um co ladrava correndo  frente dos cavalos atrelados.
      Alpatitch, em passo mais acelerado que de costume, penetrou no ptio e dirigiu-se directamente ao telheiro onde estavam os seus cavalos e a sua carruagem. O cocheiro dormia; acordou-o e mandou-o atrelar, entrando depois no vestbulo da estalagem.
      No quarto do dono da casa ouviam-se choros de crianas, soluos dilacerantes de mulheres e a voz estentrea e rouca de Ferapontov. Quando Alpatitch penetrou no vestbulo, a cozinheira corria de um lado para o outro como uma galinha assustada.
      - Deu-lhe uma paulada que a deixou meio morta... Bateu na patroa. Arrastou-a.
      - Porqu? - perguntou Alpatitch.
      - Queria que a levasse daqui.  mulher, coitada! Leva-me, disse-lhe ela, no me deixes morrer aqui com os meus filhos. Toda a gente se vai embora. Que vai ser de ns? E ele ps-se a bater-lhe. Aquilo  que foi dar-lhe. Como ele a arrastou!
      Alpatitch abanou a cabea, com ar meio aprovador, e sem querer ouvir mais encaminhou-se para o quarto em frente do do patro, onde deixara as suas compras.
      - Malvado! Bandido! -, gritava nessa altura uma mulher magricela e plida, com uma criana ao colo, que se precipitou na escada a caminho do ptio, o leno da cabea meio rasgado.
      Ferapontov saiu-lhe no encalo, mas ao ver Alpatitch ajeitou colete e os cabelos e, bocejando, penetrou no quarto do amigo. 
      - Pelo que vejo, vais-te embora - disse- lhe.
      Sem lhe responder e sem mesmo o olhar, Alpatitch continuou a embrulhar as suas compras e perguntou-lhe quanto lhe devia.
      - J faremos contas. Falaste com o governador? - inquiriu Ferapontov - Que decidiram eles?
      Alpatitch explicou-lhe que o governador nada lhe dissera de muito preciso.
      - Como havemos ns de nos ir embora? - disse Ferapontov. - Quem h-de dar sete rublos por um carro at Dorogobuj?  por isso que eu digo que so hereges! Selivanov, esse, teve sorte, na quinta-feira: vendeu farinha ao exrcito  razo de nove rublos por saco. Ouve c, tornas ch? - acrescentou.
      Enquanto atrelavam os cavalos os dois foram tomar ch, conversando sobre o preo dos trigos, sobre as colheitas e o tempo, que ia bom para as ceifas.
      - Parece que isto vai melhor - disse Ferapontov, depois de tomar trs chvenas de ch, levantando-se. - Podes crer, os nossos tm-nos na mo. Eles bem dizem que os no ho-de deixar entrar. S quer dizer que tm fora... No outro dia, segundo ouvi, Matvei Ivanovitch Platov perseguiu-os at ao Marina. Dizem que s num dia afogou dezoito mil.
      Alpatitch fez um embrulho das suas compras, deu-o ao cocheiro, que acabava de entrar, e pagou a conta ao estalajadeiro. Junto do porto ouviam-se o rudo da kibitka que saa do ptio e o retinir dos guizos.
      J passava do meio-dia. Parte da rua estava na sombra enquanto a outra brilhava ao sol. De sbito ouviu-se um silvo longnquo e estranho acompanhado de um estampido, e em seguida um ronco prolongado que fez estremecer os vidros.
      Alpatitch saiu para a rua. Dois homens corriam na direco da ponte. Por todos os lados se ouviam silvos e o estampido surdo das granadas que explodiam sobre a cidade. Mas isso nada era e pouco chamava a ateno dos habitantes comparado com o canhoneio que se ouvia fora de portas.
      Era o bombardeamento da cidade de Smolensk, com cento e trinta peas de artilharia, que Napoleo ordenara principiasse s cinco horas da manh. De princpio, a populao da cidade no tinha sequer percebido que se tratava de um bombardeamento.
      Os obuses e as granadas que caam comearam por despertar apenas curiosidade. A mulher de Ferapontov, que continuava a choramingar no telheiro, calou-se repentinamente, e com o filho nos braos veio para o porto, onde ficou, sem dizer nada, olhando para quem passava, de ouvido  escuta.
      A cozinheira e um lojista vieram-se-lhe juntar. Todos, numa curiosidade divertida, procuravam lobrigar os projcteis que lhes passavam por cima da cabea. A esquina da rua apareceram uns indivduos conversando animadamente.
      - Que fora, caramba! - dizia um - O telhado, o tecto, ficou tudo em cacos.
      - Parece que andaram a fossar a terra como o porco faz com o focinho - acrescentou outro. - Isto sim, isto vale a pena. Pe um morto em p! - prosseguiu um terceiro em ar de mofa. - Tiveste sorte. Se no tens dado um salto para o lado, estavas a estas horas em fanicos.
      Aproximaram-se deles outras pessoas. Contaram que as granadas lhes tinham cado em casa, mesmo a seu lado. Entretanto, os projcteis, as granadas, de silvos prolongados e lgubres, os obuses, de uma msica mais alegre, continuavam a passar por cima das cabeas. No entanto, nenhum caiu nas imediaes, todos seguiam mais longe. Alpatitch instalou-se na kibitka. O estalajadeiro continuava de p, ao porto.
      - Que ests tu para a a olhar? - gritou ele para a cozinheira, a qual, de mangas arregaadas, saiote vermelho, mos nas ancas, se aproximara do cunhal da rua para ouvir o que se dizia.
      - Sempre h coisas! - exclamava ela, Mas, ao ouvir a voz do amo, retrocedeu, deixando cair a saia repuxada para cima. De novo, e desta vez ali mesmo, ressoou um silvo, e, como uma ave vinda do cu, viu-se um grande claro no meio da rua, enquanto uma detonao, que encheu tudo de fumo, atroava os ares.
      - Bandidos! Que est esta gente a fazer? - gritou o estalajadeiro, correndo para a cozinheira.
      Nesse mesmo momento romperam de vrios lados gritos aflitivos de mulheres. A criana, aterrada, ps-se a chorar, e as pessoas, silenciosas e plidas, juntaram-se em volta da cozinheira. Os gemidos e as exclamaes que ela soltava ouviam-se no meio do vozear da multido.
      - Oh, meus pombinhos! Oh, pombinhos brancos! No me deixem morrer! Meus pombinhos brancos!
      Cinco minutos depois no havia vivalma na rua. A cozinheira fora levada para a cozinha, com uma costela partida por um estilhao de obus. Alpatitch, o cocheiro, a mulher de Ferapontov mais os filhos, o porteiro, todos se haviam refugiado na cave, e falavam de ouvido  escuta. O troar do canho, o silvar das granadas bem como os gemidos da cozinheira, que dominavam todos os demais rudos, no se calavam um instante, A mulher do estalajadeiro embalava o filho, procurando sosseg-lo, e perguntam aos que iam entrando se tinham visto o marido, que ficara l fora. Um lojista que chegou disse que ele acompanhara o povo que se dirigia  catedral para rezar diante do cone miraculoso de Smolensk.
      Ao cair da noite o canhoneio diminuiu. Alpatitch saiu da cave e ficou um momento parado no limiar da porta. O cu, at a claro, estava agora cheio de fumo. E no meio de toda aquela fumarada, no horizonte, resplandecia o crescente da lua nova. Desde que o troar das bocas de fogo se calara, parecia que a calma cara sobre a cidade, apenas interrompida pelo rudo confuso dos passos, dos gemidos, dos gritos longnquos e do crepitar dos incndios. Os gemidos da cozinheira tinham deixado de se ouvir. A direita e  esquerda elevavam-se, dispersando-se pelo ar, negras colunas de fumo, Nas ruas, no j em fileiras, mas como formigas de um formigueiro arrasado, corriam, em vrias direces, soldados com os mais variados uniformes. A vista de Alpatitch vrios se refugiaram no ptio de Ferapontov. Alpatitch caminhou para o porto. Um regimento, em retirada, acelerada e em desordem, obstrua a rua.
      - A cidade rende-se, fuja, fuja o mais depressa possvel - disse um oficial que, ao passar, reparara na silhueta de Alpatitch, e logo em seguida, gritando para os soldados. - Eu vos ensinarei a meterem-se no ptio.
      Alpatitch voltou  estalagem e, chamando o cocheiro, deu-lhe ordem de abalar. O pessoal de Ferapontov sara logo atrs de Alpatitch e do cocheiro. Ao verem a fumarada e as chamas dos incndios, agora mais brilhantes por ter comeado a cerrar-se a noite, as mulheres, at a caladas, de repente puseram-se aos gritos. Como se lhes respondessem, nos dois extremos da rua ressoaram gemidos. Alpatitch e o cocheiro, de mos trmulas, no telheiro, desembaraavam as rdeas dos cavalos e os tirantes enrodilhados.
      No momento em que saam do porto viram na tenda de Ferapontov, cuja porta ficara aberta, um magote de soldados que em grande alarido enchiam sacos e bornais de farinha e de girassol. Nessa altura entrava Ferapontov, vindo da rua. Ao ver os soldados quis gritar mas, de sbito calou-se e, arrancando as mos cheias os cabelos da cabea, rompeu num riso entrecortado de soluos.
      - Levem tudo, rapazes! No deixem coisa, alguma Para esses diabos - gritava ele, pegando tambm nos sacos e despejando-os na rua.
      Alguns dos soldados, assustados, fugiram, enquanto os outros continuaram a encher os sacos. Ao ver Alpatitch, Ferapontov gritou-lhe:
      - Rssia, ests perdida! Alpatitch! Rssia, ests perdida! Eu vou tratar de deitar o fogo a tudo. Ests perdida... - repetia, correndo para a rua.
      A rua estava completamente obstruda pelos soldados que passavam constantemente e Alpatitch, no podendo avanar, viu-se obrigado a esperar ali mesmo. A mulher de Feranontov com os filhos meteu-se tambm num carro  espera do poder passar.
      A noite fechara-se por completo. O cu coberto de estrelas e de tempos a tempos via-se surgir a Lua atravs de uma cortina de fumo. Ao descerem para o Dniepre, os carros de Alpatitch e da mulher do estalajadeiro, que avanavam, a passo, entre duas filas de soldados e viaturas, foram obrigados a parar. No longe da encruzilhada onde fizeram alto, uma casa e uma tenda ardiam ainda. O incndio principiava a extinguir-se. To depressa as chamas esmoreciam, perdendo-se numa fumarada negra, como se punham a crepitar de sbito, iluminando, com uma nitidez fantstica, as figuras dos fugitivos acumulados na estrada. Por diante das chamas perpassavam silhuetas negras e no meio do crepitar ininterrupto do fogo ouviam-se vozes e gritos. Alpatitch apeou-se e, vendo que o caminho no estaria desimpedido to depressa, dirigiu-se  encruzilhada para contemplar o fogo.
      Os soldados andavam de um lado para o outro diante do braseiro. Viu que dois deles, acompanhados de um homem com um capote pelos ombros, arrastavam pela rua, em direco a um Ptio vizinho, pranchas a arder. Outros traziam braados de feno.
      Alpatitch aproximou-se de um grande ajuntamento estacionado diante de um vasto estabelecimento que ardia a bom arder. As paredes estavam envoltas em chamas, a retaguarda rua. O telhado de folhas de madeira estava prestes a cair, as pranchas ardiam. A gente aguardava, sem dvida, que o telhado viesse abaixo. Alpatitch esperou tambm.
      - Alpatitch! - gritou de repente uma voz conhecida.
      - Excelncia, paizinho! - exclamou ele, ao reconhecer imediatamente a voz do seu jovem amo.
      O prncipe Andr, envolto numa capa e montado num murzelo, estava no meio da multido, de olhos fitos nele.
      - Que ests aqui a fazer? - perguntou.
      - Exce... excelncia... - balbuciou Alpatitch, rompendo a chorar. - Exce... excelncia...  possvel que estejamos perdidos? Paizinho...
      - Que ests aqui a fazer? - repetiu Andr.
      Naquele momento reavivaram-se as chamas e Alpatitch pode ver o rosto plido e esgotado do seu jovem amo, Contou ao que viera e como no podia dali sair.
      -  verdade. Excelncia, que estamos perdidos? - repetiu ele.
      O prncipe Andr, sem lhe responder, puxou de uma carteirinha de algibeira, arrancou-lhe uma pgina e em cima do joelho ps-se a escrever a lpis estas palavras, dirigidas  irm:
      Smolensk rendeu-se. Lissia Gori ser ocupada pelo inimigo dentro de oito dias. Partam imediatamente para Moscovo. Avisa-me em seguida da data da vossa partida, enviando-me um portador a Usviage.
      Depois de ter entregue o papel a Alpatitch, deu-lhe oralmente instrues sobre os preparativos da partida do prncipe, da princesa e do filho, com o seu preceptor, e sobre a resposta que lhe devia ser remetida imediatamente. Mal acabara de falar, um dos chefes do estado-maior, a cavalo, e seguido de uma comitiva, precipitou-se para ele.
      -  o senhor o coronel? - Fritou, com um sotaque alemo no de todo desconhecido do prncipe Andr. - Esto a deitar fogo s casas na sua presena e o senhor nada faz para o impedir? Que quer isto dizer? O senhor  o responsvel...
      Era Berg, ento subchefe do estado-maior do flanco esquerdo da infantaria do 1 exrcito, posio muito agradvel e de destaque, como costumava dizer.
      O prncipe Andr fitou-o, e sem lhe responder continuou para Alpatitch:
      - Diz-lhe que espero resposta at ao dia 10, e se nesse dia no receber comunicao de que toda a gente abalou, ver-me-ei obrigado a deixar tudo para ir pessoalmente a Lissia Gori.
      - Prncipe, falo-lhe assim - disse Berg, reconhecendo-o - Porque sou obrigado a cumprir as ordens que recebo e desempenho-as sempre escrupulosamente... Desculpe-me, se faz favor...
      Alguma coisa crepitou no meio das chamas, que pareciam esmorecer, e turbilhes de fumo negro romperam do telhado.
      Outro estrondo ainda maior se ouviu e o telhado desmoronou-se.
      Hurra!, ululou a multido ao ouvir o estampido, O telhado do estabelecimento rura, espalhando em torno um forte cheiro a po queimado. As chamas reavivaram-se de novo, iluminando os rostos fatigados da multido extenuada que rodeava o braseiro.
      O homem do capote gritou, erguendo os braos ao ar: - Muito bem! Bom trabalho! Assim mesmo, rapazes!...
      -  o proprietrio! - exclamaram algumas vozes de entre a multido.
      - Bom! Est entendido! - prosseguiu o prncipe Andr - Repete-lhes tudo tal qual eu te disse. - E sem dar ateno a Berg, que permanecia silencioso junto dele, esporeou o cavalo e desapareceu por uma azinhaga.
      

      
      
      
      Captulo V
      
      Depois da queda de Smolensk, as tropas russas continuaram sua retirada, perseguidas pelo inimigo. No dia 10 de Agosto o regimento comandado pelo prncipe Andr passou, seguindo pela estrada principal, junto do caminho que conduzia a Lissia Gori.
      O calor e a seca duravam havia mais de trs semanas. Todos os dias grossas nuvens perpassavam pelo cu, escondendo o Sol de vez em quando. Mas para o fim da tarde o firmamento clareava e o Sol desaparecia no horizonte no meio de uma neblina avermelhada. S o rocio da noite refrescava a terra. O trigo que no fora ceifado secava e o gro caa. Os pntanos tinham secado. O gado morria de fome, sem encontrar pastos nos prados restados pelo sol, S de noite, e nas florestas, enquanto durava a humidade nocturna, fazia fresco. Mas na estrada real, por onde seguiam as tropas, at de noite, at mesmo no meio das florestas, o calor era insuportvel. No se dava pelo rocio da noite na poeira dos caminhos, de mais de um quarto de archina de altura. Mal luzia a manh, logo recomeava a marcha, Os comboios, a artilharia, rolavam sem rudo, enterrados at aos eixos, e a infantaria metia os ps, at  barriga da perna, na poeira mole, sufocante, que nem de noite arrefecia. Parte daquela poeira trituravam-na os ps dos soldados e as rodas das viaturas e a outra subia no ar, formando uma nuvem por cima das tropas e metendo-se pelos olhos dentro, por dentro dos cabelos, pelo nariz e sobretudo pelos pulmes dos homens e dos animais.  medida que o Sol ia subindo no horizonte mais espessa se tornava a nuvem! de poeira, a qual,  falta de verdadeiras nuvens, permitia aos soldados fitar o Sol o olho nu. Ento o disco solar parecia um enorme globo carmesim. No havia vento, e os soldados sufocavam nesta atmosfera imvel. Era preciso marchar com um leno diante do nariz e da boca. Ao atravessarem as aldeias precipitavam-se para a abertura dos poos. Disputavam a gua a murro c s vezes at bebiam lama.
      O prncipe comandava um regimento e, a administrao e o bem-estar dos seus homens, a necessidade, de receber e transmitir ordens, tomavam-lhe o tempo todo. O incndio e o abandono de Smolensk representavam uma poca importante da sua vida. Um sentimento de dio contra o inimigo fizera-o esquecer o seu desgosto. Entregava-se inteiramente ao cumprimento das suas funes. Preocupava-se com os soldados e os oficiais. Todos lhe chamavam o nosso prncipe: orgulhavam-se dele e estimavam-no muito Mas s era bom e afectuoso com os homens do seu regimento, como Timokine e outros, gente nova para ele, gente de um meio desconhecido, que nada podia saber do seu prprio passado. Nas suas relaes com os seus antigos conhecimentos, com a gente do estado-maior, tornava-se imediatamente intratvel: era desagradvel, irnico e altivo. Tudo quanto lhe lembrava o passado lhe repugnava, e em relao s pessoas do seu antigo meio limitava-se a usar da mais estrita justia e a cumprir meramente os seus deveres.
      Em verdade, a seus olhos tudo se lhe representava sombrio e triste, principalmente depois de 6 de Agosto, dia da rendio de Smolensk, cidade que na sua opinio podia ter sido defendida e se devia ter defendido, e depois que seu pai, doente, tivera de fugir para Moscovo, abandonando  pilhagem Lissia Gori, propriedade a que tanto queria e que ele prprio construra e povoara. Mas, apesar de tudo, o prncipe Andr, graas ao seu regimento, tinha o esprito preocupado com outras coisas, bem diferentes de todas essas tristezas, A 10 de Agosto a coluna de que o seu regi- mento fazia parte chegou a alturas de Lissia Gori. Dois dias antes recebera a comunicao de que o pai, o filho e a irm haviam partido para Moscovo. Embora, realmente, nada tivesse que fazer ali, resolveu, movido por essa tendncia especial do seu carcter que o levava a apreciar dolorosas alegrias, visitar aqueles lugares.
      Mandou selar o cavalo e dirigiu-se  aldeia de seus pais, onde ele prprio nascera e onde decorrera a sua infncia. Ao passar junto do tanque em que habitualmente dezenas de mulheres lavavam a roupa chalreando, notou que no havia vivalma e que uma tbua arrancada da borda, quase submersa, flutuava no meio da gua. Aproximou-se da casa do guarda. Junto do porto de pedra da entrada ningum havia e a porta da casa estava aberta, As leas do parque estavam cobertas de relva e os bezerros e os cavalos deambulavam pelo jardim  inglesa. Na estufa os vidros estavam partidos e algumas plantas cadas por terra e outras secas... Chamou Tarass, o jardineiro, mas ningum lhe respondeu. Rodeando a estufa pelo terrao, notou ao passar que a balaustrada de madeira entalhada estava partida e que os ramos das ameixieiras, sem frutos, jaziam quebrados no cho. Um velho campons, que o prncipe de h muito conhecia, estava, junto do porto, sentado num banco verde entranando laptis.
      Era surdo e no dera pela chegada do amo. Estava acomodado no banco em que o velho prncipe gostava de sentar-se, e junto dele, suspensas dos ramos de uma magnlia partida e seca, viam-se as meadas de cnhamo.
      O prncipe Andr dirigiu-se a casa, Tinham cortado vrias tlias do antigo parque, uma gua malhada com o seu potro cirandava, por debaixo das janelas, mesmo pelo meio dos alegretes das roseiras. As portadas das janelas estavam fechadas. Havia apenas uma aberta, em baixo. Ao ver o prncipe Andr, o filho de um criado entrou correndo em casa. Alpatitch, que mandara famlia para a cidade, ficara em Lissia Gori, E ali estava a ler Vida dos Santos. Ao saber da, chegada do prncipe Andr, de lunetas no nariz e abotoando o casaco, tratou logo de vir ao encontro do amo, e sem dizer palavra rompeu a chorar enquanto se abaixava para lhe beijar o joelho.
      Depois voltou a cara, arreliado com a fraqueza que mostrara, e ps-se a contar ao prncipe o que se passara. Tudo o que era precioso e, de valor fora transportado para Bogutcharovo. O trigo, cerca de cem tchetverts, fora levado tambm para lugar seguro. Quanto ao feno e ao trigo, a colheita da Primavera, excepcional, segundo ele dizia, haviam sido ceifados verdes e levados pelas tropas. Os camponeses estavam arruinados, e parte deles fora tambm para Bogutcharovo, embora a maioria houvesse ficado.
      Sem o ouvir at final, o prncipe Andr perguntou-lhe:
      - Quando se foram meu pai e minha irm?
      Queria dizer: quando saram para Moscovo. Alpatitch, julgando que ele se referia  partida para Bogutcharovo, respondeu terem partido no dia 7, e de novo voltou a falar dos assuntos do domnio, pedindo instrues.
      - Acha que se deve dar s tropas, contra recibo, a aveia que ficou? Ainda h umas seiscentas tchetverts... - inquiriu.
      Que devo eu responder- lhe?, pensava o prncipe Andr, enquanto filava o crnio do velho, calvo como a palma da mo, brilhando ao sol, e lhe ia lendo na expresso que ele prprio compreendia quo inoportunas eram essas perguntas, que ele as no fazia seno para afogar mgoas.
      - Pois sim, entrega-a - replicou.
      - Naturalmente reparou na desordem do jardim - prosseguiu Alpatitch. - No foi possvel evit-la. Trs regimentos passaram aqui a noite, principalmente drages. Tomei nota do posto e do nome do comandante, para apresentar queixa.
      - E que vais tu fazer agora? Continuars aqui se o inimigo ocupar a quinta? - perguntou o prncipe Andr.
      Alpatitch virou a cara para o prncipe, fitou-o e, de sbito, num gesto solene, ergueu os braos ao cu.
      - Ele  meu protector, que seja feita a Sua vontade! - exclamou.
      Um grupo de camponeses e de criados, todos de cabea descoberta, avanava atravs do campo, direito ao lugar onde estava o prncipe Andr.
      - Bom, adeus! - disse este, inclinando-se para Alpatitch - Vai-te embora tambm. Leva contigo o que puderes e diz aos camponeses que se refugiem ou na propriedade de Riazan ou nas dos arredores de Moscovo.
      Alpatitch agarrou uma das pernas do amo, soluando. O prncipe Andr desprendeu-se suavemente e, esporeando o cavalo, despediu a galope por uma das alamedas.
      No terrao da estufa, to indiferente como uma mosca pousada no rosto de um morto que nos  querido, continuava sentado o ancio, ocupado a pregar num cepo os seus laptis, e duas pequenitas com as saias arregaadas, cheias de ameixas colhidas nas rvores da estufa, correram dando de caras com o cavaleiro. Ao ver o patro novo, a mais idosa, muito assustada, pegou na companheira pela mo e ambas se foram esconder atrs de um lamo, sem terem tempo de apanhar as ameixas verdes que deixaram cair no cho.
      O prncipe Andr deu-se pressa em voltar a cabea para o lado, para que elas no vissem que ele as observara. Fez-lhe pena aquela linda garota, com o seu ar assustado. No queria olhar, mas no conseguia. Um sentimento novo, doce e apaziguador o invadiu ao ver aquelas crianas. Compreendeu que outros interesses havia na vida completamente alheios aos seus e to naturais como os que o preocupavam. Aquelas crianas no tinham evidentemente seno um desejo: levar consigo, para com-las, aquelas ameixas verdes e no se deixarem apanhar, e o certo  que Andr, l no fundo, lhes estava desejando que fossem bem sucedidas na sua proeza. E no resistiu a olhar para elas uma vez mais. Julgando passado todo o perigo saram do seu esconderijo e, tagarelando nas suas vozitas agudas, de saias arregaadas, puseram-se a correr alegremente pela relva, de ps descalos tostados pelo sol.
      O prncipe Andr sentira-se um pouco mais fresco ao abandonar a atmosfera poeirenta da estrada real por onde avanavam as tropas. Mas no longe de Lissia Gori teve novamente de meter por ela e foi apanhar o seu regimento junto da comporta de um dique. Eram duas horas da tarde. O Sol, como uma bola vermelha no meio da poeira, escaldava, e as costas ficavam assadas atravs do pano preto do uniforme. O p continuava na mesma e mantinha-se imvel por cima dos soldados, que no cessavam de falar. No havia vento. Ao passar junto da albufeira, Andr sentiu nas narinas um cheiro a lodo, e do tanque subiu um pouco de frescura. Teve vontade de se atirar  gua, por mais suja que estivesse. Voltou-se para o lado da albufeira donde vinham gritos e risadas. Aquela pequenina extenso de gua turva, cheia de juncos, parecia ter crescido mais dois palmos e inundava j a comporta, tantos eram os corpos brancos e nus que nela chafurdavam, de mos, rostos e pescoos encarnados cor de tijolo. Toda essa carne humana chafurdava entre as gargalhadas e gritos naquele pntano lamacento, como carpas dentro de uma selha. Uma vaga tristeza se derramava daqueles alegres folguedos. Um soldado louro, das relaes pessoais do prncipe Andr, da 3 companhia, com uma correia na barriga da perna, persignou-se e recuou alguns passos para dar uma corrida e mergulhar na gua; outro, um sargento, trigueiro e cabelos sempre revoltos, metido no tanque at  cintura, agitava o busto musculoso, resfolegando alegremente, enquanto salpicava a cabea com os braos queimados at ao pulso. S se ouvia chapinhar e gritar.
      Nas margens da albufeira, na comporta, no tanque, por toda a parte, s se via carne branca, s e musculosa. O oficial Timokine, com o seu nariz vermelhusco, enxugava-se com uma toalha em cima da comporta, e, embora um pouco envergonhado ao ver o prncipe Andr, exclamou:
      - Isto faz bem, Excelncia, devia fazer o mesmo!
      - Est muito suja a gua - replicou o prncipe Andr, fazendo uma careta.
      - Vamos j arranjar-lhe stio. - E Timokine, meio vestido, correu a afastar os banhistas.
      - O prncipe queria...
      - Quem?, o nosso?... - exclamaram vrias vozes, e todos se ajeitaram de tal modo que o prncipe Andr se viu em apuros para convenc-los a que se deixassem ficar como anteriormente. Preferia proceder as suas ablues debaixo de um te1heiro.
      Carne, corpos, carne para canho, pensava ele, despindo-se tambm, e tremendo menos de frio que  lembrana dessa massa de corpos que chafurdava no tanque cheio de lama: sentia ao mesmo tempo desgosto e pavor, embora no soubesse explicar o porqu desses sentimentos.
      No dia 7 de Agosto, o prncipe Bragation, do seu acampamento de Mikailovka, na estrada de Smolensk, escrevia a carta seguinte. Endereada a Araktcheiev, sabia que seria lida pelo imperador, e por isso ponderou cada palavra, pelo menos na medida em que era capaz de o fazer
      
      Sr. Conde Alexis
      Suponho que o ministro j o ter informado que Smolensk foi abandonada ao inimigo.  doloroso e triste, e o exrcito inteiro est desesperado por ver que a mais importante das nossas praas foi perdida sem qualquer utilidade. Pela minha parte, pedi-lhe, pessoalmente e com o maior empenho, que o no fizesse, e at chequei a escrever-lhe nesse sentido, mas no se demoveu. Juro-lhe pela minha honra que Napoleo se encontrava num atoleiro e que teria perdido metade do seu exrcito sem tomar Smolensk. As nossas tropas tm-se batido e batem-se como nunca. Pela minha parte, resisti com quinze mil homens durante mais de trinta e cinco horas e venci-os, mas ele nem sequer catorze horas quis resistir.  uma vergonha e uma ndoa, para o nosso exrcito, e na minha opinio esse homem no tem direito a vida. Se lhe diz que as nossas perdas so muito grandes, no  verdade. Talvez uns quatro mil homens, no mais, e talvez menos at. Mas ainda que fossem dez mil, que havamos ns de fazer?  a guerra. As perdas do inimigo, porm, essas so enormes.
      Que lhe custava demorar-se mais dois dias? Ao menos o inimigo ter-se-ia retirado por si, pois a verdade  que j no tinha gua para os homens nem para os cavalos. Dera-me a sua palavra de honra de que no recitaria, e eis que me envia uma mensagem dizendo que se ia embora naquela mesma noite. No se pode fazer a guerra deste modo, e por este andar no tarda, que o inimigo siga ate Moscovo.
      Corre por aqui que pensa na paz. Deus nos livre! Depois de todos estes sacrifcios e de uma retirada to insensata, pedir a paz? Seria fizer com que o Rssia ficasse toda contra si, e todos ns teramos vergonha de vestir uma farda. J que as coisas chegaram a este ponto  preciso que lutemos enquanto a Rssia puder e enquanto houver homens.
       mister que o comando esteja na mo de um, e no nas de dois. O seu ministro talvez seja excelente no exerccio das funes da sua pasta, mas como general no  apenas mau,  mesmo pssimo. E a ele confiaram o destino da nossa ptria... Sinceramente, estou doido de indignao. Perdoe-me a ousadia das minhas palavras.  evidente que no gosta do seu imperador e que no deseja outra coisa seno a nossa perdio aquele que aconselha que se pea a paz e quer que o ministro seja o nico a comandar. Por isso lhe digo a verdade: organize a milcia. De outra forma, o ministro acabar, de maneira magistral, por levar consigo o seu hspede ale Moscovo. O senhor Vatltzofen, general ajudante-de-campo do imperador, no  visto com bons olhos pelo exrcito. H quem diga que e mais fiel a Napoleo que ao nosso monarca e no entanto  o maior conselheiro do ministro. Quanto a mim, obedeo-lhe como um cabo, embora mais antigo do que ele.  triste, mas  por lealdade para com o meu benfeitor e soberano que me submeto. No entanto, no posso deixar de lamentar que o nosso imperador confie o seu magnfico exrcito a semelhante pessoa. Imagine que na nossa retirada perdemos mais de quinze mil homens por esgotamento e hospitalizados, coisa que no teria acontecido se tivssemos caminhado em frente. Diga-lhes a, por amor de Deus, que a nossa Rssia, a nossa me, acabar por acusar-nos de termos medo e de entregarmos a nossa boa e herica ptria a esses canalhas: talvez seja a maneira de despertar a vergonha, e o dio em cada cidado. Que significa esta cobardia? De que ternos medo? No  minha a culpa se o ministro  indeciso, medroso, absurdo, lento, e se h nele todos os defeitos possveis. O exrcito inteiro no faz seno chorar e cobre-o de improprios.
      

      
      
      
      Captulo VI
      
      Entre as numerosas subdivises que podem estabelecer-se nos fenmenos da vida h algumas em que predomina o fundo sobre a forma e outras em que  a forma que prevalece.  a esta ltima subdiviso, e em oposio  vida no campo, tia provncia, nas capitais do distrito e at mesmo em Moscovo, que pertence a vida de Petersburgo, principalmente a vida do salo. Esta ltima  imutvel.
      Em 1805, os Russos tinham-se reconciliado e zangado com Napoleo, tinham feito e desfeito constituies, mas os sales de Ana Pavlovna e de Helena eram exactamente o que haviam sido sete anos antes um e cinco o outro. No salo de Ana Pavlovna continuava a falar-se com o mesmo espanto dos xitos de Bonaparte e a ver-se nos seus triunfos, bem como nas convivncias dos monarcas da Europa, uma prfida conspirao adrede preparada para enfadar e perturbar a corte russa, que Ana Pavlovna representava. No de Helena, a que Rumiantsov, inclusivamente, dava a honra da sua presena, considerando a condessa Bezukov como uma mulher de excepcional inteligncia, em 1812, exactamente como em 1808, continuava a falar-se entusiasticamente da grande nao e do grande homem, deplorando o corte de relaes com a Frana, mal-entendido que no podia deixai de terminar com um tratado de paz.
      Nos ltimos tempos, depois do regresso do imperador, verificava-se uma agitao desusada nestes mundos opostos, e houve, inclusivamente, algumas demonstraes hostis de parte a parte, embora a tendncia geral de cada permanecesse a mesma, o salo de Ana Pavlovna, quanto a franceses, apenas recebia os legitimistas mais empedernidos, e os seus sentimentos patriticos patenteavam-se no facto de incluir no ndex o teatro francs cuja manuteno, segundo se dizia, era to dispendiosa como a de um corpo de exrcito. Seguiam-se ali febrilmente os acontecimentos militares e faziam-se circular os boatos mais lisonjeiros para o exrcito russo. No salo de Helena, tambm o de Rumiantsov e dos franceses, desmentiam-se os rumores acerca das crueldades do inimigo e da guerra e discorria-se sobre as tentativas levadas a cabo por Napoleo para obter a paz. Eram censurados a os que davam conselhos precipitados no sentido de transferir a corte para Kazan bem como os estabelecimentos de ensino de meninas dependentes da administrao da imperatriz-me. Em geral, no salo de Helena a guerra apresentava-se como uma srie de demonstraes estreis que no tardariam a acabar com a paz, e a opinio que reinava ai era a de Bilibine, nessa, altura um dos ntimos de Helena - pois todo o homem inteligente tinha de frequentar o seu salo. Segundo ele, no era a plvora que deveria resolver o pleito, mas os que a tinham inventado. Troava-se com muito esprito, mas sem prudncia, do entusiasmo de Moscovo, de que haviam chegado rumores a Petersburgo, bem como da recepo do imperador na velha cidade.
      No salo de Ana Pavlovna, pelo contrrio, aplaudiam-se entusiasticamente essas manifestaes, dignas dos heris de Plutarco. O prncipe Vassili, que continuava a desempenhar as mesmas funes importantes, servia de trao de unio entre os dois grupos. Frequentava, alternadamente, a minha boa amiga Ana Pavlovna e o salo diplomtico de minha filha; como estava sempre a passar de um lado para o outro, sucedia s vezes enganar-se e dizer no salo de Helena o que devia dizer no de Ana Pavlovna e reciprocamente.
      Pouco depois do regresso do imperador, o prncipe Vassili, ao falar da situao em casa de Ana Pavlovna, criticara severamente Barclay de Tolly, mostrando-se indeciso quanto ao nome que devia chamar-se para ocupar o lugar de general-chefe. Um dos frequentadores do salo, de quem se dizia ser um homem cheio de valor, e que contara ter visto nesse mesmo dia o chefe, da milcia de Petersburgo, Kutuzov, presidir  recepo dos voluntrios na cmara das finanas, permitiu-se dizer, o mais prudentemente possvel, que o homem que satisfaria a todas as exigncias podia ser precisamente Kutuzov.
      Ana Pavlovna ps-se a sorrir melancolicamente e observou que Kutuzov s servira para causar desgostos ao imperador.
      - J disse e repeti na assembleia da nobreza - interrompeu o prncipe Vassili - mas ningum me ouviu. Afirmei que essa escolha para chefe da milcia no agradaria ao imperador. No fizeram caso. No se perde o hbito de censurar! - prosseguiu ele. - E tudo isto porque o que queremos  macaquear os estpidos entusiasmos de Moscovo. - Falando deste modo, cometia um deslize esquecendo-se que era no salo de Helena que devia ridicularizar esses entusiasmos, e no de Ana Pavlovna, pelo contrrio, aplaudi-los. E ei-lo que corrige o seu desastramento. Ser realmente recomendvel que o conde Kutuzov, o mais velho dos generais russos, ocupe um lugar desses, valer a pena? Ser possvel nomear para o cargo de general-chefe um homem que no pode montar a cavalo, que adormece no conselho e cujos costumes no so recomendveis? Sim, senhor, arranjou uma rica fama em Bucareste! E no falo das suas qualidades de general, mas ser possvel que se nomeie um homem caduco e cego, sim cego, tal qual? Devia ser bonito um general cego! No v coisa alguma.  bom para jogar  cabra-cega... Completamente cego!
      Ningum fez objeco a estas palavras.
      A 25 de Julho isto era exacto, mas a 29 Kutuzov recebeu o ttulo de prncipe, Tal distino, que podia querer dizer haver desejos de correr com ele, no invalidara o severo juzo do prncipe Vassili, embora obrigasse este a ser mais prudente. A 8 de Agosto reuniu-se uma comisso, de que faziam parte o marechal-de-campo Saltikov, Araktcheiev. Viazmitinov, Lopukine e Kotchubei, para tomar resolues sobre a marcha da guerra. Chegou-se a  concluso de que os reveses eram provocados pela dualidade de comando e, embora os membros da comisso estivessem inteirados de que o imperador no estava satisfeito com Kutuzov, depois de uma curta deliberao, foi o nome dele que propuseram para o lugar de general-chefe. E assim, nesse mesmo dia, Kutuzov foi nomeado generalssimo de todas as regies ocupadas pelas tropas. A 9 de Agosto, o prncipe Vassili encontrou-se de novo no salo de Ana Pavlovna com o homem cheio de valor. Este, que queria obter o lugar de curador de um instituto de meninas, fazia a corte  dona da casa. O prncipe Vassili entrou no salo numa atitude de autntico triunfador, como algum que acaba de ver realizados os seus mais ardentes desejos.
      - Ento, j sabem a grande notcia? O prncipe Koutouzoff foi nomeado marechal! Acabaram todos os dissentimentos. Estou muito contente, muito feliz! - exclamou. - Temos enfim, um homem - acrescentou, eircunvagando um olhar ao mesmo tempo competente e severo. O homem cheio de valor, apesar do empenho que tinha em conseguir o almejado lugar, no pde deixar de chamar a ateno de Vassili para o facto de ele no ter sido sempre da mesma opinio. Claro que isso no era uma atitude muito diplomtica da sua parte quer para com o prncipe Vassili e no salo de Ana Pavlovna, quer para com a prpria dona da casa, que se mostrara regozijadssima ao saber a notcia. Mas no pudera dominar-se.
      - Mas diz-se que ele  cego, prncipe? - observou ele, lembrando ao prncipe Vassili as palavras que ele prprio pronunciara.
      - Ora, ora, v o suficiente - retorquiu este na sua voz de baixo, escamoteando as palavras e tossicando, costume seu quando em embaraos.
      - Ora, ora, v o suficiente - repetiu. - E o que me d maior prazer  o facto de o imperador lhe ter concedido plenos poderes sobre todo o exrcito e sobre todo o territrio, podei, nunca antes dado a qualquer outro general,  um segundo autocrata - concluiu com um sorriso de triunfo.
      - Deus o queira! Deus o queira! - exclamou Pavlovna.
      O homem cheio de valor, novio da sociedade da corte, julgou lisonjear Ana Pavlovna tentando justificar a sua antiga opinio, e observou:
      - Dizem que o imperador s de m vontade o investiu deste poder. Dizem que corou como uma donzela a quem lessem a histria Joconde, ao dizerem-lhe: o soberano e a ptria conferem-lhe esta honra.
      - Talvez o dissesse um pouco contrafeito - comentou Ana Pavlovna.
      - Oh, no, no! - exclamou Vassili, acaloradamente. Agora no podia trocar Kutuzov por mais ningum. Em sua opinio, no s ele era perfeito, mas toda a gente o adorava. - Isso no pode ser, porque o imperador sempre apreciou muito o seu mrito.
      - Deus queira - interveio Ana Pavlovna - que o prncipe Kutuzov tome, efectivamente, conta do Poder e no consinta que algum lhe levante obstculos.
      O prncipe Vassili percebeu imediatamente a aluso. Disse em voz baixa:
      - Sei de fonte limpa que Kutuzov imps como condio sine qua non que o gro-duque herdeiro no continue no exrcito. Sabem o que disse ao imperador?
      E o prncipe Vassili repetiu as palavras que este teria dito ao soberano: No posso castig-lo se se portar mal nem recompens-lo se se portar bem.
      - Oh, o prncipe Kutuzov  um homem de grande inteligncia, conheo-o de longa data.
      - Dizem mesmo - interveio o homem cheio de valor, continuando a dar provas de falta de tacto de corteso - que Sua Excelncia Serenssima imps como condio indispensvel que o imperador no comparea no exrcito.
      Mal pronunciou estas palavras, Vassili e Ana Pavlovna voltaram a cabea simultaneamente e trocaram entre si um olhar triste, soltando um profundo suspiro, impressionados com tamanha ingenuidade.
      

      
      
      
      Captulo VII
      
      Enquanto isto se passava em Petersburgo, os Franceses deixavam para trs Smolensk e aproximavam-se mais e mais de Moscovo. Thiers, o historiador de Napoleo, como todos os outros autores que se ocuparam da sua personalidade, para justificarem c seu heri, sustentam que ele foi atrado, a pesar seu, at junto dos muros de Moscovo. Thiers tem razo na medida em que tm razo todos quantos procuram explicar os acontecimentos histricos pela vontade de um s homem. Tem razo como a tm os historiadores russos que afirmam que Napoleo foi impelido para a frente graas  habilidade dos generais russos. Nisto, alm da lei da retrospectividade, que leva a crer que o passado no  mais que a preparao do facto consumado, existe uma certa conexo dos acontecimentos que complica tudo. Um bom jogador de xadrez que perde uma partida fica convencido de ter perdido por virtude de um erro em que incorreu, e vai procur-lo no principio do jogo esquecendo-se de que no decurso da partida incorreu em outros erros semelhantes e que nenhuma das suas jogadas foi perfeita, Deu conta do seu erro apenas porque o adversrio dele tirou partido.
      Quo mais complicado no  o jogo da guerra, que tem lugar em determinadas condies de tempo, em que no  uma vontade nica que conduz as mquinas inanimadas, mas onde tudo depende do entrechocar de uma infinidade de vontades individuais e particulares!
      Depois de Smolensk, Napoleo procurou dar batalha para l de Dorogobuje, perto de Viazma, em seguida em Tsarevo-Zaimichtche, mas, em virtude de um grande nmero de circunstncias, os Russos no puderam aceitar combate seno em Borodino, a cento e doze verstas de Moscovo. Depois de Viazma, Napoleo deu instrues para avanar directamente sobre a antiga capital.
      
      Moscovo, a capital asitica deste grande imprio; a cidade santa do povo de Alexandre; Moscovo, com as suas inmeras igrejas em forma de pagode chins. Moscovo no deixava em paz a imaginao de Napoleo. Durante a etapa de Viazma a Tsarevo-Zaimichtche, Bonaparte montava o seu cavalo branco ingls, acompanhado da Guarda, de sentinelas, de pajens e de ajudantes-de-campo. O chefe do estado-maior, Berthier, ficara para trs para interrogar um russo feito prisioneiro pela cavalaria. Acompanhado do intrprete Lelorgne dIdeville, galopando, veio juntar-se ao imperador e, com alegre semblante, fez estacar o cavalo.
      - Ento? - perguntou Napoleo.
      - Um cossaco de Platov. Disse que o corpo de exrcito de Platov vai reunir-se ao grosso do exrcito, que Kutuzov foi nomeado general-chefe. Inteligente e falador.
      Napoleo sorriu, mandou dar um cavalo ao cossaco e deu ordem para que lho trouxessem. Desejava falar-lhe pessoalmente. Alguns dos ajudantes-de-campo puseram-se a galopar e, uma hora depois, Lavruchka, o servo que Denissov cedera outrora a Rostov, fardado de ordenana, com o seu ar astuto e jovial, um tanto borracho, surgiu diante de Napoleo montado sobre uma sela da cavalaria francesa. Este mandou-o seguir a seu lado e ps-se a interrog-lo.
      - s cossaco?
      - Cossaco, Sua Senhoria.
      O cossaco, ignorando em presena de quem se encontrava, pois a simplicidade de Napoleo nada podia revelar a uma imaginao oriental a figura de um soberano, discorreu com extrema familiaridade sobre os assuntos da guerra actual, diz Thiers no relatar este episdio. Efectivamente, Lavruchka, que na vspera se havia emborrachado e deixara o amo sem jantar, fora vergastado e tivera de ir  aldeia procurar galinhas. Ali entretivera-se no saque e fora feito prisioneiro pelos Franceses. Lavruchka era um desses soldados atrevidos e desavergonhados que tudo foram na vida, que se julgam na obrigao de praticar todas as baixezas e todas as velhacarias imaginveis, sempre prontos a prestar servios a seus amos, cujos pensamentos adivinham, especialmente quando se trata de vaidade e mesquinhez.
      Ao ver-se na presena de Napoleo, a quem no tardou a reconhecer, Lavruchka no se embaraou, tratando desde logo de tirar o melhor partido que pudesse dos seus novos amos. Sabia perfeitamente que era Napoleo, e Napoleo no o intimidava mais que Rostov ou o sargento encarregado de o flagelar. Como nada tinha, nada lhe podiam tirar.
      Referiu histrias que se contavam entre as ordenanas, e muitas delas eram exactas. Mas quando Napoleo lhe perguntou se os Russos tinham esperana de vencer Bonaparte, franziu o sobrecenho e ps-se a pensar.
      Percebeu que a pergunta escondia uma armadilha, pois as criaturas da espcie de Lavruchka esto habituadas a ver astcia em tudo, e tomando um ar manhoso calou-se.
      -  como quem diz - acabou por responder -; se houvesse uma batalha nestes dias mais chegados, os Franceses levariam a melhor. Sim, no h dvida. Mas se nestes quatro dias mais prximos no houver batalha, ento j no digo nada, que essa batalha no a ganhariam de p para a mo.
      Sorrindo, Lelorgne dIdeville, traduziu deste modo para Napoleo as palavras de Lavruchka:- Se a batalha se travar dentro de trs dias, os Franceses ganh-la-o, mas, se ficar para mais tarde, s Deus sabe o que vir a acontecer. Napoleo, embora muito bem disposto, em vez de sorrir quando lhe traduziram o orculo, pediu que lho repetissem.
      Lavruchka reparou no facto, e, para entreter Napoleo, prosseguiu, fingindo sempre que no sabia a quem estava falando:
      - Sim, ns c sabemos que h um francs, a quem chamam Bonaparte, que esta farto de levar a melhor por todo o lado, as com a gente o caso , outro...  E, sem saber como nem porqu, as palavras saam-lhe da boca cheias de presuno patritica.
      O intrprete traduziu a resposta, suprimindo a ultima Napoleo sorriu. O moo cossaco fez sorrir o seu poderoso interlocutor, refere Thiers. Depois de cavalgar algum tempo calado. Napoleo chamou Berthier e disse-lhe que queria ver qual o efeito que produziria sobre aquele rapaz do Don o dizerem-lhe que o homem com quem estivera conversando era o prprio imperador, o imperador que tinha gravado nas Pirmides o seu nome vitorioso e imortal.
      E fez-se o que o imperador desejava.
      Lavruchka deu-se conta de que o queriam atrapalhar e meter-lhe medo e foi assim que para agradar a seus novos amos fingiu imediatamente grande espanto e estupefaco, abriu muito os olhos e fez a mesma cara de quando o vergastavam. Mal o intrprete de Napoleo, escreve Thiers, abriu a boca o cossaco, tomado de uma espcie de estupor, no proferiu mais palavra e seguiu de olhos fitos naquele heri cujo nome chegara at ele atravs das estepes do Oriente. Toda a sua loquacidade desaparecera de repente para dar lugar a um ingnuo e silencioso sentimento de admirao. Depois de o recompensar, Napoleo mandou que o pusessem em liberdade, como o pssaro que se deixa voar para os campos que o viram nascer.
      Napoleo prosseguiu o seu caminho, pensando em Moscovo, cidade que lhe exaltava a imaginao. Quanto ao pssaro que, deixaram voar para os campos que o viram nascer, esse tratou de cavalgar em direco s linhas avanadas russas, congeminando uma engenhosa histria para narrar aos camaradas. No estava disposto a contar-lhes as coisas tal qual se haviam passado, pois a verdade  que a seus prprios olhos pouca importncia, tinham. Reuniu-se aos cossacos, tratou de saber onde parava o seu regimento, o qual fazia parte do destacamento Platov, e  noitinha junto de seu amo, Nicolau Rostov, acantonado em Iankovo, e que nesse momento montava a cavalo para, com Iline fazer um giro pelas aldeias vizinhas. Mandou dar outro cavalo a Lavruchka e levou-o consigo.
      

      
      
      
      Captulo VIII
      
      A princesa Maria nem estava em Moscovo nem livre, de perigo, como Andr supunha.
      Depois que Alpatitch voltara de Smolensk, o velho prncipe pareceu como que acordar de repente. Deu ordens para que se levantassem as milcias nas suas terras e mandou que se armassem, escrevendo entretanto ao general-chefe. Informava-o de que resolvera ficar em Lissia Gori e que pensava defend-la at,  ltima, deixando-lhe a ele a responsabilidade de saber se deveria ou no tomar medidas para proteger um domnio onde ia ser feito prisioneiro um dos mais antigos generais russos, Em seguida participou a todos os seus familiares que no arredaria p de sua casa.
      Entretanto dera ordens para prepararem a partida da princesa e de Dessalles, que acompanhariam o prncipezinho para Bogutcharovo, e dai para Moscovo. A princesa Maria, muito preocupada com a actividade febril e as insnias do pai depois da apatia dos ltimos tempos, no quis deixa-lo s e pela primeira vez na sua vida tornou a resoluo de lhe no obedecer. Recusando partir, desencadeou no prncipe uma tremenda tempestade de ira. Mais uma vez lhe repetiu todas as acusaes injustas com que costumava flagel-la. Disse-lhe que passava a vida a atorment-lo, que o indispusera com o filho, que fizera a seu respeito suposies abominveis, que no pensava noutra coisa seno em envenenar-lhe a existncia, e acabou por expuls-la do seu gabinete, acrescentando que se, de resto, estava disposta a ficar, para ele tanto se lhe dava. Disse-lhe ainda que no queria saber mais dela e prevenia-a de que no ousasse aparecer-lhe mais diante dos olhos. O facto de o pai no decidir o que ela mais temia, mand-la partir  fora, limitando-se a proibi-la de aparecer diante dele, foi para a princesa um grande alvio. Sabia muito bem o que isso queria dizer: no fundo do seu corao, o prncipe gostava que ela ficasse em casa e iro partisse.
      No dia seguinte, aps a partida de Nikoluchka, o velho prncipe apareceu logo pela manh de uniforme de gala, disposto a ir ao encontro do general-chefe. A sua carruagem j estava pronto.
      A princesa Maria viu-o a sair do gabinete, com todas as condecoraes ao peito, e dirigir-se para o ptio, a fim de passar revista aos camponeses e criados a quem dera armas. Da janela, a princesa ouvia-lhe as vociferaes que ressoavam atravs das rvores. De sbito, um grupo de homens, muito assustado, surgiu, correndo, de uma das leas do parque.
      A princesa Maria precipitou-se para a escada e dali, pela rua bordada de flores, direito  alameda. Ao seu encontro deparou-se-lhe um magote de milicianos e criados, no meio dos quais, amparado por debaixo dos braos, arrastando-se, vinha o velhinho com o seu uniforme de gala e as suas condecoraes. Maria correu para ele, mas no pde desde logo dar-se conta da transformao que se operara rios traos do pai em virtude das manchas de luz que na alameda das tlias desciam atravs da folhagem. A nica coisa que pde ver foi que o seu rosto, at ento severo e enrgico, tinha agora uma expresso receosa e humilde. Ao ver a filha, remexeu os lbios impotentes, deixando filtrar atravs deles sons roucos e indistintos. Era impossvel compreender o que ele queria dizer. Levaram-no em braos at ao gabinete e estenderam-no no div que tantos terrores lhe causara ultimamente.
      - O mdico, chamado  pressa, nessa mesma noite sangrou-o, dizendo que ele tinha uma paralisia do lado direito.
      Como a permanncia em Lissia Gori se tornava mais perigosa de dia para dia, logo na manh seguinte o prncipe foi levado para Bogutcharovo. O mdico acompanhou-o.
      Quando ali chegaram, j Dessalles e as crianas haviam seguido para Moscovo.
      Sem dar sinal de melhoras, o velho prncipe permaneceu trs semanas em Bogutcharovo na casa que Andr ultimamente mandara construir. Sem conhecimento, estendido, desfigurado, mais parecia um cadver. A todo o momento murmurava palavras desconexas, mexendo as sobrancelhas e os lbios, e era impossvel saber se tinha conscincia do que se passava  sua volta. No havia dvida, porm, de que sofria e queria dizer fosse o que fosse. O qu? Impossvel saber se se trataria de qualquer capricho de doente sem tino ou de alguma coisa relativa aos acontecimentos ou a questes de famlia,
      O mdico afirmava que aquela inquietao era apenas de ordem fsica, mas a princesa Maria pensava que ele queria falar, e a confirmar a sua opinio l estava o facto de o desassossego do enfermo desaparecer quando ela estava presente.
      De facto sofria fsica e moralmente. No havia a mais pequena esperana de cura e no estava em estado de ser transportado. Que aconteceria se ele morresse no caminho? No seria prefervel chegar a sua hora, a sua derradeira hora?, dizia muitas vezes, de si para consigo, a princesa Maria. Noite e dia, quase sem dormir, ela l estava,  cabeceira do pai, e, por mais triste que parea, o certo  que muitas vezes lhe espiava os mais pequenos movimentos, no na esperana de o ver melhorar, mas desejosa de lhe descobrir sinais de morte prxima.
      Por mais estranho que o facto lhe parecesse, a princesa Maria viu-se obrigada a reconhecer consigo mesma que era verdade. O que se lhe afigurou ainda mais terrvel foi que enquanto a doena durou e antes ainda desta doena, nos momentos em que, sozinha com ele, dir-se-ia esperar que alguma coisa acontecesse, sentira acordar nela o desejo e as esperanas at ai adormecidos ou esquecidos, A ideia que durante anos nem sequer a aflorara da possibilidade de uma vida livre, liberta do medo paterno, e que poderia vir - a amar e a casar - tomara-lhe agora a imaginao, como se fosse uma tentao do Demnio. Conquanto tudo fizesse para se ver livre dessa ideia, a cada passo se estava a interrogar a si prpria sobre a maneira de organizar a sua vida quando ele deixasse de estar presente, Eram tentaes do Demnio e disso estava persuadida. Sabia que a nica arma que lhe assistia era a orao e procurava rezar. Punha-se em atitude de quem vai orar, pousava os olhos nos cones, articulava as frmulas, mas a alma no a acompanhava. Sentia-se levada por um novo mundo de vida activa, difcil e independente, em tudo absolutamente oposto ao meio moral onde estivera fechada at a e em que o nico lenitivo era a orao. No podia nem rezar nem chorar, e as preocupaes do dia-a-dia assoberbavam-na.
      Continuar em Bogutcharovo era perigoso. De todos os lados chegavam notcias do avano dos Franceses e numa aldeia a, quinze verstas dali os soldados inimigos tinham assaltado uma propriedade.
      O mdico teimava em que se transportasse o doente, e o marechal da nobreza enviou um funcionrio  princesa Maria para convenc-la a partir o mais depressa que pudesse. O ispraunik tambm apareceu para lhe fazer o mesmo pedido, e disse-lhe que os Franceses estavam apenas a umas quarenta verstas, que tinham sido distribudas proclamaes inimigas nas aldeias e que se no partissem antes do dia 15 no podia responsabilizar-se pelo que acontecesse.
      A princesa resolveu abalar no dia 15. Os preparativos e as ordens que era preciso dar - toda a gente se dirigia agora  princesa - ocuparam-na todo o dia 14. Como de costume ultimamente, passara a noite de 14 para 15 sem se despir no quarto contguo ao do pai. Por vrias vezes acordou para ouvir a respirao entrecortada e os gemidos do velho prncipe. A cama rangia. Tikon e o mdico mudaram-no de posio. Por vrias vezes veio escutar  porta e pareceu-lhe que nessa noite gemia mais do que o costume e, que o voltavam mais frequentemente. No podia dormir, e foram muitas as vezes que veio pr o ouvido  escuta: teria desejado entrar, mas no se resolvia a isso. Embora j no pudesse falar, Maria via e sentia quo desagradvel Hw era a vista daquele rosto angustiado. Notara que ele voltava a cara sempre que encontrava o olhar dela obstinadamente fito nele. Sabia que aparecer-lhe no quarto, de noite, altas horas, o irritava.
      No entanto, nunca fora maior o terror e a dor de o perder, Lembrava-se de todos aqueles anos da, sua vida ao lado do pai e em todas as suas palavras, em todos os seus actos descobria o amor que ele lhe tinha. De longe em longe voltavam a aparecer-lhe, no meio das suas recordaes, as tentaes do esprito maligno, e pensava no que iria fazer depois da morte do prncipe, na sua existncia futura, mais livre. Porm, horrorizada, sacudia de si tais pensamentos. Para a madrugada o pai acalmou e Maria pde adormecer-
      Acordou tarde. A lucidez que se costuma ter ao despertar fez-lhe ver claramente qual a sua constante preocupao. Foi escutar  porta e voltou a ouvir a respirao rouca do doente, dizendo de si para consigo, suspirando, que estava na mesma.
      Que tem ele ento? Que quero eu ento?  verdade que estou  espera que ele morra?, interrogou-se, sentindo que aquele pensamento a amargurava.
      Vestiu-se, arranjou-se, disse as suas oraes e veio at ao alpendre da escada. Carros ainda por atrelar esperavam enquanto carregavam as bagagens.
      A manh estava suave e cinzenta. Maria continuava no alpendre, alanceada de horror perante a sua cobardia moral e procurando que os seus pensamentos se aquietassem antes de penetrar nos aposentos do pai.
      Entretanto o mdico desceu as escadas e aproximou-se dela.
      - Est um pouco melhor hoje - disse ele. - Andava  sua procura. Entende-se melhor o que ele diz, tem a cabea mais fresca. Venha, est a perguntar por si...
      Ao ouvir estas palavras, o corao principiou a bater-lhe apressadamente e, empalidecendo, teve de encostar-se  porta, para no cair. V-lo, falar-lhe, sentir-lhe o olhar quando tinha a alma cheia daqueles pensamentos criminosos e medonhos provocava-lhe uma espcie de angstia misturada de alegria.
      - Vamos - disse o mdico.
      Penetrou no quarto do pai e aproximou-se da cama. O velho estava deitado de costas, o busto soerguido apoiado em almofadas, as pequenas mos ossudas com a sua rede de veias azuladas assentes sobre o coberta, o olho esquerdo olhando direito na sua frente, as sobrancelhas e os lbios imveis. Todo ele era delgado, pequeno, insignificante. O rosto parecia ressequido e como que, derretido, os seus traos tinham por assim, dizer encolhido. Maria aproximou-se e beijou-lhe a mo. A mo esquerda do prncipe apertou a dela como se a esperasse h muito. Abanou-a mesmo, enquanto as sobrancelhas e os lbios se lhe contraam com impacincia.
      Maria, olhou para ele assustada, tentando adivinhar o que, ele lhe queria. Mudou de posio de modo a que o olho esquerdo do prncipe lhe pudesse ver a cara: ento ele serenou por alguns instantes, o olho fixo nela. Depois os lbios e a lngua agitaram-se-lhe, saram-lhe sons da boca e ps-se a falar fixando-a com um ar tmido e splice, como se receasse que eu o no compreendesse.
      Maria olhou-o concentrando nele toda a sua ateno. Diante do esforo quase cmico que ele fazia para mexer a lngua, viu-se, obrigada a baixar os olhos e a custo reprimiu os soluos que lhe subiam  garganta. O prncipe falava, repetindo muitas vezes as mesmas palavras. A princesa Maria no conseguia perceber, mas fazia tudo para adivinhar e repetia interrogativamente as palavras que supunha entender.
      O doente repetiu ainda mais algumas vezes as mesmas silabas No era possvel encontrar-lhes qualquer sentido. O mdico julgou perceber que ele perguntava  princesa se ela tinha medo, mas, ao diz-lo em voz alta, o velho prncipe respondeu com um aceno negativo de cabea e expeliu quaisquer sons.
      A alma, a alma, di-lhe a alma, percebeu de sbito, a princesa.
      O prncipe gemeu um sim indistinto, pegou-lhe na mo e pousou-a sobre vrios pontos do peito, como se procurasse o melhor sitio para ela.
      - Penso sempre em ti... penso sempre articulou ele com muito maior nitidez, agora que estava certo de ter sido compreendido.
      A princesa Maria inclinou a cabea contra a riro do pai para reprimir os soluos e as lgrimas.
      Ele passou-lhe a mo pelos cabelos.
      - Chamei por ti toda a noite... - murmurou.
      - Se eu soubesse... - replicou ela entre lgrimas. - Tinha medo de entrar.
      Apertou-lhe a mo.
      - No dormiste?
      - No, no pude - disse ela, com um aceno negativo de cabea.
      Submetendo-se mais uma vez sem querer  influncia do pai, pusera-se, tal qual ele, a falar por acenos e parecia, tambm como ele, de lngua entaramelada,
      - Alma minha... minha amiga. - Maria no pde inteirar-se de qual das duas carinhosas palavras o pai se servira, mas como quer que fosse no seu olhar lia-se que empregara uma palavra afectuosa nunca outrora em seus lbios quando falava  filha. - Porque no vieste tu?
      E eu a desejar, a desejar-lhe a morte!, dizia de si para consigo a princesa Maria.
      O prncipe ficou algum tempo calado.
      - Obrigado... minha filha, minha amiga... por tudo, por tudo... perdoa-me... obrigado... perdoa-me... obrigado! - As lgrimas saltaram-lhe dos olhos. - Chama o Andriucha - disse ele, de sbito, e, ao fazer este pedido, a sua expresso era de timidez e incredulidade como se fosse uma criana.
      Dir-se-ia compreender que tal desejo era desprovido de bom senso; isso, pelo menos, o que a princesa Maria julgou perceber. 
      - Recebi carta dele - respondeu ela.
      - E onde est ele?
      - Na tropa, meu pai, em Smolensk.
      Esteve muito tempo calado, de olhos fechados, e depois, como se respondesse a perguntas que a si prprio dirigira, e ao mesmo tempo para mostrar que recuperara a memria e o entendimento, fez com a cabea um aceno afirmativo, reabrindo os olhos.
      - Sim - murmurou em voz muito baixa e distintamente - a Rssia est perdida! Perderam a Rssia!
      De novo rompeu em soluos e as lgrimas escorreram-lhe pela cara abaixo. Maria no pode mais, e ela prpria se debulhou em pranto.
      O velho prncipe fechou de novo os olhos e pouco a pouco ,quietou-se. Com um gesto de mo, apontou para as rbitas e Tikon, percebendo o que ele queria, enxugou-lhe os olhos.
      Ento voltou a abrir as plpebras e pronunciou algumas palavras que de momento ningum percebeu e que s mais tarde Tikon apreendeu, traduzindo-as. Maria julgou ver nelas uma aluso  ordem de ideias que o preocupava minutos antes. Sups que ele falava da Rssia, ou ento do prncipe Andr, ou ainda dela prpria, do neto ou tambm da morte prxima. Por isso no podia adivinhar o que ele dizia.
      - Vai pr o teu vestido branco, gosto dele - dissera o prncipe.
      Ao ouvir estas palavras, as lgrimas ainda mais se lhe soltaram, e o mdico, pegando-lhe por um brao, levou-a at  varanda, pedindo-lhe que serenasse e que tratasse quanto antes dos preparativos de partida. Depois de ela sair, o prncipe falou ainda do filho, da guerra, do imperador, franziu as sobrancelhas com uma expresso irritada, elevou cada vez mais a sua voz rouca e, foi ento que um segundo e ltimo ataque o fulminou.
      A princesa Maria deteve-se na varanda. O dia tinha clareado: fazia sol e estava quente. No dava por nada, e no podia pensar noutra coisa que no fosse no amor apaixonado pelo pai, sentimento, pensava ela, que julgava ter ignorado at ento. Correu para o jardim e, soluando sempre, desceu at ao tanque, ao longo da alameda de tlias novas plantadas por Andr.
      E eu... e eu... que lhe desejei a morte! Sim, desejei que tudo acabasse quanto mais depressa melhor... Tinha necessidade de descansar finalmente... E que vai ser de mim? Para que hei-de querer eu descanso quando ele desaparecer? Maria murmurava estas palavras numa voz entrecortada, dando grandes passadas e comprimindo com a mo o peito, abalado por convulsivos soluos.
      Depois de ter dado uma volta em roda do jardim, tomou a direco da casa, e nesse momento viu Mademoiselle Bourienne, que ficara em Bogutcharovo, recusando-se partir, que se dirigia ao seu encontro na companhia de um desconhecido. Era o marechal da nobreza do distrito, que pessoalmente vinha persuadir a princesa da urgncia de uma rpida partida. Maria ouvia-o sem o entender. Conduziu-o a casa, convidou-o a almoar e pediu-lhe que se sentasse a seu lado. Em seguida, desculpando-se, levantou-se e dirigiu-se ao quarto do velho prncipe. O mdico, que vinha ao seu encontro com uma expresso alterada, proibiu-a de entrar,
      - No entre, princesa, no entre, peo-lhe.
      Maria voltou para o jardim, e no fundo da ladeira que descia para o tanque, num recanto onde ningum a via, sentou-se na relva. No podia dizer quanto tempo ali esteve. Passos femininos que corriam pela alameda obrigaram-na a despertar. Levantou-se e viu a criada de quarto, Duniacha, que a procurava, parar, de repente, como que assustada ao ver a ama.
      - Por favor, princesa... o prncipe... - disse ela, numa voz entrecortada.
      Vou j, vou imediatamente articulou a princesa, que sem lhe dar tempo de acabar o que ela queria dizer e sem olhar para Duniacha, correu para casa.
      - Princesa, cumpriu-se a vontade de Deus,  bom estar preparada para tudo - disse o marechal, que a esperava  entrada. - Deixe-me, no  possvel - exclamou ela com angstia.
      O mdico tentou det-la, A princesa repeliu-o e correu para a porta. - Porque no me deixa esta gente com estas caras assustadas? De ningum preciso. Que esto todos aqui a fazer? Abriu a porta e a viva claridade do dia que inundava o quarto ate ento na obscuridade f-la estremecer de pavor. No quarto viam-se vrias mulheres, entre as quais a sua ama. Afastaram-se da cama para a deixar passar. O prncipe continuava deitado, mas o ar severo e calado que se espalhava no rosto imobilizou-a no limiar da porta
      No, no est morto, no  possvel!, dizia de si para consigo  medida que se aproximava, e, vencendo o horror que tomava, pousou os lbios na face do pai. Ao sentir a frieza da pele recuou instintivamente. De sbito toda a ternura que ele acabava de lhe inspirar foi substituda pelo sentimento de horror que lhe despertava o espectculo que tinha diante dos olhos: J no existe! J no existe! J no est no lugar em que estava, j no  seno uma coisa desconhecida e horrvel, um mistrio terrvel que me gela o sangue nas veias e me obriga a fugir! E, escondendo a cara nas mos a princesa Maria caiu desmaiada nos braos do mdico.
      Na presena de Tikon e do mdico, as mulheres deram-se ao cuidado de lavar o corpo do prncipe, amarraram-lhe o queixo com um leno, para que a boca lhe no descasse, e para que as, pernas se lhe no afastassem amarraram-nas tambm. Depois vestiram-lhe o uniforme, com todas as condecoraes, e estenderam sobre a mesa o pequeno cadver descarnado. S Deus sabe como tudo se fez, mas foi como se as coisas se fizessem por si prprias. Para a noite acenderam velas em volta do caixo e cobriu-se o atade com um pano morturio. Espalharam no sobrado bagas de zimbro, puseram debaixo da cabea do morto uma orao impressa e a um canto o chantre principiou a recitar os salmos.
      Tal como os cavalos se empinam e relincham diante do cadver de outro cavalo, assim veio juntar-se no salo em volta do atade do prncipe uma multido de gente da casa e de fora: o marechal da nobreza, o estaroste, as mulheres da aldeia, todos inclinavam at ao cho, beijando a mo fria e hirta do velho prncipe.
      

      
      
      
      Captulo IX
      
      Bogutcharovo, antes de o prncipe Andr ali se haver instalado, fora sempre uma propriedade abandonada pelo amo, e os camponeses dessa aldeia eram muito diferentes dos de Lissia Gori. Deles se distinguiam pela linguagem, pelo trajo e pelos costumes. Parece que eram camponeses da estepe. O velho prncipe elogiava-lhes o amor ao trabalho quando vinham a Lissia Gori ajudar nas colheitas ou abrir tanques ou canais,  mas no gostava deles, selvagens que eram.
      A ltima permanncia do prncipe Andr em Bogutcharovo, apesar das inovaes que introduzira ali - hospitais, escolas e a reduo de impostos - no lhes suavizara os costumes, antes, pelo contrrio, acentuara neles o trao caracterstico, essa selvajaria de que falava o velho prncipe. Entre os camponeses circulavam sempre boatos estranhos ora que iam ser recrutados em massa para o corpo de cossacos, ora que iam obrig-los a aceitar uma nova religio, ou ainda falavam em certas cartas do czar, do juramento prestado a Paulo Petrovitch em 1797, de quem se dizia que j ento dera a liberdade aos servos, liberdade que os senhores lhes tinham retirado de novo, ou ento de Pedro Feodorovitch, que devia vir a reinar dentro de sete anos e sob cujo reinado toda a gente seria livre e tudo seria to simples que acabariam as leis. O que se contava da guerra de Bonaparte c da invaso misturava-se na imaginao desta gente a confusas ideias sobre o Anticristo, o fim do mundo e a liberdade absoluta.
      Nos arredores de Bogritcharovo havia grandes povoaes, propriedade da coroa ou de particulares, cujos camponeses viviam sob o regime de foreiros. Poucos eram os senhores que a residiam: muito poucos eram tambm os criados ou servos que soubessem ler: da que entre os habitantes desses lugarejos assumissem uma fora e uma intensidade apreciveis as misteriosas correntes da vida popular, cujas fontes costumam ser desconhecidas dos contemporneos. Um fenmeno deste gnero se verificara uns vinte anos atrs, quando se formara uma corrente de emigrao para certos rios de guas quentes. Centenas de famlias, entre as quais as de Bogutcharovo, venderam, de um dia para o outro, o eu gado e abalaram para sudoeste. Como aves migradoras que partem para alm dos mares, com mulheres e crianas puseram-se a caminho para regies onde nenhum deles jamais tinha estado. Agruparam-se em caravanas, depois de se haverem remido individualmente uns, outros mesmo sem salvo-conduto, e a p ou de carro meteram-se a caminho. Muitos deles foram apanhados e castigados, sendo deportados para a Sibria, outros morreram pelo caminho de fome e de frio e outros ainda voltaram espontaneamente, e o movimento extinguiu-se por si, tal qual como principiara, sem causa aparente. Uma corrente subterrnea, porm, no deixara de continuar a disseminar-se por entre esta gente e ia ganhar novo alento e manifestar-se estranha e inopinadamente e de maneira igualmente simples e natural. Quem vivesse ento, nesse ano da graa de 1812, em contacto com o povo podia verificar que ele se encontrava profundamente trabalhado por essas foras ocultas prontas a vir  superfcie.
      Alpatitch, que chegara a Bogutcharovo pouco tempo antes da morte do velho prncipe, notara certa agitao entre os camponeses, observando que, ao contrrio do que acontecia na regio de Lissia Gori, onde num raio de sessenta verstas todos os habitantes abalavam, abandonando as suas aldeias aos cossacos saqueadores, nesta zona da estepe, em Bogutcharovo, estabeleciam relaes com os Franceses, segundo se dizia, acolhendo certos papis que circulavam entre eles e permanecendo nas suas casas. Atravs de criados que lhe eram dedicados soube que o campons Karp, ultimamente de volta de uma jornada no carro da administrao, homem de grande influncia na comuna, viera dizer que os cossacos saqueavam as aldeias abandonadas pelos seus habitantes enquanto os Franceses as respeitavam. Alm disto, soube tambm que outro mujique trouxera, na vspera, da aldeia de Vislukovo, ocupada pelo inimigo, uma proclamao do general francs onde se dizia que se no faria mal algum aos habitantes e que se eles se conservassem nas suas casas lhes seriam pagas a pronto todas as requisies que se fizessem. Como prova desta afirmao exibia um assinado de cem rublos, que ignorava ser falso, com que lhe tinham pago a palha das suas terras.
      Por ltimo, e isto era o mais importante, Alpatitch veio a saber que no mesmo dia em que dera ordem ao estaroste para atrelar os carros destinados ao transporte das bagagens da princesa houvera uma reunio da assembleia da comuna onde se resolvera no sarem dali e esperar. E o pior era que no havia tempo a perder. No dia da morte do prncipe, 15 de Agosto, o marechal da nobreza insistira com a princesa Maria para que abalasse imediatamente, em virtude de a situao se apresentar perigosa, Dissera mesmo que depois do dia 12 no podia responsabilizar-se fosse pelo que fosse. E partira pela noite do dia em que o prncipe falecera, prometendo voltar no dia seguinte para assistir ao funeral. Fora-lhe, porm, impossvel regressar ao ter conhecimento de que os Franceses operavam um movimento imprevisto e no tivera tempo seno de mandar partir a famlia e o que tinha de mais precioso.
      Havia trinta anos que o estaroste Drone, a quem o velho prncipe chamava Dronuchka, administrava Bogutcharovo. Drone era um desses mujiques slidos, quer fsica quer moralmente, que  medida que envelhecem principiam a deixar crescer as barbas, embora cheguem aos sessenta ou setenta anos com o melhor aspecto, todos os dentes, sem um cabelo branco, to direitos e robustos como aos trinta anos. Drone pouco depois da emigrao para as guas quentes, em que tomara parte como os demais, fora nomeado estaroste burmistre de Bogutcharovo, funes que desempenhava irrepreensivelmente havia mais de vinte e trs anos. Os camponeses temiam-no mais a ele que ao prprio amo. Os amos, tanto o velho prncipe como o prncipe novo e o intendente, respeitavam-no e chamavam-lhe ministro, por graa. Durante todo o tempo em que desempenhara as suas funes nunca estivera nem bbedo nem doente, nunca dera mostras do mais pequeno cansao, ainda mesmo quando passava as noites em claro ou tinha que fazer qualquer trabalho extraordinrio, e, sem saber ler nem escrever, nunca tivera qualquer engano quer nas contas em dinheiro, quer nos puds de farinha que vendia s carradas, quer na quantidade de feixes de trigo de cada desiatina dos campos de Bogutcharovo.
      Foi este homem que Alpatitch, ao chegar do devastado domnio de Lissia Gori, mandara chamar no dia do funeral do prncipe, encarregando-o de preparar doze cavalos para as carruagens da princesa e dezoito carroas para as bagagens que era preciso transportar. Embora os camponeses pagassem foro, o cumprimento desta ordem no podia encontrar dificuldades, pensava Alpatitch, pois Bogutcharovo contava duzentos e trinta fogos e todos os habitantes eram remediados. A verdade, porm,  que o estaroste Drone, ao ouvir a ordem que lhe davam, baixou os olhos sem dizer palavra. Alpatitch disse-lhe o nome dos camponeses seus conhecidos que podiam encarregar-se dos transportes.
      Drone replicou que os cavalos desses camponeses estavam a fazer servio. Alpatitch lembrou-lhe outros camponeses. E tambm esses no podiam, no dizer de Drone, pois no tinham cavalos: uns andavam em servio da administrao, outros estavam exaustos e a falta de pastos causara a morte de muitos outros. Dizia-se mesmo que no seria fcil arranjar cavalos, tanto para as carruagens como para as carroas.
      Alpatitch olhou-o fixamente, franzindo as sobrancelhas. Se Drone era um estaroste modelar, Alpatitch, pelo seu lado, havia mais de vinte anos que administrava as propriedades do prncipe, no que sempre se mostrara intendente exemplar. Era apuradssimo nele o faro necessrio para compreender as necessidades e os instintos das pessoas com quem tinha de lidar, e por isso mesmo era um intendente verdadeiramente excepcional. Bastou-lhe um relance de olhos a Drone para imediatamente compreender que as respostas que este lhe dava no correspondiam ao que ele pensava, antes reflectiam as disposies da comuna de Bogtitcharovo, a cuja influncia o estaroste se no eximia. Por outro lado, no ignorava que Drone, campons ricao e detestado pela assembleia da comuna, devia estar hesitante entre dois campos, o dos senhores e o dos seus iguais. Lera esta mesma hesitao no olhar do estaroste, e por isso se aproximou dele com uma expresso de descontentamento.
      - Escuta, Dronuchka - disse-lhe -, no me venhas com histrias da carochinha. Sua Excelncia o prncipe Andr Nikolaitch deu-me pessoalmente ordens para evacuar toda a gente e para no deixar que ningum casse em poder do inimigo. H, de resto, uma ordem do czar no mesmo sentido. Aquele que ficar  considerado traidor. Ests a perceber?
      - Estou - replicou Drone, sem erguer os olhos.
      Alpatich no se contentou com a resposta.
      - Ah! Drone, est-me a cheirar a esturro! - exclamou ele, abanando a cabea.
      - Faa o que entender! - murmurou Drone tristemente.
      - Drone! Basta! - voltou Alpatitch, retirando a mo da carcela do colete e apontando para o cho aos ps de Drone, com um gesto teatral. - No sei se te diga que no estou s a ver claramente o que se passa contigo, mas at o que se est passando trs archinas abaixo de ti.
      Drone perturbou-se, lanou um olhar furtivo a Alpatitch e voltou a baixar os olhos.
      - Deixa-te de tolices e vai dizer-lhes que se preparem para partir para Moscovo e que amanh pela manh tratem de trazer as carroas para a bagagem da princesa, e quanto a ti aconselho-te a que no ponhas os ps na assembleia. Ests a perceber? 
      Drone deixou-se cair de sbito aos ps de Alpatitch.
      - Iakov Alpatitch, dispensa-me das minhas funes! Torna l as chaves, dispensa-me das minhas funes, por amor de Deus!
      - Basta! - exclamou Alpatitch severamente. - Estou a ver o que se passa a trs archinas abaixo de ti - repetiu. O intendente sabia que a sua grande habilidade para tratar das abelhas, o conhecer em que momento se deve semear a aveia e o facto de haver sabido agradar ao prncipe por mais de vinte anos de h muito lhe tinham granjeado a reputao de bruxo, e o poder de ver trs archinas abaixo de um homem era dom de feiticeiro, dizia-se.
      Drone voltou a levantar-se e quis falar, mas Alpatitch cortou-lhe a palavra:
      - Que passou pela cabea desta gente sempre quero saber? Vamos... Em que esto vocs a pensar?...
      - Que posso eu fazer com eles? - exclamou Drone. - Rebentou assim sem mais nem menos, de repente. Eu bem lhes disse
      -  isso mesmo que eu pensava, esto bbedos, hem? - inquiriu o intendente, rpido.
      - Esto todos com a cabea perdida, Iakov Alpatitch: j entraram na segunda pipa.
      - Bom, ento ouve. Vou tratar de avisar Ipravnik, e tu vais dizer-lhes que se deixem de histrias e que arranjem as carroas.
      - s suas ordens - volveu Drone.
      Iakov Alpatitch no insistiu mais. Havia muito que governava aquela gente e sabia que a melhor maneira de a submeter era nunca lhes dar oportunidade a que pensassem que ele julgava que lhe no pudessem obedecer. Depois de ter conseguido de Drone aquele dcil s suas ordens, isso lhe bastou, embora duvidasse de que as carroas viessem a ser-lhes fornecidas sem o auxlio da fora pblica e estivesse mesmo persuadido do contrrio.
      Com efeito, pela, noite nada de carroas. Houvera uma nova assembleia diante da taberna, onde se tomara a resoluo de enxotarem os cavalos para as matas e de nada fornecerem do que se lhes pedia, Sem nada dizer  princesa, Alpatitch mandou descarregar as suas prprias bagagens das carroas que tinham chegado de Lissia Gori, mandou atrelar os seus cavalos s carruagens da princesa e tratou de se dirigir s autoridades.
      

      
      
      
      Captulo X
      
      Depois do funeral do pai, a princesa Maria fechou-se no quarto e a ningum quis receber, Uma criada aproximou-se da porta para lhe dizer que Alpatitch viera receber ordens sobre a partida - passara- se isto antes da conversa com Drone.
      A princesa ergueu-se do div onde se estendera e atravs da porta fechada respondeu que no sairia dali e que a deixassem em paz.
      As janelas do quarto da princesa Maria davam para o poente. Estava estendida no div, a cara virada para a parede e tacteava com os dedos os botes da almofada de couro; o horizonte que tinha diante dos olhos delimitava-lho esta almofada, e os seus pensamentos confusos concentravam-se num nico objecto, a morte irrevogvel e a sua prpria baixeza moral at ento dela prpria ignorada, mas evidente agora durante a doena do pai. Queria rezar, mas no tinha coragem; no estado de esprito em que se via no ousava virar-se para Deus. Por muito tempo assim permaneceu naquela posio.
      O Sol punha-se do outro lado da casa e os seus oblquos raios vespertinos filtravam-se pelas janelas abertas iluminando parte do aposento e parte da almofada de marroquim em que ela fixava os olhos. O curso dos seus pensamentos foi, de sbito, interrompido. Soergueu o busto maquinalmente, comps os cabelos, levantou-se e aproximou-se da janela, aspirando, a seu pesar, a fresca brisa daquele belo entardecer.
      Sim, agora podes admirar em paz a beleza do crepsculo! Ele j c no est e ningum daqui para o futuro to poder impedir, disse de si para consigo, deixando-se cair numa cadeira e pousando a cabea no parapeito da janela.
      Uma voz terna e doce chamou l debaixo do jardim e algum a beijou na fronte. Voltou-se. Era Mademoiselle Bourienne, vestida de luto e coberta de crepes. Aproximara-se suavemente, e, depois de a ter beijado, principiara a soluar. A princesa Maria voltou-se para ela. Os atritos que tinham tido, os cimes que ela lhe despertara, tudo lhe veio  memria; lembrou-se tambm de que ultimamente tambm ele, o pai, mudara por completo na sua atitude para com a francesa, que a no quisera tornar a ver e concluiu que, naturalmente, as suspeitas que nutrira no fundo do seu corao eram injustas. Terei porventura o direito, eu, que desejei a morte de meu pai, de julgar o meu semelhante?, murmurou para si mesma.
      A princesa Maria fez passar diante dos olhos a situao de Mademoiselle Bourienne, a quem, nos ltimos tempos, mantivera a distncia, embora ela vivesse numa casa estranha e estivesse na sua dependncia. E teve comiserao dela. Fitou-a com doura e estendeu-lhe a mo. Mademoiselle Bourienne rompeu em soluos, beijou-lhe as mos e falou-lhe do pesar por que estava passando e que sentia muito. Disse-lhe que a nica consolao na sua dor era o facto de a ama lhe ter permitido que a partilhasse com ela. Todos os mal-entendidos do passado deviam desaparecer diante daquele imenso desgosto; no que lhe dizia respeito a ela, sentia pura a conscincia, e ele, l de cima, estava a ver quanto o estimara e quanto lhe estava reconhecida. A princesa ouvia-a sem compreender o que ela dizia; olhava para ela de vez em quando, deixando-se embalar pelo encanto das suas palavras.
      - A sua situao  duplamente terrvel, minha querida princesa - prosseguiu Mademoiselle Bourienne depois de alguns minutos de silncio. - Compreendo que no tenha podido nem possa pensar em si mesma, mas a estima que tenho por si obriga-me a faz-lo... Falou consigo o Alpatitch? Falou-lhe na nossa partida?
      A princesa Maria no respondeu. No percebia de que partida estava a francesa a falar: Poderei eu pensar nalguma coisa ou tentar seja o que for num momento destes? Acaso me importa seja o que for? E continuava calada, sem responder.
      - Sabe, querida Maria - disse-lhe Mademoiselle Bourienne -, sabe que corremos perigo, que estamos cercadas pelos Franceses;  mesmo perigoso agora metermo-nos a caminho. Se partirmos,  quase certo que seremos capturados e s Deus sabe...
      Maria olhava para Mademoiselle Bourienne sem compreender o que ela dizia.
      - Ah, se soubessem como agora tudo me  completamente indiferente! - exclamou ela. - No sairia daqui por nada deste mundo... Alpatitch disse-me qualquer coisa sobre essa partida... Fale com ele, por mim nada quero nem posso fazer...
      - Falei com ele. Tem esperana de que possamos partir amanh, mas na minha opinio acho que actualmente ainda seria mais prudente ficar aqui - disse Mademoiselle Bourienne. - Tem de concordar, querida Maria, que seria horrvel sermos apanhadas na estrada pelos soldados ou pelos camponeses revoltados.
      Mademoiselle Bourienne sacou da sua bolsinha uma proclamao do general francs Rameau, impressa num papel que no era o papel russo vulgar, em que se aconselhavam os habitantes a, no abandonarem as suas casas e em que se dizia que as autoridades francesas lhes concederiam a proteco que lhes era devida. Estendeu-o  princesa.
      - Parece-me que o melhor que temos a fazer  dirigirmo-nos a este general - disse Mademoiselle Bourienne -, e estou convencida de que ele nos dispensar todas as atenes.
      A princesa Maria leu o papel e o rosto contraiu-se-lhe convulsivamente.
      - Quem lhe deu isto? - interrogou ela,
      - Naturalmente souberam que eu era francesa, pelo meu nome - disse, corando. Mademoiselle Bourienne.
      Maria, com o papel na mo, levantou-se da janela e, muito plida, saiu, dirigindo-se ao antigo gabinete do prncipe Andr..
      - Duinacha, chama Alpatitch, Dronuchka, seja quem for! - disse ela - E diz a Amlia Karlovna que quero estar s - acrescentou, ao ouvir a voz de Mademoiselle Bourienne. - Temos de partir o mais depressa possvel, o mais depressa possvel! - sentia-se aterrada com a ideia de vir a cair rias mos dos Franceses.
      Ali! Se o prncipe Andr soubesse que ela cara nas mos deles, e que ela, a filha do prncipe Nicolau Andreievitch Boikonski, implorara a proteco do general Rameau, o qual usara para com ela da sua benevolncia! Este pensamento enchia-a de terror, fazia-a estremecer, corar, dava-lhe acessos de clera dela prpria desconhecida e revoltava-lhe o orgulho. Via com toda a clareza o que aquela situao representaria de penoso e sobretudo de humilhante. Esses franceses vo-se instalar aqui, nesta casa; o Sr. General Rameau vai ocupar o gabinete do prncipe Andr: distrair-se- a folhear e a ler as suas cartas e os seus papis. Mademoiselle Bourienne far-lhe- as honras de Bogutcharovo. A mim dar-me-o, por caridade, um quartinho; os soldados profanaro o tmulo de meu pai para lhe roubarem as cruzes e condecoraes: contar-me-o as suas vitrias contra os Russos, fingiro simpatia pela minha dor... Assim pensava a princesa Maria, no pessoalmente, mas sentindo-se, por assim dizer, obrigada, nestas circunstncias, a adoptar os sentimentos que teriam animado seu pai ou seu irmo. A ela, pessoalmente, tanto se lhe dava ficar aqui ou ali e eram-lhe indiferentes as consequncias que da resultassem: mas para si mesma ia dizendo ser a representante do finado e do irmo ausente. Sem querer, pensava e reagia como eles. Sentia-se obrigada a dizer e a fazer o que eles teriam dito ou feito. Desde que entrara no gabinete de Andr que passara a encarar a situao como se estivesse possuda dos pensamentos dele.
      As exigncias da vida quotidiana que ela julgara desaparecidas aps a morte do pai apresentavam-se-lhe de repente com uma fora nova e ainda desconhecida e absorviam-na por completo.
      Muito agitada, o rosto afogueado pela emoo, andava de um lado para o outro, ora chamando  sua presena Alpatitch, ora Mikail Ivanovitch, ora Tikon, ora Drone. Nem Duniacha, a ama, nem qualquer das criadas lhe puderam dizer fosse o que fosse a respeito da veracidade das asseres de Mademoiselle Bourienne. Alpatitch estava ausente: [ora avistar-se com as autoridades, O arquitecto Mikail Ivanovitch apareceu  princesa meio adormecido e nada lhe pode dizer. Foi com o mesmo sorriso de aquiescncia que durante mais de quinze anos utilizara para responder ao velho prncipe, sem nunca manifestar uma opinio pessoal, que respondeu  princesa sem que esta pudesse concluir fosse o que fosse das suas palavras. O velho criado do quarto, Tikon, de cara afilada pela fadiga e uma expresso de dor inconsolvel, limitou-se a dizer: As suas ordens a todas as perguntas que a princesa lhe fez, rompendo em soluos sempre que erguia os olhos para ela.
      Finalmente apareceu o estaroste Drone, que, depois de profundas reverncias, se deixou ficar encostado  porta.
      A princesa Maria atravessou o gabinete e deteve-se diante dele.
      - Dronuchka - disse-lhe, vendo nele um amigo fiel, esse Dronuchka que lhe trazia todos os anos, aquando da sua jornada  feira de Viazma, para lhas oferecer, com um sorriso bom, rosquilhas de amndoas especiais  Dronuehka, agora, depois da nossa desgraa... - Calou-se, porm, sem animo para continuar.
      - Tudo depende da vontade de Deus - replicou Drone suspirando.
      - Dronuchka, o Alpatitch no est, ningum tenho com quem me aconselhar.  verdade que se diz que eu j no posso partir?
      - Porque no h-de poder partir, Excelncia? Pode partir - disse Drone.
      - Disseram-me que  perigoso por causa do inimigo. Meu amigo, nada posso fazer, no percebo nada, ningum tenho a meu lado. Quero ir-me embora sem falta esta noite ou amanh de manh muito cedo.
      Drone permaneceu calado. Olhava para ela de soslaio.
      - No h cavalos - articulou ele. - Foi o que eu j disse a Iakov Alpatitch.
      - No h cavalos, porqu? - inquiriu a princesa,
      -  castigo de Deus - replicou ele - Os cavalos que havia uns foram levados pelas tropas e os outros morreram. Ah! Vai um ano muito mau. E isso ainda  o menos, a gente no ter que dar a comer aos cavalos; mas o pior  que se acaba por morrer de fome, No h nada de nada, estamos completamente arruinados. A princesa Maria ouvia atentamente.
      - Os camponeses esto arruinados? No tm po? - perguntou ela.
      - Esto a morrer de fome - volveu Drone. - No s faltam carros...
      - E porque no o tinhas tu dito j, Dronuchka? No podemos ajud-los? Farei tudo o que estiver na minha mo...
      Parecia-lhe estranho pensar que naquele momento, naquela hora em que a dor lhe trespassava a alma, existissem ricos e pobres e que os ricos no procurassem ajudar os pobres. Ouvira falar vagamente do trigo dos senhores que por vezes se distribua aos camponeses. Sabia igualmente que nem o irmo nem o pai se teriam negado a auxiliar os pobres. Receava apenas no vir a propsito a distribuio que estava disposta a fazer. Sentia-se feliz por ter um pretexto digno de preocupao capaz de lhe fazer esquecer o seu desgosto. Pediu a Dronuchka pormenores sobre as necessidades que havia a mitigar com as reservas do celeiro de Bogutcharovo.
      - Deve haver trigo dos senhores, de meu irmo, no  verdade? - perguntou ela.
      - O trigo do amo est intacto - replicou Drone com orgulho. - O prncipe no autorizava que se vendesse,
      - Distribui-o aos camponeses, distribui todo o trigo que for preciso. Ests autorizado a faz-lo em nome de meu irmo - acrescentou ela.
      Drone no respondeu e despediu um grande suspiro.
      - D-lhes esse trigo, se h trigo bastante para eles. Distribui-o todo.  em nome de meu irmo que te dou esta ordem e diz-lhes que o que  nosso lhes pertence, que nada pouparemos para os ajudar. Repete-lhes bem isto.
      Drone olhava fixamente para a princesa enquanto ela falava.
      - Dispensa-me das minhas funes, mezinha, em nome de Deus. Manda que eu te entregue as minhas chaves - disse ele. - Servi durante vinte e trs anos sem nunca fazer nada de mal. Dispensa-me das minhas funes, em nome de Deus.
      A princesa Maria no percebia o que ele lhe pedia e a razo por que no queria continuar a desempenhar as suas funes. Replicou-lhe que nunca duvidara da sua dedicao e que estava disposta a fazer tudo quanto pudesse por ele e pelos camponeses.
      

      
      
      
      Captulo XI
      
      Da a uma hora, Duniacha veio dizer  ama que Drone voltara e que todos os camponeses, de acordo com as suas ordens, estavam reunidos ao p do celeiro e lhe queriam falar.
      - Mas eu no os mandei chamar - disse a princesa. - Disse apenas ao Dronuchka que lhes distribusse trigo.
      - Por Deus, ento, minha me, por amor de Deus, d ordens para que os mandem embora e no v falar com eles. Tudo isto  um grande engano - volveu Duniacha. - Quando Iakov Alpatitch voltar, ir-nos-emos embora... mas no consinta...
      - De que engano ests tu a falar? - perguntou a princesa Maria, surpreendida.
      - Bem sei o que digo, siga o meu conselho, por amor de Deus. Pergunte  ama. No querem ir-se embora, como a senhora ordenou, segundo eles dizem.
      - Tu no sabes o que dizes. Nunca dei ordem para que se fossem embora - afirmou a princesa Maria. - Manda c o Dronuchka.
      Drene confirmou as palavras de Duniacha: os camponeses haviam-se reunido por ordem da princesa.
      - Mas eu nunca os mandei reunir - teimou ela. - No lhe devias ter transmitido essa ordem. Apenas te disse para lhes distribures trigo.
      Drene soltou um suspiro, sem responder.
      - Se a senhora manda, eles ir-se-o embora - tornou ele.
      - No, no, irei falar com eles - atalhou a princesa.
      Apesar das suplicas de Duniacha e da ama, a princesa Maria assomou ao alpendre. Dronuchka, Duniacha, a ama e Mikail Ivanovitch seguiram-na.
      Naturalmente julgam que eu lhes ofereo o trigo em troca de eles consentirem em ficar, enquanto eu me vou embora, abandonando-os aos Franceses, dizia ela de si para consigo. Vou prometer-lhes cama e mesa na quinta dos arredores de Moscovo. Estou convencida de que no meu lugar Andr ainda faria mais do que eu. Pensando deste jeito, aproximou-se da multido reunida ao p do celeiro no crepsculo que descera do cu.
      A turba, que principiava a dar sinais de impacincia, agitou-se quando viu a princesa e todos se descobriram precipitadamente.
      A princesa Maria, baixando os olhos e tropeando nas pregas do vestido, aproximou-se deles. Tantos eram os olhos de moos e velhos pousados nela e tantas as caras diferentes para ela voltadas que lhe no era possvel reconhecer fosse quem fosse; diante da necessidade de se dirigir a todos ao mesmo tempo, no sabia como principiar. Porm, a conscincia de ser, naquelas circunstncias, o porta-voz do pai e do irmo deu-lhe a energia necessria e ps-se a falar corajosamente.
      - Estou muito contente porque tenham vindo - pronunciou ela, sem sequer erguer os olhos, enquanto o corao lhe batia descompassadamente no peito. - Dronuchka disse-me que a guerra os arruinou. Estamos todos sujeitos  mesma desgraa, e tudo farei para os auxiliar. Por mim, tenho de me ir embora, porque  perigoso ficar aqui - e o inimigo no est longe... tambm... Enfim, meus amigos,  tudo vosso, peo-vos que tomem conta de tudo: o trigo todo  vosso. No quero que haja misria entre vs. E, se lhes vierem dizer que eu vos dou trigo para que vocs fiquem, creiam que  mentira. Pelo contrrio, suplico-lhes que partam com tudo que  vosso para a nossa propriedade perto de Moscovo e prometo-lhes que nada vos faltar ali, tomo essa responsabilidade. Tereis cama e mesa.
      A princesa calou-se. Apenas se ouviram, entre a, multido, alguns suspiros.
      - No sou eu quem torna esta resoluo - prosseguiu ela. - Procedo em nome de meu falecido pai, que foi vosso amo, f, de meti irmo, seu filho.
      Calou-se mais uma vez. Nenhuma voz rompeu o silncio. 
      - A nossa desgraa  a mesma, e dividiremos tudo a meias. Tudo quanto  meu  vosso - prosseguiu ela, fixando desta vez os que estavam mais perto.
      Todos os olhos a fitavam com uma expresso idntica, expresso que ela no podia compreender. Curiosidade? Dedicao? Reconhecimento? Ou apenas medo e desconfiana? Impossvel sab-lo. Mas em todos os rostos a expresso era uma e a mesma.
      - Estamos-lhe muito reconhecidos pela sua bondade, mas no convm que a gente tome conta do trigo que  do amo - disse uma voz l por trs.
      - E ento porqu? - interrogou a princesa Maria.
      Ningum lhe respondeu e a princesa, ao percorrer com a vista a multido, deu-se conta de que todos os olhos que encontravam agora os seus imediatamente se baixavam.
      - Ento porque no querem? - repetiu ela. Ningum respondeu.
      Maria sentiu-se incomodada perante este silncio: tentou fixar alguns daqueles olhares.
      - Porque no respondem? - E ao lobrigar um velho que estava diante dela encostado a um varapau: - Vamos, fala, achas que ainda precisam de mais alguma coisa? Estou pronta para tudo.
      Mas ele, como se ficasse de sbito furioso por ver-se pelado daquela maneira, ainda, baixou mais os olhos enquanto murmurava:
      - Porque havamos ns de aceitar? No precisamos de trigo. E porque havamos ns de abandonar tudo? No estamos dispostos a isso... No damos o nosso consentimento. Lamentamos mas no consentimos. Vai-te embora sozinha, se queres..., disseram vrias vozes.
      E novamente todos os rostos retomaram a, mesma expresso, e o que neles se reflectia no era, por certo, nem curiosidade nem reconhecimento, mas antes uma resoluo enrgica.
      - Naturalmente no me compreenderam bem - disse ento a princesa Maria com um sorriso muito triste. - Porque no querem partir? J lhes disse que lhes darei cama e mesa. Se ficarem aqui, o inimigo arruin-los-...
      As vozes da multido, porm, abafaram a da princesa.
      No damos o nosso consentimento; pois que nos arruinem! No queremos o teu trigo no damos o nosso consentimento! Maria tentou ainda reter um olhar qualquer dos que falavam, mas nenhuns olhos estavam fitos nela. Todos a evitavam, E isto f-la sentir uma impresso estranha e penosa.
      Viste como ela recitou bem a lio? No faltava mais. Queria levar-nos para trabalhos forados! Quando as nossas casas estiverem arruinadas, d-nos trabalho de graa. Que vem a ser isso? E diz que nos dar trigo!, exclamavam no meio da multido
      De cabea baixa abandonou o grupo e voltou para casa. Depois de ter repetido a Drone que eram precisos os cavalos para o dia seguinte pela manh, retirou-se para o seu quarto e ali permaneceu sozinha com os seus pensamentos.
      

      
      
      
      Captulo XII
      
      Naquela noite a princesa Maria ficou por muito tempo sentada junto da janela aberta, ouvindo as vozes dos camponeses que chegavam da aldeia, mas sem pensar neles. Sabia perfeitamente que quanto mais pensasse na maneira de proceder deles menos poderia compreend-los. Para ela s uma coisa contava: a sua dor, a qual, agora, depois daquela diverso provocada pelas preocupaes do presente, se perdia no passado. J no podia lembrar-se mais, j no podia chorar, j no podia rezar, Com o pr do Sol o vento calara-se. A noite estava serena e fresca. Depois da meia-noite as vozes foram-se calando pouco a pouco. O galo principiou a cantar; a lua cheia ergueu-se por detrs das tlias; neblinas frescas e esbranquiadas envolveram a distncia e o silncio caiu sobre a aldeia e a casa.
      Passaram diante dela, uma aps outra, as imagens do passado to prximo; a doena e os ltimos momentos do pai. E era com alegria triste que ela recordava agora essas cenas, no repelindo com horror seno uma delas, a da morte, sentindo no ser capaz de a evocar naquela serena e misteriosa hora da noite. E esses quadros surgiam-lhe diante dos olhos com uma tal nitidez e com tais pormenores que se lhe afiguravam ora o presente, ora o passado, ora o futuro.
      Recordou o momento em que o pai fora acometido de apoplexia, quando o haviam trazido do jardim, amparado por debaixo dos braos, balbuciando palavras incompreensveis, franzindo as sobrancelhas brancas e olhando para ela com uma expresso tmida e inquieta.
      J ento me queria comunicar o que me disse no dia da morte, dizia ela consigo mesma. Tinha pensado sempre no que me disse. E eis que lhe ocorreu, em todos os seus pormenores, aquela noite em Lissia Gori, na vspera do dia em que ele fora acometido pelo ltimo ataque, quando, na previso da catstrofe, ela ficara ao p do doente contra sua vontade. No pudera dormir e em bicos de ps aproximara-se da porta do jardim de inverno onde o pai dormia nessa noite e ouvira-lhe a voz. Entretinha-se a conversar com Tikon num tom fatigado e de quem sofre. Falava da Crimeia, das noites nos pases quentes, da imperatriz. Tinha, sem dvida necessidade de conversar. E porque me no mandou chamar? Porque me no deixou ocupar o lugar de Tikon?, pensava ela, como j pensara ento. Ah! Agora j no poder dizer a ningum o que ento lhe ia no corao. Nem para ele nem para mim. No mais se repetir aquele minuto em que ele teria dito quanto queria dizer e em que eu ali estaria presente, em vez de Tikon, para o ouvir e o compreender. Porque no entrei eu ento?  de crer que ele me tivesse dito nesse momento o que me disse no dia da sua morte. J ento, conversando com Tikon, perguntara duas vezes por mim. Queria falar-me, e eu ali, atrs daquela porta. Era-lhe penoso no estar a ser ouvido seno por Tikon, que o no podia compreender. Lembro-me de que lhe falou de Lisa como se ela ainda estivesse viva, pois se esquecera de que ela morrera, que Tikon lhe disse que Lisa j no era do nmero dos vivos e que ele se pusera a gritar: imbecil Estas recordaes eram-lhe penosas. Ouviu-o gemer atravs da porta quando ele se deitou e clamava em voz alta: Meu Deus! Porque no entrei eu naquele momento? Que me teria ele feito? Que arriscava eu ento? E talvez que afinal se tivesse consolado e me tivesse dito essas palavras. E Maria pronunciou em voz alta essas palavras acariciadoras que ele lhe dissera no dia da sua morte: Alma minha!, repetiu ela, e rompeu em soluos, que lhe aliviaram o corao. Via agora, ali na sua frente, o rosto dele: no essa cara, que ela to bem conhecia, sempre distante, mas essa outra expresso tmida e receosa que ela contemplara pela primeira vez de perto, com todas as suas rugas, nos seus mnimos pormenores, quando se debruou sobre os lbios dele para o ouvir melhor.
      Alma minha!, repetia ela.
      Em que pensava ele quando assim me chamou? Em que estar ele a pensar neste momento?, perguntou ela a si prpria, subitamente, e de novo lhe surgiu diante dos olhos a expresso que ele tinha no caixo com a ligadura branca por debaixo do queixo. E o mesmo horror que dela se apossara ao tocar no morto e ao verificar que j no era ele quem ali estava, mas qualquer coisa de misterioso e repelente, esse mesmo horror se apoderou dela naquele instante. Teria desejado pensar noutra coisa, rezar; no o conseguia, porm. Erguia os seus grandes olhos muito abertos para o disco lunar e para a sombra e esperava a cada momento voltar a ver a cara do morto; sentia-se como que paralisada pela grande serenidade que reinava na casa e nas vizinhanas. Duniacha!, balbuciou ela primeiro. Duniacha!, clamou, em seguida, numa voz desesperada, e, arrancando-se ao silncio e  meditao que a tomavam, correu para o quarto das criadas, ao encontro da ama e das mulheres, que vinham j atender ao seu chamamento.
      

      
      
      
      Captulo XIII
      
      No dia 17 de Agosto, Rostov e Iline, na companhia de Lavruchka, de regresso do breve cativeiro, e de uma ordenana hssar, abalaram, para um curto passeio a cavalo, do acampamento de Iankov, a umas quinze verstas, pouco mais ou menos, de Bogutcharovo, Queriam experimentar um cavalo novo que Iline comprara e investigar se haveria palha nas aldeias prximas. H trs dias que Bogutcharovo estava entre os dois exrcitos inimigos, de tal sorte que, de um momento para o outro, podia vir a ser ocupada quer pela retaguarda dos Russos, quer pela vanguarda dos Franceses. Eis a razo por que, Rostov, comandante de esquadro previdente, queria apoderar-se, antes da chegada do inimigo, dos abastecimentos que porventura ai tivessem ficado.
      Os dois amigos iam muito bem dispostos. Cavalgando em direco a Bogutcharovo, a propriedade do prncipe, onde esperavam encontrar basta criadagem e lindas moas, interrogavam Lavruchka acerca de Napoleo, rindo das suas histrias, quando no se punham a galopar ao desafio para experimentar o cavalo de Iline.
      Rostov ignorava por completo que a aldeia para onde se dirigiam era propriedade desse Bolkonski que fora noivo de sua irm.
      Num ltimo desafio largaram a galope pela encosta que descia para Bogutcharovo, e Rostov, distanciando-se do amigo, foi o primeiro a atravessar a rua da povoao.
      - Deixaste-me para trs - disse Iline, afogueado pela galopada.
      - Sim, chego sempre primeiro, tanto em campo raso como aqui - replicou Rostov, afagando o seu corcel do Dom, branco de espuma.
      - E eu, Excelncias, com a minha francesa - interveio Lavruchka, que os seguia e era assim que chamava ao rocim em que ia montado - eu, se os no quisesse envergonhar, j h muito que os teria apanhado,
      A passo aproximaram-se de um celeiro onde havia um grande ajuntamento de camponeses.
      Alguns deles desbarretaram-se, enquanto outros se limitavam a olhar para os recm-chegados. Dois mujiques idosos, de barbas ralas e caras sulcadas de rugas, saram de uma, taberna e, titubeando e cantarolando uma cano incoerente, aproximaram-se dos oficiais.
      - Aqui temos homens! - exclamou Rustov, rindo. - Eh! Tendes palha?
      - Qual deles o melhor. - disse Iline.
      Alegre... com... pa... nhia..., cantarolava um dos mujiques com um sorriso feliz.
      Um campons saiu da multido e, aproximou-se de Rostov. 
      - Quem sois vs? - perguntou.
      - Franceses - respondeu Iline, a rir - E aqui tens Napoleo em carne e osso - acrescentou, apontando para Lavruchka. Ento so russos? - voltou o campons.
      - Trazem muitas foras? - perguntou outro campons, pequenino, que se aproximara.
      - Sim, muitas, muitas - retorquiu Rostov. - E que esto vocs a fazer todos aqui? - acrescentou. -  dia santo, porventura?
      - Os velhos reuniram-se para tratar coisas l da comuna - replicou o campons, afastando-se.
      Nesse momento duas mulheres e um homem de gorro branco saram da casa senhorial e dirigiram-se para os oficiais.
      - A vestida de encarnado  para mim! Ai daquele que ma roubar! - exclamou Iline, vendo Duniacha, que caminhava para ele num passo decidido,
      -  para ns! - disse Lavruchka, piscando o olho a Iline.
      - Que queres tu, minha linda? - perguntou Iline, sorrindo.
      - A princesa manda perguntar a que regimento pertencem como se chamam.
      - Conde Rostov, comandante de esquadro e vosso muito humilde servidor.
      Com... pa... nhia!, ia cantando o campons bbedo, sorrindo com ar feliz e olhando para Iline, que conversava com a rapariga. Logo atrs de Duniacha apareceu Alpatitch, que de longe se descobrira respeitosamente.
      - Atrevo-me a incomodar Vossa Senhoria - disse ele, com a mo na carcela do colete e numa deferncia em que se misturava certa displicncia, atendendo  juventude do oficial. - Minha ama, a filha do general-chefe prncipe Nicolau Andrejevitch Bolkonski, falecido no dia 15 deste ms, encontra-se numa situao penosa, por causa da ignorncia desta gente. - E fez um gesto na direco dos camponeses. - Roga-lhes que tenham a bondade... Querem fazer o favor de se afastar um pouco? No  muito agradvel na presena destes... - Apontou para os dois camponeses que, a pequena distncia, cirandavam em volta dele como varejeiras  roda de um cavalo.
      - Oh, Alpatitch... Oh, Talcov Alpatitch... Muito bem! Em nome de Cristo, perdoa-nos. Muito bem! - diziam os camponeses, mostrando-lhe o melhor dos seus sorrisos.
      Rostov no pde deixar de olhar para os dois borrachos e sorriu.
      - A no ser que isto divirta Vossa Excelncia! - observou Iakov Alpatitch, com um ar grave, tirando a mo da carcela do colete para apontar os dois velhos.
      - No, no, isto nada tem de divertido - atalhou Rostov, afastando-se. - E de que se trata afinal? - perguntou.
      - Excelncia, estes grosseiros indivduos no querem deixar sair daqui a minha ama e ameaam-na de lhe desengatar os cavalos, de modo que tudo est carregado desde manh e a princesa no pode meter-se a caminho.
      - Isso no pode ser! - exclamou Rostov.
      - Tenho a honra de lhe dizer a verdade pura - confirmou Alpatitch.
      Rostov apeou-se, entregou as rdeas do cavalo  ordenana e seguiu Alpatitch em direco  casa, enquanto lhe ia pedindo pormenores. Efectivamente, a proposta da vspera aos camponeses para lhes distribuir o trigo e a explicao da princesa com Drone e a assembleia campesina de tal modo desarranjaram as coisas que Drone entregara definitivamente as suas chaves, se juntara aos camponeses e no aparecera quando convocado por Alpatitch. E assim, quando, na manh seguinte, a princesa dera ordens para a partida, aquela gente reunira-se em grande nmero ao p do celeiro e mandara dizer que no deixaria partir a princesa, que havia ordem para no abandonar as casas e que estava disposta a desatrelar os cavalos. Alpatitch viera parlamentar com os camponeses, tentando cham-los  razo, mas haviam-lhe respondido - foi Karp quem falou, pois Drone no aparecia - no ser possvel deixarem partir a princesa, que havia ordem para isso. Se ela consentisse, porm, em ficar, continuariam a servi-la como at ali e lhe obedeceriam em tudo.
      Enquanto Rostov e Iline galopavam pela estrada, a princesa Maria, apesar das objeces de Alpatitch, da ama e das criadas, mandara atrelar os carros para a partida. Os cocheiros, no entanto, ao verem ao longe os cavaleiros, que julgaram franceses, fugiram e as mulheres puseram-se a gritar pela casa.
      Paizinho! Nosso paizinho! Foi Deus quem te mandou!, exclamavam vozes suplicantes no momento em que Rostov penetrava no vestbulo da casa.
      A princesa Maria, desamparada e sem foras, estava no salo quando Rostov entrou. No percebia quem ele era, porque estava ali e o que estava a passar-se. Compreendeu tratar-se de um russo, e pela maneira de andar e assim que ele pronunciou as primeiras palavras deu-se conta de que estava diante de um homem polido. Fitou nele os olhos fundos e luminosos e ps-se a falar-lhe numa voz entrecortada e trmula de emoo. Rostov sentiu imediatamente o que havia de romanesco naquele encontro. Esta rapariga, sem defesa, esmagada pela desgraa, abandonada,  merc de camponeses grosseiros revoltados! Que estranho capricho do destino me havia de trazer aqui!, dizia Rostov com os seus botes e, enquanto ouvia a narrao que ela lhe fazia, observava-a, E que suavidade, que nobreza de traos, que expresso de rosto!
      Quando ela lhe disse que tudo aquilo acontecera no dia seguinte ao do funeral do pai, a voz tremia-lhe. Voltou a cabea para o lado, e, em seguida, receosa de que Rostov pensasse que ela o queria comover, fitou nele uns olhares tmidos e interrogativos. Rostov tinha os olhos cheios de lgrimas. Maria deu por isso e agradeceu-lhe poisando nele umas pupilas luminosas que apagaram por completo a fealdade dos seus traos.
      - No tenho palavras, princesa, para lhe expressar como me sinto feliz por haver passado aqui por acaso e poder-me confessar  sua disposio - pronunciou ele, levantando- se. - Pode partir. Garanto-lhe sob palavra que ningum ousar incomod-la desde que me d a honra de a escoltar. - E, inclinando-se diante dela to respeitosamente como se estivesse em frente de uma princesa de sangue real, encaminhou-se para a porta.
      Os modos cerimoniosos de Rostov queriam dizer clar2mente que, embora lhe fosse muito agradvel entabular com ela mais amplas relaes, no queria aproveitar aquela circunstncia triste para prosseguir no seu dilogo.
      A princesa Maria compreendeu e apreciou a sua discrio. 
      - Estou-lhe muito, muito reconhecida - disse-lhe ela em francs - espero que tudo isto no passe de um mal-entendido e que ningum seja culpado. - E principiou a chorar. - Perdoe-me - acrescentou.
      Rostov franziu as sobrancelhas, para esconder a emoo que o tomava, e, inclinando-se mais uma vez profundamente, saiu da sala.
      

      
      
      
      Captulo XIV
      
      - Ento?  bonita? Ah, rapazes, a minha, a de encarnado,  um encanto e chama-se Duniacha...
      A expresso de Rostov, porm, fez que Iline se calasse imediatamente, Adivinhou que o seu heri e comandante estava numa disposio de espr4to diferente da sua.
      Rostov lanou-lhe um olhar irritado e sem lhe responder dirigiu-se em passos rpidos para a povoao.
      Eu lhes ensinarei! Vo ter o que merecem, estes bandidos, dizia de si para consigo.
      Alpatitch, alargando o passo quanto podia, custou-lhe a apanh-lo.
      - Que deciso se digna tomar? - perguntou-lhe, quando conseguiu alcan-lo.
      Rostov deteve-se e, cerrando os punhos, caminhou, de sbito, ameaador para Alpatitch.
      - Que deciso? Que deciso? Velho imbecil! - gritou-lhe. - Que andas tu para a a fazer? Os camponeses revoltam-se e tu no sabes met-los na ordem, hem! Afinal no passas de um traidor! Conheo-os a todos. Hei-de arrancar-lhes a pele! - E como se receasse esgotar inutilmente a clera que se apoderava dele deixou Alpatitch no meio da rua e prosseguiu o seu caminho em passos acelerados.
      Alpatitch, calando a ofensa imerecida que se lhe acabava de fazer, continuou atrs de Rostov em passo acelerado tambm e teimou em p-lo ao corrente do seu ponto de vista. Explicava-lhe que os camponeses estavam naquele momento absolutamente obstinados, que naquela altura seria insensato resistir-lhes sem o apoio da fora armada, que seria muito melhor comear por pedir reforos.
      - Eu lhes darei as foras armadas... Sou eu quem lhes vai fazer frente - repetiu Nicolau, sem pensar no que dizia, sufocado por uma ira irreflectida e animal que s queria expandir-se.
      Sem medir o passo que ia dar, caminhou direito  multido, rpido e decidido. E  medida que ele se aproximava, Alpatitch ia dizendo de si para consigo que talvez o seu acto insensato pudesse dar bons resultados. Eis o que os prprios camponeses pareciam compreender tambm ao verem av2nar para eles aquele homem de passo rpido e enrgico e rosto decidido e contrado de raiva.
      Mal os hssares tinham entrado na povoao, e assim que Rostov se dirigira a casa da princesa, uma certa desorientao e um certo desacordo se verificaram entre o povo. Alguns camponeses principiaram a dizer que os militares eram russos e que naturalmente iam zangar-se quando soubessem que eles impediam a partida da princesa. Drone, especialmente, era desta opinio: mas, assim que manifestara o seu Parecer, Karp e muitos outros irritaram-se com ele.
      - Quantos anos estiveste tu para a a comer  custa da comuna? - gritou-lhe Karp. - Para ti, tanto faz. Pegas na bolsa e por aqui me sirvo. Queres l saber que as nossas casas sejam saqueadas!
      - Que se cumpra o que est resolvido: que ningum saia de sua casa. Desde que ningum tire nada daqui, no haver novidade! - gritou outra voz,
      - O teu filho  que devia ter sido recrutado e tu, com p(ma dele, mandaste o meu Vanka no seu lugar. Todos ternos de morrer! - exclamou, de sbito, um velhito que se dirigia a Drone.
      - Sim, sim, todos temos de morrer.
      - Eu no sou delegado da comuna - observou Drone.
      - Sim, sim, no s delegado da comuna, mas criaste barriga!...
      Dois camponeses apalermados iam dizendo qualquer coisa. Assim que Rostov, acompanhado de Iline Lavruchka e Alpatitch, se aproximou do grupo, Karp, avanou para ele com os dedos no cinturo e um leve sorriso nos lbios. Drone, pelo contrrio, tratou de se esconder nas ltimas fileiras do povo, agora mais compacto do que nunca.
      - Quem  aqui o estaroste? - gritou Rostov caminhando rapidamente.
      - O estaroste? Que lhe quer? - perguntou Karp.
      Antes que pudesse terminar a frase, o barrete voou-lhe pelo ar e a cabea oscilou-lhe apanhada em cheio por um violento golpe.
      - Desbarretem-se, traidores! - gritou Rostov em voz alta. - Onde est o estaroste? - acrescentou numa voz terrvel.
      Est a chamar o estaroste, est a chamar o estaroste... Drone Zakaritch, esto a cham-lo, exclamaram vrias vozes receosas, e imediatamente os barretes desapareceram das cabeas.
      No queremos revoltar-nos, estamos apenas a cumprir as decises que tommos - disse Karp. Depois, algumas vozes, l para trs, comearam a falar todas ao mesmo tempo:
      Foram os velhos quem resolveu... So muitos a mandar - Quem se atreve a falar?...  uma revolta!... Cambada de ladres! Traidores! - vociferou Rostov sem pensar, numa voz que perdera a ressonncia humana, agarrando Karp pela gola. - Amarrem-no, amarrem-no! - gritou, embora para amarrar Karp houvesse ali apenas Lavruchka e Alpatitch-
      Lavruchka precipitou-se para ele e agarrou-lhe as mos por detrs.
      - Se quiser, vai chamar-se a nossa gente, l ao fundo da colina - disse ele.
      Alpatitch chamou dois camponeses pelo seu nome para que viessem amarrar Karp. E os dois avanaram docilmente do meio da multido e desataram os cintures.
      Onde est o estaroste? - gritou Rostov.
      Drone, plido e carrancudo, deu dois passos em frente.
      - Tu  que s o estaroste? Amarra-o, Lavruchka! - ordenou Rostov, como se o cumprimento desta ordem no pudesse levantar qualquer obstculo.
      E, realmente, dois outros mujiques puseram-se a amarrar Drone, o qual, como se quisesse auxili-los, arrancou o cinturo e passou-lho para as mos.
      - E vocs todos, ouam-me bem - prosseguiu Rostov, dirigindo-se aos camponeses. - Agora  cada um tratar de ir para sua casa e que ningum se lembre de abrir o bico.
      - Mas ento? Que mal fizemos ns? Foi tudo uma asneira. S fizemos asneiras. Eu bem disse que isto no estava direito - exclamaram algumas vozes, acusando-se mutuamente.
      - Eu bem vos tinha prevenido - comentou Alpatitch, recuperando a autoridade perdida. - No est certo, rapazes! 
      - Foi uma asneira nossa. Iakov Alpatitch - responderam vrias vozes, e a multido imediatamente se dispersou, espalhando-se pela aldeia.
      Os dois camponeses prisioneiros foram conduzidos ao ptio da casa senhorial. Atrs deles foram os dois bbedos.
      - Olhem para a cara deles! - disse um dos bbedos, dirigindo-se a Karp.
      -  maneira de se falar aos amos? Que julgas tu? Imbecil, sim, s um imbecil - disse o outro.
      Duas horas mais tarde estacionavam os carros no ptio de Bogutcharovo. Os camponeses atarefavam-se a carregar as bagagens dos amos enquanto Drone, que, a pedido da princesa, fora solto do sto onde o haviam encerrado, ia dando as suas ordens no meio deles.
      - Que isso fique bem arrumado - dizia um homem de grande estatura, de cara cheia e sorridente, ao receber uma caixinha das mos da criada. - Essa caixa vale dinheiro. No a ponhas para a de qualquer maneira. V l se a amarras de maneira que se estrague. No gosto disso.  preciso que as coisas se faam com conscincia, em ordem. Assim, isso mesmo, agora cobre-a com uma serapilheira e pe-lhe em cima um bocado de palha.
      - Aqui vo livros, muitos livros - dizia outro, que transportava os livros da biblioteca do prncipe Andr. - No me toques! Caramba, que  pesado, rapazes! Isto sim, so livros que valem quanto pesam!
      - Caramba, quem escreveu estes livros no teve tempo para se coar! - dizia, por seu turno, piscando o olho, com ar de entendido, um rapazola gordo e grandalho que apontava para os dicionrios que vinham em cima.
      Rostov, que no queria impor-se  princesa, no voltou a casa dela e deixou-se ficar na aldeia at ao momento da partida. Assim que as carruagens se puseram em marcha, montou a cavalo e escoltou-as at  estrada ocupada pelas tropas russas, a umas doze verstas dali. Na estalagem de Iankovo pediu respeitosamente licena para se retirar, permitindo-se, pela primeira vez, beijar-lhe a mo.
      - No diga isso, princesa - protestou ele, corando diante da princesa, que lhe agradecia ter-lhe salvo a vida, como ela dizia. - Qualquer comissrio da polcia teria feito o que eu fiz. Se estivssemos aqui s para guerrear com os camponeses, no teramos deixado o inimigo chegar onde chegou. - E, para mudar de conversa, acrescentou: - Alis, sinto-me feliz por ter tido a oportunidade de a conhecer. Adeus, princesa, desejo-lhe muitas felicidades e espero que ainda venhamos a encontrar-nos em circunstncias mais agradveis. Se no quer que eu core, por amor de Deus, no me agradea.
      A princesa, se calava as palavras de gratido, nem por isso deixava de traduzir na sua resplandecente expresso de enternecido reconhecimento quanto estava agradecida a Rostov. No podia acreditar que nada tivesse a agradecer-lhe. A seus olhos era indiscutvel que, se Rostov ali no tivesse aparecido, teria sido vtima ao mesmo tempo dos camponeses revoltados e dos Franceses. Era para ela um facto que, para a salvar, se expusera aos mais evidentes e terrveis perigos. E tambm se lhe afigurava incontestvel que era um homem de alma alevantada e nobre, pois soubera compreender a sua situao e ter pena da sua dor. Os olhos de Rostov, to bons e to honestos, tinham-se enchido de lgrimas quando ela, lacrimosa tambm, lhe falara da morte do pai e esta recordao estava gravada na sua alma.
      Quando lhe disse adeus e ficou s, Maria sentiu, de sbito, que os olhos se lhe humedeciam, e foi ento que, pela primeira vez, lhe veio ao esprito esta ideia estranha: estaria porventura enamorada?
      No decurso da jornada para Moscovo, embora a situao no fosse das mais alegres, Duniacha, que ia ao lado da princesa, na mesma carruagem, mais de uma vez pde observar que ela espreitava pela portinhola com um vago e triste sorriso.
      E se realmente eu estivesse enamorada dele?, dizia de si para consigo.
      Apesar da vergonha que sentia por confessar a si prpria que amava um homem pela primeira vez, homem esse que naturalmente no tinha por ela qualquer sentimento especial, consolava-a a ideia de que nunca algum conheceria o seu segredo e que no era crime gostar, sem o confessar a ningum, e at ao ltimo dos seus dias, daquele que seria o seu primeiro e ltimo amor.
      De vez em quando lembrava-se do olhar dele, das suas atenes, das suas palavras cheias de simpatia, e ento a felicidade no se lhe afigurava impossvel. E era ento que Duniacha lhe notava o ar feliz quando olhava pela portinhola.
      Tinha de vir a Bogutcharovo e logo naquele momento!, dizia para consigo a princesa Maria. E tinha sido preciso que a irm desfizesse o casamento com o prncipe Andr! E em tudo isto no podia deixar de ver o dedo da Providncia. Quanto a Rostov, a impresso que lhe produzira a princesa
      Maria era de suavidade e agrado. Sempre que falava dela sentia-se mais alegre, e sempre que os seus camaradas, a cujos ouvidos chegara qualquer coisa a respeito da aventura do camarada em Bogutcharovo, se punham a brincar com ele, dizendo que Rostov fora  procura de palha e achara uma das mais ricas herdeiras da Rssia, zangava-se a bom zangar. E o facto  que se irritava porque a ideia de um casamento com a doce e simptica princesa, possuidora alis de uma grande fortuna, lhe ocorrera vrias vezes sem que ele desse por isso. Pessoalmente, no podia desejar uma esposa melhor. <,,Aquele casamento, que faria a felicidade da condessa e restabeleceria a situao do prprio pai, talvez no desagradasse  prpria princesa, pensava Nicolau,
      E que faria de Snia? E a palavra dada? Eis por que Rostov se, irritava quando brincavam com ele por causa da princesa Bolkonski.
      

      
      
      
      Captulo XV
      
      Tendo aceitado o comando dos exrcitos russos, Kutuzov lembrou-se do prncipe Andr e expediu-lhe ordem para se apresentar no quartel-general
      Andr chegou a Tsarevo-Zaimitch no dia e  hora em que Kutuzov passava a sua primeira revista s tropas. Deteve-se na aldeia, junto da casa do pope, onde estava a carruagem do general-chefe, e sentou-se num banco ao p do porto para aguardar ali o Serenssimo, como toda a gente o tratava agora.
      Nos campos por detrs da aldeia ressoavam ora os acordes de uma banda militar ora as formidveis aclamaes em honra do novo generalssimo. A meia dzia de passos do prncipe Andr, duas ordenanas, um impedido e um mordomo aproveitavam a ausncia do amo e o bom tempo para tomarem o fresco. Um tenente-coronel de hssares, homenzinho trigueiro, de grandes bigodes e patilhas, aproximou-se do porto e, dirigindo-se a Andr, perguntou-lhe se era efectivamente ali que vivia o Serenssimo e se regressaria em breve.
      O prncipe Andr respondeu-lhe que no pertencia ao estado-maior e que alm disso tambm acabava de chegar. O tenente-coronel de hssares dirigiu-se ento a uma das ordenanas de grande uniforme e este disse-lhe, com o desdm peculiar das ordenanas dos generais-chefes pelos oficiais:
      - Quem? O Serenssimo? Sim, talvez, talvez no tarde a chegar. Que lhe quer?
      O tenente-coronel ps-se a rir do tom da ordenana retorcendo o bigode; apeou-se do cavalo, entregou-o ao impedido e aproximou-se de Bolkonski, inclinando-se ligeiramente. Bolkonski arranjou-lhe lugar no banco. O outro sentou-se a seu lado.
      - Tambm est  espera do generalssimo? - perguntou o tenente-coronel. - Tenho ouvido dizer que  pessoa para receber toda a gente. Graas a Deus! Se ainda fosse um desses papa-chourios, que grande trapalhada! Razo tinha Ermolov quando pediu que o promovessem a alemo. Talvez agora os Russos tambm tenham o direito de falar! S o diabo  que sabe o que se tem feito at hoje. Sempre a recuar, sempre a recuar. Esteve na frente?
      - Tive o prazer - respondeu o prncipe Andr - no s de participar da retirada, mas tambm de perder o que tinha de mais querido, meu pai, que morreu de desgosto, sem alar rios meus bens e na casa paterna. Sou de Smolensk.
      - Ah!  o prncipe Bolkonski? Muito prazer em conhec-lo, Eu sou o tenente-coronel Denissov, mais conhecido por Vaska - disse Denissov, apertando-lhe a mo e fitando-o com afectuoso interesse. - Sim, eu soube... - acrescentou com simpatia. E, aps alguns momentos de silncio, continuou: -  uma verdadeira guerra de citas. Tudo isto est certo menos para aqueles que tm de dar o corpo ao manifesto. Com que ento,  o prncipe Bolkonski?... - Abanou a cabea. - Muito prazer, prncipe, muito prazer em conhec-lo - repetiu, com um sorriso triste, apertando-lhe de novo a mo.
      O prncipe Andr conhecia Denissov atravs do que Natacha lhe dissera a respeito do seu primeiro namorado. Esta lembrana era para ele ao mesmo tempo agradvel e penosa e fazia-o evocar recorda5es dolorosas nos ltimos tempos muito longe das suas preocupaes, embora sempre a min-lo no fundo do seu corao.
      De ento para c experimentara j tantos abalos morais, e to graves - o abandono de Smolensk, a sua visita a Lissia Gori, a notcia recente da morte do pai -, que as recordaes antigas o tinham abandonado havia muito ou pelo menos no agiam sobre ele com o mesmo poder. Para Denissov, o nome de Bolkonski evocava toda uma srie de imagens de um passado longnquo e potico, esse dia em que, depois da ceia e da romana cantada por Natacha, lhe fizera, a essa garota de quinze anos, nem sabia como, uma verdadeira declarao de amor. Sorriu, lembrando-se do seu romance de ento, e logo em seguida voltou ao assunto das suas constantes e apaixonadas preocupaes. Tratava-se do plano de campanha que imaginara durante a retirada estando de servio nos postos avanados. Apresentara-o a Barclay de Tolly e pensava agora submet-lo  apreciao de Kutuzov. Este plano baseava-se no facto de as linhas de operao dos Franceses serem muito extensas. Segundo ele, o que era preciso, em vez de os atacarem de frente e lhe cortarem o passo, ou at mantendo-se a mesma tctica, era atacarem-lhes as linhas de comunicao. Principiou a expor este plano ao prncipe Andr.
      - Eles no se podem aguentar com uma linha assim.  impossvel e eu sou capaz de lha cortar: dem-me quinhentos homens e acabo com ela, palavra de honra! O nico sistema eficaz  a guerra de guerrilhas.
      Denissov levantou-se e em gestos exuberantes principiou a expor os seus planos. Enquanto ele falava, aclamaes mais indistintas e mais prolongadas, que se misturavam com a msica e os cantos, chegavam dos lados onde decorria a parada militar. A povoao estava cheia do tropear dos cavalos e dos gritos dos soldados,
      - A vem ele - gritou um cossaco,  porta do ptio - a vem ele!
      Bolkonski e Denissov aproximaram-se do porto onde se perfilava uma esquadra de soldados, a guarda de honra, e viram Kutuzov cavalgando um cavalito balo. Atrs dele vinha uma escolta de generais assaz considervel. Barclay cavalgava a seu lado; uma chusma de oficiais a cavalo ia e vinha, no flanco da coluna e na retaguarda, gritando: Hurra!
      Os ajudantes-de-campo galoparam para entrar no ptio adiante do general-chefe. Kutuzov esporeava impacientemente o seu cavalo, que, vergando sob to pesado fardo, caminhava a passo. A cada momento o Serenssimo inclinava a cabea e levava a mo ao gorro branco, de cavaleiro da guarda, sem pala e agaloado de encarnado. Ao chegar junto da guarda de honra, formada por hericos granadeiros, a maior parte condecorados e que lhe apresentavam armas, fitou-os por momentos em silncio com o seu olhar penetrante de superior e voltou-se para a chusma de generais e oficiais de outras patentes que o rodeavam. No seu rosto surgiu de sbito uma expresso irnica: encolheu os ombros com um gesto de surpresa.
      - E recuamos, recuamos com rapazes to valentes como estes! - exclamou ele. - Bom, at  vista, general - acrescentou, e, dando de esporas ao cavalo, meteu pelo porto, passando diante de Andr e Denissov.
      Hurra! Hurra! Hurra! , gritavam atrs dele.
      Desde a ltima vez que o prncipe Andr o vira, Kutuzov ainda engordara mais, e parecia encolhido, esbarrondando-se em gordura. Mas o seu olho torto, a cicatriz e a expresso de cansao da sua fisionomia e de toda a sua pessoa no tinham mudado. Vestia o redingote do uniforme, pingalim a tiracolo, suspenso de uma correia fina, e trazia na cabea o gorro branco dos cavaleiros da guarda. Pesadamente escarranchado e balouando-se em cima do selim do seu valente cavalinho, assobiava entre dentes quando penetrou no ptio. Na sua cara via-se a satisfao de estar finalmente em paz e de poder descansar depois de uma estopada. Tirou o p esquerdo do estribo, e, torcendo o corpo e franzindo as sobrancelhas com o esforo que fazia, l conseguiu passar a perna por cima da sela. Depois apoiou-se no joelho e, tossindo, deixou-se cair nos braos dos cossacos e dos ajudantes-de-campo que o amparavam.
      Endireitou-se, passeou em volta o olho pisco, olhou para o prncipe Andr sem o conhecer e no seu andar pesado encaminhou-se para o alpendre.
      Fu... fu... fu... !, continuava a assobiar, enquanto relanceava de novo os olhos para o prncipe Andr. E alguns segundos foram precisos, como  vulgar entre os velhos, para reconhecer aquela cara.
      - Ah!, viva, prncipe! Viva, meu amigo! Vamos. - disse penosamente, lanando um olhar  sua roda, e subiu, pesado, os degraus do alpendre, que rangiam sob os seus ps.
      Desabotoou-se e sentou-se num banco que estava no patamar.
      - Teu pai como est?
      - Recebi ontem a notcia do seu falecimento - disse laconicamente o prncipe Andr.
      Kutuzov fitou-o de olhos muito abertos e assustados. Depois tirou o gorro e persignou-se.
      - Que Deus o tenha em Sua santa glria! Que a vontade de Deus seja feita em todos ns! - Suspirou fundo e calou-se. - Apreciava-o e estimava-o muito e sinto sinceramente a tua dor.
      Abraou o prncipe Andr, apertando-o contra o peito e assim o conservou por muito tempo. Quando dele se desprendeu, Andr viu que lhe tremiam os beios grossos e que tinha os olhos cheios de lgrimas. Suspirou e para se levantar apoiou-se no banco com as duas mos.
      - Vamos, anda da a minha casa para conversarmos - disse ele.
      Nesse mesmo instante, porm, Denissov, to destemido diante dos superiores como perante o inimigo, apesar de os ajudantes-de-campo terem tentado det-lo no alpendre, gritando-lhe qualquer coisa em voz baixa e furiosa, galgara ousadamente os degraus, fazendo retinir as esporas. Kutuzov, com as mos ainda apoiadas no banco, olhou para ele com ar pouco satisfeito. Denissov declinou o seu nome e declarou ter de comunicar a Sua Excelncia uma coisa da maior importncia para bem da ptria.
      O general percorreu-o com o seu olhar fatigado e num gesto cheio de enfado, cruzando as mos sobre o ventre, repetiu:
      - Para bem da ptria? Bem, de que se trata? Fala. Denissov corou como uma donzela, o que no deixava de ser estranho naquela velha cara de bbedo, com seus grandes bigodes, e principiou a expor um plano de rotura das linhas de comunicao do inimigo entre Smolensk e Viazma. Vivera naquela regio e conhecia o stio muito bem. O plano parecia, indiscutivelmente, de primeira ordem, quanto mais no fosse por causa da convico com que ele o expunha. Kutuzov, de olhos postos no cho, erguia-os de quando em quando para mirar o ptio da isb vizinha, como se esperasse ver sair dali algum indesejvel. Com efeito, enquanto Denissov falava, apareceu um general com uma pasta debaixo do brao.
      - Ento? - disse Kutuzov, interrompendo a exposio de Denissov. - Esta preparado?
      - Sim, Excelncia - volveu o general.
      Kutuzov abanou a cabea. Parecia dizer: Como  possvel um s homem fazer tudo isto? E continuou a ouvir Denissov. 
      - Dou-lhe a minha palavra de honra de oficial russo - prosseguia este - de que cortarei as comunicaes de Napoleo. 
      - Kiril Andreievitch Denissov, o intendente- geral,  teu parente? - perguntou Kutuzov, interrompendo -o.
      -  meu tio, Excelncia.
      - Oh, fomos amigos - continuou ele, alegremente. - Bom, bom, meu rapaz, fica aqui no estado-maior. Voltaremos a falar disso amanh.
      Com um aceno de cabea amistoso, voltou-se e estendeu as mos para os papis que lhe trouxera Konovnitsine.
      - Vossa Excelncia no quer entrar? - disse o general de servio em tom pouco satisfeito. - H aqui planos para examinar e alguns documentos para assinar.
      Nesse momento surgiu um ajudante-de-campo que vinha anunciar estar tudo em ordem na casa. Mas Kutuzov no queria entrar sem se ver livre de tudo aquilo. Franziu as sobrancelhas.
      - No, diz que tragam uma mesinha e despacharei aqui mesmo o que h a fazer. E, tu, no te vs embora - acrescentou, dirigindo-se ao prncipe Andr.
      Andr deixou-se ficar no alpendre, ouvindo o que dizia o general de servio.
      Enquanto Kutuzov despachava, Andr apercebeu o ciciar de uma voz feminina e o roagar de um vestido de seda. Atrs da porta, vestida de cor-de-rosa, com uma fita lils na cabea, estava uma linda mulher, bem fornida de carnes, de belas cores, com um tabuleiro na mo, esperando ansiosamente que o general-chefe entrasse em casa. Um ajudante-de-campo explicou em voz baixa que era a dona da casa, a mulher do pope, que se dispunha a oferecer o po e o sal a Sua Excelncia. O marido j recebera o Serenssimo na igreja, de cruz alada, e ela ia acolh-lo em sua casa... No  qualquer peste, comentou o ajudante, sorrindo. Kutuzov, ao ouvir isto, voltou a cabea.
      Escutava o relatrio do general que se referia especialmente  crtica da posio de Tsarevo-Zaimitch, e ouvia-o exactamente como escutara Denissov e como sete anos antes seguira a discusso no conselho de guerra de Austerlitz. Era evidente que ouvia pelo facto de ter ouvidos e porque, apesar do algodo que lhe rolhava um deles, no podia deixar de ouvir. Mas tambm era certo que nada que aquele general lhe dissesse seria capaz de o surpreender ou sequer interessar, a ele, que de antemo sabia tudo quanto lhe pudessem dizer e que escutava apenas porque assim tinha de ser, pela mesma razo que se tem de ouvir at ao fim um ofcio divino. O que Denissov expusera era prtico e sensato e o que o general de servio dissera ainda era mais prtico E, mais sensato. Mas a verdade  que Kutuzov menosprezava tanto o saber como a inteligncia e estava certo de que havia de ser uma coisa muito diferente - uma coisa independente por completo do saber e da inteligncia - que resolveria, a questo. O prncipe Andr observava cuidadosamente o jogo fisionmico do general-chefe e a nica expresso que lhe podia ler no rosto era a, de enfado, enfado esse que desapareceu quando ouviu o roagar do vestido e se refreou para salvar as convenincias, Era evidente que Kutuzov desdenhava da inteligncia, do saber, e at dos sentimentos patriticos de Denissov, e se mostrava semelhante desdm no era por causa da inteligncia dele, do seu saber, do seu patriotismo, de que no fazia o mais pequeno estendal. Era, sim, por causa da sua idade e da sua experincia da vida. A nica medida que espontaneamente tomou dizia respeito aos actos de bandoleirismo praticados pelas tropas russas. No fim do relatrio, o general apresentou ao Serenssimo para assinar um documento relativo a uma queixa dirigida s autoridades militares por um proprietrio a quem haviam ceifado verde um campo de aveia.
      Kutuzov deu um estalido com a lngua e abanou a cabea.
      - Fogo com eles... Estufa com eles... Digo-te de uma vez para sempre, meu caro, tudo isso para o fogo! Que ceifem o trigo, que queimem a lenha quantas vezes quiserem. Nem o probo nem o consinto; o que no posso  passar o tempo a fazer inquritos a tal respeito.  inevitvel. Quando se parte lenha.  certo e sabido que as lascas vo pelo ar, - E relanceando de novo os olhos ao papel: - Oh, esta meticulosidade alem! - exclamou, abanando a cabea.
      

      
      
      
      Captulo XVI
      
      - Bom, agora j est tudo! - disse Kutuzov, enquanto assinava o ltimo papel. Ergueu-se com esforo e, endireitando o grosso pescoo branco, dirigiu-se para a porta de cara satisfeita.
      A mulher do pope, ruborizada pela emoo, apanhou, apressadamente, o prato que no conseguira apresentar a tempo apesar dos seus longos preparativos. Com uma profunda reverncia ofereceu-o a Kutuzov.
      O general piscou o olho, sorriu e, acariciando-lhe o queixo, disse:
      - Que linda que ela ! Obrigado, minha flor!
      Tirando da algibeira das calas algumas moedas de ouro p-las em cima da bandeja. Bom, bom, isto no vai mal!, dizia ao dirigir-se para o quarto que lhe fora destinado. A mulher do pope, com um sorriso que lhe abria covinhas na cara rosada, seguia atrs dele. Um ajudante-de-campo veio depois ao alpendre procurar o prncipe Andr, convidando-o para almoar. Meia hora mais tarde foi novamente chamado para junto do general-chefe. Kutuzov estava recostado numa poltrona com o uniforme desabotoado. Tinha na mo um livro francs, que pousou, quando viu entrar o prncipe Andr, depois de o ter marcado com a faca de papel. Era Les Chevaliers du Cygne, de Madame de Genlis, como o prncipe pde verificar relanceando a vista para a capa.
      - Senta-te ali e conversemos - disse Kutuzov. -  triste, muito triste. Mas quero que saibas, meu amigo, que sou para ti como um pai, um verdadeiro pai...
      O prncipe Andr contou-lhe tudo quanto sabia sobre os ltimos momentos do pai e o que vira em Lissia Gori quando por l passara.
      - A que situao nos levaram... a que situao nos levaram! - exclamou, de sbito, Kutuzov, numa voz comovida, ao ver, com toda a nitidez, pelo relato do prncipe Andr, o estado em que a Rssia se encontrava.
      - Mas pacincia, pacincia! - acrescentou, numa inflexo irritada, e, para no prosseguir numa conversa que o perturbava, disse: - Mandei chamar-te para que ficasses ao p de mim.
      - Estou-lhe muito grato, Excelncia - respondeu Andr - mas receio j para nada servir nos servios do estado-maior... 
      Kutuzov notou o sorriso com que ele sublinhara estas palavras e interrogou-o com os olhos.
      -... E alm disso - acrescentou - estou muito habituado ao meu regimento, estimo os meus oficiais e os meus soldados, que, segundo creio, tambm gostam de mim. Custar-me-ia muito separar-me deles! Se recuso a honra de ficar junto de Vossa Excelncia, pode acreditar...
      Uma expresso subtil, bondosa e ao mesmo tempo ligeiramente irnica iluminou o rosto balofo de Kutuzov. Interrompeu-o.
       - Lamento, podias ser-me til; mas tens razo, tens razo. No  aqui que precisamos de homens. Conselheiros no faltam, mas homens a valer so raros. Os regimentos no seriam o que so se todos estes conselheiros que para a h l estivessem a prestar servio como tu. Lembro-me de ti em Austerlitz... Lembro-me, lembro-me, ainda te estou a ver com a bandeira na mo. -  Esta evocao fez perpassar pelo rosto de Andr um fugitivo rubor.
      Kutuzov puxou-lhe por um brao e apresentou-lhe a cara, e Andr viu de novo que os olhos do velho estavam cheios de lgrimas, Embora soubesse que Kutuzov era homem que chorava com facilidade, e que o acolhia assim carinhosamente, com tanta simpatia, por causa da perda que ele sofrera, o prncipe Andr sentiu-se lisonjeado e feliz com o facto de o general-chefe lembrar Austerlitz.
      - Continua no caminho que traaste. Esse, sim,  o caminho da honra. - Ficou por momentos calado. - Fizeste-me muita falta em Bucareste; no tinha em quem confiar. - E, mudando de assunto, ps-se a falar da guerra na Turquia e da paz concluda. - Sim, fizeram-me muitas crticas - continuou -, tanto pela guerra como pela paz que assinei. Sim. Mas tudo acabou bem. Quem espera sempre alcana. E l no havia menos conselheiros do que aqui... - acrescentou, retomando um assunto que, pelo visto, o preocupava. - Ah! Os conselheiros, os conselheiros! Se lhes temos dado ouvidos a todos l na Turquia, no teramos assinado a paz e no teramos posto termo  guerra. Acabar com as coisas, est certo, mas fazer tudo a correr d muitas vezes resultado contrrio. Se Kamenski no tem morrido, estaria perdido. Precisava de trinta mil homens para tomar as fortalezas. Tomar uma fortaleza no  difcil; difcil  ganhar tinia campanha. E para isso no  preciso tomar de assalto e, atacar, mas ter pacincia e tempo diante de ns. Kamenski deu ordens aos seus soldados para tomarem Rustchnk, mas eu, apenas com pacincia e tempo, tomei mais fortalezas do que Kamenski e fiz com que os Turcos comessem carne de cavalo. - Abanou a cabea. - E podes acreditar no que te digo: os Franceses tambm - prosseguiu com vivacidade, batendo na arca do peito -, os Franceses tambm a ho-de comer. - E as lgrimas brilharam-lhe de novo nos olhos.
      - Entretanto temos de aceitar o combate? - interrompeu o prncipe Andr.
      - Talvez, se todos quiserem. Ento nada haver a fazer... Mas acredita no que te digo, meu caro: nada h que valha estes dois soldados: a pacincia, e o tempo! Eles faro tudo. Mas os conselheiros no vem por esse prisma, eis o mal. Uns querem, outros no. E ento que se h-de fazer? - Calou-se, como se esperasse resposta  sua pergunta. - Bom, que farias tu? - perguntou ele, de olhos brilhantes, com uma expresso profunda e penetrante. - Pois bem, vou dizer-te o que  preciso fazer - prosseguiu, vendo que Andr no respondia.- Vou dizer-te o que  preciso fazer e o que eu fao. Na dvida, meu caro, abstm-te - acrescentou, destacando as palavras.- Bem, adeus, meu amigo: lembra-te de que compartilho, de todo o corao, da tua dor e para ti nem sou Serenssimo, nem prncipe, nem general-chefe, mas muito simplesmente teu pai. Se precisares de alguma coisa, dirige-te a mim. Adeus, meu caro.
      Apertou-o mais uma vez nos braos e beijou-o. E, ainda o prncipe Andr no transpusera o limiar da porta, j ele, soltando um suspiro apaziguador, se engolfava de novo na leitura do romance Les Chevaliers du Cygne.
      Embora o prncipe Andr no soubesse explicar como nem porqu, o certo  que voltou para o seu regimento, depois desta conversa, absolutamente descansado quanto  marcha geral da guerra e confiante na pessoa que orientava superiormente as operaes. Quanto mais via a ausncia de personalidade naquele velho, cuja nica arma era, por assim dizer, a experincia, resduo das paixes, e que, em lugar da inteligncia que sabe associar os factos e tirar deles concluses, apenas tinha a capacidade de contemplar tranquilamente a marcha dos acontecimentos. Tanto mais se persuadia de que, tudo havia de acontecer pelo melhor. Nada trar de seu, no inventar nem empreendera coisa alguma, dizia de si para consigo. mas ouvir e lembrar-se- de tudo, tudo colocar no seu lugar, no impedir nada de til, no consentir nada de prejudicial. Compreende que h qualquer coisa de mais forte e de mais poderoso que a sua vontade pessoal: a marcha inevitvel dos acontecimentos. Sabe v-los, tem o dom de lhes apreender o valor, e sabe, para os no tolher, abster-se de intervir e anular a sua prpria vontade, dirigida deliberadamente para outro objectivo. E sobretudo, conclua Andr, inspira confiana, porque o sentimos verdadeiramente russo, apesar de Madame Genlis e dos adgios franceses, pois a verdade  que a voz lhe tremia quando murmurou: A que situao nos levaram!, e, que soluava quando garantia que os havia de fazer comer carne de cavalo.
      Fora este sentimento, mais ou menos vagamente experimentado por todos, que levara  aprovao unnime., num movimento de entusiasmo nacional, e ao arrepio das intenes dos cortesos, da escolha de Kutuzov para general-chefe dos exrcitos russos.
      

      
      
      
      Captulo XVII
      
      Depois da partida do imperador a vida de Moscovo retornara o seu ritmo habitual, e to habitual, realmente, que era difcil de conceber o entusiasmo patritico e a exaltao dos ltimos dias, e se no chegava quase a compreender como era possvel a Rssia estar em perigo e os membros do Clube Ingls poderem ser tambm filhos da ptria prontos para todos os sacrifcios por ela. A nica coisa que fazia lembrar o estado de esprito dos dias em que o imperador estivera em Moscovo era a execuo do pedido de homens e de dinheiro, o qual, revestindo aspecto legal e oficializado, se tornara desde logo inevitvel.
      A aproximao do inimigo no levara os Moscovitas a acre- ditar que a situao se, tivesse tornado mais sria; examinavam-na, pelo contrrio, com mais leviandade, como costuma acontecer quando uma catstrofe se aproxima. Na hora do perigo duas vozes, igualmente fortes, se ouvem na alma do homem: uma aconselha sempre, prudentemente, que cada um de ns se d conta exacta do perigo que o ameaa e trate de procurar maneira de o evitar; a outra, ainda com maior prudncia, diz-nos ser muito penoso e dolorosssimo pensar no perigo, visto no estar nas possibilidades do homem prever e furtar-se  marcha dos acontecimentos, e o melhor  no nos preocuparmos com as coisas tristes antes do facto consumado e s pensarmos nas coisas agradveis. O homem isolado obedece, regra geral,  primeira destas vozes; em sociedade, pelo contrrio, submete-se  segunda. Era o que de facto estava a acontecer com os habitantes de Moscovo. Nunca as pessoas ali se haviam divertido tanto como naquele ano.
      Os cartazes de Rostoptchine representavam uma taberna, um taberneiro e um burgus moscovita, Karpuchka Tchiriguine, que tendo sido recrutado, depois de beber um copo a mais, ouviu dizer que Bonaparte queria ir a Moscovo, se zangara e proferira palavras grosseiras contra todos os franceses e, saindo da taberna, se pusera a falar ao povo reunido debaixo da tabuleta do taberneiro. Estes cartazes eram lidos e comentados e o mesmo acontecia s ltimas rimas de Wassili Lvovitch Puchkine.
      No clube, numa das salas, reuniam-se os scios para comentar estes cartazes, e muitos riam-se da maneira como Karpuchka troava dos Franceses, dizendo que inchariam por terem comido couves, que rebentariam com as papas que tinham devorado, que haviam de estourar com uma indigesto de chtchi, que eram todos anes, que bastava uma camponesa com uma forquilha para dar cabo de trs franceses. Havia outros que no estavam de acordo com estas graolas, qualificando-as de vulgares e de estpidas. Contava-se que Rostoptchine expulsara os Franceses de Moscovo, e mesmo todos os estrangeiros de maneira geral, pois entre eles havia espies e agentes de Napoleo. Mas se se falava nisso era sobretudo para poderem citar-se os ditos do governador. Expediam-se os estrangeiros em barcaas para Nijni Novgorod, e Rostoptchine dizia-lhes: Tenham juzo, entrem no barco, e no faam dele a barca de Caronte. Dizia-se j terem sado de Moscovo todos os servios administrativos e acrescentava- se, repetindo um gracejo de Chinchine, que os Moscovitas deviam estar por este facto muito reconhecidos a Napoleo. Contava-se tambm que o regimento municiado por Mamonov lhe custaria oitocentos mil rublos, que Bezukov ainda gastara mais do que isso com os seus soldados e que - lindo acto da sua parte - ele prprio envergaria o uniforme, caracolando  frente dos seus homens, nada tendo de pagar os que viessem admir-lo nessa atitude marcial.
      - A ningum perdoa - dizia Jlia Drubetskaia, enquanto enrolava um montinho de ligaduras entre os dedos delgados cheio de anis.
      Jlia pensava sair de Moscovo no dia seguinte e organizara uma festa de despedida.
      - Bezukov  ridculo, mas  to bom, to gentil! Que prazer pode ter em ser to custico?
      - Multa! - exclamou um jovem de uniforme de miliciano, a quem Jlia chamava meu cavaleiro e que ia acompanh-la a Nijni Novgorod.
      No salo de Jlia, como em muitos outros de Moscovo, combinara-se no se falar seno russo, pagando multa quem pronunciasse palavras francesas, multa essa que reverteria para a comisso de socorros.
      - Outra multa pelo galicismo - interveio um literato que estava presente, que prazer... pode ter no  russo.
      - Ningum poupa - prosseguiu Jlia, dirigindo-se ao miliciano, sem prestar ateno ao que dizia o homem de letras. - Por custico peo desculpa e estou pronta a pagar. Quanto ao galicismo acrescentou para o crtico -, recuso-me a considerar-me responsvel. No tenho nem tempo nem dinheiro, como o prncipe Galitzine, para arranjar um professor e aprender russo. Ai est ele, precisamente. Quando... No, no, no me apanhar desta vez - disse ela para o miliciano. - Quando se fala do Sol, vem-se-lhe os raios. - Sorria amavelmente para Pedro com aquela facilidade de mentir to caracterstica das senhoras da sociedade. - Acabvamos de falar de si. Dizamos que o seu regimento devia ser com certeza muito melhor do que o de Mamonov.
      - Oh! No me fale do meu regimento! - replicou Pedro, beijando-lhe a mo e sentando-se a seu lado.- Se soubesse os aborrecimentos que tenho com ele!
      - Naturalmente vai comand-lo, no  verdade? - inquiriu Jlia trocando um sorriso malicioso e trocista com o miliciano. Este ltimo, na presena de Pedro, deixara de ser custico e pareceu contrariado ao ver o sorriso de Jlia. Apesar do seu ar distrado e de pobre diabo, Pedro, graas  sua personalidade, paralisava, na sua presena, qualquer tentativa de troa.
      - No, no - disse Pedro, rindo e mirando o rotundo corpo. - Que belo alvo seria eu para os Franceses, e tenho c as minhas dvidas quanto a ser capaz de montar a cavalo!
      Entre as pessoas de quem se falou aconteceu aludir-se tambm  famlia Rostov.
      - Tenho ouvido dizer que as coisas no vo bem l por casa - disse Jlia. - Aquele conde  uma pessoa intil. Os Razumovski queriam comprar-lhe a casa e a quinta de Moscovo, mas no vejo jeito. Pedem muito dinheiro.
      - Consta-me que a venda se far por estes dias - observou algum -, se bem que me parece rematada loucura comprar agora qualquer coisa em Moscovo.
      - Porqu? - interrogou Jlia. - Acha que Moscovo corre perigo?
      - Ento porque se vai embora?
      - Eu? Que pergunta to estranha. Vou-me embora porque... porque toda a gente se retira da cidade. E alm disso tambm no tenho jeito nem para Joana dArc nem para amazona.
      - Sim, sim, esta claro. Deixe-me ver mais trapos.
      - Se ao menos soubessem administrar o que  seu, poderiam pagar as dvidas - prosseguiu o miliciano, voltando a falar dos Rostov.
      - Sim,  um bom velho, mas um pobre sire. Mas que estaro eles aqui a fazer h tanto tempo? H muito que deveriam ter regressado  aldeia. No est j restabelecida a Nathalie? - perguntou Jlia, dirigindo-se a Pedro com um sorriso malicioso.
      - Esto  espera do filho mais novo - replicou este. - Foi incorporado no regimento dos cossacos de Obolenski e mandado para Bielaia Tserkov,  l que esto a formar o regimento. Mas os pais conseguiram transferi-lo para o meu e aguardam a sua chegada de um dia para o outro. H muito que o conde se queria ir embora, mas a condessa por coisa nenhuma quis partir antes de tornar a ver o filho.
      - Encontrei-os antes de ontem em casa dos Arkarov. Nathalie est mais bonita e outra vez alegre, cantou uma romana. Muito depressa esquecem certas pessoas...
      - Que se passa? - perguntou Pedro com certa irritao. Jlia sorriu.
      - Bem sabe, conde, que cavalheiros como o senhor j no se encontram seno nos romances de Madame Souza.
      - Que cavalheiros? Que vem a ser isso? - teimou Pedro, corando.
      - Ento, meu querido conde, no se faa de novas, no se fala de outra coisa em Moscovo. Admiro-o muito, palavra de honra!
      - Multa! Multa! - exclamou o miliciano.
      - Credo. No pode uma pessoa abrir a boca. Que maada!
      - De que  que se trata? - perguntou Pedro, levantando-se.
      - Ento, conde. Como se no soubesse!
      - No sei absolutamente nada - volveu Pedro.
      - O que sei  que o conde  amigo de Natacha; por isso... Eu, por mim, sempre me dei melhor com Vera. Aquela querida Vera.
      - No, senhora - prosseguiu Pedro com a mesma voz irritada. - No  verdade que eu me tenha transformado em pajem de Mademoiselle Rostov e h perto de um ms que no vou a sua casa. No posso atingir o alcance da sua crueldade...
      - Qui sexcuse saccuse (Provrbio francs que pode corresponder, em traduo livre, a: Quem muito se justifica, alguma culpa tem. (N, dos T.) - pronunciou Jlia, sorrindo, enquanto sacudia a ligadura que tinha na mo, e, para ser ela a dizer a ltima palavra sobre o assunto, mudou repentinamente de conversa. - Querem saber o que me constou hoje? Que a pobre Maria Bolkonskaia chegou ontem. J sabiam que lhe tinha morrido o pai?
      - Ser possvel? E onde estar ela? Gostava muito de a ver! - exclamou Pedro.
      - Passei ontem a noite com ela. Deve partir hoje ou amanh com o sobrinho para a quinta nos arredores de Moscovo. 
      - E ela, como est? - inquiriu Pedro.
      - Est bem, um pouco triste. E quer saber a quem deve ela a vida?  um verdadeiro romance. Ao Nicolau Rostov. Cercaram-lhe a quinta, quiseram mat-la, havia j gente ferida. E ele foi em seu auxlio e salvou-lhe a vida...
      - Mais um romance - comentou o miliciano. - Estou a ver que esta debandada geral foi inventada para casar as solteironas. Primeiro a Catiche, agora, a princesa Bolkonskaia.
      - Aqui para ns, tenho a impresso de que ela est um pouco derretida com o jovem.
      - Multa! Multa! Multa!
      - Como hei-de eu dizer isto em russo?
      

      
      
      
      Captulo XVIII
      
      Ao chegar a casa, Pedro encontrou dois editais de Rostoptchine afixados naquele mesmo dia.
      No primeiro dizia-se no ser verdade ele ter dado ordens proibindo que se sasse da cidade, e que, pelo contrrio, com grande satisfao veria afastarem-se as senhoras e as esposas dos comerciantes. Se houver menos medo, dar-se- menos  lngua, acrescentava. Mas que esse malfeitor no entrar em Moscovo com a minha vida o garanto- Estas palavras levaram Pedro a acreditar pela primeira vez que os Franceses entrariam na cidade. O segundo edital dizia que o quartel-general russo estava em Viazma, que o conde Wittgenstein derrotara os Franceses e que, como havia muitos habitantes desejosos de se armar, punha um carregamento de armas  disposio de todos no arsenal - sabres, pistolas, espingardas -, que podiam ser adquiridas por pouco dinheiro. O tom dos editais j nada tinha de divertido como os que at ai haviam servido de pretexto para os gracejos de Tchiriguine. Pedro ficou pensativo. Era evidente que aquela grande nuvem tormentosa que ele tanto desejava, embora com involuntrio horror, essa feia nuvem se aproximava. Deverei alistar-me no servio militar e partir para a guerra ou esperar?, perguntava Pedro aos seus botes pela centsima vez. Pegou num baralho de cartas que estava em cima de uma mesa e ps-se a fazer pacincias.
      Se conseguir fazer esta pacincia, dizia de si para consigo enquanto ia embaralhando as cartas de olhos fitos no tecto, se conseguir fazer esta pacincia, quer dizer... Que quer dizer?...
      No teve tempo de concluir. Nesse mesmo instante a voz da princesa mais velha ressoou  porta, perguntando se podia entrar. Quer dizer que devo partir para a guerra, concluiu Pedro.
      - Entre, entre!  gritou.
      Apenas a mais velha das princesas, a do longo busto e cara inexpressiva, continuava a viver sob o tecto de Bezukov. As duas mais novas tinham casado.
      - Perdoe-me, meu primo, vir incomod-lo - disse ela, num tom repreensivo e cheio de emoo - Temos de decidir, finalmente, qualquer coisa. Que quer isto dizer? Est toda a gente a sair de Moscovo e o povo revoltado. Que ficamos ns aqui a fazer?
      - Ao contrrio, tudo parece caminhar muito bem, minha prima - tornou Pedro, no tom faceto que habitualmente tomava ao falar-lhe, nica maneira de esconder o embarao que lhe causava o papel de benfeitor que representava aos olhos dela.
      - Que diz? A caminhar bem? Onde foi descobrir isso? Ainda hoje me contou a Vrvara Ivanovna que as nossas tropas se tm portado muito bem. Sim, devemos sentir-nos orgulhosos! Mas o pior  que o povo comea a revoltar-se, no quer obedecer. At a minha criada tem sido grosseira para comigo. Pouco falta para que nos batam. No se pode j passar pelas ruas. E o pior de tudo que os Franceses esto a a chegar, hoje ou amanh. Porque esperamos ns? A nica coisa que lhe peo, meu primo,  que d as suas ordens para me levarem a Petersburgo. Sei muitssimo bem que no sou pessoa para acatar o domnio de Bonaparte.
      - Que est a dizer, minha Prima? Quem lhe meteu tal coisa na cabea? Ao contrrio...
      - No me submeterei ao seu Napoleo. Os outros que faam o que quiserem... E se o senhor no atender ao que lhe peo...
      - Que ideia! Vou dar ordens imediatamente.
      A princesa parecia desconcertada por ter perdido aquela oportunidade de se zangar com algum. Deixou-se cair numa cadeira, enquanto entre dentes ia murmurando fosse o que fosse.
      - Muito mal a informaram - continuou Pedro. - Na cidade reina o sossego e no h perigo algum. Olhe o que eu estava a ler... - Mostrou-lhe os editais. - Diz aqui o conde que o inimigo no entrar em Moscovo, que o garante com a sua vida.
      - Olhe, esse seu conde! - exclamou a princesa, mal-humorada. - Esse seu conde  um hipcrita, um miservel, que est farto de incitar o povo  revolta. Pois no foi ele quem escreveu num dos seus estpidos editais ser preciso agarrar fosse quem fosse pela gola do casaco e met-lo na cadeia? Que estupidez! E a quem assim proceder promete-lhe honra e glria. Ora a tem o, resultado de tudo isto. Vrvara Ivanovna contou-me que a iam quase matando na rua por estar a falar francs...
      - Ora... Que diabo... Tomam as coisas demasiado a srio. - murmurou Pedro, que prosseguia com a sua pacincia.
      Embora a tivesse conseguido fazer, Pedro no foi para a guerra, e ficou em Moscovo, de dia para dia mais vazia, e sempre agitada pela mesma inquietao, a mesma incerteza, num terror a que se misturava alegria, sempre na expectativa de terrveis acontecimentos.
      No dia seguinte, ao fim da tarde, a princesa abalou e Pedro recebeu a visita do seu administrador, que lhe vinha dizer ser impossvel reunir o dinheiro necessrio para equipar o regimento sem vender uma das suas propriedades. Alis, teve o cuidado de lhe fazer compreender que semelhantes fantasias acabariam por arruin-lo, to certo como ele ser seu administrador. Ao ouvir isto, Pedro s a muito custo pde esconder o riso.
      - Pois venda - disse-lhe ele. - Que havemos de fazer? Agora no posso voltar atrs com a minha palavra.
      Quanto piores a situao geral e os seus negcios pessoais, tanto maior a sua alegria, tanto mais evidente a catstrofe que esperava para breve. Na cidade j por assim dizer ningum das suas relaes restava. Jlia abalara, a princesa Maria tambm. Dos seus ntimos, apenas os Rostov continuavam em Moscovo, mas Pedro no mais os visitara.
      Nesse dia, para se distrair, foi  aldeia de Vorontzovo ver um grande balo imaginado pelo engenheiro Leppich com vista a aniquilar o inimigo. Iam experiment-lo na inteno de o largar no dia seguinte. O balo ainda no estava pronto, mas Pedro veio a saber que o imperador mostrara desejos de o ver montado. A tal respeito, Sua Majestade endereara a carta seguinte ao conde Rostoptchine:
      
      Assim que Leppich estiver preparado, arranje-lhe uniu tripulao de homens de confiana e inteligentes para a barquinha do balo e mande um correio prevenir o general Kutuzov. J o pus ao corrente do assunto.
      Faa o favor de recomendar a Leppich que repare no local onde descer pela primeira vez, para que se no engane e no caia nas mos do inimigo,  indispensvel que os seus movimentos sejam combinados previamente com o general-chefe.
      
      No regresso de Vorontzovo, ao passar na Praa Bolotnaia, Pedro viu uma grande multido junto de Lobnoie Miesto. Mandou parar o carro e apeou-se. Tratava-se da flagelao de um cozinheiro francs acusado de espionagem. O castigo terminara e o carrasco desatava do potro um homem corpulento, de suas ruivas, meias azuis e colete verde, que gemia dolorosamente. Outro delinquente, magro e plido, esperava a sua vez. Pelo tipo, tambm este era francs. Assustado e lvido, Pedro abriu caminho por entre a multido.
      - Que foi? Que fizeram eles? - perguntou.
      Mas to absorvida estava no espectculo a turba de funcionrios, burgueses, comerciantes, mulheres de golinhas e pelias, que ningum lhe respondeu, O rotundo homem levantou-se, franzindo o sobrolho, encolheu os ombros e desejando, sem dvida, mostrar firmeza vestiu o casaco, sem olhar para a multido que e rodeava, embora lhe tremessem os lbios e vertesse algumas lgrimas, furioso consigo mesmo, como acontece aos homens de temperamento sanguneo. A turba falava alto para afogar talvez um assomo de piedade que ameaava crescer, pensou Pedro.
       o cozinheiro de um prncipe...
      - Ento, mussiu? Pelo que se v, o molho russo  um bocado picante para o paladar francs... Pica-te na lngua - disse um manga-de-alpaca, todo encarquilhado, que estava ao lado de Pedro, quando viu o francs chorar.
      E depois olhou em volta, como  procura de aplauso para o seu gracejo, Algumas pessoas puseram-se a rir, outras continuaram a olhar, apavoradas, o carrasco, que ia despindo o segundo sentenciado.
      Pedro resfolgou, franziu as sobrancelhas e, dando de sbito meia volta, regressou  sua carruagem, no sem continuar a resmungar qualquer coisa entre dentes. Durante o resto do trajecto vrias vezes estremeceu e soltou exclamaes- o que levou o cocheiro a perguntar-lhe:
      - Que diz, patro?
      - Aonde vais?  gritou. - Pedi-o, quando viu que o cocheiro se dirigia  Lubianka.
      - Ento no foi para casa do general governador que me mandou seguir? - perguntou o cocheiro.
      - Imbecil! Animal! - vociferou Pedro, insultando o cocheiro, coisa que raramente lhe acontecia. - Disse-te que me levasses para casa. Depressa! - Tenho de partir hoje mesmo, disse com os seus botes.
      A multido em volta dos flagelados de. Lobnoie Miesto convencera-o definitivamente a no permanecer por mais tempo em Moscovo, seguindo nesse mesmo dia para o campo de batalha. Julgou mesmo que o dissera j ao cocheiro ou que este devia conhecer as suas intenes mesmo sem nada lhe dizer.
      Ao chegar a casa mandou chamar Evstafievitch, o cocheiro, um homem que tudo conhecia, sabia tudo, e era conhecido de toda a gente em Moscovo. Deu-lhe as suas instrues, dizendo-lhe que partia naquela mesma noite para Mojaisk, a fim de se incorporar no exrcito, ordenando-lhe que mandassem para ali os seus cavalos de sela. No era coisa que se fizesse num s dia, por isso, a conselho de Evstafievitch, resolveu adiar a partida para o dia seguinte de modo a que ele tivesse tempo de lhe mandar preparar as mudas.
      No dia 24 o tempo melhorou, depois de uma quadra de mau cariz, e nesse mesmo dia, aps o jantar. Pedro deixava Moscovo. J noite, ao mudar de cavalos em Perkuchkovo, soube que nessa mesma tarde se travara uma grande batalha, Dizia-se que at a terra tremera com o canhoneio. Perguntando Pedro quem ganhara a batalha, ningum lhe soubera responder. Tratava-se da batalha de 24, em Chevardino. De madrugada chegava a Mojaisk.
      Todas as casas de Mojaisk estavam ocupadas pelas tropas e na estalagem onde o aguardavam o escudeiro e o cocheiro no havia um nico quarto: estava tudo tomado pelos oficiais.
      Tanto em Mojaisk como nas vizinhanas, por toda a parte, s havia militares. A cada canto se viam cossacos, soldados de infantaria, de cavalaria, furges, armes e peas de artilharia. Pedro deu-se pressa em continuar avante e quanto mais se afastava de Moscovo e se submergia naquele mar de tropas mais se sentia invadido por um sentimento misto de inquietao e ntima satisfao, sentimento novo para ele. Era qualquer coisa como o que sentira no Palcio Slobodski aquando da visita do imperador. Tratava-se de tomar uma deciso e de se sacrificar. Agora tinha a satisfao de compreender que tudo quanto em geral constitui a felicidade do homem, as comodidades da existncia, a riqueza, a prpria vida, no passavam de coisas absurdas, a que renunciava com grande satisfao, quando comparadas com... Com qu, eis o que Pedro no sabia dizer; o certo  que no procurava explicar claramente por quem ou porque sen(,ia aquela satisfao no sacrifcio. No procurava saber porque se queria sacrificar, mas era de facto o prprio sacrifcio em si que lhe dava aquela satisfao ntima e inteiramente nova.
      

      
      
      
      Captulo XIX
      
      No dia 24 deu-se a batalha de Chevardino: a 25 no se disparou um nico tiro quer de um lado, quer do outro, e a 26 travou-se a batalha de Borodino.
      Porque se travaram estas duas batalhas? Como se deram? Porque se deu, particularmente, a batalha de Borodino? Tal batalha no tinha o menor sentido nem para os Franceses nem para os Russos. O seu resultado imediato foi, e tinha de ser, para os Russos mais um passo para a perda de Moscovo, a coisa que eles mais receavam, para os Franceses passo idntico para a perda total do seu exrcito, o que eles tambm temiam acima de tudo. Este resultado era evidente; mesmo ento, e apesar disso, Napoleo ofereceu batalha e Kutuzov aceitou-a.
      Se os grandes capites se deixassem guiar por consideraes razoveis, dir-se-ia evidente para Napoleo que, depois de se afastar mais de duas mil verstas das suas bases, travar uma batalha com a possibilidade a todo o ponto verosmil de perder a quarta parte do seu exrcito era como que caminhar para uma derrota certa. Devia ser igualmente certo para Kutuzov que aceitar o combate, arriscando tambm, por seu lado, a quarta parte das suas foras, era como que jogar a perda de Moscovo. Para este, ento era to matemtico como nas damas aquele que, tendo no fim do jogo menos uma pedra do que o adversrio, a joga deixando-a comer e perdendo, portanto, a partida.
      Se um dos adversrios tem dezasseis pedras e outro catorze, este  apenas uma oitava parte mais fraco do que aquele: porm, quando ambos tiverem perdido, cada um  sua parte, treze pedras, o primeiro ser trs vezes mais forte do que o segundo.
      Antes de Borodino as foras russas, em relao s francesas, encontravam-se aproximadamente na proporo de cinco para seis e, depois da batalha, na de um para dois, o que quer dizer que antes da batalha os Russos eram cem mil contra cento e vinte mil, e depois dela cinquenta contra cem mil. E no entanto o experimentado e inteligente Kutuzov aceitou o combate. E Napoleo, esse gnio militar, como ento se dizia, aceitou a luta, que lhe custou um quarto do seu exrcito e ainda mais lhe estendeu as linhas. Ainda que se diga que, tomando Moscovo, pensava dar a campanha por finda, como acontecera depois da tomada de Viena, no faltam provas que demonstrem o contrrio, Os prprios historiadores de Napoleo referem que depois de Smolensk ele queria deter-se, ele prprio se dava conta do perigo da extenso das linhas, sabendo que a ocupao de Moscovo no seria o fim da campanha, pois desde Smolensk que verificava o estado em que encontravam as cidades que tomava e que nenhuma resposta obtinha s suas reiteradas tentativas de entabular negociaes.
      Oferecendo e aceitando a batalha, tanto Kutuzov como Napoleo agiram contrariamente ao livre-arbtrio e de forma insensata. No entanto, os historiadores, consumados os factos, extraram consequncias complicadas e especiosas sobre a viso e o gnio dos generais, quando a verdade  que estes, no meio dos instrumentos inconscientes dos acontecimentos dessa poca, mostraram ser os mais servis e os mais cegos.
      Os antigos deixaram-nos modelos de poemas picos em que os heris so o principal interesse da histria, por isso no nos podemos resignar a que a histria do nosso tempo se lhe no assemelhe.
      Para a pergunta - como se deram as batalhas de Borodino e a de Chevardino, que a precedeu? - existe tambm uma explicao precisa que toda a gente conhece, embora completamente falsa. Todos os historiadores, com efeito, descrevem essa dupla batalha da seguinte maneira:
      O exrcito russo, na sua retirada depois de Smolensk, teria procurado a melhor posio para travar uma batalha geral e t-la-ia encontrado em Borodino.
      Os Russos teriam fortificado previamente essa posio  esquerda da estrada de Moscovo a Smolensk e perpendicularmente, pouco mais ou menos, a esta estrada, entre Borodino e Utitsa, exactamente no local onde a batalha se travou.
      Ante esta posio, ter-se-ia estabelecido, para observar o inimigo, um posto avanado na encosta de Chevardino. A 24, Napoleo teria assaltado esse posto avanado e t-lo-ia tomado: a 26 teria atacado o grosso do exrcito russo, concentrado no campo de Borodino.
      Eis o que os historiadores dizem e tudo isto  absolutamente inexacto, coisa de que se convencer facilmente quem quer que se decida a estudar com cuidado o acontecimento.
      Os Russos no escolheram a melhor posio; pelo contrrio, no decurso da sua retirada menosprezaram muitas outras melhores do que a de Borodino. No se detiveram em qualquer delas porque Kutuzov no queria aceitar uma posio que no fosse escolhida por ele, e depois porque a patritica necessidade de dar batalha ainda iro se concretizara com suficiente fora e ainda porque Miloradovitch ali no estava com a sua milcia, alm de outras razes impossveis de enumerar. O facto  que as outras posies eram mais fortes, e que a de Borodino, onde se travou a batalha, no s no era a melhor como nem sequer era uma posio, visto no passar de um lugar como qualquer outro marcado ao acaso com um alfinete no mapa do imprio moscovita,
      Os Russos no s no fortificaram a posio de Borodino  esquerda e perpendicularmente  estrada, quer dizer, no local onde a batalha se travou, como antes de 25 de Agosto nunca tinham pensado que se pudesse vir a dar um recontro naquele local. E a prova est, em primeiro lugar, que no s a 25 no havia ali qualquer fortificao, mas at mesmo as que se iniciaram a 25 no estavam concludas a 26, e, em segundo lugar, na prpria situao do reduto de Chevardino. Este reduto, na vanguarda da posio onde os exrcitos se defrontaram, era inteiramente destitudo de sentido, Porque foi esse reduto mais fortificado que todos os outros pontos? E porque  que, para defend-lo, se resistiu no dia 24 at alta noite, envidando tantos esforos e perdendo seis mil homens? Para observar o inimigo, uma patrulha de cossacos chegava perfeitamente. Em terceiro lugar, a prova de que a posio onde se travou a batalha no estava prevista e que o reduto de Chevardino no era o seu posto avanado  que Barclay de Tolly e Bagration estiveram convencidos at 25 de que o reduto de Chevardino constitua o flanco esquerdo da posio, e que o prprio Kutuzov, no seu relatrio, redigido quando ainda frescas as impresses da batalha, lhe chama o flanco esquerdo da posio. Muito mais tarde, ao descrever-se a batalha de Borodino, naturalmente para justificar os erros do general-chefe, infalvel custasse o que custasse, emitiu-se a afirmao inexacta e estranha de que o reduto de Chevardino era um posto avanado, quando na verdade no passava de uma posio fortificada qualquer do flanco esquerdo, e afirmando-se tambm que os Russos tinham aceitado a batalha numa posio fortificada e escolhida previamente, quando a verdade  que essa batalha se travou num local de todo imprevisto e por assim dizei -, em fortificaes.
      Eis como em verdade se passaram as coisas: escolheu-se um ponto no Kolotcha, que corta a estrada real no em ngulo recto, mas em ngulo agudo, de tal sorte que o flanco esquerdo estava em Chevardino, o direito nas imediaes da aldeia de Novoie e o centro em Borodino, na confluncia dos rios Kolotcha e Voina. Esta posio, protegida pelo no Kolotcha, era, evidentemente, a de um exrcito que se propunha deter o inimigo em marcha ao longo da estrada de Smolensk a Moscovo: eis qualquer coisa de evidente para quem quer que examine o campo de batalha esquecendo-se de como os factos se passaram.
      Napoleo, ao dirigir-se, no dia 24, para Valuieva, no viu, segundo dizem os historiadores, a posio ocupada pelos Russos entre Utitsa e Borodino (no podia v-la porque ela no existia). To-pouco viu a guarda avanada do exrcito, e s ao perseguir a retaguarda tropeou no flanco esquerdo dos Russos, isto , no reduto de Chevardino, e que, inesperadamente para os Russos, fez passar as suas tropas para a outra margem de Kolotcha. E ento os Russos, que no tinham podido travar uma batalha geral, fizeram obliquar a ala esquerda da posio que pensavam ocupar para se estabelecerem numa posio nem prevista nem fortificada. Ao atravessar para a margem esquerda do no Kolotcha, portanto para a esquerda da estrada, Napoleo transportara a futura batalha do flanco direito para o esquerdo dos Russos, para a plancie entre Utitsa. Semionovskoie e Borodino, plancie no mais vantajosa como posio que qualquer outra, e ali se travou a batalha de 26. A traos largos, o plano da batalha, tal como a descreveram e tal como ela realmente se travou, seria o indicado na pgina seguinte.
      Se Napoleo no tivesse atravessado o no Kolotcha no dia 24  noite e no houvesse dado ordens para no atacar o reduto nessa mesma noite, adiando o ataque para o dia seguinte, seramos obrigados a reconhecer que o reduto era o flanco esquerdo da posio russa e a batalha ter-se-ia travado como os Russos esperavam. Neste caso os Russos teriam defendido mais encarniadamente ainda o reduto de Chevardino, seu flanco esquerdo, atacando Napoleo no centro e  direita, e no dia 24 travar-se-ia a batalha geral na posio fortificada e prevista. Mas como o ataque ao flanco esquerdo russo se verificou  noite, em consequncia da retirada da retaguarda russa, isto , imediatamente aps a batalha de Gridnievo, e como os generais russos no puderam ou no quiseram desencadear no dia 24  noite a batalha geral, a primeira e parte principal da batalha de Borodino estava perdida desde aquele mesmo dia, implicando, forosamente, a derrota do dia 26.
      Depois da perda do reduto de Chevardino, na manh de 25, os Russos viram-se privados do ponto de apoio no flanco esquerdo, sendo forados a restabelecer a ala esquerda e a fortific-la  pressa, fosse como fosse.
      Mas o facto de as tropas russas no dia 28 de Agosto se encontrarem em entrincheiramentos insuficientes nada era comparado com o facto de os generais russos no terem atribudo a devida importncia  perda da posio do flanco esquerdo, ou seja, a mudana da orientao da batalha da esquerda para a direita, deixando que as suas linhas continuassem a estender-se da aldeia de Novoie a Utitsa, e viram-se obrigados  transferncia de tropas da direita para a esquerda durante o combate. E foi assim que os Russos, em plena batalha, s puderam opor  totalidade das tropas francesas a sua ala esquerda, isto , foras duas vezes mais fracas. Quanto aos ataques de Poniatowski a Utitsa e de Uvarov ao flanco direito dos Franceses, eis incidentes inteiramente alheios  marcha geral das operaes.
      E foi assim que a batalha de Borodino se travou em circunstncias completamente diferentes daquelas por que foi descrita na inteno de ocultar os erros dos generais, e isso apenas serviu para diminuir a glria do exrcito e do povo russos.
      Essa batalha no se travou numa posio escolhida e fortificada com foras apenas um pouco mais fracas do lado russo; foi aceite, em consequncia da perda de Chevardino, numa plancie aberta e quase sem fortificaes, com foras duplamente mais fracas que as dos Franceses. Isto , em condies tais teria sido impossvel a essas tropas no j baterem-se durante dez horas seguidas e num combate indeciso, mas at mesmo aguentarem-se trs horas que fosse sem serem vtimas de um desastre completo e sem virem a ser completamente desbaratadas.
      

      
      
      
      Captulo XX
      
      Na manh do dia 25, Pedro saiu de Mojaisk. Para descer o empinado e tortuoso caminho que levava da cidade  catedral, situada um pouco  direita, e onde se celebrava um servio religioso acompanhado do toque de sinos, apeou-se da sua carruagem e fez o percurso a, p. Atrs dele vinha um regimento de cavalaria precedido dos seus cantores, um comboio de viaturas com feridos do recontro da vspera caminhava em sentido contrrio. Os camponeses que o conduziam, entre gritos e chicotadas, corriam ladeando as carroas. Por cima das pedras espalhadas no caminho  guisa de pavimento, as viaturas, cada uma delas com trs ou quatro feridos, rins sentados outros estendidos, l iam cambaleando ladeira acima. L dentro, os feridos, pernas e, braos entrapados, plidos, de lbios apertados e sobrancelhas franzidas, fincavam-se nos taipais, atirados uns contra os outros. Quase todos ficavam a olhar, numa curiosidade entre infantil e ingnua, o chapu branco e o fraque verde de Pedro.
      O cocheiro de Bezukov vociferava, colrico, contra os postilhes do comboio, exigindo-lhes que formassem fila de um s lado da estrada. Cantando, o regimento de cavalaria que descia a encosta, ao cruzar com a carruagem de Pedi-o, interceptou-lhe o caminho. Pedro parou, comprimindo-se contra o talude que marginava o caminho talhado na encosta. To abrupto era o local que o sol ainda no atingira a estrada profunda.
      Fazia frio e estava hmido. L no alto, por cima da sua cabea, brilhava uma bela manh de Agosto e um jucundo carrilho ressoava pelo espao alm. Uma das viaturas cheia de feridos parou  beira da, estrada, mesmo ao lado de Pedro. O postilho de laptis, acorreu, ofegante, atirou uma pedra para debaixo das rodas traseiras e ps-se a ajustar os arneses do cavalicoque.
      Um dos feridos, soldado idoso, com um brao ao peito que seguia a p, atrs do carro, agarrou-se a ele com a mo s e voltou-se para Pedro.
      - Que h, paisano? Vo deixar-nos para aqui a criar bolor ou vamos para Moscovo? - disse ele.
      Pedro to absorto estava nos seus pensamentos que no compreendeu a pergunta. Ora olhava para o regimento de cavalaria agora junto do comboio ora para a viatura que se detivera ao p dele e onde jaziam trs feridos, dois sentados e um prostrado, e afigurava-se-lhe que aqueles desgraados lhe davam a soluo do problema que o preocupava.
      Um dos que estavam sentados devia ter sido atingido na cara, Tinha o crnio completamente envolto em trapos e uma das faces inchada a tal ponto que parecia a cabea de um recm-nascido. O nariz e a boca estavam disformes. Relanceou o olhar para a igreja e persignou-se. O outro, um recruta jovem, louro e de pele branca, que dir-se-ia no ter j gota de sangue na cara afilada, olhava para Pedro com um sorriso bondoso desenhado nos lbios. O terceiro estava deitado de bruos e no se lhe podia ver a cara. Os cantores a cavalo passavam nesse momento diante da viatura parada.
      Oh! Liquidada... cabea de ourio-cacheiro... para o estrangeiro  o caminho... Destacavam bem nitidamente as palavras de uma cano de soldados.
      Como a responder-lhes, mas num tom de uma jovialidade muito diferente, repicavam l no alto as notas metlicas do carrilho. E alegres tambm, mas ainda de outra alegria, os raios ardentes do Sol inundavam os pncaros dos montes que coroavam o outro lado da estrada.
      Entretanto, do lado em que estava Pedro, junto da viatura com os feridos e o cavalicoque extenuado, continuava escuro, hmido e triste.
      O soldado da cara inchada olhou furioso para os cantores.
      - Olhem para eles, para estes presumidos - exclamou mal-humorado.
      - Hoje em dia j lhes no bastam os soldados, recrutaram tambm os camponeses! Guerra com eles! - murmurou com um sorriso triste o soldado estacionado junto da viatura, dirigindo-se a Pedro. - Nesta altura tudo lhes serve. Toda a gente lhes serve! Moscovo... No se fala doutra coisa. E cada qual que se governe!  o que eles querem.
      Apesar da pouca nitidez destas palavras, Pedro compreendeu o que elas queriam dizer e acenou com a cabea, aprovador.
      A estrada ficou desimpedida. Pedro voltou a descer a encosta e subiu para a carruagem disposto a continuar o seu caminho ia olhando de quando em quando ora para um ora pura outro lado da estrada.  procura de alguma cara conhecida, mas apenas se lhe deparavam militares desconhecidos, de diversas armas, que todos, por igual, pasmavam diante do seu chapu branco e do seu fraque verde.
      Umas quatro verstas andadas viu, finalmente, algum conhecido, a quem tratou de interpelar com grande satisfao. Era, um mdico, militar de alta patente, que vinha na sua britctka, em sentido contrrio ao da carruagem de Pedro. Acompanhava-o um mdico jovem. Ao reconhecer o viajante, fez sinal ao cossaco que lhe servia de cocheiro para que se detivesse.
      - Conde! Excelncia! Que faz o senhor aqui? - inquiriu o mdico.
      - Queria ver isto...
      - Sim, sim, tem muito que ver...
      Pedro apeou-se do seu carro e ps-se a contar-lhe como resolvera assistir  batalha.
      O mdico aconselhou-o a que se dirigisse directamente ao Serenssimo.
      - S Deus sabe onde o senhor estaria bem durante a batalha sem ser reconhecido - disse ele, trocando um olhar com o seu jovem companheiro. - No entanto, o Serenssimo conhece-o e estou certo de que o aconselhar de bom grado. Sim,  o que tem a fazer, meu caro.
      O mdico tinha um ar fatigado e parecia ter pressa.
      - Ento, acha? E tambm lhe queria perguntar onde fica a nossa posio - retorquiu Pedro.
      - A nossa posio? - replicou o mdico. - Isso no  da, minha competncia. Depois de passar Tatarinovo ver, andam a a remover muita terra. Suba ao cabeo. Da poder ver qualquer coisa.
      - Ento pode ver-se dali?... Se o senhor...
      O mdico interrompeu-o e apontou para a britchka.
      - Acompanh-lo-ia com gosto, mas, Deus meu!, estou at aqui - disse, com a mo na garganta. - Vou, numa carreira, ao encontro do comandante do corpo. E o senhor sabe como estas coisas so entre ns, conde... Amanh travar-se- a batalha. Em cem mil combatentes temos de contar muito por baixo com vinte mil feridos. E no temos macas, nem camas de campanha, nem enfermeiros, nem mdicos que cheguem para seis mil. Contamos com dez mil viaturas, mas ainda  preciso mais alguma coisa. Arranja-te como puderes!
      E Pedro, ento, pensou que de entre aqueles milhares de homens na plenitude da vida, de perfeita sade, jovens e velhos, que ao passar se punham a observar-lhe o chapu com galhofeira surpresa, pelo menos vinte mil estavam votados ao sofrimento e  morte e muito bem podia acontecer que a esse nmero pertencessem exactamente aqueles que acabava de ver.
      Talvez morram amanh mesmo; como podem eles pensar noutra coisa que no seja a morte? E de sbito, merc de uma associao misteriosa de ideias, viu diante de si a encosta de Moiaisk e as viaturas carregadas de feridos e ouviu o som dos sinos e entreviu os raios oblquos do Sol e tornou a ouvir as canes dos cavaleiros.
      O regimento de cavalaria caminha para o combate e os soldados cruzam o comboio dos feridos e nem por um segundo lhes vem  cabea o que os espera e ao passarem ao lado deles piscam o olho a este e quele. E, embora vinte mil vo ao encontro da morte, o meu chapu diverte-os! Que estranho!, dizia Pedro de, si para consigo enquanto seguia direito a Tatarinovo.
      Junto de uma casa senhorial,  esquerda da estrada, aglomeravam-se carruagens, galeras e uma chusma de impedidos e sentinelas. Era ali que estava instalado o Serenssimo. Mas  hora em que Pedro chegava, tanto ele como quase todo o seu estado-maior encontravam-se ausentes. Assistiam todos ao servio religioso. Pedro prosseguiu na direco da Gorki.
      Ao chegar ao alto da encosta, e quando atravessava a ruazinha da aldeia, viu pela primeira vez camponeses milicianos, de cruz na barretina e camisa branca, que falavam alto e riam, cobertos de suor, em grande animao, cavando  direita da estrada, num cabeo coberto de relva.
      Uns abriam trincheiras  picareta, outros acarretavam terra em carrinhos de mo por cima de pranchas assentes no solo e outros ainda nada faziam.
      Dois oficiais postados no cabeo dirigiam os trabalhos. Ao veios camponeses, muito contentes na sua nova profisso de soldados, Pedro lembrou-se dos feridos de Mojaisk e compreendeu ento o que queriam dizer as palavras do militar. Toda a gente lhes serve! E a vista daqueles homens barbados, trabalhando no campo de batalha, com as suas botifarras estranhas, as nucas reluzentes de suor, os colarinhos desabotoados, com as ossudas clavculas  mostra, produziu em Pedro uma impresso mais forte que tudo o que observara e ouvira at ento sobre a solenidade v a importncia do momento.
      

      
      
      
      Captulo XXI
      
      Pedro apeou-se da carruagem, e, passando diante dos milicianos entregues  sua tarefa, trepou ao cabeo, donde, na opinio do mdico, podia ver-se o campo de batalha.
      Eram onze horas da manh. O Sol, um pouco  esquerda e na retaguarda de Pedro, atravs do ar puro e sereno. Iluminava vivamente o imenso panorama acidentado que diante dele se estendia como um grande anfiteatro.
      A esquerda, e cortando esse anfiteatro, serpenteava, subindo, grande estrada de Smolensk que atravessava a aldeia, com a sua branca igreja, situada junto do cerro, a quinhentos passos dele, Era Borodino. A estrada, depois da aldeia, transpunha uma ponte e, atravs de uma srie de descidas e subidas, encaminhava-se, serpeando, para o povoado de Valuieva, que se via a umas seis verstas de distncia, agora nas mos de Napoleo. Depois de Valuieva a estrada perdia-se no meio de uma floresta que amarelecia no horizonte. Nesta mata de lamos e abetos,  direita da estrada, brilhava, ao sol, a cruz e o campanrio distantes do Mosteiro de Kolotcha. Nessa longnqua linha azulada,  direita e  esquerda da floresta, surgiam, aqui e ali, o fumo das fogueiras dos acampamentos e a massa indistinta das tropas russas e francesas.  direita, ao longo dos rios Kolotcha e Moskva, o terreno era entrecortado de barrancos e colinas. Ao longe, nesses barrancos, descobriam-se as aldeias de Bezubovo e de Zakarino. A esquerda a regio era menos acidentada e viam-se a searas de trigo e as runas fumegantes da aldeia de Semionovskoie, que fora incendiada.
      Tudo o que Pedro dali descobria, quer  direita, quer  esquerda, era to vago que nem de longe correspondia ao que ele esperava. No via em parte alguma o campo de batalha com que contava, mas apenas campos lavrados, clareiras, tropas, florestas, fogueiras de acampamentos, aldeias, cerros, rios e, por mais que procurasse com os olhos, no conseguia distinguir as tropas russas das francesas naquela paisagem buliosa.
      Tenho de perguntar a uma pessoa competente, dizia de si para consigo, e dirigiu-se a um oficial que, cheio de curiosidade, examinava a sua corpulenta figura nada marcial.
      - Quer ter a bondade de me dizer - principiou ele - que aldeia  aquela ali em frente?
      - Burdino, no ? - replicou o oficial, voltando-se para um dos seus camaradas.
      - Borodino - corrigiu o outro.
      O oficial, que pelos vistos parecia contentssimo daquela oportunidade de dar  lngua, aproximou-se de Pedro.
      - Ali so os nossos? - perguntou Pedro.
      - Sim, e l adiante, mais longe, os Franceses - tornou o oficial. - L adiante, l muito adiante, est a ver?
      - Onde? Onde?
      - Vem-se perfeitamente  vista desarmada. L adiante.
      O oficial apontou para os penachos de fumo que se descobriam  esquerda, para l do rio, enquanto se lhe pintava no rosto uma expresso preocupada e grave, expresso que Pedro j notara em muitos outros rostos.
      - Ah!, so os Franceses! E l adiante? Pedro apontava para um monte,  esquerda, em volta do qual se viam tropas.
      - So os nossos.
      - Ah!, os nossos! E l, ali, mais adiante - apontou para outro cabeo mais afastado, com uma grande rvore, junto de um povoado assente numa dobra do terreno: ao lado subia no ai, fumo dos bivaques e viam-se manchas escuras no solo.
      - Ali tambm  ele - disse o oficial. Tratava-se do reduto de Chevardino. - Ontem ramos ns quem ali estava e agora  ele.
      - Ento onde fica a nossa posio?
      - A nossa posio! - exclamou o oficial, com um sorriso satisfeito. - Posso descrever-lha com todos os pormenores, pois fui eu quem levantou quase todas as fortificaes. Pois, o nosso centro fica ali, em Borodino, l adiante. - Apontava para a aldeia da igreja branca, em frente deles. - Ali  o vau do Kolotcha. V, l adiante, onde se descobrem, ainda no horizonte, aquelas medas de palha? Ali fica a ponte.  o nosso centro. O nosso flanco direito fica por aqui. - E apontava uma fractura do terreno, escarpada e profunda, na extrema direita.- Acol  o no Moskva e ali construmos trs redutos fortssimos. O nosso flanco esquerdo... - Neste ponto o oficial calou-se. - Sabe?,  difcil de explicar... Ontem o nosso flanco esquerdo estava ali, em Chevardino, l adiante, onde se divisa um carvalho. Mas agora retirmos para a retaguarda a ala esquerda. Afirme-se naquela aldeia e naquela fumarada.  Semionovskoie. E alm - acrescentou, apontando para o cabeo de Raievski.- Mas no  natural que a batalha venha a travar-se ali. O inimigo fez deslocar para aqui as suas tropas por manha.  de esperar que trate de nos envolver pela direita, em direco ao Moskva. Mas, seja como for, o certo  que amanh muitos dos nossos ficaro ali!
      Um velho sargento, que se aproximara enquanto o oficial falava, esperava, em silncio, que o superior acabasse, mas quando ele chegou a este ponto, naturalmente pouco satisfeito com o que ouvia, interrompeu o oficial para dizer, bruscamente:
      -  preciso ir buscar os cestes.
      O oficial pareceu perturbado, como se compreendesse que, se podia pensar que no dia seguinte faltariam muitos dos seus camaradas, no lhe era dado falar no caso.
      - Bem, manda outra vez a 3 companhia - replicou o oficial imediatamente. - E o senhor, quem  o senhor? No  mdico?
      - No, estou aqui apenas por curiosidade - retorquiu Pedro. F ps-se de novo a descer o cabeo, tornando a passar diante dos milicianos.
      - Oh, malditos! - exclamou o oficial, que o seguia, enquanto tapava o nariz, e apressava o passo.
      - A esto eles! Trazem-na, l vm... L esto... Daqui a bocado esto a... - exclamaram, ao mesmo tempo, vrias vozes, e oficiais, soldados e milicianos correram para a estrada.
      Uma procisso, que sara da Igreja de Borodino, subia a encosta. A frente, pela estrada poeirenta, marchava alinhada a infantaria, de barretinas na mo e espingardas de coronha ao alto. L para trs ouviam-se cnticos religiosos.
      Soldados e milicianos passaram por Pedro, de cabea descoberta, ao encontro dos que chegavam.
      - Trazem a nossa Santa Me! A nossa protectora!... A Virgem Iverskaia.
      - No.  a Santssima Virgem de Smolensk - corrigiu outro.
      Tanto os milicianos que estavam na aldeia como os que trabalhavam na bateria, largando as ps, correram ao encontro da procisso. Atrs do batalho seguia a cleresia de casula; o padre, ia velhinho, de solidu, acompanhado dos aclitos e dos chantres.
      Atrs deles vinha um grupo de soldados e de oficiais que carregavam um grande cone, de rosto escuro, todo paramentado. Era o cone que viera de Smolensk e acompanhava agora o exrcito. Em volta dele, por todos os lados, caminhava, corria, prosternava-se uma chusma de soldados de cabea descoberta.
      No alto da colina o cone estacou. Os homens que o traziam aos ombros revezaram-se, os aclitos tornaram a acender os incensrios e deu-se comeo a uma cerimnia religiosa de aco de graas, Os raios ardentes do Sol dardejavam, mas os cabelos das cabeas descobertas e as fitas que enfeitavam a imagem agitavam-se  brisa fresca. Os cnticos ressoavam debilmente na vasta curva dos cus. Grande multido de oficiais, soldados, milicianos, todos de cabea descoberta, rodeava a imagem. Atrs do padre e do aclito, num espao livre, viam-se os oficiais de alta patente. Um general calvo, com a cruz de S. Jorge ao peito, mesmo atrs do sacerdote, sem se persignar, o que queria dizer que era alemo, esperava, pacientemente, que as oraes terminassem, sentindo-se obrigado a assistir a elas, pois reanimavam e patriotismo do povo russo. Outro general, que assumira uma atitude marcial, ia fazendo sucessivos sinais da cruz, enquanto olhava para um lado e para o outro. Pedro, no meio dos camponeses, identificou entre aquelas altas personalidades alguns conhecidos seus, mas no lhes prestou a mnima ateno, todo entregue a observar a grave expresso dos soldados e dos milicianos, de olhos fitos na imagem numa espcie de vida exaltao. Quando os chantres, fatigados, principiaram a entoar arrastadamente - era a vigsima vez que o faziam - a invocao Santa Me de Deus, salva os Teus escravos da desgraa, e o padre e o dicono repetiram: Todos a Ti acorremos como a um muro inquebrantvel, rogando-Te que Te amerceies de ns, em todos os rostos se via essa mesma expresso, essa mesma compenetrao na solenidade do momento, por ele observada j na encosta de Mojaisk e em muitas pessoas com quem se cruzara nessa manh. As cabeas pendiam cada vez mais para o cho, os cabelos esvoaavam ao vento, ouviam-se profundos suspiros e os constantes sinais da cruz ecoavam na arca do peito dos fiis.
      De sbito, a multido que rodeava o cone afastou-se, arrastando Pedro. Algum se aproximava, sem dvida da mais alta categoria - a avaliar pela pressa com que todos abriam alas.
      Era Kutuzov, que acabava de inspeccionar a posio. De regresso a Tatarinovo, quisera assistir quela cerimnia religiosa. Pedro reconheceu-o imediatamente graas  sua figura particular, muito diferente de todas as outras.
      De comprido redingote, que lhe envolvia a enorme corpulncia, as costas arqueadas, a cabea branca descoberta, o olho vazado na face de carnes flcidas, o passo balanceado e trpego, chegou e deteve-se precisamente atrs do padre. Persignou-se maquinalmente, baixou-se quase at tocar no solo com a mo e, depois de soltar um profundo suspiro, deixou pender sobre o peito a cabea branca. Bennigsen e a sua comitiva seguiam-no. Apesar da presena do general-chefe, que desde logo chamara a ateno de todos os oficiais superiores, os soldados e os milicianos, sem olharem para ele, continuavam a rezar.
      Quando a cerimnia religiosa acabou, Kutuzov aproximou-se do cone, deixou-se cair pesadamente sobre os joelhos, prosternou-se quase at ao cho e de novo tentou pr-se de p. Levou tempo a consegui-lo, merc da sua corpulncia e da fraqueza em que estava. Os esforos que fazia para se erguer comunicavam-lhe  cabea branca movimentos sacudidos. Conseguiu levantar-se finalmente, e depois de beijar o cone, estendendo os lbios num bochecho infantil e ingnuo, de novo se inclinou tocando a terra com a mo. Todos os generais fizeram o mesmo, imitando-o, depois foram os oficiais e em seguida, acotovelando-se e atropelando-se uns aos outros, no meio de exclamaes e expresses comovidas, chegou a vez dos soldados e dos milicianos.
      

      
      
      
      Captulo XXII
      
      Surgido pela multido, que o atirava de um lado para o outro. Pedro ia olhando  sua roda.
      Conde Pedro Kirillitch, que est aqui a fazer? - exclamou uma voz.
      Pedro voltou-se. Bris Drubetskoi, sacudindo os joelhos que sujara no cho, naturalmente ao prosternar-se diante do cone. Aproximou-se dele, sorrindo. A elegncia da sua farda no exclua o ar marcial do militar em campanha. Vestia uma longa tnica tinha um pingalim a tiracolo, tal qual como Kutuzov, Entretanto o general-chefe regressara  aldeia e sentara-se  sombra da casa mais prxima, num banco que um cossaco trouxera a pressa e outro cossaco cobrira com um tapete. Rodeava-o uma brilhante e imensa comitiva.
      O cone fora levado para mais longe aos ombros da multido. Pedro detivera-se a uns trinta passos de Kutuzov a conversar com Bris.
      O conde Bezkikov expunha-lhe o seu desejo de assistir  batalha e examinar a posio.
      -  o que o senhor vai fazer - disse-lhe ele. - Eu fao-lhe as honras do campo. Ver, tudo melhor dali: acol est tambm o conde Bennigsen. Estou adstrito ao seu quartel. Preveni-lo-ei, E se quiser percorrer a posio, irei consigo. Vamos agora precisamente ao flanco esquerdo, No tardamos, e, queira aceitar o meti tecto para passar a noite, jogaremos uma partida. Conhece no  verdade, Dimitri Sergueievitch? Est aqui instalado - acrescentou, apontando para a terceira casa de Gorki.
      - O que eu gostava de ver era o flanco direito. Dizem que , muito forte - observou Pedro. - Gostava de percorrer toda a posio a partir do Moskva.
      - Est bem, isso pode ser depois, o principal  o flanco esquerdo...
      - Sim, sim. E onde fica o regimento do prncipe Bolkonski, poderia indicar-me a sua posio?
      - O de Andr Nikolaievitch? Vamos passar diante dele, lev-lo-ei l.
      - Que me diz do flanco esquerdo? - perguntou Pedro.
      - Para lhe falar verdade, entre ns, o nosso flanco esquerdo est numa triste situao - disse Bris, baixando a voz, confidencialmente. - O conde Bennigsen esperava uma coisa completamente diferente. Props que se fortificasse aquele cabeo, l adiante. Era outra coisa. Mas - acrescentou, encolhendo os ombros - o Serenssimo no quis, ou fizeram-no mudar de ideias. Porque...
      E Bris no concluiu a frase. Nesse mesmo instante aproximava-se Kaissarov, o ajudante-de-campo de Kutuzov.
      - Eh, Paissi Sergueievitch! - exclamou ele, dirigindo-se ao recm-chegado com a maior desenvoltura.- Estou tratando de explicar ao conde a nossa posio.  assombroso como o Serenssimo pode, prever com tamanha exactido as intenes dos Franceses.
      - Refere-se ao flanco esquerdo? - disse Kaissarov.
      - Sim, sim, precisamente. O nosso flanco esquerdo est agora fortssimo.
      Embora Kutuzov tivesse afastado do seu estado-maior todos os inteis, Bris conseguira manter-se no quartel-general, tornando-se adido ao conde Bennigsen. Este, como todos os generais com que ele servira, considerava Drubetskoi homem de grande valor
      No alto comando do exrcito haviam-se formado dois partidos bem definidos: o de Kutuzov e o de Bennigsen, chefe do estado-maior. Bris pertencia a este ltimo partido e, embora mostrasse diante de Kutuzov um respeito servil pela sua pessoa, no perdia a oportunidade de fazei, compreender que o velho no passam de um medocre e que era Bennigsen quem tinha o supremo comando de tudo. Chegava agora o momento decisivo da batalha que devia ou aniquilar Kutuzov, que transmitiria a autoridade a Bennigsen, ou ento, no caso de Kutuzov ganhar a bata-lha, dar a entender que fora Bennigsen quem tudo fizera. Em qualquer caso, no dia seguinte distribuir-se-iam importantes distines e haveria numerosas promoes. E no era outra a razo por que Bris nesse dia estava to agitado.
      Depois de Kaissarov, outros conhecidos de Pedro vieram ao seu encontro, e de tal modo o assediaram que muito dificilmente podia responder a todas as perguntas que lhe faziam sobre Moscovo ou ento dar ouvidos a todas as histrias que lhe contavam. Em todos os rostos havia emoo e desassossego, Mas a Pedro afigurava-se-lhe que esta, emoo era geralmente provocada por motivos de interesse puramente pessoal e no pode deixar de se lembrar, a propsito disto, da exaltao que vira noutros rostos, a qual no provinha do roais pequeno interesse pessoal, mas do interesse geral relacionado com uma questo de vida ou de morte. Kutuzov acabou por descobrir a rotunda pessoa de Pedro e o grupo que o cercava.
      - Chamem-no - ordenou.
      Um ajudante-de-campo transmitiu o desejo do Serenssimo. Pedro dirigiu-se para o banco do general. Um miliciano, soldado raso, adiantou-se-lhe, porm. Era Dolokov.
      - Como  que este indivduo se encontra aqui? - perguntou Pedro.
      - Tipos como este tm sempre maneira de meter o nariz em toda a parte! - responderam-lhe. - Foi degradado. Tem de se fazer valer. Parece que apresentou diversos projectos e que de noite se introduziu rias linhas inimigas... Digam o que disserem,  um valente!...
      Pedro, descobrindo-se, saudou Kutuzov respeitosamente.
      - Pensei - ia dizendo, entretanto. Dolokov - que, se expusesse este projecto a Sua Excelncia, me poderia mandar embora ou ento que esta histria j era sabida... De maneira que no me consideraria diminudo se...
      - Bem! Bem!
      - E se tiver razo, prestarei assim um servio  minha ptria, pela qual estou pronto a dar a vida.
      - Bem, muito bem!
      - E se Sua Excelncia precisar de um homem sem medo de dar o corpo ao manifesto, peo-lhe que se lembre de mim... Talvez possa vir a ser til a Sua Excelncia.
      - Bem... Muito bem... - repetia Kutuzov mirando Pedro, como em confidncia, com o seu olho risonho.
      Nesse momento, Bris, habilssimo corteso, aproximou-se para estar nas proximidades de Bezukov, na vizinhana imediata do grande chefe, como se fosse a coisa mais natural deste mundo, e, em voz baixa e como se prosseguisse uma conversa interrompida, disse a Pedro:
      - Os milicianos vestiram camisas brancas, muito limpas, para se prepararem para a morte. Que herosmo, conde!
      Bris pronunciara estas palavras para ser ouvido, evidentemente, pelo Serenssimo. Sabia que Kutuzov prestava ouvidos a todos estes pormenores, e na verdade voltou-se para ele:
      - Que ests tu a dizer da milcia? - perguntou. - Excelncia, para se prepararem para o dia de amanh, para morte, vestiram camisas brancas.
      - Oh!... Que povo admirvel, que povo incomparvel! - exclamou o general-chefe, fechando os olhos e abanando a cabea. Que povo incomparvel! - repetiu, suspirando.
      - Com que ento quer sentir o cheiro da plvora? - acrescentou, dirigindo-se a Pedro. - Sim, realmente,  um cheiro agradvel. Tenho a honra de ser um adorador da senhora sua mulher. Como est ela? O meu acampamento est  sua disposio.
      E, como amide acontece com os velhos, Kutuzov olhou em torno de si, preocupado, como se j no se recordasse do que queria dizer ou fazer.
      Lembrando-se, naturalmente, do que procurava, fez um sinal a Andr Sergueievitch Kaissarov, irmo do seu ajudante-de-campo.
      - Como so ento esses versos de Marin, como so eles? Sim, os que ele escreveu sobre Guerakov: Sers mestre no teu regimento... Recita l um bocado. E Kutuzov preparava-se para uma boa risada.
      Kaissarov fez-lhe a vontade... Kutuzov, divertidssimo, acenava com a cabea a compasso.
      Quando Pedro se afastou do general-chefe. Dolokov veio ao seu encontro e travou-lhe do brao.
      - Tenho muito prazer em encontr-lo aqui, conde - disse-lhe em voz alta, com o ar decidido e solene que lhe era natural e sem se preocupar com a presena de estranhos. - Na vspera do dia em que s Deus sabe qual de rios ficar com vicia, tenho muito gosto em aproveitar esta oportunidade para lhe dizer que lamento o mal-entendido havido entre ns e que espero que no tenha razo de queixa contra mim. Peo-lhe que me perdoe.
      Pedro, sorrindo, olhava para ele sem saber que responder-lhe. Dolokov, com os olhos cheios de lgrimas, abraou e beijou Pedro. Bris disse qualquer coisa ao seu general e o conde Bennigsen props a Pedro que o acompanhasse na inspeco s linhas.
      - Ser interessante para si - disse-lhe ele.
      - Sim, muito - respondeu Pedro.
      Meia hora depois, Kutuzov voltava para Tatarinovo e Bennigsen e a sua comitiva, de que Pedro fazia parte, dirigiram-se para o campo de batalha.
      

      
      
      
      Captulo XXIII
      
      De Gorki, Bennigsen e a sua escolta desceram a estrada real at  ponte que o oficial apontara a Pedro do alto do cabeo como sendo o centro da posio, e junto da qual medas de feno recm-cortado embalsamavam o ar- Atravessada a ponte, penetraram na aldeia de Borodino, voltaram  esquerda e, passando diante de tiro grande aglomerado de tropas e peas de artilharia, chegaram  vista de um cabeo onde milicianos revolviam a terra. Era o reduto, ainda por baptizar, mas que depois viria a chamar-se o reduto Raievski ou a bateria do cabeo.
      Pedro no prestou a isto qualquer ateno especial, ignorava que aquele local se tornaria o ponto mais memorvel de todo o campo de batalha. Em seguida atravessaram a ravina defronte de Semionovskoie, donde os soldados levavam os restos do madeiramento das isbs e dos secadores de sementes. Final- mente, subindo e descendo encostas e atravessando campos de centeio arrasados, como se sobre eles tivesse cado granizo, meteram pelo novo caminho, recentemente aberto pela artilharia ao longo dos trilhos de um campo lavrado, e chegaram s flechas que se andavam ainda a abrir.
      Bennigsen deteve-se ali e ps-se a olhar em frente para o reduto de Chevardino, que ainda na vspera pertencia aos Russos, e onde se viam alguns cavaleiros. Os oficiais diziam que devia ser Napoleo ou Murat. Toda a gente olhava avidamente o grupo de cavaleiros. Pedro fez o mesmo, tentando perceber qual deles poderia ser Napoleo. Pouco depois, o grupo descia do cabeo, desaparecendo.
      Bennigsen, dirigindo-se a um general que se aproximava, ps-se a explicar-lhe a posio das tropas russas. Pedro ouvia-o, num esforo de inteligncia, tentando compreender o essencial da futura batalha, mas, a pesar seu, verificou que o no podia acompanhar. Decididamente, no estava em condies de perceber, Bennigsen, quando acabou de falar, notou a expresso de Pedro.
      - Suponho que isto o no interessa - disse-lhe ele, bruscamente.
      - Pelo contrrio!  muito interessante! - repetiu Pedro, que no era completamente sincero.
      Das flechas tomaram mais  esquerda por um caminho que serpenteava atravs de uma mata de lamos muito espessa, mas de pouca altura. No meio dessa mata apareceu de repente, saltitando, uma lebre parda de patinhas brancas. Assustada com o rudo das patas de tantos cavalos, de tal modo se alarmou que por muito tempo foi correndo e pulando diante dos cavaleiros, que riam a bom rir, e s quando alguns lhe gritaram abandonou o caminho, embrenhando-se no mato. Depois de terem cavalgado umas duas verstas entre folhagem, chegaram a uma floresta onde estavam reunidas as tropas do corpo de Tutchkov, que se destinavam a apoiar o flanco esquerdo.
      Neste local, no extremo do flanco esquerdo. Bennigsen ficou a falar por muito tempo e animadamente e a Pedro afigurou-se-lhe que ele tomava nessa altura importantes disposies do ponto de vista militar. Diante das tropas de Tutchkov havia um monte. Esse monte no estava ocupado. Bennigsen lamentou em voz alta este erro, dizendo ser insensato deixar assim, sem qualquer guarnio, um ponto que dominava o terreno, colocando-lhe tropas no sop. Alguns generais foram da mesma opinio. Um deles, com ardor bem militar, disse que aquilo era como mandar animais para o matadouro. E Bennigsen, de sua iniciativa, deu ordens para que no monte fossem colocadas tropas.
      Esta medida, tornada no flanco esquerdo, ainda mais concorreu para que Pedro duvidasse da sua capacidade, para compreender os problemas estratgicos. A respeito deste pormenor - as tropas no sop da encosta - estava pronto a dar razo s crticas de Bennigsen e dos generais, mas eis o que o levava a compreender ainda menos como pudera cometer um erro to evidente quo grosseiro aquele que as mandara colocar ali.
      No subia Pedro que aquelas tropas no tinham sido ali colocadas para defesa daquela posio, como pensava Bennigsen, mas precisamente para preparar uma armadilha, naquele lugar oculto, isto , para que no fossem vistas e pudessem assim cair de surpresa sobre o inimigo num momento determinado. Bennigsen ignorava tambm este pormenor e, de acordo com os seus pontos de vista particulares, alterava as disposies tomadas sem informar disso o general-chefe.
      

      
      
      
      Captulo XXIV
      
      Precisamente naquela clara noite de 25 de Agosto estava o prncipe Andr deitado num telheiro desmantelado da aldeia de Kniazkovo, no extremo limite do local destinado ao seu regimento. Apoiado sobre o cotovelo, pousava os olhos, atravs das paredes desconjuntadas, numa fila de lamos dos seus trinta anos, cujos ramos inferiores haviam sido cortados e que se perdia na distncia, e nos campos lavrados, no meio dos quais havia molhos de aveia dispersos, e nos arbustos onde se perdia o fumo das fogueiras em que os soldados preparavam o rancho.
      Embora a vida lhe parecesse naquele momento mesquinha, intil e penosa, tal qual como sete anos antes, em Austerlitz, na vspera da batalha, o prncipe sentia-se emocionado e nervoso.
      Recebera e transmitira ordens para a batalha do dia seguinte. Nada mais tinha que fazer. No entanto agitavam-no os pensamentos mais simples, mais claros, e por consequncia mais sinistros. Sabia que a batalha que se preparava seria a mais terrvel de quantas assistira at ento e a possibilidade de morrer apresentava-se-lhe pela primeira vez na sua vida com toda a simplicidade e todo o horror, despojada de toda a espcie de relaes com o que era vivo, alheia a todas as consideraes acerca do efeito que poderia causar nos outros, coisa que lhe dizia apenas respeito a ele prprio, e a sua prpria alma, numa acuidade de viso extraordinria, quase como uma certeza. E l do alto a que subiam os seus pensamentos tudo o que outrora o havia atormentado ou preocupado surgia-lhe banhado numa espcie de luz fria e branca, sem sombras, sem perspectiva, sem contornos definidos,
      Toda a sua vida lhe aparecera por muito tempo como que projectada por Lima lanterna mgica atravs de um vidro e a uma luz artificial. E agora via, de sbito, sem qualquer interposio de vidros,  clara luz do dia, esses quadros grosseiramente coloridos. Sim, sim, aqui esto elas, essas miragens enganosas que tanto me emocionaram, exaltaram e fizeram infeliz; dizia a si prprio, fazendo perpassar pela imaginao toda a fantasmagoria da existncia e vendo-a agora a esta branca e fria luz do ntido pensamento da morte. Ei-las, essas figuras grosseiramente iluminadas que ento me pareciam to belas e misteriosas. A glria, o bem pblico, o amor de uma mulher, a prpria ptria, quo grandes que pareciam essas belas coisas, com que profundo sentido elas se me apresentavam! E afinal como tudo isso  mesquinho, plido, miservel, a clara e fria aurora desta manh que est nascendo em mim!, Retinham-lhe o pensamento sobretudo as trs grandes dores da sua existncia: o seu romance de ai-flor, a morte do pai e a invaso francesa, que alcanara j metade da Rssia, O amor!... Aquela garotinha que se me afigurava rica de foras misteriosas! Sim! E eu amava-a. Entretinha com ela poticos sonhos de amor, de felicidade mtua. Pobre rapaz!, exclamou, de sbito, em voz alta, com uma amarga ironia, E depois? Acreditava em no sei que amor ideal que ma conservaria fiei todo o ano que estaria ausente. E ela acabaria por se consumir, como a meiga pomba da fbula, esperando, esperando sempre. Ai de mim!  tudo muito mais simples... Tudo  muito mais simples e muito mais repugnante!
      Meu pai tambm, ao instalar-se em Lissia Gori, pensava que aquele pedao do mundo lhe pertencia, que a terra, o ar, os camponeses, tudo era dele. Mas aparece Napoleo, e, sem sequer saber que ele existia, varre-o para a rua como a um gro de poeira e a sua Lissia Gori e toda a sua existncia caram por terra, E a princesa Maria diz que tudo so provaes que vm do alto, Para qu tais provaes se ele j no existe e nunca mais voltar a existir? Nunca mais voltar! A ptria, a perda de Moscovo! Mas, quem sabe?, matar-me-o, e talvez nem sequer um francs, mas um dos nossos, como o soldado que ainda ontem descarregou a espingarda mesmo ao p da minha cabea. E os Franceses chegaro depois, e pegar-me-o pelos ps e pela cabea e atiraro comigo para dentro de uma vala para que eu no venha a cheirar mal. E depois novas condies de vida surgiro to naturais para os que vierem como as antigas, e eu j no as conhecerei j no serei deste mundo.
      Fitou a mata de lamos, os seus ramos amarelos imveis, as suas folhas verdes e a sua casca branca que brilhava ao sol. J que temos de morrer, bom, ento que me matem... amanh... que eu desaparea... Que tudo isto continue a existir, mas para mim tudo acabe. Via com toda a nitidez a vida sem que ele j l estivesse. E aqueles alamos brancos com a sua luz e a sua sombra, e aquelas nuvens desgrenhadas e o fumo dos acampamentos, tudo se transformou, de sbito, para ele, ganhando um aspecto terrvel e ameaador, Foi tomado de um arrepio. Levantou-se, saiu do telheiro e ps-se a caminhar.
      Atrs do telheiro ressoaram umas vozes.
      - Quem vem l? - perguntou o prncipe Andr.
      Timokine, o capito de nariz rubicundo, ex-comandante da companhia de Dolokov, ento, por virtude da falta de oficiais, comandante de batalho penetrou timidamente no telheiro. Atrs dele vinham um ajudante-de-campo e o tesoureiro do regimento.
      Andr voltou a penetrar no telheiro e ouviu o que eles tinham a dizer-lhe relativamente ao servio, deu-lhes ainda algumas instrues e preparava-se para os despedir quando ouviu l fora uma voz sua conhecida, que resmungava.
      - Irra! - dizia a voz do homem, que tropeara em qualquer coisa.
      Andr olhou l para fora e viu Pedro, que ia caindo ao tropear numa viga que estava no cho, encaminhando-se para ele. Em geral era com desagrado que voltava a ver criaturas do seu meio, e Pedro especialmente, pois lhe recordava todos os dolorosos momentos por que passara aquando da sua ltima estada em Moscovo.
      - Ah, s tu?! - exclamou ele. - Que te traz por aqui? No esperava ver-te.
      Ao pronunciar estas palavras, tios seus olhos e em toda a sua fisionomia havia mais do que frieza, havia mesmo hostilidade, e Pedro deu por isso. Este vinha na melhor disposio de esprito, mas, ao ver o ar nada acolhedor do amigo, sentiu-se embaraado e pouco  vontade.
      - Vim... Sim... Sabe... vim porque me interessa - disse Pedro, que j repetira nesse dia muitas vezes que aquilo o interessava. - Quis ver a batalha.
      - Ah, sim? E que dizem da guerra os irmos maes? No a puderam impedir? - disse o prncipe Andr com ironia. - E que h por Moscovo? Como est a minha famlia? J chegaram, finalmente? - acrescentou em tom mais grave.
      - Sim, j chegaram. Disse-me Jlia Drubetskaia. Quis visit-los, mas no os encontrei. Tinham partido para a quinta dos arredores.
      

      
      
      
      Captulo XXV
      
      Os oficiais queriam retirar-se, mas o prncipe Andr, como para evitar ver-se s com o amigo, pediu-lhes que ficassem para tomar ch. Trouxeram bancos e serviu-se o ch. Os oficiais iam observando, no sem espanto, a enorme e macia pessoa de Pedro, ouvindo as histrias que ele contava de Moscovo e a descrio que fazia da posio das tropas russas, que acabava de visitar, Andr no abria a boca e a sua expresso era to desagradvel que Pedro se dirigia de preferncia a Timokine, o herico comandante de batalho.
      - Ento compreendeste a disposio das tropas? - perguntou-lhe o prncipe Andr, interrompendo-o de sbito.
      - Compreendi! Ou antes - acrescentou Pedro - , como no sou da profisso, no posso dizer que tenha compreendido completamente, mas apreendi o plano geral.
      - Ento sabes mais que ningum - tornou-lhe o prncipe Andr.
      - Ah! - exclamou Pedro, estupefacto, mirando-o atravs dos vidros das lunetas. - E que pensa da nomeao de Kutuzov? 
      - Agradou-me muito,  tudo quanto te posso dizer.
      - Bom, e que opinio tem de Barclay de Tolly? Diz-se tanta coisa dele em Moscovo, santo Deus! Que pensa dele?
      - Pergunta a estes senhores - replicou o prncipe Andr, apontando para os oficiais.
      Pedro, com o sorriso indulgente que toda a gente tinha quando se dirigia a Timokine, interrogou-o com os olhos.
      - Foi a luz que brilhou para rios, Excelncia, o aparecimento do Serenssimo - disse Tiryiokine, timidamente, sem deixar de olhar para o seu coronel.
      - Porqu? - inquiriu Pedro.
      - Sim, posso falar-lhe, por, exemplo, da lenha, da forragem. Quando principimos a recuar, depois de Sventsiani, que ningum se lembrasse de apanhar um cavaco de lenha, um braado de palha ou fosse o que fosse. E certo  que, rios amos embora, e o inimigo, ficava com tudo, no  verdade, Excelncia? - acrescentou dirigindo-se ao seu prncipe.  Mas ai de ns de o fizssemos!
      Por esse motivo no nosso regimento foram julgados dois oficiais em conselho de guerra. Quando o Serenssimo chegou, porm, tudo se tornou muito simples. Vimos a luz...
      - Porque  que o general proibia?
      Timokine ps-se a rebolar os olhos, muito confuso, sem saber como responder a esta pergunta. Ento Pedro dirigiu-se ao prncipe Andr.
      - Para no arruinarmos o territrio que abandonmos ao inimigo - replicou este, com uma entoao de amarga ironia. -  justo: no pode consentir-se que as tropas saqueiem o pas e os soldados se habituem a roubar. J em Smolensk, o pensar que os Franceses podiam vir por ai abaixo e que dispunham de foras superiores s nossas, vira as coisas com equidade. O que ele no pode compreender, no entanto - gritou, subitamente, fazendo vibrar a sua voz fina - o que ele no pode compreender e que ns nos batemos pela primeira vez em defesa da terra russa, que as nossas tropas lutam com uma coragem que eu lhes no conhecia, que durante dois dias seguidos detivemos os Franceses e que a nossa resistncia nos duplicara, as foras. E apesar disso deu ordem de retirada e foram baldados todos os nossos esforos e todas as nossas perdas. Naturalmente no queria trair-nos, procurava arranjar as coisas da melhor maneira, calculara tudo Mas exactamente por isso  que nada vale. Nada vale hoje precisamente por tudo ter previsto, prudente e cauteloso como bom alemo que . Como hei-de explicar-te?... Supe que teu pai tinha um criado alemo, um criado excelente, que adivinhava todos os seus pensamentos melhor do que tu prprio. E, como  natural, deixarias que ele continuasse a servi-lo. Mas supe que teu pai adoecia gravemente, ento tratarias de o pr de lado e serias tu, com as tuas mos desajeitadas e inexperientes, que cuidarias dele e muito melhor do que, um estranho, por mais hbil que fosse. Ora foi assim que procederam para com Barclay. Enquanto a Rssia esteve de perfeita sade, qualquer estrangeiro podia servi-la, e este era um excelente ministro, mas desde que a sua vida corre perigo,  de um homem do seu sangue que ela precisa. L no teu meio, no teu clube, acharam que ele era um traidor. Caluniando-o dessa maneira  que depois se envergonharo dos juzos temerrios que sobre ele ousaram, acabando por fazer dele um heri ou um gnio, coisa ainda mais injusta.  um alemo honrado e meticuloso...
      - No entanto, dizem que  um cabo-de-guerra muito hbil - contraveio Pedro.
      - No sei o que isso quer dizer - continuou o prncipe Andr, sorrindo.
      - Um hbil cabo-de-guerra  aquele que prev todas as eventualidades... que adivinha as intenes do adversrio.
      -  impossvel! - replicou Andr, como se no pudesse haver dvidas a tal respeito.
      Pedro fitou-o, estupefacto.
      - H quem diga, no entanto - voltou ele - que a guerra  como que uma partida de xadrez.
      - Talvez - replicou o prncipe Andr -, mas com esta pequenina diferena: que no xadrez, antes de mexeres uma pedra, te  dado pensares o tempo que quiseres, o tempo no urge: e com esta diferena ainda: que o cavaleiro  sempre mais forte que o peo, que dois pees so sempre mais fortes do que um, enquanto na guerra um batalho s vezes  mais forte que uma diviso e outras mais fraco que uma companhia. Ningum , competente para conhecer a fora relativa das tropas. Acredita no que te digo: se o resultado dependesse das medidas tomadas pelos estados- maiores, eu teria ficado no estado-maior e a daria as minhas ordens, mas  aqui, neste regimento, que eu e estes senhores temos a honra de servir;  de ns, realmente, em minha opinio, que depende o dia de amanh e no deles... O xito nunca dependeu, nunca depender, nem da posio, nem do armamento, nem mesmo do nmero de tropas, sobretudo nunca dependeu da posio.
      - Ento de que depende?
      - Do sentimento ntimo que existe em mim, naquele - apontou para Timokine -, no sentimento ntimo de cada soldado.
      O prncipe Andr olhava fixamente para Timokine, que, por sua vez, fitava o seu comandante com olhos assustados e estupefactos. Em vez de calado e sorumbtico, como habitualmente, o prncipe Andr parecia agora extremamente agitado. Percebia-se que no podia deixar de exprimir os pensamentos que lhe acudiam em tropel.
      - Ganha a batalha quem decide firmemente ganh-la. Porque perdemos ns a batalha de Austerlitz? As nossas baixas eram quase iguais s dos Franceses, mas tnhamos dito a ns prprios cedo de mais que seramos vencidos e na verdade fomos. E se o dissemos  porque no tnhamos porque rios bater ali: s queramos abandonar o campo de batalha quanto mais depressa melhor. A batalha est perdida, tratemos de fugir! E demos s de vila-diogo. Se assim no tivssemos falado muito antes do fim da jornada, s Deus sabe o que teria acontecido. Amanh no diremos a mesma coisa. Dizes tu que a nossa posio, a do flanco esquerdo.  fraca, que o nosso flanco esquerdo  extenso de mais. Tolices, tudo tolices, isso nada quer dizer. Que nos espera amanh? Haver milhes de possibilidades diversas, infinitamente variadas, que num momento dado faro que os deles ou os nossos homens desatem a fugir, que este ou aquele seja morto. Mas a verdade  que tudo quanto neste momento se faa no passa, de uma brincadeira, Na realidade, esses com quem til visitaste a posio, em vez de ajudarem a marcha geral das operaes, esto a entrav-la. S uma coisa os preocupa: os seus pequeninos interesses pessoais.
      - Num momento destes?! - indignou-se Pedro.
      - Sim, num momento destes - continuou o prncipe Andr. - Este momento, para eles,  apenas o momento em que lhes  possvel minar a situao de um adversrio e conseguir mais uma cruz ou mais uma palma. Quanto a mim, eis como a situao se apresenta amanh. Cem mil russos vo defrontar cem mil franceses.  um facto que estes duzentos mil homens se vo bater e que sairo vencedores aqueles que se mostrem mais encarniados mi luta e que menos se compadeam de si prprios. E dir-te-ei mais: acontea o que acontecer, sejam quais forem as maquinaes dos chefes, seremos ns quem ganhar a batalha de amanh. Amanh, apesar de tudo, ganharemos a batalha.
      - Excelncia, essa  a pura verdade - pronunciou Timokine.- Ser a altura de poupar vidas? Pode crer, os soldados do meu batalho no quiseram beber vodka. No  dia para isso, disseram eles.
      Todos ficaram calados. Depois os oficiais levantaram-se. O prncipe Andr acompanhou-os para dar as ltimas ordens ao ajudante-de-campo. Assim que eles saram, Pedro aproximou-se do prncipe Andr disposto a cavaquear com ele, quando, na estrada, a pequena distncia do telheiro, se ouviu o trote de trs cavalos, e o prncipe Andr, relanceando os olhos nessa direco, reconheceu Woltzogen e Clauzewitz, acompanhados de um cossaco. To perto passaram deles que puderam ouvir o que diziam: falavam alemo:
      -  preciso que a guerra se espalhe. No posso exprimir-lhe a elevada apreciao deste juzo - dizia um deles.
      - Oh, sim! - replicou o outro. - Como o objectivo consiste em debilitar o inimigo, no se podem tomar em considerao as perdas de homens.
      - Evidentemente - afirmou o primeiro.
      - Sim, que a guerra se espalhe (Em alemo no texto original. (N, dos T) - repetiu o prncipe Andr, numa expresso de clera depois de eles passarem- Que eu tenha deixado um pai, um filho, uma irm, em Lissia Gori, isso para eles no importa. Era o que eu te dizia, no sero estes senhores alemes quem ganhar amanh a batalha: no faro outra coisa seno complic-la em tudo que estiver nas suas mos; naquelas cabeas no h seno raciocnios que no valem um ovo furado e queles coraes falta-lhes a nica coisa precisa para amanh, aquilo que tem Timokine. Entregaram-lhe a ele toda a Europa e agora vm dar-nos lies... Ricos mestres! concluiu numa voz spera.
      - Est ento convencido de que se ganhar a batalha de amanh? - inquiriu Pedro.
      - Sim, estou - replicou o prncipe Andr, distraidamente. - Uma deciso tomaria, se tivesse poderes para tal: no fazer prisioneiros. Prisioneiros? Eis o que  cavalheiresco! Os Franceses saquearam-me a casa e tentaram destruir Moscovo. Ultrajaram-me e outra coisa no fazem seno ultrajar-me. So meus inimigos, e para mim todos so criminosos. E  assim que pensam Timokine e o resto do exrcito.  preciso castig-los. Desde que so meus inimigos no podem ser meus amigos, apesar de tudo o que disseram em Tilsitt.
      - Sim, realmente - replicou Pedro, olhando para o amigo com olhos brilhantes.- Estou completamente de acordo consigo.
      Naquele momento o problema que preocupava Pedro desde a encosta de Mojaisk afigurou-se-lhe claro e fcil de resolver, Agora compreendia inteiramente o sentido e a importncia da guerra que se travava e da batalha que ia dar-se. Tudo o que vira durante aquele da, aquela expresso grave dos rostos que observara ao passar pelos homens, se iluminou para ele de um novo esplendor. Compreendeu esse calor oculto, latente, como se diz em fsica, o calor do patriotismo que emanava de toda essa gente e isso explicava-lhe porque todos, serena e por assim dizer despreocupadamente, se preparavam para morrer.
      - No fazer prisioneiros - prosseguiu o prncipe Andr - seria transformar a guerra e torn-la menos cruel. Em vez disso, no fizemos outra coisa seno brincar s guerras. E esse foi o erro: mostrmo-nos magnnimos, etc. Esta magnanimidade, este sentimentalismo, fazem-me lembrar a senhora que desmaia quando v matar uma vitela.  to boazinha que no pode ver correr sangue, embora seja capaz de comer com apetite essa mesma vitela servida com um molho saboroso. Falam-nos nos direitos da guerra, de cavalheirismo, de parlamentrios, de humanidade para com os desgraados e de outras coisas no mesmo gnero. Tudo isso so tolices. Eu bem vi em 1805 todas essas lindas coisas, esse cavalheirismo, esse respeito pelos parlamentrios.. Enganaram-nos, e ns, pela nossa parte, fizemos o mesmo. Saqueiam casas que lhes no pertencem, espalham dinheiro falso, e, coisa pior ainda, matam-nos filhos, pais, e depois vm-nos falar das leis da guerra e da generosidade para com o inimigo. No fazer prisioneiros, mas mat-los a todos e morrermos tambm! Aquele que chegou, como eu, a esta convico, depois de ter passado pelos mesmos sofrimentos...
      O prncipe Andr ia dizer ser-lhe indiferente que Moscovo viesse a ser ou no tomada, como o fora Smolensk, mas calou-se de chofre: um espasmo imprevisto lhe apertava a garganta. Deu alguns passos calado, mas nos seus olhos havia um brilho febril e os seus lbios tremiam quando retomou a palavra:
      - ...Se no existisse esta falsa magnanimidade na guerra, no caminharamos para a morte seno quando a morte fosse certa, como acontece hoje. No haveria guerras com o pretexto de que Pavel Ivanitch ofendeu Mikail Ivanitch. Mas em compensao quando houvesse uma guerra como a de hoje ento seria uma guerra a valer. E no haveria tambm grandes massas de tropas em aco, como agora. Todos esses westfalianos e todos esses hessianos que Napoleo traz consigo no o teriam seguido at  Rssia, e ns, pela nossa parte, no nos teramos ido bater ia ustria e na Prssia, sem mesmo saber por que razo. A guerra no  um divertimento, mas a coisa mais repugnante deste mundo.  preciso compreend-la e no nos servirmos dela como uma brincadeira.  preciso aceitar seriamente, com austeridade, esta terrvel necessidade. E daqui no h que sair,  preciso acabar Com a mentira: a guerra, sim, a guerra  a guerra e no um divertimento. De outro modo a guerra ser um entretenimento prprio de ociosos e de espritos superficiais. A classe militar  das mais dignas, Mas que  a guerra? Que  preciso para se ter xito nas operaes militares? Quais so os costumes da sociedade militar? A finalidade da guerra  o homicdio; as suas armas so a espionagem, a traio, a runa dos habitantes, o saque e o roubo organizados para manuteno do exrcito, a fraude e a mentira mascaradas como astcias de guerra. Quais os costumes da classe militar? A supresso da liberdade sob o pretexto da disciplina, a ociosidade, a grosseria, a crueldade, a devassido, a embriaguez, E, apesar de tudo,  uma classe superior, respeitada por todos. Todos os reis,  excepo do imperador da China, envergam o uniforme militar e as mais altas recompensas reservam-se para aquele que mais gente matou. Renem-se os soldados, como vai acontecer amanh, para se chacinarem uns aos outros. Matar-se-o e ficaro mutilados dezenas de milhares de homens e depois haver cerimnias religiosas de aco de graas por se terem morto tantos homens, sem que, no entanto, se deixe de exagerar o nmero dos que se mataram, proclamando-se a vitria, dizendo que quanto maior o nmero de mortos mais retumbante esta ser. Como  possvel que Deus os oua e os escute l de cima? - clamou o prncipe Andr na sua voz colrica.  Oh, querido amigo, durante os ltimos tempos muito penoso me tem sido viver! Vejo que principiei a compreender coisas de mais. No  bom conhecer o homem os frutos da rvore do bem e do mal... Mas no ser por muito tempo - acrescentou. - Parece que ests com sono e para mim tambm so horas de dormir. Bom, volta para Gorki - disse, de sbito.
      - Oh! No! - replicou Pedro, fitando Andr com os olhos ao mesmo tempo assustados e enternecidos.
      - Vai-te, vai-te!  preciso dormir bem antes da batalha. 
      Aproximou-se rapidamente de Pedro, abraou-o e beijou-o. 
      - Adeus! Vai-te embora! - exclamou. - Tornar-nos-emos a ver?...
      Deu meia volta rapidamente e recolheu-se ao telheiro.
      Estava escuro e Pedro no pde ver se no rosto do prncipe Andr transparecia raiva ou ternura.
      Pedro permaneceu um momento em silncio sem saber se devia seguir o amigo ou retirar-se. No, no precisa de mim!, decidiu. Tambm eu sei que  a ltima vez que nos vemos. Soltou um fundo suspiro e regressou a Gorki.
      O prncipe Andr, ao voltar ao telheiro, estendeu-se sobre uma manta, mas no pde dormir.
      Fechou os olhos. Imagens sobre imagens lhe perpassaram pela mente. O pensamento deteve-se-lhe por muito tempo e comovidamente numa delas. Uma noite, em Petersburgo. Natacha, muito animada e de rosto afogueado, contava-lhe como se perdera, no Vero anterior, andando a apanhar cogumelos, numa grande mata. E ia descrevendo-lhe, entrecortadamente, a floresta espessa, o que sentira, a conversa que tivera com um apicultor que encontrara ali; de vez em quando suspendia a narrativa para exclamar: No, no sei, no sei contar: no, no me pode compreender. E ele tranquilizava- a, dizia-lhe compreend-la muitssimo bem; efectivamente sabia muitssimo bem o que ela queria dizer. Natacha, porm, estava desolada por no ser capaz de exprimir como desejava a emoo potica que nesse dia lhe inundara a alma. O velho era to maravilhoso, estava to escuro na floresta... e eram to bondosos os seus... No, no sei como dizer-lhe!, exclamava de novo, muito ruborizada e numa grande excitao. E Andr sorria agora com o mesmo venturoso sorriso com que ento a olhara nos olhos. Ah, compreendia-a perfeitamente. Sim, compreendia-a, e era isso mesmo que eu amava nela, essa alma que trasbordava, essa sinceridade, essa candura, essa alma que parecia no lhe caber no corpo... Sim, era essa alma que eu to intensamente amava, que to feliz me fazia...  E, de sbito, de novo se lembrou como terminara aquele idlio. Aquele homem nada disto o embaraava. Nada via, nada compreendia de todas estas coisas. Para ele era apenas uma garota bonita, um botozinho, que nem sequer considerava digna de associar ao seu destino, Enquanto eu... no entanto, l continua alegre e bem disposto.
      Como se se sentisse queimado por um ferro em brasa, Andr ergueu-se de um salto e principiou a andar de um lado para o outro diante do telheiro.
      

      
      
      
      Captulo XXVI
      
      No dia 25 de Agosto, vspera da batalha de Borodino, haviam chegado ao acampamento de Napoleo em Valuieva o prefeito do palcio imperial, Monsieurs de Beausset, e o coronel Fabvier, o primeiro vindo de Paris e o segundo de Madrid.
      Depois de envergar o seu uniforme palaciano, Monsieur de Beausset principiou por pedir que lhe trouxessem o embrulho que devia entregar ao imperador. Depois penetrou no primeiro compartimento da tenda imperial, e enquanto ia conversando com os ajudantes-de-campo ai presentes ps-se a abrir a caixa que lhe trouxeram.
      Fabvier, sem penetrar na tenda, detivera-se  entrada a cavaquear com os generais seus conhecidos.
      O imperador Napoleo ainda, no sara do seu quarto de, dormir, onde acabava de se arranjar. Resfolegando e espirrando, ia, voltando ora as espadadas costas ora a peitaa cabeluda para a escova coro que o friccionava o criado de quarto. Entretanto, outro criado, com o dedo no gargalo de um frasco, espargia de gua-de-colnia o corpo bem tisnado do amo e lia-se no rosto que s ele estava em condies de saber em que stio o devia pulverizar e quanto. Os cabelos curtos de Napoleo, molhados, empastavam-se-lhe na testa. Mas o rosto, embora balofo e amarelento, respirava bem-estar fsico. V, com firmeza, continue..., dizia ele., encolhendo-se e espirrando enquanto a escova o friccionava. Um ajudante-de-campo que penetrara na tenda para lhe comunicar o nmero de prisioneiros feitos no recontro da vspera, cumprida a sua misso, aguardava a ordem de se retirar- Napoleo, franzindo as sobrancelhas, olhava-o de soslaio.
      - No h prisioneiros - repetia ele - Deixam-se matar. Tanto pior para o exrcito russo. V, com firmeza, continue -, prosseguia ele, encolhendo o peito e apresentando ao criado os robustos ombros.
      - Bem, mande entrar Monsieur de Beausset, assim como Fabvier - disse ao ajudante-de-campo, com um aceno de cabea
      - Sim, Sire. - E o ajudante-de-campo desapareceu.
      Os dois criados vestiram num rufo o seu amo, o qual, envergando o uniforme azul da Guarda, se dirigiu para a antecmara em passos rpidos e firmes.
      Monsieur de Beausset, entretanto, dera-se pressa em instalar sobre duas cadeiras, mesmo em frente do focal por onde o imperador devia passar, o presente que trouxera da parte da imperatriz. Napoleo, porm, vestira-se to depressa e surgira to inopinadamente que no tivera tempo de preparar a surpresa como queria.
      O imperador percebeu imediatamente que tramavam qualquer coisa e que a surpresa ainda no estava pronta. No quis privar Monsieur de Beausset do prazer que antegozava. Fingiu no dar pela sua presena e fez sinal a Fabvier para que se aproximasse. Napoleo ouviu, de sobrecenho carregado e sem nada dizer, os elogios do coronel  bravura e  dedicao das suas tropas que se haviam batido em Salamanca, na outra extremidade da Europa, e cujo nico desejo era serem dignas do seu imperador, s receando uma coisa: no o satisfazer. O resultado da batalha no fora feliz. Napoleo, enquanto Fabvier falava, dirigiu-lhe algumas observaes irnicas das quais se depreendia que, estando ele ausente, no era outro o resultado que esperava.
      - Tenho de compensar isto em Moscovo. - comentou. - At j - disse, e chamou De Beausset, que entretanto conseguira preparar a sua surpresa, instalando-a em cima de rima cadeira e cobrindo-a com um pano.
      De Beausset fez uma reverncia  francesa, como o sabiam os antigos servidores dos Bourbons, e aproximou-se com um sobrescrito na mo.
      Napoleo colheu-o com jovialidade e puxou-lhe a ponta da orelha.
      - No perdeu tempo. Muito folgo. Ento, que diz Paris? - acrescentou, ao mesmo tempo que no rosto, grave lhe transparecia uma expresso cheia de ternura.
      - Sire, Paris inteiro lastima a sua ausncia - replicou De Beausset cheio de a-propsito,
      Posto Napoleo soubesse que aquelas ou quejandas palavras eram da praxe na boca de Monsieur de Beausset, e apesar de nos seus momentos de lucidez perceber que tudo aquilo era falso, a frase soou-lhe bem. E de novo se dignou puxar-lhe a orelha.
      - Lastimo t-lo obrigado a fazer uma to longa jornada - disse ele.
      - Sire, nunca esperei encontr-lo seno s portas de Moscovo - replicou De Beausset.
      Napoleo sorriu-se e, soerguendo a cabea, lanou um olhar indiferente a sua direita. Um ajudante-de-campo aproximou-se rpido, e apresentou-lhe uma tabaqueira de ouro.
      Napoleo pegou na caixa.
      - Sim, teve sorte - disse ele, aproximando do nariz a tabaqueira aberta -, dentro de trs dias, o senhor, que tanto gosta de viajar, vai ter ocasio de ver Moscovo. Naturalmente no contava visitar a capital asitica. Vai fazer uma linda viagem.
      De Beausset inclinou-se reconhecido pela delicada ateno do seu soberano, que lhe atribua inclusivamente gostos de que ele nem sequer suspeitava.
      - E isto que ? - interrogou Napoleo, ao reparar que toda sua comitiva tinha os olhos num objecto coberto com um pano. 
      De Beausset, com ligeireza de corteso, recuou dois passos, sem voltar as costas, e retirou o pano ao mesmo tempo que dizia: 
      - Um presente para Vossa Majestade da parte da imperatriz. - Era um retrato, de cores vivas, pintado por Grard, do filho de Napoleo e de Maria Lusa, a quem toda a gente, sem que se soubesse porqu, chamava rei de Roma.
      A linda criana, cujo olhar lembrava o do Menino Jesus da Madona Sistina, jogava a emboca-bola. A bola era o globo terrestre e a forquilha que tinha na outra mo representava um ceptro.
      Embora a inteno do pintor figurando o rei de Roma a perfurar o globo terrestre com uma forquilha no fosse muito clara, a alegoria agradara e parecera clarssima tanto aos olhos dos que tinham visto o quadro em Paris como aos do prprio Napoleo.
      - O Rei de Roma! - exclamou ele, com um gesto gracioso. - Admirvel!
      Com essa facilidade to dos italianos de mudarem de expresso a seu talante, aproximou-se do retrato com um ar ao mesmo tempo cismador e enternecido. Sentia que o que dissesse e o que fizesse naquele momento pertenciam  histria. Em contraste com sua magnificncia graas  qual seu filho podia jogar a emboca-bola com o prprio mundo, afigurava-se-lhe que o que de melhor tinha a fazer era mostrar uma expresso da mais singela ternura paternal. Os olhos velaram-se-lhe de lgrimas, aproximou-se, procurou com os olhos uma cadeira, que logo se apressaram a chegar-lhe, e sentou-se diante do retrato. A um ligeiro gesto seu, toda a gente saiu em bicos de ps, deixando o grande homem sozinho com os seus pensamentos.
      Depois de permanecer algum tempo naquela muda contemplao, enquanto, sem saber porqu, percorria a rugosidade das tintas com a palma de uma das mos, levantou-se e chamou De Beausset e o oficial de servio. Deu ordem para que o retrato fosse colocado diante da tenda. Assim a velha Guarda no seria privada da grande ventura de ver o rei de Roma, filho e herdeiro do seu adorado imperador.
      Como j o esperava, enquanto almoava com Monsieur de Beausset, a quem concedera essa honra, ressoaram diante da tenda os gritos entusiastas dos oficiais e dos homens da Guarda, que se haviam aproximado.
      - Viva o Imperador! Viva o Rei de Roma! Viva o Imperador!
      Findo que foi o almoo. Napoleo, na presena de De Beausset, ditou a ordem do dia ao exrcito.
      - Curta e enrgica! - disse ele quando acabou de ler a proclamao, escrita de um s jacto, sem uma rasura.
      A proclamao dizia:
      
      Soldados! Eis aqui a batalha que tanto desejveis! A vitria depende de vs e -nos indispensvel; com ela teremos abundncia, bons aquartelamentos de Inverno e um rpido regresso  ptria! Comportai-vos como vos comportastes em Austerlitz, em Friedland, em Vitebsk e em Smolensk e a posteridade recordara, orgulhosa, as vossas faanhas deste dia. Que se possa dizer de cada um de vs: este esteve na grande batalha de Moscovo.
      
      - De Moscovo! - repetiu Napoleo, e, tendo convidado Monsieur de Beausset, grande amador de viagens, a acompanh-lo no seu passeio, saiu da tenda e dirigiu-se para os cavalos, j selados.
      -  muita bondade de Vossa Majestade - respondeu De Beausset ao convite de Napoleo, conquanto muito desejasse ir dormir e no soubesse montar a cavalo.
      Napoleo acenou com a cabea ao visitante e este no teve outro remdio seno acompanh-lo. Quando o imperador saiu da tenda, recrudesceram as aclamaes dos soldados da Guarda diante do retrato. Napoleo franziu o sobrolho.
      - Tirem-no da - disse ele, apontando para o retrato com um gesto majestoso e cheio de graciosidade. - Ainda  muito cedo para que essa criana veja um campo de batalha.
      Cerrando os olhos e inclinando a cabea. De Beausset soltou um profundo suspiro, como querendo significar que avaliava muito bem as palavras que o imperador acabava de pronunciar.
      

      
      
      
      Captulo XXVII
      
      Os historiadores de Napoleo contam que o imperador passou toda a manh desse dia 25 de Agosto a cavalo, examinando o terreno, discutindo os planos que os marechais lhe apresentavam e transmitindo pessoalmente as suas ordens aos generais.
      A linha primitiva dos Russos ao longo do no Kolotcha fora perfurada e uma parte dessa linha, a saber, o flanco esquerdo, depois da tomada do reduto de Chevardino, no dia 24, tivera de recuar. Essa parte no estava fortificada nem defendida por um curso de gua e diante dela havia apenas uma plancie descoberta e lisa. Era evidente, tanto para os observadores militares como para os leigos, que por ali os Franceses atacariam. Para isso no pareciam precisas quer tantas combinaes, quer tantas preocupaes e diligncias da parte do imperador e dos seus marechais, bem como parecia dispensvel essa alta capacidade muito especial a que se d o nome de gnio e que tanto gosto se exibir a Napoleo. Porm, os historiadores que mais tarde descreveram este acontecimento, as pessoas da sua comitiva e ele prprio pensavam de outra maneira.
      Napoleo percorria o campo examinando atentamente a topografia, do local, abanava a cabea ora para aprovar ora para rejeitar as sugestes que lhe faziam, sem nada dizer aos generais sobre a marcha secreta dos pensamentos que o levavam s suas decises, e no lhes dava a conhecer seno as suas concluses definitivas, j como ordens. A Davout, a quem chamava prncipe de Eckmhl, que propusera se contornasse o flanco esquerdo do inimigo, respondera simplesmente Napoleo que tal no devia fazer-se, e sem explicar porqu. Mas tendo o general Compans, encarregado de, atacar as flechas, emitido a opinio de que se fizesse marchar a sua diviso atravs da floresta, o imperador aprovou-o, embora o pretenso duque de Elchingen, isto , Ney, se tivesse permitido observar que os movimentos atravs da floresta podiam ser perigosos e provocar a desordem nas fileiras.
      Depois de examinar o terreno diante do reduto de Chevardino, o imperador quedou-se por momentos pensativo e silencioso, indicando, em seguida, os locais onde deviam ser instaladas no dia seguinte as duas baterias destinadas a atacar a, fortificaes russas e onde, a seu lado, deveria ser instalada a artilharia de campanha.
      Depois de ter dado esta e outras ordens, regressou  sua tenda, e o dispositivo das tropas foi redigido por escrito e, ditado por ele. Os seus historiadores falam com grande entusiasmo e demais com grande respeito desse dispositivo.
      
      ORDEM DE BATALHA
      
      Dada no acampamento imperial, na retaguarda de Mojaisk, 
      a 6 de Setembro de 1812
      
      Ao amanhecer, as duas novas baterias, instaladas durante a noite no plaino do prncipe de Eckmhl, rompero fogo contra as duas baterias inimigas dispostas na sua frente.
      Na mesma altura, o general Pernety, comandante de artilharia do 1 corpo, com as trinta bocas de jogo da diviso Compans e todos os obuses das divises Dessaix e Friant, que avanaro, romper fogo e inundar de granadas a bateria inimiga, a qual, deste modo, ter contra si vinte e quatro peas da Guarda, trinta da diviso Compans e oito das divises Friant e Dessaix, Total, sessenta e duas bocas de fogo.
      O general Foucher, comandando a artilharia do 3.` corpo, colocar-se-, com todas as baterias de obuses dos 3 e 8 corpos, num total de dezasseis, em volta da bateria que bombardeia o reduto da esquerda, o que perfar um conjunto de quarenta bocas de fogo contra esta bateria.
      O general Sorbier esta preparado para  primeira voz se dirigir com todas as baterias de obuses da Guarda contra uma ou outra das fortificaes.
      Durante este canhoneio, o prncipe Poniatowski dirigir-se-, atravs da floresta, em direco  aldeia e contornar a posio inimiga. O general Compans embrenhar-se- na floresta para tomar o primeiro reduto.
      Uma vez a batalha comeada desta sorte, as ordens sero dadas consoante os movimentos do inimigo.
      O canhoneio da esquerda iniciar-se- assim que se ouvir o canhoneio da direita. Os atiradores da diviso Morand e das divises do vice-rei, assim que virem principiado o ataque da direita, abriro fogo muito intenso. O vice-rei ocupar a aldeia, transpondo as trs pontes, e seguir ao mesmo nvel das divises de Morand e de Friant, que, sob o seu comando, se dirigiro para o reduto e penetraro na linha com as demais tropas.
      Tudo isto ser feito com ordem e mtodo e conservando sempre uma boa reserva de homens.
      
      Este dispositivo, pouco claro e assaz confuso, se assim nos  permitido referirmo-nos, sem blasfmia, ao gnio de Napoleo, encerrava quatro pontos, quatro disposies. Nenhum deles se podia cumprir nem nenhum foi cumprido.
      A ordem dizia, em primeiro lugar, que as baterias instaladas no local escolhido pelo imperador, bem como as peas de Pernety e de Foucher, que a elas se deveriam associar, ou seja, na sua totalidade, cento e duas bocas de fogo, romperiam fogo e inundariam de granadas as flechas russas e o reduto. Eis o que era impossvel, visto que dos locais designados os projcteis no Podiam alcanar as fortificaes russas e estas cento e duas peas disparariam debalde at que um comandante, procedendo contra as ordens dadas, as mandasse avanar.
      A sua segunda resoluo determinava que Poniatowski se dirigisse  aldeia, atravs da floresta, para contornar a ala esquerda dos Russos. Eis o que no podia executar-se, e o no foi, pois a Poniatowski deparou-se-lhe, na floresta, Tutchkov, que lhe cortou o passo e o impediu de contornar a posio.
      A terceira determinao dizia que o general Compans atravessaria a floresta para se apoderar da primeira fortificao. A diviso Compans no pde apoderar-se desta fortificao e foi repelida, visto que, ao desembocar da floresta, se viu obrigada a alinhar sob um fogo de metralha que Napoleo no previra.
      E a quarta, por fim: O vice-rei ocupar a aldeia de Borodino transpondo as trs pontes, e seguir ao mesmo nvel das divises de Morand e Friant, que, sob o seu comando, se dirigiro para o reduto e penetraro na linha com as demais tropas.
      Tanto quanto  possvel interpretar esta ordem, no quanto sua confusa redaco, mas de acordo com as tentativas feitas pelo vice-rei para a executar, devia ele atravessar Borodino  esquerda do reduto, enquanto as divises Morand e Friant atacariam a frente ao mesmo tempo.
      Esta ordem, assim como todos os outros pontos do dispositivo, no foi executada nem o podia ser. Depois de ter ultrapassado Borodino, o vice-rei foi repelido para o no Kolotcha e no pde avanar mais: quanto s divises de Morand e Friant, essas no tomaram o reduto, sendo esmagadas, e o reduto apenas foi tomado pela cavalaria no fim da batalha, circunstncia que Napoleo naturalmente no previra. Assim, nenhuma das disposies preconizadas foi executada e no o podia ser. L-se ainda nesse documento que, uma vez iniciada a batalha de acordo com o dispositivo assente, ordens ulteriores seriam dadas, consoante os movimentos do inimigo. Era, portanto, de presumir que durante a batalha Napoleo desse todas as ordens necessrias. Ora tal no aconteceu, o que alis seria impossvel, visto que, como depois veio a saber-se, o imperador, durante o combate, se manteve to afastado que no podia ter conhecimento do desenrolar da batalha e que nenhuma das suas ordens poderia ter sido executada.
      

      
      
      
      Captulo XXVIII
      
      Muitos historiadores garantem que a batalha de Borodino no foi ganha pelos Franceses devido a Napoleo, nesse dia, estar constipado, e que, se no fosse isso, as suas ordens anteriores  batalha e durante ela teriam sido ainda mais geniais, a Rssia teria sido derrotada e a face do mundo teria sido outra. Para os historiadores que admitem ser a Rssia obra da vontade de um nico homem, de Pedro, o Grande, que a Frana se metamorfoseou de repblica em imprio e que os exrcitos franceses penetraram naquele pas graas  vontade de um s homem, de Napoleo, aceitar que a Rssia se manteve poderosa apenas porque o imperador estava muito constipado no dia 26 eis o que  raciocinar com toda a lgica.
      Se tivesse dependido da vontade de Napoleo travar ou no a batalha de Borodino, se dele dependesse tomar esta ou aquela disposio,  evidente que uma constipao, capaz, necessariamente, de influenciar as manifestaes da sua vontade, podia ter sido a causa da salvao da Rssia e o criado de quarto que no dia 24 se esqueceu de dar umas botas impermeveis ao imperador seria a esta hora, certamente, o nosso salvador. Nesta ordem de ideias, a concluso  indiscutvel, to indiscutvel como o gracejo de Voltaire ao atribuir a matana de S. Bartolomeu a uma indisposio de estmago de Carlos IX. Mas, para os homens que se recusam a admitir que os acontecimentos importantes possam ser a consequncia da manifestao da vontade de um s homem, o argumento anterior, alm de pura e simplesmente absurdo,  contrrio a toda a verdadeira lgica humana. Quando se inquire da causa dos acontecimentos histricos, outra resposta pode dar-se, qual seja a que o caminho das coisas deste mundo est determinado antecipadamente, dependendo do concurso do livre arbtrio de todos os actores dos acontecimentos, no sendo seno externa e aparente a influncia que sobre eles possam exercer os Napolees.
      Por estranho que parea  primeira vista a assero segundo a qual a ordem dada por Carlos IX para a matana de S. Bartolomeu s aparentemente dependeu da sua vontade, e que a batalha de Borodino, em que oitenta mil homens perderam a vida, no haja sido ordenada por Napoleo, embora tenha sido ele quem deu essa ordem e quem orientou os lances da batalha, pois apenas julgou faz-lo, por mais ilgico que se suponha, a dignidade humana que nos diz que cada um de ns no  mais nem menos homem do que qualquer Napoleo leva-nos a admitir essa soluo como uma hiptese, e as investigaes histricas plenamente confirmam tal ponto de vista.
      Na batalha de Borodino, Napoleo no disparou um nico tiro (1 no matou quem quer que fosse. Foram os seus soldados quem tudo fez. Por consequncia, no foi ele quem matou.
      Os soldados do exrcito francs acorreram a matar o seu semelhante no para executarem ordens, mas de livre vontade, Todo o exrcito - franceses, italianos, alemes, polacos  esfomeado, esfarrapado, morto de fadiga, ao ver-se diante desse outro exrcito que lhe cortava o passo para Moscovo, teve a impresso de que o que no tem remdio, remediado est, Se naquele momento Napoleo tivesse proibido os seus soldados de se baterem com os Russos, t-lo-iam matado a ele, e teriam ido bater-se fosse como fosse, visto isso ser inevitvel.
      Quando ouviram ler a ordem do dia de Napoleo, na qual lhes prometia, para os recompensar dos ferimentos e da morte, o orgulho, para a posteridade, de terem estado na batalha de Moscovo, gritaram. Viva o Imperador! exactamente como tinham gritado: Viva o Imperador! ao verem a criana que trespassava o globo terrestre com um taco de emboca-bola, e tal qual como o fariam de cada vez que lhes dissessem uma tolice do mesmo gnero. Outra coisa, no podiam fazer seno gritar: Viva o Imperador! e marchar para a batalha. Eis a nica maneira, de virem a encontrar em Moscovo, depois da vitria, po para a boca e descanso para o corpo, E eis como no foi por causa das ordens do seu amo que eles mataram o seu semelhante.
      E tambm no foi Napoleo quem dirigiu a luta, visto nada se ter cumprido do dispositivo que ele traara, e que ele prprio nada soube da marcha da batalha. Assim, pois, o facto de estes soldados terem chacinado o seu semelhante no veio a produzir-se por vontade de Napoleo, mas deu-se, sem sua interveno, graas  vontade dessas centenas de milhares de homens que, intervieram no acontecimento. Bonaparte teve apenas a iluso de, que tudo era obra de sua vontade. Por isso mesmo, o ter estado ,constipado ou no conta mais para a histria que a constipao de qualquer dos seus mais modestos soldados.
      A constipao de Napoleo no dia 26 de Agosto ainda se torna menos importante desde o momento em que so injustificadas as demonstraes dos historiadores ao dizerem ter sido por causa desta indisposio que as suas resolues durante a batalha foram menos eficazes do que das outras vezes.
      O dispositivo atrs citado no era pior do que os anteriores, era mesmo melhor que todos os que tinham servido para ganhar outras batalhas. As supostas ordens dadas por Napoleo durante o combate no eram piores que as precedentes, mas exactamente iguais. No entanto esse dispositivo e essas ordens pareceram piores porque a batalha de Borodino foi a primeira que Napoleo no ganhou. Os mais belos e mais profundos planos parecem sempre maus e os sbios estrategos criticam-nos com um ar proficiente sempre que acontece no terem levado  vitria; pelo contrrio, parecem excelentes as mais contestveis disposies, e os autores mais srios no se cansam de lhes louvar os mritos, enchendo sobre eles volumes e volumes, desde que levaram  vitria.
      O dispositivo de Weirother em Austerlitz era modelar no seu gnero; no entanto, foi desaprovado e desaprovaram-no precisamente por causa da sua perfeio, da mincia dos seus pormenores.
      Na batalha de Borodino, Napoleo desempenhou o seu papel de representante do poder to bem ou melhor do que em qualquer das outras batalhas. Nada fez que prejudicasse a marcha dos acontecimentos. Tomou as medidas mais sensatas; no perdeu a cabea, no caiu em qualquer contradio, manteve o sangue-frio e no fugiu do campo de batalha. Merc do seu grande tacto e da sua experincia guerreira, soube desempenhar com calma e dignidade o papel de personagem fictcia de chefe supremo.
      

      
      
      
      Captulo XXIX
      
      Ao regressar da segunda e minuciosa inspeco das linhas, Napoleo disse:
      - As pedras esto no tabuleiro, amanh comear o jogo!
      Deu ordem para que lhe servissem um ponche, e, chamando De Beausset, ps-se a falar-lhe de Paris, das modificaes que pensava fazer no palcio da Imperatriz, surpreendendo o prefeito com o facto de se lembrar das coisas mais insignificantes da corte.
      Interessou-se por futilidades, entreteve-se a brincar com a mania que De Beausset tinha das viagens e a sua conversa era despreocupada como a de um cirurgio conhecedor do seu ofcio e cheio de confiana em si que vai arregaando as mangas e ajustando o avental enquanto colocam o paciente na marquesa.
      Tudo depende de mim e est claro e definido na minha cabea. Quando chegar o momento de meter mos  obra, ningum far melhor do que eu; por enquanto estou no meu direito de gracejar e quanto mais gracejo e estou sereno tanto mais deveis sentir-vos tranquilos e confiantes e tanto mais o meu gnio vos causar admirao.
      Depois de ingerir o seu segundo copo de ponche, Napoleo foi descansar na expectativa do grave acontecimento que, como ele pensava, iria dar-se no dia seguinte.
      O que se preparava preocupava-o de mais para o deixar dormir, e apesar da constipao, que se lhe agravara com a humidade da noite, s trs horas da manh entrou na grande sala da tenda assoando-se ruidosamente. Perguntou se os Russos no se haviam retirado. Responderam-lhe que as fogueiras inimigas se viam sempre no mesmo stio. Bonaparte abanou a cabea em sinal de aprovao.
      O ajudante-de-campo de servio penetrou na tenda.
      - Ento, Rapp, acha que faremos hoje um bom trabalho? - perguntou Napoleo.
      - Sem dvida nenhuma, Sire - replicou Rapp. Napoleo relanceou-lhe os olhos.
      - Recorda-se, Sire, do que me deu a honra de me dizer em Smolensk? - voltou Rapp. - O que no tem remdio, remediado est.
      Napoleo franziu as sobrancelhas e quedou-se por muito tempo calado, com a cabea entre as mos.
      - Pobre exrcito - exclamou, de sbito - diminuiu muito desde Smolensk. A fortuna  uma verdadeira cortes, Rapp, sempre o disse e comeo a senti-lo. Mas a Guarda, Rapp, a Guarda mantm-se intacta? - perguntou ele.
      - Mantm-se, sim, Sire - respondeu Rapp.
      Napoleo pegou numa pastilha e levou-a  boca enquanto consultava o relgio. No tinha sono; a madrugada ainda vinha longe, e para matar o tempo nem sequer tinha ordens a dar, pois todas as medidas estavam dadas ou postas em execuo.
      - Distriburam os biscoitos e o arroz aos regimentos da Guarda? - inquiriu com severa expresso.
      - Distriburam, Sire. 
      - Mas o arroz?
      Rapp disse ter sido ele prprio quem transmitira pessoalmente essas ordens, mas o imperador abanou a cabea, com ar descontente, como se duvidasse. Um criado entrou com o ponche. Mandou que trouxessem outro copo para Rapp e, calado, ps-se a saborear o ponche, bebendo gole a gole.
      - No tenho nem paladar nem olfacto - disse, cheirando o copo. - Esta constipao  insuportvel. Esto sempre a falar em medicina. Que medicina  esta que no  sequer capaz de curar uma constipao? Corvisart deu-me estas pastilhas, mas para nada prestam. Podero curar?  impossvel curar. O nosso corpo  uma mquina de viver. Est organizado para isso,  da sua natureza; deixe-se nele a vida exprimir-se livremente, que ela prpria se defenda: obrar maiores prodgios do que se a cumularmos de remdios. O nosso corpo  semelhante a um relgio perfeito com corda para um certo tempo; o relojoeiro no tem o poder de o abrir, mas apenas de o manusear s apalpadelas e de olhos vendados... O nosso corpo  uma mquina de viver, eis tudo.
      E embalado nas definies, coisa to do seu agrado, logo ali deu outra.
      - Sabe o que  a arte da guerra, Rapp? - perguntou. -  a arte de ser mais forte do que o inimigo em determinado momento. Eis tudo.
      Rapp no respondeu.
      - Amanh teremos de nos haver com Koutouzoff! - exclamou Napoleo. - Vamos a ver. Lembre-se: era ele quem comandava em Braunau e nem uma s vez em trs semanas montou a cavalo para inspeccionar as fortificaes. Vamos a ver!
      Voltou a olhar para o relgio. Eram apenas quatro horas. No tinha sono, bebera o ponche e no havia mais que fazer. Levantou-se, ps-se a passear de um lado para o outro, e, depois de vestir um redingote mais espesso, pegou no chapu e saiu. A noite estava escura e hmida; do cu caa uma imperceptvel cacimba. As fogueiras dos regimentos da Guarda, mesmo - ali, despediam uma luz tnue, e na distncia, atravs da fumarada, viam-se brilhar as fogueiras das linhas russas. Tudo estava sossegado, ouvindo-se distintamente o rudo surdo e o tropear das tropas francesas j em marcha a caminho das suas posies.
      Napoleo deu alguns passos, observou as fogueiras, apurou o ouvido ao tropear dos soldados e ao passar por diante de uma grande praa da Guarda, com a sua barretina de pelo, que fazia sentinela diante da sua tenda e se imobilizara como um poste negro assim que sentira chegar o imperador, parou diante dela.
      - H quanto tempo ests de servio? - inquiriu nesse tom afectuoso, entre brusco e afvel, que lhe era habitual sempre que se dirigia aos soldados.
      A praa respondeu.
      - Ah, um dos antigos! E arroz? Receberam arroz no regimento?
      - Recebemos, majestade.
      Napoleo moveu a cabea e afastou-se.
      s cinco horas e meia, o imperador dirigia-se a cavalo para a aldeia de Chevardino.
      Comeava a clarear, o cu iluminava-se, havia apenas uma nuvem para este, As fogueiras abandonadas apagavam-se na dbil claridade do amanhecer.
      A direita ressoou um tiro de canho, abafado e solitrio, que se Propagou e perdeu no silncio geral, Decorreram alguns minutos. Ouviu-se uma segunda detonao, depois uma terceira, estremecendo o ar. Uma quarta e uma quinta mais majestosas se ouviram mais perto, algures, para a direita.
      Ainda as primeiras detonaes se no haviam esbatido j outras se lhe sucediam, fundindo-se num reboar contnuo. Napoleo chegara com o seu squito ao reduto de Chevardino e desmontara do cavalo. Principiara a partida.
      

      
      
      
      Captulo XXX
      
      Ao regressar a Gorki, depois de deixar o prncipe Andr, Pedro deu ordens ao escudeiro para preparar os seus cavalos e acord-lo s primeiras horas da madrugada, adormecendo acto contnuo, atrs de um biombo, no cantinho que Bris lhe cedera,
      Quando acordou, no dia seguinte, ningum mais havia na isb. Os vidros das janelas estremeciam, O escudeiro abanava-o.
      - Excelncia! Excelncia!... - repetia este, obstinado, abanando-o pelos ombros, sem o olhar, como se tivesse perdido a esperana de o acordar.
      - Hem? J principiou? So horas?! - exclamou ele, finalmente.
      - Ouvem-se os tiros - disse o escudeiro, antigo soldado. - Os outros senhores j se foram embora, e at o Serenssimo passou h muito.
      Pedro vestiu-se apressadamente e veio para o alpendre. A manh estava clara e alegre. Havia frio e sentia-se a humidade da cacimba da noite. O Sol, que acabava de despontar, rompendo cortina de nevoeiro, projectava os seus raios, ainda entre nuvens, pelos telhados em frente, pela poeira da rua humedecida de orvalho, pelas paredes das casas, pelas aberturas da sebe, pelos cavalos de Pedro, que o aguardavam diante da isb. O troar do canho tornou-se mais distinto, Um ajudante-de-campo passou a trote acompanhado de um cossaco.
      So horas, conde, so horas!, gritou ele.
      Depois de dar ordem ao criado para o seguir com o cavalo. Pedro meteu pelo caminho que conduzia ao cabeo donde examinara na vspera o campo de batalha. Um rancho de militares ali estava reunido, ouviam-se as conversas em francs dos oficiais do estado-maior, no meio dos quais alvejava a cabea branca de Kutuzov, com a sua barretina alvadia, de banda vermelha, e a sua espessa nuca enterrada nos largos ombros. Perscrutava o horizonte com um binculo, para os lados da estrada real.
      Ao subir os degraus que davam acesso ao cabeo, Pedro olhou l para baixo e quedou extasiado diante do espectculo que se lhe oferecia. Era o mesmo panorama que contemplara na vspera, mas agora toda a campina estava coberta de soldados e de fumo, e os raios oblquos do Sol, que se erguia por detrs e  esquerda de Pedro, inundavam-no, atravs da atmosfera difana da manh, de uma deslumbrante luz dourada com resplendor rosado e grandes sombras negras. Os bosques longnquos que fechavam o panorama pareciam talhados numa pedra preciosa verde- amarelada e as suas encostas recortavam-se em linhas ondulosas, interceptadas por detrs de Valuieva pela estrada real de Smolensk, toda coberta de tropas. Mais perto resplandeciam campos dourados e matas novas. Por toda a parte havia soldados: em frente,  direita,  esquerda. Tudo aquilo estava cheio de movimento, de majestade, de imprevisto, mas o espectculo que mais chamou a ateno de Pedro foi o prprio campo de batalha, Borodino e o vale de Kolotcha, numa e noutra margem do rio.
      Em Borodino, em ambas as margens do rio, e sobretudo a esquerda, na confluncia de Voina, de margens alagadias, desdobrava-se um vu de neblina, que se dissipava e se vaporizam ao calor do sol, imprimindo cores e contornos mgicos a tudo que deixava a descoberto. A este nevoeiro misturava-se a fumarada da plvora, e por toda a parte, por cima dessas nuvens, se reflectiam os lampejos furtivos da luz matinal, dardejando a gua, o orvalho e as pontas das baionetas que se acumulavam ao longo dos rios e na povoao. Atravs da neblina surgiam a branca igreja, aqui e ali os telhados das isbs, a espaos massas compactas de soldados, e, de onde em onde, armes pintados de verde e peas de artilharia. Tudo isto remexia, ou parecia remexer, emergindo da nvoa que se estendia sobre essa vasta rea. Tanto nos lugares baixos cobertos de neblina, nas imediaes de Borodino, como fora da, mais para cima, e sobretudo mais  esquerda das linhas, pelas matas, pelos campos, pelos vales e nos altos dos cabeos, apareciam a todo o momento novelos de fumo, umas vezes isolados, outras em turbilhes, agora mais longe, logo mais perto, inchando, engrossando, turbilhonando, misturando-se, enchendo o espao.
      Aqueles novelos de fumo e, por estranho que parea, as detonaes que os acompanhavam constituam a beleza principal do espectculo.
      Paf!, e de sbito l surgia um circulo de fumo compacto, que se tingia de violeta, de cinzento e de um branco-leitoso. E um segundo depois Bum!, ouvia-se o estampido.
      Paf! Paf! Dois crculos de fumo se projectavam no ar, se entrechocavam, se confundiam. Bum! Bum! ouvia-se em seguida, e os estampidos confirmavam o que os olhos viam.
      Pedro viu a fumarada redonda, suspensa no ar como um balo compacto, e logo, no seu lugar, mais bales que se alongavam.
      Paf!...  E da a pouco, outra vez: Paf! Paf! L vinham mais trs, quatro, com intervalos igualmente regulares: Buum! Buum... Buum! ecoavam, plenas e seguras, as majestosas detonaes. Os novelos de fumo ora pareciam fugir ora dir-se-ia imveis, e ento eram as matas, os campos, as baionetas faiscantes que fugiam. A esquerda, nos campos de lavoura e nas moitas, l iam surgindo continuamente estes grossos novelos de fumo, acompanhados do seu estrondear solene, enquanto mais perto, junto das colinas e das matas, rebentava o fumozinho das espingardas, que no tinha tempo de se estender, formando bolas, e logo era seguido de breve crepitar. Tr... t, t, t...  matraqueava a fuzilaria, com intervalos rpidos mas irregulares e relativamente raros comparados com a detonao das peas de artilharia.
      Pedro sentiu desejos de estar ali onde se viam esses novelos de fumo, essas baionetas faiscando, aquele movimento, aquele rudo. Relanceou os olhos a Kutuzov e ao seu squito, como que a comparar as suas impresses com as deles. Todos estavam de olhos fitos no espectculo do campo de batalha, tal como ele, e pensou que todos sentiam o que ele estava a sentir. Em todos os rostos resplandecia esse calor latente, que ele j tivera ocasio de ver na vspera, e que plenamente compreendera depois da sua conversa com o prncipe Andr.
      Vai, meu amigo, vai, que Cristo te acompanhe!, dizia Kutuzov, sem tirar os olhos do campo de batalha, para um general que estava a seu lado.
      O general a quem fora dada esta ordem passou diante de Pedro, dirigindo-se para o fundo do cabeo.
      Ao vau!, exclamou fria e severamente o general a um dos oficiais do estado-maior que lhe perguntava aonde ia.
      E eu tambm, eu tambm vou, disse Pedro de si para consigo, e foi no encalo do general.
      Este montou no cavalo que um cossaco lhe apresentou. Pedro abeirou-se do seu escudeiro, que mantinha os cavalos pela arreata. Perguntou-lhe qual deles era o mais manso, montou, agarrou-se-lhe s crinas, firmou-se na sela e deixou-se levar a galope, no meio da comitiva do general, provocando sorrisos entre os oficiais do estado-maior que o olhavam do alto do cerro.
      

      
      
      
      Captulo XXXI
      
      O general que Pedro seguia, depois de descer a encosta, voltou bruscamente para a esquerda, e Bezukov, tendo-o perdido de vista. Precipitou-se no meio das fileiras dos soldados de infantaria que marchavam na sua frente. Tratou de se escapar no meio deles, primeiro avanando, depois voltando para a esquerda e em seguida para a direita, Para onde quer que se voltasse, s via soldados com a mesma expresso preocupada, entregues a um labor invisvel, mas muito importante sem dvida, Todos olhavam para aquele homem corpulento, de chapu branco, que, sem necessidade, os atropelava com o seu cavalo, com um olhar ao mesmo tempo interrogador e descontente.
      Que vens tu fazer a cavalo para o meio do batalho?, gritou-lhe um dos soldados.
      Outro assentou uma coronhada no animal e Pedro, firmando-se no aro da sela, dominando a custo o cavalo, que tomara e, freio nos dentes, l conseguiu desenvencilhar-se dos soldados, ganhando o espao livre. Na sua frente estava uma ponte junto da qual outros soldados disparavam. Aproximou-se. Sem saber, estava na ponte do no Kolotcha, entre Gorki e Borodino, ponte que os Franceses, depois de tomarem esta ltima povoao durante a primeira fase da batalha, acabavam de atacar. Viu na sua frente a ponte e os soldados que faziam fosse o que tosse, de ambos os lados do no e na campina, no meio da fumarada, por entre as medas de palha em que no reparara na vspera. No entanto, no obstante o tiroteio intenso, no lhe veio  mente que se encontrava em plena batalha. No ouvia as balas que assobiavam de todos os lados nem as granadas que lhe passavam por cima da cabea; no via o inimigo na outra margem do rio, e levou tempo a perceber que eram mortos e feridos que caam a seu lado. Olhava para tudo com o sorriso que lhe no saa dos lbios.
      Que anda aquele a fazer no meio das linhas?, gritou uma voz.
      A direita,  esquerda!, exclamaram outras vozes.
      Pedro meteu pela direita e viu-se inopinadamente diante de um ajudante-de-campo do general Raievski, seu conhecido. O oficial mirou-o colrico e ia cobri-lo de injrias quando o reconheceu, dirigindo-lhe um aceno de cabea.
      - Que est aqui a fazer? - interrogou ele, e continuou galopando.
      Pedro, que sentia estar ali deslocado e que para nada servia, receoso de embaraar ainda mais aquela gente seguiu a galope o ajudante-de-campo.
      - Que aconteceu? Posso acompanh-lo? - perguntou.
      - Espere, espere! - replicou o ajudante-de-campo, e, depois de se dirigir a um coronel gordanchudo parado no meio da campina, transmitiu-lhe uma ordem e voltou para junto de Pedro.
      - Que veio aqui fazer, conde? - disse-lhe, sorrindo. - Por simples curiosidade?
      - Pois, pois - disse Pedro.
      O ajudante-de-campo fez meia volta e seguiu o seu caminho,
      - Graas a Deus, isto aqui no  nada - disse ele -, mas no flanco esquerdo, o de Bagration, a coisa est feia.
      - Realmente? - exclamou Pedro. - Onde  isso?
      - Venha comigo ao cabeo. L de cima v-se tudo muito bem, Na nossa bateria as coisas no vo mal. Bom, quer vir?
      - Vou, vou consigo -  replicou Pedro, olhando  volta a procura do escudeiro.
      Foi ento que pela primeira vez viu soldados feridos arrastando-se por seu p ou levados em padiolas. Naquele mesmo prado, com as suas cheirosas medas de palha, por onde ele passara na vspera, jazia um soldado imvel, com a cabea voltada de forma estranha e cuja barretina rolara por terra.
      Porque no levaram este?, ia ele dizer, mas calou-se, reparando na severa expresso do ajudante-de-campo, que olhara para o mesmo stio,
      No foi capaz de descobrir o escudeiro, e na companhia do ajudante-de-campo meteu pelo talude para atingir a encosta de Raievski. O seu cavalo, no rasto do do companheiro, balouava-o cadenciadamente.
      - Bem se v que no est habituado a montar, conde - disse o ajudante-de-campo.
      - Estou, mas este cavalo tem um trote muito duro - tornou Pedro, embaraado.
      - Oh!, espere... Est ferido na perna direita, acima do joelho. Naturalmente foi uma bala. Os meus parabns, conde: o baptismo do fogo.
      Ultrapassaram o sexto corpo no meio da fumarada, na retaguarda da artilharia, que, instalada na vanguarda, disparava ininterruptamente, com um matraquear ensurdecedor. E assim penetraram numa matazinha. Estava fresco ali, havia uma grande serenidade e sentia-se no ar esse cheiro especial do Outono. Pedro e o ajudante-de-campo desmontaram e subiram a p a encosta.
      - Est o general? - perguntou o ajudante-de-campo ao chegar ao cabeo.
      - Ainda h pouco a estava, mas foi para aquele lado - responderam-lhe, apontando para a direita,
      O ajudante-de-campo voltou-se para Pedro, como se no soubesse que destino dar-lhe.
      - No se preocupe - disse-lhe este - Se no h inconveniente, vou instalar-me l em cima, no cabeo.
      - Est bem, v. Dali v-se tudo e no  muito perigoso. Depois irei busc-lo.
      Pedro encaminhou-se para a bateria e o ajudante-de-campo prosseguiu o seu caminho, Nunca mais se viram e muito tempo depois Pedro veio a saber que nesse mesmo dia o seu companheiro ficara sem um brao.
      O cabeo a que Pedro trepou veio a ser um lugar clebre - mais tarde conhecido entre os Russos pela bateria de Raievski e entre os Franceses por o grande reduto, o reduto fatal, o cabeo do centro -, e a sua volta tombaram dezenas de milhares de homens, considerando-o os Franceses como tendo sido a chave da posio.
      O reduto era formado por trincheiras abertas nos trs lados do cabeo. Dentro dessas trincheiras disparavam dez peas de artilharia que cuspiam metralha pelas canhoneiras abertas no parapeito.
      Alinhadas de cada lado do cabeo havia outras peas que no cessavam de disparar. Um pouco  retaguarda estavam as tropas de infantaria. Quando Pedro ali chegou, nem por sombras lhe passou pela cabea que aquelas trincheiras com aquele punhado de peas de artilharia representavam o ponto mais importante de toda a batalha.
      Pelo contrrio, precisamente porque ele ali se encontrava, pensava que devia ser uma das posies mais insignificantes. Assim que chegou instalou-se na extremidade da trincheira que contornava a bateria e ps-se a observar, sorrindo, entre inconsciente e divertido, o que se passava  sua volta. Levantava-se, de tempos a tempos, sem deixar de sorrir. Fazia por no incomodar os soldados que carregavam as peas e as punham em posio, continuamente passando diante dele com sacos e projcteis. E por ali andava de passeio no meio da bateria. Os canhes continuavam a disparar, uns atrs dos outros, com um ronco ensurdecedor e enchendo tudo de fumo. Enquanto entre as tropas de infantaria encarregadas de proteger aquela posio se sentia uma espcie de mal-estar, ali, onde um pequeno nmero de homens, separados por um fosso de todos os demais, se entregava  sua tarefa, a animao era geral e comum, como se se tratasse de uma famlia.
      A apario de Pedro.  paisana e de chapu branco, principiou por causar desagradvel impresso naquela gente. Ao passarem diante dele olhavam-no de soslaio, com grande espanto e at com uma espcie de receio. Um oficial de artilharia, homem alto, trangalhadanas, aproximou-se de Pedro, fingindo querer verificar o funcionamento da pea do extremo, e fitou-o cheio de curiosidade.
      Outro oficialzito, de cara redonda, pouco mais que uma criana, sem dvida acabado de sair da escola militar, que andava a inspeccionar, cheio de zelo, as duas peas que lhe haviam sido confiadas, dirigiu-lhe a palavra, muito severo:
      Faa o favor de se afastar daqui. No  permitido.
      Os soldados continuavam a abanar a cabea, pouco satisfeitos. A verdade, porm,  que quando se convenceram de que aquele indivduo de chapu branco no estava ali a fazer mal algum, que apenas queria estar muito sossegado, sentado no barranco ou a passear na bateria com um sorriso tmido nos lbios, afastando-se delicadamente dos soldados para os no embaraar, e to calmo sob a metralha como se estivesse numa avenida, o sentimento de hostilidade que sentiam principiou a transformar-se numa simpatia afectuosa e levemente prazenteira, como a que os militares costumam mostrar por todos os animais Que aparecem junto do campo de batalha: ces, galos e bichos quejandos. Imediatamente os soldados acolheram Pedro como um dos seus e at desde logo lhe puseram uma alcunha, chamando-lhe Nosso Senhor e troando dele amigavelmente.
      Um projctil rasgou o solo a dois passos de Pedro, o qual, sacudindo a poeira que lhe manchara o fato, olhou em volta de si, sorrindo.
      - Com que ento o senhor no tem medo? - exclamou um soldado, de ombros largos e cara vermelha, mostrando os seus grandes dentes brancos.
      - E tu, tens medo, tu? - volveu-lhe Pedro.
      - Mas  que... - tornou o soldado. - As balas no trazem endereo. Quando caem, at as tripas se nos arrepanham.
      - Ningum h que no tenha medo - acrescentou, rindo. Alguns soldados, de alegre e prazenteiro parecer, tinham-se-lhes juntado. Dir-se-ia esperarem que aquele senhor no falasse como toda a gente, e ao darem pelo engano rejubilavam.
      Ns,  a nossa obrigao. Mas ele, o senhor, caramba! Isto  que  um cavalheiro!
      - Para os seus postos -, gritou o oficialzito para os soldados que se tinham juntado em volta de Pedro.
      Via-se que era a primeira ou a segunda vez que desempenhava as funes de oficial, por isso estava a ser to exacto e formalista com as suas praas e diante dos seus superiores.
      O troar dos canhes e a fuzilaria iam crescendo em todo o campo de batalha, especialmente  esquerda, onde ficavam as flechas de Bagration, mas do local onde Pedro estava quase nada se via por causa do fumo da plvora que pairava no ar, Alm disso, aquele pequeno grupo dos homens da bateria, por assim dizer uma pequena famlia isolada do resto das tropas, absorvia-lhe por completo a ateno. A primeira emoo, entre inconsciente e alegre, que lhe provocara o troar do canho e o espectculo que tinha diante dos olhos desaparecera e o que sentia agora era completamente diferente, sobretudo depois de ter visto aquele soldado solitrio prostrado no meio do terreno. Do talude onde estava sentado deixava-se agora absorver de todo na contemplao dos seres humanos que o rodeavam.
      Pelas dez horas, duas dezenas de homens tinham sido levados da bateria; duas peas haviam sido desmanteladas; e eram cada vez em maior nmero os projcteis que caiam ali e as balas perdidas que passavam zumbindo e assobiando. Os artilheiros, porm, dir-se-ia no darem por coisa alguma, continuando a trocar entre si ditos e zombarias.
      A vem uma de arromba!, gritou um deles ao ver aproximar-se um obus, que passou sibilando.
      No  para ns,  para os da infantaria!, exclamava outro, soltando uma gargalhada, ao ver que o obus lhes passara por cima da cabea e ia cair no meio das tropas de cobertura.
      Hem! Parece das tuas relaes!, acrescentou um terceiro, dirigindo-se a um campons que se atirara para o cho quando o projctil se aproximou.
      Alguns soldados vieram debruar-se no parapeito perscrutando o que se passava diante deles.
      Ests a ver? Romperam as linhas. Recuaram!, diziam eles. Tratem das vossas obrigaes, rapazes!, gritou-lhes um velho sargento. Se andaram para trs,  porque tm l qualquer coisa que fazer.
      E o sargento, agarrando um deles pelo ombro, despediu-lhe uma joelhada. Romperam gargalhadas.
      Quinta pea! A postos!, soou uma voz de comando.
      Todos  uma! Arriba!, gritaram alegremente os que punham a pea em posio.
      Caramba! Por pouco l ia o chapu do Nosso Senhor!, gracejou o farsista de ventas coradas, mostrando os dentes brancos, ,Aquilo  que  um animal!, acrescentou, furioso, dirigindo-se a uma bala que acabava de atingir ao mesmo tempo uma roda e a perna de um homem.
      Eh!, cachorros!, vociferou outro ao ver os milicianos todos curvados que penetravam na bateria para levar o ferido.
      As papas no esto de apetecer, hem? Eh, caguinchas, isso  que so dores de barriga!, gritavam para os mujiques especados diante do soldado com a perna decepada.
      Em que estado te puseram, meu rapaz!, acrescentavam, arremedando-os. Disto  que eles no gostam!
      Pedro notava que quanto mais balas caam e quanto maior o nmero de mortos e feridos mais crescia a excitao dos artilheiros.
      Como se a tempestade se aproximasse, todos aqueles rostos estavam cada vez mais iluminados, num desafio de raios e coriscos, por um fogo oculto e esbraseante.
      Pedro deixara de olhar para o campo de batalha e parecia no se importar j com o que se estava ai a passar. Aquela chama cada vez mais viva que lhe ia queimando a alma, a ele tambm, mais e mais se assenhoreava dele.
      s dez horas a infantaria que alinhava diante da artilharia nas bouas e nas margens do Karnenka bateu em retirada. L de cima, daquele posto, via-se toda aquela gente fugir, levando consigo os soldados feridos em cima das espingardas ensarilhadas. Ento um general, acompanhado da sua comitiva, apareceu no cabeo. Disse qualquer coisa ao coronel e, lanando um olhar irritado a Pedro, voltou a retirar-se depois de ter dado ordem s tropas de cobertura, alinhadas atrs da bateria, para que se deitassem de barriga no cho, nica forma de estarem menos expostas  fuzilaria. Pouco depois ouviu-se rufar o tambor nas fileiras da infantaria,  direita da bateria. Vozes de comando ressoaram e a coluna ps-se em marcha para a frente.
      Pedro lanou os olhos por cima do parapeito. Impressionou-o sobretudo a expresso de uma das caras: a do oficial que marchava de costas para os seus homens, o rosto imberbe muito plido, a espada baixa, olhando inquieto  sua volta.
      A infantaria desapareceu no meio da fumarada e nada mais se ouviu alm de prolongados clamores e tiroteio intenso, Alguns minutos depois surgiram dali muitos feridos, uns a p, outros em padiolas. Os projcteis cada vez caam mais numerosos sobre a bateria. Havia homens por terra, abandonados. Os artilheiros no tinham mos a medir em volta das peas. Ningum dava j pela presena de Pedro. Por duas ou trs vezes vozes colricas lhe gritaram que se afastasse. O comandante, de sobrancelhas franzidas, em grandes passadas precipitadas, ia de uma pea para outra.
      O oficialzito, cada vez mais corado, dava ordens, ainda mais zeloso. Os soldados passavam com os projcteis, carregavam as peas, cumprindo a sua tarefa com admirvel bravura, para um lado e para o outro, dir-se-ia impelidos por molas.
      A nuvem tempestuosa aproximava-se e em todos os rostos ardia esse fogo intenso que Pedro via crescer, Estava ao lado do comandante. Entretanto, o oficialzito, com a mo na pala da barretina, aproximou-se do superior:
      - Tenho a honra de o prevenir, meu coronel, de que apenas dispomos de oito cargas. Devemos continuar a fazer fogo? Metralha!, gritou o coronel, que continuou a olhar para o parapeito, sem responder directamente ao subordinado. Subitamente, qualquer coisa de inesperado aconteceu. O oficialzito soltou um gemido rodopiando sobre si mesmo e caiu no cho como uma ave atingida em pleno voo, Diante dos olhos de Pedro correu uma cortina estranha, vaga e sombria.
      Os projcteis assobiavam uns atrs dos outros, crivando o parapeito, os artilheiros e as peas. Pedro, que at ali no prestara a mais pequena ateno a esse rudo, agora no podia ouvir outra coisa. De um dos lados da bateria.  direita, corriam soldados gritando: Hurra!, mas no marchavam em frente, antes retrocediam, segundo se afigurava a Pedro.
      Um projctil atingiu o rebordo do parapeito onde ele estava, cobrindo-o de terra. Uma bola negra lhe passou diante dos olhos e no mesmo instante ouviu-se uma pancada mole, Os milicianos que penetravam na bateria debandaram.
      Metralha em todos os canhes!, gritou o oficial,
      Um sargento aproximou-se dele a correr e murmurou-lhe ao ouvido, cheio de pnico, que as munies tinham acabado. Dir-se-ia um mordomo anunciando ao dono da casa, no meio de um banquete, no haver mais vinho para os convidados.
      Bandidos! Que esto eles aqui a fazer?, gritou um oficial, virando-se para Pedro.
      Tinha o rosto corado e coberto de suor; os olhos, cavados nas rbitas, cintilavam-lhe.
      Corre s reservas, Que tragam as caixas de munies!, acrescentou, dirigindo-se a um artilheiro, enquanto relanceava a Pedro um olhar iracundo.
      Eu vou, disse este.
      Sem lhe responder, o oficial afastou-se a passos largos. Cessar fogo! Esperem!, ordenou o oficial.
      O artilheiro que recebera ordem para ir buscar munies tropeou com Pedro.
      Eh, senhor! O seu lugar no  aqui!, gritou-lhe, enquanto descia a encosta a correr.
      Pedro seguiu-o contornando o local onde tombara o oficialzito.
      Um, dois, trs projcteis lhe passaram por cima da cabea, caindo  sua volta. Pedro galgou o parapeito. Aonde vou eu?, disse, de sbito, de si para consigo, ao chegar junto das caixas pintadas de verde. Parou, indeciso, sem saber se havia de voltar para trs ou prosseguir no seu caminho- De sbito uma pancada por detrs o atirou para o cho. Acto contnuo uma grande labareda o envolveu, enquanto o estampido de um trovo ensurdece- dor,  mistura com agudos silvos, lhe abalava os tmpanos.
      Quando voltou a si, encontrou-se sentado no cho, as mos apoiadas no solo. Do armo junto do qual ele se encontrava no havia vestgios. Apenas se viam, aqui e ali, pranchas verdes, calcinadas, e sobre a erva requeimada alguns trapos. Um cavalo arrastando atrs de si uns varais em estilhas partiu a galope: outro jazia por terra, como ele prprio, soltando prolongados relinchos de dor.
      

      
      
      
      Captulo XXXII
      
      Pedro, aterrorizado, sem saber o que fazia, ps-se de p e correu para a bateria, como se fosse aquele o nico refgio contra todos os horrores de que estava rodeado.
      Ao penetrar na trincheira notou, surpreendido, que se no ouviam as peas e que outros soldados ocupavam a bateria. No teve tempo de se dar conta de quem era aquela gente. Viu o velho coronel de barriga contra o parapeito, como se estivesse debruado a ver o que se passava em baixo, e um soldado, que j notara antes, debatendo-se no meio de uns homens que o seguravam pelos braos e gritava: Irmos! E ainda viu mais coisas estranhas. No teve tempo de compreender que o coronel estava morto, que o soldado fora feito prisioneiro e que outro homem, diante dos seus olhos, acabava de ser trespassado pelas costas por uma baioneta.
      Assim que penetrara no reduto, um homem, de uniforme azul, magro, amarelo, coberto de suor, veio sobre ele, de espada na mo, gritando, Pedro, instintivamente, furtou o corpo, para evitar o embate, j que ambos corriam um para o outro sem se terem visto. Estendeu os braos e agarrou esse algum, que era um oficial francs, lanando-lhe uma mo a um ombro e a outra  garganta. O oficial, deixando cair a espada, apanhou-o pelo pescoo.
      Por instantes cravaram os olhos um no outro, assustados, perplexos, sem saber o que tinham feito nem o que deviam fazer. Cada um deles se perguntava a si prprio: Sou eu ou ele quem est prisioneiro? O oficial francs parecia mais inclinado para primeira hiptese, pois a mo vigorosa de Pedro, compelida por um terror involuntrio, cada vez lhe apertava mais a garganta. Afigurou-se-lhe que ele queria dizer qualquer coisa quando uma bala lhes passou rente ao crnio, deixando atrs de si um silvo sinistro, e to perto que Pedro julgou que a cabea do francs lhe fora decepada, to rapidamente ele a abaixara.
      Tambm Pedro, por sua vez, se agachou ao soltar o desconhecido, Sem se preocupar em saber qual deles era o prisioneiro, o oficial correu para a bateria e Pedro rolou do cabeo, tropeando nos mortos e nos feridos com a sensao de eles se lhe agarrarem s pernas. Ainda no chegara, porm, ao fundo do barranco quando se viu no meio de uma massa compacta de russos que corriam direitos  bateria, soltando gritos de alegria e atropelando-se uns aos outros. Era o ataque de que Ermolov se vangloriou, dizendo que fora graas  sua bravura e boa sorte que pudera dar-se aquele prodgio e acrescentando que distribura s mos-cheias, no alto do cabeo, quantas cruzes de S. Jorge levava na algibeira.
      Ento os franceses que ocupavam a bateria debandaram. E os russos, soltando hurras, lanaram-se atrs deles com tal entusiasmo que muito a custo os detiveram na perseguio.
      Na bateria fizeram-se alguns prisioneiros, entre os quais um general francs ferido, que logo se viu rodeado por oficiais russos. Um nunca acabar de feridos, russos e franceses, conhecidos e desconhecidos de Pedro, de feies transtornadas pelo sofrimento, passavam, arrastando-se penosamente pelo seu p ou levados em padiolas. Voltou a subir ao reduto, onde permaneceu mais de uma hora, e nem um s dos homens daquele grupo de amigos que momentaneamente o tinham chamado a si restava com vida, No monte de mortos havia alguns seus conhecidos. O oficialzito l estava, todo contorcido, sobre o parapeito, num lago de sangue. O soldado de cara afogueada ainda fazia alguns movimentos convulsivos, mas ali o tinham deixado ficar.
      Pedro abalou a correr pelo talude abaixo.
      Ah, agora vo acabar com isto, naturalmente. J devem estar satisfeitos com o que fizeram!, pensava ele, seguindo sem destino a fileira interminvel de padiolas vindas do campo de batalha.
      O Sol, porm, velado pela fumarada, ainda ia alto no cu, e l adiante, principalmente  esquerda, dos lados de Semionovskoie, qualquer coisa se agitava por entre o fumo. No s se no aplacavam, antes pareciam mais desesperadamente intensos o ribombar das peas e a fuzilaria das espingardas. Dir-se-ia um homem que quase sem foras solta o seu ultimo grito.
      

      
      
      
      Captulo XXXIII
      
      A aco principal da batalha desenrolou-se numa rea de mil sagenas, entre Borodino e as linhas de Bagration. Para alm deste espao, por um lado, a cavalaria de Uvarov,  volta do meio-dia, fez uma demonstrao e, pelo outro, para os lados de Utitsa, houve um recontro entre Pomatowski e Tulchkov, nada mais, porm, que insignificantes operaes parciais quando compara- das com o que acontecera no centro. Foi entre Borodino e as linhas junto da floresta, num espao livre e aberto dos dois lados, que se travou a verdadeira batalha, da maneira mais simples e sem qualquer ardil.
      De princpio apenas houve o canhoneio recproco de centenas de bocas de fogo.
      Depois, quando a fumarada principiou a, encobrir todo o campo de batalha, puseram-se em marcha,  direita, do lado francs, as duas divises Dessaix e Compans, que avanaram sobre as linhas, e,  esquerda, os regimentos do vice-rei, que inflectiram sobre Borodino. Do reduto de- Chevardino, onde se encontrava Napoleo, at s linhas distava apenas uma versta, mas da a Borodino, em linha recta, seriam pouco mais de duas. Eis porque o imperador no podia ver o que se passava a, tanto mais que o fumo, de mistura com a neblina, se estendia por cima de todo o terreno. No que diz respeito s tropas da diviso Dessaix, essas s foram visveis quando apareceram por detrs da ravina que as separava das flechas. Assim que entraram a, o fumo dos canhes e da fuzilaria to densamente cobriu as flechas que ocultou toda a vertente da ravina oposta, Atravs da espessa nuvem apenas se divisava qualquer coisa com a vaga configurao de soldados e de longe em longe o faiscar de uma baioneta. Mas de Chevardino era completamente impossvel saber se se moviam ou permaneciam imveis, se se tratava de franceses ou de russos.
      O Sol erguia-se brilhante no cu e os seus raios vinham banhar directamente o rosto de Napoleo, que para observar as linhas se via obrigado a proteger os olhos com a mo. A fumarada cobria o terreno e ora parecia deslocar-se ora dava a impresso de que eram as tropas que se moviam. As vezes, entre as detonaes, ouviam-se gritos, mas no era possvel saber-se o que se passava.
      Napoleo, de p, no cmoro, estava de culo assestado, e o limitado campo da objectiva deixava-lhe ver fumo e soldados, ora o fumo e os soldados franceses ora o fumo e os soldados russos. Assim que observava, porm, o terreno  vista desarmada j lhe no era possvel situar exactamente o que acabara de ver.
      Desceu do cabeo e comeou a passear de um lado para o outro.
      A verdade  que nem do lugar em que estava Napoleo nem do alto da eminncia onde tinham ficado vrios dos seus generais, nem mesmo das prprias linhas agora ocupadas umas vezes pelos Franceses, outras pelos Russos, soldados mortos, feridos, vivos, aterrorizados ou meio loucos, em parte alguma podia saber-se o que se estava a passar naquele local. Durante muitas horas, naqueles stios, no meio do ininterrupto troar das peas de artilharia e da fuzilaria das espingardas, to depressa apareciam os Russos como os Franceses e ora eram soldados de infantaria ora de cavalaria que caam, disparavam, tropeavam uns nos outros, gritando e fugindo sem saber o que deviam fazer.
      Dos diversos pontos do campo de batalha estavam sempre a chegar ajudantes-de-campo expedidos ao imperador, oficiais de ordenana dos marechais encarregados de trazer informaes sobre a marcha da batalha, mas tudo o que diziam era falso, pois no calor da batalha no se podia dizer o que estava a passar-se num determinado momento e, alis, muitos destes oficiais no Podiam atingir sequer os pontos designados, limitando-se a repetir o que ouviam. Alm disso, enquanto eles percorriam as duas ou trs verstas que os separavam de Napoleo, as coisas modificavam-se e as notcias por eles trazidas deixavam de corresponder  situao. Assim, um ajudante-de-campo do vice-rei veio anunciar que Borodino fora tomada e que a ponte do Kolotcha estava nas mos dos Franceses, perguntando a Napoleo se dava ordem para as tropas atravessarem o rio, ao que lhe foi respondido que se mandassem alinhar as tropas na outra margem e que esperassem a. No momento, porm, em que era dada esta ordem, melhor ainda, mal o ajudante-de-campo sara de Borodino, a ponte fora retomada e queimada pelos Russos, feito a que Pedro assistira no princpio da batalha.
      De regresso das flechas, um ajudante-de-campo, muito plido, o terror pintado no rosto, anunciou ao imperador que o ataque fora repelido, que Compans estava ferido e Davout fora morto. Enquanto, todavia, ele comunicava estas notcias, as fortificaes haviam sido de novo ocupadas por outras tropas e Davout continuava vivo, pois apenas fora ligeiramente ferido.
      Guiando-se por estas informaes, evidentemente falsas, Napoleo dava ordens j cumpridas ou que teriam sido impossveis de executar.
      Os marechais e os generais que se encontravam mais perto dos acontecimentos, mas que, tal como Napoleo, no participavam da batalha e raramente penetravam na zona de fogo, tomavam as suas disposies sem consultar o imperador e transmitiam as suas ordens sobre onde devia incidir o fogo e como a cavalaria e a infantaria deveriam intervir. Mas estas ordens, bem como as do imperador, s em pequena escala eram executadas e muito raramente, a maior parte das vezes ao contrrio das circunstncias. As tropas que recebiam ordem para avanar, surpreendidas pela metralha, debandavam; aquelas que recebiam ordem para permanecer no seu lugar, ao verem surgir o inimigo inopinadamente, punham-se em fuga ou ento atacavam-no, e a cavalaria, sem ter recebido ordem para isso, lanava-se na perseguio dos russos em debandada. Assim, dois regimentos de cavalaria que atravessaram a ravina de Semionovskoie, mal atingiram o cume viraram de rdea, regressando ao mesmo stio a galope. E outro tanto aconteceu com a infantaria, que muitas vezes se precipitou sobre pontos que no estavam prescritos. Todas as ordens relativas s deslocaes das peas de artilharia, dos batalhes de fuzileiros e das tropas montadas, com o objectivo de carregar sobre a infantaria russa, quem as deu foram os comandantes mais prximos das fileiras, sem pedirem conselho nem a Ney, nem a Davout, nem a Murat, quanto mais a Napoleo. No receavam ser castigados por no haverem executado o que estava prescrito ou por terem agido de moto prprio, pois a verdade  que numa batalha ningum pensa seno no que tem de mais precioso, ou seja, na prpria vida, e o que pode acontecer  Que umas vezes a salvao esteja na fuga para a retaguarda e outras na marcha avante.
      Estes homens, no calor da refrega, agiam segundo as circunstncias. Na verdade, todos estes movimentos para a frente ou para trs no aliviavam nem modificavam a posio das tropas. Esses ataques, quer a p, quer a cavalo, no produziam grande mortandade; o que semeava os ferimentos, as mutilaes e a morte eram os projcteis, as balas que voavam por todos os lados na rea onde se moviam as tropas. Logo que os homens atingiam a zona a que os projcteis no chegavam, os comandantes, na retaguarda, obrigavam-nos a cerrar fileiras, restabelecendo a disciplina, e, graas a esta disciplina, voltavam a expedi-los para aquele crculo de fogo onde o medo da morte os fazia perder de novo o sangue-frio, entregando-os ao cego instinto das multides.
      

      
      
      
      Captulo XXXIV
      
      Os generais de Napoleo, Davout, Ney, Murat, encontravam-se perto da linha de fogo e inclusivamente chegaram at ela algumas vezes conduzindo massas enormes de tropas bem disciplinadas. Mas, ao contrrio do que acontecera invariavelmente nas precedentes batalhas, em vez da esperada notcia da fuga do inimigo, as tropas formadas voltavam da linha de fogo em massas desorganizadas e tomadas de pnico. De novo reorganizadas, cada vez era menor o nmero dos seus efectivos.
      Cerca do meio-dia, Murat mandou o ajudante-de-campo pedir reforos a Napoleo.
      O imperador estava sentado no sop do cabeo bebendo ponche quando o ajudante-de-campo chegou com a notcia de que os Russos seriam esmagados se Sua Majestade enviasse mais uma diviso,
      - Reforos?! - exclamou Napoleo, entre severo e surpreso, como se no compreendesse o sentido das palavras, enquanto fitava aquele moo bonito com os cabelos negros, compridos e encaracolados,  maneira de Murat.
      Reforos!, pensou, Que reforos querem eles quando tm na mo metade do exrcito para atacar uma ala russa fraca e nem sequer fortificada?
      - Diga ao rei de Npoles - articulou ele severamente - que ainda no  meio-dia... que ainda  cedo para eu calcular com clareza a minha jogada. Ide...
      O ajudantezinho-de-campo dos lindos caracis, sem retirar a mo da pala da barretina, despediu um profundo suspiro e galopou de novo em direco ao local onde os homens se matavam. Napoleo ergueu-se e, chamando Caulaincourt e Berthier, principiou a falar-lhes de coisas absolutamente estranhas  batalha.
      No meio desta conversa, que principiava a interessar o imperador, os olhos de Berthier dirigiram-se para um general com a sua comitiva, que, montado num cavalo coberto de suor, se encaminhava para o cabeo. Era Belliard. Logo que desmontou, dirigiu-se em passo rpido para o imperador e com firmeza e em voz alta comeou a expor-lhe a necessidade que havia de reforos. Jurava pela sua honra que os Russos estariam perdidos se o imperador lhes desse mais uma diviso.
      Napoleo encolheu os ombros e continuou a passear sem responder.
      Belliard, sempre em voz alta e com veemncia, prosseguiu falando para os generais que o cercavam.
      - O senhor  muito impetuoso, Belliard - disse Napoleo, aproximando-se do general. - Qualquer se pode enganar no meio da luta. Examine outra vez a situao e volte a aparecer por aqui.
      Mal se afastara Belliard, um novo enviado chegava, por outro lado, vindo do campo de batalha.
      - Ento? O que h? - disse o imperador no tom de quem se sente exasperado por s ver obstculos diante de si.
      - Sire, o prncipe... - principiou o ajudante-de-campo. 
      - Pede reforos?! - exclamou Napoleo com um gesto colrico.
      O oficial disse que sim com a cabea e ps-se a transmitir a sua mensagem. O imperador afastou-se, deu dois ou trs passos, depois voltou a aproximar-se e mandou chamar Berthier.
      - Temos de lhes dar as reservas - decidiu, com gesto enrgico. - Que lhes devemos mandar? Que acha? - perguntou a Berthier, a esse ganso que transformei em guia, como disse mais tarde.
      - Sire, mandemos a diviso Claparde - respondeu Berthier, que conhecia como os seus dedos todas as divises, todos os regimentos e todos os batalhes.
      Napoleo, com um aceno de cabea, aprovou,
      O ajudante-de-campo galopou ao encontro da diviso Claparde. Alguns minutos mais tarde, a Guarda nova, concentrada, na retaguarda do cabeo, punha-se em movimento. Napoleo olhava silenciosamente naquela direco.
      - No - ordenou, subitamente, voltando-se para Berthier. - No quero a Claparde. Mandem a diviso Friant.
      Embora no houvesse qualquer vantagem especial em mandarem a 2 em vez da 1 e existisse, pelo contrrio, o inconveniente da perda de tempo que resultava do facto de se ter de deter a diviso que se pusera em movimento para a substituir pela Friant, a ordem foi executada fielmente. Napoleo no se dava conta de que estava a proceder para com as suas tropas como o mdico cujos remdios resultam mais perniciosos que a doena, maneira de agir alis que ele muito bem sabia ver e criticar nos outros.
      A diviso Friant, como sucedera com as demais, desapareceu no meio da fumarada do combate. Os ajudantes-de-campo continuaram a afluir de vrios lados e todos eles, como se passassem palavra, repetiam a mesma coisa. Todos pediam reforos, todos diziam que os Russos no abandonavam as suas posies e mantinham as tropas francesas sob um fogo infernal. Napoleo, sentado no seu banco porttil, estava pensativo.
      Monsieur de Beausset, o amador de viagens, que morria de fome desde manh, aproximou-se do imperador e respeitosamente lembrou a Sua Majestade o almoo.
      - Espero poder felicitar Vossa Majestade desde j pela vitria sobre o inimigo - disse ele.
      Napoleo, em silncio, moveu negativamente a cabea. Interpretando esse gesto como referindo-se  vitria, e no ao almoo, Monsieur de Beausset permitiu-se, num tom ao mesmo tempo frvolo e respeitoso, observar-lhe que nada neste mundo o podia impedir de almoar desde que houvesse oportunidade para isso.
      - Olhe, v... - exclamou, de sbito, o imperador, carrancudo, voltando-lhe as costas.
      Um sorriso hipcrita, ao mesmo tempo de compaixo, desdita e admirao, perpassou pelo rosto de Monsieur de Beausset, que se dirigiu, sorrateiro, para junto dos outros generais.
      Napoleo estava sentindo essa penosa sensao de jogador venturoso que atirou para a mesa de jogo, num desvario, todo o seu dinheiro, habituado que estava a ganhar sempre, e de sbito, precisamente quando calculou todos os azares da partida, pressente que quanto mais reflectir sobre a jogada tanto mais certa ser a perda.
      As suas tropas eram as mesmas, os mesmos os seus generais, anlogas as medidas tomadas, o plano de batalha era o mesmo, mesmssima a sua proclamao breve e enrgica. Ele prprio no mudara, tinha a certeza. Pensava, at, dispor de muito mais experincia e habilidade que outrora. O inimigo, por sua vez, tambm era o mesmo de Austerlitz e de Friedland. E, no obstante a marretada tremenda que lhe dera, resultava impotente. Parecia bruxedo.
      Empregou todas as suas medidas outrora invariavelmente coroadas de xito - concentrao do fogo das baterias sobre um mesmo ponto, ataque das reservas para romper as linhas, assalto da cavalaria dos homens de ferro -, todas empregara agora e no s no conseguia a vitria, como eram sempre as mesmas as notcias que continuamente vinham at ele: generais mortos ou feridos, necessidade urgente de reforos, impossibilidade de vencer a resistncia dos Russos, desorganizao das tropas francesas.
      Anteriormente, duas ou trs disposies que tomasse, duas ou trs frases que pronunciasse, logo apareciam, de riso feliz nos lbios e alegria no rosto, marechais e ajudantes-de-campo que anunciavam como trofus grandes massas de prisioneiros, feixes de bandeiras e de cquias inimigas, canhes e comboios de abastecimentos, contentando-se Murat em pedir autorizao para enviar a sua cavalaria pilhar os carros. Assim acontecera em Lodi, em Marengo, em Arcole, em Iena, em Austerlitz, em Wagram, etc, Mas agora estavam a passar-se, realmente, coisas estranhas.
      Apesar da notcia que correra de que as trincheiras haviam sido tomadas, Napoleo dava-se conta de que no era a mesma coisa, que se no passava agora o que acontecera em todas as batalhas anteriores. E as impresses que sentia, via-o perfeitamente, eram as que estavam sentindo todos os da sua comitiva, homens experimentados na guerra. Havia tristeza em todos os rostos, os olhos evitavam encontrar-se. S Beausset no podia compreender a gravidade do que se passava. O imperador, por virtude da sua grande experincia, sabia de sobra o que significava uma batalha de oito horas, batalha em que empregara todos os esforos e em que o atacante ainda no levara a melhor. Para ele era quase uma batalha perdida e, no ponto instvel em que a luta se encontrava, o mais pequeno incidente podia perd-los - a ele e ao exrcito.
      Ao rememorar toda aquela estranha campanha da Rssia em que no obtivera qualquer vitria, onde, em dois meses, no tomara nem bandeiras, nem canhes, nem qualquer corpo de exrcito, ao evocar as expresses que o cercavam, secretamente preocupadas, ouvindo as referncias  resistncia obstinada do inimigo, sentia-se tomado de uma angstia no gnero das que se sentem nos pesadelos, e ao esprito acorriam-lhe, de sbito, todas as circunstncias infelizes que o podiam perder. Os Russos podiam atacar a sua ala esquerda; podiam perfurar-lhe o centro; um projctil perdido podia mat-lo. Tudo era possvel. Em todas as batalhas anteriores apenas pensara nas possibilidades de xito: agora s esperava e pressentia circunstncias funestas. Sim, parecia um pesadelo em que um homem, atacado por um malfeitor, por mais esforos que faa para brandir uma arma e atingir o adversrio, sente que a mo lhe cai, mole e impotente, como um trapo, enquanto o sentimento horrvel de uma morte inevitvel se apodera do desventurado indefeso.
      A notcia de que os Russos atacavam o flanco esquerdo do exrcito francs acordou em Napoleo idntico horror. Ali estava, calado, sentado no seu banco porttil, no sop do cabeo, com a cabea entre as mos. Berthier aproximou-se dele e props-lhe uma visita s linhas para ter uma noo exacta da situao.
      - Qu? Que est a dizer?! - exclamou o imperador. - Sim, mande que me tragam um cavalo.
      Montou e dirigiu-se a Semionovskoie.
      Por entre o fumo da plvora que lentamente se ia dissipando, jaziam, no meio de poas de sangue, cavalos e soldados, ora isolados ora aos montes. Nem Napoleo nem nenhum dos seus generais vira ainda espectculo to horroroso, tanto cadver em to pequeno espao. O troar dos canhes que ribombavam havia dez horas ininterruptamente martelava os tmpanos, formando como que um acompanhamento sinistro desse espectculo, como a msica nos quadros vivos.
      Ao atingir o alto de Semionovskoie, e atravs da fumarada, Napoleo viu diante de si fileiras densas de soldados com uniformes cujas cores lhe no eram familiares. Eram os Russos.
      Formando filas compactas, concentrados por detrs da povoao e do cabeo que tem o mesmo nome, as suas bocas de fogo despejavam metralha sem desfalecimento, cobrindo de fumo toda a, sua linha. J no era uma batalha. Era uma chacina, e esta chacina j no podia dar a vitria nem aos Russos nem aos Franceses. O imperador deteve-se e recaiu na meditao a que o arrancara Berthier. No estava nas suas mos fazer parar o que via desenrolar-se diante dos seus olhos, embora passasse por iniciador e responsvel de semelhante obra, e pela primeira vez, perante o seu fracasso, essa obra lhe parecia intil e horrvel.
      Um dos generais que se aproximara de Napoleo permitiu-se propor-lhe que autorizasse a velha Guarda a entrar em aco. Ney e Berthier, que estavam junto do imperador, trocaram um olhar entre si e sorriram desdenhosamente ao ouvirem to insensata proposta.
      Napoleo baixou a cabea e permaneceu por muito tempo silencioso.
      - A oitocentas lguas de Frana no sacrificarei a minha Guarda - disse ele, e, dando meia volta, regressou a Chevardino.
      

      
      
      
      Captulo XXXV
      
      Kutuzov estava sentado, a cabea branca inclinada e todo ele prostrado sob o peso do corpo, num banco coberto com um tapete, exactamente no mesmo stio onde Pedro o vira pela manh. No dava qualquer ordem, contentando-se em anuir ao que lhe vinham propor ou simplesmente discordar.
      Sim, sim, faa isso, respondia ele. Sim, sim, vai ver, dizia ,u este ou quele dos seus subordinados. Ou ento: No,  intil,  melhor esperar. Ouvia as informaes que lhe davam, no dando ordens seno quando os subordinados lhas pediam. Apurava o ouvido, sem parecer interessar-se pelo sentido das palavras que lhe diziam, embora observasse atentamente a expresso e o tom da voz das pessoas que lhe falavam. A sua larga experincia da guerra, a sua prudncia de velho, diziam-lhe no ser possvel a um s homem dirigir centenas de milhares de outros homens que lutam com a morte. Kutuzov sabia que o que decide do destino das batalhas no eram nem as medidas tomadas pelo general-chefe, nem as posies ocupadas pelos soldados, nem o nmero dos canhes e dos mortos, mas essa fora inapreensvel que se chama o moral das tropas e que ele procurava descobrir e dirigir na medida do possvel.
      O rosto de Kutuzov denunciava uma ateno concentrada e serena, conteno que s a custo dominava a fadiga de um corpo enfraquecido e gasto pela idade.
      As onze horas vieram dizer-lhe que as flechas ocupadas pelos Franceses tinham sido retomadas, mas que o prncipe Bagration estava ferido. Kutuzov soltou uma exclamao e abanou a cabea.
      - Vai imediatamente procurar o prncipe Piotre Ivanovitch e informa-te por mido do que se passa - disse ele a um dos seus ajudantes-de-campo; depois voltou-se para o prncipe de Wurtemberg, que estava por detrs dele:
      - Querer Vossa Alteza assumir o comando do 2 exrcito?
      Pouco depois da partida do prncipe, antes mesmo de ter podido chegar a Semionovskoie, aparecia o seu ajudante-de-campo, que vinha comunicar ao Serenssimo que o prncipe precisava de reforos.
      Kutuzov franziu as sobrancelhas e transmitiu imediatamente ordem a Dokturov para assumir o comando do 2 exrcito, rogando ao prncipe, ao qual dizia ser-lhe indispensvel nas graves circunstncias de momento, que voltasse para junto de si. Quando lhe disseram que Murat fora feito prisioneiro e lhe transmitiram as felicitaes do estado-maior, Kutuzov sorriu.
      - Esperem, meus senhores - observou. - Que a batalha esteja ganha e Murat tenha sido feito prisioneiro no acho coisa extraordinria. Mas parece-me melhor no nos alegrarmos antes de tempo.
      Entretanto expedia um ajudante-de-campo com esta, notcia para as tropas.
      Quando Tcherbinine chegou do flanco esquerdo para comunicar que os Franceses haviam retomado as flechas e Semionovskoie, Kutuzov, adivinhando, pelos gritos que vinham do campo de batalha e pela expresso do emissrio, que as coisas no estavam a caminhar bem, levantou-se, como se quisesse desentorpecer as pernas, e, travando do brao do oficial, afastou-se com ele.
      - Vai, meu amigo - disse ento a Ermolov. - Vai ver se no haver maneira de fazer mais alguma coisa.
      Kutuzov estava em Gorki, no centro das posies do seu exrcito. O ataque de Napoleo contra o flanco esquerdo dos Russos fora repelido por vrias vezes. No centro, os Franceses no tinham ido alm de Borodino. No flanco esquerdo a cavalaria de Uvarov obrigava o inimigo a fugir.
      As trs horas os ataques dos Franceses cessaram. Na expresso dos que chegavam do campo de batalha, bem como na das pessoas da sua comitiva, podia ler o general-chefe uma tenso que atingira o mais alto grau. Estava satisfeito com o xito da jornada, que ultrapassara o que ele esperava. Mas quele velho faltavam as foras fsicas. Por vrias vezes j o tinham visto deixar descair a cabea no peito e dormitar. Trouxeram-lhe o almoo.
      O ajudante-de-campo do imperador, Woltzogen, o mesmo a quem o prncipe Andr ouvira dizer ser preciso que a guerra se estendesse, e a quem Bagration odiava, apresentou-se a Kutuzov quando ele estava a comer. Vinha em nome de Barclay dar-lhe contas da situao no flanco esquerdo. O prudente Barclay, ao ver a vaga de feridos que aflua e a desorganizao da retaguarda, e depois de pesar os prs e os contras, conclura que a batalha estava perdida e enviara o seu oficial favorito levar a notcia ao general-chefe.
      Kutuzov mastigava nesse momento, no sem dificuldade, um pedao de frango assado; fixou em Woltzogen o seu olho pisco, que se tornara alegre.
      Este, em passo negligente, um sorriso assaz desdenhoso nos lbios, aproximou-se, a mo algo frouxa na pala da barretina. Tratava o Serenssimo com uma afectao descorts, como que a mostrar que ele, militar de altos mritos, deixava para os Russos o considerarem um dolo aquele velho intil, pois a verdade  que ele sabia muitssimo bem com quem estava a lidar.
      Der alte Herr, (do velho senhor (N, dos T.) assim o tratavam os Alemes entre si, e macht sich ganz bequern (O velho senhor instalou-se comodamente. (N, dos T.), pensou Woltzogen, lanando um olhar de reprovao aos pratos que Kutuzov tinha diante, e principiou o seu relatrio sobre a situao do flanco esquerdo nos termos em que Barclay lhe ordenara que a expusesse e tal como ele prprio a vira e observara com os seus prprios olhos.
      - Todos os pontos da nossa posio esto nas mos do inimigo e no temos possibilidades de os rechaar por falta de tropas. Os nossos soldados debandam e  impossvel det-los - disse ele.
      Kutuzov pousou o talher e fixou Woltzogen, surpreendido, como se no compreendesse o que lhe estava a dizer. O oficial, ao notar a emoo des alten Herr (do velho senhor (N, dos T.), disse-lhe, sorrindo:
      - No me julgava no direito de ocultar o que vi a Vossa Excelncia. As tropas esto completamente desorganizadas.
      - Foi o que o senhor viu? Foi o que o senhor viu?! exclamou Kutuzov, franzindo as sobrancelhas, erguendo-se rapidamente e avanando para Woltzogen. - Como se atreve?!... Como se atreve?!... - exclamou, fazendo gestos ameaadores com as mos trmulas, a voz embargada pela clera. - Como se atreve, meu caro senhor, a falar-me a mim nesses termos? O senhor nada sabe. V dizer ao general Barclay, da minha parte, que as suas informaes so falsas e que eu, general-chefe, conheo melhor do que ele o desenvolvimento da batalha.
      Woltzogen quis replicar, mas Kutuzov interrompeu-o:
      - O inimigo foi repelido no flanco esquerdo e vencido no direito. Se o senhor viu mal, no  razo para dizer o que ignora. Faa favor de voltar para junto do general Barclay e transmitir-lhe a minha ordem absoluta de atacar amanh o inimigo acrescentou num tom severo.
      Todos os presentes se conservavam calados e ouvia-se apenas a respirao ofegante do velho general.
      - Os Franceses foram repelidos em toda a parte, e disso dou graas a Deus e ao nosso valoroso exrcito. O inimigo est vencido e amanh expuls-lo-emos do sagrado solo da Rssia - prosseguiu Kutuzov, persign4ndo-se, e de sbito as lgrimas inundaram-lhe os olhos.
      Woltzogen encolheu os ombros, esboou uma careta e afastou-se, surpreendido com uber die Eigenommenheit des alten Herr (...essa obstinao do velho senhor. N, dos T.).
      - E aqui tem o meu heri - disse Kutuzov, apontando para um general, um belo e entroncado mancebo de cabelos pretos que acabava de chegar ao cabeo.
      Era Raievski, que passara o dia inteiro no ponto principal da batalha.
      Raievski informou o Serenssimo de que as tropas se mantinham firmes nas suas posies e que os Franceses no se atreviam a atac-las de novo.
      Ao ouvir estas palavras. Kutuzov exclamou em francs:
      - Ento no pensa como os outros que somos obrigados a retirar?
      - Ao contrrio, Alteza, nos assuntos indecisos  sempre o mais tenaz que sai vitorioso - replicou Raievski. - E na minha opinio...
      - Kaissarov! - chamou Kutuzov. - Assenta-te ali e redige a ordem do dia para amanh. E, tu - acrescentou, dirigindo-se a outro ajudante-de-campo vai percorrer as linhas e comunicar que amanh atacaremos.
      Entretanto, Woltzogen regressava, enviado por Barclay, para dizer que este desejava uma confirmao por escrito da ordem que o marechal acabava de dar.
      Kutuzov, sem se dignar olhar para ele, mandou redigir a ordem que o ex-general-chefe exigia com razo para se ilibar de qualquer responsabilidade.
      E graas a essa cadeia indefinida e misteriosa que mantinha em todo o exrcito o mesmo estado de esprito a que se costuma chamar moral das tropas e que constitui o nervo vital da guerra, as palavras de Kutuzov e a sua ordem do dia anunciando a batalha para a manh seguinte imediatamente se transmitiram a todos os pontos do corpo do exrcito.
      No foram os termos da prpria ordem que se transmitiram at aos ltimos anis dessa cadeia. No que cada um contava ao vizinho nada havia mesmo que se parecesse com o que Kutuzov dissera, mas pelo menos era o sentido das suas palavras que se transmitia, pois essas palavras emanavam, no de consideraes mais ou menos astuciosas, mas dos sentimentos profundos que animavam a alma do general-chefe, como, alis, a alma de todos os russos.
      Ao inteirar-se de que no dia seguinte atacaria o inimigo, ao ouvir nas esferas superiores do exrcito a confirmao daquilo em que queria crer, toda aquela gente extenuada e hesitante se sentiu consolada e ganhou confiana.
      

      
      
      
      Captulo XXXVI
      
      O regimento do prncipe Andr conservou-se entre as reservas inactivas na retaguarda de Semionovskoie, debaixo de um intenso fogo de artilharia, at cerca das duas horas. A essa hora o regimento, que j perdera mais de duzentos homens, avanara, por um campo de aveia espezinhada, para o espao que mediava entre Semionovskoie e a bateria do cabeo, aquela em que durante a manh haviam cado milhares de soldados e para onde precisamente s duas horas acabava de ser dirigido o fogo violento e convergente de muitas centenas de peas inimigas.
      Sem se mover do mesmo lugar e sem haver disparado um nico tiro, o regimento perdeu ali um tero dos seus efectivos. Mesmo em frente, e sobretudo  sua direita, no meio da fumarada que se no dissipava, os canhes metralhavam-no, e dessa misteriosa regio envolta em fumo que se estendia ao longo de todo o terreno que lhe fazia face, sem trguas, acompanhados de assobios rpidos e prolongados, chegavam as granadas, voavam os obuses. Por vezes, como para conceder um breve descanso, durante um quarto de hora, balas e obuses iam cair mais adiante, mas outras vezes no se passava um minuto sem que vrios homens cassem atingidos e continuamente se retiravam cadveres ou se levavam feridos.
      A cada nova descarga os que ainda estavam vivos menos probabilidades tinham de se salvar. O regimento formava em colunas de batalho, com trezentos passos de intervalo entre cada batalho. No entanto, todos os homens se encontravam no mesmo estado de esprito. Todos estavam igualmente silenciosos e taciturnos. Poucas palavras se trocavam entre eles, e essas mesmas eram interrompidas de cada vez que caa um projctil e ressoava o grito: Padiola! A maior parte do tempo os homens, por ordem dos comandantes, estavam sentados no cho. Este, tirando a barretina, entretinha-se, com toda a mincia, a fazer e a desfazer a corredia; aquele limpava a baioneta com argila seca que se lhe esfarelava nas mos: havia os que desmanchavam o correame e voltavam a afivelar os seus equipamentos; e ainda os que desenrolavam as grevas e voltavam a enrolar. Alguns construam abrigos com canios ou entranavam esteiras com palha dos campos, Todos pareciam absortos nestas ocupaes. Quando os seus camaradas caam mortos ou feridos e eles viam passar as padiolas, quando os Russos recuavam, ou atravs da fumarada se desenhavam as massas compactas dos soldados inimigos, ningum entre eles prestava a mais pequena ateno a qualquer dessas coisas. Em compensao, desde que a artilharia, ou a cavalaria russas se punham em marcha, de todos os lados rompiam gritos de encorajamento. Mas a verdade  que eram os incidentes absolutamente acessrios e que nada tinham com a batalha que mais chamavam a ateno geral. Dir-se-ia que aquela gente, moralmente esgotada, encontrava repouso nas ocupaes habituais da vida quotidiana. Uma bateria de artilharia passou diante do regimento. Um cavalo de varas enredou os arreios num dos armes.  tu! No vs? Olha o cavalo!... Vai cair... Parece impossvel... Ento no vs?... E por toda a parte no regimento se soltaram idnticas exclamaes, De outra vez todas as atenes se fixaram num cozito amarelado, de rabo arqueado, que, aparecendo ali por acaso, se ps a correr, cheio de medo, por entre as fileiras dos homens. S Deus sabe donde viria! De sbito, ao rebentar um obus ali perto, soltou um ganido e com o rabo entre as pernas desapareceu por um dos lados. Gritos e risos se ouviram por toda a parte, Mas essa, espcie de distraces durava apenas alguns minutos e havia j mais de oito horas que estavam inactivos e sem nada comer sob o contnuo horror da morte. Os seus rostos plidos e taciturnos cada vez empalideciam e se carregavam mais.
      O prncipe Andr, como todos os homens do seu regimento, plido e de sobrancelhas franzidas, ia e vinha, no prado que confinava com o campo de aveia, de um rego a outro, a cabea baixa e as mos atrs das costas. Nada tinha a fazer nem nenhuma ordem a dar. Tudo se fazia por si mesmo. Os mortos eram arrastados para detrs das linhas, os feridos levados, as fileiras voltavam a refazer-se. Se os soldados se afastavam, no tardavam a voltar apressadamente. De princpio julgara de seu dever excitar a coragem dos soldados e dar-lhes o exemplo passando por entre as fileiras, mas em breve reconheceu que nada tinha a ensinar-lhes. Todas as foras da sua alma, como as foras da alma de cada um dos seus soldados, no tendiam inconscientemente a outra coisa seno a no pensar no horror da situao em que estavam. E l ia passeando no prado, arrastando os ps, pisando a erva, examinando a poeira que lhe cobria as botas. Ora dava grandes passadas, tentando pr os ps nos trilhos deixados pelos ceifeiros, ora contava os seus passos, calculando o nmero de vezes que teria de ir de um rego ao outro para perfazer uma versta. Outras vezes ainda arrancava, ao passar, as artemisas que cresciam nos regos, esfregava-as entre as mos e respirava o seu aroma forte e amargo. Nada restava do labor dos seus pensamentos da vspera. Em nada pensava. Com seus ouvidos cansados ouvia sempre os mesmos sons, procurando distinguir no ar o silvo dos projcteis, do estampido das descargas, e examinava os rostos, que bem conhecia, dos soldados do primeiro batalho, e esperava. L vai mais um... Ainda para ns, dizia de si para consigo ao perceber o assobio, que se aproximava, de um projctil que emergia da zona de fumo. L vem outro! Agora! J est. Calou-se e olhou as fileiras dos soldados. No, aquele passou longe. Mas agora  a nossa vez. E de novo se ps a passear, procurando alargar o passo de molde a alcanar o rego em dezasseis passadas. De sbito um silvo e depois uma pancada; ali, a cinco passos, um projctil faz voar a terra seca de todos o, lados e enterra-se no cho, Um arrepio involuntrio percorre-lhe as costas. De novo lana um olhar aos seus soldados. H muitos atingidos, naturalmente: no segundo batalho ouve-se tumulto.
      - Senhor ajudante-de-campo - grita ele - iro permita que se formem ajuntamentos.
      Este executa a ordem e aproxima-se do prncipe Andr. De outro lado chega a cavalo o comandante do batalho.
      - Cuidado! - grita um soldado, espavorido, e silvando, num rpido voo, uma granada caiu a dois passos do prncipe Andr, prximo do cavalo do comandante do batalho. O cavalo empina-se relinchando, com risco de jogar por terra o cavaleiro, e recua. O terror do animal apodera-se dos homens.
      - Deitem-se! - grita a voz do ajudante-de-campo que se atirara ao cho.
      O prncipe continuava de p, irresoluto. O obus, fumegando, girava no solo como um pio entre ele e o ajudante-de-campo no limite da seara de aveia e do prado, junto de uma pernada de artemisa.
      Ser a morte?, pensou, olhando, com um olhar absoluta- mente novo e como que invejoso, a erva, a pernada de artemisa, o fio de fumo que se desprendia da bola negra em movimento.
      No posso, no quero morrer, gosto da vida, gosto desta erva, desta terra, do ar que respiro... Dizia isto de si para consigo e ao mesmo tempo pensava nos que estavam a olhar para ele.
      - No tem vergonha, senhor oficial? - disse para o ajudante-de-campo. - Que...
      No pde concluir. Nesse mesmo instante ressoou a exploso, houve um retinir, como de vidros quebrados, uma baforada de fumo e o prncipe Andr, projectado de lado, ergueu um brao ao ar e foi cair de cara contra o cho.
      Alguns oficiais acorreram. Do flanco direito escorria-lhe pela erva um grande rego de sangue.
      Os milicianos, logo chamados, detiveram-se com a sua padiola na retaguarda dos oficiais. Andr estava estendido sobre o ventre, o rosto na erva, e estremecia com grandes soluos.
      - Vamos, que esto a a fazer, aproximem-se!
      Os camponeses chegaram, pegaram-lhe pelos ombros e pelas pernas, mas ele gemia dolorosamente e, depois de se entreolharem, voltaram a p-1o no cho.
      - Peguem-lhe, ponham-no na padiola, pouco importa! - gritou uma voz.
      - Oh. Deus!, oh, Deus! Ser possvel?... No ventre.  a morte! Oh!, meu Deus! - exclamaram vrios oficiais. - Roou-me por uma orelha - disse o ajudante-de-campo. Os camponeses, depois de terem posto a padiola aos ombros, meteram a toda a pressa pelo atalho que conduzia  ambulncia.
      - A passo! - Eh, camponeses! - gritou-lhes um oficial detendo pelo ombro um dos milicianos, que caminhavam em passo irregular e agitavam a maca,
      - Tem cuidado, hem, Kvedor! Eh, Kvedor! - exclamou o que ia  frente.
      - Assim est bem! - respondeu, jovial, o que ia atrs, acertando o passo.
      -  Sua Excelncia?  o prncipe? - disse Timokine em voz trmula, correndo para a padiola.
      O prncipe Andr abriu os olhos e do alto da padiola onde a cabea lhe descara lanou um olhar quele que lhe falava, voltando a cerrar as plpebras,
      Os milicianos levaram o prncipe Andr para a mata onde estavam os carros e a ambulncia. Esta era formada por trs tendas de campanha separadas, e de lonas abertas, na orla de uma inata de lamos. Os carros e os cavalos estavam debaixo das rvores. Os animais comiam a sua aveia nos respectivos sacos e os pardais cirandavam em volta deles na esperana de apanhar os gros espalhados. Corvos, atrados pelo sangue, grasnavam, impacientes, por entre os lamos. Em volta das tendas, numa rea de umas duas dessiatinas, viam-se deitados, sentados ou de p soldados ensanguentados, envergando os mais diversos uniformes. Na vizinhana dos feridos estacionava uma multido de maqueiros de expresses tristes e atentas, que os oficiais encarregados de manter a ordem procuravam debalde afastar dali. Sem lhes dar ouvidos, estes soldados ali continuavam, encostados s suas padiolas, olhando fixamente tudo que se passava  sua volta, como que a procurarem compreender o terrvel significado de semelhante espectculo. Ouviam-se nas tendas ora gritos lancinantes e selvagens ora gemidos dolorosos. De tempos a tempos saam de l correndo enfermeiros que iam buscar gua e designavam os feridos que deviam ser transportados. Estes, que esperavam a sua vez  entrada das tendas, gemiam, choravam, gritavam, proferiam injrias, pediam que lhes dessem vodka, sentia-se-lhes o estertor. Alguns deliravam. Deixando para trs os feridos que ainda no tinham sido pensados, levaram o prncipe Andr, na sua qualidade de comandante de regimento, at  entrada de uma das tendas e a se detiveram os seus maqueiros, aguardando ordens. Andr abriu os olhos e esteve assim muito tempo sem ser capaz de compreender o que se passava, O prado, as artemisas, o campo de aveia, a bola negra, girando e o seu arrebatamento de amor pela vida, tudo isto lhe veio ao esprito. A dois passos da sua padiola um sargento alto e moreno, a cabea atada, encostado ao tronco de uma rvore, falava em voz alta, chamando a ateno de toda a gente, Fora ferido na cabea e numa perna. A sua volta agrupava-se uma chusma de feridos e de maqueiros que escutava, avidamente o que ele dizia.
      Quando corremos com eles dali, deixaram l tudo, e at o rei deles fizemos prisioneiro, gritava o sargento, com os seus olhos negros resplandecentes e miradas de orgulho  sua roda. Se ao menos naquele momento as reservas tm chegado, podem crer, rapazes, no tinha escapado um, to certo como eu estar aqui.. 
      O prncipe Andr, como todos os que rodeavam o narrador, olhava para ele com os olhos brilhantes, e um sentimento de alvio o percorria. Mas que me importa agora, dizia de si para consigo, que tenho eu a ver com o que acontecer ali e com o que aconteceu aqui? E porque ser que me custa tanto deixar esta vida? H de facto nela qualquer coisa que eu no compreendia e que continuo sem compreender.
      

      
      
      
      Captulo XXXVII
      
      Um dos mdicos saiu da tenda de campanha. Tinha um avental ensanguentado, e nos seus pequenos dedos, tambm cheios de sangue, entre o polegar e o anelar, equilibrava um charuto que procurava no sujar, Ergueu a cabea e olhou para os dois lados por cima dos feridos. O que ele queria, evidentemente, era respirar um pouco de ar puro. Depois de olhar  direita e  esquerda, suspirou e baixou a cabea.
      Sim,  j, respondeu ao enfermeiro que lhe apontava o prncipe Andr, e ordenou que o levassem para a tenda. Pelos vistos at no outro mundo a vida  melhor para estes senhores, disse um dos feridos.
      Transportaram o prncipe Andr para dentro da tenda e colocaram-no sobre uma, mesa que acabava de ficar livre e que um enfermeiro limpava. Andr no pde distinguir coisa por coisa o que havia dentro da tenda. Os gemidos lancinantes que se ouviam por todos os lados, as dilacerantes dores que sentia na anca, no abdmen e nas costas tomavam-no por completo. O espectculo que tinha diante dos olhos confundia-se numa nica impresso geral de corpos humanos nus e ensanguentados que pareciam encher por completo toda aquela tenda de tecto baixo, exactamente como, semanas atrs, num clido dia de Agosto, os corpos que vira dentro do tanque lodoso na estrada de Smolensk. Sim, era a mesma carne, precisamente essa carne para canho, cujo espectculo ento, como se previsse o que estava a ver agora, o enchera de horror.
      Na tenda havia trs mesas. Duas delas j estavam ocup4 das: puseram o prncipe Andr na terceira. Deixaram-no s por instantes e pde ento, mesmo sem querer, ver o que se passava nas outras. Na que lhe ficava mais prxima estava sentado um trtaro, cossaco, sem dvida, a avaliar pelo capote a seu lado. Quatro soldados o agarravam. Um mdico de culos retalhava-lhe as costas trigueiras e musculosas.
      Ai, ai, ai!, berrava o trtaro, como um cevado no matadouro, e de sbito, retesando a cara bronzeada, de malares salientes e nariz chato, rangendo os dentes brancos, principiou a estrebuchar, a soltar gritos prolongados e pungentes.
      Na outra mesa,  volta da qual havia muitas pessoas, estava deitado de costas um homem forte e de grande estatura, com a cabea cada para trs. Os seus cabelos encaracolados, a cor do cabelo e a forma da cabea no pareceram desconhecidos ao prncipe Andr. Vrios enfermeiros mantinham-no imobilizado, segurando-o fortemente. Uma das suas pernas, branca e gorda, era constantemente agitada por estremecimentos convulsivos. O homem soltava soluos entrecortados e sufocava. Dois mdicos, silenciosos, um deles muito plido e trmulo, ocupavam-se da outra perna, muito vermelha. O mdico dos culos, depois de dar por finda a sua tarefa junto do trtaro, a quem cobriram com um capote, aproximou-se do prncipe Andr enxugando as mos.
      Dispam-no! Que esto a a fazer?, gritou, furioso, para os enfermeiros.
      O prncipe Andr recordou-se da sua longnqua e tenra infncia, quando o enfermeiro, de mangas arregaadas, o desabotoara rapidamente e o despira. O mdico debruou-se sobre o seu ferimento, e depois de o palpar suspirou profundamente. Em seguida fez um sinal a algum. A dor atroz que sentiu no abdmen fez perder os sentidos ao ferido. Quando voltou a si, haviam-lhe extrado os fragmentos do fmur quebrado, tinham-lhe cortado grandes pedaos de carne e a ferida fora envolta em ligaduras. Espargiam-lhe a cara com gua. Assim que abriu os olhos, o mdico debruou-se para ele, beijou-o nos lbios, sem dizer palavra, e afastou-se precipitadamente.
      Depois do sofrimento que suportara, Andr sentiu um bem-estar que desconhecia h muito. Pela imaginao perpassavam-lhe todos os melhores e mais felizes momentos da sua vida, especialmente a sua mais longnqua infncia, quando o despiam e o deitavam na sua caminha, e a sua ama, embalando-o, cantava para o adormecer ou, quando, a cabea pousada na almofada, era feliz por se sentir viver. E todas estas impresses no se lhe afiguravam passadas, mas uma realidade presente. Os mdicos continuavam de volta do ferido cujos traos lhe no pareceram desconhecidos. Solevavam-no e esforavam-se por acalm-lo.
      Mostrem-ma!... Ai!, ai!, ai!, gemia ele, numa voz entrecortada de soluos, apavorada e como que quebrada pelo sofrimento.
      Ao ouvir esses gritos, Andr sentia vontade de chorar. Seria por ver-se morrer sem glria? Seria por causa das recordaes de infncia para sempre desaparecida? Ou seria por ver sofrer os outros e ouvir aquele homem soltar diante dele gemidos to lamentosos? Fosse como fosse, tinha vontade de chorar, de chorar lgrimas de criana, por assim dizer lgrimas suaves de alegria.
      Mostraram ao ferido a perna cortada, com sangue coagulado e ainda com a bota calada.
      Ai! Ai!, gemeu, rompendo a chorar como uma mulher.
      O mdico que estava diante do ferido e lhe ocultava a cara afastou-se.
      Meu Deus! Que  isto? Que est ele aqui a fazer?, disse para si mesmo o prncipe Andr.
      Naquele desgraado que chorava, sem foras, e a quem acabavam de amputar uma perna, reconhecera Anatole Kuraguine. Amparavam-no por debaixo dos braos e chegavam-lhe um copo de gua, que ele no conseguia atingir com a extremidade dos lbios tumefactos e trmulos. Continuava a soluar. Sim,  ele; aquele homem est ligado a mim por laos ntimos e dolorosos, disse de si para consigo o prncipe Andr, sem ter ainda uma ideia ntida, do que lhe estava a acontecer. Que laos ligam aquele homem  minha infncia,  minha existncia?, perguntava sem conseguir obter resposta, E de sbito despertou-o um novo apelo inesperado: uma figura desse mundo da infncia, cheia de pureza e de amor. Lembrou-se de Natacha, tal como ela lhe aparecera pela primeira, vez nesse baile e 1810, com o pescoo e os braos delgados, a sua expresso assombrada e feliz, to pronta a entusiasmar-se, e o seu amor e a sua ternura por ela acordaram-lhe no fundo do corao mais vivos e fortes do que nunca. Compreendia agora o lao que existia entre ele e aquele, homem que atravs das lgrimas que lhe embaciavam os olhos o fitava com o seu olhar nublado. Andr lembrou-se de tudo, e uma imensa piedade, um apaixonado amor por aquele homem lhe encheu o corao feliz, No podendo conter-se por mais tempo, ps-se a chorar mansas lgrimas de amor pelos outros em geral, por ele prprio, pelos desvarios dos homens e pelos seus prprios desvarios.
      Sim, a piedade, o amor dos nossos irmos, daqueles que nos amam, o amor dos que nos odeiam, o amor dos nossos inimigos, sim, esse amor que Deus veio pregar sobre a Terra, esse amor de que me falava a princesa Maria e que eu no compreendia, eis o que me faz ter pena da vida, eis a nica coisa que me restaria se ainda tivesse vida para viver. Mas agora  tarde, tarde de mais, Eu bem sei.
      

      
      
      
      Captulo XXXVIII
      
      O aspecto aterrador do campo de batalha, coberto de mortos e moribundos, o peso que sentia na cabea e a nova de que vinte dos ,seus generais tinham sido mortos ou postos fora de combate, tudo isto e o reconhecimento, a que se via obrigado, da impotncia do seu pulso, outrora todo poderoso, produziu um efeito inesperado em Napoleo, que ordinariamente gostava de ver os mortos e os feridos no intuito de pr  prova a sua fora moral, como costumava dizer. Naquele dia o pavoroso aspecto do campo de batalha vencera a sua fora moral, coisa em que estribava o seu mrito e a sua grandeza, Retirou-se precipitadamente e regressou ao reduto de Chevardino. Sentado no banco porttil, amarelento, inchado, pesado, os olhos embaciados, o nariz vermelho e a voz rouca, ouvia o tiroteio involuntariamente, de cabea baixa. Era com febril inquietao que aguardava o fim daquela obra em que participava embora sem a poder dar por finda. Por momentos prevalecia nele, sobre a miragem em que vivera e de que por tanto tempo fora escravo, um puro sentimento de humanidade. Sentia pesar-lhe na alma o sofrimento e as mortes de que tivera a viso ao percorrer o campo de batalha. O peso na cabea e a opresso que lhe tomava os pulmes faziam-no pensar que tambm podia sofrer e morrer. Naquele momento no desejava nem Moscovo, nem a vitria, nem a glria. Para que queria a glria? Nada mais desejava naquele momento alm do repouso, da serenidade e da liberdade. Quando estivera, porm, no cabeo de Semionovskoie, o comandante da artilharia propusera-lhe instalar ali algumas baterias para reforar o fogo sobre as tropas russas concentradas diante de Kniazkovo. Napoleo concordara, determinando que lhe comunicassem o resultado obtido.
      Um ajudante-de-campo veio anunciar-lhe que duzentas peas de artilharia tinham aberto fogo contra os Russos, mas que estes continuavam a resistir.
      - O nosso fogo ceifa-os, fileira a fileira, e apesar disso permanecem firmes - disse o ajudante-de-campo.
      - Ainda querem mais! - exclamou Napoleo com voz rouca.
      - Sire?  perguntou o oficial, que no ouvira bem.
      - Querem mais - repetiu ele, com a mesma rouquido na voz e franzindo as sobrancelhas. - Dem-lhes o que esto a pedir. 
      E sem que disso tivesse a iniciativa, o que ele realmente no queria realizava-se, no dando ordens seno por pensar que esperavam que ele as desse. De novo se deixou mergulhar nesse mundo fictcio, povoado de vises de grandeza, e de novo, como um cavalo que, movendo uma nora, julga realizar uma tarefa til para si, cumpria, docilmente, o cruel, doloroso, inumano e penoso Papel para que estava predestinado.
      E no foi s naquela hora e naquele dia que o esprito e a conscincia se lhe obscureceram, quele homem sobre quem pesava mais do que sobre qualquer outro ser humano a responsabilidade do que se estava a passar. Nunca, at ao ltimo dos seus dias, pde compreender o que era o bem, o que era a beleza, o que era a verdade, nem jamais compreendeu a significao dos seus prprios actos por de mais opostos  verdade e ao bem para que ele pudesse compreender-lhes o significado. Nunca pde renegar os seus prprios actos, to louvados por meio mundo, e assim se viu forado a renegar a verdade e o bem e tudo o que era verdadeiramente humano,
      No foi s naquele dia que ele, percorrendo o campo de batalha juncado de soldados mortos ou mutilados - por obra e graa da sua vontade, assim pensava -, pde calcular quantos eram os mortos russos por cada morto francs, e, enganando-se a si prprio, achara razes para rejubilar, pois, segundo ele, por cada um dos seus tinham cado cinco do inimigo. No foi s naquele dia que ele disse, como escreveu numa carta para Paris: O campo de batalha estava soberbo, por haver mais de cinquenta mil cadveres. Tambm na ilha de Santa Helena, no silncio da solido, onde, segundo declarara, pensava consagrar os seus cios a relatar as obras que levara a cabo, escreveria:
      
      A guerra da Rssia devia ter sido a guerra mais popular dos tempos modernos: era a guerra do bom senso e dos verdadeiros interesses, a guerra do repouso e da segurana geral; era puramente pacfica e conservadora.
      Era pela grande causa, pelo fim dos acasos e pelo princpio da segurana. Um horizonte novo, novos trabalhos iam, desenrolar-se, cheios do bem-estar e da prosperidade de todos. Estava fundado o sistema europeu; restava apenas organiz-lo.
      Satisfeitos que fossem estes grandes objectivos e tranquilo que me visse em toda a parte, teria tido tambm o meu Congresso e a minha Santa Aliana. Ideias que me roubaram. Nessa reunio de grandes soberanos teramos tratado dos nossos interesses em famlia e contaramos ento, de amo a servidor, com todos os povos.
      Deste modo teria chegado a ser a Europa verdadeiramente um nico povo e toda a gente por onde quer que viajasse encontrar-se-ia sempre na ptria comum. Teria obtido o livre trnsito em todos os rios navegveis, a comunidade dos mares, e que os grandes exrcitos permanentes fossem reduzidos da para o futuro  escolta dos soberanos.
      De regresso a Frana, no seio da ptria, grande, forte, magnfica, tranquila, gloriosa, teria proclamado os seus limites imutveis; teria declarado todas as guerras futuras puramente defensivas e qualquer engrandecimento novo antinacional. Teria associado meu filho ao imprio, a minha ditadura acabaria, e teria comeado um reinado constitucional...
      Paris teria sido a capital do mundo e os Franceses a inveja das naes!...
      Os meus cios e os dias da minha velhice teriam sido consagrados, na companhia da imperatriz e enquanto durasse o aprendizado real de meu filho, a visitar, vagarosamente, e como um verdadeiro casal de aldees, com os nossos prprios cavalos, todos os recantos do Imprio, ouvindo as queixas, fazendo justia, semeando por toda a parte monumentos e boas obras. (Em francs no texto original. (N, dos T.)
      
      Destinado pela Providncia para desempenhar o papel lamentvel e servil de carrasco das naes, queria convencer-se de que o seu objectivo era o bem dos povos e que podia orientar o destino de milhes de seres fazendo a sua felicidade.
      Dos 400 mil homens que atravessaram o Vstula - escreveria mais adiante a propsito da campanha da Rssia - metade eram austracos, prussianos, saxes, polacos, bvaros, wurtem, burgueses, espanhis, italianos, napolitanos. Um tero do exrcito imperial propriamente dito era formado por holandeses, belgas, naturais das margens do Rena, piemonteses, suos, genebrinos, toscanos, romanos, componentes da 32 diviso militar, habitantes de Brmen, Hamburgo, etc.; nele apenas 140 mil homens falavam francs. A expedio da Rssia custou menos de 50 mil homens  Frana actual; o exrcito russo, na retirada de Vilna para Moscovo e nas diversas batalhas que se travaram perdeu quatro vezes mais homens que o exrcito francs; no incndio de Moscovo perderam a vida 100 mil russos, mortos de frio e de fome nas florestas; e por ltimo, na sua marcha de Moscovo at ao der, o exrcito russo foi tambm castigado pelas intempries da estao; quando chegou a Vilna, apenas contava 50 mil homens e em Kalisch tinha menos de 18 mil!.
      Napoleo pensava, pois, que esta guerra contra a Rssia era obra sua, e o horror do que acontecera no lhe causava a mais pequena emoo. Assumia toda a responsabilidade dos acontecimentos e a sua mente ofuscada achava justificao no facto de entre as centenas de milhares de homens sacrificados haver menos franceses do que bvaros ou habitantes do Hesse.
      

      
      
      
      Captulo XXXIX
      
      E eis como algumas dezenas de milhares de homens dos mais diversos uniformes jaziam mortos,  mistura, naqueles campos e pradarias, propriedade de um tal Sr. Davydov e dos mujiques da coroa, campos e pradarias onde, durante centenas de anos, os habitantes de Borodino, Gorki, Chevardino e Semionovskoie, todas as estaes, invariavelmente, procediam s suas colheitas e levavam os seus rebanhos a pastar. Nas ambulncias, na rea de uma dessiatina, erva e terra estavam empapadas de sangue. Multides de soldados de diversas armas, feridos ou vlidos, o pnico escrito na cara, iam refluindo, uns sobre Mojaisk, outros sobre Valuieva. Massas de homens esgotados de fadiga e mortos de fome, conduzidos pelos seus chefes, continuavam a marchar. E por ltimo outros havia que se mantinham no seu lugar disparando sempre.
      Por cima do campo de batalha, to formoso e alegre algumas horas antes, quando resplandeciam as baionetas ou se esgaravam os vapores do sol matinal, estendia-se agora um nevoeiro hmido  mistura com fumo donde se desprendia um cheiro estranho e acre a salitre e a sangue. Enevoara-se o cu e uma chuva fina caa sobre os mortos, sobre os feridos, sobre aqueles homens extenuados, tornados de pnico, que principiavam a duvidar. Parecia gritar-lhes: Basta, basta, infelizes! Cessai... Tomai tento! Que estais a fazer?
      Os soldados de ambos os exrcitos, cansados e esfomeados. Principiavam a perguntar-se a si prprios se valeria a pena continuarem a matar-se uns aos outros, e rios seus rostos lia-se a hesitao e em cada alma surgia esta pergunta:
      Porqu, por quem devo eu matar ou deixar-me matar? Matai, vs, a quem quiserdes; fazei o que quiserdes; por mim, no quero mais! Ao entardecer esta ideia amadurecera em todas as almas. De um momento para o outro estes homens podiam vir a sentir horror pelo que estavam a fazer e abandonar tudo e fugir fosse para onde fosse.
      Sem embargo, ainda que no final da batalha estes sentimentos tivessem surgido na alma de todos os combatentes, ainda que todos se tivessem sentido felizes por acabar, uma fora incompreensvel e misteriosa obrigava-os a, continuar, e, cobertos de suor, negros de p, sujos de sangue, reduzidos a um tero, extenuados e sem poderem mais, os artilheiros continuavam a transportar as cargas, a carregar as peas, a apont-las, a inflamar as mechas, e os projcteis, com a mesma velocidade e a mesma crueldade, voavam quer de um lado, quer do outro, rasgando os corpos humanos, continuando a mesma terrvel tarefa que se cumpre no graas a vontade do homem, mas graas  vontade dAquele que rege os destinos do mundo inteiro.
      Quem quer que tivesse visto as fileiras desorganizadas da retaguarda do exrcito russo teria pensado que bastava um pequenino esforo dos Franceses para esmagar esse exrcito. E quem quer que tivesse visto a desorganizao dos Franceses teria podido raciocinar da mesma maneira. Mas a verdade  que nem os Franceses nem os Russos faziam esse esforo e o fogo da batalha ia-se apagando pouco a pouco,
      Os Russos no faziam esse esforo porque no tinham sido eles quem atacara. De princpio haviam-se limitado a ocupar a estrada de Moscovo, interceptando-a ao inimigo, e nesse posto continuaram at ao fim. Alis, ainda que o seu objectivo fosse derrotar os Franceses, eram incapazes deste ltimo esforo, uma vez que todo o seu exrcito estava desorganizado, que todos sofreram com a batalha e que para se manterem nos seus postos tinham perdido metade dos seus efectivos.
      Os Franceses, amparados pela recordao de quinze anos de vitrias, certos de que Napoleo era invencvel, cientes de que se tinham apoderado de uma parte do campo de batalha, que no haviam perdido seno a quarta parte dos seus homens e que atrs deles ainda, intactos, estavam os vinte mil homens da Guarda, teriam podido facilmente fazer esse esforo. Eram os Franceses, que tinham atacado o exrcito russo com o objectivo de o desalojar das suas posies, quem devia fazer esse esforo, uma vez que enquanto os Russos continuassem, como no princpio da batalha, a interceptar-lhes a estrada para Moscovo, o seu alvo no fora atingido e inteis deviam considerar-se todos os seus esforos e todas as suas perdas. A verdade, porm,  que no fizeram esse esforo. Alguns historiadores foram de parecer de que bastaria, Napoleo ter mandado avanar a sua velha Guarda para a batalha ser ganha. Mas quem assim se exprime parece supor que o Outono pode de sbito transformar-se em Primavera, coisa impossvel. Se Napoleo no ofereceu a sua Guarda, no foi porque o no quisesse, mas por lhe ser impossvel. Tanto os generais, como os oficiais, como os soldados, sabiam que assim era: o estado de desmoralizao do exrcito no o permitia.
      No foi s Napoleo quem sentiu que o seu brao terrvel tombava sem fora: todos os generais, todos os soldados do exrcito francs, quer combatentes, quer no combatentes, depois do que tinham visto nas batalhas precedentes, em que o inimigo costumava debandar aps uma resistncia de um contra dois, haviam sido tomados de um pavor geral na presena de adversrio que, aps haver perdido metade dos seus efectivos, ali continuava to ameaador no fim como no princpio da batalha. A fora moral do exrcito francs atacante estava exausta. A vitria que os Russos obtiveram em Borodino no foi uma dessas vitrias que se proclamam com trapos hasteados em paus,  maneira de trofus, uma dessas vitrias que se medem pela extenso do territrio conquistado, mas uma vitria moral, uma dessas vitrias que convencem o adversrio da superioridade moral que se lhe ope e da inutilidade dos seus prprios esforos. A invaso francesa.  semelhana de uma fera enraivada mortalmente ferida na sua carreira, pressentia estar perdida, mas assim como o exrcito russo, duas vezes mais fraco, no podia ceder, a invaso no podia deter-se. Graas  velocidade adquirida, os Franceses ainda iriam at Moscovo, mas seria a, sem que as foras russas tivessem de fazer novos sacrifcios, que soobrariam, perdido que fora todo o seu sangue pela ferida mortal que receberam em Borodino, Uma das consequncias directas da batalha foi obrigar Napoleo, sem qualquer motivo definido, a fugir de Moscovo, a bater em retirada pela velha estrada de Smolensk, suportando a perda de um exrcito invasor de quinhentos mil homens e assistindo  destruio da Frana napolenica, sobre a qual, pela primeira vez, em Borodino, se abatera o brao de um adversrio com fora moral superior.






TERCEIRA PARTE
      

      
      
      
      Captulo I
      
      A inteligncia humana no compreende a continuidade absoluta do movimento. As leis de um movimento qualquer s so inteligveis ao homem quando lhe  dado examinar separadamente as unidades que o compem. A verdade porm  que  desta diviso arbitrria do movimento ininterrupto em unidades isoladas que resulta ao mesmo tempo a maior parte dos erros humanos.
      Quem h a que no conhea o sofisma dos antigos segundo c! qual Aquiles nunca apanharia a tartaruga ainda que caminhasse dez vezes mais depressa do que ela? Enquanto Aquiles percorre a distncia que o separa da tartaruga, esta ter-se-lhe- adiantado a dcima parte desse espao e quando Aquiles tiver percorrido essa dcima parte, a tartaruga ter-se-lhe- adiantado a centsima e assim por diante at ao infinito. Este problema afigurava-se insolvel aos antigos, quando o absurdo da concluso dada resulta apenas do facto de se decompor o movimento arbitrariamente em unidades, quando o certo  que o movimento de Aquiles e o da tartaruga se produzem ininterruptamente.
      Ao tomarmos as unidades de um movimento nas suas parcelas cada vez mais pequenas, no fazemos mais do que aproximarmo-nos de uma soluo sem nunca a podermos atingir. S admitindo as grandezas infinitesimais e a sua progresso ascendente at  dcima e depois somando esta progresso geomtrica podemos obter a soluo do problema. O novo ramo das matemticas, que  a cincia dos infinitesimais, como sucede com os mais complicados problemas do movimento, resolve agora questes outrora consideradas insolveis.
      No exame destes problemas, admitindo os nmeros infinitesimais, esta nova cincia restabelece as condies fundamentais do movimento, isto , a sua continuidade absoluta, e por essa razo corrige o erro que a inteligncia humana no pode evitar quando estuda as unidades parcelares do movimento em vez do movimento contnuo.
      No que diz respeito ao estudo das leis do movimento histrico, a mesma coisa acontece.
      O movimento da Humanidade, consequncia de inmeras vontades humanas parcelares, no sofre interrupes. A finalidade da Histria  a compreenso das leis deste movimento. Mas, para compreender as leis do movimento contnuo resultante da sorna de todas as vontades humanas, a inteligncia tem de admitir unidades parcelares e arbitrrias, O primeiro processo usado pelos historiadores consiste em tornar uma srie de acontecimentos que se sucedem e examin-los separadamente, quando  certo que no h e no pode haver princpio para nenhum acontecimento, pois todos dependem invariavelmente uns dos outros. O outro processo consiste em se considerarem os actos de um homem, rei ou grande general, como a soma das vontades de todos, quando o que acontece  que essas vontades nunca se traduzem na actividade de uma s personagem histrica, seja ela qual for.
      A cincia histrica, na sua evoluo, admite unidades cada vez menores, procurando deste modo aproximar-se da verdade. Mas, por mais pequenas que elas sejam, chegamos  concluso de que conceber uma unidade separada das outras, aceitar o comeo de um fenmeno qualquer, admitir que a vontade de todos se exprima nos actos de uma s pessoa,  caminho errado.
      Toda a concluso histrica se desfaz em p, sem deixar rasto atrs de si, sob a presso de qualquer nfimo esforo crtico, desde que esta crtica eleja como medida de observao uma unidade maior ou mais pequena, coisa a que tem inteiro direito, visto ser sempre arbitrria a unidade histrica. S podemos esperar compreender as leis histricas tomando para base das nossas observaes a unidade infinitesimal, os diferenciais da Histria, quer dizer, as tendncias uniformes dos homens, e integrando-as, isto , somando-as umas s outras.
      Nos quinze primeiros anos do sculo XIX milhes de homens se movimentam na Europa. Todos abandonam as suas preocupaes habituais, deslocando-se de um lado para o outro do continente, e  v-los saquear, matar, vencer e desesperarem. Durante estes anos a vida muda, arrastada num movimento de princpio intenso, para depois declinar, Qual a causa de semelhante fenmeno ou quais as leis que o produziram? - pergunta a razo humana.
      Os historiadores respondem a esta pergunta expondo-nos os actos e os discursos de uma dezena de homens reunida num edifcio da cidade de Paris, e do a esses actos e a esses discursos o nome de revoluo. Depois oferecem-nos a biografia, em todos os seus pormenores, de Napoleo e de vrias outras personalidades simpticas ou hostis para com essa revoluo, referindo-nos as influncias que exercem uns sobre os outros, para nos dizerem em seguida: eis aqui a causa desse movimento, e ali as suas leis.
      A verdade, porm,  que a nossa razo no s se recusa a admitir esta explicao como declara abertamente ser errnea, uma vez que as causas apresentadas so demasiado dbeis para explicar semelhante fenmeno. Foi a soma das vontades humanas que fez a revoluo e que tornou possvel Napoleo, e s ela os manteve e aniquilou.
      No entanto, dir o historiador, sempre que houve conquistas houve conquistadores; sempre que houve rima revoluo houve grandes homens. De facto, responde a razo, onde houve conquistadores houve guerras, o que no quer dizer que os conquistadores fossem a causa das guerras e que seja possvel descobrirem-se as leis a, que essas guerras obedecem nos actos individuais de um nico homem. Sempre que olho para o mostrador do meu relgio, quando o ponteiro se aproxima das dez, ouo badalar os sinos da igreja vizinha. No tenho, porm, o direito de concluir que a posio do ponteiro do meu relgio seja a causa do badalar dos sinos.
      Sempre que vejo deslocar-se uma locomotiva, sempre que lhe ouo o apito e vejo mover-se-lhe o mbolo, no tenho o direito de concluir que o silvo e o movimento das rodas sejam a causa da marcha da locomotiva. Os camponeses esto convencidos de que o vento gelado que sopra no fim da Primavera  provocado pelo rebentar dos renovos do carvalho, e efectivamente, quando na Primavera comeam a rebentar os renovos do carvalho, sopra um vento frio. E conquanto eu ignore a razo desse fenmeno, no me  permitido estar de acordo com os camponeses, pois  evidente que o vento no pode depender dos renovos do carvalho.
      O fenmeno que observo  o resultado da coincidncia de dois factos, o que alis se verifica em numerosas manifestaes naturais, e sou levado a concluir que, por mais que eu estude atentamente a marcha dos ponteiros do meu relgio, o movimento do mbolo e das rodas da locomotiva ou os renovos do carvalho, no me  possvel reconhecer nisso a razo do badalar dos sinos, do movimento da mquina ou do vento da Primavera. Para chegar a uma concluso aceitvel sinto-me na obrigao de modificar inteiramente o meu ponto de vista de observador, estudando as leis do vapor, as leis do som e as do vento. Eis o que o historiador tem de fazer. E o certo  que j se empreenderam ensaios nesse sentido.
      No estudo das leis da histria  o objecto das nossas observaes que precisa de ser modificado,  preciso deixar em paz os reis, os ministros e os generais e procurarem-se os elementos homogneos e infinitesimais que dirigem as massas. Ningum pode dizer at que ponto por esse meio se podem chegar a conhecer essas leis, mas no lia duvida de que apenas por esse lado elas se podem apreender e que nesse caminho o esprito humano no fez a milsima parte dos esforos que empregou para descobrir os actos de tantos reis, de tantos chefes militares e de tantos ministros e desenvolver as consideraes que esses actos sugerem.
      

      
      
      
      Captulo II
      
      Exrcitos de doze povos diferentes da Europa se tinham lanado sobre a Rssia. As tropas e as populaes russas batem em retirada, evitando o contacto com o inimigo, em direco a Smolensk e de Smolensk a Borodino. Os Franceses, animados por uma fora propulsora cada vez maior, lanam-se sobre Moscovo, objectivo de todo o seu esforo. Esta fora,  medida que, se aproxima do fim, aumenta de volume, de acordo com as leis que regem o movimento de acelerao na queda dos corpos. Na retaguarda do exrcito, milhares de verstas de um pas devastado e, inimigo; na sua vanguarda, dezenas de verstas separando-o do seu destino. Eis o que cada soldado francs pensa, e a invaso continua por si mesma, graas  fora deste impulso.
      No exrcito russo, quanto mais se recua mais se inflama nos coraes o dio contra o inimigo: a retirada concentra e exaspera esse dio. Em Borodino d-se o choque. Nenhum dos exrcitos cede terreno diante do outro, mas, aps o embate, os Russos tm, fatalmente, de continuar a recuar. Como acontece a uma bola, que, jogada contra outra, animada de maior velocidade, tem forosamente de recuar, assim a bola da invaso, conquanto haja perdido a sua fora no embate, tem necessariamente de continuar a rolar por algum tempo.
      Os Russos recuam para cento e vinte verstas alm de Moscovo, os Franceses avanam at Moscovo e detm-se a. Nas cinco semanas seguintes, todos os combates cessam. Os Franceses no se mexem. A semelhana de uma fera mortalmente ferida que vai perdendo sangue enquanto lambe os seus ferimentos, ei-los ali imveis durante cinco semanas, sem tentarem seja o que for, at que por fim, de sbito e independentemente de qualquer motivo, retrocedem. Precipitam-se pela estrada de Kaluga, e embora vitoriosos, pois no combate que se trava em MaloIaroslavetz ficam senhores do campo de batalha, sem travar qualquer combate srio, debandam cada vez mais depressa em direco a Smolensk e de Smolensk direitos a Vilna, atravessando o no Beresina e assim por diante.
      Na noite de 26 de Agosto, Kutuzov, bem como todo o exrcito russo, estavam persuadidos de que a batalha podia considerar-se ganha. O Serenssimo comunicou-o mesmo, por escrito, ao imperador. E ordenou que se preparassem para um novo combate com o propsito de dar o golpe de morte ao adversrio, no por ser inteno sua enganar quem quer que fosse, mas apenas por estar persuadido de que o inimigo podia considerar-se vencido, persuaso, alis, partilhada por todos os actores do drama.
      Mas naquela mesma noite e no dia seguinte receberam-se notcias de perdas incrveis: podia considerar-se perdida quase metade do exrcito, e uma nova batalha era, praticamente, impossvel.
      Impossvel pensar noutra batalha enquanto se no reunissem todas as informaes necessrias e os feridos no estivessem recolhidos, as munies renovadas, contados os mortos, os novos comandantes nomeados para substituir os desaparecidos e os homens fortalecidos e devidamente refeitos. E, no entanto, imediatamente aps a batalha, na manh seguinte, o exrcito francs, accionado por uma fora propulsora na razo inversa do quadrado da distancia, pe-se por si mesmo em marcha contra o exrcito russo. Kutuzov teria querido atacar logo na manh seguinte e esse era o desejo unnime das suas tropas. Mas para tal se conseguir o desejar no bastava, era preciso o poder tambm, e essa possibilidade no existia. Era impossvel no retroceder uma etapa, depois outra e outra ainda, e, por fim, no dia 1 de Setembro, quando as tropas chegaram a Moscovo - e apesar do animo que se apoderara dos soldados -, o estado das coisas exigiu que retirassem ainda mais. E o exrcito recuou mais uma etapa, a, ltima, e a capital rendeu-se ao inimigo.
      Aqueles que esto persuadidos de que os chefes militares traam os seus planos de guerra e a disposio das batalhas, como qualquer de ns, sentado diante de um mapa, pode decidir das medidas a tomar nesta ou naquela circunstncia, esses no deixaro de perguntar porque no procedeu Kutuzov, na sua retirada, desta ou daquela maneira, porque no ocupou posies antes de Fili, porque no recuou de uma vez s pela estrada de Kaluga, ao deixar Moscovo, etc. Esquecem ou ignoram as circunstncias inevitveis nas quais qualquer chefe militar tem de agir.
      O comandante de um exrcito  obrigado a proceder em condies absolutamente diferentes daquelas que concebemos no silncio de um gabinete ao elaborarmos, com o mapa diante de ns, os planos de uma campanha, dispondo aqui e ali de foras determinadas e dando incio s nossas operaes num momento definido. O general-chefe nunca pode estar no princpio de um acontecimento, como acontece connosco, tericos que somos. V-se sempre colocado no meio de uma srie mvel de circunstncias, de tal modo que nunca, em momento algum,  capaz de encarar exactamente o valor dos acontecimentos. O facto realizado toma, insensivelmente, pouco a pouco, o relevo que corresponde  importncia que tem, e durante o tempo necessrio para assim se desenvolver e colocar-se em evidncia encontra-se o chefe mergulhado num jogo complicado de intrigas, de preocupaes, de conflitos de poder, de projectos, de conselhos, de ameaas, de fraudes, tendo de responder, a todo o momento, a uma infinita quantidade de perguntas, sempre contraditrias.
      Os entendidos em assuntos militares dizem-nos, muito a srio, que Kutuzov teria podido evacuar as suas tropas pela estrada de Kaluga muito antes de Fili e que at mesmo algum lhe props esta soluo. Efectivamente, sobretudo nos momentos cri- ticos, o general-chefe tem sempre  sua disposio, em vez de um, dzias de projectos, E cada um desses projectos, conquanto baseados na estratgia e na tcnica, est em contradio com os outros. Dir-se-ia que lhe bastava escolher um deles. Mas at isso lhe  impossvel. Tanto os acontecimentos como o tempo no esperam. Propuseram-lhe, suponhamos, no dia 28, seguir pela estrada real de Kaluga, mas eis que ao mesmo tempo chega um ajudante-de-campo de Miloradovitch, que vem perguntar-lhe se se devem atacar imediatamente os Franceses ou se  melhor recuarem,  preciso logo, naquele mesmo instante, transmitir ordens. Ordenar a retirada ser condenar-se a um desvio para atingir a estrada de Kaluga. Depois do ajudante-de-campo chega o intendente, que pede instrues sobre o local para onde deve encaminhar os abastecimentos, enquanto o comandante das ambulncias pergunta para onde deve dirigir os feridos. Entretanto chega um correio de Petersburgo com uma carta do imperador, em que se diz no admitir que se possa abandonar Moscovo. Em seguida, um dos rivais de Kutuzov, que move contra ele uma intriga - h sempre pessoas para tal e muitas vezes mais do que uma -, prope um novo projecto, diametralmente oposto ao da retirada pela estrada de Kaluga. Alis, o general-chefe tem necessidade de dormir para reparar as suas foras, mas eis que um digno general se lhe vem queixar de ter sido preterido na atribuio das condecoraes, que uns civis lhe vm implorar proteco, que um oficial enviado para examinar o terreno chega com informaes absolutamente opostas s do oficial que o precedera. Um espio, um prisioneiro, bem como o general que fez o reconhecimento, descrevem de maneira completamente diferente posio do exrcito inimigo. As pessoas que fingem no compreender ou que esquecem as condies em que deve trabalhar o general-chefe desenham-nos um quadro, por exemplo, da posio das tropas em Fili e supem ento que Kutuzov teria podido no dia 1 de Setembro resolver livremente o problema do abandono ou da defesa de Moscovo, quando com o exrcito a cinco verstas da capital semelhante questo no era de formular. E quando foi essa questo resolvida? Em Drissa, em Smolensk e mais claramente do que nunca no dia 24, em Chevardino,  e em 26 , em Borodino, e depois, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, na retirada de Borodino para Fili.
      

      
      
      
      Captulo III
      
      Quando Ermolov, enviado por Kutuzov para a posio, lhe veio dizer ser impossvel travar batalha naquele local, em frente dos muros de Moscovo, e que era preciso recuar, o marechal olhou silencioso para ele.
      - D c a tua mo - disse-lhe, ele relendo-a entre as suas para lhe tomar o pulso, acrescentou: - Ests doente, meu amigo. Pensa bem no que dizes.
      Ainda no podia compreender ser possvel abandonar Moscovo sem combate.
      Apeou-se do carro, na colina de Poklonaia, a seis verstas da barreira de Dorogomilov, e sentou-se num banco  beira da estrada. A sua volta juntaram-se muitos generais. O conde Rostoptchinp, chegado de Moscovo, juntara-se-lhes. Esta brilhante reunio, dividida, em vrios grupos, discutia as vantagens e os inconvenientes da posio, o estado das tropas, os planos propostos, o esprito que reinava na cidade e outras questes militares. Embora ningum o dissesse, e conquanto no tivessem sido convocados para isso, todos sentiam tratar-se de um conselho de guerra. As conversas mantinham-se  volta de problemas de ordem geral. Se se comunicava ou se se tomava conhecimento de casos particulares era em voz baixa e logo se voltava aos assuntos de ordem geral. No havia nem conversas, nem gracejos, nem risos, nem sequer sorrisos. Era evidente todos procurarem estar  altura das circunstncias. E conquanto cada um dos grupos se entretivesse em conversas entre os seus componentes, todos procuravam conservar-se no muito longe do general-chefe, cujo banco constitua o ponto de mira geral, todos falando de modo que ele os ouvisse. Kutuzov ouvia e por vezes informava-se sobre o que se estava a dizer perto dele, sem intervir nas conversas nem emitir qualquer opinio. Geralmente, depois de apurar o ouvido, desviava a ateno, desapontado por no ter podido ouvir aquilo que queria saber. Uns, a propsito da posio escolhida, criticavam menos essa posio em si mesma que a competncia de quem a escolhera. Outros sustentavam que o erro vinha de mais longe e que j na antevspera se devia ter aceitado a batalha. Havia ainda quem se referisse  batalha de Salamanca, cujos pormenores haviam sido conhecidos atravs de um francs de uniforme espanhol que dava pelo nome de Crossart. Este Crossart discutia com um prncipe alemo que prestava servio no exrcito russo o cerco de Saragoa, na previso de a defesa de Moscovo lhe seguir as pisadas. Num quarto grupo. Rostoptchine declarava estar pronto a morrer com a milcia moscovita defendendo a capital, embora acrescentasse que no podia deixar de lamentar a ignorncia em que o tinham conservado e que, noutras circunstncias, as coisas teriam corrido de outra maneira...
      Num quinto grupo, num alarde de profundo conhecimento estratgico, falava-se da direco que as tropas deviam ter tomado. E havia ainda quem no dissesse seno tolices.
      Kutuzov cada vez parecia mais preocupado e mais triste, Em todo aquele linguajar apenas via uma coisa: tamanha era a impossibilidade material de defender Moscovo, no sentido literal da palavra, que, se houvesse um general-chefe to louco capaz de dar ordem de combate, em vez de uma batalha apenas se veria uma desordem tremenda. Essa batalha no se travaria, pois todos os altos postos eram unnimes em considerar a posio impossvel e no falavam noutra coisa seno no que viria a dar-se depois do abandono inevitvel daquela posio. Como haviam aqueles generais de dirigir o exrcito num campo de batalha que eles prprios consideravam impraticvel? Os oficiais subalternos f- os prprios soldados, pois todos discutiam o caso, reconheciam tambm a posio insustentvel: no podiam bater-se de antemo certos de que se daria um desastre.  certo que Bennigsen teimava em que se defendesse essa posio, quando outros a criticavam, mas isso no linha importncia alguma em si: no passava de pretexto para discusses e intrigas. Kutuzov compreendido perfeitamente.
      Bennigsen, que escolhera a posio em causa, vangloriava-se do seu patriotismo, e Kutuzov no o podia ouvir sem franzir o sobrolho. Teimava na defesa de Moscovo. O general-chefe percebia claramente o seu estratagema. Se houvesse um desastre, alijaria sobre ele, que teria conduzido as tropas sem darem batalha at aos montes Vorobi, toda a responsabilidade: no caso contrrio, teria o cuidado de chamar a si toda a glria: e, se se recusassem a ouvi-lo, lavaria as suas mos do crime de ter abandonado a cidade. Estas intrigas, porm, no apoquentavam por ento o velho general. S um problema terrvel se lhe formulava e ningum estava em condies de lhe proporcionar uma soluo. Esse problema era o seguinte.
      Teria sido eu quem deixou chegar Napoleo at s portas de Moscovo? E quando o teria feito? Quando? Ontem, quando enviei a Platov ordem de recuar, ou anteontem  noite, quando, meio adormecido, disse a Bennigsen que tornasse, as suas disposies?  teria sido ainda antes... Quando, quando , que se decidiu esta coisa tremenda: Moscovo ter de sido abandonada?
      O exrcito tem de bater em retirada e essa ordem tem de ser transmitida. Dar uma tal ordem afigurava-se-lhe to espantoso como demitir-se do comando do exrcito. Alm de amar o poder, a que estava habituado, tivera inveja das honras tributadas ao prncipe Prozorovski, de cujo quartel-general foi agregado na Turquia, e estava convencido de que o destino o escolhera para salvar a Rssia, pois, contra a vontade do imperador, e apenas por virtude da vontade do povo, fora escolhido para o comando supremo. De facto, estava persuadido de que s ele, naquelas crticas circunstncias, podia encontrar-se  frente do exrcito, e s ele neste mundo seria capaz de enfrentar o invencvel Napoleo, sentindo-se horrorizado com a ideia da ordem que tinha de dar. A verdade, porm,  que era preciso tomar uma deciso: era mister pr ponto final s conversas daquela gente, que principiavam a adquirir um tom demasiado livre.
      Chamou os generais mais antigos.
      - Boa ou m, a minha cabea s comigo pode contar  disse, levantando-se para se dirigir a Fili, onde estavam as carruagens.
      

      
      
      
      Captulo IV
      
      As duas da tarde reuniu-se o conselho de guerra na espaosa e confortvel isb do campons Andr Savostianov. Os homens, as mulheres e as crianas daquela numerosa famlia tinham-se ido acolher na dependncia sem estufa do outro lado do vestbulo. Apenas ficara empoleirada na estufa uma pequenita de seis anos, a filha de Andr, Malacha, a quem o Serenssimo conquistara, quando tomava ch, oferecendo-lhe um pedao de acar, Malacha, tmida e risonha, ia olhando do alto do seu observatrio aquelas figuras, aqueles uniformes, aqueles generais, com o peito constelado de medalhas, que entravam uns atrs dos outros e se instalavam no recanto sagrado, nos grandes bancos, debaixo dos cones. O av, como Malacha, mentalmente, chamava a Kutuzov, estava sentado sozinho no recanto escuro da estufa. Esbarrondado numa poltrona, no fazia seno gemer, passando a mo pela gola do dlman, o qual, embora desabotoado, parecia afogar-lhe o pescoo. Os que iam entrando aproximavam-se dele, um de cada vez: a uns apertava a mo, a outros limitava-se a fazer-lhes um aceno com a cabea. Kaissarov, o ajudante-de-campo, fez meno de afastar a cortina da janela que lhe ficava diante, mas o marechal teve um gesto de impacincia e ele compreendeu que o Serenssimo no queria que lhe vissem a cara.
      Em torno da rstica mesa de pinho, cujo tampo estava coberto de mapas, planos, lpis, papis, tanta gente se juntou da a pouco que as ordenanas se viram obrigadas a trazer outros bancos. Neles se sentaram os recm-chegados, Ermolov, Kaissarov e Toll. Precisamente debaixo dos cones, no lugar de honra, estava Barclay de Tolly, com a cruz de S. Jorge ao peito, o rosto plido e enfermio e a grande testa que lhe prolongava a cabea calva. Estava com febre h dois dias e naquele momento, precisamente, arrepios o faziam estremecer, sentindo-se prostrado. A seu lado. Uvarov, com gestos bruscos, contava-lhe qualquer coisa em voz baixa. Todos, alis,, falavam da mesma maneira. Dokturov, baixinho e reboludo, de sobrancelhas franzidas e mos cruzadas sobre o ventre, ouvia em toda a ateno. Do outro lado, o conde Ostermann-Tolstoi apertando entre as mos a sua grande cabea de ousada expresso e olhos brilhantes, parecia mergulhado nos seus pensamentos. Raievski, impaciente, alisando os frisados cabelos com um gesto habitual, ora olhava para Kutuzov ora para a porta de entrada. O belo rosto firme e bondoso de Konovnitsine abria-se num sorriso terno e malicioso. Os seus olhos e os de Malacha tinham-se encontrado e fazia-a rir com trejeitos.
      Todos esperavam por Bennigsen, que, a pretexto de examinar novamente a posio, se estava refazendo com um bom repasto. Entre as quatro e as seis horas conversou-se, em voz baixa, sobre assuntos particulares, sem se dar incio  discusso.
      S quando Bennigsen apareceu na isb Kutuzov saiu do seu canto e se aproximou da mesa, mas de modo a que a luz das velas trazidas entretanto lhe no desse em cheio no rosto.
      Bennigsen abriu imediatamente a sesso, perguntando se se ia abandonar sem combate a santa e antiga capital da Rssia ou se, pelo contrrio, se ia defend-la. Seguiu-se um longo e absoluto silncio. Em todos os rostos surgiu uma expresso carregada, e ouviu-se Kutuzov tossir, resmoneando, irritado, fosse o que fosse. Todos os olhares convergiam para ele. At Malacha olhava para o av. Era ela quem, de mais perto, podia ver contrair-se-lhe o rosto: parecia ir chorar. Foi coisa de segundos.
      - A santa, a antiga capital da Rssia! - exclamou, subitamente, repetindo, colrico, as palavras de Bennigsen, como a frisar quanto essas palavras destoavam. - Permita que lhe diga, Excelncia, que esta pergunta no tem o mais pequeno sentido para um corao russo. - E enquanto assim falava, o corpo macio inclinava-se-lhe para a frente. - No se pode fazer semelhante pergunta e uma pergunta dessas no tem o mais pequeno sentido. Foi por motivos de ordem puramente militar que eu convoquei estes senhores. Ei-los: A salvao da Rssia est no exrcito. Qual ser mais vantajoso, arriscarmo-nos a perd-lo, e com ele Moscovo, aceitando a batalha, ou entregar Moscovo sem combate? Eis o ponto sobre que eu quero conhecer a vossa opinio.
      E voltou a enterrar-se na sua poltrona.
      A discusso tomou calor. Bennigsen ainda se no considerava vencido. Admitindo a opinio de Barclay e de outros, segundo a qual era impossvel travar uma batalha defensiva em Fili, propunha, dominado, dizia, por sentimentos patriticos e de amor a Moscovo, fazer passar as tropas, durante a noite, do flanco direito para o esquerdo, lanando-se na manh seguinte sobre a ala direita francesa, As opinies estavam divididas; discutiram-se os prs e os contras. Ermolov, Dokturov e Raievski estavam com Bennigsen. Ou guiados pela ideia de que era necessrio um sacrifcio antes do abandono da cidade ou por outra qualquer razo de ordem pessoal, fosse pelo que fosse, pareciam no compreender que aquela reunio no podia alterar a marcha inevitvel dos acontecimentos e que Moscovo j estava de facto abandonada. Eis o que compreenderam muito bem os demais, que, deixando de lado a questo de Moscovo, apenas discutiram a direco que os exrcitos deviam seguir na retirada.
      Malacha que seguia atentamente o espectculo, interpretava de maneira muito diferente o que estava a passar-se. Para ela tratava-se apenas de uma luta pessoal entre o av e o homem das grandes abas, como chamava a Bennigsen. Via muitssimo bem que se dirigiam um ao outro iracundos e l no fundo do seu coraozinho tornava o partido do av. No decorrer da conversa surpreendeu o olhar rpido e malicioso que este lanara a Bennigsen, e imediatamente percebeu, com grande satisfao, que o homem das grandes abas fora posto no seu lugar: Bennigsen corara, subitamente e, furioso, pusera-se a andar de um lado para o outro. As palavras que sobre ele tinham produzido to grande efeito eram as que Kutuzov pronunciara, numa voz mansa e tranquila, acerca das vantagens e dos inconvenientes da proposta relativa ao ataque da ala direita dos Franceses.
      - No posso, meus senhores - dissera Kutuzov -, aprovar o plano do conde. Movimentos de tropas nas vizinhanas do inimigo so sempre perigosos e a histria militar a est para confirmar o facto. Assim, por exemplo... - Pareceu querer reflectir e lanou um olhar ingnuo e claro ao antagonista, como se procurasse um exemplo ali bem prximo. -  o caso da batalha de Friedland, que, como o conde se deve lembrar muito bem, assim o espero, no foi... o que se pode dizer um xito, apenas porque as nossas tropas se tinham reagrupado a uma distancia demasiado prxima do adversrio...
      Seguiu-se um breve silncio que a todos pareceu muitssimo longo.
      A discusso recomeou, entrecortada de frequentes interrupes: sentia-se que, j no havia matria para mais dissertaes.
      Durante uma destas interrupes, Kutuzov soltou um grande suspiro: parecia querer falar. Todos voltaram para ele os olhos.
      - Bem, meus senhores, j vi que eu  que tenho de pagar os vidros partidos! - disse ele. E, erguendo-se com dificuldade, aproximou-se da mesa. - Meus senhores, ouvi o que cada um pensa. Alguns dos senhores no so, com certeza, da minha opinio. Mas eu - acrescentou, depois de uma ligeira pausa - merc dos poderes que me foram conferidos pelo imperador e pela Ptria, ordeno a retirada.
      Pouco depois os generais separavam-se, com essa circunspeco solene e calada com que se costumam separar as pessoas que assistiram a um funeral.
      Alguns deles, em voz baixa, e num tom muito diferente daquele que tinham durante o conselho, dirigiram algumas palavras ao general-chefe.
      Malacha, que esperava havia muito pelo jantar, deixou-se deslizar do seu miradouro, cautelosamente, de costas, fixando os seus pzinhos descalos nas salincias da estufa, e desapareceu pela porta, esgueirando-se por entre as pernas dos militares.
      Depois de se despedir dos generais, Kutuzov deixou-se ficar, por muito tempo, sentado, com os cotovelos em cima da mesa, pensando sempre na mesma tremenda pergunta: Quando  que se decidiu ento que Moscovo seria abandonada? Quando ficou isso resolvido e quem era o responsvel?
      - Ah! No era isto que eu esperava! - disse para o ajudante-de-campo, Schneider, que viera v-lo j noite adiante. - No esperava isto! Nunca julguei que se desse uma coisa destas!
      -  melhor ir descansar, Excelncia - disse-lhe Schneider - Pois bem, j que assim querem, obrig-los-ei a comer carne de cavalo, como aos Turcos - exclamou, de sbito, sem responder ao ajudante-de-campo, deixando cair o grosso punho em cima da mesa- Sim, tambm a ho-de comer, ou ento...
      

      
      
      
      Captulo V
      
      Entretanto, e num caso ainda mais grave que o da retirada do exrcito sem combate, o do abandono e incndio de Moscovo, Rostoptchine, que aparece como o agente executor desse acontecimento, agia de forma muito diversa de Kutuzov.
      Este grave acontecimento - o abandono e o incndio de Moscovo - era to inevitvel como a retirada das tropas para alm de Moscovo depois da batalha de Borodino.
      Nenhum russo houve, no por deduo lgica, mas em virtude desse sentimento que lhe enchia o corao, como j acontecera com os seus antepassados, que no previsse o que ia suceder.
      Depois da tomada de Smolensk, em todas as cidades e povoaes russas, sem ser precisa a interveno do conde Rostoptchine nem das suas proclamaes, aconteceu precisamente o mesmo que em Moscovo. O povo esperou calmamente o inimigo, sem se revoltar, sem se agitar, sem atentar contra a vida de ningum: esperou tranquilamente a sua hora, certo de que, nas circunstncias mais trgicas, saberia achar a deciso que convinha. A medida que o inimigo se aproximava, as classes mais abastadas retiravam-se, abandonando os seus haveres; as mais pobres ficaram e incendiaram e destruram o que restava.
      Todos os russos sentiam que tinha de ser assim e que assim seria sempre. Esta convico, sobretudo o pressentimento de que Moscovo seria tomada, espalhara-se por toda a sociedade moscovita de 1812. Aqueles que, a partir de Julho e do comeo de Agosto, largaram da cidade mostraram esperar isso mesmo. Os que abalaram levando consigo o que podiam e abandonando as suas casas e grande parte dos seus haveres agiram desse modo impelidos por um patriotismo latente que se no traduz nem em frases nem no assassnio dos filhos em nome da salvao da Ptria ou quejandos actos antinaturais, mas se exprime sem alarde, simplesmente, de maneira natural, e que por isso mesmo d sempre os melhores resultados.
       uma vergonha fugir do perigo, s os cobardes procedem assim, diziam-lhes. Rostoptchine, nas suas proclamaes, dava-lhes a entender que esse procedimento era uma desonra. Apesar de mortificados por se verem tratados como poltres e lhes custar partirem, mesmo assim abalavam, pois sabiam que tinha de ser. E porque se iam embora? No, com certeza, por se sentirem alarmados pelo que dissera Rostoptchine sobre as atrocidades que Napoleo praticava nos pases conquistados. Abalavam, e os ricos, as pessoas cultas, eis quem partia primeiro, eles, que sabiam perfeitamente que Viena e Berlim estavam intactas e que durante a ocupao os habitantes passavam o seu tempo muito divertidos na companhia desses franceses, gente sedutora, de quem os Russos tanto gostavam, especialmente as mulheres.
      Partiam porque, para os Russos, no se punha a pergunta de se seria bom ou mau viver sob a administrao francesa, No era possvel ali ficar: para eles, seria o pior que lhes podia acontecer. Partiam mesmo antes de Borodino e ainda mais depressa depois desta batalha, sem quererem saber das proclamaes relativas  defesa da cidade, apesar de o governador de Moscovo ter anunciado a sada da Virgem Iverskaia e a sua inteno de se alistar, e dos bales que deviam matar todos os franceses, e, de todos os despautrios que Rostoptchine proclamava nos seus editais. Sabiam muitssimo bem que era o exrcito que devia bater-se e que se este se mostrava incapaz no era com as filhas dos criados que eles podiam enfrentar Napoleo em Tri Gori, e que o que havia a fazer era partir, por mais que lhes custasse abandonar os seus haveres. E l iam, sem se deterem a pensar na majestade daquela enorme e rica capital abandonada pelos seus habitantes e destinada, sem dvida, a ser pasto das chamas, pois no destruir ou reduzir a cinza casas vazias eis coisa extraordinria para a gente russa. Iam por iniciativa individual e, apesar disso, graas ao facto de partirem, cumpria-se esse acto magnfico que ficar para todo o sempre com a maior gloria do povo russo. At aquela senhora que j no ms de Junho, seguida dos seus negros e dos seus bobos, abandonava Moscovo, para se refugiar nas suas propriedades de Saratov, sentia confusamente que nunca poderia ser criada de Bonaparte. E apesar do receio de ser presa s ordens de Rostoptchine, realizava simples e naturalmente a grande obra que salvaria a Rssia. E o conde Rostoptchine, que to depressa envergonhava os que fugiam como ordenava que se fechassem as reparties pblicas; que umas vezes distribua entre o povo embriagado armas que para nada serviam, organizando procisses pelas ruas, outras proibia o metropolita Augustin de o fazer: que requisitava agora todos os carros particulares existentes na cidade e logo utilizava cento e trinta e seis carroas para transportar o famigerado balo de Leppich; que tanto declarava ir deitar fogo a Moscovo como que incendiara a sua prpria casa enquanto numa proclamao aos Franceses os censurava solenemente por haverem saqueado o asilo de crianas por ele fundado; que ora, se vangloriava do incndio de Moscovo ora o reprovava; que ora dava instrues ao povo para deitar a mo aos espies e trazer-lhos ora o condenava por o ter feito: que ora expulsava de Moscovo todos os franceses ora deixava em paz Madame Aubert-Chalm, sob cujo tecto se reunia toda a colnia daquele pas, quando, sem qualquer motivo especial, mandava prender e deportar o velho e venerando director dos correios, Kliutcharev; que ora mandava convocar o povo para se reunir em Tri Gori e marchar contra os Franceses ora, para se ver livre da multido, lhe entregava um homem para que ela o liquidasse enquanto ele prprio fugia pela porta das traseiras; que ora dizia que no sobreviveria s desgraas de Moscovo ora escrevia num lbum, em francs, uma quadra sobre o pape que ento estava a desempenhar (1), esse homem nada percebia dos acontecimentos que estavam a dar-se, apenas queria fazer fosse o que fosse, pr-se em evidncia, realizar um feito patritico, brincando como uma criana enquanto se cumpria esse acto formidvel e fatal que foi a, evacuao e o incndio de Moscovo. Com os seus bracinhos de criana, ora tratava de espicaar ora de deter essa imensa torrente popular que tudo arrastava no seu curso.
      
      (1)
      Je suis ne Tartare
      Je voutus tre Romain.
      Les Franais mappelient barbare, 
      Les Russes. Georges Dardin,
      
      (Nasci trtaro
      Quis ser romano.
      Os Franceses chamaram-me brbaro 
      Os Russos, Georges Dandin.)
      (Nota de Tolstoi.)
      

      
      
      
      Captulo VI
      
      Helena, que regressara de Vilna a Petersburgo com a corte, encontrava-se numa situao embaraosa.
      Em Petersburgo gozava da proteco muito especial de um magnate que ocupava um dos mais altos postos do Estado. Em Vilna tornara-se ntima de um jovem prncipe estrangeiro. No seu regresso encontrou-se com o prncipe e o magnate, e ambos quiseram fazer valer os seus direitos, o que a obrigou a resolver um problema indito na sua carreira: manter relaes intimas com os dois sem ofender qualquer deles.
      Isto, que teria parecido difcil e at impossvel a qualquer outra, no obrigou a condessa Bezukov a um momento sequer de reflexo, ou no tivesse ela fama de mulher superior. Se tem dissimulado o seu procedimento, servindo-se de subterfgios para evitar complicaes, teria deitado tudo a perder, pois seria como confessar-se culpada. Pelo contrrio, procedendo como um grande homem capaz de conseguir tudo o que quer, imediatamente se colocou na situao de quem tem razo, razo em que ela, alis, acreditava sinceramente, atribuindo a culpa aos outros.
      A primeira vez que o mancebo estrangeiro se permitiu censur-la, ela ergueu altivamente a sua bela cabea e, meia voltada para ele, disse-lhe:
      - Aqui tm o egosmo e a crueldade dos homens! No contava com outra coisa. Sacrifica-se uma mulher, e aqui tm a recompensa. Que direito tendes vs, monsenhor, de me pedirdes contas das minhas amizades, dos meus afectos? Esse homem foi um verdadeiro pai para mim.
      O prncipe quis dizer fosse o que fosse, mas ela interrompeu-o:
      - Sim, est bem - prosseguiu - pode ser que ele alimente por mim sentimentos que no so propriamente de um pai, mas isso no  razo para eu lhe dar com as portas na cara. No sou homem para ser ingrata. Fique sabendo, monsenhor, que em tudo que diz respeito aos meus sentimentos ntimos s a Deus e  minha conscincia presto contas.- E dizendo o que, pousou a mo sobre o seu belo seio, que se soerguia emocionado, ao mesmo tempo que levantava os olhos para o cu.
      - Mas oua-me, por amor de Deus. Case comigo, e eu serei sua escrava. 
      - Mas  impossvel.
      - No quer descer at mim, bem vejo... - E rompeu a chorar.
      O prncipe procurou consol-la. Helena, chorando sempre, disse-lhe- como se, no desse conta das suas palavras, que nada a podia impedir de se casar, pois havia casos de divrcio (no eram muitos os que ento havia, mas Helena citou o de Napoleo e outras grandes personalidades), que nunca fora mulher do seu marido, que era, apenas a sua vtima.
      - Mas as leis, a religio... - replicou o moo, que principiava a transigir.
      - As leis, a religio... Mas para que teriam elas sido feitas se, no servissem para isso?
      O prncipe, surpreendido com o facto de ainda no ter pensado no caso, coisa to simples e razovel, foi dali pedir conselho aos reverendos padres da Companhia de Jesus, com quem mantinha estreitas relaes.
      Alguns dias depois, numa dessas encantadoras festas que Helena costumava oferecer na sua residncia de Kamenn! Ostrov, apresentaram- lhe uma personagem de certa idade, de cabelos brancos como neve e brilhantes olhos pretos, o sedutor Monsieur de Jobert, um jesuta de sotaina curta. No jardim iluminado e enquanto a orquestra tocava, por muito tempo este padre falou a Helena do amor de Deus e de Cristo, do Sagrado Corao de Maria e do consolo que nesta vida e na outra promete a religio catlica. Helena comoveu-se, por vrias vezes sentiu as lgrimas nos olhos, como, alis, o prprio Monsieur de Jobert, e a voz tremeu-lhe. Algum se aproximou de Helena convidando-a para danar e interrompeu esta conversa com o seu futuro director espiritual; mas no dia seguinte Monsieur de Jobert passou o sero em casa de Helena e da para o futuro tornou-se ntimo da condessa.
      Um dia acompanhou Helena  igreja catlica e Helena ajoelhou diante do altar que ele lhe indicara. O insinuante velho pousou-lhe as mos na cabea e ao sentir este contacto, assim ela o contaria mais tarde, foi como se um sopro de ar fresco lhe Perpassasse pela alma. Explicaram-lhe que era a graa.
      Depois enviaram-lhe um sacerdote de sotaina comprida, que a confessou e lhe deu a absolvio. No dia seguinte trouxeram-lhe a comunho numa caixa que lhe deixaram em casa  disposio. Alguns dias depois veio a saber, com grande alegria sua, ter dado entrada na verdadeira igreja catlica, que o prprio papa ia ser posto ao corrente desse facto e que lhe enviaria, tal propsito, um documento autntico.
      Tudo o que estava a acontecer por esse tempo, a ateno que lhe consagravam pessoas to inteligentes, exprimindo-se de uma forma to agradvel e to distinta, e a sensao de se sentir pura como uma pomba - por ento usava vestidos brancos enfeitados com laos da mesma cor -, tudo isso lhe dava um grande prazer, mas a verdade  que, apesar de tudo, nem por um s momento desistia do seu objectivo. E como sempre acontece quando entra em cena, a malcia, que  o mais nscio quem vergar, o mais inteligente, percebendo que o objectivo de todas aquelas palavras e preocupaes consistia principalmente em arrancarem-lhe dinheiro em benefcio dos Jesutas, depois de a terem convertido ao catolicismo, insinuao que j lhe fora feita. Helena, antes de entregar a importncia, insistiu em submeter-se a todas as operaes que pudessem libert-la do marido. Segundo ela, a religio devia servir para manter certas convenincias na satisfao dos desejos humanos. E foi assim que numa das suas conversas com o confessor exigiu que ele lhe dissesse formalmente at que ponto ela estava ligada pelo matrimnio.
      Estavam ambos sentados no salo, ao p da janela, Caa a tarde. O perfume das flores penetrava pela vidraa aberta. Helena tinha um vestido branco que no lhe tapava o colo e os ombros. O padre, bem alimentado, as faces cheias, barbeadas de fresco, a boca agradvel e firme, as brancas mos cruzadas sobre os joelhos, em atitude beata, estava sentado ao lado de Helena, e com um fino sorriso nos lbios olhava para ela de tempos a tempos, embriagado pela sua beleza, enquanto lhe expunha o seu ponto de vista sobre a questo que a interessava. A condessa, sorrindo, com inquietao, ia olhando para aquele homem de cabelo encaracolado, faces cheias e sombreadas depois da recente passagem da navalha, esperando a todo o momento que a conversa tornasse um rumo novo. O sacerdote, porm, embora visivelmente perturbado com os encantos da interlocutora, abandonava-se ao prazer de expor com arte o seu pensamento.
      O director espiritual raciocinava nestes termos: Ignorando os deveres que assumia, jurou fidelidade a um homem que, pela sua parte, contraindo o matrimnio sem pensar na importncia religiosa desse sacramento, cometeu um verdadeiro sacrilgio. Este casamento no teve o carcter recproco que lhe  prprio. No obstante, o seu juramento conta. Se amanh o vier a quebrar, qual ser o seu pecado? Um pecado venial ou um pecado mortal? Um pecado venial, pois no houve da sua parte m inteno ao pratic-lo. Se agora viesse a contrair novo casamento, na esperana de ter filhos, o seu pecado podia ser-lhe perdoado. Mas o problema assume agora duplo aspecto, o primeiro...
      - Eu pensava - disse, de sbito, Helena, enfadada com todos aqueles discursos, e com o mais sedutor dos seus sorrisos -, eu pensava que, desde o momento em que abracei a verdadeira religio, deixaria de estar ligada pelas obrigaes impostas pela falsa religio.
      Surpreendeu-se o director espiritual ao ver apresentar-se-lhe com tanta simplicidade o problema do ovo de Colombo. Entusiasmado com os rpidos e imprevistos progressos da discpula, no quis, porm, renunciar  exposio dos seus argumentos srios e bem fundamentados.
      - Entendarno-nos, condessa - exclamou, sorrindo, e ps-se relutar os raciocnios da sua filha espiritual.
      

      
      
      
      Captulo VII
      
      Helena compreendeu que a questo do ponto de vista religioso era muito fcil e simples, mas que os seus guias espirituais apenas levantavam dificuldades receosos da maneira como as autoridades laicas acolheriam estes projectos.
      E nestas condies decidiu ser preciso preparar a opinio pblica. Provocou cimes no seu velho protector, dizendo-lhe pouco mais ou menos o mesmo que dissera ao primeiro pretendente, isto , apresentou-lhe as coisas de tal modo que a concluso a tirar era que para ter sobre ela quaisquer direitos seria preciso despos-la. No primeiro momento, a surpresa do ancio perante a proposta de se casar com uma senhora que tinha marido foi to grande como a do jovem, mas a imperturbvel segurana de Helena, dizendo-lhe que o caso era to simples e natural como se se tratasse de uma donzela, acabou por influenci-lo da mesma maneira. Se ela tivesse tido a menor hesitao, se tivesse mostrado a mais ligeira vergonha ou o mnimo escrpulo, a partida estaria perdida para ela. Mas foi com toda a sinceridade e a mais cndida bonomia que contou aos seus amigos ntimos, isto e, a Petersburgo inteira, que o prncipe e o magnate se lhe tinham declarado os dois e que ela no queria magoar nem um nem o outro.
      Instantaneamente, espalhou-se por Petersburgo que Helena pensa divorciar-se. Semelhante notcia teria provocado reparos se se no tivesse sabido ao mesmo tempo que a infeliz e interessante Helena estava perplexa sem saber qual dos dois pretendentes escolher. No se tratava j de saber se isso seria possvel, mas apenas qual seria o partido mais vantajoso e como encararia a corte o casamento.  certo que, havia pessoas de ideias retrgradas, incapazes da elevao de esprito suficiente para estarem  altura da questo, pois encaravam esse projecto como uma verdadeira profanao do sacramento do matrimnio, mas eram poucas e no faziam comentrios, enquanto a maioria no pensava seno na felicidade de Helena e na escolha que ela faria. Nem uma palavra, porem, no que dizia respeito a considerar-se legtimo ou reprovvel o facto de ela se casar estando vivo o marido, pois, dizia-se, o assunto j fora resolvido por pessoas mais instrudas do que qualquer ele ns, e por em dvida a sensatez de uma tal resoluo seria arriscarmo-nos a fazer figura de parvos ou descorteses.
      S uma pessoa ousou pronunciar francamente a sua opinio, contrria  de todos os demais: Maria Dmitrievna Akrossimova, que viera a Petersburgo visitar um dos seus filhos. Tendo encontrado Helena num baile, deteve-a no meio do salo e, na sua voz rude disse-lhe em voz alta, quando  roda o silncio era geral: Com que ento c por estes stios  costume agora as pessoas casarem com os maridos vivos? Julgas que inventaste, alguma coisa nova? Ests atrasada, minha amiga. H muito que isso se inventou. Fazem-no todas... E dizendo o que. Maria Dmitrievna arregaou as largas mangas do seu vestido, num gesto ameaador que lhe era habitual, e, depois de a olhar severamente, continuou o seu caminho.
      Conquanto a temessem, Maria Dmitrievna em Petersburgo gozava da fama de meio doida e foi assim que da sua algaraviada apenas ficou no ouvido dos que assistiram  cena a palavra grosseira que ela empregou no fim. Repetiam-na em voz baixa e s nessa palavra lhe saboreavam o sal da perorao
      O prncipe Vassili, que nos ltimos tempos se esquecia muito e estava sempre a repetir a mesma coisa, dizia sempre a filha quando acontecia encontr-la:
      - Helena, tenho ama palavra a dizer-te. - E, travando-lhe do brao, afastava-se com ela para um canto. - Chegaram-me aos ouvidos certos projectos relativos a... Sabes. Pois bem, minha querida filha, fica sabendo que o meu corao de pai se regozija de te saber... Tens sofrido tanto... Mas, querida filha, s deves ouvir o teu corao.  tudo quanto tenho a dizer-te.
      E, escondendo a emoo de encomenda, esfregava a cara de encontro  da filha, afastando-se.
      Bilibine, sempre com a reputao de homem extremamente espirituoso e amigo desinteressado de Helena, amigo no gnero costumado entre as mulheres da moda, um amigo que nunca se enamora da sua amiga, Bilibine exprimiu um dia, numa pequena reunio,  sua ntima, tudo quanto pensava do seu caso.
      - Oua, Bilibine - disse-lhe Helena, que tratava sempre os seus amigos desta categoria pelo apelido de famlia; e enquanto ia falando pousava a sua branca mo cheia de anis na manga do fraque de Bilibine. - Diga-me como se fosse a uma irm, que devo eu fazer? Qual dos dois?
      Bilibine franziu a testa e com um sorriso nos lbios ps-se a reflectir.
      - No me apanha desprevenido, sabe - replicou ele.- Como seu verdadeiro amigo, estou farto de pensar no seu caso, Aqui tem, se casar com o prncipe - (isto , o rapaz) e principiou a contar pelos dedos -, perder para sempre a possibilidade de casar com o outro, e depois descontentar a Corte. (Como sabe, h uma espcie de parentesco.) Mas, se casa com o velho conde, far a felicidade dos seus ltimos dias, e depois, como viva do grande... o prncipe j no faz um casamento desigual casando consigo. - E Bilibine desfranziu a testa.
      - Chama-se a isto um verdadeiro amigo - exclamou Helena, radiante, pousando de novo a mo na manga do fraque do amigo. - Mas eu gosto de um e de outro, no queria causar-lhes pena. Dava a vida pela felicidade dos dois.
      Bilibine encolheu os ombros, com o que queria dizer que nada podia contra semelhante dor.
      Uma mulher s direitas! Chama-se a isto pr as cartas na mesa. Gostaria de casar com os trs ao mesmo tempo, pensou ele com os seus botes.
      - Mas, diga-me uma coisa, como vai o seu marido encarar o problema? - interrogou ele, partindo do princpio de que a sua slida reputao lhe permitia formular uma to ingnua pergunta. - Consentir ele?
      - Ah, ele gosta tanto de mim! - exclamou Helena, que se julgava tambm amada por Pedro.- Far tudo por mim.
      A testa de Bilibine sulcou-se de rugas, o que queria dizer que estava preparando um mot.
      - At divorciar-se - comentou, Helena soltou uma gargalhada.
      A me de Helena, a princesa Kuraguina, pertencia ao nmero das pessoas que se permitiam duvidar da legalidade do casamento projectado. Sempre tivera cimes da e agora, sobretudo, no podia resignar-se  ideia de que os desejos desta se realizassem plenamente. Foi junto de um sacerdote russo aconselhar-se e perguntou-lhe at que ponto seria possvel uma mulher divorciar-se e voltar a casar estando vivo o marido- O padre, respondeu-lhe que tal coisa no era possvel e com grande satisfao sua mostrou-lhe o texto do Evangelho que nega terminantemente toda a viabilidade do casamento em semelhantes condies.
      Munida destes argumentos, que se lhe afiguravam irrefutveis, a princesa apresentou-se em casa da filha logo pela manh muito cedo, de modo a encontr-la s.
      Aps ter ouvido as objeces da me, um sorriso tranquilo e zombeteiro lhe perpassou pelos lbios.
      - Sim, est l escrito formalmente: Aquele que casar com mulher divorciada... - repetia a velha princesa.
      - Oh, mezinha, no diga tolices. No percebe nada. Na minha posio tenho deveres. - retorquiu-lhe Helena, transpondo a conversa do russo para o francs, pois, quando falava russo, afigurava-se-lhe sempre que havia fosse o que fosse de pouco claro naquela histria.
      - Mas, minha amiga
      - Oh, mezinha, como assim? Ento no compreende que o Santo Padre tem o direito de conceder dispensas...
      Nesse momento, a dama de companhia de Helena veio anunciar-lhe que Sua Alteza o prncipe estava no salo e desejava v-la.
      - No, diga-lhe que o no quero ver, que estou furiosa com ele, porque faltou  sua palavra.
      - Condessa, todo o pecado tem perdo - exclamou um jovem louro, alto, esguio e de grande nariz, que aparecera a porta. 
      A velha princesa ergueu-se e fez uma respeitosa reverncia. O recm-chegado nem mesmo se dignou reparar nela. Com  um aceno de cabea  filha, a princesa dirigiu-se para a porta.
      Sim, ela tem razo, dizia de si para consigo, pois, ao ver surgir Sua Alteza, todos os seus escrpulos haviam desaparecido. Tem razo. Como foi possvel que ignorssemos isto quando ramos novas? E no entanto  to simples..., pensava ela, ao subir para a carruagem.
      
      No princpio de Agosto, o caso de Helena estava inteiramente concludo e esta escreveu ao marido, que a amava tanto, como ela pensava, a participar-lhe estar na inteno de se casar com N. N, e que se convertera  nica religio verdadeira. Pedia-lhe que satisfizesse todas as formalidades necessrias para o divrcio consoante a indicao do portador da carta.
      Posto isto, rogo a Deus que o tenha sob a Sua poderosa e santa guarda. Sua amiga, Helena.
      Esta carta chegou a casa de Pedro quando ele se encontrava no campo de Borodino.
      

      
      
      
      Captulo VIII
      
      Para o fim da batalha, depois de abandonar pela segunda vez a, bateria de Raievski, Pedro dirigiu-se, entre massas de soldados, atravs de um barranco, para Kniaskovo, chegando ao posto de socorros, Porm, ao ver sangue e ao ouvir gemidos, deu-se pressa em continuar o seu caminho, misturando-se  soldadesca, que lhe embaraava os movimentos.
      S desejava uma coisa e com toda a sua alma: afastar-se o mais depressa possvel das terrveis impresses de todo aquele dia, retomar a sua vida normal e dormir tranquilamente na sua cama. Dava-se conta de que s depois de regressar s condies de vida normal seria capaz de se compreender a si mesmo e tudo o que vira e experimentara, Mas ainda no obtivera essas condies de vida.
      Embora as granadas e as balas houvessem deixado de sibilar no caminho que tomara, por toda a parte se via o que observara no campo de batalha. Viam-se as mesmas caras dolorosas, extenuadas de cansao e por vezes com uma expresso de estranha indiferena, havia sangue por toda a parte, por toda a parte se viam os mesmos capotes de soldados e se ouviam descargas, que, embora longnquas, causavam medo, e por cima de tudo isto pairava uma poeira e uma fumarada asfixiantes. Depois de ter andado cerca de trs verstas ao longo da estrada de Mojaisk. Pedro sentou-se  beira do caminho.
      Escurecia e deixara de se ouvir o troar do canho. Apoiando-se num brao, Pedro estendeu-se e por muito tempo assim permaneceu, seguindo com a vista as sombras que passavam diante dele no meio das trevas. A cada momento tinha a sensao de que uma granada lhe ia cair em cima com um silvo tremendo. Estremecia ento e punha-se direito. No teria sido capaz de dizer quanto tempo ali estivera. L pela noite adiante, apareceram trs soldados com braadas de ramos secos e sentaram-se perto dele para acenderem uma fogueira.
      Depois de terem olhado desconfiados para Pedro, acenderam o lume, puseram-lhe em cima uma panela e migaram-lhe dentro biscoitos e um pedao de toucinho. O cheiro agradvel daquela sopa gordurosa espalhou-se no ar, misturando-se ao do fumo. Pedro levantou-se com um suspiro. Os trs soldados comearam  comer sem olhar para ele, conversando entre si.
      - E tu, a que regimento pertences? - perguntou-lhe, de sbito, um deles, com o que queria dizer, assim o pensou Pedro: Se queres comer, conta connosco, mas, antes, diz-nos se s pessoa de bem.
      - Eu? Eu? - murmurou Pedro, sentindo que devia descer at ao nvel daqueles soldados para mais perto estar deles e mais facilmente se fazer compreender. - Eu, por agora, sou oficial das milcias, mas o meu destacamento no est para estes lados. Estive no campo de batalha e perdi-me dos meus homens.
      - Caramba! - exclamou um deles.
      O outro abanou a cabea.
      - Bom, come, se te apetece, gostas de kavardak? - voltou e primeiro, oferecendo a Pedro a colher de pau, depois de a ter lambido.
      Pedro foi sentar-se junto da fogueira e ps-se a comer. Parecia-lhe nunca ter comido coisa to boa! Enquanto se agachava junto da panela, engolindo avidamente, umas atrs das outras, grandes colheradas de sopa, tinha o rosto iluminado pela fogueira e os soldados olhavam-no em silncio.
      - E para onde vais agora? Hem? - perguntou ainda um deles.
      - Vou para Mojaisk.
      - s um senhor, no s?
      - Sou.
      - E como te chamas?
      - Piotre Kirilovitch.
      - Pois bem, Piotre Kirilovitch, anda da. Ns te acompanharemos.
      No meio da mais negra escurido, os soldados e Pedro meteram ps a caminho, na direco de Mojaisk.
      O galo j tinha cantado quando eles chegaram a esta cidade e se puseram a subir a ngreme ladeira que a ela conduz. Pedro, seguindo os soldados, esquecera-se por completo de que a sua estalagem ficava l no fundo da encosta e que a ultrapassara j. No teria dado mesmo por isso, to preocupado ia, se a meio da ladeira no se lhe tivesse deparado o escudeiro, que andara  procura dele pelas ruas da cidade e regressava  estalagem. Reconhecera o amo no meio das trevas graas ao chapu alvadio.
      - Excelncia - exclamou ele -, tnhamos perdido as esperanas de o encontrar. Vem a p? Venha da!
      - Pois sim - murmurou Pedro.
      Os soldados estacaram.
      - Bem, pelo que vemos, encontraste a tua gente! - exclamou um deles. - Ento, adeus! Piotre Kirilovitch, no ? 
      - Adeus, Piotre Kirilovitch! - repetiram os outros.
      - Adeus! - disse Pedro. E, acompanhado do escudeiro, dirigiu-se para a estalagem.
       preciso dar-lhes qualquer coisa!, pensou, levando a mo  algibeira. No!  melhor no o fazer!, respondeu-lhe uma voz interior.
      Na estalagem no havia lugar: todos os quartos estavam ocupados. Pedro dirigiu-se ao ptio e deitou-se na carruagem, cobrindo a cabea com o capote.
      

      
      
      
      Captulo IX
      
      Mal pousara a cabea na almofada, sentiu que ia cair no sono, mas, de sbito, com uma nitidez que parecia real, ps-se a ouvir os buum, buum dos canhes, os gemidos, os gritos, o estampido das granadas, sentia o cheiro da plvora e do sangue derramado e um terrvel sentimento de horror e medo da morte se apossou dele. Apavorado, abriu os olhos e levantou a cabea. Tudo estava em sossego  sua volta. Apenas, no alpendre, um impedido falava com o estalajadeiro, para c e para l, patinhando na lama. Debaixo do telheiro, por cima da sua cabea, abrigados no escuro do tecto ripado, um bando de pombos agitou-se assustado com o rudo que ele fizera ao levantar-se. Todo e ptio rescendia quele aroma de que Pedro tanto gostava a essa hora, a esse cheiro das estalagens, misto de palha, de estrume e alcatro. Pelo intervalo de duas tbuas negras via-se o cu lmpido picado de estrelas.
      Louvado seja Deus por tudo ter acabado, disse ele para si mesmo, tornando a cobrir a cabea. Oh!  horrvel uma pessoa ter medo! Que vergonha no me ter sabido dominar! Enquanto eles... eles, at ao fim, ali firmes e tranquilos.
      Eles eram os soldados, os da bateria e tambm os que lhe tinham dado de comer e os que rezavam diante do cone. Eles era aquela gente estranha que desconhecera at ento e que no seu pensamento fazia esquecer agora todas as demais pessoas que conhecia.
      Ser soldado, soldado raso, pensava enquanto pegava no sono. Aderir com todo o nosso ser a esta vida comum, penetrar nos sentimentos que assim os fizeram, Como hei-de eu ver-me livre de todo este fardo suprfluo, diablico, que  a vida exterior? Houve tempo em que teria podido consegui-lo, em que teria podido vir a ser um simples soldado. Podia ter fugido de casa de meu pai, como era meu desejo. E tambm me podiam ter mandado assentar praa depois do duelo com Dolokov. E pela imaginao perpassaram-lhe o jantar no clube, em que provocara Dolokov, e a imagem do Benfeitor em Torjok. E ei-lo que se pe a ver a sesso solene na loja manica. Por acaso  no clube ingls. Algum que ele muito bem conhece, um amigo querido e ntimo, est sentado no extremo da mesa. Mas  ele!  o Benfeitor. Mas ento no morreu?, pergunta-se a si prprio. Sim, morreu. E no sabia que ele estava vivo. Que pena eu tinha que ele tivesse morrido e que grande alegria sinto ao ver que ressuscitou! A um dos lados da mesa sentavam-se Anatole, Dolokov, Nesvistski, Denissov e outras pessoas mais, e os traos de cada um pareciam-lhe to ntidos em sonho como os dos soldados em que acabara de pensar. E aquela gente, Anatole, Dolokov, gritava muito alto e bebia. Sobrepujando as suas vozes ouvia-se, porm, do Benfeitor, que se no calava, e a sua palavra era to potente e contnua como o fragor do campo de batalha, embora agradvel e consoladora. Pedro no compreendia o que ele dizia, mas, porque no sonho os pensamentos eram de uma grande nitidez, estava certo de que falava do bem, da possibilidade de se ser o que eles eram, esses soldados. E eles, com as suas caras, bondosas e firmes, rodeavam o Benfeitor. Conquanto fossem, porm, muito bons, no olhavam para Pedro, no o conheciam. Quis chamar-lhes a ateno para si e dirigir-lhes a palavra. Ergueu-se, e no mesmo instante sentiu frio nas pernas descobertas. Perpassou-o uma impresso desagradvel e puxou o capote: efectivamente, o capote escorregara-lhe para o cho. Por um momento, enquanto o ajeitava, abriu os olhos e viu as mesmas tbuas, os mesmos barrotes, o mesmo ptio, mas agora tudo azulneo, claro, palhetado de gotas de orvalho ou de geada.
      Est a amanhecer, disse Pedro de si para consigo, mas no se trata disso. Tenho de ouvir at ao fim e compreender as palavras do Benfeitor. Voltou a embrulhar-se no capote, porm a sesso na loja e o Benfeitor tinham desaparecido. Nada mais lhe restava alm de pensamentos claramente formulados em palavras que algum pronunciara ou que ele prprio imaginara.
      Quando mais tarde se recordou destes pensamentos, embora eles lhe tivessem sido sugeridos pelas impresses do dia, foi como se algum estranho lhos tivesse segredado. Afigurava-se-lhe que em estado de viglia nunca teria sido capaz de conceber semelhantes pensamentos e exprimi-los daquela maneira.
      A guerra, dizia-lhe uma voz,  a sujeio mais penosa que pode conceber-se da liberdade humana s leis de Deus. A simplicidade  a obedincia a Deus; tudo depende dEle. E eles so simples. Eles no dizem o que fazem. A palavra  de prata, mas o silncio  de ouro. O homem nada pode possuir enquanto temer a morte. S quem no teme a morte  senhor de tudo. Se u dor no existisse, o homem no conheceria os seus limites, no se conheceria a si mesmo. Nada mais difcil, pensava ele, continuando a sonhar, que cada um saber reunir na sua prpria alma o significado de todas as coisas. Reunir tudo? No, no  essa a palavra. No  possvel unir todas as ideias, mas, sim, p-las de acordo!, repetia, com uma espcie de entusiasmo interior, como se sentisse que essas palavras, e s elas, exprimiam perfeitamente o que ele queria dizer, resolvendo a questo que o atormentava.
      Sim,  preciso p-las de acordo,  tempo de harmonizar as coisas.
      -  preciso atrelar, so horas de atrelar, Excelncia! Excelncia! - repetiu uma voz. -  preciso atrelar, so horas de atrelar...
      Era o escudeiro a acord-lo. O sol batia-lhe em cheio na cara. Lanou um olhar para o ptio sujo da estalagem no meio da qual, num poo, os soldados davam de beber aos esquelticos cavalos, enquanto carroas transpunham o porto. Pedro afastou os olhos, enojado, e, voltando a cerrar as plpebras, deu-se pressa em se enterrar nas almofadas da sege.
      No, no quero ver isto, no quero ver nem compreender coisa alguma; s quero compreender o que me foi desvendado durante o meu sonho. Mais um bocadinho e teria compreendido tudo. Que hei-de fazer ento? Harmonizar, sim, mas como harmonizar tudo? E Pedro apercebeu-se, com espanto, de que o sentido profundo do que vira e concebera durante o sono desaparecera para sempre.
      O escudeiro, o cocheiro e o porteiro contavam-lhe que chegara um oficial com a notcia de que os Franceses se aproximavam de Mojaisk e os Russos batiam em retirada.
      Pedro levantou-se e, dando ordem para que logo que atrelassem viessem ter com ele, seguiu a p ao longo das ruas da cidade.
      As tropas tinham-na evacuado, deixando na sua retaguarda perto de dez mil feridos. Havia feridos por toda a parte, nos ptios, nas janelas das casas, em grupos pelas ruas. Em volta das viaturas que os deviam levar s se ouviam gritos, injrias, estrondear, Pedro ofereceu a sua sege, que viera ao seu encontro, a, um general ferido seu conhecido e ambos seguiram viagem at Moscovo. No caminho, Pedro soube da morte do cunhado e da perda do prncipe Andr.
      

      
      
      
      Captulo X
      
      Pedro chegou a Moscovo no dia 30. Perto das muralhas encontrou o ajudante-de-campo do conde Rostoptchine.
      - Andmos  sua procura por toda a parte - disse-lhe este. - O conde precisa, sem falta, de falar consigo. Pede-lhe Que o v ver imediatamente por causa de um assunto urgente.
      Pedro, sem mesmo pensar em dirigir-se a casa, meteu-se num carro e dirigiu-se  residncia do governador.
      O conde Rostoptchine acabava de chegar nessa mesma manh da sua casa de campo de Sokolniki. A antecmara e o salo de recepo estavam cheios de funcionrios convocados ou que vinham receber ordens. Vassiltchikov e Platov j tinham visto o conde e j lhe haviam explicado ser impossvel defender a cidade, que capitularia. Embora houvessem ocultado estas resolues aos habitantes, os funcionrios, os chefes das diferentes administraes, sabiam que Moscovo ia cair nas mos do inimigo, e o prprio Rostoptchine tambm o sabia. No intuito de alijarem responsabilidades, todos tinham vindo perguntar ao governador o que deviam fazer nos seus respectivos servios.
      No momento em que Pedro penetrava no salo, um correio chegado do exrcito saa do gabinete do conde.
      Foi com um gesto pouco encorajador que respondeu s perguntas que lhe dirigiam no momento em que atravessava a sala. Enquanto esperava, Pedro ps-se a olhar com os seus olhos fatigados para as diversas personalidades, novas ou velhas, militares ou civis, que estavam presentes, Em todos os rostos se via uma expresso inquieta e descontente. Aproximou-se de um grupo onde vira conhecidos seus. Depois de o cumprimentarem, prosseguiram nas suas conversas.
      - Demiti-lo e cham-lo em seguida no seria mau, embora na actual situao ningum possa responder por coisa alguma,
      - Sim, mas ele escreve... - acrescentou outro, exibindo um papel impresso que tinha na mo,
      - Ah! Isso  outra questo. Essas coisas so precisas para o povo - replicou o primeiro.
      - Que  isso? - perguntou Pedro.
      - Uma nova proclamao.
      Pedro pegou nela e ps-se a l-la:
      
      O Serenssimo Prncipe, para se reunir mais depressa s tropas que vm ao seu encontro, atravessou Mojaisk e instalou-se numa posio fortificada onde o inimigo no poder atac-lo facilmente. Foram-lhe enviadas daqui quarenta e oito peas de artilharia, com as respectivas munies, e o Serenssimo afirma que defender Moscovo at  ltima gota de sangue e que est mesmo disposto a bater-se nas ruas. No vos preocupeis, irmos, com o facto de as reparties estarem fechadas: era preciso transferi-las para lugar seguro. Quanto a ns, ns c estamos para ajustar contas com esse bandoleiro! Quando a hora soar, precisaremos de rapazes slidos, tanto da cidade como do campo. Lanarei um apelo dentro de dois ou trs dias, mas de momento, como  intil, no falo nisso.  bom que cada um venha armado do seu varapazi e do seu machado e no ser mau que traga o seu chuo, e se trouxer a sua forquilha de trs dentes ainda melhor: um francs no pesa mais que um, feixe de centeio. Amanh, depois do jantar, sairei em procisso com a Virgem Iverskaia para visitar os feridos do Hospital Catalina. Proceder-se-  bno da gua: os feridos curar-se-o assim mais depressa. Eu tambm estou curado. Tinha um olho doente, mas agora vejo com os dois.
      
      - Disseram-me uns militares - objectou Pedro - que era impossvel lutar na cidade e que a posio...
      - Sim, era disso mesmo que ns estvamos a falar - disse o primeiro funcionrio.
      - Que quer ele dizer com isto? - perguntou Pedro - Tinha um olho doente, mas agora vejo com os dois?
      - Tinha um tero! - respondeu o ajudante-de-campo, sorrindo - e mostrava-se atormentado quando eu lhe dizia que o povo vinha saber da sua sade. E a propsito, conde - acrescentou, de sbito, dirigindo-se a Pedro -, ouvimos dizer que est sofrendo desgostos de famlia, que sua esposa, a condessa...
      - De nada, ouvi falar - replicou Pedro com indiferena. - Que se diz?
      - Ah! Bem sabe, s vezes as pessoas inventam. Repito o que ouvi dizer.
      - E que ouviu o senhor dizer?
      - Diz-se - prosseguiu o ajudante-de-campo, sempre com o mesmo sorriso - que a condessa sua esposa pensa partir para o estrangeiro.  natural que no passe de m-lngua...
      - Naturalmente - repetiu Pedro, lanando  sua roda um olhar indiferente. - E aquele, quem  aquele? - perguntou, apontando para um velho pequenino, com um longo cafet azul, a barba e as sobrancelhas brancas como neve e as bochechas rosadas.
      - Aquele?  um comerciante, ou antes um taberneiro, um tal Verechtchaguine. Se calhar, j ouviu falar nessa histria da proclamao.
      - Ah!, sim!  realmente Verechtchaguine?! - exclamou Pedro, observando a fisionomia firme e serena do velho comerciante e procurando ver nela debalde a mscara de um traidor.
      - No foi ele precisamente.  o pai do que escreveu a proclamao - continuou o ajudante-de-campo. - Esse, o filho, est na cadeia, e, se me no engano, as coisas no lhe vo correr bem.
      Um velhinho, com uma condecorao ao peito, e um alemo, velho tambm, funcionrio com uma cruz pendente, aproximaram-se dos interlocutores.
      -  uma histria muito complicada - dizia o ajudante-de-campo - A proclamao apareceu h uns meses. Vieram dizer ao conde, que mandou fazer um inqurito. Encarregaram disso Gravila Ivanitch. A proclamao tinha passado precisamente por sessenta e trs mos. Procuraram um dos detentores. Quem lha deu? Este diz que foi Fulano. Interrogam esse Fulano. Quem lha deu? E assim por diante. At que chega a vez de Verechtchaguine... um comerciantezito, sem grande malcia, como vem, um comerciantezito - acrescentou sorrindo - Interrogam-no. Quem te deu isto? E, note-se, ns sabamos muitssimo bem quem lha tinha dado. S podia ter sido o director dos correios. Mas, est claro, estavam coniventes. Responde: Ningum. Fui eu quem a fez. Ameaam-no, insistem. Continua na sua: fora ele quem a escrevera. Apresentam o relatrio ao conde. Este interroga-o: Quem te deu a proclamao? Fui eu quem a fez. Conhecem o conde! - prosseguiu, sorrindo, com um sorriso orgulhoso e divertido - Deu por paus e por pedras, como calculam, diante de tanta insolncia, tanta mentira, tanta casmurrice.
      - Sim, j percebo, o conde queria que ele denunciasse Kliutcharev! - exclamou Pedro.
      - No era preciso - deu-se pressa em responder o ajudante-de-campo -, Kliutcharev j tinha s costas outras acusaes, por isso foi deportado. Mas o conde estava exaltadssimo, Como pudeste escrev-la?, disse-lhe ele. Em cima da mesa estava a Gazeta de Hamburgo. Pegou nela, Aqui a tens, Tu no a escreveste, traduziste-a, e traduziste-a muito mal, percebes, imbecil, pois no sabes uma palavra de francs. Que acham? No, replica. no a li em jornal algum, fui eu quem a escreveu. - Ento, se assim , s um traidor e vou entregar-te  justia, que te mandar enforcar, Vamos, diz l, quem ta deu? - No vi jornal algum. Fui eu quem a escreveu. E as coisas ficaram assim. O conde mandou citar o pai: mas este no arreda p. Foi levado ao banco dos rus e condenaram-no, segundo creio, a trabalhos forados. E o pai ali est agora para interceder pelo filho.  m rs, o rapaz!  um desses filhos de comerciante, presumido e sedutor, que l por ter frequentado umas aulas julga que sabe tudo. Sempre me saiu um menino! O pai tem uma taberna na Ponte Kaminii. Pois no querem saber? Na taberna havia uma grande imagem de Nosso Senhor com o ceptro numa das mos e o globo terrestre na outra. Levou o quadro para casa, por uns dias, e sabem o que fez? Arranjou um pintor sem vergonha...
      

      
      
      
      Captulo XI
      
      Nesta altura, Pedro foi chamado  presena do governador. Penetrou no gabinete do conde Rostoptchine, quando este, de sobrancelhas franzidas, passava a mo pela testa e pelos olhos. Falava-lhe nesse momento um homenzinho de somenos estatura, que se calou e saiu.
      - Bons dias, ilustre guerreiro - disse Rostoptchine, assim que o homenzinho desapareceu - Ouvi falar das suas proezas! Mas no  disso que se trata. Meu caro, entre ns, diga-me uma coisa,  mao? - prosseguiu ele no mesmo tom severo, como se isso fosse motivo para censura, embora no quisesse ser impiedoso para com ele. Pedro ficou calado. - Meu caro, estou bem informado, mas sei perfeitamente que h maes e maes e espero que o senhor no pertena  categoria daqueles que a pretexto de salvar a Humanidade querem perder a Rssia.
      - Sim, sou mao - replicou Pedro.
      - Bem, meu amigo, suponho que no ignora que os senhores Speranski e Magnitski foram expedidos para onde pode calcular, e o mesmo aconteceu ao senhor Kliuteharev e ainda a outros, que, a pretexto de levantarem o templo de Salomo, tratavam de deitar abaixo o templo da Ptria. Como pode calcular, houve motivo para proceder assim e que eu no teria mandado deportar o director dos correios se este no fosse um homem perigoso. Acabo de saber agora que o senhor lhe mandou a sua carruagem para ele sair da cidade e que aceitou, inclusivamente, papis que ele lhe confiou. Estimo-o e no lhe quero mal, mas, como tenho o dobro da sua idade, aconselho-o, na minha qualidade de mais velho, a que deixe de ter relaes com essa gente e a que abandone Moscovo o mais depressa possvel.
      - Mas de que acusam Kliutcharev? - perguntou Pedro. 
      - Esse assunto  a mim que diz respeito, e no  o senhor que me deve fazer perguntas! - exclamou Rostoptchine.
      - Acusam-no de ter espalhado as proclamaes de Napoleo, mas isso no est provado - prosseguiu Pedro, sem olhar para o seu interlocutor - e Verechtchaguine...
      - C estamos - exclamou o governador numa voz cada vez mais alta, franzindo as sobrancelhas e interrompendo Pedro. - Verechtchaguine  um traidor da pior espcie, que receber o castigo que merece. - Nas suas palavras ressoava uma tal clera que dir-se-ia terem-no ofendido pessoalmente.- Mas no foi para discutir os meus actos que o chamei aqui, foi para lhe dar um conselho, uma ordem, se assim quer. Peo-lhe que corte as suas relaes com pessoas como Kliutcharev e que saia de Moscovo. Sim, estou disposto a acabar com todas estas tolices, sejam eles quais forem. - E ao notar, naturalmente, que elevava demasiado a voz para falar a Bezulcov, que ainda no era acusado de qualquer crime, acrescentou, pegando-lhe por um brao com maneiras amistosas: - Estamos em vsperas de um desastre pblico, e no tenho tempo para dizer coisas amveis a todos os que se dirigem a mim. H momentos em que sentimos a cabea  roda. Pois bem, meu caro, que faz o senhor, sim, o senhor, pessoalmente?
      - Mas nada - replicou Pedro, que continuava de olhos baixos e que tinha um ar cismador.
      O conde franziu as sobrancelhas.
      - Um conselho de um amigo, meu caro. Desaparea, e quanto mais depressa melhor,  tudo quanto tenho a dizer-lhe. A bom entendedor! Adeus, meu caro. Ah! A propsito - gritou-lhe, quando Pedro j estava no limiar da porta - ser verdade a condessa ter cado nas garras dos Santos Padres da Companhia de Jesus?
      Pedro no respondeu e saiu do gabinete de Rostoptchine com uma expresso preocupada e irritada: nunca estivera to irado na sua vida.
      Quando regressou a casa, j era noite. Umas oito pessoas o aguardavam: o secretrio da comisso, o coronel do seu batalho, o intendente, o mordomo e vrios solicitadores. Todos tinham assuntos a expor-lhe, que ele precisava de resolver. Nada compreendia do que lhe diziam nem se interessava por aqueles assuntos e, a todas as perguntas que lhe faziam respondia de molde a ver-se livre de tudo aquilo o mais depressa possvel. Finalmente, quando ficou s, abriu e leu a carta da mulher.
      Eles, os soldados da bateria... o prncipe Andr morto... O velho... a simplicidade de esprito consiste na submisso a Deus...  preciso saber sofrer... O sentido de todas as coisas...  necessrio harmoniz-las... A minha mulher vai tornar a casar... Tenho de desistir de compreender... Aproximou-se da cama e sem se despir deixou-se cair sobre ela, adormecendo imediatamente. Quando acordou, na manh seguinte, o mordomo veio inform-lo de que um polcia, enviado especialmente pelo conde Rostoptchine, viera informar-se sobre se o conde Bezukov partira ou ia partir.
      Duas dezenas de pessoas com assuntos a tratar com ele esperavam j no salo. Vestiu-se, arranjou-se  pressa e, em lugar de as receber, meteu pela escada de servio e saiu pela porta das traseiras.
      Desde aquele momento e at ao fim da destruio de Moscovo nenhum dos seus familiares conseguiu tornar a v-lo nem soube o que era feito dele, apesar de o terem procurado por toda a parte.
      

      
      
      
      Captulo XII
      
      At ao 1 de Setembro, isto , at  vspera da entrada do inimigo em Moscovo, os Rostov conservaram-se na cidade.
      Desde que Ptia fora incorporado nos cossacos de Obolenski e partira para Bielaia Tserkov, onde o regimento estava em formao, que a condessa vivia no maior terror. A ideia de que os seus dois filhos estavam na guerra, que ambos precisavam da sua proteco maternal, que hoje ou amanh qualquer deles podia morrer, como acontecera aos trs filhos de uma senhora das suas relaes, eis a ideia que se lhe impunha pela primeira vez naquele Estio com uma nitidez cruel. Tentara fazer regressar Nicolau para junto de si, quisera ir ela prpria buscar Ptia, mas tudo debalde, Ptia no podia vir seno quando voltasse o seu regimento ou pedindo transferncia para outro regimento no activo. Nicolau estava algures no campo de batalha e desde a sua ltima carta, em que contara pormenorizadamente o seu encontro com a princesa Maria, nunca mais dera sinal de vida. A condessa deixara de dormir e quando porventura fechava os olhos era s para ver os filhos mortos. Depois de muito se ter aconselhado e de sobre o assunto ter trocado muitas impresses, o conde acabou por conceber uma maneira de a serenar. Conseguiu transferir Ptia do regimento Obolenski para o regimento de Bezukov, que estava a organizar-se nas imediaes de Moscovo, Ptia continuava, claro est, ao servio, mas a condessa tinha a satisfao de conservar perto dela pelo menos um dos seus filhos, na esperana de o instalar de tal maneira que ele no se afastasse mais e de lhe arranjar situaes que lhe permitissem conserv-lo longe dos campos de batalha. Enquanto s Nicolau estivera em perigo, afigurava-se-lhe, a ela, e assim o dizia, querer ao seu filho mais velho acima de todos, mas quando o benjamim, esse garoto endiabrado, que estudava, pouco, partia tudo em casa, se metia com toda a gente, esse Ptia de nariz arrebitado, olhinhos pretos cheios de malcia, tez rosada e fresca, a cara coberta de penugem, quando ele partiu, tambm, para o meio desses homens corpulentos, terrveis e cruis, que gostavam de lutar, pareceu-lhe querer-lhe mais a ele que a todos os seus outros filhos. A medida que se aproximava o momento do regresso de Ptia a Moscovo, maior era a inquietao da condessa. Afigurava-se-lhe que nunca esse momento venturoso chegaria. A presena no s de Snia, mas at de Natacha, sua preferida, ou do prprio marido, apenas servia para irrit-la. Que tenho eu que ver com eles? No preciso de mais ningum seno de Ptia!, pensava ela,
      Nos ltimos dias de Agosto, os Rostov receberam uma segunda carta de Nicolau. Era datada da provncia de Voroneje, aonde fora em servio de remonta. Essa carta no sossegou a condessa. Depois de saber que um dos seus filhos no estava em perigo, os seus cuidados cresceram por causa do outro.
      Desde 20 de Agosto que quase todas as pessoas conhecidas dos Rostov tinham deixado Moscovo e, embora todos insistissem com a condessa para abalarem o mais cedo possvel, ela no queria ouvir falar em tal enquanto o seu tesouro, o seu Ptia adorado, no estivesse de volta. No dia 28, finalmente, chegava Ptia. A ternura apaixonada e doentia com que a me o recebeu no foi das coisas que mais agradaram a esse jovem oficial de dezasseis anos. Conquanto ela escondesse a sua inteno de o conservar junto de si, o moo adivinhou-lhe os desejos e com receio instintivo de se deixar comover, de se efeminar, como ele dizia, junto da me, mostrava-se frio com ela, evitava-a, e durante todo o tempo da sua estada na capital manteve-se quase exclusivamente na companhia de Natacha, a quem sempre dedicara uma ternura fraternal muito sua.
      A negligncia do conde era sempre a mesma e no dia 28 nada estava preparado para a partida: os carros que deviam chegar, vindos das suas propriedades de Riazan e dos arredores de Moscovo, e que se utilizariam no transporte dos mveis, s apareceram a 30.
      De 28 31 de Agosto toda a cidade andou numa agitao febril. Todos os dias entravam em Moscovo, pela porta de Dorogomilov, carros e carros cheios de milhares de feridos provenientes do campo de batalha enquanto pelas outras barreiras saam caravanas e caravanas de viaturas carregadas de gente e de bagagens. Apesar das proclamaes de Rostoptchine, ou precisamente por causa delas, corriam os boatos mais contraditrios e estranhos. Uns diziam que ningum tinha licena de sair da cidade; outros, pelo contrrio, faziam correr que os cones das igrejas haviam sido todos retirados e que as pessoas eram afastadas  fora de Moscovo. Este dizia que depois de Borodino houvera uma batalha em que os Franceses tinham sido derrotados: aquele anunciava, em contrapartida, que o exrcito russo fora completamente desbaratado. Havia quem dissesse que a milcia moscovita e o clero iriam bater-se em Tri Gori, e tambm se dizia  boca pequena que o metropolita Augustin fora proibido de sair da cidade, que tinham sido presos alguns traidores e que os camponeses, revoltados, assaltavam os que abandonavam Moscovo, etc- etc. Tudo falsos boatos. Na realidade, tanto os que partiam como os que ficavam, sem o dizerem a ningum, embora ainda se no tivesse reunido o conselho de guerra de Fili, onde veio a decidir-se o abandono da cidade, todos sentiam que Moscovo teria de capitular e que o que havia a fazer era cada um tratar de se salvar e ao que era seu. Reinava o pressentimento de que tudo se desmoronaria e se transformaria de um momento para o outro. No entanto, at ao dia 1 de Setembro nada se modificara. Assim como o condenado a morte que  conduzido ao local do suplcio, mesmo sabendo que vai morrer, olha  sua volta e compe o bon, Moscovo, conquanto soubesse que a hora da sua perdio era chegada e que as condies de vida a que at ento se submetera iam sofrer uma transformao, continuava, maquinalmente a sua vida de todos os dias.
      Durante os trs dias que precederam a catstrofe andou a famlia Rostov atarefada nos preparativos da partida. O chefe da famlia, o conde Ilia Andreitch, corria de um lado para outro da cidade, sempre  cata de notcias, e as disposies que tomava para a partida eram vagas e precipitadas.
      Sempre descontente, procurando Ptia por todo o lado, o qual fazia o possvel por evit-la, cheia de cimes de Natacha, com quem o rapaz passava os dias, a condessa vigiava os preparativos de partida. A nica pessoa pratica no seu trabalho era Snia, embora rios ltimos tempos andasse triste e silenciosa, A carta de Nicolau que falava da princesa Maria levara a condessa, que via nesse encontro o dedo da Providncia, a fazer algumas alegres reflexes diante dela,
      - Nunca senti grande satisfao com o noivado de Bolkonski e de Natacha - dizia a condessa -, mas sempre sonhei ver Nikolenka casado com a princesa, e tenho o pressentimento de que  o que vai acontecer, Bom seria!
      Snia, via-se obrigada a reconhecer que a nica maneira de remediar o estado da fortuna dos Rostov seria um casamento rico e que a princesa era um bom partido. Eis o que era doloroso para ela.
      Apesar da sua tristeza, ou talvez at para esquec-la, chamava a si todas as pesadas tarefas da mudana e tinha os dias todos ocupados. O conde e a condessa, quando se tratava de alguma ordem, a ela recorriam. Pelo contrrio, Ptia e Natacha no s no ajudavam os pais como embaraavam e enfadavam toda, a gente em casa. Andavam o dia inteiro em correrias loucas, rindo e gritando a todo o propsito. No tinham, realmente, qualquer razo especial para rir ou para estar satisfeitos, mas, como ambos se sentiam alegres, tudo lhes servia para se divertirem. Ptia estava contente porque, tendo sado de casa garoto, voltara transformado, como toda a gente dizia, num homem e num heri. Sentia-se feliz por estar com a sua famlia e tambm porque, deixando Bielaia, Tserkov, onde lhe no seria fcil assistir to depressa a qualquer batalha, viera para Moscovo e a, dentro de pouco, teria oportunidade de entrar na luta. De resto estava alegre porque Natacha, que muito influa no seu estado de esprito, o estava tambm. Quanto a Natacha, essa sentia-se alegre porque estivera triste durante muito tempo e nada lhe lembrava agora a causa das suas penas, tendo recuperado a sua ptima sade. E sentia-se alegre ainda porque algum a adorava e a admirao dos outros lhe era um estimulante indispensvel  sua actividade normal, sendo Ptia esse algum. Alm disso ambos andavam em grande exaltao porque a guerra se travava agora s portas de Moscovo, ia haver luta nas barreiras da cidade, distribuam-se armas, os habitantes fugiam por todos os lados, numa palavra, davam-se factos extraordinrios, coisa sempre muito divertida para quem  novo.
      

      
      
      
      Captulo XIII
      
      Sbado. 31 de Agosto, ia grande confuso em casa dos Rostov. As portas estavam abertas, os mveis haviam sido tirados do seu lugar ou levados, os quadros e os espelhos tinham sido apeados. Havia malas, palha, papis de embrulho, fios por todo o lado. Os camponeses e os criados andavam de um lado para o outro pisando os parquets pesadamente, carregados de embrulhos. No ptio estacionavam as carroas, unias j cheias at cima e amarradas, outras ainda vazias.
      S se ouviam por toda a parte os passos e as vozes da criadagem e dos camponeses que tinham vindo com os carros, chamando-se uns aos outros. O conde desaparecera logo pela manh. A condessa, a quem o rudo e a agitao faziam dores de cabea, estava deitada na sua nova alcova com compressas de vinagre na testa. Ptia sara: fora visitar um camarada com quem queria transferir-se da milcia para o exrcito activo, Snia assistia no salo de festas ao trabalho de empacotamento das porcelanas e dos cristais. Natacha estava no seu quarto, sentada no sobrado, no meio de um monto de vestidos, de fitas, de xales, os olhos fitos num trajo de baile, fora de moda, que tinha nas mos. Era o vestido que levara ao seu primeiro baile em Petersburgo.
      Natacha sentia-se envergonhada por nada fazer quando toda a gente estava ocupada, e por vrias vezes j, desde manh, tentara exercer qualquer actividade. Mas aquilo no a atraa. Era incapaz de se dedicar fosse ao que fosse desde que o no fizesse com toda a sua alma. Ali estava, ao p de Snia, que embrulhava as porcelanas, querendo ajud-la, mas logo abandonando tudo para voltar ao seu quarto a emalar as suas coisas. Entreteve-se, primeiro, a distribuir pelas suas criadas de quarto vestidos e fitas, mas, quando chegou o momento de guardar o que restava, sentiu-se aborrecida.
      - Duniacha, anda, trata de guardar tudo isto, minha querida! Hem?
      E como Duniacha lhe prometeu ocupar-se de tudo. Natacha, sentou-se no cho, pegou no velho vestido de baile e ps-se a pensar em coisas que nada tinham com as suas preocupaes actuais. Despertou-a deste devaneio uma conversa das criadas na sala contgua e passos precipitados na escada de servio. Levantou-se e foi espreitar pela janela. Um grande comboio de feridos estacionava na rua.
      Ao porto apinhavam-se as criadas, os lacaios, a governanta, a ama, os cozinheiros, os cocheiros, os postilhes, os moos da cozinha, que assistiam  passagem dos carros.
      Natacha amarrou um leno branco  cabea e apanhando-o nas pontas com as mos desceu a escada.
      A antiga governanta, a velha Mavra Kuzminitchna, afastou-se da multido dos curiosos e aproximou-se de um carro com um toldo de serapilheira, pondo-se a conversar com um jovem oficial, muito plido e que nele ia deitado, Natacha deu alguns passos e deteve-se intimidada, segurando sempre as pontas do leno, a escutar o que dizia a governanta.
      - Ento ningum conhecido tem em Moscovo? - perguntava Mavra Kuzminitchna.- Ficaria mais sossegado numa casa particular - Por exemplo, na nossa, Os amos vo partir.
      - No sei se nos deixariam - respondeu o oficia, numa voz apagada. - Est ali o comandante. Pergunte-lhe. - E apontou para um major gordo que se dirigia para a retaguarda do comboio, ladeando a fila dos carros.
      Natacha olhou assustada para o rosto do ferido e encaminhou-se imediatamente para, o major.
      - Os feridos podem ficar em nossa casa? - perguntou.
      O comandante levou a mo, sorrindo,  pala da barretina.
      - Em que posso servi-la, menina? - disse, piscando os olhos e sorrindo.
      Natacha repetiu serenamente a sua pergunta: o seu rosto, todos os seus modos, conquanto continuasse a segurar o leno na cabea, ganharam uma expresso to sria que o major deixou de sorrir e, depois de perguntar a si prprio se lhe seria lcito dar essa autorizao, respondeu afirmativamente,
      - Porque no? Acho que sim  disse.
      Natacha inclinou ligeiramente a cabea e aproximou-se, em passos rpidos, de Mavra Kuzminitchna, que se debruava para o ferido e conversava com ele cheia de comiserao.
      - Diz que sim, disse que podia ser! - murmurou Natacha em voz baixa,
      O carro do oficial penetrou no ptio dos Rostov e dezenas de outros carros, cheios de feridos, entraram igualmente nos ptios das casas da Rua Povarskaia. Este incidente, to estranho ao que ela estava habituada, via-se que agradava muitssimo a Natacha. Ajudada por Mavra Kuzminitchna, procurou fazer entrar no ptio da casa o maior nmero possvel de feridos.
      - Era bom, no entanto, dizer alguma coisa ao pai - disse Mavra Kuzminitchna,
      - No, no, no tem importncia! Por um dia, mudar-nos-emos para o salo. Podemos ceder-lhes os nossos quartos.
      - Veja l, menina, veja o que est a fazer. At mesmo para os alojamentos nas camaratas, nos quartos de arrumao ou na dependncia dos criados  melhor pedir licena.
      - Est bem, eu peo.
      Natacha entrou pela casa dentro e em bicos de ps, pela porta, que estava aberta, penetrou na alcova onde cheirava muito a vinagre e a gotas de Hoffmann.
      - Est a dormir, mezinha?
      - Como queres que eu possa dormir? - exclamou a condessa, num sobressalto, pois acabava de passar pelo sono.
      - Mezinha, mezinha querida - disse Natacha, ajoelhando diante da me e juntando a sua cara  dela.- Perdoe, desculpe-me, no volto a faz-lo. Acordei-a. Foi a Mavra Kuzminitchna quem me mandou c. Esto l fora feridos, oficiais. D licena? Eles no tm para onde ir. Tenho a certeza de que a mezinha consente... - Falava muito depressa, sem tomar flego.
      - Que oficiais? De que ests tu a falar? No percebo nada.
      Natacha ps-se a rir, e aos lbios da me tambm aflorou um plido sorriso.
      - Tenho a certeza de que a me consente... Vou dizer-lhes. Natacha beijou a me, levantou-se e precipitou-se para a porta.
      No salo encontrou o pai, que trazia ms notcias.
      - Fizemo-la bonita esperando at  ltima hora! - disse contrariado. - O clube fechou e a polcia vai-se embora.
      - Paizinho, no te importas que eu tenha mandado entrar uns feridos? - perguntou Natacha.
      - Claro. No faz mal - respondeu ele, distraidamente. - Mas no se trata disso.  melhor deixares-te de patetices e ajudares a arranjar as coisas para nos irmos embora, para nos irmos embora amanh...
      O conde deu a mesma ordem ao mordomo e aos criados. Durante o jantar chegou Ptia, que contou tambm as novidades que sabia. Disse que quela hora o povo estava a armar-se no Kremlin e que, no obstante os editais de Rostoptchine, em que este comunicava  populao de Moscovo que soltaria o grito de alarme dois ou trs dias antes, com certeza j se haviam tomado medidas para, a partir do dia seguinte, se reunirem armados em Tri Gori, onde se esperava uma grande batalha.
      A condessa mirava com um misto de timidez e horror o rosto excitado e jovial do filho enquanto ele falava. Tinha a certeza de que se dissesse uma palavra que fosse para pedir a Ptia que no tomasse parte nessa batalha - e esse combate iminente devia ser para ele uma grande alegria, pensava ela - teria de o ouvir falar na coragem, na honra, na ptria. Diria as coisas mais absurdas com uma deciso viril e obstinada, e ela nada poderia dizer contra isso, estragando tudo. Bis porque nada disse, na esperana de conseguir arranjar tudo para partir antes, levando Ptia como seu protector, e, findo que foi o jantar, chamou o conde de parte, a quem implorou, soluando, que a levasse dali o mais depressa que pudesse, nessa mesma noite se fosse possvel, Com a astcia involuntria e bem feminina que lhe dava o amor maternal, ela, que at a se mostrara completamente indiferente ao perigo, dizia agora que morreria de medo se no sassem da cidade nessa mesma noite. E efectivamente a partir daquele momento o medo apossara-se dela.
      

      
      
      
      Captulo XIV
      
      Madame Schoss, que tinha ido visitar a filha, ainda agravou mais os terrores da condessa contando-lhe o que vira na Rua Miasilitskaia, diante de um depsito de bebidas. No regresso, no tinha podido passar por ali, tantos eram os bbedos que alvoroavam as vizinhanas. Viu-se obrigada a tornar um carro e a seguir por ruas transversais, tendo-lhe o cocheiro contado que o povo arrebentara com as pipas de lcool, de acordo com as ordens que recebera para isso.
      Depois do jantar, todos se puseram a embalar as coisas com uma rapidez febril para acelerar a partida. O velho conde, que subitamente se pusera tambm a trabalhar, passava a vida para c e para l, ora no ptio ora em casa, arengando, a propsito e despropsito,  criadagem, para que as coisas se fizessem depressa. Ptia dirigia os trabalhos no ptio. Snia perdia a cabea com as recomendaes contraditrias do conde e no sabia o que havia de fazer. A criadagem gritava, discutia, zaragateava correndo e esfalfando-se. Natacha, animada daquela paixo que ela sabia pr em todas as coisas, deitou tambm mos  obra. De princpio a sua interveno foi acolhida com desconfiana. No esperavam dela seno travessuras e ningum queria dar ouvidos ao que ela dizia, mas ela exigiu com obstinao e ardor que lhe obedecessem, zangou-se, quase chorou porque a no queriam ouvir e acabou por conseguir o que queria. A primeira medida que tomou, e que grandes esforos lhe custara, assentando de vez a sua autoridade, foi o enrolar dos tapetes. O conde tinha preciosas tapearias de Gobelin e tapetes persas. Quando Natacha ps mos  obra, duas caixas estavam abertas no salo: uma quase cheia at cima de porcelanas, a outra, de tapetes. Ainda havia muitas peas de porcelana espalhadas pelas mesas e continuavam a trazer mais dos armrios. Era preciso encher uma nova caixa e os criados foram por ela.
      - Snia, espera. Podemos meter todo o resto ali - disse Natacha.
      - No h forma, menina; j tentmos de todas as maneiras - replicou o moo da copa.
      - Qual qu? Querem ver?
      E principiou a tirar da caixa travessas e pratos embrulhados em papel.
      - Temos de pr as travessas aqui, no meio dos tapetes - voltou ela.
      - S para os tapetes sero precisas pelo menos trs caixas - comentou o moo da copa.
      - Espera. Vais ver. - E Natacha ps-se a extrair os objectos da caixa com toda a presteza - Estes no - dizia, mostrando os pratos de Kiev. - Estes, sim, ali, com os tapetes - acrescentava, apontando para as travessas de Saxe.
      - Deixa isso, Natacha, no te preocupes, ns conseguiremos tudo, seja como for - resmoneava Snia.
      - Deixe, menina... - dizia o mordomo.
      Natacha no desistia. Desmanchou todos os embrulhos e principiou outra vez a faz-los com grande celeridade, dizendo ser intil levarem os tapetes usados e a loua suplementar. E quando chegou ao fim, voltou outra vez ao princpio. De facto, assim que retiraram tudo que era ordinrio, que no valia a pena levar, as coisas de valor tiveram lugar nas duas caixas. No entanto, as tampas teimavam em no fechar. Era natural que ainda se pudesse encontrar qualquer coisa susceptvel de ser posta de lado, mas Natacha no queria desistir do seu intento. Fazia, desfazia as caixas, enchia, dizia ao moo da copa e a Ptia, que arrastara consigo para a ajudarem, que comprimissem o tampo... ela prpria fazia desesperados esforos.
      - Bem, pronto, Natacha - acabou por dizer Snia. - Sim, bem veio que tens razo, mas no entanto tira esse tapete de cima.
      - No quero - gritava Natacha, apartando da cara, coberta de suor, com uma das mos, os cabelos desgrenhados, enquanto com a outra batia em cima dos tapetes. - Anda, Petka, fora! Vassilitch, carrega!
      Os tapetes acabaram por se comprimir e a tampa fechou-se. Natacha bateu palmas, gritando de alegria, e lgrimas de satisfao orvalharam-lhe os olhos. Mas foi obra de segundos. Imediatamente se consagrou a outra tarefa, embora tivesse agora confiana em si. E o conde no se zangou quando lhe disseram que Natacha Ilinitchna desrespeitara as ordens que ele dera. E a ela  que os criados vieram pedir instrues para amarrar os embrulhos e carregar os carros. Graas a Natacha, o trabalho progrediu. As coisas banais foram postas de parte e as mais preciosas colocadas umas contra as outras.
      No entanto, quando a noite chegou, apesar do empenho de todos, ainda no se pudera emalar tudo. A condessa adormecera e o conde, adiando a partida para o dia seguinte, foi deitar-se. Snia e Natacha estenderam-se vestidas na alcova.
      Nessa noite passou um carro com mais um ferido pela Rua Povarskaia e Mavra Kuzminitchna, que estava ao porto, mandou-o entrar para casa dos Rostov. Esse ferido, pelo que dissera Mavra Kuzminitehna, devia ser pessoa importante. Era transportado num carro fechado e ao p do cocheiro sentava-se um criado velho de aspecto venervel. Atrs, noutro carro, vinham o mdico e dois soldados.
      - Entrem aqui, para nossa casa, se fazem favor. Os patres vo-se embora, a casa est vazia - disse a velha para o criado.
      - Ah! - suspirou o criado. - Julgmos que no chegasse at aqui. Temos a nossa casa em Moscovo, mas  longe e no est l ningum.
      - Tenham a bondade de entrar. Na casa dos nossos amos h tudo que  preciso. Entrem. Est muito mal? - acrescentou ela.
      O criado fez um gesto vago.
      - Julgmos que no chegasse at aqui. Pergunte ao mdico.
      O criado apeou-se e aproximou-se da carruagem.
      - Est bem - disse o mdico.
      O criado voltou a primeira carruagem, espreitou para dentro e agitou a cabea. Depois disse ao cocheiro que entrasse no ptio e veio de novo para junto de Mavra Kuzminitchna.
      - Meu Senhor Jesus Cristo! - exclamou ela. - Passem por aqui, os senhores nada diro... - afirmou ela.
      Era preciso evitar que o ferido fosse transportado pela escada, por isso o levaram para o pavilho. Instalaram-no no antigo quarto de Madame Schoss. O ferido era o prncipe Andr Bolkonski.
      

      
      
      
      Captulo XV
      
      Chegou a derradeira hora de Moscovo. Estava um dia de Outono claro e alegre. E, sendo domingo, como em todos os domingos, os sinos repicavam para a missa em todas as igrejas. Dir-se-ia que ningum compreendia ainda o destino que aguardava a capital.
      S dois barmetros acusavam a situao da cidade: a atitude da populaa, isto , do grosso da arraia-mida, e a alta dos preos. Os operrios das fbricas, os criados e os camponeses, em magotes,  mistura com funcionrios, seminaristas e fidalgos, tinham ido de madrugada para Tri Gori. Chegada que foi a, toda aquela gente ficou  espera de Rostoptchine; mas, depois de muito esperar e convencida de que Moscovo seria entregue ao inimigo, acabou por regressar  cidade, dispersando-se por ruas e tabernas. Os preos das coisas tambm diziam muito, As armas, o ouro, os carros, os cavalos, aumentavam constantemente de preo enquanto baixava continuamente o valor do Papel-moeda e dos objectos de luxo, e de tal maneira que por volta do meia-dia os panos, por exemplo, valiam menos de metade do seu preo habitual. Em compensao, um cavalo de aldeo chegava a pagar-se por quinhentos rublos. E os mveis, os espelhos, os bronzes, cediam-se por qualquer preo.
      Na velha e respeitvel residncia dos Rostov pouco se fizera sentir esta subverso das antigas condies da vida. Durante a noite apenas haviam desaparecido trs dos numerosos criados da casa, que nada tinham roubado, e os trinta carros chegados da aldeia acharam-se de um momento para outro transformados numa verdadeira riqueza, riqueza invejada por muitos. Por eles ofereciam aos Rostov chorudas somas. No s lhes vinham propor semelhantes ofertas, como desde essa noite, e logo muito cedo na manh do dia 1 de Setembro, o ptio da residncia se viu cheio de ordenanas e criadagem dos oficiais feridos ali instalados ou nas casas vizinhas que vinham implorar do pessoal do conde que lhes arranjasse meios de transporte para sair da cidade. O mordomo, a quem se dirigiam, embora lamentasse a situao dos feridos, recusava-se categoricamente a conceder o que lhe pediam, dizendo no ter coragem sequer de falar nisso ao amo. Por mais dignos de piedade que fossem todos aqueles desgraados, a verdade  que se se transigisse com um ter-se-ia de transigir com todos, e nesse caso no haveria razo para se no cederem inclusivamente as prprias carruagens reservadas para os donos da casa. Trinta carros no bastavam para salvar todos os feridos e no meio de toda aquela desgraa era impossvel no se pensar em si prprio e na famlia. Eis o que pensava o mordomo por conta do seu patro.
      Quando acordou, na manh do dia 1, o conde Ilia Andreitch saiu nos bicos dos ps do seu quarto de dormir para no acordar a condessa, que s ento passara pelo sono, e ainda de roupo, o seu roupo de seda lils, veio at ao alpendre. A fila de carros, prontos a partir, estava alinhada no ptio. O mordomo conversava com um velho impedido e um moo oficial, muito plido, que tinha um brao ao peito. Ao ver o conde, ps-se a fazer gestos muito graves, como a dar-lhes a entender que seria melhor retirarem-se.
      - Ento, Vassilitch, est tudo pronto? - disse o conde passando a mo pela calva, com um aceno de cabea cordial ao militar e ao seu impedido, pois muito gostava de ver caras novas. - Podemos atrelar imediatamente, Excelncia.
      - Bom, magnfico, logo que a condessa acorde, abalamos! Que h, meus senhores? - exclamou, dirigindo-se ao oficial. - Est em minha casa.
      O oficial aproximou-se. O sangue subiu-lhe ao rosto plido.
      - Conde, peo-lhe, consinta...  por Deus que lhe peo... consinta que eu me instale em qualquer parte entre as suas malas. No trago nada comigo... Vou numa das carroas, pouco me importa...
      Ainda o oficial se no calara, j o impedido dirigia ao conde pedido idntico para o seu amo.
      - Naturalmente, naturalmente - deu-se pressa em dizer o conde. - Tenho muito gosto, tenho muito gosto. Vassilitch, anda, diz que lhe arranjem lugar a numa das carroas... Olha... Ali... O que for necessrio acrescentou, vago, como sempre que dava uma ordem.
      O oficial desfez-se em agradecimentos to calorosos que o conde se sentiu compelido a dar ainda maiores provas de bom corao. Olhou em torno de si: no ptio, junto da porta de servio,  janela do pavilho, s havia feridos e impedidos. Todos o fitavam, aproximando-se do local onde ele estava.
      - Querer V. Ex, vir at  galeria? - disse o mordomo. - Que manda V. Ex.a quanto aos quadros?
      O conde retirou-se com o mordomo, voltando a insistir para que satisfizessem o pedido dos feridos que desejassem ser evacuados.
      - A verdade  que podemos dispensar algumas destas bagagens - acrescentou, em voz baixa e misteriosa, como se receasse ser ouvido de algum.
      A condessa acordou s nove horas, e Matrena Timofeievna, sua ex-criada de quarto, espcie de comissrio de polcia a ela agregada, veio dizer-lhe que Maria Karlovna estava muito aborrecida, pois no podia deixar ali abandonada a roupa das crianas. A condessa quis saber porque estava Madame Schoss aborrecida e disseram-lhe que a mala dela fora retirada de uma das carroas descarregada para se arranjar lugar para os feridos que o conde, apiedado, dera ordens de transportar. Mandou chamar o marido.
      - Que aconteceu, meu amigo, esto outra vez a descarregar as malas?
      -  que, minha querida, fazia teno precisamente de te prevenir... minha querida condessinha... Um oficial veio pedir-me que cedesse alguns carros para os feridos... Tudo isto, as nossas coisas, tudo pode ser substitudo, mas eles, coitados! Havemos de os deixar aqui?... E esto em nossa casa, fomos ns quem os convidou, a esses oficiais... Ento pensei, realmente, minha querida, que diabo!... Podamos lev-los... Temos assim tanta pressa?
      O conde tomara uma atitude muito tmida, como sempre que Linha de referir-se a interesses materiais. A condessa conhecia-lhe muito bem o tom que ele tomava quando se metia em empresas prejudiciais aos interesses dos filhos: a construo de uma galeria ou de uma estufa, a instalao l em casa de um teatro ou de uma orquestra, e entendia obrigao sua opor-se-lhe sempre que o conde se mostrava assim.
      Com uma expresso de vtima resignada, resolveu dizer: 
      - Sim, conde, colocaste-nos numa situao em que j nos no do nada pela casa e ainda queres perder todos os nossos bens, isto , os bens dos nossos filhos. s o primeiro a dizer que em nossa casa h para cima de cem mil rublos de moblia. Com o meu consentimento no, conde, eu no consinto, no consinto. Faz o que quiseres, mas a verdade  que o Governo  que deve tratar dos feridos. Eles bem sabem o que ho-de fazer. Olha, aqui mesmo defronte, os Lopukine, antes de ontem, j tinham a casa vazia. Se me no queres poupar a mim, ao menos poupa os teus filhos.
      O conde esboou um gesto evasivo, e, sem responder, saiu.
      - Paizinho, que foi? - perguntou Natacha, que entrara atrs dele nos aposentos da me.
      - Nada. No  coisa que te diga respeito! - exclamou o conde, desabrido.
      - Mas se eu ouvi tudo - replicou ela. - Porque no h-de a no consentir?
      - No s para aqui chamada! - vociferou o conde, Natacha aproximou-se da janela e a ficou pensativa.
      - Paizinho, vem ali o Berg! - exclamou, olhando atravs das vidraas.
      

      
      
      
      Captulo XVI
      
      Berg, o genro dos Rostov, j era coronel e condecorado com as Ordens de S. Vladimiro e de Santa Ana. Continuava a desempenhar as quietas e agradveis funes de ajudante-de-campo do comandante da primeira seco do estado-maior do segundo corpo de exrcito.
      Chegara a Moscovo no dia 1 de Setembro, procedente do seu quartel, Nada tinha que fazer em Moscovo, mas, ao notar que todos os seus camaradas pediam para seguir para a capital por esta ou por aquela razo, julgou-se obrigado a solicitar uma licena por motivos de ordem familiar.
      Chegara a casa do sogro no seu elegante drojkis tirado por uma parelha de magnficos cavalos iguais aos que vira atrelados  carruagem de um prncipe das suas relaes. Ao penetrar no ptio, olhou atentamente para os carros que a estavam e enquanto subia as escadas do alpendre puxou de um leno de assoar muito limpo, dando-lhe um n numa das pontas.
      Atravessou o vestbulo e precipitou-se para o salo, onde abraou o conde, beijou as mozinhas de Natacha e de Snia e logo ali pediu notcias sobre a sade da me.
      - Como queres que uma pessoa se sinta bem por uns tempos destes? - exclamou o conde. - E tu, conta qualquer coisa. Onde esto as tropas? Retrocedem ou vai haver alguma batalha?
      - S Deus sabe, pai - replicou Berg. - S Deus pode decidir do destino da nossa ptria. O exrcito est cheio de entusiasmo, mas os chefes, por agora, mantm-se reunidos em conselho. O que vai sair dali ningum sabe. Mas sempre lhe direi, pai, que no h palavras para descrever o herosmo, a valentia  moda antiga, dos nossos soldados no combate de 26... Dir-lhe-ei francamente, meu pai - disse Berg, que entretanto batia na arca do peito, como o general a quem ouvira discurso idntico, embora o seu gesto, retardado, no tivesse coincidido, como era mister, com as palavras nossos soldados. - Dir-lhe-ei com toda a franqueza: ns, os seus comandantes, no s no precismos de incitar os homens a marchar para a frente ou a anim-los de qualquer maneira como tnhamos at dificuldade em impedir esses... esses... Sim,  o que lhe digo, cometeram actos de bravura dignos da antiguidade - acrescentou, volvel. - O general Barclay de Tolly a cada passo jogava a vida  testa dos seus soldados, digo-lho eu. E o nosso corpo estava mesmo no alto do cabeo. Imagine!
      Neste ponto, Berg ps-se a contar o que se lembrava de ter ouvido nas histrias de guerra que ento circulavam. Natacha, sem apartar dele os olhos, parecia tentar descobrir-lhe no rosto resposta para uma pergunta que a si mesma fazia, e isso perturbava o narrador.
      - No pode imaginar-se o herosmo que mostraram os nossos soldados.  digno de todos os elogios! - prosseguiu, fixando os olhos em Natacha e tentando, com um sorriso, conquistar-lhe as boas graas. - A Rssia no est em Moscovo, est no corao dos seus filhos!, no  verdade, meu pai?
      Neste momento a condessa saiu do seu quarto: parecia cansada e descontente. Berg correu para ela, beijou-lhe a mo, perguntou-lhe como ia de sade e fazendo-a compreender, por um movimento de cabea, quanto se condoa do seu estado, permaneceu a seu lado.
      - Sim, me, no h dvida de que estes tempos que correm so realmente penosos e tristes para todos ns. Mas porque h-de inquietar-se assim? Tem tempo de partir...
      - No percebo o que esto a fazer os criados - disse a condessa, dirigindo-se ao marido. - Ainda agora me vieram dizer que nada est pronto.  preciso que algum lhes d ordens. Agora  que sinto a falta de Mitenka. Nunca mais sairemos daqui.
      O conde quis dizer qualquer coisa, mas deteve-se. Levantou-se e encaminhou-se para a porta.
      Berg puxou ento do leno, como se fosse assoar-se, e, ao ver o n numa das suas pontas, quedou-se pensativo, abanando tristemente a cabea.
      -  verdade, pai, tenho uma coisa muito importante a pedir-lhe - disse ele.
      - Hem! - exclamou o conde, detendo-se.
      - Passei h pouco pela casa de Iussupov - disse Berg, pondo-se a rir. - O intendente, meu conhecido, veio a mim e perguntou-me se eu no queria comprar qualquer coisa. Fui ver, como calcula, por mera curiosidade: tinha l uma cmoda com um toucador. Bem sabe quanto a Vera gostava de ter um mvel assim, vrias vezes falmos nesse assunto. - E no tom que punha nas suas palavras ao referir estas coisas denunciava a satisfao que sentia por dispor de uma bela casa. - Que maravilha!  cheia de gavetinhas e tem uma fechadura inglesa de segredo, sabe? H tanto tempo que a Verotchka sonha com uma cmoda assim! Queria fazer-lhe uma surpresa. Vi l em baixo no ptio muitos campnios. Permita que disponha de um deles, peo-lhe, pagar-lhe-ei decentemente e...
      O conde franziu a sobrecenho e tossicou nervoso. Pea  condessa, no sou eu quem d ordens.
      - Se  coisa muito difcil, ento no falamos mais nisso - acrescentou Berg. - Se o fiz, foi por lembrar-me da Vera.
      - O diabo que os leve, a todos, a todos!... - vociferou o conde. -  de uma pessoa perder a cabea.
      Saiu da sala com fragor enquanto a condessa se desfazia em pranto.
      -  verdade, me, os tempos esto duros! - comentou Berg. Natacha sara atrs do pai, mas, como se uma ideia sbita lhe tivesse ocorrido, desceu a escada correndo.
      Ptia estava no alpendre muito ocupado a distribuir armas pelos homens que deviam escoltar os carros. As viaturas, todas atreladas, continuavam estacionadas no ptio. Duas delas haviam sido descarregadas e sobre uma empoleirara-se um oficial com o seu impedido.
      - Sabes porque foi? - perguntou Ptia  irm.
      Esta percebeu que ele queria referir-se  discusso entre o pai e a me, mas no deu troco.
      - Pois fica sabendo que foi porque o pai queria pr todos os carros  disposio dos feridos - disse Ptia. - Foi o Vassilitch quem me contou. Por mim...
      - Por mim - desembuchou Natacha, subitamente, volvendo para o irmo a sua face indignada - por mim... acho to feio, to reles, to... Realmente, no sei que dizer... Acaso seremos ns uns alemes quaisquer?...
      Soluos embargaram-lhe a voz, e para que a ira que se apossara dela no fosse em pura perda, virou costas ao irmo e subiu escada a correr.
      Berg continuava ao lado da condessa e ia-lhe dirigindo respeitosas frases de consolao. O conde, de cachimbo na mo, passeava de um lado para o outro. Nesse momento Natacha, o rosto transtornado, agressiva, entrou na sala e correu para a me.
      -  uma vergonha, uma infmia! - gritou. - No posso crer que tenha dado semelhantes ordens.
      Berg e a condessa olhavam-na entre surpreendidos e assustados. O conde deteve-se junto de uma janela, atento ao que ia passar-se,
      - Mezinha, no  possvel, olhe para o ptio. - gritou ela. - Vo ficar ali!...
      - Que tens tu? Quem? Que queres?
      - Os feridos, quem havia de ser?  impossvel, mezinha, uma coisa dessas no tem classificao... Me, mezinha, perdoe-me se lhe falo nestes termos, minha querida mezinha... Ento, para que queremos ns todas essas coisas que levamos connosco? Olhe, se faz favor, para o que est a passar-se l em baixo... Mezinha!... Isto no pode ser!...
      O conde conservava-se junto da janela e ouvia a filha sem se voltar para dentro. De sbito, resfolgou e aproximou-se dos vidros.
      A condessa leu nos olhos da filha a reprovao que a conduta dela lhe inspirava, viu a excitao que a tomava, percebeu porque o marido desviava dela os olhos e uma expresso de absoluto desamparo se estampou no seu rosto.
      - Faam o que quiserem! Porventura os impeo? - murmurou ela, sem renunciar de todo  sua atitude.
      - Me, mezinha, perdoe-me!...
      A condessa afastou-a de si e aproximou-se do conde. - Meu amigo, d as tuas ordens como entenderes... Como podia eu saber? - articulou, baixando os olhos, como se se sentisse culpada.
      - So os pintos, so os pintos que do lies  galinha... - exclamou o conde, com as lgrimas nos olhos, recebendo a condessa nos braos, contente por poder assim esconder no peito do marido a confuso que lhe ia na alma.
      - Pai, me! Pode ento dar as ordens? No e verdade? - perguntava Natacha. - Assim mesmo podemos levar tudo de que ternos necessidade.
      O conde assentiu com um gesto de cabea e a filha, rpida como quando jogava s escondidas, precipitou-se no vestbulo e desandou escada abaixo.
      Os criados acercaram-se de Natacha, rodearam-na, e no acreditaram nas estranhas ordens que ela lhes dava enquanto as no viram confirmadas pelo conde em nome da condessa, Tratava-se de pr todos os carros  disposio dos feridos e de transportar os caixotes para a arrecadao. Assim que se certificaram das ordens dadas, com alegria e entusiasmo meteram mos  obra. J no lhes parecia estranha agora a resoluo dos anos afigurava-se-lhes naturalssimo que se recolhessem os feridos e se abandonassem as bagagens, quando  certo que um quarto de hora antes o contrrio  que lhes parecia razovel.
      Toda a gente da casa, como para compensar o tempo perdido, se consagrou a instalar os feridos nos respectivos carros. Estes, plidos, mas contentes, arrastaram-se para fora de casa e rodearam as viaturas. A boa nova no tardou a correr pelas casas prximas e o ptio dos Rostov encheu-se de feridos.
      Muitos deles pediram que os deixassem estar onde estavam as bagagens e instalaram-se em cima delas, Uma vez, porm, que se tinham principiado a descarregar os carros j se no podia voltar atrs. Alis, que fazia abandonar tudo ou s parte das coisas? O ptio estava juncado de caixotes cheios de louas, de bronzes, de quadros, tudo quanto fora cuidadosamente encaixotado na noite anterior, e ainda se arranjava maneira de descarregar mais coisas para deixar livres os carros,
      - Ainda se podem arranjar mais quatro. - disse o intendente - Cedo o meu carro. De outra maneira, como havemos de os instalar a todos?
      - Dem-lhes o carro onde vai o meu guarda-roupa. Dutilacha vir comigo no meu.
      Esta ordem foi executada, e mandaram a carruagem recolher feridos duas casas mais adiante. Uma jovial animao impelia toda a criadagem. Natacha h muito tempo que se no sentia to animada e feliz.
      - Como havemos de a amarrar? - diziam os criados que iavam uma mala para o acanhado estribo de uma das viaturas. - Deviam ao menos reservar um dos carros,
      - Que tem a mala l dentro? - perguntou Natacha. - Os livros CIO conde.
      - Deixem. O Vassilitch trata disso. No se preocupem.
      O carro no podia levar mais gente. Onde havia de sentar-se Piotre Ilitch?
      - Ir no banco do cocheiro. No  assim, Ptia? Irs ao lado do cocheiro - gritou-lhe Natacha.
      Tambm Snia agia como podia, mas ao contrrio do que fazia Natacha. Ordenava cuidadosamente as coisas que ficavam, inventariando-as, como queria a condessa, procurando levar o que fosse possvel.
      

      
      
      
      Captulo XVII
      
      As duas horas da tarde, as quatro carruagens dos Rostov, carregadas e atreladas, estavam diante da porta principal. Os carros com os feridos tinham sado uns atrs dos outros, abandonando o ptio. A sege que transportava o prncipe Andr, ao passar diante do alpendre, chamara a ateno de Snia, ocupada ento, com o auxlio de uma criada, a arranjar um bom lugar para a condessa na sua alta e grande carruagem parada diante da porta.
      - De quem  aquela sege? - perguntou ela, metendo a cabea pela portinhola.
      - No sabe, menina? - disse a criada. -  do prncipe fendo que passou aqui a noite e vai partir ao mesmo tempo que ns.
      - Quem ? Como se chama?
      -  o noivo antigo, o prncipe Boliconski - replicou a criada tristemente. - Parece que est perdido.
      Snia saltou do estribo do carro e correu em busca da condessa.
      Esta, j em trajo de jornada, com o xale pelos ombros e o chapu na cabea, andava de um lado para o outro do salo, cansada, aguardando que todos sassem para se sentar um instante, com as portas fechadas, como era seu costume, fazendo as suas oraes antes da abalada. Natacha no estava presente.
      - Mezinha! - exclamou Snia. - O prncipe Andr est aqui, ferido, e  morte. Vai partir connosco.
      A condessa olhou para ela de olhos arregalados e pegando-lhe por um brao:
      - Porventura Natacha...? - articulou ela.
      Tanto a ela como a Snia aquela notcia principiara por despertar-lhes um nico pensamento. Ambas conheciam muitssimo bem Natacha e horrorizava-as a ideia do efeito que nela produziria uma tal nova, o que as levava a esquecer a simpatia que o prncipe lhes despertava.
      - Natacha nada sabe por ora, mas o prncipe vai connosco. - voltou Snia.
      - Disseste que est a morrer?
      Snia abanou a cabea afirmativamente, A condessa apertou-a contra si, soluando,
      Os caminhos de Deus so insondveis!, disse para si mesma. E pensou que em tudo que estava a acontecer havia a mo da Providncia, oculta at a.
      - Bem, mezinha, est tudo pronto. Que tem? - perguntou Natacha, que, muito animada, acabava de entrar na sala. - Nada - replicou a condessa. - Se tudo est pronto, vamo-nos embora.
      E, para esconder a perturbao que a tomava, ps-se a remexer na maleta. Snia estreitou Natacha nos seus braos e beijou-a na face.
      Esta fitou-a surpreendida. 
      - Que tens tu? Que aconteceu?
      - Nada... nada...
      - Alguma m notcia para mim? Que foi? - inquiriu Natacha, tomada de um pressentimento.
      Snia despediu um suspiro sem responder. O conde, Madame Schoss, Mavra Kuzminitchna, Vassilitch, entraram no salo. De- pois de fecharem as portas, sentaram-se, e assim ficaram por algum tempo sem dizerem palavra e sem olharem uns para os outros.
      O primeiro a levantar-se depois foi o conde, e, suspirando fundo, persignou-se diante dos cones. Todos os demais o imitaram. Em seguida beijou Mavra Kuzminitchna e Vassilitch, que ficavam em Moscovo, e enquanto eles lhe pegavam na mo e o beijavam no ombro, o conde batia-lhes nas costas, pronunciando algumas palavras carinhosas e consoladoras. A condessa recolheu-se ao seu oratrio e ajoelhou diante das imagens ainda nas paredes, pois as mais preciosas, recordaes de famlia, haviam sido retiradas para seguir tambm.
      No alpendre e no ptio, os criados que acompanhavam os amos, armados de sabres e punhais que Ptia lhes distribura, as calas metidas nos canos das botas, o torso bem cingido em correias e cintures, despediam-se dos que ficavam.
      Como sempre acontece  hora da partida, muitas coisas tinham esquecido, outras estavam mal arrumadas nos carros. Eis porque os dois lacaios estacionaram, por muito tempo, dos dois lados das portinholas abertas e dos estribos da carruagem, prontos a ajudar a condessa a subir, enquanto as criadas andavam de um lado para o outro com as almofadas e os embrulhos, correndo da casa para a berlinda, e da sege para a britchka.
      - Sempre se ho-de esquecer de alguma coisa! - exclamava a ama. - Mas bem sabem que eu me no posso sentar assim.
      Sem responder de dentes cerrados e uma expresso de censura. Duniacha precipitou-se para a carruagem a fim de ajeitar as almofadas.
      - Oh, que gente! - murmurava o conde, abanando a cabea.
      O velho cocheiro Efim, o nico em que a condessa confiava, sentado, l no alto da boleia, pouco parecia preocupar-se com o que se passava atrs. Graas  experincia que adquirira em mais de trinta anos de servio, estava certo de que no seria to cedo que lhe diriam Vamos!  e que depois de o dizerem ainda o mandariam parar mais duas ou trs vezes, para buscar coisas esquecidas, e que em seguida o fariam parar ainda uma vez e que a condessa meteria a cabea pela portinhola para lhe pedir, em nome de Deus, que descesse as ladeiras devagar. Tudo isto ele o sabia, e, muito mais pacientemente que os seus prprios cavalos, sobretudo o da esquerda, o alazo Sokol, que relinchava e remordia o freio, aguardava os acontecimentos. Finalmente, toda a gente se instalou: recolheram-se os estribos, as portinholas fecharam-se, mandaram ainda procurar um cofrezinho esquecido, e a condessa, metendo a cabea pela portinhola, pronunciou as palavras sacramentais. Ento Efim, lentamente, desbarretou-se e fez o sinal da cruz. O postilho e os criados imitaram-no. Que Deus nos proteja!, exclamou Efim, cobrindo-se. O postilho fez rodar a carruagem. O cavalo de lana da direita fez fora sobre o arns, as molas rangeram e a caixa da sege estremeceu. O lacaio saltou para o assento depois do carro em marcha. Aos solavancos, este entrou na rua empedrada, as outras carruagens, por sua vez, agitaram-se tambm e todos se puseram em marcha. Um por um, todos os viajantes, ao passarem diante da igreja que ficava defronte da casa, se persignaram. Os criados que ficavam na cidade acompanhavam a p, de cada lado, os carros que partiam.
      Poucas vezes Natacha estivera to alegre como no momento em que, sentada diante da me, via desfilar, lentamente, o casario da cidade de Moscovo, inquieta e abandonada. De quando em quando metia a cabea pela portinhola e contemplava o grande comboio de feridos que os seguia.  frente de todos l vinha a capota da sege do prncipe Andr. Ignorava quem ali ia, e no entanto, do lugar em que se encontrava, era sempre essa capota que procurava com a vista, pois precedia todas as outras carruagens.
      Em Kudine desembocaram das Ruas Nikitskaia, de Priesni e de Podriovinski vrios comboios do mesmo gnero, e ao passarem por Sodovaia todos os carros formaram duas filas.
      Diante da Torre Sukariev, Natacha, entretida a observar a multido e as carruagens, exclamou, de sbito, com jovial surpresa:
      - Santo nome de Deus! Me, Snia, olhem.  ele!
      - Quem? Quem?
      - Olhem! O Bezukov. - E debruou-se da portinhola, apontando para um homenzarro, envergando um cafet de cocheiro, evidentemente, como podia depreender-se do seu porte e do seu andar, um senhor disfarado. Acompanhado por um velhinho de rosto amarelento e imberbe, de capote de l, caminhava direito ao arco da Torre.
      - Garanto-lhes que  o Bclzukov, de cafet, e vai com um velho. Podem ter a certeza, olhem, olhem!
      - No pode ser. No  ele. Como podes dizer semelhante tolice?
      - Mezinha, corto o pescoo:  ele. Garanto-lhe. Pra! Para! - gritou para o cocheiro,
      O cocheiro, porm, no podia parar, pois da Rua Miechtchanskaia desembocavam mais comboios e mais carros e os cocheiros gritavam aos Rostov que no embaraassem a circulao.
      Efectivamente, embora j longe, todos os Rostov reconheceram Pedro, ou, pelo menos, um homem que com ele se parecia extraordinariamente, caminhando, de cabea baixa e expresso grave, com um cafet de cocheiro, ao lado de um velhinho imberbe, com aspecto de lacaio. O velho, notando a cabea que se debruava da portinhola, tocou respeitosa m ente no cotovelo do companheiro e disse-lhe qualquer coisa, apontando para a carruagem. De to mergulhado que ia nos seus pensamentos, Pedro tardou em compreender o que o velho lhe dizia. Tendo, por fim, compreendido, ergueu os olhos, reconheceu Natacha e, num primeiro impulso, correu para o carro. Alguns passos andados, contudo, parou indeciso.
      A cabea de Natacha, toda debruada da portinhola, resplandecia de irnica doura.
      - Piotre Kirilitch, venha da! No v que j o conhecemos? Que engraado que ! Que anda a fazer? Para que se disfarou?
      Pedro apertou a mo que se lhe estendia, e sempre a andar, pois o carro continuava a rodar, beijou-a desajeitadamente.
      - Que anda a fazer, conde? - perguntou a condessa, numa voz repassada de espanto e compaixo.
      - Eu? Mas nada, nada. No me faa perguntas - replicou ele, sentindo que o olhar alegre e luminoso de Natacha o atraa com o seu encanto.
      - Que anda a fazer? Fica em Moscovo?
      Pedro manteve-se calado.
      - Em Moscovo? - perguntou ele.
      - Sim, em Moscovo. Adeus! Oh! O que eu daria para ser um homem! Ficaria consigo. Oh! Seria magnfico! - exclamou Natacha. - Mezinha, se d licena, eu tambm ficarei.
      Pedro olhou para ela distraidamente e quis dizer qualquer coisa, mas a condessa interrompeu-o.
      - Esteve na batalha, no  verdade? Foi o que nos disseram.
      - Estive - respondeu ele. - Amanh haver outra batalha...
      Natacha interrompeu-o.
      - Mas que tem, conde? No  o mesmo...
      - Oh! No me faa perguntas. Nada lhe posso dizer. Amanh... Mas no. Adeus, adeus! Que tempos terrveis! - acrescentou.
      E, afastando-se da carruagem, dirigiu-se para o passeio.
      Por muito tempo ainda Natacha se conservou  portinhola, seguindo-o com o seu sorriso alegre e afectuoso em que havia fosse o que fosse de irnico.
      

      
      
      
      Captulo XVIII
      
      Desde que desaparecera de sua casa, dois dias antes, Pedro vivia no andar abandonado do falecido Bazdeiev. Eis o que se passara:
      Quando acordou, no dia seguinte ao do seu regresso a Moscovo e da sua entrevista com Rostoptchine, levou tempo a compreender onde se encontrava e o que queriam dele. Depois, ao dizerem-lhe que entre as pessoas que o aguardavam na antecmara estava o francs que lhe entregara a carta da mulher, tornou-o, de sbito, um desses acessos de desnimo e aturdimento a que era atreito. Consigo mesmo disse que tudo estava acabado, que s havia confuso e runas, que ningum tinha culpa nem ningum tinha razo, que nada esperava do futuro e que a sua vida era um beco sem sada. Rindo com um riso artificial e articulando palavras sem nexo, ora se deixava cair, inanimado, num div, ora se levantava, se aproximava da porta e espreitava para a antecmara pelo buraco da fechadura, ora ainda, com um gesto desesperado, voltava a sentar-se, tentando ler. O mordomo veio dizer-lhe, pela segunda vez, que o tal senhor insistia em falar-lhe, por pouco tempo que fosse, e acrescentou que algum viera pedir-lhe que aceitasse uns livros pertencentes  viva Bazdeiev, a qual tambm deixara a cidade.
      - Sim, vou j, espera... ou melhor... Diz-lhes que vou Imediatamente - respondera ele.
      Assim que o mordomo sara, Pedro agarrara no chapu e desaparecera por uma porta detrs. No havia ningum no corredor. Seguiu ao longo desse corredor at  escada e, uma vez a, absorto e apertando a cabea entre as mos, desceu at ao primeiro patamar. O porteiro estava junto da porta principal. No patamar onde Pedro se detivera havia outra escada que conduzia  porta de servio. Por a passou e desceu para o ptio. Ningum o vira. Na rua, porm, ao transpor o porto, os cocheiros que a estacionavam e o prprio porteiro, vendo-o, descobriram-se. Ao sentir que os olhos deles o seguiam, Pedro fez como e, avestruz, que esconde a cabea debaixo da asa para passar despercebido. Baixando os olhos, acelerou o passo.
      A coisa que se lhe afigurara mais urgente naquela manh era recolher os livros e os papis de Osip Alexeievitch Bazdeiev. Tomou o primeiro carro que se lhe deparou e mandou bater para os Tanques Patriartchi, onde residia a viva Bazdeiev.
      Ia observando a grande fileira de carros que saam da cidade enquanto se firmava o melhor que podia na velha carruagem desconchavada que ameaava atir-lo  rua.
      Sentia a alegria de uma criana que faz gazeta  escola e todo o caminho tagarelou com o cocheiro.
      Este contou-lhe que no Kremlin estavam a distribuir armas pelo povo e que no dia seguinte toda aquela gente se concentraria na barreira de Tri Geri, onde iria travar-se uma grande batalha. Quando chegou aos Tanques Patriartchi, pediu que lhe indicassem a casa de Bazdeiev, onde h muito no vinha. Aproximou-se da cancela. Guerassime, aquele velhinho imberbe e amarelento que ele vira em Torjok, h cinco anos, na companhia do falecido amo, acorreu a receb-lo.
      - A senhora est? - perguntou Pedro.
      - Saiba Vossa Excelncia que a senhora e os meninos foram para as suas terras de Torjok. - Informou ele.
      - Mesmo assim entro. Tenho de seleccionar os livros. - volveu Pedro.
      - Bem-vindo seja. O irmo do falecido, que Deus tenha em descanso. Makar Alexeievitch, est a. Mas, como sabe,  tontinho - tornou o velho criado.
      Makar Alexeievitch, como Pedro sabia, era meio doido e passava a vida a beber.
      - Sim, sim, bem sei. Vamos... vamos... - disse Pedro, entrando.
      No vestbulo, de p, com os ps, sem meias, metidos nuns chinelos, estava um corpulento velho, calvo, embrulhado num roupo. Quando viu Pedro, murmurou algumas palavras, furibundo, e saiu para o corredor.
      - Era inteligentssimo, mas agora, como v, est tontinho - disse Guerassime. - Quer entrar para o escritrio?
      Pedro assentiu com um aceno de cabea.
- Tem estado sempre fechado. Sofia Danilovna deu ordens, caso algum viesse da sua parte, para entregarmos os livros.
Pedro penetrou no escritrio escuro onde nunca entrara em vida do Benfeitor sem um estremecimento.
      Agora, coberto de p e intacto desde que morrera Osip Alexeievitch, ainda parecia mais triste.
      Guerassime, depois de abrir as portadas das janelas, desapareceu em bicos de ps. Pedro, assim que percorreu a dependncia, aproximou-se do armrio onde estavam os manuscritos e pegou num deles, um dos mais preciosos para a histria da Ordem. Eram as actas originais das lojas escocesas, anotadas e explicadas pelo Benfeitor. Sentou-se diante da mesa de trabalho coberta de p e, colocando o manuscrito diante de si, folheou-o, voltou a fech-lo, e, por fim, esquecido dele, quedou-se, mergulhado nos seus pensamentos, de cabea entre as mos. Por vrias vezes Guerassime, relanceando um olhar discreto ao escritrio, viu Pedro na mesma postura. Passadas mais de duas horas, permitiu-se remexer qualquer coisa junto da porta para chamar a ateno de Bezukov: este, porm, no deu por coisa alguma. - Quer que mande embora o cocheiro?
      - Ah! Sim - replicou Pedro, voltando a si e levantando-se precipitadamente. - Ouve - prosseguiu, detendo Guerassime por um boto da blusa enquanto o mirava dos ps  cabea com os seus olhos brilhantes, hmidos e cheios de entusiasmo. - Ouve, sabes que amanh vai haver uma batalha?
      -  o que dizem - volveu Guerassime.
      - Peo-te que a ningum digas quem eu sou. E agora faz o que eu te disser...
      - s suas ordens, Quer comer alguma coisa?
      - No,  de outra coisa que preciso. Quero que me arranjes um fato de campons e uma pistola - disse Pedro, corando.
      - s suas ordens - replicou Guerassime aps um momento de reflexo.
      Pedro levou o resto daquele dia no escritrio do Benfeitor, passeando, nervosamente, de um lado para o outro, como Guerassime o pde ver, e falando sozinho.  noite dormiu numa cama ali mesmo armada.
      Guerassime, que na sua longa vida de criado vira muita coisa estranha, aceitou sem relutncia que Pedro se instalasse em casa dos seus amos e sentiu-se mesmo contente por ter tido ocasio de lhe prestar um servio. Nessa noite, sem perguntar sequer para que isso lhe serviria, arranjou um cafet e um bon para Pedro, prometendo-lhe para o dia seguinte a pistola pedida. Makar Alexeievitch, por duas vezes, durante o dia, a arrastar os chinelos, veio postar-se  porta, olhando para Bezukov com um olhar carinhoso. De uma das vezes, tendo-se Pedro voltado para, ele, o idiota embrulhou-se no roupo, com ar tmido e enfadado, e afastou-se pressuroso. Foi ento que Bezukov, vestido com o trajo de cocheiro que Guerassime conseguira para ele, na companhia deste, e quando ia tentar arranjar uma pistola na Torre Sukariev, se cruzou na rua com os Rostov.
      

      
      
      
      Captulo XIX
      
      Na noite do dia 1 de Setembro, Kutuzov deu ordem s tropas russas para retirarem sobre Moscovo pela estrada de Riazan, As primeiras tropas puseram-se a caminho durante a noite. Nessa marcha nocturna ningum se apressava, todos caminhavam lenta e ordenadamente; quando raiou, porm, a madrugada, ao chegarem  ponte de Dorogomilov, os soldados viram diante de si, do outro lado, massas de homens armados que se atropelavam para passar a ponte, acumulando-se na outra margem, bloqueando ruas e quelhas, comprimidos por outros que vinham atrs deles. Nas colunas de tropas deu-se ento uma grande desordem. Toda a gente se precipitou para a ponte, para os vaus e para as barcas. O prprio Kutuzov ordenou que os transportassem para a outra margem por caminhos desviados.
      As dez horas da manh do dia 2 de Setembro havia apenas tropas de retaguarda nos arrabaldes de Dorogomilov. O grosso do exrcito atravessara o Moskva e estava j muito para alm de Moscovo.
       mesma hora encontrava-se Napoleo, no meio das suas tropas, no monte Poklonaia e contemplava o espectculo que se lhe oferecia aos olhos. Entre 26 de Agosto e 1 de Setembro, da batalha de Borodino  entrada do inimigo em Moscovo, durante aquela semana memorvel e inquieta, fizera um tempo extraordinrio, motivo de surpresa em pleno Outono. O Sol, j muito baixo no horizonte, era mais ardente que na Primavera; pela atmosfera, levssima e pura, irradiava uma luz que deslumbrava os olhos; o peito dos homens dilatava-se feliz por aspirar os capitosos aromas outonais; as prprias noites, escuras e mornas, eram suaves, e durante elas caa do cu como que uma chuva de estrelas de ouro que, espalhando alegria, ao mesmo tempo assustava as pessoas.
      No dia 2 de Setembro, s dez horas da manh, o tempo estava assim.
      A luz matinal irradiava um brilho ferico. Do alto do monte Poklonaia via-se em baixo Moscovo, com o seu rio, os seus jardins, as suas igrejas. Dir-se-ia que a cidade tinha vida prpria, com as suas cpulas cintilando, sob os raios do Sol, como se fossem estrelas.
      Ante a arquitectura extraordinria daquela capital.- Napoleo sentiu essa curiosidade inquieta e cobiosa que costuma despertar o contacto com uma existncia de que nada sabemos e que nos  completamente estranha. Via-se bem que aquela cidade tinha vida prpria e intensa. Graas a esses sinais indefinveis que nos permitem distinguir a distncia um ser vivo de um cadver, Napoleo, do alto do monte Poklonaia, apercebia o palpitar da vida daquela capital como se sentisse a respirao desse grande e magnfico corpo.
      Ao contemplar Moscovo, todos os russos sentem que ela  como que uma me para eles. O estrangeiro, embora desprovido deste sentimento filial, no pode deixar de se sentir impressionado pelo carcter feminino da cidade. Eis a impresso que Napoleo sentia tambm.
      - Esta cidade asitica das mil igrejas, Moscovo, a Santa. Aqui est ela, finalmente, a famosa cidade. J era tempo! - exclamou ele, e, apeando-se do cavalo, mandou abrir diante de si a planta da cidade e chamou o intrprete, Lelorgne dIdeville. Uma cidade ocupada pelo inimigo faz lembrar uma virgem que Perdeu a virgindade, pensava, repetindo para si prprio o que dissera em Smolensk a Tutchkov. E animado por estes sentimentos contemplava, estendida a seus ps, a beleza oriental que via pela primeira vez. Ele prprio achava extraordinrio que, se realizasse enfim aquele sonho que havia tanto acarinhava e que se lhe afigurara irrealizvel. Aquela clara luz matinal, ora fixava os olhos na cidade ora no mapa que tinha diante, confirmando pormenores, e a certeza daquela posse ao mesmo tempo que o perturbava causava-lhe medo,
      Teria porventura podido ser de outra maneira?, interrogava-se a si prprio. Ei-la aqui, a grande capital, ei-la a meus ps, aguardando o destino. Onde estar agora Alexandre? E que pensar ele? Cidade estranha, soberba, magnfica! Que momento raro e solene! Sob que aspecto me vero eles?, prosseguia pensando nos seus soldados. Aqui a tm, a recompensa que dou a esses homens de pouca f. E percorria com os olhos a comitiva e as tropas que marchavam em perfeita ordem! Basta uma palavra minha, um s gesto da minha mo, e esta antiga capital dos czares converter-se- num monte de runas. Mas a minha clemncia est sempre pronta a descer at aos vencidos. Devo ser magnnimo e verdadeiramente grande... No! Ser possvel que eu esteja em Moscovo?, interrogava-se, de sbito. Mas a verdade  que ela aqui est, deitada a meus ps, com as suas cpulas douradas e as suas cruzes cintilando  luz do Sol. Saberei poup-la. Na fachada destes antigos monumentos, smbolo da barbaria e do despotismo, mandarei escrever grandiosas palavras inspiradoras de justia e misericrdia - Tenho a certeza de que Alexandre o h-de apreciar acima de todas as coisas... Afigurava-se-lhe que tudo aquilo era resultado da rivalidade pessoal entre ele e Alexandre. Do alto do Kremlin - sim, aquilo  o Kremlin- ditar-lhes-ei leis justas, mostrar-lhes-ei a verdadeira civilizao; as futuras geraes dos boiardos ho-de pronunciar amorosamente o nome do seu conquistador. Direi  delegao que me enviarem que no quis e no quero a guerra, que a que me v forado a fazer visava a poltica mentirosa da sua corte, que amo e respeito Alexandre e que estou pronto a aceitar em Moscovo uma paz digna de mim e dos meus povos. No quero aproveitar-me de uma guerra vergonhosa para humilhar o soberano a quem venero. Boiardos!, dir-lhes-ei, no quero a guerra, quero a paz e o bem-estar de todos os meus sbditos. Alis, tenho a certeza de que a presena dessa gente me h-de inspirar e que lhes hei-de falar como sempre falo, com clareza, com solenidade e com grandeza. Mas ser possvel que eu esteja em Moscovo? Estou, Moscovo, ei-la ali.
      - Tragam-me os boiardos! - exclamou, voltando-se para a comitiva.
      Um general, seguido de um squito brilhante, partiu imediatamente a galope em busca dos boiardos.
      Duas horas decorreram. Napoleo almoou e voltou para o mesmo local do monte Poklonaia a aguardar a delegao. O discurso que lhe dirigiria desenhava-se-lhe j claro na imaginao. Era um modelo de dignidade e grandeza de acordo com a concepo napolenica.
      A magnanimidade desse discurso, que ele esperava agisse poderosamente sobre Moscovo, enchia-o de entusiasmo. Assentava j na data em que reconvocaria a reunio no palcio dos czares, reunio essa em que as altas personalidades russas deveriam encontrar-se com as da sua corte. E nomearia previamente um governador capaz de conquistar para ele, Bonaparte, a simpatia da populao. Sabendo que Moscovo dispunha de grande nmero de instituies de caridade, estava decidido a cumul-las de benesses. Assim como, em frica, pensava, devemos envergar um albornoz para entrar numa mesquita, em Moscovo convm sermos generosos para com os czares. E para definitivamente conquistar o corao dos Russos, como todo o bom francs, incapaz de conceber seja o que for de sentimental sem falar da minha querida, da minha terna, da minha pobre me, ei-lo que decide que na fachada de todas as instituies mandaria inscrever em grandes letras: - Estabelecimento dedicado  minha querida me. Ou, no, antes, simplesmente: Casa de minha me. Mas estarei eu, realmente, em Moscovo?, repetia de si para consigo, mentalmente. Sim, ei-la aqui diante de mim. Ento porque leva a delegao tanto tempo a aparecer?
      Entretanto, nas ltimas fileiras da sua comitiva, generais e marechais discutiam a meia voz. Os que haviam sido enviados pela delegao tinham voltado e informavam que a cidade estava deserta, todos os seus habitantes a tinham abandonado. A palidez e a consternao estamparam-se em todos os rostos. No era propriamente a notcia que os atemorizava, embora fosse de vulto, mas a maneira de a comunicarem ao imperador sem colocar Sua Majestade numa situao ridcula, para os Franceses a mais grave de todas, fazendo-lhe saber que debalde aguardaria os boiardos e que em Moscovo apenas se viam bandos de bbedos. Havia quem fosse de parecer que apesar de tudo devia arranjar-se uma delegao; outros, pelo contrrio, sustentavam ser preciso, com todo o cuidado, e prudncia, preparar o imperador e dizer-lhe a verdade.
      -  preciso dizer-lho, seja como for... - diziam. - Mas, meus senhores...
      A situao era tanto mais penosa quanto era certo o imperador, todo entregue aos seus sonhos de generosidade, andar de um lado para outro, pacientemente, diante do mapa da cidade, olhando de tempos a tempos para a estrada de Moscovo e sorrindo triunfante.
      - Mas  impossvel... - diziam os membros da comitiva, encolhendo os ombros, sem se decidirem a pronunciar a palavra terrvel - ridculo - Que cada um tinha nos lbios.
      Entretanto o imperador, cansado de esperar, e sentindo, graas ao seu instinto de actor, que o instante sublime tardava de mais, perdendo, portanto, a sua grandeza, acenou com a mo. Um tiro de pea deu o sinal e as tropas que cercavam a cidade por todos os lados marcharam em direco a Tverskaia, atravs da Calada de Kaluga, e romperam pela barreira de Dorogomilov. Em passo cada vez mais acelerado, adiantando-se uns aos outros, soldados de infantaria e cavalaria avanavam, levantando grandes nuvens de poeira e atroando os ares com os seus gritos ensurdecedores.
      Arrebatado pelo entusiasmo dos seus soldados, Napoleo chegou ao mesmo tempo do que eles  barreira de Dorogomilov. Uma vez a, parou, apeando-se do cavalo, e por muito tempo a ficou a passear junto da esplanada de Kamer-Koleskovo, sempre espera da delegao.
      

      
      
      
      Captulo XX
      
      Moscovo estava deserta, Embora l se encontrassem alguns habitantes, a quinta parte, pouco mais ou menos, da sua populao habitual, nem por isso estava menos deserta. Na colmeia o que falta a rainha, no h vida, embora a um olhar superficial continue to animada como antes.
      Sob os ardentes raios de sol do meio-dia, as abelhas dessa colmeia zumbem em torno dela como em torno das demais. Tambm a se sente o cheiro a mel, e as abelhas entram e saem. Um pouco de ateno, porm, e compreender-se- que nessa colmeia j no h vida. As abelhas no lhe zumbem em redor como em redor das colmeias vivas, e no tm nem o mesmo cheiro nem o mesmo zumbido. Quando se bate na parede de uma colmeia doente, em vez da resposta instantnea e unnime de dezenas de milhares de insectos que alam, ameaadores, o ferro, agitando no ar as asas rpidas, apenas se ouvem zumbidos isolados em certos pontos da colmeia quase vazia. A entrada j se no aspira, como antes, o perfume alcoolizado e forte do mel e do veneno cios seus habitantes; j no sai l de dentro o calor de um lugar habitado. Ao perfume adocicado de outros tempos junta-se agora um cheiro a podrido e abandono. J no h guardas prontas a dar sinal de alarme e a morrer em defesa da colmeia. J se no ouve esse som regular e tranquilo. ndice de um trabalho activo, que faz lembrar o cacho da gua a ferver, mas zumbidos irregulares e dispersos, indcio de desordem. Entram e saem da colmeia, tmidas e astuciosas, salteadoras negras, de corpo alongado e coberto de mel. Desprovidas de ferro, fogem quando as perseguem. Antigamente as obreiras chegavam com o seu quinho e partiam sem nada; agora, pelo contrrio, cada uma leva a sua parte. O apicultor abre a parte inferior da colmeia e examina o que se passa a. Em vez das abelhas negras e gordas, entregues ao seu trabalho, pendendo em cacho at  parte inferior, fincadas umas nas outras pelas patas, e segregando cera num zumbido ininterrupto, abelhas sonolentas erram de um lado para o outro no fundo e nas paredes da colmeia. Em lugar de um pavimento bem fornido de cera vermelha e cuidadosamente varrido pelas asas dos habitantes, juncam o cho migalhas de cera, excrementos e abelhas semimortas, que agitam as patas molemente, ou esto mortas de todo.
      O apicultor abre agora a parte superior da colmeia e examina c, que l vai dentro. Em vez dos intervalos das prateleiras bem calafetados, para que os insectos estejam aconchegados, v um trabalho artstico, complicado e hbil, mas j no no seu estado virgem de outrora. Tudo est sujo e deserto. As abelhas salteadoras introduzem-se, rpidas e subtis, pelo meio das obreiras: estas, secas, encolhidas, murchas, como se fossem velhas, deslocam-se lentamente, sem impedir a pilhagem das salteadoras, sem nada quererem, sem gosto pela vida. Zngos, larvas, borboletas, batem de encontro s paredes da colmeia. Aqui e ali, entre os tabuleiros com abelhas mortas e mel, ouve-se, de quando em quando, um zumbido irritado. Algures, duas abelhas, impelidas Pelo instinto e o antigo hbito, limpam o interior da colmeia e arrastam para o exterior, num esforo que excede o seu poder, cadveres de abelhas mortas ou de zangos, sem se darem conta do que esto a fazer. Noutro canto, duas velhas abelhas lutam Preguiosamente ou lavam-se ou nutrem-se uma  outra, sem conscincia de ser hostil ou amistosa a sua atitude. Noutro ponto ainda um grupo de abelhas, esmagando-se mutuamente, ataca uma vtima qualquer, e sufoca-a. E a vtima, impotente ou morta, cai lentamente, leve como uma pena, sobre o monte de cadveres. O apicultor retira dois tabuleiros do meio para ver o ninho. No centro de milhares de abelhas que formam um crculo negro e apertado, costas com costas, ali colocadas para vigiar os altos mistrios da ecloso, v agora apenas alguns centos de abelhas esquelticas, tristssimas, quase mortas e entorpecidas. Pela maior parte, esto efectivamente semimortas e Ignoram, na sentinela que fazem quele santurio, que j no existe o que elas tinham de guardar. Despedem um fedor a podrido e a morte. Apenas algumas remexem ainda, esvoaam e preguiosamente vm pousar na mo do inimigo, j sem foras para perder a vida picando-o. As outras, mortas, caem no fundo, leves, como escamas de peixe. O apicultor fecha a colmeia, marca-a a giz e na altura precisa quebra-a para queim-la.
      Assim era Moscovo, enquanto Napoleo, inquieto, fatigado, carrancudo, andava de um lado para o outro na esplanada de Karner-Koleskovo, aguardando a chegada da delegao: cerimnia puramente convencional, mas que ele considerava indispensvel.
      Nos diversos bairros de Moscovo apenas restavam algumas pessoas movendo-se sem saberem o que faziam, por simples hbito.
      Acabaram, com as precaues devidas, por comunicar a Napoleo que Moscovo estava vazia. O imperador fitou, colrico, aquele que lhe deu a notcia e continuou a andar de c para l em silncio.
      - A minha carruagem! - ordenou por fim.
      E subindo para o carro, na companhia do ajudante-de-campo de servio, dirigiu-se para os arrabaldes da cidade. Moscovo deserta! Que acontecimento inverosmil!, dizia de si para consigo.
      No chegou a entrar na cidade e deteve-se numa estalagem dos arrabaldes, em Dorogomilov.
      O golpe de teatro falhara.
      

      
      
      
      Captulo XXI
      
      As tropas russas tinham desfilado em Moscovo das duas horas da madrugada s duas horas da tarde, levando consigo os ltimos habitantes e os ltimos feridos.
      Durante o desfile das tropas a maior confuso se verificou nas pontes de Pedro, do Moskva e do Iauza.
      Enquanto as tropas se cindiam em duas partes para contornarem o Kremlin pelas pontes do Moskva e de Pedro, numerosos soldados, aproveitando a paragem e a precipitao, voltaram para trs. Passando sub-repticiamente pela porta Borovitski e pela Igreja do Bem- Aventurado Baslio, dirigiram-se  Praa Vermelha, onde pressentiam que lhes seria possvel apoderarem-se facilmente dos bens alheios. Uma, multido que fazia lembrar a de um dia de feira encheu todas as entradas e ruelas de Gostinii Dvor. No se ouviam, porm, as vozes melfluas e falsamente acolhedoras dos feirantes e bufarinheiros. No se via a turbamulta garrida dos habituais compradores. Por toda a parte eram fardas e capotes de soldados sem armas que entravam nas lojas de mos vazias e delas saam a abarrotar. Alguns comerciantes, poucos, com os seus empregados, atarefavam-se pelo meio dos militares, abrindo e fechando as lojas, tentando levar os seus artigos para stio seguro. Na Praa de Gostinii Dvor rufavam tambores. Mas o som dos tambores j no reunia os militares, como antigamente. Pelo contrrio, dispersava-os ainda mais. A mistura com os soldados viam-se nas lojas e ruelas homens de cafet sujo e de cabea rapada (Os malfeitores que tinham sido postos em liberdade. (N, dos T.). Dois oficiais, um montado num cavalicoque cinzento-escuro, uma faixa a tiracolo sobre a farda, e, outro, de capote e a p, estacionavam, conversando,  esquina da Rua Ilinka, quando outro se acercou deles.
      - O general ordena que se corra imediatamente daqui com as praas custe o que custar. Isto no tem classificao! Metade dos homens debandou.
      - Aonde vais tu? Aonde vo vocs?... - gritou a trs soldados de infantaria, que, sem armas, as abas dos capotes levantadas, se introduziam numa loja ali mesmo. - Agarrem-nos! Canalha!
      - Trate l de os reunir! - comentou um dos oficiais. - No h maneira de os juntar.  preciso irmo-nos daqui, quanto mais depressa melhor para que os que ainda restam no desapaream tambm. No h outra coisa a fazer!
      - E como havemos de avanar? Fizeram alto l adiante, a ponte est atulhada e no h maneira de se sair daqui. O melhor era cerrar fileiras para impedir a fuga dos que ainda nos restam,
      - Pois trate disso! Corra com eles daqui! - gritou o comandante.
      O oficial da faixa desmontou do cavalo, chamou um tambor e, dirigiu-se com ele para as arcadas. Alguns grupos de soldados debandaram. Um comerciante, com as bochechas cobertas de borbulhas em volta do nariz, aproximou-se do oficial num passo rpido e um tanto amaneirado, gesticulando muito. Na sua expresso havia uma resoluo serena e inabalvel.
      - Excelncia  disse - faa-nos a merc de nos conceder a sua proteco. No regateamos ninharias. Ser para nos um grande prazer que queira escolher qualquer coisa. Aqui tem um bom pano. Mesmo duas peas, para um cavalheiro como o senhor, no faz mal. Ns compreendemos. Mas que vem a ser isto?  um saque. Peo-lhe, mande a guarda para aqui; ao menos que possamos fechar as lojas...
      Vrios comerciantes se acercaram do oficial.
      - Ora, deixem-se de palavreado intil! - disse um deles, magro, de expresso severa. - Quando nos cortam a cabea, no vale a pena chorar a perda dos cabelos. Pois que levem o que quiserem. E fez com a mo um gesto enrgico, meio voltado para o lado do oficial.
      - Sim, sim, Ivan Sidoritch, para ti , o mesmo - replicou o primeiro. - Queira vir por aqui, Excelncia!
      - Que dizes? Eu sei o que digo - exclamou o magricela. - Aqui, nas minhas trs lojas, tenho para cima de cem mil rublos de mercadoria. Quem vai guardar isto depois de as tropas partirem? A gente bem os conhece. Contra a vontade de Deus nada pode o brao do homem.
      - Por favor. Excelncia. - repetia o primeiro comerciante, todo mesuras.
      O oficial continuava indeciso e a sua atitude traa irresoluo.
      - E que tenho eu com isso? - exclamou, de sbito, dirigindo-se a passos rpidos para as arcadas.
      Numa das lojas cuja porta estava aberta ouviam-se socos e invectivas e, na altura em que o oficial se aproximava, saa l de dentro, correndo, um homem de armiak (Trapo prprio dos cocheiros russos. (N, dos T.) sujo e cabea rapada.
      Encolhendo-se, esgueirou-se por entre o oficial e os lojistas. Aquele lanou-se sobre os soldados que estavam dentro da loja. Nesse momento, contudo, ressoaram espantosos clamores da imensa multido aglomerada na ponte do Moskva, e o oficial correu para a praa.
      - Que se passa? Que foi? - perguntou, mas o seu camarada j se precipitara para onde vinham os gritos, metendo ao longo da Igreja do Bem- Aventurado Baslio.
      O oficial montou a cavalo e seguiu-o. Ao chegar  ponte, viu duas peas retiradas das carretas, a infantaria em marcha, carroas voltadas, rostos esgazeados e soldados rindo a bandeiras despregadas. Junto das peas de artilharia estava uma carroa tirada por dois cavalos. Atrs das rodas da carroa, amarrados uns contra os outros, havia quatro galgos. Na carroa amontoavam-se muitos objectos e l no alto, junto a uma cadeirinha de criana, de ps para o ar, sentava-se uma mulher, que soltava gritos agudos e desesperados. O oficial soube pelos seus camaradas que os gritos eram devidos ao facto de o general Ermolov, ao ter conhecimento de que os soldados se tinham dispersado pelas lojas e que os habitantes se acumulavam junto  ponte, mandar retirar as peas das carretas e gritar que ia mandar fazer fogo, para exemplo.
      Ento a multido derrubara as carroas e empurrando-se esmagando-se, em grandes gritos, acabara por desimpedir a ponte, podendo as tropas prosseguir na sua marcha.
      

      
      
      
      Captulo XXII
      
      No centro da cidade, porm, tudo estava deserto. Nas ruas no havia quase vivalma. As portas dos prdios e das lojas estavam fechadas. Aqui e ali, em volta das tabernas, ouviam-se gritos isolados ou cantorias de bbedos. Ningum circulava de carruagem, raramente de ouviram os passos de um peo. Na Rua Povarskaia, vazia, o sossego era completo. No imponente ptio do palcio dos Rostov, alm de restos de palha e excrementos de cavalo, no se via mais nada nem ningum. De resto, l dentro, em casa, onde ficara todo o mobilirio, havia apenas duas pessoas, que estavam instaladas no salo nobre: o porteiro Ignate e o cossaco Michka, neto de Vassilitch, que ficara em Moscovo com o av. Michka abrira o cravo e tocava s com um dedo.
      O porteiro, de mos  cinta e sorriso nos lbios, mirava-se a um grande espelho.
      - No  verdade que toco muito bem? Hem! Tio Ignate! - exclamou o rapaz, pondo-se, de sbito, a bater com as duas mos em cima das teclas.
      - No h dvida! - replicou Ignate, maravilhado com a imagem que o espelho lhe reflectia, cada vez mais risonha. 
      - No tem vergonha! Sim, no tem vergonha nenhuma! - disse, por detrs deles, Mavra Kuzminitchna, penetrando na sala - sem fazer rudo. - Olhem como ele arreganha os dentes! No servem para mais nada. Tudo est ainda por arranjar, e o Vassilitch no pode mais. Eu te direi!
      Depois de ajeitar o cinturo, Ignate, que deixara de sorrir, baixou os olhos e saiu da sala.
      - Tiazinha, s mais um bocadinho - suplicou o pequeno. - Deixa estar que eu te dou mais um bocadinho, maroto! - exclamou Mavra Kuzminitchna, erguendo para ele a mo. - Trata de arranjar depressa o samovar para o teu av.
      Mavra Kuzminitchna espanejou os mveis, fechou o cravo e, despedindo um fundo suspiro, saiu do salo, fechando a porta  chave.
      Quando chegou ao ptio, ps-se a pensar no que deveria fazer: iria ao pavilho tomar ch com Vissilitch, ou arranjaria na despensa o que ainda no estava em ordem?
      Passos apressados ressoaram no silncio da rua detendo-se em frente da cancela do porto e o ferrolho rangeu impelido por uma mo que fazia fora para abri-lo.
      Mavra Kuzminitcha dirigiu-se para a porta.
      - Que deseja?
      - O conde, o conde Ilia Andreitch Rostov.
      - E o senhor quem ?
      - Sou oficial. Precisava de falar com ele - replicou o desconhecido com o agradvel timbre de voz de um senhor russo. Mavra Kuzminitchna abriu a porta. Um oficial dos seus dezoito anos, de rosto redondo, tipo dos Rostov, penetrou no ptio.
      - Paizinho, os senhores foram-se embora. Dignaram-se partir ontem  noite. - explicou Mavra Kuzminitchna, amavelmente.
      O jovem continuava  porta, indeciso, sem saber se devia ou no entrar. Deu um estalo com a lngua.
      - Oh, que aborrecimento! - exclamou. - Devia, ter vindo ontem... Que pena!
      Entretanto a velha governanta examinava, com simpatia, atentamente, a fisionomia do desconhecido, em que havia muitos traos dos Rostov, o seu capote esfarrapado e as botas velhas que calava.
      Que queria do conde? - inquiriu ela.
      - Agora... nada h a fazer! - volveu o oficial, desconsolado, e deu um passo para a porta.
      Mas deteve-se ainda indeciso.
      -  que... - explicou ele, de sbito. - Eu sou parente do conde e ele sempre foi muito bom para mim. E, como v, o meu vesturio - acrescentou, mirando o capote e as botas, enquanto sorria cordialmente - est um tudo-nada usado e estou sem cinco ris. Queria por isso pedir ao conde...
      Mavra Kuzminitchna no o deixou concluir.
      - Querer esperar um instante, Paizinho, s um instante? - disse ela.
      E enquanto o oficial soltava a mo do ferrolho, Mavra Kuzminitchna, com o seu passinho pressuroso de velha, encaminhou-se para o pavilho.
      Entretanto, o oficial ps-se a passear no ptio, de cabea baixa e remirando as botas rotas. Que maada no encontrar o meu tio. Mas que simptica velha! Que teria ido fazer? Era bom que me dissesse que ruas devo eu seguir para apanhar o meu regimento, a esta hora l para os lados da Rogojskaia. Mavra Kuzminitchna surgiu da a pouco no cunhal da casa, preocupada, mas decidida, trazendo na mo um tabaqueiro atado nas pontas. Depois de alguns passos em direco ao desconhecido, desfez o n do leno, retirou de dentro uma nota de vinte rublos e precipitadamente meteu-a na mo do oficial.
      - Se Sua Excelncia estivesse em casa.  claro que o receberia como seu parente, mas assim...
      Mavra Kuzminitchna parecia envergonhada e confusa; o oficial, porm, sem se fazer rogado, lentamente, pegou na nota e agradeceu a ddiva.
      - Se o conde estivesse em casa... - prosseguiu a velha, desculpando-se. - Que Jesus Cristo o acompanhe, paizinho. Que Deus e, proteja - acrescentou seguindo o oficial e fazendo-lhe uma reverncia.
      O oficial dir-se-ia rindo para si mesmo e, abanando a cabea, ps-se a andar em passo acelerado, ao encontro do seu regimento, ao longo das ruas desertas, direito  ponte do Iauza. Mavra Kuzminitchna, os olhos cheios de lgrimas, por muito tempo ali ficou plantada atrs da porta fechada, pensativa, abanando a cabea: o oficialzinho desconhecido despertara nela uma sbita onda de ternura e piedade maternal.
      

      
      
      
      Captulo XXIII
      
      Numa casa por acabar da Rua Varvarka, com uma taberna no rs-do-cho, ouviam-se gritos e canes de bbedos. Numa diviso suja, sentados em redor de uma mesa, havia dez operrios, Bbedos, cobertos de suor, os olhos nublados, cantavam, abrindo muito a boca. Cada um entoava para seu lado, fazendo grandes esforos, sem entusiasmo, no, claro, porque isso lhes desse prazer, mas apenas para mostrarem que estavam bbedos e que se divertiam. S um deles, um rapago louro, alto, de cafet azul, estava de p. Podia dizer-se que tinha uma bela cara, de nariz direito e fino, se no fossem os seus lbios cerrados, que remexiam sem cessar, e os olhos imveis, turvos e sombrios. Dominava, pela estatura, todos os demais cantores e como que para dirigir o coro ia agitando por cima das cabeas, num movimento solene e desajeitado, um brao branco, nu at ao cotovelo, cujos dedos da mo separava de maneira pouco natural. A manga do casaco estava constantemente a descair-lhe para cima do brao, e ele, com a outra mo, voltava a arrega-la cuidadosamente, como se fosse da maior importncia conservar desnudo o brao branco e musculoso que estava sempre a agitar. No meio daquela cantoria ouviu-se l para o vestbulo e alpendre a algazarra de uma altercao. O rapaz alto fez calar os cantores com um gesto da mo.
      - Basta! - gritou, numa voz de comando. - H pancada, rapazes!
      E ei-lo que, de mangas arregaadas, se precipita no alpendre. Os demais operrios seguiram-lhe os passos. Aqueles bbedos tinham trazido ao taberneiro nessa manh, para lhe pagar o vinho que beberam, couros da fbrica em que trabalhavam. Os serralheiros da vizinhana, supondo a taberna assaltada, queriam entrar  fora no estabelecimento. Eis porque no alpendre se chegara a vias de facto.
      O dono da taberna debatia-se com um deles, o qual, no momento em que os operrios apareceram, tendo-se-lhe escapado das mos, fora cair estatelado no passeio.
      Um seu companheiro atirou-se ao dono da taberna. O rapaz alto, das mangas arregaadas, deu um soco no serralheiro, vociferando como um selvagem.
      - Rapazes! Esto a matar os nossos companheiros!
      Entretanto, o primeiro serralheiro, que se erguera do cho, ao passar a mo pela cara ensanguentada, principiou a gritar, numa voz lastimosa:
      - da guarda! Mataram-me... Irmos, mataram um homem! Irmos!
      - Pai do Cu! Mataram um homem, mataram um homem! - esganiou-se uma mulher que surgiu de uma porta vizinha.
      A multido aglomerava-se em torno do serralheiro ensanguentado.
      - No te basta roubares o povo at lhe arrancares a ultima camisa - vociferou algum dirigindo-se ao taberneiro. - Agora ainda rios queres matar? Bandido!
      O rapago, no alto da escada do alpendre, olhos nublados, ora fitava o taberneiro ora os serralheiros, perguntando a si mesmo com qual deles iria bater-se.
      - Assassino! - de sbito, dirigindo-se ao taberneiro. - Amarrem-no, rapazes!
      - O qu? A mim, amarrarem-me a mim? - exclamou este, libertando-se dos agressores, e, tirando o bon, arremessou-o ao cho.
      Dir-se-ia que este gesto encerrava uma misteriosa ameaa. Os operrios, que caam sobre ele, detiveram-se, indecisos.
      - Irmo, eu conheo muito bem as leis e sou pela ordem. Vou queixar-me  polcia, Hem! Julgas que no vou? A ningum  permitido, no dia de hoje, assaltar a casa alheia, percebe? - acrescentou, apanhando o bon do cho.
      - Pois vamos a isso! Que julgas tu? Vamos a isso! - repetiram por sua vez o serralheiro e o rapaz alto, chefe dos operrios. E ambos se meteram a caminho do posto da polcia.
      O serralheiro, com a cara coberta de sangue, seguia atrs deles. Operrios e mirones acompanhavam-nos falando e gritando. A esquina da Rua Morosseika, diante de uma grande casa com tabuleta de sapateiro e as portadas das janelas todas fechadas, estavam uns vinte homens, de rosto triste, magros, de aspecto exausto, de camises e cafets esfarrapados.
      - Que pague o que nos deve! - dizia um deles, mestre sapateiro, esqulido, de barba rala e sobrancelhas espessas. Sugou-nos o sangue e agora que nos amolemos! Foi-nos entretendo, entretendo, toda a semana, e agora, que no podemos mais, desandou.
      Ao ver o grupo que se aproximava calou-se e todos os seus companheiros se deram pressa em juntar-se as que, cheios de curiosidade, se aproximavam.
      - Aonde vo vocs?
      -  bem de ver, a polcia!
      - Olha l,  verdade que os nossos no levaram a melhor? 
      - Que ests tu para a a dizer? Abre os ouvidos ao que se diz.
      Sucediam-se perguntas e respostas O taberneiro, aproveitando a confuso, esgueirou-se de novo para o estabelecimento.
      O rapaz alto, sem, dar sequer pelo desaparecimento do inimigo, sempre de mangas arregaadas e grandes gestos, no se calava um s instante, atraindo a ateno de toda a gente.  volta dele  que as pessoas de preferncia se comprimiam, esperando v-lo tranquiliz-los a todos.
      - E ele a dar-lhe com a ordem, com a lei, mas isso no  com a gente,  com as autoridades! No acham que tenho razo, povo ortodoxo? - declamava a gosto. - Julgar ele que as autoridades tambm se foram embora? Ento como havamos ns de passar sem autoridades? Era uma ladroeira pegada.
      - Tudo isso so tolices! - respondeu algum do meio da turba. - Julgas que vo abandonar Moscovo? Meteram-te essa no bestunto e acreditaste. Soldados  o que h mais para a. No os deixaro entrar! Para isso a esto as autoridades. Ouve o que este est a dizer - aconselhava, apontando para o rapaz alto, que perorava.
      Perto de Kitai-Gorod, outro pequeno grupo rodeava um homem de capote de l, com um papel na mo.
      - Est a ler um ucasse! Esto a ler um ucasse - gritaram vozes, e toda a gente acorreu a ouvir o pregoeiro.
      O homem de capote de l lia a proclamao de 31 de Agosto. Ao ver-se rodeado por tanta gente pareceu perturbado, mas, a instncias do operrio que se havia aproximado dele, retomou a leitura com um ligeiro tremor na voz.
      Amanh de madrugada irei encontrar-me com o prncipe Serenssimo. Serenssimo!, repetiu o folgazo, com solenidade, sorrindo, de sobrancelhas carregadas...
      Para discutir com ele, agir e ajudar as nossas tropas a aniquilar esses bandidos. Havemos de os fazer passar um mau bocado... O pregoeiro calou-se.
      Assim mesmo!, gritou o rapazola triunfante. Isso  que vai ser uma lio...
      E acabaremos com a raa desses intrusos. Voltarei  hora de jantar e ento mos  obra: entraremos em aco, acabaremos o que est principiado e no mais se ouvir falar nesses bandidos.
      O pregoeiro leu estas ltimas palavras no meio de um profundo silncio. O rapaz alto deixou descair a cabea, acabrunhado. Evidentemente o remate da proclamao a ningum agradava. Sobretudo as palavras Voltarei  hora de jantar  que embaraavam tanto o pregoeiro como os ouvintes.
      A excitao do povo atingira tal calor que semelhante banalidade naquele momento no podia deixar de parecer prosaica e inadmissvel. Toda a gente se teria sabido exprimir assim e um ucasse emanado das mais altas autoridades tinha obrigao de ser concebido noutros termos.
      Toda a gente permanecia silenciosa, de cabea baixa. O rapaz alto andava de um lado para o outro como que falando sozinho.
      Era preciso perguntar-lhe a ele?... Olhem, a est ele!... Claro, vamos perguntar-lhe!... Que julgam? Sim, ele explicar-nos-..., disseram, de sbito, vrias vozes l das ltimas filas do pblico, e todas as atenes se volveram para a carruagem do chefe da polcia, o qual acabava de chegar  praa acompanhado de dois drages a cavalo.
      O chefe da polcia, por ordem do conde, fora lanar fogo s embarcaes, e com isso ganhar uma boa maquia, que trazia consigo nas algibeiras. Ao ver aquela gente caminhar para ele gritou ao cocheiro que parasse.
      - Que vem a ser isto? - inquiriu dos homens que um por um, timidamente, se aproximavam da carruagem.
      - Que vem a ser isto? Que gente  esta? - repetiu, ao ver que lhe no respondiam.
      - Excelncia... - disse o homem do capote de l. - Excelncia, de acordo com os desejos de Sua Excelncia o Conde, estes homens querem cumprir o seu dever sem poupar as suas vidas e no se trata de uma revolta, como se disse da parte de Sua Excelncia...
      - O conde no se foi embora, ainda a est. Recebereis as suas instrues - disse o chefe da polcia. - Vamos embora! acrescentou, para o cocheiro.
      A multido juntara-se em volta dos que tinham ouvido a palavra do representante do Poder e via a carruagem afastar-se.
      O chefe da polcia voltou-se assustado para onde a multido acorria e disse qualquer coisa ao cocheiro. Os cavalos partiram  desfilada.
      Esto a comer-nos as papas na cabea, rapazes! Vamos a casa do conde! No o deixaremos escapar, rapaziada! Tem de nos prestar contas. Alto! Alto!, gritaram vrias vozes, e a multido precipitou-se, correndo, atrs da carruagem que se afastava.
      Na peugada do chefe da polcia, o povo, em grande alarido, dirigiu-se para a Rua Lubianka.
      Os fidalgos e os comerciantes puseram-se a andar e ns, ns que arrebentemos para aqui! Seremos ces, porventura?, gritava a multido.
      

      
      
      
      Captulo XXIV
      
      No dia 1 de Setembro, pela noite, depois da sua entrevista com Kutuzov, o conde Rostoptchine regressou a Moscovo magoado e triste; no o tinham ouvido na reunio do conselho de guerra.
      Kutuzov no prestara a mais pequena ateno  sua proposta no sentido de se defender a capital. Surpreendera-o muito a nova teoria adoptada pelo estado-maior segundo a qual o sossego da cidade e os sentimentos patriticos dos seus habitantes eram no s coisas secundrias, mas desprezveis e sem qualquer alcance. Depois da ceia estendeu-se, vestido como estava, em cima de um canap.  uma hora da madrugada foi acordado por um correio que lhe trazia uma carta de Kutuzov. Pedia-lhe este, visto as tropas baterem em retirada pela estrada de Riazan, para alm de Moscovo, que enviasse polcias proteger a sua passagem atravs da cidade. No era novidade para Rostoptchine. Pressentira aquilo mesmo muito antes da sua entrevista da vspera com o general-chefe, no monte Polclonaia, no dia seguinte ao da batalha de Borodino, visto ter ouvido os generais chegados a Moscovo declararem unanimemente ser impossvel travar uma batalha, e todos os dias, com o seu consentimento, sarem de Moscovo, com destino a lugar seguro, os bens da coroa e metade dos habitantes da capital j terem abalado. Mesmo assim, aquela ordem de Kutuzov, expedida como uma simples nota e recebida durante a noite, quando ele dormia o seu primeiro sono, surpreendeu-o e irritou-o extraordinariamente.
      Mais tarde, quando quis explicar o que fizera naquele momento, repetiu, vrias vezes, nas suas Memrias, que tivera ento como objectivo principal manter a tranquilidade em Moscovo e evacuar os habitantes! Se fizermos f nas suas palavras, tudo quanto fez foi irrepreensvel. Porque no tinham levado, ento, da cidade os tesouros moscovitas, as armas, os cartuchos, a plvora, as reservas de trigo? Porque foram enganados milhares de habitantes com a afirmao de que a cidade no capitularia, o que fez que ficassem arruinados? Para que a tranquilidade fosse mantida, explica Restoptchine. Mas porque se evacuaram, ento, montes e montes de papis inteis das reparties? Porqu o balo de Leppich e tantas outras coisas? Para que a cidade ficasse vazia, replica ele ainda. Basta a tranquilidade pblica estar ameaada para tudo se justificar. Tambm as chacinas do Terror s tiveram em vista a tranquilidade pblica.
      Em que se baseava ento o conde Rostoptchine para temer que a tranquilidade pblica, em 1812, viesse a ser perturbada em Moscovo?
      Nem em Moscovo nem em qualquer outra parte da Rssia, aquando da chegada do inimigo, se passou fosse o que fosse parecido com uma rebelio. A 1 e 2 de Setembro ainda havia na capital mais de dez mil pessoas e alm do ajuntamento no ptio da residncia do governador, por ele prprio provocado, nenhum outro incidente ocorreu. Evidentemente que ainda se teria receado menos qualquer efervescncia popular se depois de Borodino, quando o abandono de Moscovo se tornou coisa certa ou pelo menos verosmil, em vez de se haver exaltado o povo com a distribuio de armas ou a afixao de proclamaes, Rostoptchine houvesse tomado as medidas necessrias para retirar as coisas preciosas, a plvora, as munies e o dinheiro, e houvesse declarado francamente ao povo que a cidade ia ser abandonada.
      Rostoptchine, homem impulsivo e sanguneo, como vivera sempre nas altas esferas administrativas, apesar de todo o seu patriotismo, no fazia a mnima ideia de como era o povo que julgava governar. Depois da entrada dos Franceses em Smolensk, imaginara desempenhar o papel de guia do sentimento nacional no corao da Rssia. Julgava ele, como todo o bom administrador, ser obrigao sua no s presidir  vida material dos habitantes de Moscovo, mas tambm guiar-lhes a disposio moral atravs de proclamaes e de editais redigidos nesse estilo corriqueiro de que a massa popular, no seu prprio meio, no faz o mais pequeno caso, e que deixa de compreender sempre que o ouve na boca de personagens das classes elevadas. Este lindo papel de guia da moral popular agradava-lhe tanto, to bem se lhe adaptara, que a necessidade de abandonar Moscovo sem realizar qualquer acto herico o havia apanhado desprevenido. De sbito notou que o terreno que pisava lhe resvalava debaixo dos Ps. E decididamente no soube que fazer. Embora o pressentisse, recusou-se sinceramente at ao ltimo minuto a acreditar no abandono da capital e nada fez na previso de semelhante eventualidade. Se os habitantes se retiraram, foi contra a sua vontade. Se mandara transferir as reparties pblicas,  que tinham sido os funcionrios a pedir-lho, e s com relutncia dera autorizao para tal. Por si nunca pensara noutra coisa seno em desempenhar o papel que a si prprio atribura. Como  frequente nas pessoas de imaginao viva, de h muito sabia que Moscovo seria abandonada, mas s a razo lho dizia; no fundo do corao no acreditava. A imaginao no o acompanhava nesse novo domnio dos factos.
      Todos os seus esforos, realmente eficazes e enrgicos - e no se cura aqui de saber at que ponto foi til e qual a influncia que exerceu no povo -, apenas serviram para excitar nos habitantes sentimentos que ele prprio experimentava: o dio patritico contra os Franceses e a confiana em si mesmo.
      Mas quando os acontecimentos ganharam propores histricas, quando se tornou insuficiente exprimir apenas por palavras o dio contra o inimigo, quando no foi possvel proclam-lo mesmo no campo de batalha, quando a autoconfiana se tornou inoperante para salvar Moscovo, quando toda a populao, como um s homem, abandonando o que era seu, correu em torrentes para fora da cidade, mostrando, com este acto negativo, o prestgio do sentimento nacional, o papel que Rostoptchine escolhera perdeu subitamente todo o sentido. Viu-se, de chofre, fraco e ridculo, sem terra firme debaixo dos ps.
      Ao receber a nota fria e autoritria de Kutuzov sentiu-se tanto mais irritado quanto era certo reconhecer-se culpado. O que lhe fora confiado, os bens do tesouro, que ele devia ter retirado, ficava em Moscovo. E agora era impossvel levar dali fosse o que fosse.
      Quem tem a culpa disto?, dizia ele de si para consigo. Eu no, com certeza. Tinha tudo preparado, mantive Moscovo, e no  pouco. E aqui est onde eles nos levaram! Miserveis! Trai- dores! No lhe teria sido fcil determinar que eram esses traidores, esses miserveis, mas sentia-se impelido, por necessidade, a odiar esses traidores que o haviam colocado na situao falsa ridcula em que se encontrava.
      Durante toda a noite emitiu ordens que junto dele vinham receber de todos os pontos de Moscovo. Os da sua roda nunca o tinham visto to taciturno e furioso.
      Excelncia, vieram receber ordens da parte do director do Patrimnio... da parte do Consistrio, do Senado, da Universidade, do asilo das crianas abandonadas. O ecnomo mandou saber... Pede... Que ordens se devem transmitir  corporao dos bombeiros? Esto a da parte do director da cadeia... Da parte do director do manicmio... No lhe largaram a porta durante toda a santa noite.
      A todos dava respostas rpidas e graves, dizendo que as suas ordens doravante eram inteis, que a obra que preparara com todo o cuidado fora malograda por terceiros, responsveis dos acontecimentos que sobreviessem.
      - Diz a esse imbecil - respondeu ao pedido da Repartio do Patrimnio - que fique de sentinela aos seus documentos. E, tu, que tolice me ests tu a pedir a propsito dos bombeiros? Se tm cavalos, vo para Vladimir. No os vo deixar aos Franceses.
      - Excelncia, est ali o director do manicmio. Que devo dizer-lhe?
      - Que deves dizer-lhe? Que se vo todos, nada mais simples... E, quanto aos doidos, que os solte na cidade. J que quem comanda o exrcito  doido, ficaro no seu devido lugar.
      Quando lhe perguntaram qual o destino a dar aos presos da cadeia, gritou, furioso, para o director:
      - Que quer que eu faa? Que lhe d dois batalhes, que no temos, para os escoltar? Solte-os,  bem de ver!
      - Excelncia, h presos polticos: Miechkov, Verechtchaguine.
      - Verechtchaguine! Ainda o no enforcaram?! - exclamou. - Tragam-no.
      

      
      
      
      Captulo XXV
      
      Depois das nove da manh, hora em que as tropas principiaram a atravessar Moscovo, ningum mais veio pedir instrues ao conde. Todos que tinham tido oportunidade de retirar haviam abalado espontaneamente; os que tinham ficado, esses, s a si prprios haviam pedido conselho.
      Rostoptchine mandara atrelar a sua carruagem para ir para Sokolniki, e ali estava, no seu gabinete sombrio, amarelento e calado, os braos cruzados.
      Em tempo de paz, todo o governante julga sempre que dele depende toda a populao confiada ao seu cuidado e, supondo-se indispensvel, v nisso a principal recompensa dos seus trabalhos e dos seus esforos. Enquanto o mar da histria est sereno.  lgico que o governante-piloto que na sua ligeira embarcao manobra o leme do navio de grande calado que  o Estado julgue ser ele quem o faz mover. Mas assim que se levanta uma tempestade, logo que o mar se encapela e o navio  levado pela corrente, ento a iluso acaba. O navio prossegue na sua rota, independente e majestoso, e o leme do piloto j para nada serve. Esse homem, momentos antes todo-poderoso, centro de todas as energias, no passa ento de um ser fraco, intil e nulo.
      Eis do que Rostoptchine se dava conta e era isso que o exasperava.
      O chefe da polcia, aquele mesmo que fora detido pela turba, apresentou-se ao conde, acompanhado do ajudante-de-campo que vinha anunciar estarem prontos os cavalos. Ambos tinliam perdido a cor, e o chefe da polcia, ao dar contas da sua misso, anunciou que uma turba imensa invadira o ptio do palcio e queria ver o governador.
      Rostoptchine, sem proferir palavra, levantou-se e, em passos rpidos, dirigiu-se para a varanda, deitando a mo ao fecho da janela. Depois desistiu de a abrir e aproximou-se de outra janela donde se via melhor o ajuntamento. Na primeira fila l estava o operrio alto, que continuava a perorar, muito grave, gesticulando. A seu lado via-se o serralheiro, taciturno, de cara ensanguentada. Pelas janelas abertas penetrava o rumor das vozes.
      - Est pronta a carruagem? - perguntou Rostoptchine, afastando-se da janela.
      - Saiba, Vossa Excelncia que sim - disse o ajudante-de-campo. E Rostoptchine aproximou-se outra vez da janela.
      - Que querem eles? - inquiriu do chefe da polcia. - Excelncia, dizem que esto na disposio de marchar contra os Franceses, de acordo com as ordens de Vossa Excelncia. Dizem que foram atraioados. So uns desordeiros, Excelncia. Custou ver-me livre deles. Excelncia, tomo a liberdade de lhe propor...
      - Pode, retirar-se, sei muito bem o que tenho a fazer - exclamou Rostoptchine, furioso.
      Ps-se por detrs das portas da varanda a observar a multido, Eis aqui o que fizeram da Rssia! Aqui est como me tratam, dizia de si para consigo, sentindo que lhe subia, do fundo da alma uma ira incontida contra aqueles a quem devia saber a responsabilidade de tudo que estava a acontecer. Como costuma suceder muitas vezes com os homens impulsivos, o conde no podia dominar a clera que o tomava, embora procurasse ainda sobre quem lan-la. L est ela, a populaa, a ral, a plebe, que eles sublevaram pela sua estupidez. Precisam de uma vtima, pensava ele, olhando para o operrio que fazia, grandes gestos. E ao mesmo tempo ocorreu-lhe que tambm ele prec-av2 de uma vtima, fosse quem fosse, sobre quem descarregar aquela ira.
      - Est pronta a minha carruagem? - repetiu.
      - Saiba Vossa Excelncia que sim. Que ordena a respeito de Verechtchaguine? Est ali no alpendre  espera - disse o ajudante-de-campo.
      - Ah! - exclamou Rostoptchine, como se tivesse uma ideia sbita. E, abrindo bruscamente a janela, caminhou resoluto varanda fora. O burburinho cessou repentinamente, as cabeas descobriram-se e, todos os olhos se dirigiram para o conde.
      - Bons dias, rapazes! - disse, rpido, e em voz alta. - Obrigado por terdes vindo. Vou j ao vosso encontro, mas antes temos de regular as nossas contas com um malfeitor. Temos de castigar o bandido que foi o culpado da perda de Moscovo. Esperem!
      O conde entrou rapidamente nos seus aposentos, batendo com janela.
      Um murmrio de satisfao percorreu a turba. Vais ver como ele d conta de todos esses bandidos. E tu a dizeres que eram uns franceses... Vai met-los todos na ordem!, dizia aquela gente, como se se acusassem uns aos outros de falta de f.
      Alguns minutos depois um oficial apareceu, bruscamente,  porta, principal, deu uma ordem qualquer, e os drages puseram-se em marcha. A multido acorreu, vida, para o lado do alpendre. Nesse momento chegava Rostoptchine, em passo rpido, e, iracundo, ps-se a olhar  sua roda, como se procurasse algum.
      - Onde est ele? - interrogou.
      Enquanto pronunciava estas palavras, viu surgir, do cunhal do edifcio, entre dois drages, um homem novo, de pescoo comprido e fino, a cabea, meio tosqueada, os cabelos hirsutos. Vestia uma velha pelia de raposa, por certo elegante outrora, mas agora forrada de pano azul, e umas calas de penitencirio, sujas, de linho, metidas nos canos de umas botas finas, por engraxar, e todas esbeiadas. Das pernas delgadas e dbeis pendiam pesadas correntes, que lhe embaraavam o andar titubeante.
      - Ah! - exclamou Rostoptchine, afastando o olhar do rapaz e pousando a vista no ltimo degrau da escada do alpendre. - Tragam-no aqui!
      O preso, arrastando as correntes, foi colocar-se, pesadamente, no local designado, metendo o dedo na gola da pelia, que o estava a afogar. Em seguida, depois de retorcer duas ou trs vezes o longo pescoo, despedindo um suspiro, cruzou sobre o peito, resignadamente, umas mos finas que nada tinham das de um operrio.
      Enquanto esta curta cena se desenrolava, o silncio era absoluto, excepto rias ltimas filas da turba, que se comprimia para -, aproximar, e a ouviam-se tosses, lamentos, arrastar de ps e encontres.
      Rostoptchine, que aguardava que o homem fosse posto em evidncia, passou a mo pela cara.
      - Rapazes! - disse, numa voz metlica. - Este homem, Verechtchaguine,  o miservel culpado da perda de Moscovo.
      O moo conservava-se na sua humilde atitude, de mos cruzadas e o busto ligeiramente inclinado. A cara, desfigurada pela cabea rapada, os traos arrepanhados de desespero, pendia-lhe para o cho.
      Ao ouvir as primeiras palavras do conde endireitou-se, lentamente, e ergueu os olhos para ele, como se quisesse dizer qualquer coisa ou pelo menos encontrar o seu olhar. Mas Rostoptchine no olhava para ele. Ento, no longo e delicado pescoo do acusado, uma veia dilatou-se como se fosse uma corda, fez-se-lhe muito azul ao p da orelha e de repente toda a cara se lhe afogueou. Todos os olhares estavam fitos nele. Olhou para a multido e, como que encorajado pela expresso que surpreendeu em todos os rostos, sorriu, triste e timidamente, e, baixando de novo a cabea, procurou equilibrar-se melhor no degrau do alpendre,
      - Atraioou o seu czar e a Ptria, vendeu-se a Bonaparte, de todos ns foi o nico que desonrou o nome russo e  por causa dele que Moscovo est perdida - disse Rostoptchine, numa voz brusca e uniforme. E, de sbito, baixou os olhos para a vtima, que continuava na sua humilde postura. Como se aquela presena o fizesse perder a cabea, levantou o brao e gritou quase, voltando-se para a multido:
      - Entrego-o nas vossas mos. Justia seja feita!
      O povo continuava calado, comprimindo-se cada vez mais. No meio daquela massa compacta o ar, viciado, tornava-se irrespirvel. Era impossvel fazer qualquer movimento e toda a gente se sentia opressa pela expectativa de um acontecimento desconhecido, incompreensvel e terrvel, Os que estavam nas primeiras filas, que viam e ouviam tudo, permaneciam imveis, de olhos esbugalhados e a boca abe-ta, aguentando, com todas as suas foras, a presso que vinha da retaguarda.
      - Matem-no!... Que morra esse traidor e no desonre mais o nome russo! - gritou Rostoptchine. - Acutilem-no! Sou eu quem manda.
      A multido, sem apreender o sentido das palavras, mas arrastada pelo tom colrico do governador, soltou como que um gemido, avanou um pouco e voltou a recuar.
      - Conde... - articulou Verechtchaguine, aproveitando aquela breve acalmia, numa voz tmida, mas ao mesmo tempo teatral. Conde, s Deus  juiz... - Ergueu a cabea ao pronunciar estas palavras, e a grossa veia, visvel no seu delicado pescoo, injectou-se-lhe de sangue. O rosto coloriu-se-lhe de repente para no mesmo momento perder a cor.
      No pde concluir o que queria dizer.
      - Acutilem-no! Ordeno!... - vociferou Rostoptchine, de repente to plido como Verechtchaguine.
      - Desembainhar espadas! - gritou o oficial aos drages, ao mesmo tempo que desembainhava a sua.
      Outro impulso, ainda mais forte do que o primeiro, agitou a multido, e, embatendo contra os da primeira fila, precipitou-os para a frente, empurrando-os at aos degraus do alpendre, O moo operrio, cujo rosto dir-se-ia petrificado, o brao sempre erguido, achou-se ao lado de Rostoptchine.
      - Acutilem-no! - ordenou o oficial numa voz quase indistinta.
      Um dos soldados, a mscara transtornada pela ira, deixou cair a lmina da espada na cabea de Verechtchaguine.
      - Ah! - gemeu o desgraado, surpreendido com o sbito golpe, os olhos dilatados de espanto, sem compreender o que estava a passar-se. Um gemido de surpresa e horror, igual ao de Vereclitchaguine, percorreu a multido:
      - Oh!, meu Deus! -  exclamou algum.
      Desditosamente, a vtima, depois da exclamao de surpresa, soltou um grito de dor, e foi esse grito que a perdeu. De sbito quebrou-se o freio da compaixo humana que se mantivera tenso at ao ltimo grau, contendo a turba. O crime principiara e tinha de ir at ao fim.
      Um urro terrvel e furioso abafou o gemido do desgraado. Uma vaga, a stima e derradeira vaga que submerge um navio, cresceu das ltimas filas, derrubou as da vanguarda e arrasou tudo. O drago que dera a espadeirada quis vibrar-lhe outro golpe, mas Verechtchaguine, com um grito de horror, procurando proteger-se com as mos, atirou-se sobre a populaa. Tropeou de encontro ao rapaz alto, que o agarrou pela gola, enterrando-lhe as unhas no pescoo, enquanto despedia um grito selvagem, e os dois rolaram aos ps da turba, que se lanou sobre eles.
      Uns agrediam Vereclitchaguine, outros o agressor. Os gritos dos que se sentiam esmagados e daqueles que procuravam salvar o rapaz alto cado por terra ainda exasperavam mais o furor da multido. Por muito tempo no puderam os drages libertar o operrio coberto de sangue e semimorto, e os homens que queriam dar por finda a obra principiada, os que espancavam, acutilavam, afogavam, trucidavam Verechtchaguine, esses, no conseguiam acabar a sua vtima. A multido comprimia-os de todos os lados. Apanhados no meio da turba, ora eram arrastados para a direita ora para a esquerda, sem poderem vibrar-lhe o golpe de misericrdia nem to-pouco o poderem abandonar.
      Um machado para acabar com ele! - Afogaram-no?... Traidor! Vendeu Cristo!... E ainda est vivo... Tem sete flegos!... Tem o que merece, ladro!... Uma machadada! Ainda est vivo?
      S quando a vtima deixou de se debater e aos gritos sucedeu um estertor prolongado a turba comeou a abrir alas diante do cadver estendido no cho, coberto de sangue. Todos se aproximavam, e ao verem o que tinham feito afastavam-se ao mesmo tempo horrorizados e estupefactos.
      Oh! Meu Deus! Que animal feroz  o povo! Como havia ele de escapar?, diziam uns.
      To novo!... Naturalmente era filho de um comerciante. Ah!, o povo... Dizem que no foi ele... Sim, no era ele o culpado... Oh, meu Deus! Parece que no foi ele que mataram. Dizem que ainda est vivo... Ah! Que mundo!... No temem o castigo, comentavam os mesmos, olhando, com uma expresso repassada de piedade, o cadver de rosto azulado, coberto de sangue e de p, com o longo pescoo todo retalhado.
      Um polcia zeloso, julgando no ser decente deixar aquele corpo no ptio de Sua Excelncia, deu ordem aos drages para o arrastarem para a rua. Dois soldados pegaram nas pernas partidas e puxaram o corpo. A cabea rapada da vtima, sangrando, mascarrada de poeira, o longo pescoo tombado, levada de rastos, pulava pelo cho. A turba afastava-se do cadver.
      Na altura em que Vereclitchaguine cara ao cho e todos em cima dele, Rostoptchine, que empalidecera de repente, em lugar de se encaminhar para a escada de servio, onde o aguardavam os seus cavalos, sem que ele prprio soubesse porqu, de cabea baixa e precipitadamente, dirigiu-se, ao longo do corredor, para as habitaes do rs-do-cho. Lvido, a maxila inferior tremia-lhe nervosamente, como se um febro o sacudisse.
      - Excelncia, por aqui... Onde vai?... Por aqui, se faz favor - disse uma voz trmula e assustada.
      No estava em condies de poder responder, e, dando meia volta, docilmente, tomou o caminho que lhe indicavam. Diante da escada de servio estacionava a sege. O ulular distante da multido ouvia-se ali. Rostoptchine deu-se pressa em subir para, a carruagem, mandando seguir para a sua vivenda de Sokolniki.
      Ao chegar  Rua Miasnitskaia, como j no ouvisse o clamor, lamentou ter deixado transparecer fraqueza. Contrariava-o a ideia de que os subordinados tivessem sido testemunhas da emoo e do susto que tivera. A populaa  terrvel,  repulsiva, dizia de si para consigo. So como os lobos, que s com carne se saciam. Conde, s Deus  juiz! De sbito ressoaram-lhe ao ouvido estas palavras de Verechtchaguine, e um arrepio de gelo lhe arrepanhou a espinha. Foi momentnea, porm, esta impresso. Logo teve um sorriso de desdm. Eu tinha outros deveres a cumprir, disse com os seus botes. Era preciso apaziguar o povo. Muitas outras vtimas morreram e morrero pelo bem pblico. E ps-se a pensar nas suas obrigaes para com a famlia, para com a capital que lhe havia sido confiada e para consigo prprio, no para com Fedor Vassilievitch Rostoptchine, o qual, pensava, devia ser sacrificado ao bem pblico, mas para com o governador da cidade, o representante do Poder, o delegado do czar. Se eu fosse apenas um Fedor Vassilievitch qualquer, a minha linha de conduta seria outra, mas eu tinha de salvaguardar a vida e a dignidade do governador.
      Embalado suavemente pelas molas da carruagem e no ouvindo j os gritos medonhos da multido, sentia uma grande tranquilidade fsica, e como sempre acontece, ao mesmo tempo que sossegava fisicamente, o esprito ia-lhe proporcionando argumentos conducentes  tranquilidade da alma. Esses argumentos nada tinham de novo. Desde que o mundo  mundo e os homens se matam uns aos outros, que ningum cometeu qualquer crime para com o semelhante sem tratar de apaziguar a conscincia apelando para aquilo a que se chama o bem pblico, aquilo que se supe o bem dos outros.
      Aos olhos do homem a quem a paixo no cega, tal bem no  coisa to clara, mas aquele que acaba de cometer um crime, esse, sabe sempre em que ele consiste. Rostoptchine estava nessas condies.
      No s no se acusava do acto que cometera, como, nos seus raciocnios, esse acto lhe proporcionava motivos de satisfao por ter sabido agir como devia, por ter punido um criminoso ao mesmo tempo que aplacava a populao.
      Verechtchaguine fora julgado e condenado  morte, raciocinava ele, embora o Senado apenas o houvesse condenado a trabalhos forados. Era um velhaco e um traidor. Eu no podia deix-lo impune e desta sorte mato dois coelhos de uma cajadada; dei uma vtima ao povo, para o acalmar, e puni um criminoso.
      Chegado que foi  sua casa de campo, e depois de ter dado as ordens necessrias para a instalao, tranquilizou-se por completo.
      Meia hora mais tarde atravessava ele, ao trote de fogosos cavalos, os campos de Sokolniki, esquecido de todo do que se passara, o futuro aberto diante de si. Dirigia-se  ponte de Iauza. Onde estava Kutuzov, como lhe tinham dito.
      Preparava, mentalmente, as amargas e acerbas censuras que iria dirigir ao Serenssimo por virtude da sua deslealdade. Faria compreender quela raposa da corte que a responsabilidade de todas as desgraas causadoras do abandono da capital e do que ele entendia a perda do pas se devia inteiramente  sua relha cabea de velho maluco. Pensando no que lhe iria dizer, mexia-se e remexia-se sobre as almofadas da carruagem, ao mesmo tempo que relanceava olhares furibundos  esquerda e  direita.
      Os campos de Sokolniki estavam desertos. Apenas l longe, junto do hospital e do manicmio, se viam pessoas vestidas de branco e alguns indivduos isolados que pareciam seguir campos fora gesticulando e gritando.
      Um destes deitou a correr para cortar o passo  carruagem de Rostoptchine. Este, o cocheiro e os drages da escolta olhavam, num misto de curiosidade e horror, aqueles loucos em liberdade, especialmente o que corria para eles.
      Cambaleando no alto das suas magras pernas, as abas do roupo a dar a dar, o louco corria a bom correr, sem apartar os olhos de Rostoptchine: gritava-lhe fosse o que fosse, em voz rouca, e gesticulava para que a carruagem parasse, A barba do louco eriava-se aqui e ali em tufos irregulares e o seu rosto taciturno e grave era amarelo e descarnado. As pupilas, negras de azeviche, no meio da crnea amarelo- aafro, erravam inquietas.
      Alto! Alto! No ouves?, gritava em voz estentrea e, retomando flego, o louco proferia ameaas, acompanhadas de grandes gestos.
      Alcanara a carruagem e corria ao lado dela.
      Mataram-me trs vezes, trs vezes ressuscitei de entre os mortos. Lapidaram-me, crucificaram-me... Ressuscitarei... Ressuscitarei... Rasgaram-me o corpo. O reino de Deus cair por terra... Por trs vezes o destruirei e por trs vezes o restaura- rei!, gritava numa voz cada vez mais aguda.
      Rostoptchine empalideceu subitamente como empalidecera no momento em que a turba se lanara sobre Verechtchaguine. Desviou o rosto.
      - Anda, depressa! - gritou para o cocheiro, em voz trmula.
      A carruagem rodou a toda a velocidade, mas por muito tempo ainda, l para a retaguarda, ficaram a ouvir-se os gritos desesperados do louco, cada vez mais longe, e diante dos olhos de Rostoptchine levantava-se, solitrio, o rosto ensanguentado do traidor, com a sua pelia de pele, cheio de espanto e de medo...
      Ainda que esta imagem fosse recente, ele sentia agora quo fundo ela lhe estava gravada no esprito. Percebia que aquele rasto de sangue no mais se lhe apagaria da memria. Antes, pelo contrrio, se iria tornando mais e mais vivo, mais e mais cruel e doloroso, e que aquela tremenda recordao o iria perseguir at ao ltimo dos seus dias. As suas palavras: Entrego-o nas vossas mos. Justia seja feita!, ainda lhe ecoavam nos ouvidos. Porque pronunciei eu estas palavras? No prestei ateno ao que disse. Podia no as ter dito, pensava, e ento nada se teria passado do que se passou. Revia o rosto, de princpio assustado, depois transfigurado de ira, do drago que desferira o primeiro golpe e o olhar de silenciosa e humilde censura que lhe lanara o moo da pelia de raposa. Mas no foi por mim que o fiz. Tinha de agir assim. A plebe, o traidor... o bem pblico...
      As tropas continuavam a comprimir-se na ponte de Iauza. Fazia muito calor. Kutuzov, carrancudo e triste, sentado num banco junto da ponte, entretinha-se a riscar a areia com o pingalim quando uma sege se aproximou com grande fragor. Um homem fardado de general e de chapu de plumas aproximou-se dele ao mesmo tempo iracundo e assustado e pronunciou algumas palavras em francs. Era o conde Rostoptchine. Disse-lhe que vinha procur-lo, porque j no existiam nem Moscovo nem capital e agora apenas restava o exrcito.
      - Teria sido muito diferente, se Vossa Excelncia no tivesse dito que no entregaria Moscovo sem combate. Nada disto tinha acontecido - acrescentou.
      Kutuzov olhava para Rostoptchine como se no compreendesse o significado das suas palavras, fazendo esforos para ler na fisionomia do interlocutor. Este, perturbado, calou-se. O general-chefe abanou ligeiramente a cabea e, sem desviar do conde o olhar perscrutador, disse tranquilamente:
      - No, no entregarei Moscovo sem combate.
      Pensaria Kutuzov noutra coisa ao pronunciar estas palavras ou t-las-ia dito propositadamente, sabendo que no tinham o mais pequeno sentido? O certo  que Rostoptchine no respondeu e afastou-se precipitadamente. E, coisa estranha, o todo-poderoso governador de Moscovo, o orgulhoso Rostoptchine, pegou no pingalim, aproximou-se da ponte e em altos berros ps-se a dispersar os carros que se aglomeravam a.
      

      
      
      
      Captulo XXVI
      
      s quatro horas da tarde, as tropas de Murat entraram em Moscovo. Na vanguarda marchava o destacamento dos hssares de Wurtemberg, e atrs, a cavalo, seguido de numerosa escolta, vinha o rei de Npoles em pessoa.
      A meio da Rua Arbate, nas imediaes da Igreja de S. Nicolau. Murat mandou fazer alto para aguardar notcias da vanguarda a respeito da situao da fortaleza conhecida pelo nome de Kremlin.
      Em volta de Murat juntou-se um pequeno grupo de moscovitas que haviam ficado na capital. Todos contemplavam com tmida estupefaco esse general estrangeiro, de longa cabeleira, agaloado a ouro e cheio de plumas policromas.
      - Olha l, ser o rei deles? No est mal! - ouvia-se dizer em voz baixa.
      Um intrprete aproximou-se do grupo.
      - Tirem o chapu... tirem o chapu - disseram uns para os outros.
      O intrprete dirigiu-se a um velho porteiro e perguntou-lhe se o Kremlin ainda ficava muito longe. Surpreendido e confuso ao ouvir o sotaque polaco do desconhecido e no percebendo ser russo o que ele falava, o porteiro, sem compreender a pergunta, escondeu-se atrs dos outros.
      Murat aproximou-se do intrprete e disse-lhe que perguntasse onde estavam as tropas russas, um dos russos presentes compreendeu a pergunta e vrias vozes responderam ao mesmo tempo. Um oficial do destacamento da vanguarda apresentou-se ento e explicou a Murat que as portas da fortaleza estavam fechadas e que naturalmente havia ali uma emboscada.
      - Est bem - disse Murat.
      E, voltando-se para uma das personagens da escolta, deu instrues para que quatro peas ligeiras fossem mandadas avanar e se disparasse contra as portas da fortaleza.
      Uma bateria destacou-se da coluna que vinha atrs e trotou Rua de Arbate alm. Quando chegou ao cabo da Rua Vozdvijenka parou e tomou posies na praa. Vrios oficiais franceses apontaram os canhes e puseram-se a observar o Kremlin com os seus culos de alcance.
      Os sinos do Kremlin tocaram a vsperas e o seu repique perturbou os Franceses. Julgaram um toque a rebate. Vrios soldados de infantaria correram direitos  porta de Kutafiev, barricada com vigas e trancas. Dois tiros se ouviram no momento em que o oficial, com o seu destacamento, chegou junto da fortaleza.
      O general que estava junto das peas de artilharia gritou uma ordem e o oficial e os soldados retrocederam.
      Ouviram-se ainda mais trs descargas por trs da barricada. Instantaneamente, nos rostos do general, do oficial e dos soldados, at a alegres, urgiu a expresso voluntria e concentrada de homens prontos a lutar e a morrer. Todos eles, do marechal ao soldado raso, compreenderam que no tinham diante de si a Rua Vozdvijenka ou Mokovai, a porta Kutafiev ou da Trindade, mas um novo campo de batalha onde era preciso lutar e arriscar a pele. E todos se preparavam para a batalha. Os gritos atrs da porta haviam serenado. As peas foram apontadas.
      Os artilheiros acenderam as mechas. O oficial gritou Fogo! e dois silvos ressoaram um atrs do outro. A metralha foi incrustar-se na alvenaria da porta, nas vigas e nas trancas e duas nuvens de fumo se ergueram por cima da praa.
      Alguns momentos depois de ter ressoado o fragor da descarga, um rudo estranho se ouviu por cima da cabea dos franceses. Um grande bando de corvos erguera-se das muralhas e ficara a esvoaar no cu, crucitando e batendo as asas. Ao mesmo tempo um grito humano isolado ressoou por detrs da barricada e no meio do fumo apareceu a silhueta de um homem de cabea descoberta e cafet. De espingarda na mo, apontava a arma aos franceses.
      Fogo, gritou pela segunda vez o oficial, e ao mesmo tempo ouviram-se um tiro de espingarda e duas detonaes de artilharia. A porta voltou a desaparecer no meio da fumarada.
      Por detrs das trancas nada mais se mexeu e os soldados franceses com os seus oficiais aproximaram-se. Junto da porta, estendidos, estavam trs feridos e quatro mortos. Dois homens de cafet fugiam correndo ao longo das muralhas em direco da Rua Znamenka.
      - Tirem isto - disse o oficial apontando para a barricada e para os cadveres, e os franceses, depois de aplicarem aos feridos o golpe de morte, atiraram os corpos por cima do muro.
      Quem eram os defensores do Kremlin? Nunca ningum o soube. Tirem isto: eis tudo quanto se disse deles, E levaram-nos dali apenas para que eles no empestassem o lugar. S Thiers lhes consagrou algumas linhas eloquentes: Esses miserveis tinham invadido a cidadela sagrada, tinham-se apoderado das espingardas do arsenal e disparavam contra os franceses. Espadeiraram-se uns e purgou-se o Kremlin da sua presena.
      Vieram anunciar a Murat que o caminho estava livre. Os Franceses franquearam as portas e comearam a instalar o acampamento na Praa do Senado. Para acenderem as fogueiras, os soldados subiram ao palcio e atiraram pelas janelas as cadeiras de que precisavam.
      Alguns destacamentos atravessaram igualmente o Kremlin e foram acantonar nas Ruas de Marosseika, Lubianka e Prokovka, outros ainda acamparam nas Ruas Vozdvijenka, Znamenka, Nikolska e Tverskaia. Em vez de se alojarem nas casas, como era costume nas cidades, os Franceses, ao verificarem a ausncia dos habitantes, instalaram-se, como no campo de batalha, em plena rua.
      Embora esfarrapadas, esfomeadas, extenuadas e reduzidas a metade dos seus efectivos, as tropas francesas nem por isso deixaram de entrar em Moscovo devidamente ordenadas. Era um exrcito esgotado e destroado, mas ainda combativo e de temer. No entanto apenas se conservou exrcito at ao momento em que os soldados se dispersaram pelas casas da cidade. Desde que eles se viram instalados em todas essas casas ricas e desertas, o exrcito desapareceu para sempre, transformando-se num amlgama nem de civis nem de militares, num bando de bandidos. Quando, cinco semanas mais tarde, deixaram Moscovo, as tropas regulares tinham desaparecido por completo. Eram apenas um bando de salteadores levando consigo um nunca acabar de coisas que entendia indispensveis e preciosas. No pensavam mais na guerra, s cuidavam em conservar o produto das pilhagens. Tal como o macaco que tendo metido a mo na estreita boca de uma jarra para apanhar um punhado de nozes no a quer abrir para no deixar o que apanhou, e assim se perde, os Franceses, ao abandonarem Moscovo, tinham fatalmente de se perder, pois levavam consigo o produto dos seus roubos, no podendo, como o macaco, abandonar a presa. Dez minutos depois da ocupao por um regimento francs de qualquer bairro da cidade j no era possvel distinguir os oficiais dos soldados. Atravs das janelas viam-se homens de capote e polainas, rindo e girando pelos quartos; nas caves e nos stos abasteciam-se de provises; nos ptios abriam as portas dos armazns e das cavalarias: nas cozinhas acendiam as lareiras e faziam o rancho, de mangas arregaadas, assustando e fazendo rir mulheres e crianas. Eram muitos os homens nas lojas e nas casas: exrcito, porm, era coisa que j no existia.
      Naquele mesmo dia circularam ordens sobre ordens, emanadas dos comandantes, para que os soldados fossem impedidos de circular na cidade, para que fossem proibidos os saques e as violnci4s, e determinando que houvesse  noite chamada geral. No entanto, apesar das medidas tomadas, os homens que ainda na vspera formavam o exrcito espalhavam-se por toda a cidade confortvel e vazia, onde abundavam as provises. Como um rebanho faminto que avana, comprimido, ao longo de um campo de escassa pastagem espalhando-se logo que chega a uma farta pradaria, assim se dispersava o exrcito francs atravs daquela opulenta cidade.
      Como dos habitantes poucos estavam, os soldados,  semelhana da gua num areal, infiltravam-se por toda a parte e irradiavam por todos os lados a partir do Kremlin, o primeiro lugar onde haviam penetrado. Soldados de cavalaria que penetrassem numa casa abandonada com tudo que era preciso e at cavalarias com lugar de sobra para as montadas, nem por isso deixavam de se mudar para a casa vizinha que se lhes afigurasse prefervel. Muitos ocupavam vrias casas, riscando-as a giz, batendo-se com homens de outros destacamentos para lhes disputarem a propriedade. Antes mesmo de se instalarem em qualquer lado, havia soldados que percorriam as ruas, e ao verificarem que tudo estava abandonado introduziam-se onde pudessem pilhar objectos de valor. Os chefes encarregados de prender os que se dedicavam  pilhagem acabavam por se entregar  prtica dos mesmos actos.
      No Mercado Karetnii ainda havia estabelecimentos cheios de carruagens de, todo o gnero: os generais juntavam-se para escolherem a seges e carros para seu uso. Os habitantes que haviam ficado na cidade convidavam os oficiais superiores a instalar-se em suas casas na esperana de assim impedirem que elas fossem saqueadas. Tantas eram as riquezas que dir-se-ia no terem fim. Por toda a parte, em torno dos locais ocupados pelos Franceses, havia outros, ainda no ocupados, em que eles julgavam vir a encontrar mais riquezas. E Moscovo ia-os absorvendo pouco a pouco. Assim como quando se deita gua numa terra seca desaparecem a terra seca e a gua, assim aquele exrcito esfomeado, uma vez naquela cidade opulenta, mas deserta, foi desaparecendo ao mesmo tempo que a prpria cidade: resultado, muita lama, incndios e saques por toda a parte.
      
      Os Franceses atribuem o incndio de Moscovo ao patriotismo feroz de Rostoptchine, os Russos, ao fanatismo dos Franceses. Moscovo ardeu por se encontrar nas mesmas condies de qualquer cidade de madeira, independentemente das suas cento e trinta. - Ms bombas de incndio. Moscovo tinha de arder, porque os seus habitantes a haviam deixado; o que era to inevitvel como arder o monte de aparas em que vo caindo fagulhas dia aps dia. Uma cidade de madeira onde, mesmo com a presena dos habitantes e da polcia, quase todos os dias se registam incndios, no pode deixar de arder se os proprietrios das casas esto ausentes e se por toda a parte h soldados de cachimbo aceso e fogueiras em que preparam o rancho duas vezes por dia, em plena Praa do Senado, atiando o lume com as cadeiras dos palcios circunvizinhos. Em tempo de paz, basta que as tropas se alojem numa aldeia para que os incndios aumentem imediatamente. Como no ho-de aumentar as probabilidades de fogo numa cidade abandonada, construda de madeira, em que acampou um exrcito estrangeiro? Nem o patriotismo feroz de Rostoptchine nem o fanatismo dos Franceses tiveram que ver com o incndio de Moscovo. A cidade ardeu por causa dos cachimbos, das cozinhas, dos acampamentos e da negligncia dos soldados inimigos, instalados nas casas, mas no seus proprietrios.
      Se realmente houve incendirios, o que parece duvidoso, pois no se percebe qual o motivo de uma coisa dessas, alm de que seria expor-se quem o fizesse a um perigo que a todos ameaava, no vale a pena atribuir-se-lhes essa responsabilidade porque sem a sua interveno o resultado teria sido praticamente o mesmo.
      Por muito que agrade aos Franceses acusar Rostoptchine de ferocidade e aos Russos dizerem que Bonaparte era um malfeitor, ou colocarem nas mos de seus compatriotas um archote herico,  impossvel admitir uma causa directa da catstrofe j que Moscovo tinha de arder, como arderia igualmente qualquer aldeia, qualquer fbrica, qualquer casa cujos proprietrios se ausentassem e em que se consentisse que estranhos se instalassem para comer e dormir. Moscovo foi incendiada pelos seus habitantes,  um facto, mas no pelos habitantes que l ficaram, antes por culpa daqueles que partiram. Invadida pelo inimigo, Moscovo no ficou intacta como Berlim, Viena e outras capitais pela simples razo de que os seus habitantes no vieram oferecer po e sal aos Franceses nem lhes depuseram nas mos a chave da cidade, preferindo, pelo contrrio, abandon-la.
      

      
      
      
      Captulo XXVII
      
      A disperso das tropas francesas pela cidade s na noite desse dia 2 de Setembro atingiu o bairro onde vivia Pedro.
      Depois de dois dias em absoluto isolamento e passados de maneira extraordinria, Pedro encontrava-se  beira da loucura. Uma ideia fixa se havia apoderado de todo o seu ser. Nem ele mesmo sabia como isso pudera acontecer, mas a verdade  que essa ideia se apoderara dele de tal modo que no se recordava do passado nem compreendia o presente: tudo quanto via e ouvia se lhe afigurava um sonho.
      Deixara a sua casa apenas para evitar as complicaes da sua vida que no estado de esprito em que se encontrava no era capaz de resolver. Fora a casa de Osip Alexeievitch a pretexto de seleccionar os livros e os papis do defunto, embora o fizesse na esperana de encontrar a tranquilidade e porque a lembrana daquele homem andava ligada no seu pensamento a um mundo de paz e de ideias etcrnas e superiores bem diferente de toda aquela confuso para que se sentia fatalmente arrastado. Procurava um refgio tranquilo e foi encontr-lo, de facto, em casa de Osip Alexeievitch. Quando, no mortal silncio do gabinete, se encostou  poeirenta mesa de trabalho do defunto, vieram-lhe  memria, com toda a nitidez, as impresses que colhera naqueles ltimos dias, especialmente as da batalha de Borodino, e ento sentiu, numa irresistvel evidncia, toda a insignificncia e toda a mentira que nele se encarnavam em comparao com a verdade, a simplicidade, a fora daquela espcie de pessoas no seu esprito catalogadas sob o nome genrico de eles. No momento em que Guerassime o veio arrancar  sua meditao estava ele decidido a tomar parte, ao lado do povo, na projectada defesa de Moscovo. E nessa inteno pedira a este criado que lhe arranjasse um cafet e uma pistola, confessando-lhe estar resolvido a ficar escondido ali mesmo, em casa de Osip Alexeievitch. Durante o primeiro dia passado naquela solitria inaco e de- pois de tentar, debalde, concentrar-se nos manuscritos manicos, por vezes e confusamente lhe viera ao esprito o Significado cabalstico do seu nome relacionado com o de Bonaparte, de acordo com a concluso a que chegara. No entanto esta ideia, a ideia de que ele, le Russe Bsuhof, estava predestinado a pr termo ao reino da besta, no se lhe apresentara ainda seno como uma dessas vagas congeminaes que atravessam o esprito sem nele deixar qualquer rasto profundo.
      S depois de adquirir o cafet, alis apenas na inteno de participar na defesa da cidade, e de encontrar os Rostov e Natacha, que lhe dissera: Fica? Ah!, que bom que deve ser!, s depois disso lhe ocorreu que seria realmente bom, mesmo que Moscovo viesse a ser tomada, ficar na cidade e cumprir o que estava determinado.
      No dia seguinte, movido pela ideia de se no poupar a si prprio para se mostrar digno deles, dirigiu-se  barreira de Tri Gori. E ao voltar dali, convencido de que Moscovo no seria defendida, bruscamente deu-se conta de que o que at ento lhe Parecera apenas possvel se tornava agora uma necessidade implacvel. Ocultando o nome, devia ficar em Moscovo, procurar aproximar-se de Napoleo, mat-lo, deixando-se matar, pondo assim termo s desgraas que pesavam sobre a Europa, na sua opinio todas da responsabilidade de tal monarca.
      Pedro conhecia todos os pormenores do atentado de que Napoleo fora vtima em Viena, em 1809, obra de um estudante alemo, que fora fuzilado. E o perigo a que se expunha no cumprimento da sua misso ainda o exaltava mais.
      Dois sentimentos igualmente fortes arrastavam Pedro ao cumprimento daquele objectivo: o primeiro era a necessidade de se sacrificar e de sofrer que nele despertara a desgraa que atingia todos. E esse mesmo sentimento que o impelira, no dia 25, at Mojaisk, arrastando-o para o fragor da batalha, levava-o agora a abandonar o seu palcio, o luxo a que estava habituado e o bem-estar que o rodeava, para viver assim, dormindo vestido e comendo o que comia Guerassime. O segundo era esse sentimento insensato e intrinsecamente russo que o levava a desprezar tudo quanto fosse fictcio e convencional, tudo isso que a maioria das pessoas considera a coisa melhor no mundo. A primeira vez que esse sentimento se lhe revelara fora no Palcio Slobodski e apossara-se dele uma embriaguez estranha ao compreender, de sbito, que a riqueza, o poderio, a prpria vida, tudo que o homem preserva e guarda cautelosamente, no tem o mais pequeno valor alm da satisfao que d quele que dispe da coragem de renunciar a isso mesmo. Era um sentimento semelhante quele que leva o recruta a beber, beber, at se lhe esgotar o dinheiro e o bbedo a quebrar vidros e espelhos sem razo, sabendo que os ter de pagar, um sentimento igual ao do homem que pratica aces que o senso comum qualifica de loucas, embora em verdade sejam a revelao de uma viso superior e quase sobre-humana das coisas da vida.
      Desde o dia em que Pedro descobrira em si, pela primeira vez, este sentimento, passara a estar continuamente sob a sua influncia, mas s agora, em verdade, lhe experimentava a plenitude da satisfao. E o certo  que j no podia voltar atrs, uma vez chegado onde chegara. A fuga de casa, a compra do cafet e da pistola, o ter dito aos Rostov que ficava em Moscovo, tudo isso deixaria de ter qualquer significado, seria estpido e ridculo - coisa a que Pedro era muito sensvel -, caso fizesse como os demais abandonando a cidade.
      Como sempre acontece, o seu estado fsico acompanhava o seu estado moral. A grosseira cozinha, a vodka que bebera nos ltimos dias, o no ter  mo nem o seu vinho habitual nem os seus charutos, o no poder mudar de roupa, as duas noites em claro deitado vestido num estreito div, tudo isto provocava nele lima excitao muito prxima da loucura.
      Eram j duas horas da tarde. Os Franceses estavam em Moscovo. Pedro sabia-o, mas, em vez de agir, no pensava noutra coisa seno na sua empresa e ia-a congeminando nos seus mais nfimos pormenores. No fazia ideia clara nem de como realizaria o seu objectivo nem propriamente do facto em si da morte de Napoleo. Pelo contrrio, no que ele pensava com uma clareza extraordinria e numa espcie de triste deleite era na sua prpria morte, na sua prpria herica valentia.
      Sim, devo faz-lo por todos ou ento morrer!, exclamava para si mesmo. Sim, aproximar-me-ei... e de repente... Com uma pistola ou um punhal? Pouco importa. No sou eu, dir-lhe-ei, no sou eu quem te castiga, mas a mo da Providncia!, acrescentou, pensando nas palavras que pronunciaria na altura em que desfechasse o golpe mortal. Bom, agora aqui estou. Prendam-me, conduzam-me ao suplcio! E baixava a cabea com uma expresso triste, mas decidida.
      Assim discorria quando a porta do gabinete se abriu e no limiar apareceu Makar Alexeievitch, at a mais tmido que outra coisa, desta vez completamente transformado. De blusa desabotoada, tinha o rosto afogueado e descomposto. Era evidente que se embriagara. Ao dar com os olhos em Pedro pareceu confuso, mas, ao reparar que ele prprio se mostrava perturbado, encheu-se de coragem e caminhou at meio do gabinete cambaleando.
      - Tm medo - exclamou, numa voz rouca, mas decidida. - C por mim, no me rendo... C por mim... No  verdade? 
      Teve uma hesitao, e de chofre, ao ver a pistola em cima da mesa, bruscamente pegou nela e precipitou-se no corredor. 
      Guerassime e o porteiro, que o tinham seguido, deitaram-lhe a mo no vestbulo, tentando arrancar-lhe a arma. Pedro, que sara atrs dele, observava, num misto de piedade e repulsa, aquele velho meio louco, Makar Alexeievitch, a mscara crispada pelo esforo, que empunhava a pistola e soltava gritos roucos, como se inimigos o assaltassem.
      - As armas! s armas! A eles, vamos a eles! Eu te digo, no me escapas!
      - Basta! Basta! Tenha a bondade. Ento que  isso. - dizia Guerassime, procurando arrast-lo para a porta, sem violncia.
      - Quem s tu? Bonaparte? - vociferava Makar.
      - Ento? Isso no est certo. V para o seu quarto descansar um pouco. Deixe ver a pistola.
      - Para trs, vilanagem! No me toquem! Estas a ver isto? - prosseguia, brandindo a arma. - A eles!
      - Agarra-o! - disse Guerassime para o porteiro. Pegando-lhe por debaixo dos braos, acabaram por arrast-lo para a porta.
      No vestbulo ressoou ento um tremendo alarido em que sobressaam os gritos roucos e entrecortados do bbedo.
      De sbito, um grito agudo de mulher se ouviu no alpendre e cozinheira penetrou no vestbulo,
      - A esto eles, Pai do Cu!... Juro que so eles! So quatro a cavalo!... - gritava ela.
      Guerassime e o porteiro soltaram Makar Alexeievitch e tio corredor, outra vez silencioso, ouviram-se, distintamente, pancadas na porta da rua.
      

      
      
      
      Captulo XXVIII
      
      Pedro, decidido a no desvendar, at ao momento em que visse realizados os seus projectos, nem a sua identidade nem que falava francs, ficara de p diante da porta entreaberta do corredor, pronto a desaparecer logo que visse entrar os franceses. Quando estes entraram. Pedro no se afastou da porta: uma curiosidade invencvel o retinha ali.
      Eram dois: um oficial de grande estatura, aspecto marcial e boa presena, e um soldado ou impedido, pequeno, delgado, curtido, de faces cavadas e, ar estpido. O oficial, apoiado a uma bengala, coxeando, foi o primeiro a entrar. Depois de ter dado alguns passos, parou: sem dvida lhe agradava a instalao, e, voltando-se para os soldados que tinham ficado  porta, gritou-lhes, numa voz tonitruante, de quem est habituado ao comando, que podiam trazer os cavalos. Feito o que, cofiando o bigode, num gesto galhardo, e erguendo alto o cotovelo, levou a mo  pala da barretina.
      - Bom dia, gentes - disse em tom jovial, olhando em roda. Ningum respondeu  sua saudao.
      - Voc  o patro? - continuou ele, dirigindo-se a Guerassime.
      Este, sem o perceber, lanou-lhe um olhar assustado. 
      - Alojamentos, alojamentos - repetia o oficial medindo o homenzinho com um olhar que vinha l do alto da sua imensa estatura, protector e compassivo. - Os Franceses so bons rapazes. Que diabo! Ento! No vale zangarmo-nos, meu velho. - acrescentou, dando uma palmada familiar no ombro do velho, que continuava silencioso e aterrado.
      - Ora essa! No pode ser. Ento no se fala francs nesta casa? - prosseguiu, olhando  roda e deparando-se-lhe o olhar de Pedro.
      Este afastou-se da porta.
      O oficial voltou-se, de novo, para Guerassime. Ordenou-lhe que lhe mostrasse os quartos.
      - O meu amo no est... Eu no compreender... Meu quarto para si... - acabou por dizer o criado, estropiando as palavras para torn-las mais inteligveis.
      O oficial sorriu, passou a mo pelo nariz de Guerassime, num gesto que significava nada ter compreendido, e encaminhou-se, coxeando, para onde estava Pedro. Este tentou evit-lo, mas nessa altura viu Makar Alexeievitch, que aparecia  porta da cozinha de pistola em punho. Com uma astcia de demente. Makar olhou para o francs, ergueu o cano da pistola e apontou-lha.
      - A eles! - gritou o bbedo, carregando no gatilho. Ao ouvir o grito, o oficial voltou-se enquanto Pedro se lanava sobre Makar. No momento em que Pedro deitava a mo  arma, conseguiu o bbedo premir o gatilho e um estampido ensurdecedor ressoou enchendo a dependncia de fumo. O francs, plido, correu para a porta.
      Pedro, esquecendo-se de que decidira no revelar que sabia francs, arrancou a pistola das mos de Makar, atirou-a pelo ar e correu para o oficial, dizendo-lhe na lngua dele:
      - No est ferido?
      - Parece-me que no - volveu-lhe este, apalpando o corpo - mas escapei por pouco desta vez. - E apontou para a arranhadura que a bala fizera na escaiola da parede. - Quem  aquele homem? - acrescentou, medindo Pedro com um ar carrancudo.
      - Ah! Lamento muito o que acaba de acontecer - deu-se pressa de responder Pedro, esquecendo por completo o papel que queria representar. - Era um doido, um desgraado, que no sabia o que fazia.
      O oficial aproximou-se de Makar Alexeievitch e pegou-lhe pela gola da blusa.
      O bbedo, de boca pendente, expresso aparvalhada, cambaleava, apoiando-se  parede.
      - Bandido, hs-de pagar-mas! - vociferou o francs, retirando a mo. - Ns, os Franceses, somos clementes depois da vitria, mas no perdoamos aos traidores.- E disse isto num tom entre grave e solene, sublinhando as palavras com um gesto enrgico e teatral.
      Pedro continuou, em francs, a implorar-lhe que se no vingasse daquele pobre bbedo meio doido. O oficial ouvia-o, calado, sempre carrancudo, e, de repente, voltou-se, sorrindo, para onde estava Pedro, Durante algum tempo observou-o calado, No seu rosto de boa pessoa apareceu uma expresso de uma suavidade em que havia qualquer coisa de trgico, e estendeu-lhe a mo.
      - Salvou-me a vida!  francs! - exclamou ele.
      Para um francs no podia haver a mais pequena dvida: s um francs seria capaz de praticar uma nobre aco, e salvar a vida a Monsieur Ramballe, capito do 13 ligeiro, no podia deixar de ser uma nobre aco.
      Entretanto Pedro julgou de seu dever desengan-lo.
      - Sou russo - apressou- se a dizer-lhe.
      - Ora, ora, ora, essa para c no pega - chasqueou, sorrindo, o francs, ao mesmo tempo que fazia um gesto pleno de incredulidade. - J me vai contar tudo. Que prazer encontrar um compatriota. Bom, que vamos fazer deste homem? - acrescentou, como se se dirigisse, realmente, a um compatriota.
      O tom da voz, a expresso do oficial, queriam dizer que mesmo que Pedro no fosse, realmente, francs, nada tinha a objectar desde que lhe davam esse ttulo, o mais belo neste mundo. Pedro voltara a explicar como aquele doido, antes de ele ter aparecido, como aquele bbedo lhe tirara de cima da mesa a pistola carregada, que ainda no tivera tempo de lhe apanhar, e de novo voltou a pedir que no castigasse o desgraado.
      O francs arqueou o peito e fez um gesto verdadeiramente soberano.
      - Salvou-me a vida!  francs. Est a pedir-me essa concesso? Concedo-lha. Levem este homem - articulou, num tom enrgico, e, travando do brao daquele a quem conferira a dignidade de francs por lhe haver salvo a vida, entrou com ele em casa.
      Os soldados que tinham ficado na rua entraram no vestbulo quando ouviram a detonao. Inquirindo do que acontecera, declararam estar prontos a castigar os culpados, mas o oficial, severo, deteve-os.
      - Eu os chamarei, quando precisar de vocs - disse-lhes.
      Os soldados retiraram-se e o impedido, que entretanto metera o nariz na cozinha, aproximou-se do oficial.
      - Capito, eles tm sopa e um assado de carneiro na cozinha - confiou-lhe - Quer que lho traga?
      - Traz. E vinho - replicou o capito.
      

      
      
      
      Captulo XXIX
      
      Quando o oficial e Pedro entraram em casa, este entendeu de seu dever garantir mais uma vez ao companheiro que no era francs, manifestando desejos de se retirar; o oficial, porm, no consentiu. Era to corts, to amvel, to benevolente e mostrava-se to reconhecido para com aquele que lhe havia salvo a vida que Pedro no ousou repelir o convite que lhe dirigia, e instalaram-se os dois no salo, a primeira dependncia onde ambos entravam. Como Pedro teimasse em afirmar que no era francs, o capito, incapaz de compreender como se podia recusar semelhante honra, encolheu os ombros, dizendo que se to grande era o seu empenho em fazer-se passar por russo, ele nada teria a objectar, mas que, fosse como fosse, a ele o ligava um reconhecimento etcrno.
      Se este homem fosse capaz de compreender os sentimentos alheios e de adivinhar os do companheiro, era provvel que Pedro se tivesse afastado, mas a incompreenso que mostrava por tudo que no fosse ele prprio obrigou-o a ceder.
      - Francs ou prncipe russo incgnito - disse o capito, relanceando os olhos  roupa branca de Pedro, bastante enxovalhada, mas assaz fina, e ao anel que ele trazia no dedo. - Devo-lhe a vida e pode contar com a minha amizade. Um francs nunca esquece nem um insulto nem um servio. Pode contar com a minha amizade. S lhe digo isto.
      No seu tom de voz, na expresso do seu rosto, nos seus gestos, havia tanta bonomia, tanta nobreza, pelo menos do ponto de vista francs, que Pedro, respondendo, sem dar por isso, com um sorriso ao sorriso do francs, lhe apertou a mo que este lhe estendera.
      - Capito Ramballe, do 13 ligeiro, condecorado pela aco do dia - anunciou ele com um sorriso de fatuidade que lhe franziu os lbios debaixo do bigode. - Poder dizer-me agora a quem tenho a honra de falar to agradavelmente em vez de estar na ambulncia com uma bala deste doido no corpo?
      Pedro respondeu ser-lhe impossvel declinar a sua identidade e, corando, ps-se  procura de um nome qualquer e a explicar as razes que o impediam de lhe dar tal satisfao. O francs interrompeu-o bruscamente.
      - Por favor - exclamou. - Compreendo as suas razes, o senhor  oficial... oficial superior, talvez. Pegou em armas contra ns... Isso no  comigo. Devo-lhe a vida. Isso me basta. Sou todo vosso.  fidalgo? - Pedro assentiu com a cabea. - Qual o seu nome de baptismo, se faz favor? No preciso mais. Monsieur Pierre, diz o senhor... Muito bem.  tudo quanto desejo saber.
      Serviram o carneiro e uma omeleta, trouxeram o samovar, vodka e vinho de uma adega russa. Ramballe convidou Pedro para o seu jantar e imediatamente se lanou sobre as vitualhas, como criatura esfaimada e bom garfo que devia ser, comendo, vido, mastigando ruidosamente, dando estalos com a lngua e exclamando:
      - Excelente! Delicado!
      Estava muito corado e o suor repassava-lhe a testa. Pedro, esfomeado tambm, com satisfao o acompanhou no jantar. Morel, o impedido, trouxe uma caarola de gua quente e meteu-lhe dentro uma garrafa de vinho tinto. Em cima da mesa ps a botelha de kvass que achara na cozinha, bebida j famosa entre os Franceses, que lhe chamavam limonada de porco, e Morel tecia os mais rasgados elogios  que encontrara. Como o capito, porm, dispunha de excelente vinho, arranjado algures, ao atravessar a cidade, deixou que Morel bebesse o kvass e reservou para si o Bordus. Amarrando um guardanapo ao gargalo da garrafa, encheu o seu copo e o de Pedro. Morta a fome e vazia a garrafa, o capito, incendiado, ps-se a falar, a falar.
      - Sim, meu caro Monsieur Pierre, contra para consigo uma grande dvida salvando-me... das mos desse louco. No me faltam balas no corpo, como pode ver. Aqui tem uma em Wagram - e mostrava uma cicatriz - e duas em Smolensk - prosseguia apalpando o gilvaz da cara. - E esta perna, como est a ver que no quer andar. Foi na grande batalha de 7 no Moskova, que eu arranjei isto. Caramba, era belo! Valia a pena ver aquilo, um dilvio de fogo. Sempre nos tm dado uns trabalhos! Podem orgulhar-se disso, cos diabos! E palavra, apesar desta tosse, estou de novo pronto a recomear. Lastimo os que no viram isto.
      - Tambm l estive. - disse Pedro.
      - Qu, fala a srio?! Pois ainda bem - continuou ele. - Seja como for, vocs so uns inimigos s direitas. O grande reduto foi tenaz, caramba! E fizeram-nos pagar caro. Fui l trs vezes, aqui onde me v. Por trs vezes estivemos em cima das peas e por trs vezes nos atiraram abaixo como um castelo de cartas. Oh!, era bonito, Monsieur Pierre. Os vossos granadeiros foram soberbos, com mil diabos! Seis vezes seguidas os vi cerrar fileiras e marchar como numa parada. Belos homens! O nosso rei de Npoles, que sabe disto, gritou: Bravo! Ah! Soldados como ns! - acrescentou, sorrindo aps um silncio. - Ainda bem, ainda bem, Monsieur Pierre. Terrveis no combate... galantes com as belas, assim so os Franceses, no  verdade? - concluiu, por fim, piscando o olho.
      A alegria do capito era to ingnua e confiante, havia nele tanta franqueza e tanta satisfao prpria que Pedro no pde deixar de lhe responder com outro piscar de olhos. A palavra galantes levou o oficial a falar de Moscovo.
      - A propsito, diga-me c,  verdade que as mulheres abandonaram todas Moscovo? Que ideia! Que podiam elas recear?
      - Ento se os Russos entrassem em Paris as mulheres francesas no abandonariam a cidade? - inquiriu Pedro.
      - Ah! Ah! Ah! Essa  forte! -  replicou o francs, rindo a bom rir, enquanto lhe dava palmadinhas nas costas. - Paris? Mas Paris, Paris...
      - Paris, a capital do mundo. - rematou Pedro.
      O capito fitou-o atentamente. Tinha por costume calar-se, assim, no meio de uma conversa, fixando os olhos risonhos e amveis no interlocutor.
      - Pode crer, se me no dissesse que era russo, ia apostar que era parisiense. O senhor tem esse no-sei-qu, esse... - E voltou a percorr-lo com os olhos, sem dizer palavra.
      - Estive em Paris, passei l alguns anos - replicou Pedro.
      - Oh! Isso v-se logo. Paris!... Um homem que nunca foi a Paris  um selvagem. Um parisiense sente-se a duas lguas. Paris  Talma, a Duchesnois, Potier, a Sorbona, as avenidas. - E, notando que o remate no correspondia ao comeo, tratou de acrescentar: - No h seno um Paris no mundo. O senhor esteve em Paris e continuou russo. Nem por isso tenho menos estima por si.
      Sob a influncia do vinho e depois daqueles dias de solido metido em sombrios pensamentos, Pedro experimentava, involuntariamente, grande satisfao em conversar com aquele jovial simptico rapaz.
      - Para falarmos outra vez das vossas mulheres: dizem que so bem bonitas. Que raio de ideia irem enterrar-se na estepe com os Franceses em Moscovo! No sabem o que perderam. Os vossos Mujiques ainda se compreende, mas vocs, pessoas civilizadas, tinham obrigao de nos conhecer melhor. Tommos Viena, Berlim, Madrid, Npoles, Roma, Varsvia, todas as capitais do mundo... Temem-nos, mas gostam de ns. Vale a pena conhecer-nos... E depois o imperador... - principiou ele; Pedro, todavia, interrompeu-o.
      - O imperador... - repetiu ele, com um sorriso taciturno e enleado. - Estar o imperador...
      - O imperador? A generosidade, a clemncia, a justia, a ordem, o gnio, eis o imperador! Sou eu, Ramballe, quem lho diz... Aqui onde me v, ainda h oito anos era inimigo dele. Meu pai era conde emigrado... Mas aquele homem venceu-me. Empolgou-me. No pude resistir ao espectculo de grandeza e de glria que ele dava a Frana. Quando compreendi o que ele queria, quando vi que ele nos fazia uma cama de louros, ento disse comigo; Ora aqui esta um soberano, e dediquei-me a ele. E aqui tem. , sim, meu caro,  o maior homem, dos sculos passados e futuros.
      - Est em Moscovo? - perguntou Pedro, hesitante e sem esconder uma espcie de culpa.
      O francs, sorrindo, observou, curioso, a expresso do interlocutor.
      - No, deve entrar amanh na cidade - replicou, prosseguindo no seu dilogo.
      A conversa foi interrompida por uns gritos, l para os lados da porta principal, e pela chegada de Morel, que vinha explicar ao capito que os hssares wurteinburgueses teimavam em alojar os seus cavalos no ptio onde estavam j os deles, mal-entendido esse proveniente sobretudo do facto de os hssares no compreenderem o que lhes diziam,
      O capito ordenou que o sargento viesse  sua presena e em voz severa perguntou-lhe a que regimento pertencia, quem era o seu comandante e como ousava querer tomar conta de uma habitao j ocupada por outros militares. O alemo, que tinha dificuldade em perceber o francs, disse o nome do regimento a que pertencia e quem- era o seu comandante, mas, como nada percebera do que lhe diziam, replicou, misturando no alemo fragmentos de palavras francesas, que, na sua qualidade de sargento, nada mais fazia que cumprir as ordens que recebera do comandante, o qual lhe ordenara que ocupasse todas as casas daquele bairro, umas aps outras. Pedro, que falava alemo, traduziu a resposta, para entendimento do capito, e por sua vez transmitiu ao hssar o que lhe dissera o oficial. Tendo percebido, finalmente, o wurtemburgus cedeu, retirando com os seus homens. Em seguida o capito francs veio at ao alpendre e numa voz de trovo deu ordens aos subordinados.
      Quando voltou  sala, Pedro, de cabea entre as mos, continuava sentado no mesmo stio. Havia amargura na sua cara. E, de facto, sofria naquele momento. Assim que o capito o deixara s, compreendera, de sbito, a situao em que estava. O que naquela altura o fazia sofrer no era o facto de Moscovo ter sido tornada nem mesmo que aqueles venturosos soldados ali se tivessem instalado como em sua prpria casa, concedendo-lhe, inclusivamente, a sua proteco, embora tudo isto fosse, em verdade, bastante penoso: o que o atormentava era a conscincia da sua prpria fraqueza. Alguns copos de vinho e dois dedos de conversa com, aquele galhardo militar, eis quanto bastara para c seu taciturno estado de esprito dos ltimos dias, indispensvel para levar a bom termo o seu projecto, desaparecer como por encanto. A pistola, o punhal, o disfarce, tudo estava preparado; Napoleo entraria em Moscovo no dia seguinte. E posto Pedro continuasse a considerar til e nobre o acto pelo qual assassinaria semelhante bandido, o certo  que se sentia agora incapaz de o praticar. Procurava dominar a sua fraqueza e confusamente percebia no ser capaz, que todos os seus sombrios projectos de vingana, de assassnio, de sacrifcio se haviam dissipado como fumo desde que se pusera a falar com aquele desconhecido.
      O capito voltou a entrar na sala, assobiando e arrastando perna.
      A tagarelice do francs, que tanto o divertira at, ali, agora tornava-se-lhe, odiosa. Aquele assobio, aquele manquejar, a maneira que ele tinha de cofiar o bigode, tudo o incomodava, Vou-me embora e no lhe dirijo mais a palavra, dizia de si para consigo. E no entanto continuava sentado sem se mover. Amarrava-o ali um estranho sentimento de fraqueza. Conquanto o desejasse, no podia levantar-se nem podia partir,
      O capito, pelo seu lado, parecia, de contrrio, na melhor disposio deste mundo. Andava de c para l, de olhos cintilantes e o bigode agitado, como se sorrisse interiormente ao lembrar-se de qualquer coisa divertidssima.
      - Encantador - exclamou, de sbito - o coronel destes wurtemburgueses!  um alemo; mas bom rapaz, se fosse... mas alemo. A propsito, o senhor sabe ento alemo? - acrescentou, parando diante de Pedro.
      Pedro fitou-o calado.
      - Como  que diz asilo em alemo?
      - Asilo! - repetiu Pedro - Asilo em alemo: Unterkunft.
      - Como diz? - insistiu o capito, incrdulo.
      - Unterkunft.
      - Onterkoff - voltou ele, fixando Pedro, por momentos, com olhos sorridentes. - Os Alemes so uns animais orgulhosos. No  verdade, Monsieur Pierre? Bom, mais uma garrafa de bordus Moscovita, no  verdade? Morel, vai amornar-nos mais uma garrafa. Morel! - chamou, folgazo.
      Morel apareceu com as velas e uma garrafa. O capito, assim que a sala se iluminou, relanceou a vista ao seu interlocutor e notou a transformao da sua mscara. Realmente inquieto e com uma simpatia toda cordial, inclinou-se para Pedro,
      - Ento, estamos tristes? - disse ele, pegando-lhe numa das mos. - Magoei-o? Tem alguma razo de queixa minha? Talvez por causa da situao?
      Pedro no respondeu, mas fitou-o nos olhos com simpatia. No podia deixar de ser sensvel a todas aquelas atenes. 
      - Palavra de honra, mesmo sem falarmos do que lhe devo, tenho amizade por si. Haver alguma coisa que eu possa fazer por si? Disponha de mim. A vida e a morte. Digo-lhe com a mo no corao - acrescentou, fustigando a arca do peito.
      - Obrigado - volveu-lhe Pedro.
      O capito olhou-o com o mesmo ar jovial de h pouco e o rosto iluminou-se-lhe.
      - Ah!, nesse caso, bebo  nossa amizade! - exclamou, enchendo os dois copos.
      Pedro pegou no copo cheio e virou-o de um s trago. Ramballe virou o seu tambm e voltou a apertar a mo de Pedro, deixando-se cair na cadeira, com os cotovelos na mesa, numa, atitude melanclica.
      - Sim, meu caro, chama-se a isto os caprichos do destino - disse ele. - Quem diria que eu seria soldado e capito de drages ao servio de Bonaparte, como ns lhe chamvamos antigamente. E no entanto aqui estou eu em Moscovo. Sempre lhe direi, meu caro - prosseguiu, numa voz agora ponderada e serena, como se fosse encetar uma longa histria - que o nosso nome  um dos mais antigos da Frana.
      E, com a franqueza ingnua e ligeira dos Franceses, ps-se a contar-lhe a histria dos seus antepassados, da sua infncia, da sua adolescncia e da sua juventude, pondo-o ao corrente de tudo quanto dizia respeito  famlia e aos bens. A minha pobre me, claro est, no faltava na histria.
      - Mas tudo isto mais no  que a cenografia da vida; o fundo e o amor. O amor. No  verdade, Monsieur Pierre? - continuou ele cada vez mais animado. - Mais um copo.
      Pedro bebeu de novo e de seguida encheu os copos.
      - Oh, as mulheres, as mulheres! - E o capito, cujo olhar se fizera langoroso, ps-se a falar do amor e das suas aventuras galantes.
      Tinham sido muitas e no era difcil de acreditar que assim fosse quando se atentava no seu ar conquistador, na sua bela figura e na vivacidade que punha no relato dos seus xitos. Ainda que todas essas histrias fossem repassadas desse carcter um tudo-nada brejeiro, encanto e poesia do amor para os Franceses, o certo  que o capito falava com tanta sinceridade e tanta convico que dir-se-ia s ele, saber o que era o amor, e tal era a seduo que emprestava s suas heronas que Pedro no podia deixar de o seguir interessadssimo.
      Evidentemente que o amor de que falava Ramballe nem era essa paixo sensual e rasteira que Pedro outrora experimentara pela mulher nem essa paixo romntica, exaltada por natureza, que Natacha lhe inspirava: para estas duas espcies de amor ia o desprezo do francs. Para ele, o primeiro era o amor dos carreteiros, e o segundo o amor dos nscios. O amor que ele preferia andava relacionado a toda a sorte de combinaes estranhas e situaes extraordinrias, sua maior atraco para ele.
      Assim, contou a histria emocionante dupla paixo que tivera por uma marquesa de trinta e cinco anos e por uma filha desta, deliciosa e, inocente criatura de dezassete primaveras. O generoso debate entre me e filha e por fim o sacrifcio daquela, que ofereceu ao amante a mo da filha, todos estes acontecimentos, embora remotos, faziam estremecer o capito. E contou depois o curioso episdio, em que o marido tomara o lugar do amante e ele prprio, o amante, o lugar do marido. E a tudo isto acrescentou alguns pormenores cmicos das suas recordaes da Alemanha, pas em que o asilo se diz Unterkunft, os maridos comem choucroute e as raparigas so louras.
      Por fim, veio a ltima aventura, na Polnia, de fresca data, que contou com grandes gestos e de uma animao muito particular. Salvara a vida a um polaco (coisa curiosa, , nas suas histrias, Ramballe salvava sempre a vida a qualquer pessoa). O polaco confiara-lhe a as encantadora mulher, uma parisiense de corao, enquanto abalava ao servio da Frana. A felicidade do capito atingira o auge: a bela polaca ia fugir com ele. Mas ele, dominado por um sentimento de generosidade ainda mais forte, restituiu a mulher ao marido, dizendo-lhe: Salvei-lhe a vida e salvo-lhe a honra!. E ao repetir esta frase enxugou os olhos e abanou a cabea como para afastar de si a emoo que o tomava lembrando-se daquela emocionante recordao.
      Enquanto escutava o capito. Pedro, perturbado pelo tardio e pelo vinho que bebera, revia, em imaginao, a vaga de reminiscncias pessoais que o assaltavam. Todas aquelas histrias de amor lhe lembraram, de sbito, a sua prpria paixo por Natacha, e havia nela cenas que comparava mentalmente s das histrias de Ramballe. A luta entre o dever e o amor trazia-lhe  memria os mais pequenos pormenores do seu ltimo encontro ao p da Torre de Sukariev. Ento esse encontro pouco o impressionara e breve se lhe desvanecera do esprito. Mas agora, pelo contrrio, afigurava-se-lhe importantssimo e de um valor potico muito particular.
      Piotre Kirilitch, venha da, j o reconheci. Parecia estar a ouvir-lhe aquelas palavras, a ver-lhe os olhos, o sorriso, o chapelinho de viagem, as madeixas desgrenhadas do cabelo... E tudo isto se lhe afigurava qualquer coisa de terno e de comovedor.
      Finda que foi a histria da polaca, o capito perguntou a Pedro se tambm tivera oportunidade de se sacrificar de igual modo, sentindo cime pelo marido legtimo.
      Ao ouvir isto, Pedro levantou a cabea e de repente sentiu uma grande necessidade de abrir o corao. Explicou que, para ele, o amor no era a mesma coisa. Disse-lhe que em toda a sua vida apenas amara uma mulher, uma s, e que esta mulher nunca lhe poderia vir a pertencer.
      - Essa agora! - exclamou o capito.
      E explicou-lhe depois que amava essa mulher desde que a vira criana, mas que nunca ousara pensar nela, ento nova de mais, e ele, por sua vez, filho ilegtimo e sem nome para lhe dar. Mais tarde, quando viera a ter um nome e a ser rico, no quisera pensar nela, pois a amava muito, a punha acima de tudo e de todos, e por isso mesmo acima de si prprio.
      Ao chegar a esta altura das suas confidncias perguntou ao capito se ele o compreendia. Este, por um simples gesto, volveu-lhe que ainda mesmo que no compreendesse no era razo para ele interromper a sua histria.
      - O amor platnico, as nuvens... - murmurava.
      Ou o vinho que bebera ou a necessidade de se abrir ou ainda a certeza de que aquele homem no conhecia nem nunca viria a conhecer qualquer das pessoas de quem ele falava, eis o que, sem dvida, concorreu para a loquacidade de Pedro. Numa voz pastosa e os olhos vagos, ei-lo que prossegue na histria dos seus amores: contou-lhe o caso do seu casamento, a paixo de Natacha pelo seu melhor amigo, a traio desta e as suas relaes com ela, to pouco claras ainda. Compelido pelas perguntas de Ramballe, acabou por dizer o que de princpio escondera: a situao que ocupava na sociedade e at o seu verdadeiro nome.
      O que mais impressionava o capito em tudo isto era o facto de Pedro ser riqussimo, de possuir dois palcios em Moscovo, de tudo ter abandonado, tendo ficado na cidade escondendo o seu nome e a sua posio, em vez de partir. J a noite ia adiantada quando saram juntos. O cu estava sereno e claro. A esquerda lobrigava-se o claro do primeiro incndio que estalava em Moscovo, em Petrovka. A direita, a lua nova brilhava no alto da cpula celeste, enquanto do lado oposto esplendia o cometa, na alma de Pedro profundamente associado ao seu amor. A entrada da porta estavam Guerassime, a cozinheira e dois franceses. Ouviam-se as suas gargalhadas e as tentativas de conversa nas duas lnguas, sem que chegassem a compreender-se uns aos outros. Todos contemplavam o resplendor do incndio que alastrava pela cidade.
      Nada havia, contudo, de ameaador nesse pequeno incndio longnquo no meio da imensa capital.
      Ao contemplar o cu estrelado, a Lua, o cometa e o claro do incndio, Pedro sentiu que a alma se lhe inundava de alegria e enternecimento. Que belo tudo isto ! Que  preciso mais?, dizia de si para consigo. Mas de sbito, ao lembrar-se do seu projecto, sentiu como que uma vertigem e viu-se obrigado a apoiar-se  parede para no cair.
      Sem se despedir do seu novo amigo, afastou-se da porta em passos titubeantes e, entrando no seu quarto, estendeu-se no div, adormecendo instantaneamente,
      

      
      
      
      Captulo XXX
      
      O claro do primeiro incndio, no dia 2 de Setembro, foi visto de diferentes lados e produziu efeitos muito diversos nos habitantes que abandonavam a cidade e nas tropas que retiravam.
      O comboio dos Rostov encontrava-se nessa noite nos Grandes Mitichtchi, a umas vinte verstas de Moscovo. No dia 1 de Setembro a sua partida fora to tardia, a estrada estava de tal modo obstruda, tantas coisas tinham esquecido, mandadas buscar  ltima hora, que decidiram passar a noite apenas a cinco verstas da capital. No dia seguinte tinham-se levantado tarde e tantos foram os obstculos ainda no caminho que apenas puderam chegar aos Grandes Mitichtchi. As dez horas, os Rostov, bem como os feridos que os acompanhavam, distriburam-se pelos Ptios e as isbs daquela grande povoao. Criados, cocheiros e ordenanas dos feridos, depois de servirem os amos, comeram. Por sua vez deram de comer aos cavalos e vieram tomar ar para os alpendres.
      Numa dessas isbs encontrava-se o ajudante-de-campo de Raievski: tinha o pulso quebrado e as tremendas dores que sentia obrigavam-no a gemer constantemente, ressoando os seus gemidos lgubres na obscuridade da noite outonal.
      Este ajudante-de-campo passara a primeira noite no mesmo local que os Rostov. A condessa dissera que no tinha podido conciliar o sono, e por isso, nos Mitichtchi, instalaram-se numa isb menos confortvel, mas mais afastada do pobre homem.
      Um dos criados viu de repente, no meio das trevas da noite, do alto da boleia da carruagem que estacionava  entrada do ptio, um novo e plido claro. Era um novo incndio e toda a gente sabia que os Pequenos Mitichtchi estavam a arder, incendiados pelos cossacos de Mamanov.
      - Eh!, rapazes! Temos outro fogo! - exclamou.
      Todos se voltaram na direco indicada.
      - Dizem que os cossacos de Mamanov deitaram o fogo aos pequenos Mitichtchi.
      - No. No  isso.  muito mais longe. Olha bem. Parece em Moscovo.
      Dois criados desceram as escadas do alpendre, dirigiram-se para a carruagem e treparam para o estribo.
      -  mais  esquerda. Os Mitichtchi ficam para este lado, e o fogo  noutra direco.
      Outros criados vieram juntar-se ao primeiro.
      - Aquilo  que arde! - disse um deles - C na minha.  fogo em Moscovo, ou em Suchtchevskaia ou ento em Rogojskaia.
      Ningum replicou e por muito tempo todos ficaram a olhar para as labaredas daquele novo incndio que se erguia no horizonte.
      Um velho, a quem todos chamavam o criado de quarto do conde, um tal Danila Terentitch, aproximou-se do grupo para chamar Michka.
      - Que ests tu a a olhar, imbecil?... O conde est a chamar e ningum h para o atender: anda, trata de lhe ires arrumar a roupa.
      - Fui buscar gua - replicou Michka.
      - Que te parece. Danila Terentitch? No achas que  em Moscovo aquele claro? - perguntou um dos lacaios.
      Danila Terentitch, ficou calado e todos os demais o imitaram. As labaredas ondulavam e cada vez se estendiam mais.
      - Nosso Senhor nos valha! Com este vento e esta seca! - exclamou uma voz.
      - Olha como aquilo caminha! Deus nos acuda! Que Nosso Senhor tenha piedade de ns!
      - No tarda que o apaguem. Vais ver!
      - Quem o h-de apagar? - murmurou Danila Terentitch, que nada dissera at ento e cuja voz era lenta e serena. - , sim,  Moscovo, irmos,  a nossa me das brancas muralhas... A voz quebrou-se-lhe de sbito e soluou como os velhos costumam soluar.
      Era como se todos esperassem aquilo mesmo para compreenderem, finalmente, o tremendo significado daquele claro. Suspiros e oraes vieram sublinhar os soluos do velho criado do conde.
      

      
      
      
      Captulo XXXI
      
      Quando voltou para junto do amo, o criado de quarto participou-lhe que Moscovo estava a arder. O conde enfiou o roupo e foi verificar com os seus olhos o que o criado dizia. Snia, que ainda no estava despida, e Madame Schoss acompanharam-no. Natacha e a condessa ficaram sozinhas. Ptia, esse, j no estava com a famlia: partira com o seu regimento na direco de Troitsa.
      Quando lhe falaram do incndio de Moscovo, a condessa principiou a chorar. Natacha, muito plida, de olhos fixos, deixou-se ficar sentada no banco debaixo dos cones, que nem um s instante abandonara desde que chegara, e no prestou a mais Pequena ateno ao que o pai dizia. Estava  escuta dos gemidos contnuos do oficial, que continuavam a ouvir-se apesar de virem de algumas casas mais adiante.
      - Ah! Que horror! - exclamou Snia, toda a tremer, assustadssima, quando voltou para dentro. - Moscovo inteira est a arder. Que claro medonho! Vai ver, Natacha, v-se dali mesmo da janela - acrescentou, tentando arrancar a prima aos seus pensamentos. Mas Natacha fitou-a, como se no compreendesse o que lhe diziam e de novo fixou os olhos no canto da estufa. Desde manh que estava mergulhada naquela espcie de letargia, desde que Snia, com grande estranheza e irritao da condessa, no se sabe porqu, julgara necessrio dizer-lhe que o prncipe Andr fora ferido e fazia parte do comboio. A condessa exaltara-se e repreendera Snia como raramente o fizera. Snia chorara, pedira perdo, e agora, como para reparar a sua falta. A todo o momento se mostrava solcita para com a prima.
      - Olha, Natacha, que horroroso incndio!
      - Que est a arder? - perguntou Natacha. - Ah, sim, Moscovo! - E como para no melindrar Snia e se ver livre dela aproximou a cabea da janela, olhou para fora, de tal modo que era evidente nada ter visto, retomando em seguida a sua atitude anterior.
      - Mas tu nada viste!
      - Vi, vi - protestou Natacha, como implorando que a deixassem em paz.
      Tanto Snia como a condessa compreenderam que, acontecesse o que acontecesse. Natacha por nada poderia interessar-se, nem por Moscovo nem pelo incndio.
      O conde voltou a recolher-se atrs do tabique da isb e deitou-se. A condessa aproximou-se da filha, tocou-lhe na testa com as costas da mo, como costumava fazer quando ela estava doente, e aproximou-lhe os lbios da fronte, como se quisesse verificar se tinha febre.
      - Apanhaste frio? Ests toda a tremer? Devias deitar-te. - disse-lhe a condessa.
      - Deitar-me? Sim, vou deitar-me, sim, vou deitar-me j - murmurou Natacha.
      Desde que lhe disseram que o prncipe Andr, gravemente ferido, seguia com eles, comeara por fazer perguntas a seu respeito: queria saber quando e onde fora ferido, se o ferimento era grave, se o podia ver. Ao dizerem-lhe que o no podia ver, que era grave o ferimento, embora no mortal, ficou convencida de que, fizesse o que fizesse, nada mais saberia a esse respeito, e, ao ver que lhe no diziam toda a verdade, calou-se e nada mais perguntou. Durante todo o caminho conservara-se imvel no fundo da carruagem, com os grandes olhos muitos abertos, esses olhos que a me to bem conhecia e cujo estranho olhar tanto receava, e ali ficara sentada naquele banco. Em que pensava? Que deciso congeminava ou tomara j? A condessa suspeitava-a, sem saber ao certo, e esta incerteza atormentava-a e apavorava-a muito.
      - Natacha, despe-te, minha querida; vem para a minha cama. - S a condessa dispunha de cama; tanto Madame Schoss como as duas raparigas tinham de dormir na palha.
      - No, me, ficarei ali muito bem, no cho - replicou Natacha, com um movimento de impacincia e, aproximando-se da janela, abriu a vidraa.
      Os gemidos do ajudante-de-campo ouviam-se agora mais distintamente. Natacha debruou-se da janela para o ar hmido da noite e a condessa viu-lhe o pescoo delicado, arrepanhado pelos soluos, quando encostou a cabea ao caixilho. Sabia muitssimo bem que no era o prncipe Andr quem gemia. Sabia que ele estava deitado na isb contgua  deles, da qual a separava apenas um vestbulo, mas aquela queixa medonha, incessante, enchia-lhe os olhos de lgrimas. A condessa trocou um olhar com Snia,
      - Deita-te, querida, deita-te minha pequenina - disse ela, aflorando-lhe o ombro com a mo. - V, deita-te.
      - Ah, sim!... Vou j deitar-me, j - disse Natacha, principiando a despir-se  pressa. Arrancava os cordes das saias.
      Depois de tirar o vestido e enfiar uma camisa de noite, sentou-se, acocorada, em cima da cama de palha, no cho, e puxando para a frente os finos cabelos ps-se a fazer uma trana. Os seus longos dedos afuselados moviam-se rapidamente. E ia voltando a cabea, ora de um lado ora de outro, num gesto familiar. Os olhos, porm, dilatados, como se tivesse febre, permaneciam imveis e fixos. Assim que acabou de se arranjar, deitou-se, sem rudo, na coberta estendida em cima da palha, junto da porta.
      - Natacha, deita-te no meio - disse-lhe Snia.
      - Estou bem aqui - replicou ela. - E tu deita-te, tu tambm - acrescentou, repreensiva. E enterrou a cabea na almofada.
      A condessa, Madame Schoss e Snia despiram-se rapidamente e deitaram-se tambm. A nica luz acesa era a lamparina diante dos cones. Mas l fora o cu estava iluminado pelo incndio dos Pequenos Mitichtchi, a duas verstas dali, e ouviam-se os gritos dos homens na taberna saqueada pelos cossacos,  esquina da rua, enquanto os gemidos do oficial continuavam.
      Por muito tempo esteve Natacha, imvel, ouvindo os rudos que vinham da isb e l de fora. Ouviu, primeiro, a me que rezava, suspirando, depois o ranger da cama quando ela se deitou e em seguida o ressonar estridente, to seu conhecido, de Madame Schoss e a tranquila respirao de Snia. A certa altura a condessa chamou-a, mas Natacha no respondeu.
      - Acho que est a dormir, me - murmurou Snia.
      Depois de um curto silncio, a condessa voltou a chamar, mas desta vez ningum lhe respondeu.
      Da a pouco Natacha ouvia a pausada respirao da me. No se mexia, embora tivesse o pzinho nu gelado, pois o mantinha fora da roupa da cama, em contacto com o cho.
      Como para comemorar a sua vitria sobre toda aquela gente adormecida, um grilo, na sua toca, ps-se a cantar. L longe ouviu-se o cocoroc de um galo, enquanto outro, mais perto, lhe respondia. Na taberna j se no ouvia gritar. Continuava, porm, e sempre, a queixa do ajudante-de-campo. Natacha soergueu-se na cama.
      - Dormes. Snia? Me? - murmurou.
      Ningum lhe respondeu. Levantou-se sorrateiramente, persignou-se e pousou os delicados ps descalos no sobrado sujo e frio, que rangeu. Em passinhos rpidos, de gato, correu para, a porta e deitou as mos ao fecho gelado.
      Afigurava-se-lhe que as paredes da isb vibravam em pancadas surdas e regulares: era o seu corao anelante que parecia rebentar de susto, de horror e amor.
      Abriu a porta, transps o limiar e pousou os ps na terra hmida e fria do vestbulo. O frio reanimou-a. No escuro tocou com o p descalo no corpo de um homem que dormia, passou-lhe por cima e abriu a porta do quarto onde estava o prncipe Andr. Era grande a escurido l dentro. Num recanto, ao fundo, junto de uma cama onde se via um vulto estendido, uma vela de sebo pousada num banco ardia, fumarenta.
      Desde que Natacha soubera, nessa manh, que o prncipe Andr estava ali e ferido, resolvera v-lo. Sabia porque considerava isso um dever seu, embora, tivesse a certeza tambm de que esse encontro seria para ela um suplcio atroz.
      Durante, todo o dia no pensou noutra coisa seno em v-lo quando viesse a noite. Agora, porm, que o momento chegara, enchia-a de horror a ideia do espectculo que se lhe ia apresentar. At que ponto estaria ele desfigurado? Teria todos os seus membros? Estaria to mal como o pobre do ajudante-de-campo, sempre a gemer? Sim, devia estar no mesmo estado. Na sua imaginao, aquela queixa horrvel representava-o inteiro. Ao descobrir, ao canto, aquela forma vaga, cujos joelhos, soerguendo a coberta, se lhe afiguravam uns ombros, julgou ter diante de si qualquer coisa de monstruoso e deteve-se, apavorada. Mas uma ora irresistvel a obrigou a continuar. Avanou cautelosamente, passo a passo, e achou-se no meio de um compartimento atulhado de coisas. No banco, debaixo dos cones, estava deitado outro corpo, o de Timokine, e no cho ainda havia mais dois - um, o mdico, e o outro, o criado do prncipe. Este soergueu-se e pronunciou quaisquer palavras. Timokine, cujo ferimento na perna muito o fazia sofrer, no dormia e olhava, de olhos muito abertos, a estranha apario aquela menina apenas de camisa de noite branca, de camisola, e os cabelos apanhados na touca de dormir. As palavras pronunciadas pelo criado meio adormecido: Que  preciso? Quem est a?, levaram Natacha a apressar o Passo para mais depressa chegar onde estava deitado o vulto que de longe entrevira. Por mais mutilado e horrvel que esse corpo estivesse, tinha de o ver. Passou junto do criado: o pavio da vela agitou-se, projectando uma luz mais viva, e ela pode ver distintamente o prncipe Andr, as mos estendidas sobre a coberta, como sempre o conhecera.
      Estava como sempre fora, mas o rosto afogueado pela febre, os olhos brilhantes fitos nela, numa grande exaltao, sobretudo o pescoo delicado, como o de uma criana, emergindo-lhe do colarinho entreaberto da camisa, tudo isso lhe dava  fisionomia um ar de candura e juventude que ela nunca lhe vira. Aproximou-se, e num movimento rpido, elstico e gracioso, ajoelhou diante dele. Ele sorriu-lhe e estendeu-lhe a mo.
      

      
      
      
      Captulo XXXII
      
      Sete dias tinham decorrido desde que o prncipe Andr recuperara os sentidos na ambulncia do campo de batalha de Borodino. Durante todo esse tempo esteve, por assim dizer, em estado de quase constante inconscincia. A febre e a inflamao dos intestinos, consequncia, do ferimento que recebera, deviam ser-lhe fatais, na opinio do mdico que o acompanhava. A verdade, porm,  que no stimo dia tomou com apetite uma chvena, de ch com uma cdea de po e o mdico pode verificar que o estado febril baixara. Pela manh recuperara a conscincia. Na primeira noite aps a partida de Moscovo, como estava bastante quente, permitira-lhe que dormisse no seu carro, mas nos Mitichtchi ele prprio pedira que o transportassem para debaixo de telha e lhe dessem uma chvena de ch. O sofrimento que lhe causou, porm, esse curto trajecto f-lo gemer de dor e perder de novo os sentidos. Quando o deitaram na cama de campanha, por muito tempo ficou estendido de olhos fechados sem fazer o mais pequeno movimento. Depois abriu os olhos para murmurar: E o ch?. A conscincia que mostrava dos mais pequenos pormenores da vida surpreendeu o mdico. Tomando-lhe o pulso, verificou, no sem grande surpresa e algum desgosto, que estava melhor. No fora com grande satisfao que verificara o facto, pois, por experincia, sabia que o ferido no podia sobreviver e que se no morresse agora morreria pouco depois e no meio dos maiores sofrimentos, Desde Moscovo que se juntara ao grupo do prncipe Andr o major do seu regimento, Timokine, o militar de nariz rubicundo, ferido numa perna tambm na batalha de Borodino. Acompanhavam-nos o mdico, o criado do prncipe, o cocheiro e duas ordenanas.
      Trouxeram a chvena de ch ao prncipe Andr. Bebeu avidamente, enquanto os olhos febris se voltavam para a porta que ficava na sua frente, como a tentar lembrar-se de qualquer coisa muito confusa.
      - No quero mais. Timokine est a? - perguntou.
      Timokine arrastou-se no banco at junto dele.
      - Presente, Excelncia.
      - Como vai essa ferida?
      - A minha? No vai mal. E a sua?
      O prncipe Andr ps-se a cismar, como se procurasse fosse o que fosse na memria.
      - Poder-me-iam arranjar um livro?  - disse ele.
      - Que livro?
      - O Evangelho. No o tenho comigo.
      O mdico prometeu que lhe arranjaria um e perguntou-lhe como estava. O prncipe Andr respondeu de m vontade a todas as perguntas, mas com tino, depois pediu que lhe pusessem uma almofada debaixo para o aliviar um pouco das dores que sentia. O mdico e o criado soergueram o capote que o cobria e, respirando a custo, tal o cheiro pestilencial que se derramava da ferida, puseram-se a examinar a terrvel chaga. O mdico no pde esconder o seu descontentamento e, fazendo-lhe outro penso, voltou o ferido, o que lhe provocou gemidos de dor, levando-o a perder de novo os sentidos e a delirar, Repetia sem cessar que lhe trouxessem o livro e que lho pusessem ao lado.
      - Que lhes custa? Preciso dele. Dem-mo, faam favor. Ponham-no ali, nem que seja s por um momento - dizia, em voz queixosa.
      O mdico saiu para o vestbulo na inteno de lavar as mos.
      - Ah! Malditos! Como hei-de eu confiar em vocs? - dizia para o criado, que lhe despejava gua nas mos. - Basta que me distraia um minuto. Ah! No sei como ele pode suportar semelhantes dores!
      - Julgava que o tnhamos tratado bem, Jesus, meu Deus. - exclamou o criado.
      Pela primeira vez o prncipe Andr compreendeu onde estava e o que lhe acontecera. Lembrou-se de que fora ferido e que quando a sege parara nos Mitichtchi pedira que o levassem para uma isb. Tendo ento perdido de novo os sentidos, voltou a si quando o instalaram na isb, ao pedir o ch, e ali lhe veio ao esprito tudo o que lhe acontecera. E reviu com toda a nitidez esse instante em que, na ambulncia, ao ver quanto sofria o homem que ele mais detestava neste mundo, se sentira invadido por pensamentos que o haviam enchido de alegria. E eram esses mesmos pensamentos, conquanto mais confusos e nublados, que de novo se lhe apoderavam da alma. Percebeu que experimentava ento uma felicidade desconhecida e sentiu que essa felicidade estava intimamente relacionada com o Evangelho, e por isso reclamara esse livro. Porm, as dores que tornou a sentir no momento em que lhe faziam o penso e o voltavam mais uma vez toldaram-lhe as ideias e quando voltou a ter conscincia das coisas anoitecera por completo. Toda a gente dormia  sua volta. Um grilo cantava no vestbulo; l fora ouviam-se vozes e canes. As baratas corriam pela mesa, pelos cones, pelos tabiques; uma grande mosca zumbia junto da cabeceira da cama, esvoaando em volta da vela colocada junto do leito e escorrendo sebo.
      Do ponto de vista mental, o prncipe Andr no estava em estado normal. O homem de esprito so aplica a sua faculdade de pensar, de sentir, de se recordar, simultaneamente, a um nmero infinito de coisas, mas dispe do poder e da fora necessrios, desde que se detm num objecto determinado, para concentrar nele toda a sua ateno. O homem de esprito no sabe interromper os seus pensamentos mais absorventes para saudar a pessoa que chega e voltar em seguida s suas reflexes. Mas a verdade  que o prncipe Andr, desse ponto de vista, se achava num estado de esprito completamente anormal. As suas faculdades mentais mostravam-se mais activas e mais lcidas do que nunca, mas agiam independentes da sua vontade. As imagens e o pensamentos mais diversos ocupavam-lhe simultaneamente o esprito. Por vezes, o pensamento trabalhava com uma tal fora, uma tal clareza e uma profundeza tais como jamais lhe seria possvel de perfeita sade, e de sbito, em plena elaborao mental, a cadeia dos pensamentos quebrava-se-lhe e via-se substituda por toda a sorte de representaes inesperadas, sendo-lhe impossvel refaz-la.
      Sim, uma felicidade desconhecida, que ningum pode tirar ao homem, se me revelou, pensava, na meia obscuridade do quarto, fixando em frente, os olhos dilatados pela febre, uma felicidade sobre que no tm o mais pequeno poder as foras fsicas, as influncias exteriores, a felicidade pura da alma, a felicidade do amor! Todos ns a podemos compreender, mas s Deus tem o poder de no-la dar a conhecer e de no-la revelar. Mas como nos revelou Deus esta lei de perfeita felicidade? Foi o Filho?...
      De sbito o fio dos pensamentos quebrou-se-lhe e sem poder saber se era o delrio que o levava consigo ou se ouvia, realmente, alguma coisa, pareceu-lhe perceber uma voz que sussurrava constante e cadenciadamente as mesmas slabas lancinantes: Piti... piti... ! Ao mesmo tempo, ao som dessa estranha msica, sentia, em pleno rosto, erguer-se-lhe como que uma construo mgica e fantstica, formada de finas agulhas e levssimas aparas. Dava conta, apesar de isso lhe ser muitssimo penoso, de que devia esforar-se por mant-la em equilbrio e impedir que essa construo casse por terra, mas a verdade  que ela acabava por ruir e voltava a reedificar-se, lentamente, ao com- passo da mesma msica cadenciada e pipilante. Vai subindo; vai subindo! Vai subindo sempre!, dizia para consigo mesmo. E no meio destas impresses de msica mrmura e do edifcio que se levantava, via, por momentos, o crculo vermelho do pavio da vela, ouvia o restolhar das baratas e o zumbir da mosca embatendo contra a almofada da cama e a cara. E de cada vez que lhe tocava no rosto sentia como que uma sensao de queimadura, surpreendidssimo por, embatendo ela precisamente no ponto onde se levantava o tal estranho edifcio, o no deitar por terra. Alm disso, outro fenmeno importante se verificava ainda. A porta havia qualquer coisa branca, como que uma esfinge, que c, esmagava a ele tambm.
      No. No pode ser. Talvez seja apenas a minha camisa em cima da mesa, pensava. Ali esto as minhas pernas, e acol a porta. Mas porqu, ento, este edifcio crescendo, crescendo, e esta msica: Piti... piti...? Basta, peo-lhe, basta,  de mais!, implorava. E subitamente os pensamentos e os sentimentos o assaltaram de novo, claros, poderosos como habitualmente.
      Sim, o amor, disse consigo mesmo, de novo, completamente lcido. Mas no esse amor que se sente por alguma, coisa e por algum, mas o amor como eu o senti pela primeira vez quando, no limiar da morte, se me deparou o meu inimigo e o amei. Senti ento essa espcie de amor por assim dizer a essncia da nossa alma e que dispensa perfeitamente o objecto amado. E ainda agora mesmo continuo a sentir esse bem-aventurado amor. Amar o prximo, amar os nossos inimigos, amar tudo e todos  amar Deus em todas as Suas manifestaes. Amar algum querido  amor de homem; s a um inimigo nos  dado amar com o amor de Deus. E a est porque senti felicidade tamanha ao compreender que amava aquele homem. Que teria sido feito dele? Estar vivo ainda?... Quando queremos com um amor de homem, -nos fcil passar do amor ao dio, mas o amor de Deus, esse, no pode trair. Nada, nem a prpria morte, o pode destruir.  a essncia da prpria alma. Odiei muita gente na minha vida. Mas a ningum amei e odiei tanto como a ela. E diante dos olhos surgia-lhe, com toda a nitidez, Natacha, no como outrora, envolta apenas em seus encantos exteriores. Pela primeira vez penetrava no intimo da sua prpria alma. Percebia os seus sentimentos, as suas dores, a sua vergonha, o seu arrependimento. E agora, pela primeira vez, compreendia a crueldade da sua, repulsa, a crueldade do rompimento com ela. Se ao menos me fosse dado, uma s vez, no queria mais, tornar a v-la! Uma s vez tornar a ver-lhe os olhos e dizer-lhe...
      Piti, piti, ti, ti..., titilava-lhe aos ouvidos, enquanto a mosca lhe embatia na cara. E de sbito sentiu-se arrebatado para esse inundo, misto de realidade e alucinao, onde havia to estranhas vises. O edifcio, sem se desmoronar, continuava a crescer. Tornou a ver o crculo vermelho da vela, a esfinge, a sua camisa, perfilada  porta. Mas, alm disso, ouviu um estalido, uma aragem fresca lhe bafejou a cara, e eis que uma nova esfinge branca, de p, surgiu  porta. E essa esfinge tinha o rosto plido e os olhos brilhantes, exactamente como os de Natacha, em quem ele acabava de pensar.
      Oh!, que doloroso este delrio!, disse para si mesmo, procurando afastar dos olhos aquela apario. Mas a forma que se erguia diante dele com o contorno de coisa real ia-se aproximando. Teria desejado voltar aos domnios do pensamento que acabava de abandonar, mas no lhe era possvel e ei-lo irresistivelmente arrastado para as regies do sonho. A voz tranquila e sussurrante continuava a entoar a sua cadenciada melodia. Qualquer coisa o sufocava, se erguia, e a estranha figura sempre diante dele. Para recuperar a noo das coisas chamou a si todas as foras de que dispunha. Esboou um movimento, mas, de sbito, zumbiram-lhe os ouvidos, a vista toldou-se-lhe e, como um homem que se afoga, perdeu os sentidos.
      Quando voltou a si, Natacha, a Natacha de carne e osso, aquela a quem ele, entre todas as criaturas humanas, queria amar com esse novo amor, esse amor puro e divino que se lhe revelara, estava de joelhos diante dele. Compreendeu estar realmente em presena da verdadeira Natacha, e em vez de surpreendido sentiu-se tomado de uma tranquila alegria, Natacha, de joelhos, sem ousar mexer-se, os olhos pvidos fixos nele, sufocava os soluos que lhe abalavam o corpo. Estava plida e tinha , expresso imvel. Apenas a parte inferior do rosto se lhe agitava com um tremor nervoso.
      O prncipe Andr suspirou aliviado, sorriu e estendeu-lhe a mo.
      - Mas ... Que felicidade!
      Natacha chegou-se mais para ele, sempre de joelhos, pegou-lhe cautelosamente na mo, inclinou sobre ela a cara e beijou-a mal a aflorando com os lbios.
      - Perdoe-me! - murmurou, erguendo para ele os olhos. - Perdoe-me!
      - Amo-a - disse ele. - Perdoe-me...
      - Que lhe hei-de perdoar?
      - Perdoe-me o que lhe fiz - murmurou ela, numa voz entrecortada e quase imperceptvel, continuando a beijar-lhe a mo. - Amo-te, muito mais, muito melhor que antigamente - voltou ele, forando-a a soerguer a cabea, para lhe ver os olhos.
      Os olhos de Natacha, rasos de lgrimas felizes, pousaram-se nos dele, timidamente, cheios de compaixo, de alegria e de amor. O seu rosto plido e afilado, de lbios tmidos, no era belo, metia medo. Mas Andr no reparava nele, apenas via a beleza daqueles olhos cintilantes.
      Um rudo de vozes se ouviu atrs deles.
      O criado de quarto, Piotre, que entretanto despertara completamente, sacudia o mdico. Timokine, sem dormir por causa das dores que o ferimento da perna lhe ocasionava, que vira toda a cena, encolhera-se no banco, puxando para si, cautelosamente, a roupa que o cobria.
      - Que ? - perguntou o mdico soerguendo-se na enxerga. Faa favor de se retirar, menina.
      Nessa altura uma criada que viera atrs de Natacha a mandado da condessa batia  porta.
      Como uma sonmbula a quem despertassem no meio do sono. Natacha acompanhou-a e quando chegou ao quarto deixou-se cair a soluar em cima da cama.
      Desde aquele dia, durante a longa jornada dos Rostov, aproveitando as paragens e os lugares onde pernoitavam, Natacha aparecia sempre junto de Bolkonski. O mdico vira-se obrigado a reconhecer que nunca imaginara numa rapariga tanta firmeza e tanta habilidade para tratar de um doente. Apesar do horror que lhe causava a ideia de que o prncipe iria morrer durante a viagem e entre as mos de sua filha, hiptese, segundo o mdico, muito verosmil, a condessa viu-se obrigada a transigir. Ao ver reatadas aquelas relaes chegou a pensar que se o prncipe se curasse talvez viessem a ficar noivos outra vez. A verdade, porm,  que ningum falava em tal coisa e muito menos os prprios interessados, O dilema vida ou morte, suspenso no s sobre a cabea de Bolkonski, mas sobre a Rssia inteira, em nada mais deixava pensar.
      

      
      
      
      Captulo XXXIII
      
      No dia 3 de Setembro, Pedro acordou tarde. Doa-lhe a cabea. O fato que no despira para dormir enrodilhava-se-lhe no corpo e sentia a vaga conscincia de que cometera na vspera qualquer acto vergonhoso. Esse acto era a conversa ntima com o capito Ramballe.
      O relgio mareava onze horas, mas l fora estava muito escuro. Pedro levantou-se, esfregou os olhos, e ao ver a pistola de punho incrustado que Guerassime voltara a pr em cima da secretria lembrou-se onde estava e do que tinha a fazer precisamente nesse dia.
      No estarei j atrasado?, interrogou-se a si mesmo. No,  de crer que ele no entre em Moscovo antes do meio-dia. No se permitiu sequer pensar no que tinha a fazer, tratou de o pr em prtica o mais depressa possvel.
      Depois de pr algum alinho na roupa que o incomodava, pegou na pistola, decidido a partir. S ento, porm, lhe veio  mente como levar rua fora a arma de que precisava, j que a no podia levar na mo. Nem mesmo debaixo do amplo cafet lhe seria possvel esconder a grande pistola, e se a levasse  cintura ou debaixo do brao toda a gente daria por isso. Alis, a pistola estava descarregada e no tivera tempo de a carregar de novo. Um punhal tambm servia, dizia de si para consigo, embora mais de uma vez, ao pensar na realizao daquele projecto, tivesse considerado o emprego do punhal o maior erro do estudante que em 1809 quisera matar Napoleo. No entanto, como o que lhe importava antes de mais nada no era realizar o acto projectado, mas provar a si prprio que no renunciava a ele e que estava disposto a tudo fazer para conseguir o seu fim, pegou . Pressa no punhal da bainha verde, cheio de mossas, que comprara aquando a pistola ao p da Torre de Sukarieve, e escondeu-o debaixo do colete.
      Depois de afivelar o cinturo do cafet e de enterrar o barrete at aos olhos, cautelosamente, no fosse acordar algum ou encontrar-se cara a cara com o capito, atravessou o corredor e saiu para a rua.
      O incndio que na vspera to pouca ateno lhe merecera estendera-se durante a noite por uma larga rea. Moscovo ardia j por todos os lados. O fogo atingia ao mesmo tempo a Rua Karetnaia, o bairro do outro lado do rio, Gostini Dvor, a Povarskaia, onde ardiam as barcas, e os estaleiros de madeira junto  Ponte Dorogomilov.
      Pedro pensava dirigir-se, atravs de ruas desviadas, . Rua Povarskaia, e da seguir at  de Arbate, donde seguiria para S. Nicolau Iavleni, onde de antemo assentara executar o acto que congeminara. A maior parte das casas tinha os portas e as portadas das janelas cerrados, Ruas e becos estavam desertos. No ar pairava o cheiro a fumo e a queimado. De vez em quando encontravam-se russos, de expresso tmida e inquieta e franceses, de ar marcial, seguindo pelo meio das caladas. Tanto uns como outros olhavam para Pedro com espanto. A sua alta estatura, a sua corpulncia e o seu rosto carrancudo e concentrado em que havia uma espcie de sofrimento j de si chamavam a ateno. Enquanto os russos o examinavam perguntando a si mesmos a que classe poderia pertencer aquele, indivduo, os franceses seguiam-no com a vista, simplesmente porque, em vez de os olhar, a eles, como faziam os seus demais compatriotas, cheios de inquieta curiosidade, no lhes prestava a menor ateno. Junto ao portal de uma casa, trs franceses, que tentavam explicar o que quer que fosse a uns russos, que os no compreendiam, detiveram Pedro para lhe, perguntar se ele sabia francs. Pedro abanou a cabea negativamente e prosseguiu o seu. Mais adiante, uma sentinela de guarda a um armo pintado de verde gritou-lhe que se afastasse e s depois da segunda e rspida advertncia, ao ouvi-lo engatilhar a espingarda, compreendeu que devia seguir pelo outro lado da rua... No via, nem ouvia o que se passava  sua roda. Dir-se-ia, levar consigo o seu projecto, apressado e apavorado, e sem poder esquecer o que lhe acontecera lia noite anterior, como quem transporta, cheio de medo de o perder, um objecto terrvel que lhe no pertence. Ainda mesmo que o no tivessem retido no caminho, esse projecto no se teria realizado, pois havia mais de quatro horas naquele momento que Napoleo, depois de atravessar os arrabaldes de Dorogonulov, cruzara o Arbate para dirigir-se ao Kremlin, onde naquela altura, sorumbtico e preocupado, no gabinete do czar, dava ordens pormenorizadas sobre a, extino imediata do incndio que lavrava em Moscovo, a represso da pilhagem e a tranquilidade dos habitantes da capital. Pedro, contudo, ignorava-o Inteiramente absorto no presente, o que o atormentava, como acontece a todos os obstinados que se propem realizar qualquer coisa impossvel, no eram as dificuldades que teria, mas o facto de a sua natureza ntima recalcitrar contra um acto daquela espcie: tinha medo de fraquejar no momento decisivo, perdendo, assim, toda a considerao por si prprio. Embora cego e, surdo ao que se passava  sua roda, por instinto seguia caminho certo e no se enganava no meio do ddalo de ruas e ruelas que levavam a Povarskaia.
       medida que se aproximava, o fumo era cada vez mais denso. Por vezes fazia j um certo calor. Aqui e ali erguiam-se chamas dos telhados das casas. Havia mais gente nas ruas e as pessoas pareciam mais desassossegadas. Pedro, embora percebesse estar a passar-se qualquer coisa de anormal, ainda no se dera conta de que se aproximara do corao do incndio. Na altura em que metia por um caminho atravs de vastos terrenos devolutos, que por um lado iam at  Rua Povarskaia e pelo outro confinavam com os jardins do palcio do prncipe Gruzinski, ouviu, de sbito, muito perto, gritos desesperados de mulher. Estacou, como se de chofre acordasse de um sonho e ergueu a cabea.
      De um dos lados do caminho, sobre a erva seca e poeirenta, amontoavam-se mveis e objectos caseiros: colches, samovares, cones, bas. Junto de tudo aquilo sentava-se uma mulher magra e idosa, cujos dentes superiores eram grandes e salientes, com uma capa preta pelas costas e um gorro na cabea. Balouando-se e dizendo palavras sem nexo, soltava grandes soluos. Duas pequenitas, entre dez e doze anos, de vestiditos sujos e capitas de peles, olhavam para a me, muito plidas, assustadas. Um rapazinho, mais novo ainda, dos seus sete anos, de cafet pelas costas e um chapu grande de mais na cabea, chorava nos braos de uma velha ama. Sentada num ba estava uma criada srdida, descala, que, desfazendo a trana dos cabelos louros, arrancava as madeixas queimadas, cheirando-as. O marido da mulher magra e idosa, gordalhudo, de uniforme de funcionrio pblico, mediana estatura, suas encaracoladas e um pouco curvado, remexia, impassvel, nos bas amontoados uns sobre os outros, a procura de roupa.
      Vendo Pedro, a mulher quase se lhe atirou aos ps.
      - Padres santos! Cristos ortodoxos! Salve-nos, acuda-nos, meu senhor! Seja quem for, acuda-nos - gritava-lhe, soluando. - Uma menina!... A minha filha!... A minha filha mais nova, deixaram-na l... Est queimada! Oh!, oh! Foi para isso que eu lhe dei tanto mimo... Oh!, oh!, oh!
      - Ento, basta. Maria Nikolaievna - exclamava o marido, numa voz serena, naturalmente apenas para se desculpar diante do estranho. -  provvel que a nossa irm a tenha levado. Se assim no fosse, onde havia ela de estar?
      - Monstro! Malandro! - gritou a mulher enfurecida, cessando, subitamente, de se lamentar. - No tens corao, nem sequer tens pena da tua filha! Outro que fosses, tinha-la ido arrancar s chamas. Mas s um monstro, no s um homem, no s um pai. Oua o senhor  um mancebo s direitas - continuou ela, mudando rapidamente de tom, e choramingando, voltada para Pedro. - O fogo andava na casa ao lado da nossa e - depois passou para o lado de c. A minha criada principiou a gritar: Fogo, fogo! Tratmos logo de salvar as nossas coisas. Fugimos com o que tnhamos no corpo. - Aqui tem o que a gente pde salvar... Este cone, abenoado por Deus, e a cama do meu dote. Tudo o mais l ficou. Juntmos as crianas. A Katetchka, nada! Oh!, oh!, oh! Senhor!... - E recomeou a soluar. - A minha filhinha morreu queimada! Morreu queimada!
      - Mas onde ficou? - inquiriu Pedro.
      Pela expresso animada que lhe entreviu, a mulher percebeu estar ele disposto a ajud-la.
      - Paizinho! Meu Paizinho! - soluou ela, abraando-se-lhe aos joelhos. - Meu benfeitor, sossega ao menos o meu corao... Aniska, estafermo, anda, acompanha-o - gritou ela, furiosa, para a criada, abrindo muito a grande boca e deixando ver ainda mais os imensos dentes.
      - Venha comigo, venha comigo, eu... eu farei tudo que for possvel - deu-se pressa em dizer Pedro numa voz embargada.
      A criada emergiu l do meio das malas e bas, deu um jeito  trana e com um grande suspiro meteu-se a caminho, descala.
      Dir-se-ia que Pedro voltava subitamente  vida depois de um longo desmaio. Ergueu a cabea, os olhos fuzilaram-lhe, depois seguiu apressadamente atrs da criada, juntou-se a ela e enfiou pela Rua Povarskaia. Uma negra e espessa fumarada enchia a rua. Lnguas de fogo rodopiavam dos telhados e das janelas. Grande multido se agrupava nas imediaes do incndio. No meio da rua, um general francs arengava s pessoas que o cercavam. Pedro, ao lado da criada, ia aproximar-se do local onde estava o oficial francs quando um soldado lhe cortou o passo. 
      - No se pode passar - gritou-lhe.
      - Por aqui, Tiozinho - disse-lhe a criada. - Vamos por aqui, pela Rua de S. Nicolau.
      Pedro deu meia volta e seguiu atrs da mulher, em grandes passadas, para poder acompanh-la. Esta atravessou a rua a correr, voltou  esquerda, meteu por um beco e, depois de ultrapassar duas ou trs casas, enfiou,  direita, por um portal.
      -  mesmo ali - exclamou.
      Atravessou o ptio correndo, abriu a cancela da divisria e, detendo-se, apontou a Pedro um pavilhozinho de madeira a arder e do qual se desprendia muito calor. Metade j as chamas tinham devorado; o resto ainda ardia e uma labareda muito clara saa das aberturas das janelas e do tecto.
      Assim que transps a cancela, o bafo do calor sufocou-o, recuando involuntariamente.
      - Qual, qual  a vossa casa? - perguntou.
      - Aquela! - choramingou a criada, apontando para o pavilho. -  aquela a nossa casinha, aquela! E tu l no meio das chamas, Katetchka, minha querida menina... - Diante da casa em chamas, Aniska julgava-se obrigada a dar testemunho dos seus sentimentos.
      Pedro avanou direito ao pavilho, mas o calor que dele irradiava era tal que viu-se obrigado a contorn-lo e assim veio a, achar-se diante de um casaro que estava a arder num dos ngulos do telhado e em volta do qual enxameavam muitos franceses. De princpio no percebeu o que estavam a, fazer, carregando vrias coisas, mas ao ver um deles vibrar duas sabradas num campons para lhe arrancar das mos uma capa de peles de raposa, compreendeu vagamente que andavam na pilhagem. Alis, no teve tempo sequer de pensar duas vezes. O fragor das paredes e dos vigamentos desmoronando-se, o silvo das chamas, os gritos estridentes da multido, os penachos de fumo, ora negros e espessos, ora mais transparentes e sulcados pela cintilao das fagulhas, das chamas, quer vermelhas, compactas, como medas de fogo, quer como escamas de ouro, trepando ao longo das paredes das casas, tudo isto e a sufocao que a carreira lhe causara e a transpirao produzida pelo calor criaram nele um estado de enervamento vulgar em tais circunstncias. To violento foi o efeito nele produzido por tudo isto que de sbito se sentiu como que liberto dos pensamentos que o obcecavam. Dir-se-ia mais novo, mais alegre, mais gil e decidido. Contornou o pavilho pelo lado da casa e arremetia j pela parte ainda de p, quando, precisamente por cima da cabea, ouviu gritos, logo seguidos de um estalido e do som de qualquer coisa pesada que lhe veio cair ao lado.
      Pedro voltou-se: uns franceses atiravam, de uma janela abaixo, a gaveta de uma cmoda cheia de objectos de metal. Outros soldados franceses, em baixo, aproximaram-se.
      - Bem, que  que ele quer? - gritou um deles ao ver Pedro.
      - Uma criana nesta casa. No viu uma criana? - perguntou este.
      - Essa agora! Que est ele a dizer? Vai passear! - exclamaram diversas vozes e um dos soldados, receoso de que Pedro lhe roubasse algumas das alfaias de prata e bronze que enchiam a gaveta, avanou para ele, ameaador.
      - Uma criana? - gritou um francs l de cima. - Ouvi piar algum no jardim. Talvez seja o garoto do pobre diabo.  preciso sermos humanos...
      - Onde est ele? Onde est ele? - inquiriu Pedro.
      - Ali! Ali! - gritou-lhe o francs, da janela, apontando-lhe para o jardim por detrs da casa.- Espere, eu vou l abaixo.
      E, realmente, momentos depois, o francs, um rapago moreno, com uma mancha na cara, em mangas de camisa, saltava pela janela do rs-do-cho e, dando uma palmada no ombro de Pedro, corria com ele para o jardim.
      - Despachem-se - gritava o francs aos camaradas- Comea a aquecer.
      Travando do brao de Pedro, levou-o consigo para as traseiras da casa, por um caminho areado, e olhou em roda. Debaixo de um banco, deitada, estava uma pequenita dos seus trs anos com um vestidinho cor-de-rosa.
      - Aqui tem o seu garoto. Ah!,  uma pequena! Ainda bem! - exclamou ele. - Adeus!  preciso sermos humanos. Somos todos mortais. - E voltou para junto dos camaradas.
      Sufocado de alegria, Pedro correu para a pequenita e quis pegar-lhe ao colo. Mas esta, uma pobre criana de aspecto enfermio e expresso desagradvel, tal qual a me, principiou a gritar assim que viu um estranho caminhar para ela, fugindo. Pedro conseguiu, no entanto, deitar-lhe a mo. Ento os seus gritos recrudesceram, esperneando, sacudindo as mos para lhe escapar e tentando mesmo mord-lo. Um sentimento de repulsa e horror se apoderou de Pedro; dir-se-ia que Locara num animal repugnante. Teve de vencer a sua relutncia para no abandonar ali mesmo a criana, e correu para a casa com o fardo nos braos. J no era possvel, contudo, seguir o mesmo caminho. Aniska j no estava onde ele a deixara, e ento Pedro, estreitando contra si, num misto de carinho e repugnncia, a pequenita, que gritava com desespero, abalou com ela, jardim fora, na esperana de encontrar outra sada.
      

      
      
      
      Captulo XXXIV
      
      Quando, depois de atravessar vrios ptios e becos, voltou ao jardim de Gruzinski,  esquina da Rua Povarskaia, sempre com a criana nos braos, Pedro principiou por no reconhecer o stio onde estava, tanta a gente ali acumulada e tantos os salvados das casas em volta. Alm das famlias russas e dos seus haveres arrancados ao fogo, viam-se ali soldados franceses de diversos regimentos. Pedro no reparou neles. Tinha pressa de encontrar a famlia do funcionrio para entregar a criana  me e voltar prestar os seus servios na esperana de ser til. Parecia-lhe que ainda havia muita coisa a fazer e que era preciso no perder tempo. Excitado pela carreira e pelo calor das chamas, ainda mais sentia o ardor juvenil e a energia que se apossaram dele quando acorrera a salvar a criana. A pequenita calara-se, e fincando as mozitas no cafet de Pedro aninhava-se-lhe nos braos, olhando  roda com uns olhitos de animal bravio. Pedro mirava-a de quando em quando e sorria-lhe. Havia qualquer coisa de comovedor na expresso assustada daquela carinha inocente e enfermia.
      Do funcionrio e da mulher nem rasto no lugar onde ele os deixara, E l ia, em grandes passadas, de grupo em grupo, perscrutando toda a gente. Ao passar, em dada altura, viu uma famlia georgiana ou armnia: um velho, de belo tipo oriental, de tulupe debruada e botas novas, uma velha do mesmo tipo e uma rapariga. Esta ltima, muito nova, afigurou-se-lhe um exemplar perfeito de beleza oriental, com as suas sobrancelhas negras, arqueadas, de perfeito desenho, e o seu belo e longo rosto corado, de uma extraordinria doura, se bem que absolutamente inexpressivo.
      No meio de todos aqueles objectos espalhados pelo cho, entre aquela multido, naquela praa, com a sua rica capa de cetim pelas costas e na cabea o seu leno violeta-vivo, dir-se-ia uma delicada planta de estufa abandonada  neve. Sentada em cima de uns embrulhos, um pouco  retaguarda da velha, pousava no cho os grandes olhos imveis, talhados em amndoa, de longas pestanas. Via-se perfeitamente que sabia ser bonita e que isso a preocupava. Tanto o surpreendeu a sua cara que Pedro, ao passar por ela, apressado, ao longo do tapume, a fitou vrias vezes. Entretanto, tendo chegado ao extremo do tapume, e no vendo em parte alguma quem procurava, parou, indeciso.
      A sua figura, com a criana ao colo, dava agora mais na vista alguns russos, homens e mulheres, aproximaram-se dele.
      - Perdeste algum, amigo? s fidalgo, no s? De quem  essa criana? - perguntavam- lhe.
      Pedro explicou que a criana era da mulher de capa preta que h pouco ali estava com os seus outros filhos e perguntou se porventura a no conheceriam e aonde fora.
      - Devem ser os Anferov - interveio um dicono, dirigindo-se  mulher picada de bexigas... - Deus se amerceie de ns! - acrescentou ele na sua voz de baixo.
      - Qu? Os Anferov? - respondeu uma mulher. - Os Anferov foram-se esta manh. Talvez os Maria Nikolaievna ou ento os Ivanov.
      - Ele est a falar numa mulher e Nikolaievna  uma senhora - observou um lacaio.
      - Devem conhec-la. Tem os dentes muito grandes,  magra. - volveu Pedro.
      - Sim, ento  a Maria Nikolaievna. Fugiram para o jardim na altura em que estes lobos aqui apareceram - disse a velha, apontando para os soldados franceses,
      - Oh! Senhor, misericrdia! - continuava o dicono.
      - Por aqui, por aqui encontra-os. ,  ela. Estava a chorar a lamentar-se... - disse a, mulher. - Sim.  ela com certeza. Por aqui.
      Mas Pedro j a no ouvia. Estava a observar uma cena a pouca distancia entre a famlia armnia e dois soldados franceses. Um deles, baixinho, vivo, envergava um capote azul cingido ao corpo por uma corda. Na cabea trazia um qupi de polcia e estava descalo. O outro, em que Pedro especialmente atentara, era um rapazola alourado, com uma capa de l, umas calas azuis, minto largas, e botas de montar todas rotas. O pequeno, que no tinha botas, aproximou-se dos armnios, disse-lhes qualquer coisa, apontou para os ps do velho e este deu-se pressa em descalar-se. O outro postou-se diante da bela armnia e ps-se a olhar pira ela, calado, de mos nas algibeiras.
      - Toma, toma a criana - disse Pedro, de sbito, e num tom autoritrio, para a velha. - Tu encarregas-te de a entregares, hem! Ests a ouvir? - E deps no cho a criana, que chorava, voltando-se para o grupo dos franceses e dos armnios.
      O velho j estava descalo. O soldado francs que acabava de se apoderar da segunda bota batia uma contra a outra. O pobre homem, com as lgrimas nos olhos, murmurava qualquer coisa. Mas Pedro no prestava grande ateno a essa cena. Estava atento ao que se passava com o outro soldado, que entretanto, pouco a pouco, se fora aproximando da rapariga e lhe levara, mesmo, a mo ao pescoo.
      A armnia ficara imvel, com as suas longas pestanas baixas, como se nada visse nem desse pelo que se passava.
      Ainda Pedro no chegara junto do francs, j o bandido arrancara o colar que a armnia trazia ao pescoo. A pobre, levando as mos  garganta, soltara um grito agudo.
      - Deixe a mulher! - vociferou Pedro, agarrando-o pelos ombros e atirando-o ao cho.
      O soldado caiu, levantou-se e deitou a fugir. Mas o companheiro, jogando fora as botas, sacou da baioneta, e caminhou ameaador para Pedro.
      - Ento, nada de tolices! - gritou.
      Pedro fora tomado por um desses seus acessos de fria em que por nada dava e em que as foras se lhe multiplicavam. Caiu sobre o soldado, e antes que este pudesse servir-se da baioneta prostrara-o e cobria-o de murros. A multido ps-se a gritar, incitando-o. Nesse momento contudo desembocava da esquina da rua uma patrulha montada de ulanos franceses que a galope avanou sobre os dois, cercando-os. Pedro no deu pelo que depois se passou. Lembrava-se vagamente de ter esmurrado algum, de lhe responderem na mesma moeda, acabando por lhe amarrarem as mos atrs das costas enquanto um magote de soldados rodeava e revistava.
      - Ele tem um punhal, tenente! - Eis as primeiras palavras que distintamente pde compreender.
      - Ah!, uma arma! - exclamou o oficial. E dirigindo-se ao soldado amador de botas, sob priso como o prprio Pedro: - Muito bem, explicaro tudo isso no Conselho de Guerra - advertiu-o. E depois, voltando-se para Pedro: - Fala francs?
      Pedro olhou em volta de si com os olhos injectados de sangue e no respondeu. Era de crer que o seu aspecto no fosse dos mais tranquilizadores, pois o oficial deu uma ordem em voz baixa e quatro ulanos saram do peloto indo colocar-se  direita e  esquerda do preso.
      - Fala francs? - repetiu o oficial, conservando-se a respeitosa distancia. - Mande vir aqui o intrprete.
      Um homenzinho de pequena estatura, vestido  paisana, saiu das fileiras. Pedro, pelo seu vesturio e a sua maneira de falar, Percebeu imediatamente tratar-se de um empregado de uma loja de Moscovo.
      - No tem ar de homem do povo - observou o intrprete, depois de um breve exame.
      - Oh!, oh! Tem todo o ar de ser um desses incendirios - comentou o oficial. - Pergunte-lhe o que  ele.
      - Quem s tu? - perguntou o intrprete. - Deves responder s autoridades.
      - No tenho que lhes dizer quem sou. Sou vosso prisioneiro. Levem-me. - disse Pedro, subitamente, em francs
      - Ah!, ah! - exclamou o francs franzindo o sobrolho. - Partamos!
      A multido fizera roda em torno dos ulanos, Junto de Pedro estava a mulher bexigosa de h pouco com a pequenita ao colo. Quando a patrulha se ps em marcha, a mulher seguiu-a.
      - Aonde te levam eles, santinho? - interrogou-o ela. - E a pequena, que hei-de eu fazer-lhe, se no for deles?
      - Que quer essa mulher? - perguntou o oficial.
      Pedro parecia embriagado. Ao ver a pequenita a quem salvara a vida ainda mais exaltado ficou.
      - Que diz ela? - vociferou ele. - Traz-me a minha filha, que eu acabei de salvar das chamas. Adeus! - E, sem que ele prprio soubesse porque dissera tal mentira intil, ps-se a marchar, num passo enrgico e solene, entre a escolta francesa.
      Esta patrulha fazia parte do nmero das patrulhas enviadas por Durosnel para diferentes bairros da cidade com a misso de dar caa aos salteadores e especialmente deitar a mo aos bandidos que, segundo a opinio nessa altura dominante no alto comando francs, haviam incendiado Moscovo. Depois de atravessar vrias ruas, a patrulha deitou ainda a mo a cinco russos suspeitos, um boticrio, dois seminaristas, um campons, um lacaio, e a um certo nmero de salteadores. Mas, de todos os suspeitos, Pedro parecia o mais perigoso. Quando os conduziram  priso militar, estabelecida num casaro junto da muralha de Zubovo, foi isolado dos outros e submetido a uma vigilncia rigorosa.
      
      FM DO LIVRO TERCEIRO







Livro Quarto







PRIMEIRA PARTE
      

      
      
      
      Captulo I
      
      Entretanto, nas altas esferas de Petersburgo, a complicada luta dos partidrios de Rumiantsov, dos Franceses, de Maria Feodorovna, do czarevitch, luta a que vinha juntar-se, como sempre, o zumbido dos moscardos cortesos, continuava mais encarniada do que nunca. Mas a vida tranquila, luxuosa, exclusivamente preocupada com miragens e aparncias, essa prosseguia o seu curso habitual. Seriam precisos grandes esforos para essa gente se dar conta do perigo e das dificuldades que apresentava a situao do povo russo. Continuavam a celebrar-se as mesmas representaes no teatro francs. Subsistiam os mesmos interesses e as mesmas intrigas de corte e hierarquia. Apenas nas muito altas esferas havia quem se preocupasse em conhecer a verdadeira situao. A boca pequena falava-se na maneira como as duas imperatrizes, em to graves circunstncias, procediam de forma completamente diferente. A imperatriz Maria Feodorovna, preocupada antes de mais nada com os estabelecimentos hospitalares e educativos confiados aos seus cuidados, tomara as suas medidas para que esses institutos fossem transferidos para Kazan e j mandara encaixotar tudo o que lhes pertencia. A imperatriz Elizabeth Alekseievna, pelo contrrio, com o seu habitual patriotismo, quando lhe perguntaram quais as suas ordens, respondera que no tinha ordem alguma a dar relativamente aos estabelecimentos do Estado, pois isso era assunto que s ao imperador dizia respeito. E quanto a si prpria declarara que seria a ltima pessoa a deixar Petersburgo.
      A 26 de Agosto, no dia da batalha de Borodino, Ana Pavlovna dava uma recepo cujo principal atractivo consistia na leitura da carta do metropolita, escrita por ocasio do envio ao imperador da imagem do bem-aventurado S. Srgio. Essa carta era considerada um modelo de patriotismo e de eloquncia religiosa, Foi o prncipe Vassili, afamado pelo seu talento de declamao, quem se encarregou da leitura. Inclusivamente, j a lera para a prpria imperatriz. O seu talento consistia especialmente em pronunciar em voz forte e cantante, passando do tom grave ao tom aucarado, e isso sem a mais pequena relao com o significado das palavras, de sorte que era perfeitamente ao acaso que avolumava o tom em certos passos, quase murmurando outros. Esta leitura, como, alis, todas as recepes de Ana Pavlovna, tinha significado poltico, Deviam encontrar-se a vrias personalidades que corariam de vergonha por continuarem, a frequentar o Teatro francs e a quem queria chamar-se  ordem insuflando-lhes sentimentos mais patriticos. J estava muita gente nos seus sales, mas a dona da casa ainda no vira entrar quem esperava, e assim toda a gente principiara a conversar antes que se iniciasse a leitura.
      A notcia da ltima hora era o estado de sade da condessa Bezukova. Dias antes sentira-se subitamente indisposta, tendo faltado a vrias reunies de que era o principal ornamento. Dizia-se que a ningum recebia e que em vez de chamar as celebridades mdicas de Petersburgo que habitualmente a tratavam, se confiara a um certo mdico italiano, que estava a aplicar-lhe um mtodo novo e completamente desconhecido.
      Toda a gente sabia muito bem que a doena da encantadora condessa era devida ao embarao em que a punha o ter de escolher entre dois maridos e que o tratamento do italiano visava sobretudo ajud-la a sair desse embarao. Mas diante de Ana Pavlovna ningum ousava abordar esta questo delicada ou fazer-lhe sequer qualquer aluso.
      - Dizem que a pobre condessa est muito mal, o mdico  de opinio que se trata de uma angina de peito.
      - A angina? Oh!, que doena terrvel!
      - Dizem que os rivais se reconciliaram por causa da angina... - Grande era o prazer com que pronunciavam a palavra angina...
      - O velho conde faz pena, segundo dizem. Chorou como uma criana quando o mdico lhe disse que o caso era grave.
      - Oh!, que perda terrvel!  uma mulher deslumbrante. - Est a falar da condessa - disse Ana Pavlovna, aproximando-se. - Mandei saber do seu estado. Parece que esta um pouco melhor. No h dvida de que  a mais encantadora das mulheres - acrescentou, sorrindo do seu prprio entusiasmo. - Pertencemos a campos diferentes, mas isso no me impede de a apreciar como ela merece.  muito infeliz.
      Julgando que Ana Pavlovna, com estas ltimas palavras, queria erguer ligeiramente a ponta do vu que envolvia aquela doena misteriosa, um rapazola, estouvadamente, permitiu-se mostrar-se surpreendido com o facto de se no terem chamado mdicos conhecidos em vez de entregarem a condessa aos cuidados de um charlato, capaz de lhe ministrar remdios perigosos.
      - As suas informaes podem ser melhores do que as manhs. - replicou-lhe azedamente a dona da casa. - Mas eu sei, de fonte segura, que este mdico e um homem muito sabedor e muito competente.  um mdico ntimo da rainha de Espanha.
      E depois de assim ter tapado a boca ao mancebo, voltou-se para onde estava Bilibine, que, noutra roda, de testa enrugada, se preparava para a desenrugar, pois ia dizer um mot., falava dos Austracos.
      - Acho encantador -  dizia, a propsito do documento diplomtico que acompanhava a Viena as bandeiras austracas tomadas por Wittgenstein, o heri de Petropol, como lhe chamavam em Petersburgo.
      - Como? - perguntou Ana Pavlovna, tentando calar os que falavam para que toda a gente pudesse ouvir o dito espirituoso, o qual, alis, ela j conhecia.
      Bilibine citou as prprias palavras do despacho diplomtico, que ele mesmo redigira:
      - O imperador restitui as bandeiras austracas, bandeiras amigas e descaminhadas que ele encontrou fora da estrada - disse, desenrugando a testa.
      - Magnfico! Magnfico! - confirmou o prncipe Vassili.
      -  a estrada de Varsvia, talvez - exclamou em voz alta e inopinadamente o prncipe Hiplito.
      Toda a gente se voltou para ele, embora ningum compreendesse o que ele queria dizer. O prprio Hiplito teve um olhar surpreendido. Tambm ele no compreendia, alis como os outros, o que aquelas palavras queriam dizer. No decurso da sua carreira diplomtica, mais de uma vez tivera ocasio de observar que as coisas ditas ao acaso eram s vezes consideradas muitssimo espirituosas, e por isso a torto e a direito dizia o que lhe Passava pela cabea. Talvez isto tenha muito xito e, se o no tiver, eles l se encarregaro de tirar partido do que eu disse. E, com efeito, no momento em que se ia fazer um silncio algo embaraoso, entravam no salo as personalidades insuficientemente patriticas que Ana Pavlovna aguardava, e ela, sorrindo, enquanto ameaava com o dedo o prncipe Hiplito, pedia ao prncipe Vassili que se aproximasse da mesa. Depois trouxe, duas velas, o manuscrito, e convidou-o a encetar a leitura. Toda a gente se calou.
      Mui augusto soberano e imperador!, exclamou o prncipe Vassili numa voz severa, lanando um olhar  sua roda que parecia inquirir se tinham alguma objeco a fazer. Como ningum abrisse a boca, continuou: Moscovo, a tua primeira capital, a Nova Jerusalm, vai receber o seu Cristo..., e sublinhou fortemente a palavra seu, ...como uma me que se lana nos braos dos seus filhos bem-amados, e por entre as trevas, acautelando a glria brilhante do teu poder, canta com entusiasmo: Hossana! Bendito seja aquele que chega!
      O prncipe Vassili pronunciou estas ltimas palavras em voz chorosa.
      Bilibine contemplava com grande ateno as suas prprias unhas e vrios convidados entreolhavam-se, receosos, como que a perguntarem uns aos outros de que seriam culpados. Ana Pavlovna antecipou-se a dizer em voz sussurrante, como as velhas ao tomarem a sagrada comunho, as palavras que o prncipe Vassili ia dizer: Que o audacioso e o impudente Golias...
      O prncipe Vassili prosseguiu, realmente:
      Que o audacioso e impudente Golias, vindo das fronteiras da Frana, inunda as terras da Rssia dos seus horrores mortferos; a humilde f, essa funda do David russo, abater, de sbito, a sua orgulhosa cabea vida de sangue, Esta imagem do bem-aventurado Srgio, o defensor secular da paz da nossa ptria, ser apresentada a Vossa Majestade Imperial. Lamento que as minhas dbeis foras me impeam de gozar da contemplao do vosso rosto. Envio ao Cu as mais fervorosas oraes para que o Todo- Poderoso se digne multiplicar a raa dos justos e levar a bom termo os desejos de Vossa Majestade,
      - Que fora! Que estilo! - diziam, elogiando ao mesmo tempo o autor e o leitor.
      Reconfortados com aquela prova de eloquncia, os convidados de Ana Pavlovna por muito tempo ainda conversaram sobre a situao da ptria, fazendo vrios prognsticos sobre o resultado da batalha que se esperava para dentro de dias.
      - Vai ver - dizia Ana Pavlovna - que amanh, dia do aniversrio do imperador, vamos ter notcias frescas. Tenho c os meus pressentimentos.
      

      
      
      
      Captulo II
      
      Os pressentimentos de Ana Pavlovna realizaram-se efectivamente. No dia seguinte,  hora dos ofcios diversos celebrados no palcio em honra do aniversrio do soberano, o prncipe Volkonski foi chamado  porta da igreja e fizeram-lhe entrega de uma carta que vinha da parte do prncipe Kutuzov. Era o relato, datado de Tatarinovo, dia da batalha. Kutuzov dizia que os Russos no tinham recuado um s passo que fosse, que as perdas dos Franceses eram muito mais importantes que as dos Russos e que redigia o seu relatrio,  pressa, no campo de batalha, sem ainda ter podido reunir todos os elementos necessrios. Mas no havia dvida de que se tratava de uma vitria.
      Imediatamente, sem abandonarem a igreja, foram ditas oraes de graas pela ajuda que o Criador trouxera aos seus fiis e pela vitria alcanada.
      Os pressentimentos de Ana Pavlovna tinham-se realizado e toda a manh reinou na cidade como que uma jovial atmosfera festiva. Toda a gente estava convencida de que a vitria fora completa e alguns diziam j que Napoleo, prisioneiro, fora deposto e a Frana tinha novo soberano.
      Longe dos acontecimentos e na atmosfera da corte era muito difcil conhecer os factos em toda a sua plenitude e importncia. Apesar de tudo, os acontecimentos gerais concentravam-se num caso particular qualquer. A alegria dos cortesos era provocada menos pela vitria anunciada que pelo facto de a notcia ter chegado precisamente no dia do aniversrio do imperador, Era como que uma surpresa bem a propsito. Kutuzov falava igualmente de perdas russas, citava Tutchkov, Bagration, Kutaissov. Todas estas novas desagradveis se concentraram involuntariamente em torno de um nico facto, a morte de Kutaissov. Toda a gente o conhecia, o imperador estimava-o, era novo e homem interessante. Nesse dia as pessoas que se encontravam diziam entre si:
      - Que estranho! Precisamente durante a cerimnia religiosa! Que perda, a de Kutaissov! Ah!, que pena!
      - Que lhe disse eu de Kutuzov? - repetia agora o prncipe Vassili, orgulhoso das suas profecias. - Sempre disse que me parecia o nico capaz de vencer Napoleo.
      No dia seguinte, porm, no se receberam notcias do exrcito e a opinio pblica comeou a andar desassossegada. Os cortesos sofriam pela incerteza em que estava o imperador, que nada sabia tambm.
      Que situao terrvel!, diziam eles, e j ningum entoava cnticos a Kutuzov como no dia anterior, responsabilizando- o, pelo contrrio, pela inquietao do monarca. O prncipe Vassili j no se jactava do seu protegido Kutuzov, calando-se quando falavam dele. Alm disso, naquela noite tudo parecia conjurar-se para perturbar e desassossegar a populao de Petersburgo: uma notcia pavorosa se espalhou. A condessa Helena Bezukova morrera subitamente vitimada pela terrvel doena que fora motivo de comentrios fteis. Nas altas esferas dizia-se oficialmente que a condessa sucumbira a uma crise de angina de peito, mas nos meios particulares contava-se que o mdico ntimo da rainha de Espanha lhe prescrevera,  certo, pequenas doses de um medicamento adequado  sua doena, mas que ela, atormentada pelas suspeitas do velho conde e sem notcias do marido - esse infeliz e depravado Pedro - ingerira uma grande poro dessa droga, expirando no meio de um sofrimento atroz antes que lhe pudessem prestar qualquer socorro. Dizia-se ainda que o prncipe Vassili e o velho conde seu pretendente tinham chamado a captulo o mdico italiano, mas que este exibira tais cartas da infeliz que ambos acharam por bem deix-lo em paz.
      Eis como as conversas de salo se concentravam nestes trs pontos: a Incerteza, do imperador, o desaparecimento de Kutaissov e a morte de Helena.
      Trs dias depois daquele em que se recebera a informao de Kutuzov, chegou a Petersburgo um proprietrio rural, procedente de Moscovo, que espalhou a notcia segundo a qual a capital fora abandonada aos Franceses. Era incrvel! Em que situao ficava o czar? Kutuzov era um traidor e o prncipe Vassili, durante as visitas de psames de que fora alvo em virtude do falecimento da filha, disse de Kutuzov, que outrora lhe merecera os mais rasgados elogios, que no era de esperar outra coisa daquele velho cego e pervertido. Est claro que a dor por que passava justificava perfeitamente que se lhe perdoasse o esquecimento da sua opinio anterior.
      - O que me surpreende  que se tenha confiado o destino da Rssia a um homem desta espcie.
      Enquanto a notcia no teve confirmao oficial, ainda, havia a esperana de que fosse menos verdadeira, mas no dia seguinte recebeu-se do conde Rostoptchine a informao que se segue:
      
      Um ajudante-de-campo do prncipe Kutuzov acaba de me trazer uma carta na qual me pede oficiais da polcia para acompanharem o exrcito ao longo da estrada de Riazan. E participa-me que tem o desgosto de me comunicar o abandono de Moscovo. Majestade! O acto de Kutuzov decide da sorte da capital e do vosso imprio. Toda a Rssia vai tremer ao ter conhecimento da perda de uma cidade que resume toda a nossa grandeza e em que repousam as cinzas dos vossos antepassados! Sigo o exrcito. Levo comigo tudo que  possvel, s me resta chorar sobre o destino da minha ptria.
      
      Ao receber este comunicado, o imperador mandou transmitir a Kutuzov, por intermdio do prncipe Volkonski, o rescrito seguinte:
      
      Prncipe Mikail Ilarionovitch! Desde 29 de Agosto que estou sem notcias suas. Acabo de receber, por intermdio de Iaroslav, do governador de Moscovo, a triste notcia, datada de 1 de Setembro, de que o exrcito e o seu general tinham decidido abandonar a velha capital. Pode calcular o efeito que essa notcia me causou, e o seu silncio ainda aumenta mais a minha estupefaco. Com esta lhe envio o general ajudante-de-campo prncipe Volkonski, que se encarregar de saber junto de si qual a posio do exrcito e as razes que o levaram, a tomar resoluo to infeliz.
      

      
      
      
      Captulo III
      
      Nove dias depois do abandono de Moscovo, um enviado de Kutuzov chegou a Petersburgo com a comunicao oficial do facto. Era ele o francs Michaux, que, embora estrangeiro, russo de alma e corao, pelo menos ele assim o dizia. O imperador recebeu-o imediatamente no seu gabinete do palcio de Kameni-Ostrov. Michaux, que nunca estivera em Moscovo antes da campanha e que no falava russo, sentia-se muito comovido, como o escreveria mais tarde, ao apresentar-se diante de o nosso mui gracioso soberano para lhe anunciar o incndio da cidade, cujas chamas lhe iluminavam a estrada.
      Embora, certamente, o pesar de Monsieur Michaux no pudesse deixar de ser de uma espcie muito diferente do dos verdadeiros sbditos russos, to aflita era a sua expresso ao Penetrar no gabinete que o imperador lhe perguntou imediatamente:
      - Traz-me ms notcias, coronel?
      - Muito ms, Sire - replicou Michaux, suspirando e baixando os olhos: - O abandono de Moscovo.
      - Tero entregado a minha velha capital sem combate? - perguntou o imperador, sentindo, de sbito, a clera apossar-se de si. Michaux transmitiu-lhe, respeitosamente, a mensagem de Kutuzov, dizendo no ser possvel travar batalha diante das muralhas da cidade e que, perante a alternativa de perder ao mesmo tempo o exrcito e Moscovo ou apenas Moscovo, o marechal se vira obrigado a escolher a ltima soluo.
      O imperador ouvia, calado, sem olhar para o seu interlocutor.
      - O inimigo entrou na cidade? - inquiriu.
      - Entrou, Sire, e a esta hora est em cinzas. Deixei-a toda em chamas. - Estas palavras proferiu-as resoluto, mas o efeito que elas produziram lanaram-no em grande confuso.
      Alexandre I principiou a respirar apressadamente e com dificuldade, tremeu-lhe o lbio inferior e acto contnuo os seus belos olhos azuis humedeceram-se de lgrimas.
      Foi obra de segundos. De sbito, franziu as sobrancelhas e, como se reprovasse a sua prpria fraqueza, ergueu a cabea e disse a Michaux em voz firme:
      - Estou a ver, coronel, em presena de tudo que nos tem acontecido, que a Providncia exige de ns grandes sacrifcios.... Estou pronto a submeter-me a todas as suas vontades; mas diga-me, Michaux, como lhe pareceu o exrcito, ao ver assim abandonar a minha velha capital, sem dispararem um tiro? No reparou se havia desnimo?...
      Ao ver que o seu mui gracioso soberano sossegara, Michaux sossegou tambm, mas a pergunta concreta do imperador, que exigia uma resposta igualmente concreta, lanou-o num certo embarao.
      - Sire, consente que vos fale francamente como soldado leal que sou? - disse ele para ganhar tempo.
      - Coronel, exijo-o sempre - replicou o imperador - No me esconda nada, quero saber absolutamente o que se passa. 
      - Sire! - exclamou Michaux com um sorriso quase imperceptvel, tendo conseguido imprimir  sua resposta a forma de respeitoso jogo de palavras. - Sire, deixei todo o exrcito, desde os chefes at ao soldado raso, sem excepo, tomado de um medo pavoroso, assustador...
      - Como? - interrompeu o imperador franzindo o sobrolho. - Deixar-se-o os meus russos abater pela desgraa... Nunca...
      Era o que Michaux esperava para utilizar o seu jogo de palavras.
      - Sire - continuou, com um ligeiro e respeitoso sorriso. - A nica coisa que eles temem  que Vossa Majestade, por bondade de corao, se deixe convencer a fazer a paz. Todos esto mortos por combater e por provar a Vossa Majestade, com o sacrifcio das suas vidas, quanto lhe so dedicados...
      - Ah! - exclamou o soberano, tranquilizado, batendo-lhe no ombro e assumindo uma atitude amvel - Tranquiliza-me, coronel.
      Permaneceu calado alguns instantes, de cabea baixa. 
      - Pois bem, volte para o campo de batalha - continuou, perfilando a sua alta estatura, e com um gesto afvel e magnnimo - e diga aos nossos valentes, diga a todos os meus bons sbditos, por toda a parte por onde passar, que quando eu j no tiver nenhum soldado, eu prprio me porei  frente da minha querida nobreza, dos meus bons camponeses e bater-me-ei at ao ltimo recurso do meu imprio. Ele ainda tem para me dar muito mais do que pensam os meus inimigos. - E cada vez mais exaltado: - Mas se estiver escrito nos decretos da Providncia - prosseguiu, erguendo para o cu os seus bonitos olhos cheios de suavidade e sentimento - que a minha dinastia deva deixar de reinar no trono dos meus antepassados, ento depois de esgotados todos os recursos em meu poder, preferirei deixar crescer a barba at aqui, e ir comer batatas com o ltimo dos meus camponeses, a aceitar o vergonha da minha ptria e da minha querida nao, cujos sacrifcios tanto aprecio...
      Depois de ter pronunciado estas palavras com voz comovida, o imperador voltou a cara, como se quisesse esconder as lgrimas que lhe jorravam dos olhos, e deu alguns passos at ao fundo do seu gabinete. A permaneceu instantes, voltando, em largas passadas, direito a Michaux, e num gesto enrgico apertou-lhe a mo. O seu belo e meigo rosto afogueara-se e nos seus olhos cintilava a deciso e a clera.
      - Coronel Michaux, no se esquea do que eu lhe digo aqui; talvez um dia o recordemos com satisfao... - E, falando assim, batia na arca do peito. - Napoleo ou eu. No pode continuar a reinar ao mesmo tempo. Aprendi a conhec-lo, no me voltar a enganar.
      E, franzindo o sobrolho, calou-se. Michaux, embora estrangeiro, russo de alma e corao, lendo nos olhos do soberano a sua firmeza e a sua deciso, sentiu-se, naquele momento solene, entusiasmado pelo que acabava de ouvir, consoante o viria a escrever depois, e com as palavras seguintes exprimiu ao soberano, ao mesmo tempo, os seus prprios sentimentos e os do povo russo, de que se considerava como que porta-voz:
      - Sire! - articulou ele. - Vossa Majestade assina neste momento a glria da nao e a salvao da Europa.
      E o imperador, com um aceno de cabea, despediu Michaux.
      

      
      
      
      Captulo IV
      
      Ns, que no vivemos naquela poca, em que metade da Rssia estava nas mos do conquistador, os habitantes de Moscovo se refugiavam nas provncias mais longnquas e os levantamentos de milcias se sucediam uns aos outros com vista  defesa da ptria, imaginamos que ento todos os russos, do mais elevado ao mais humilde, no tinham outro pensamento que no fosse o de sacrificar-se para salvar a ptria ou morrer com ela. Todos os relatos daquela poca, sem excepo, falam de sacrifcios, de amor  ptria, de desespero e de herosmo. Mas a realidade no era bem essa. Do passado apenas vemos as grandes linhas histricas, enquanto os interesses puramente humanos e pessoais nos passam despercebidos. No entanto, esses interesses puramente humanos e pessoais so muito mais importantes que os interesses colectivos. Os primeiros no deixam ver nem sentir os ltimos. A maior parte dos homens daquela poca no prestava a mais pequena ateno  marcha geral dos acontecimentos, inteiramente ocupada com os seus prprios interesses. E esses homens  que gozavam da fama de ser as criaturas mais indispensveis desse tempo.
      Aqueles que, pelo contrrio, procuravam apreciar os acontecimentos de um ponto de vista elevado, tentando agir com devoo e herosmo, esses eram tidos como inteis na sociedade. As suas ideias divergiam em tudo das dos demais e tudo quanto levavam a cabo, na melhor das intenes, aos olhos da maior parte das pessoas no passava de inutilidades, como, por exemplo, os regimentos organizados por Pedro e Mamonov, que no faziam outra coisa seno saquear as aldeias e roubar as ligaduras preparadas pelas senhoras da sociedade, as quais nunca chegavam s ambulncias. At mesmo aqueles que, para exibirem os seus dotes de inteligncia e as suas louvveis intenes, se davam a fazer comentrios  situao eram acusados de duplicidade e de mentira ou de fazerem juzos temerrios e malvolos sobre as pessoas que assim tornavam responsveis de actos de que ningum era culpado. Em histria, ainda mais do que em qualquer outro assunto, devemos coibir-nos de provar dos frutos da, rvore de cincia. S os actos inconscientes frutificam deveras e os homens que desempenham papel na histria nunca percebem a importncia do que fazem. Quando porventura acontece darem por isso, imediatamente os seus actos se tornam estreis.
      O significado dos acontecimentos que naquela altura se estavam a dar na Rssia era tanto mais inapreensvel quanto era certo os homens deles participarem muito intimamente. Tanto em Petersburgo como nas provncias distantes de Moscovo, as senhoras e os cavalheiros elegantemente fardados de milicianos deploravam a sorte da Rssia e da sua capital, falando em sacrifcios e noutras coisas semelhantes, enquanto que no exrcito, ao proceder-se  evacuao de Moscovo, quase nunca se falava desse acontecimento: era coisa em que ningum pensava. Diante das casas a arder ningum falava em vingar-se dos Franceses. S se, pensava no tero do soldo que cada um ia receber, na etapa prxima, em Matrechka, na vivandeira, e em coisas do mesmo gnero.
      Surpreendido pela guerra nas fileiras, Nicolau Rostov, sem a mais pequena ideia de sacrifcio, e levado apenas pelas circunstncias, tomava parte activa e prolongada na, defesa da ptria, E deste modo assistia ao desenrolar dos acontecimentos sem os tomar muito a peito nem se permitir sombrios pensamentos. Se lhe tivessem perguntado que pensava da situao, teria respondido que nada pensava, que isso era, da competncia de Kutuzov e dos outros; ele nada mais sabia seno que se completavam os quadros dos regimentos, sinal de que a guerra ainda estava para lavar e durar e que, tendo em vista as circunstncias actuais, no lhe seria difcil vir a obter o comando de um regimento dentro de um ou dois anos.
      Graas a esta sua maneira de considerar os acontecimentos, no mostrou o mais pequeno ressentimento pelo facto de no ter tomado parte na ltima batalha, aceitando com prazer o encargo de se dirigir a Voroneje a fim de proceder  remonta da diviso, prazer que de modo algum fingiu no sentir e que os seus camaradas consideravam perfeitamente legtimo.
      Poucos dias antes da batalha de Borodino recebera os documentos e o dinheiro preciso, tendo mandado adiante um destacamento de hssares, enquanto se dirigia para Voroneje.
      S quem tenha passado por isso, isto , s quem tenha permanecido meses, ininterruptamente, em acampamentos, pode compreender a alegria que ele, sentia ao afastar-se da zona militar com os seus forrageadores, os seus comboios de abastecimentos e as suas ambulncias. Quando, j longe dos soldados, das bagagens, de tudo que assinala a vida, bem pouco elegante, do acampamento, lhe foi dado ver aldeias com os seus camponeses e as suas camponesas, casas senhoriais, campinas onde o gado pastava, as estaes de muda com os seus sonolentos guardas, to grande foi o seu contentamento que se lhe afigurou ver tudo aquilo pela primeira vez. E uma das coisas que maior alegria lhe deu foi o voltar a ver mulheres frescas e risonhas, sem terem atrs de si, cortejando-as, dzias de oficiais, mulheres que se mostravam contentes e se sentiam lisonjeadas com os galanteios do jovem viajante.
      Foi com a melhor disposio deste mundo que Nicolau Rostov chegou, pela noite, ao hotel de Voroneje, onde tratou de se regalar de tudo do que estivera privado por tanto tempo. E no dia seguinte, barbeado e de farda de gala, que h muito no vestia, ei-lo que se apresenta s autoridades. O comandante da milcia, velho funcionrio civil com o grau de general, parecia contentssimo com as suas funes militares e o posto que tinha. Recebeu Nicolau Rostov com a solenidade que se lhe afigurava inerente  sua categoria militar e interrogou-o, sobranceiro, como se a isso tivesse direito, aprovando-o ou reprovando-o, como homem que sabe o que diz e o que faz. To bem disposto estava Rostov que esta atitude o divertiu.
      Depois de sair do gabinete do comandante da milcia, dirigiu-se  residncia do governador. Este era um homenzinho vivo e solerte, muito amvel e muito simples. Indicou a Nicolau as cavalarias onde poderia adquirir as montadas, recomendando-lhe um alquilador na cidade e um proprietrio, a umas vinte verstas de Voroneje, senhor dos melhores cavalos da regio, prometendo auxili-lo.
      -  filho de Ilia Andreitch? Minha mulher  amiga ntima de sua me. Recebemos em nossa casa todas as quintas-feiras.  hoje quinta-feira. Venha, peo-lhe, sem cerimnia - disse-lhe ele, despedindo-se.
      Depois da sua visita ao governador, Nicolau meteu-se numa telega com o sargento e dirigiu-se s coudelarias do proprietrio indicado, que ficavam a umas vinte verstas da cidade. Tudo era fcil e divertido para ele naquela sua primeira visita a Vororteje, e o que  facto  que tudo correu como geralmente acontece quando uma pessoa est na melhor disposio deste mundo.
      O proprietrio referido era um velho solteiro, antigo oficial de cavalaria, competncia em cavalos, caador inveterado e senhor de um rico salo todo forrado de, tapetes, de uma vodka centenria, de um velhssimo vinho da Hungria e de uma excelente cavalaria.
      Trocadas poucas palavras, Nicolau adquiria, por seis mil rublos, dezassete potros escolhidos para figurarem em lugar de honra na sua remonta. Depois de um ptimo jantar, copiosamente regado com o tal vinho da Hungria, deps dois beijos nas bochechas do seu anfitrio, com quem estava j tu c tu l, e meteu ps a caminho, de regresso  cidade, incitando a todo o momento o postilho para chegar a horas de se apresentar na recepo do governador. Depois de se encharcar de gua fria dos ps  cabea, de mudar de roupa, de se perfumar, chegou a casa do governador um pouco j sobre o tarde,  certo, mas com uma desculpa na ponta da lngua: Mais vale tarde do que nunca.
      No havia baile e ningum tinha falado ainda em bailar, mas toda a gente sabia que Katerina Petrovna, sentada ao cravo, tocaria valsas e escocesas, e, por conseguinte, se acabaria por danar. Eis porque todas as senhoras capazes disso se tinham apresentado com os seus vestidos de baile.
      No ano de 1812 a vida numa cidade de provncia era exactamente igual ao que sempre fora, apenas com uma pequena diferena: haver muito mais animao em virtude da presena de multas famlias ricas de Moscovo, e que, como alis em todas as coisas nessa poca memorvel, se sentia no se sabia o qu, uma grandeza, um herosmo particular, e que as pessoas, em vez de falarem do estado do tempo e da sade de cada um, falavam de Moscovo, do exrcito e de Napoleo.
      Em casa do governador estava reunida a melhor sociedade de Voroneje.
      Havia muitas senhoras e algumas delas que Nicolau conhecia j de Moscovo, mas nenhum homem em condies de rivalizar com o cavaleiro de S. Jorge, brilhante hssar da remonta, o corts e distinto conde Rostov. Entre os convidados encontrava-se um italiano do exrcito francs, prisioneiro, e Nicolau sentia que a presena desse oficial ainda fazia sobressair mais o valor do heri russo que ele era em verdade, Dir-se-ia ser para ele como que um trofu vivo e que toda a gente pensava da mesma maneira. Eis porque se mostrou para com o oficial de uma cortesia em que se misturava um pouco de dignidade e de reserva.
      Assim que entrou, com o seu uniforme de hssar, irradiando  sua volta o penetrante aroma das suas essncias e do vinho que bebera, e assim que disse e por mais de uma vez lhe responderam: Mais vale tarde do que nunca, todos os olhares se fixaram nele. De sbito percebeu que se tornara o favorito de todos, coisa sempre agradvel, particularmente atraente na provncia e que naquele momento, depois de uma to longa abstinncia, literalmente o embriagava. Muitas eram as criadinhas dignas das suas olhadelas que ele vira nas estaes de mudas, nas estalagens, no salo do proprietrio da coudelaria, mas ali, nas salas do governador, suspensas do seu olhar, eram numerosas, inesgotveis, afigurava-se-lhe, as senhoras e as formosas donzelas, Todas se mostravam dengosas com ele enquanto as pessoas de idade pensavam j em cas-lo e arrumar o doido do soldado. No nmero destas encontrava-se a esposa do governador, que acolheu Rostov como um parente muito prximo e desde logo o tuteou, tratando-o por Nicolau.
      Efectivamente, Katerina Petrovna sentou-se ao cravo e ps-se a tocar valsas e escocesas. As danas principiaram e ento  que Nicolau pde acabar de endoidecer toda a gente com a sua agilidade. A sua desenvoltura assombrou todo o mundo. At ele prprio estava surpreendido com a maneira como danava naquela noite. Nunca danara assim em Moscovo e teria mesmo considerado pouco decente e ordinria a ligeireza dos seus modos, caso no se tivesse sentido obrigado, naquele meio pequeno, a causar o espanto daqueles provincianos, graas a atitudes e maneiras deveras extraordinrias at na capital, mas que fariam aquela gente pensar serem habituais e ainda desconhecidas na provncia.
      Durante toda a noite no fez outra coisa seno seguir com os olhos uma bonita e planturosa loura de olhos azuis, mulher de um funcionrio local. Com essa ingnua convico dos jovens folgazes, segundo a qual julgam que foi para eles e s para eles que vieram a este mundo e se criaram as mulheres dos outros. Rostov no largou essa senhora, tratando o marido com uma Amistosa familiaridade, algo cmplice, como se eles soubessem j perfeitamente, ele e a mulher de tal marido, que ambos se entendiam muitssimo bem. A verdade, porm,  que o marido parecia no partilhar de semelhante opinio e se mostrou por de mais frio para com o hssar.
      No entanto, a bonomia do moo oficial era tamanha que, sem dar por isso, at ele prprio, marido, por vrias vezes se deixou arrastar pela boa disposio do cortejador de sua mulher. No entanto, l para o fim da noite,  medida que o rosto desta se animava e ganhava cor, o do marido cada vez parecia mais plido e mais carrancudo, como se a animao que sentiam se manifestasse de modo inverso, quanto maior a dose da alegria da mulher tanto menor a dose da alegria do marido.
      

      
      
      
      Captulo V
      
      Nicolau, ligeiramente reclinado na poltrona, sorrindo, muito chegado  senhora, ia-lhe dirigindo galanteios em que a comparava s deusas da mitologia.
      Mexendo as pernas dentro do seu calo justo de montar, derramando  sua roda o aroma clido a perfume, lanando olhares de admirao ora  sua dama ora a si prprio e  elegncia dos seus ps calados de botins bem justos, ia dizendo ser sua inteno raptar certa pessoa ali mesmo em Voroneje.
      - E pode saber-se quem ?
      - Urna encantadora mulher, uma mulher divina! Tem os olhos da cor do cu - dizia ele mirando a sua interlocutora - uma boca de coral, ombros de uma brancura... uma cintura de Diana... - O marido aproximou-se e de rosto sorumbtico perguntou  mulher de que falavam.
      - Ali! Nikita Ivanitch - exclamou Nicolau, levantando-se cheio de mesuras.
      E, como se o quisesse convidar a tomar parte nos seus galanteios, principiou a contar-lhe os projectos que tinha de raptar uma linda mulher loura.
      Teve um riso amarelo o marido, a mulher na francamente Mas a esposa do governador aproximou-se deles com uma expresso algo recriminadora.
      - Ana Ignatievna queria falar-te. Nicolau - disse ela, e a maneira como pronunciou o nome dessa senhora no pde deixar dvidas a Rostov de que se tratava de algum de alta distino - Anda da, Nicolau. Pois no  verdade que deixas que eu te trate assim?
      - Com certeza, minha tia. E quem  essa senhora?
      - Ana Ignatievna Malvintseva. Ouviu falar de ti  sobrinha, quem tu salvaste a vida. Lembras-te?...
      - Salvei a vida a tantas - replicou ele.
      - A sobrinha, a princesa Bolkonskaia. Est aqui, em Voroneje, com a tia. Coraste? Dar-se- o caso que...
      - De maneira nenhuma! Que est a dizer, minha tia?
      - Bom! Est bem, est bem... Ds-me vontade de rir!
      A mulher do governador levou-o at junto de uma senhora idosa, alta e corpulenta, com um toucado azul na cabea, que acabava de jogar uma partida de cartas com as pessoas mais importantes da cidade. Tratava-se de Madame Malvintseva, a tia materna da princesa Maria, abastada viva, sem filhos, que vivia todo o ano em Voroneje. Estava de p, tratando de pagar o que devia ao seu parceiro. Olhou para Rostov, franzindo as sobrancelhas, enquanto prosseguia resmungando com o general que lhe levara a melhor.
      - Muito prazer em conhec-lo - exclamou ela, estendendo a mo a Rostov. - Queira dar-me o prazer de vir a minha casa.
      Ps-se a falar da princesa Maria e do seu falecido irmo, por quem parecia no morrer de amores, e perguntou-lhe se ele sabia alguma coisa acerca do prncipe Andr, que tambm no parecia pessoa da sua estima, despedindo-se no sem lhe repetir convite.
      Prometendo no deixar de a visitar, Nicolau corou de novo ao despedir-se dela. Quando ela falara da princesa Maria, um grande embarao o tomara, receio mesmo, sem que ele desse por isso.
      Ao deixar Madame Malvintseva ia de novo regressar ao baile, mas a mo rechonchuda da senhora governadora travou-lhe do brao e, dizendo-lhe que tinha necessidade de lhe falar, conduziu-o a um gabinete, donde, discretamente, se deram pressa de sair as pessoas que l estavam.
      - Sabes, meu caro - disse-lhe ela, imprimindo uma expresso grave ao seu rostozinho cheio de bonomia - tens ali um bom partido. Se quiseres, posso apresentar-te.
      - De quem se trata, minha tia? - perguntou Nicolau.
      - Eu pedirei a princesa em casamento. Katerina Petrovna, est inclinada para Lili, mas, pela minha parte,  a princesa que prefiro. Queres? Tenho a certeza de que a tua me me vai ficar reconhecida. E de resto  uma rapariga encantadora e nada feia, ao contrrio do que as pessoas dizem.
      - Claro que no, realmente - volveu Nicolau, como se se sentisse pessoalmente ofendido com essa opinio - Por mim, minha tia, como convm a um soldado, nada reclamo e nada recuso - acrescentou, sem se dar ao trabalho de pensar no que estava a dizer.
      - Bom, pois ento lembra-te de que no se trata de uma brincadeira.
      - De que brincadeira est a falar?
      - Est bem, est bem - exclamou a santa senhora, como se estivesse falando a si mesma. - E ainda h outra coisa, meu caro, entre outras.  muito assduo junto da outra, da loura. Estou deveras com pena do marido...
      - Porqu? Somos ptimos amigos - exclamou Nicolau com a maior simplicidade. Nunca lhe viera  cabea que aquela maneira to agradvel de passar o tempo no pudesse ser muito divertida para outrem.
      Ora esta! Que tolice fui eu dizer a mulher do governador!, disse ele de si para consigo, de repente, durante a ceia. Queres ver que me vai tratar do casamento... E Snia?... E ao despedir-se da dona da casa, quando ela lhe repetia, sorrindo: Bom, j sabes. No te esqueas..., chamou-a de parte:
      - A verdade  que devo dizer-lhe, minha tia...
      - Que foi? Que foi, meu amigo? Espera, vamos sentar-mos aqui.
      Nicolau sentiu, de sbito, a imperiosa necessidade de contar quela mulher, por assim dizer desconhecida para ele, os seus pensamentos mais ntimos, pensamentos que ele no teria confiado nem  prpria me, nem  irm, nem a qualquer amigo. Mais tarde, quando veio a lembrar-se dessa necessidade de comunicao inexplicvel e injustificada, que tantas consequncias graves teve para ele, afigurou-se-lhe, como de resto acontece a toda a gente, ter feito grossa asneira. Mas a verdade  que nem por isso aquele movimento de sinceridade e alguns outros pequenos-nadas deixaram de vir a ter para ele e para a famlia consequncias da maior importncia.
      - Ora aqui tem de que se trata, minha tia. H muito que a me me quer casar com uma herdeira rica, mas no posso com a ideia de um casamento de convenincia.
      - Ah, sim! Percebo - contraveio a santa senhora.
      - Mas o caso da princesa Bolkonskaia  outra coisa. Em primeiro lugar, devo dizer-lhe, com toda a franqueza, que me agrada muitssimo, que me convm em absoluto. Alm disso, desde que a vim a conhecer em circunstncias to estranhas, vrias vezes tenho dito a mim mesmo que est ali o meu destino, Imagine! A me h muito tempo que pensava nela, mas nunca calhara eu encontr-la. No sei como isso foi; o certo  que nunca nos tnhamos visto. E  claro que eu no poderia ter Pensado em casar com ela desde que minha irm Natacha estava noiva do irmo dela. E fui encontr-la precisamente quando o casamento de Natacha se tinha dissolvido e depois de tudo o que se estava a passar... Sim, isto  que  a verdade... Nunca falei nisto a ningum, nem nunca mais voltarei a falar em tal. S a si o digo.
      A senhora governadora travou-lhe do brao, como a agradecer-lhe.
      - Conhece a Snia, a minha prima? Quero-lhe muito. Prometi casar com ela e  com ela que hei-de casar... Como v, no Posso pensar nessa histria do casamento com concluiu ele, um Pouco hesitante e corando muito.
      - Meu caro, meu caro, que ests tu a dizer? Mas Snia nada tem de seu e tu prprio disseste que a fortuna de teu pai estava periclitante. E a tua me? Ds cabo dela, podes ter a certeza. E, alm disso, se a Snia  rapariga de sentimentos, que situao para ela! Uma me de cabea perdida, uma fortuna por gua abaixo... Sim, meu caro. Snia e tu, vocs devem compreender as circunstncias.
      Nicolau ficou calado. A verdade  que aquelas concluses lhe no eram de todo desagradveis.
      - Em todo o caso, minha tia,  impossvel - exclamou ele, suspirando, aps alguns instantes de silncio. - Alm disso, resta saber se a princesa me quer, e ainda est de luto. Acha que se pode pensar nisso?
      - Julgas que te vou casar de hoje para amanh? H maneiras e maneiras - obtemperou a mulher do governador.
      - Que casamenteira me saiu, minha tia... - disse Nicolau, beijando-lhe a mozinha rechonchuda.
      

      
      
      
      Captulo VI
      
      Ao chegar a Moscovo, depois do seu encontro com Rostov, a princesa Maria encontrara o sobrinho na companhia do seu preceptor e uma carta do prncipe Andr com o itinerrio que ela devia seguir para alcanar Voroneje e instalar-se em casa da tia Malvintseva.
      As preocupaes com a mudana, os cuidados com o destino do irmo, a instalao da nova casa, o ter de lidar com gente desconhecida, a educao do sobrinho, todas estas circunstncias lhe sufocaram na alma aquele sentimento em que havia fosse o que fosse dessa tentao que tanto a fizera sofrer durante a doena e a morte do pai e especialmente no tempo que se seguiu ao seu encontro com Rostov. Estava muito triste. A mgoa que lhe causara a perda do pai, agravada pela desgraa que pesava sobre a Rssia, ainda agora, aps trinta dias de vida tranquila, se mantinha viva e pungente. Estava desassossegada. Os perigos que ameaavam o irmo, o ser querido que lhe restava, traziam-na em perptuo tormento. A educao do sobrinho, tarefa que entendia superior s suas foras, preocupava-a muitssimo. No entanto, ao verificar que fora capaz de reprimir a vaga de sonhos e esperanas que o aparecimento de Rostov erguera dentro dela, pudera sentir alguma serenidade.
      No dia seguinte ao da noite da sua recepo, a mulher do governador apresentou-se em casa de Madame Malvintseva e p-la ao corrente de todos os seus planos. Principiou por dizer que, em virtude das circunstncias, no era de pensar num pedido em regra, mas que se podiam aproximar os dois jovens, proporcionando-lhes a forma de se conhecerem melhor. Tendo obtido a anuncia da tia, aproveitou a ocasio para falar de Rostov diante da princesa Maria, tecendo-lhe largos elogios e contando como o vira corar quando pronunciara o nome dela. A princesa, em vez de se sentir feliz ao ouvir estas palavras na boca da esposa do governador, experimentou um grande mal-estar. Fora-se-lhe a harmonia interior e de novo acordaram nela os desejos, as dvidas, os reproches e as esperanas.
      Durante os dois dias que transcorreram entre essa notcia e a visita de Rostov, a princesa Maria no deixou de pensar na atitude que devia assumir para com ele. Ora resolvia no pr os ps no salo quando ele entrasse em casa de sua tia, pois, estando de luto pesado, no achava prprio receber visitas, ora se dizia a si mesma que isso seria pouco delicado da sua parte depois do que ele fizera por ela, ora ainda lhe ocorria a ideia de que a tia e a esposa do governador tinham intenes reservadas quanto a Rostov e a ela prpria, o que, alis, confirmara perfeitamente as piscadelas de olhos e os segredinhos que trocavam entre si, ora conclua no ter o direito de pensar em tais coisas, atribuindo tudo  sua prpria inquietao. Era impossvel, pensava, no ter em conta que, na sua situao, estando de luto rigoroso, aquela ideia do casamento s podia ser ofensiva para ela e para a memria do defunto. Na hiptese, porm, de que semelhante pedido viesse a efectivar-se, conjecturava, de antemo, o que Rostov lhe diria e o que ela teria de lhe responder, e os termos que empregaria ora se lhe afiguravam frios de mais ora demasiado significativos. Mas o que acima de tudo receava nesse encontro era deixar transparecer a perturbao que inevitavelmente a tomaria quando o voltasse a enfrentar.
      O certo , porm, que quando, no domingo, depois da missa, um criado a veio prevenir, no salo, de que o conde Rostov acabava de chegar, no foi grande a perturbao da princesa; corou ligeiramente e os olhos brilharam-lhe com uma luz radiante e nova.
      - J o conhece, tia? - perguntou em voz serena, surpreendida de poder aparentar tanta calma e naturalidade.
      Quando Rostov entrou no salo, a princesa manteve-se por momentos de cabea baixa, para dar tempo a que ele pudesse fazer os seus cumprimentos  velha senhora, mas exactamente na altura em que ele se voltou para ela ergueu a cabea e os seus olhos brilhantes pousaram nos dele. Num movimento cheio de graa e dignidade, soergueu-se ligeiramente, sorrindo, estendeu-lhe a mo fina e delicada e ps-se a falar numa voz em que pela primeira vez ressoavam notas verdadeiramente femininas. Mademoiselle Bourienne, que estava presente, no pde deixar de se sentir surpreendida e pousou nela um olhar de espanto. A mais galante das mulheres no teria sido capaz de manobra mais hbil diante do homem a quem quisesse agradar.
      Ser o luto que lhe fica bem, ou ter ela, realmente, ganho tanto sem que eu o tenha notado?..., interrogou Mademoiselle Bourienne os seus botes.
      Se a princesa Maria estivesse naquele momento em condies de reflectir, no se teria sentido menos surpreendida que Mademoiselle Bourienne com a mudana operada nela prpria. Mal entrevira aquele bonito rosto, que to querido se lhe tornara, invadira-a como que uma energia nova que a compelia, sem que ela nada pudesse fazer em contrrio, a falar e a agir. Mal ele entrou, o rosto transfigurou-se-lhe repentinamente. Assim como, ao iluminar-se uma lanterna, o desenho gravado nos seus vidros ressalta de uma beleza que se no adivinhava enquanto no havia luz, tambm os traos da princesa Maria ressaltaram de improviso. Pela primeira vez vinha  superfcie o trabalho intimo que at ento se elaborara em segredo no fundo da sua alma. O mais recndito da sua vida, e que tanto tormento lhe causava, os seus sofrimentos, os seus impulsos para o bem, o seu esprito de submisso, de amor e de sacrifcio, tudo isso resplandecia agora nos seus luminosos olhos, no seu fino sorriso, em cada um dos traos do seu delicado rosto.
      Nicolau deu-se conta de tudo to franca e claramente como se lhe conhecesse toda a vida. Compreendeu que a criatura de eleio que tinha diante era bem melhor que todos os seres que conhecera at a, e bem melhor, sem dvida, do que ele prprio.
      A conversa que entre eles se entabulou foi das mais simples insignificantes que imaginar se pode. Falaram da guerra, exagerando, como toda a gente, alis, ento, o desgosto que os acontecimentos causavam, falaram do seu ltimo encontro, assunto que Nicolau procurou evitar, e referiram-se ento  santa mulher do governador e aos seus parentes respectivos.
      A princesa Maria evitou aludir ao irmo e desviou a conversa quando a tia lhe fez referncia. Via-se perfeitamente que, se lhe era fcil falar banalmente das desgraas pblicas, j o mesmo no podia fazer a respeito do irmo, desgraa que lhe tocava muito de perto. Nicolau reparou no facto, ao mesmo tempo que observava, com uma penetrao nele invulgar, os mais pequenos matizes do carcter da sua interlocutora, observao que o levava a pensar que ela era realmente uma natureza excepcional e nica em verdade a todos os ttulos. Como acontecia  princesa Maria, tambm ele corava e se mostrava perturbado quando falavam dela, ou at mesmo quando apenas nela pensava. Na presena de Maria sentia-se, porm, como que desoprimido, no dizia palavra do que antecipadamente pensava dizer e as suas palavras de improviso eram sempre as que mais convinha.
      Durante a sua curta visita, numa pausa da conversao, Nicolau, como acontece onde h crianas, ps-se a acariciar o filho do prncipe Andr e perguntou-lhe se ele no gostaria de vir a ser hssar tambm. Pegou-lhe ao colo, sentou-o nos joelhos e f-lo pular enquanto olhava para a princesa Maria. Esta seguia os movimentos do sobrinho querido nos braos do homem a quem amava, olhando carinhosa, tmida e feliz. Este terno olhar no passou despercebido a Nicolau, que, ao compreender-lhe o sentido, corou de satisfao e beijou a criana efusivamente.
      A princesa Maria no saa de casa por causa do luto e Nicolau no achava conveniente continuar a visit-la. Nem por isso contudo a mulher, do governador desistiu da sua tarefa casamenteira e, repetindo a Nicolau o que Maria dissera de lisonjeiro a seu respeito ou vice-versa, insistia com ele para que se declarasse. E nessa inteno preparou uma entrevista entre os dois jovens, em casa do arcipreste, antes da missa.
      Embora Rostov lhe tivesse dito que no tinha qualquer declarao a fazer  princesa Maria, prometeu no faltar  entre- vista.
      Da mesma maneira que em Tilsitt no vacilara um momento em aceitar por bom o que lhe era recomendado como tal, assim agora, aps breve luta, embora sincera, entre o desejo de organizar a sua vida consoante os seus prprios desejos e a inteira submisso s circunstncias, escolheu o ltimo partido, entregando-se ao destino para que se sentia irresistivelmente arrastado, Sabia muitssimo bem que, depois das promessas que fizera a Snia, declarar os seus sentimentos a Maria no era outra coisa seno cobardia. Mas, ao mesmo tempo, tambm sabia, e, mais, sentia isso mesmo no fundo da alma, que, confiando-se  influncia do destino e das pessoas que o dirigiam, no s no procedia mal, como, pelo contrrio, cumpria um acto da mais alta importncia como nenhum outro da sua vida.
      Aps a sua entrevista com a princesa Maria, conquanto nada, na verdade, se tivesse modificado na sua existncia, o certo  que todas as suas alegrias de outrora pareciam ter perdido o encanto e s um pensamento o ocupava - ela. Todavia os sentimentos que a princesa Maria lhe inspirava no s em nada se pareciam com os que havia sentido por outras raparigas que encontrara na sociedade como nada tinham de comum com o amor exaltado que outrora votara a Snia. Como acontece a todo o mancebo de honestos sentimentos, sempre que pensava em tais raparigas era com a ideia de fazer delas esposas, representando-lhe a imaginao todas as cenas habituais da vida conjugal: uma mulherzinha, vestida de branco, sentada junto do samovar, a carruagem da senhora, as crianas que pronunciam pai e me, numa palavra, todas as banalidades quotidianas, e essas perspectivas de futuro, a seus olhos, no deixavam de se revestir de certo encanto. Contudo, ao pensar na princesa Maria, a quem o queriam dar por noivo, nada de semelhante lhe vinha ao esprito. Se porventura o tentava, as imagens que se lhe erguiam diante dos olhos apresentavam-se-lhe com qualquer coisa de falso e de malogrado. O nico sentimento que lhe comunicavam era o sentimento de angstia.
      

      
      
      
      Captulo VII
      
      A terrvel nova da batalha de Borodino, em que houve tantas baixas dos Russos, bem como a notcia de que Moscovo cara nas mos dos Franceses, apenas chegaram a Voroneje em meados de Setembro. A princesa Maria, que s pelos jornais fora informada de que o irmo estava ferido e que nada sabia afinal sobre o seu estado, resolveu ir ao seu encontro. Assim, pelo menos, constou a Nicolau, que nunca mais a tornara a ver. Os acontecimentos, se no despertaram em Rostov instintos de violncia, clera ou vingana ou quaisquer outros do mesmo gnero, pelo menos inspiraram-lhe sbito desgosto e contrariedade, determinando-o a no prolongar por mais tempo a sua permanncia em Voroneje, onde se sentia molesto e pouco  vontade. Todas as conversas lhe soavam a falso. No sabia que pensar dos acontecimentos e sentia que s depois de regressar ao seu regimento veria claro em tudo isso. Precipitou as suas ltimas aquisies de cavalos e eram mais frequentes agora as suas irritaes contra o criado e contra o sargento, mais frequentes e imotivadas.
      Alguns dias antes da sua partida, celebrou-se um tedu na catedral em aco de graas por uma vitria das tropas russas e Nicolau assistiu a ele. Ficou alguns metros atrs do governador e foi com dignidade oficial que acompanhou todos os passos da cerimnia religiosa enquanto ia pensando nos assuntos mais diversos. Assim que terminou o fedeu, a mulher do governador acenou-lhe com a cabea, chamando-o para junto de si.
      - Viste a princesa? - perguntou- lhe ela, indicando-lhe com a cabea uma senhora toda vestida de preto que estava ao p do coro. Nicolau reconheceu-a imediatamente, no tanto pelo perfil que se deixava adivinhar debaixo do chapu como por esse sentimento de reteno, receio e piedade que se apoderou dele. A princesa Maria, absorta nos seus pensamentos, persignava-se antes de sair da igreja.
      Nicolau fitou, assombrado, o seu rosto. Era, de facto, a mesma fisionomia em que se lia sempre o trabalho subtil do pensamento interior, mas a luz que a iluminava era completamente outra. Reflectia-se em seus traos uma tocante expresso de dor, de orao e de esperana. No esperou, como, alis, acontecera da primeira vez, que a mulher do governador lho consentisse, no se interrogou a si prprio, sequer, se era ou no razovel dar aquele passo em plena igreja; aproximou-se dela e disse-lhe que soubera do seu novo desgosto e que de todo o corao a acompanhava na sua dor, Assim que lhe reconheceu a voz, uma sbita luz lhe iluminou o rosto, derramando claridade sobre a sua mgoa e acordando nela a alegria.
      - Apenas lhe queria dizer, princesa - murmurou Rostov -, que, se o prncipe Andr Nikolaievitch j no fosse do nmero dos vivos, os jornais t-lo-iam dito, pois que  comandante de regimento.
      A princesa olhou para ele sem apreender o sentido das suas palavras, mas satisfeita com a compaixo que lhe via no rosto.
      - Na maior parte dos casos, os ferimentos provocados pelos estilhaos de granadas, quando no so logo mortais, no oferecem cuidados - acrescentou ele. -  de esperar que no seja coisa grave, estou convencido de que...
      A princesa Maria interrompeu-o.
      - Oh!, seria terrvel... - principiou ela sem poder concluir a frase, de to perturbada que estava, inclinando a cabea, num movimento cheio de graciosidade, como acontecia a todos os seus gestos na presena dele. E, depois de um olhar de reconhecimento, saiu atrs da tia.
      Naquela noite Nicolau no saiu, ficou em casa para fechar contas com os negociantes de cavalos. Quando acabou esse trabalho era demasiado tarde para ir a qualquer parte, embora relativamente cedo para se deitar, e assim ficou, sozinho, no seu quarto, a andar de um lado para o outro, cismando na vida, coisa que raramente lhe acontecia.
      J aquando do seu encontro perto de Smolensk a princesa Maria lhe causara uma viva impresso. Impressionara-o muito tambm o t-la encontrado em circunstncias to excepcionais e o facto de a me lha ter recomendado como um rico partido.
      O encontro em Voroneje ainda o impressionara mais. Desta vez notara sobretudo a beleza especial, toda de essncia moral, que nela resplandecia. No entanto ia partir e no lhe ocorria a ideia de que teria pena de a no tornar a ver. O encontro na igreja, sentia-o claramente, ainda viera gravar nele a imagem da princesa Maria mais profundamente do que previra e mais funda- mente de que o exigia o seu sentimento de repouso. Aquele rosto fino, plido e triste, aquele luminoso olhar, aqueles gestos harmoniosos e serenos, sobretudo aquela funda e comovida mgoa que por toda ela se espalhava, perturbavam-no e atraam-no. Sobretudo nos homens, Nicolau no tolerava manifestaes de uma vida espiritual superior e essa a razo por que no simpatizava com o prncipe Andr. Mas a princesa Maria, em virtude, precisamente, da expresso dolorosa em que se evidenciava toda a profundeza de um mundo espiritual que lhe era estranho, atraa-o de maneira irresistvel.
      Que estranha mulher deve ser!  realmente um anjo!, dizia de si para consigo. Porque no hei-de eu ser livre? Porque me precipitei eu com a Snia? E involuntariamente ia-as comparando:  ausncia, numa, e  abundncia, noutra, dessa riqueza espiritual de que ele prprio era to pouco provido e que por isso mesmo tanto estimava. Tentou imaginar o que aconteceria se porventura fosse livre: como pediria a sua mo e como viria ela a ser sua mulher? Mas no, no podia pensar em semelhante coisa. Sentiu-se pouco  vontade e diante dos seus olhos apenas se lhe vieram representar imagens confusas. Havia muito que traara o quadro da sua existncia futura com Snia: era muito simples e muito claro, pois tudo a estava previsto de antemo e ele nada ignorava, absolutamente nada, a respeito dela. Com a princesa Maria, contudo, no lhe era possvel conceber qualquer futuro, uma vez que a no compreendia, que apenas se limitava a am-la.
      Pensar em Snia era como penetrar num mundo de alegria e de graa. Pensar na princesa Maria trazia sempre consigo uma impresso de seriedade e at mesmo de temor.
      Como ela rezava!, dizia de si para consigo. Era como se o fizesse com toda a sua alma. Sim,  aquilo a que se chama a f que remove montanhas e tenho a certeza de que a sua orao ser ouvida. Porque no poderei eu rezar assim para obter o que preciso? E de que preciso eu? De ser livre e desligar-me de Snia. A mulher do governador tinha razo: o meu casamento com ela ser uma fonte de desgostos, de dificuldades, uma grande mgoa para a me... e depois h a questo dos dinheiros... sim, de dificuldades... de grandssimas dificuldades. Alis, creio que a no amo de todo o corao. No, no a amo como se deve amar. Meu Deus, salva-me desta situao sem recurso!, exclamou ele, de sbito, como se sentisse uma necessidade imperiosa de rezar. Sim, as minhas oraes removero montanhas, mas o que  preciso , ter f e no rezarmos como o fazamos quando ramos crianas, a Natacha e eu, quando pedamos que a neve se transformasse em acar. No, no so criancices desse gnero que eu tenho de pedir a Deus.
      E pousando o cachimbo algures, de mos postas, ajoelhou diante dos cones. Enternecido com a lembrana de Maria, ps-se a rezar como o no fazia lia muito tempo. Tinha os olhos rasos de lgrimas e soluos na garganta quando Lavruchka apareceu  porta com uns papis na mo.
      - Idiota! Que vens aqui fazer, se no te chamei! - gritou-lhe, mudando, subitamente, de, atitude.
      -  da parte do governador - disse Lavruchka, em voz sonolenta. - Chegou um correio com uma carta para si.
      - Est bem, obrigado, podes retirar-te.
      Havia duas cartas, uma da me e a outra de Snia. Reconhecera a caligrafia de ambas elas e principiou por abrir a de Snia. Mal lera as primeiras linhas empalideceu, abrindo muito os olhos cheios de espanto e alegria.
      No, no  possvel!, disse em voz alta.
      No pde ficar imvel e ao tempo que lia a carta ps-se a andar no quarto de um lado para o outro, Comeou por l-la alto, depois leu-a uma, duas vezes e, por fim, encolhendo os ombros e gesticulando de boca aberta e olhos fixos, deteve-se no meio do quarto. A orao que acabava de dirigir a Deus fora ouvida. Tamanha era a sua estupefaco, to extraordinrio o que acontecia, to longe estava de ver realizados os seus desejos, que aquilo lhe no parecia a consequncia da interveno divina, mas puro acaso.
      O n grdio que lhe encadeava a liberdade fora cortado pela carta de Snia de maneira inesperada e que nada fazia prever. A carta dela dizia que em virtude das desgraas dos ltimos tempos, da perda de quase todos os bens dos Rostov em Moscovo, do desejo da condessa, por vrias vezes manifestado, de o ver a ele desposar a princesa Bolkonski, e ainda em consequncia do seu silncio persistente, da frieza que lhe mostrara ultimamente, por todos esses motivos juntos, estava resolvida a desobrig-lo da sua promessa e a restituir-lhe a sua inteira liberdade.
      
      Seria para mim muito penoso - dizia-lhe ela- pensar que viria a ser causa de desgosto e desacordo numa famlia que tanto bem me tem feito. O nico objectivo do meu amor  fazer a felicidade daqueles a quem amo. Por isso lhe peo, Nicolau, que retome a sua liberdade e que acredite que, apesar de tudo, ningum lhe quer mais do que a sua Snia.
      
      As duas cartas eram datadas de Troitsa. A segunda era da condessa. Descrevia-lhe os ltimos dias passados em Moscovo, a partida, o incndio da cidade e a runa de todos os seus bens. E entre outras coisas dizia-lhe que o prncipe Andr, ferido, viajava com eles. Estava em estado gravssimo, mas o mdico, de momento, alimentava algumas esperanas. Snia e Natacha eram as suas enfermeiras.
      Munido com esta carta, Nicolau apresentou-se no dia seguinte em casa da princesa Maria. Nem ele nem ela fizeram qualquer comentrio sobre os cuidados que Natacha dedicava ao prncipe Andr, mas aquela carta aproximou-os e criou entre eles como que uma espcie de parentesco.
      No dia seguinte, Rostov acompanhou a princesa Maria a Iaroslav e dias depois regressou ao seu regimento.
      

      
      
      
      Captulo VIII
      
      A carta de Snia que dava satisfao aos desejos de Nicolau fora escrita em Troitsa. Eis os factos que a determinaram. De dia para dia se obstinava mais a velha condessa em casar seu filho com uma rica herdeira. Snia, sabia-o ela muito bem, continuava a, ser o maior obstculo  realizao de tal projecto. E a vida desta durante os ltimos tempos, sobretudo depois da carta, em que Nicolau falara do seu encontro em Bogutcharovo com a princesa Maria, tornara-se-lhe penosssima. A condessa passava o tempo a feri-la com aluses cruis e ofensivas.
      Alguns dias antes da partida de Moscovo, a condessa, transtornada e inquieta com o que se estava a passar, mandou chamar Snia e, entre lgrimas, reproches e splicas, implorou-lhe que se sacrificasse desligando Nicolau dos seus compromissos e pagando-lhe a ela, condessa, deste modo, tudo que por ela tinha feito.
      - No sossegarei enquanto me no prometeres o que te peo.
      Snia chorou e respondeu entre soluos que faria tudo o que fosse possvel, sem se comprometer, todavia, ao que lhe pediam. O certo era que o no podia fazer. Sacrificar-se-ia pela felicidade da famlia que a tinha recolhido e educado. A esse sacrifcio estava habituada. A sua situao em casa dos Rostov era tal que para patentear os seus mritos s lhe restava a abnegao e por isso se habituara a sacrificar-se. Com alegria se dera conta at, a de que todos os seus actos de abnegao a realavam a seus olhos e, aos olhos dos outros, tornando-a mais digna de Nicolau, seu nico e grande amor- Agora, porm, queriam que renunciasse, no fim de contas, aquilo mesmo que era a nica recompensa do seu sacrifcio e a nica justificao da sua vida. E pela primeira vez se sentiu amargurada diante daquela gente que a recolhera e protegera para afinal a fazer sofrer ainda mais. E uma espcie de dio a tomou contra essa Natacha que no s nunca passara por sofrimentos comparveis aos seus, sem nunca se sacrificar por algum, mas antes exigira o sacrifcio dos outros e apesar disso de todos era querida e estimada. Pela primeira vez sentiu que o seu amor, at ento inocente e tranquilo, se convertia numa violenta paixo capaz de a dominar e arrastar contra a religio e a virtude. Sob a influncia de tal sentimento, Snia, que a prtica da dependncia ensinara a ser dissimulada, respondera  condessa em termos vagos e gerais, evitando qualquer explicao mais demorada, decidida, entretanto, a esperar por Nicolau, no para lhe restituir a palavra, mas, pelo contrrio, para mais fortemente e para sempre se unir a ele.
      As preocupaes e os terrores dos ltimos dias passados em Moscovo tinham-na feito esquecer um pouco os tristes pensamentos que a atormentavam. E por isso se sentira como que aliviada no meio de todas essas preocupaes materiais. Quando veio a saber, porm, que o prncipe Andr estava em casa dos condes,  sua sincera piedade por Natacha e pelo ferido veio associar-se o sentimento, entre supersticioso e agradecido, de que a Providncia no queria separ-la de Nicolau. Sabia que Natacha s ao prncipe Andr amava verdadeiramente e s a ele amara em verdade. E sabia tambm que neste momento, outra vez reunidos e em to trgicas circunstncias, de novo se entregariam ao seu amor, impedindo Nicolau, graas ao casamento da irm com o prncipe, de pensar em desposar a princesa Maria.
      Por mais horrveis que fossem os acontecimentos a que assistia, grande era a sua satisfao ao pensar que a Providncia lhe viera em auxlio.
      Aps a primeira etapa de sua jornada, os Rostov detiveram-se no mosteiro de Troitsa. No albergue do convento tinham-lhes reservado trs quartos, um dos quais para o prncipe Andr. O ferido parecia muito melhor nesse dia. Natacha estava junto dele.
      No quarto contguo o conde e a condessa conversavam respeitosamente com o superior do convento em visita aos antigos conhecidos e protectores. Snia, junto deles, atormentava-a a curiosidade: que estariam a dizer um ao outro Andr e Natacha?
      Atravs da porta ouvia-lhes o sussurro das vozes. Em determinado momento a porta abriu-se e Natacha, muito comovida, penetrou na dependncia sem reparar no frade, que se ergueu, apanhando as grandes mangas do hbito, quando a viu aproximar-se. Dirigindo-se a Snia, travou-lhe do brao.
      - Natacha, que foi? Vem c - disse-lhe a me.
      Natacha aproximou-se para receber a bno do frade, que a aconselhou a implorar o auxlio de Deus e do seu santo protector.
      Quando o superior do convento se retirou, Natacha deu o brao  amiga e levou-a consigo para o quarto contguo, onde no estava ningum.
      - Snia, ser verdade? Achas que se salvar? - perguntou-lhe ela - Ah, Snia, que feliz e que infeliz eu sou! Snia, minha querida, est tudo como dantes. O que importa  que ele viva! Mas no pode... porque... porque... - E os soluos embargaram-lhe a voz.
      - Eu sabia-o! Louvado seja Deus! - exclamou Snia. - H-de viver! - A sua emoo no era menor do que a de Natacha diante daquela desgraa, e s suas apreenses vinham misturar-se pensamentos secretos. Abraou-se  amiga, chorando e procurando consol-la. O que importa  que ele viva!, repetia para si mesma. Depois de trocarem as suas confidncias, enxugaram as lgrimas e ambas se aproximaram da porta. Natacha abriu-a cautelosamente e olhou para dentro. Snia, a seu lado, conservava-se no limiar da porta entreaberta.
      O prncipe Andr, deitado, tinha o busto soerguido por trs almofadas. O seu rosto plido estava tranquilo, tinha os olhos cerrados e respirava regularmente.
      - Oh, Natacha! - exclamou Snia, de sbito, agarrando-se ao brao da prima e recuando um passo.
      - Que foi? Que foi? - inquiriu Natacha.
      -  aquilo,  aquilo... - respondeu ela muito plida, toda trmula.
      Natacha fechou a porta cautelosamente e seguiu Snia at ao vo da janela, sem compreender o que a amiga dizia.
      - Lembras-te - disse Snia, assumindo uma expresso ao mesmo tempo solene e aterrada. - Lembras-te de quando consultmos o orculo do espelho... em Otradnoie, pelo Natal... lembras-te do que eu vi?...
      - Lembro, lembro... - replicou Natacha, os olhos esbugalhados, recordando-se vagamente de que a prima lhe falara ento do prncipe Andr, que vira deitado.
      - Lembras-te? Vi-o e disse-o a todas, a ti e  Duniacha. Via-o estendido na sua cama. Tinha os olhos fechados, como neste momento, e, estendida sobre ele, uma coberta cor-de-rosa, e as mos cruzadas. - Falava cada vez com maior animao, firmemente convencida de que todos os pormenores que acabava de ver no eram mais que a repetio exacta da viso de outrora.
      Evidentemente que nada vira anteriormente e que apenas descrevera um fantasma produto da sua imaginao. No entanto essa iluso afigurava-se-lhe agora uma recordao verdadeira. Dissera ento que ele olhara para ela, lhe sorrira, que estava envolto em qualquer coisa vermelha, e agora recordava-se perfeitamente, tinha a certeza: a coberta da cama era cor-de-rosa, sim, efectivamente, cor-de-rosa, e ele tinha os olhos fechados.
      - Sim, sim,  verdade, era uma coberta cor-de-rosa - confirmou Natacha, que se recordava agora tambm de que ela lhe falara nessa coberta, o que, a seus olhos, ganhava propores de estranha e misteriosa previso.
      - Que quer isto dizer? - perguntou ela, pensativa.
      - Ah!, no sei.  tudo to extraordinrio! - comentou Snia, levando as mos  cabea.
      Alguns minutos mais tarde Andr chamou, e Natacha foi para junto dele. Snia, que nunca em sua vida sentira maior emoo ou estivera mais perturbada, deixou-se ficar junto da janela pensando naquelas estranhas coincidncias.
      
      Nesse mesmo dia houve oportunidade de utilizar um correio para o exrcito e a condessa escreveu ao filho.
      - Snia - chamou, erguendo a cabea, quando a sobrinha passou junto dela - Snia, no escreves ao Nikolenka? - E, ao dirigir-lhe esta pergunta, a sua voz tremeu ligeiramente.
      Nos seus olhos fatigados que ;i olhavam atrs das lentes dos culos. Snia adivinhou o que a condessa lhe queria dizer. Nesse olhar havia suplica, receio de uma recusa, embarao por ter de fazer semelhante pedido e inimizade pronta a manifestar-se caso ela no transigisse.
      Snia aproximou-se da condessa e, ajoelhando, beijou-lhe as mos.
      - Eu vou escrever-lhe, me - disse ela.
      Snia sentia-se comovida - perturbada e enternecida por ver cumprido aquele misterioso pressgio de outrora. Agora, que conclura que a reconciliao do prncipe Andr e Natacha tornaria impossvel o casamento de Nicolau com a princesa Maria, sentia-se contente por voltar de novo ao esprito de sacrifcio que era toda a sua vida. Com os olhos rasos de lgrimas e a satisfao ele cumprir um acto realmente herico, ps-se a escrever, interrompendo-se, vrias vezes para enxugar as lgrimas que lhe queimavam as rbitas, a carta comovedora que to profundamente iria surpreender Nicolau.
      Ao chegar ao corpo da guarda onde Pedro fora conduzido, os oficiais e os soldados principiaram por trat-lo severamente, embora com algum respeito. Ainda no sabiam de quem se tratava - talvez fosse uma personalidade importante -, mas a luta que recentemente travara, com eles no os predispunha  indulgncia.
      Na manh do dia seguinte, porm, quando se procedeu ao render da guarda, a nova, guarnio deixou de ter razes para o tratar da mesma maneira. Com efeito, esse homem corpulento de cafet de mujique j no era aos olhos, deles aquele que tivera a mo leve para o salteador e para os soldados da patrulha e falara em tom solene de uma criana salva das chamas. Para eles era apenas o dcimo stimo prisioneiro russo s ordens do alto comando. S o que o distinguia dos outros era o seu porte altivo, o seu ar meditativo e o facto de falar francs com extraordinria felicidade. Mas nesse mesmo dia Pedro foi encarcerado  mistura com outros suspeitos, pois o quarto particular onde ele estivera fora requisitado para um oficial.
      Todos os russos que tinham sido detidos aquando ele pertenciam  mais baixa condio. E, reconhecendo que Pedro era um senhor, todos eles o mantinham  margem, tanto mais que falava francs, Pedro percebeu com desgosto que troavam dele.
      Na noite do dia seguinte veio a saber que todos os prisioneiros, e ele tambm naturalmente, iam ser julgados sob a acusao de incendirios. No terceiro dia levaram-no com os outros  presena de um general de bigode branco, dois coronis e outros franceses de braadeiras claras. Interrogaram-nos com a nitidez e a preciso de quem se considera superior a todas as fraquezas humanas, atitude habitual nos interrogatrios de prisioneiros. Perguntaram-lhes quem eram, onde estavam e com que intenes...
      Todas estas perguntas, que deixavam de lado, sistematicamente, a essncia do caso e tornavam desde logo impossvel o esclarecimento do que mais importava, como acontece a todas as perguntas que se formulam nos tribunais, no tinham por fim outra coisa seno orientar as respostas dos acusados no sentido requerido, isto , da sua culpabilidade. Sempre que o prisioneiro queria dizer qualquer coisa de pouco favorvel  acusao, tratavam logo de desviar as suas palavras para o ponto desejado. Alm disso dava-se com Pedro o que se costuma dar com todos os acusados onde quer que estejam: ignorava o objectivo daqueles interrogatrios. Supunha que s por indulgncia ou cortesia adoptavam semelhante procedimento para com ele. Compreendia estar nas mos daquela gente, que s a fora ali o levara e s a fora os fazia exigir respostas s suas perguntas e que aquela assembleia apenas se reunia para o inculpar. Perante tal situao, dizia de si para consigo, era intil usar de astcia. Todas as respostas que desse apenas serviriam para o incriminar. Perguntaram-lhe o que fazia quando fora preso: respondeu, com entono trgico, que levava aos pas uma criana que ele salvara das chamas. A pergunta: Porque jogava  pancada com um soldado? respondeu que defendia uma mulher, e que todo o homem honesto tinha o dever de defender uma mulher atacada, que... Assim que isto disse, porm, mandaram-no calar: que no tinha nada a ver com o assunto. Que fazia ele no ptio da casa incendiada, onde fora visto por testemunhas? Replicou que tinha ido ver o que se passava na cidade. Interromperam- no de novo. No lhe perguntavam onde ia, mas porque se encontrava no local do fogo. E repetiram-lhe a primeira pergunta acerca da sua identidade.  qual no quisera responder. Pela segunda vez replicou que no podia responder a essa pergunta.
      - Escrivo, tome nota. O seu caso  grave, muito grave mesmo - disse em tom severo o general de bigode branco e rosto corado.
      No quarto dia aps a priso de Pedro, os incndios principiaram na muralha de Zubovo.
      Conduziram-no com mais treze detidos a Krimski Brod e meteram-nos na cocheira de um comerciante. Ao atravessar as ruas sentiu-se sufocado pelo fumo, que parecia espalhar-se agora pela cidade inteira. Viam-se chamas por todos os lados. Ainda ento no compreendia todo o significado do desastre e o espectculo enchia-o de pavor.
      Passou quatro dias nesse barraco, e pelo que diziam os soldados franceses soube que se aguardava de um momento para o outro a deciso do marechal sobre o destino dos detidos. No lhe foi possvel compreender todavia de que marechal se tratava.
      Para aqueles soldados o nome de marechal representava o escalo supremo da autoridade.
      Os dias que precederam 8 de Setembro, data em que os prisioneiros voltaram a ser interrogados, foram os mais penosos para Pedro.
      

      
      
      
      Captulo X
      
      No dia 8 de Setembro, por conseguinte, um oficial superior, a avaliar pelas honras que a guarda lhe dispensou, veio visitar os prisioneiros. Este oficial, que pertencia sem dvida ao estado-maior, procedeu, de lista em punho,  chamada dos russos, designando Pedro por aquele que no revela o seu nome. E depois de lhes lanar um olhar indiferente, ordenou ao oficial da escolta que os mandasse vestir convenientemente para se apresentarem diante do marechal. Uma hora mais tarde chegou a escolta, que conduziu Pedro e os companheiros ao campo Deviche. Depois da chuva que cara, o dia estava claro e cheio de sol, e o ar extraordinariamente puro. O fumo no se conservava rente ao cho como no dia em que os haviam levado do corpo da guarda das muralhas de Zubovo; subia direito no ar sereno. No se viam agora labaredas, mas de todos os lados se erguiam colunas de fumo, e Moscovo, de ponta a ponta, pelo menos quanto a Pedro era dado ver, estava reduzida a escombros.
      Por toda a parte eram reas devastadas, runas, muros enegrecidos no alto dos quais ainda se mantinham de p as chamins. Por mais que procurasse identificar essas runas, Pedro no conseguia descobrir o bairro em que estava. Aqui e ali havia igrejas intactas.
      O Kremlin, que no fora atingido, alvejava, na distancia, com a suas torres e a igreja de Iv, o Grande. Nas suas imediaes brilhava a cpula do Mosteiro Novodeviche, cujos sinos repicavam com particular sonoridade. Esses sinos fizeram lembrar a Pedro que era domingo e dia da Natividade da Virgem, mas parecia no haver ningum para celebrar a festa. Tudo estava em runas. De vez em quando encontravam alguns russos esfarrapados e temerosos que se escondiam ao verem os franceses.
      Era evidente que o ninho russo fora destrudo e disperso, mas Pedro sentia inconscientemente que, destruda a ordem da vida russa, se estabelecera um regime muito diferente, particularmente severo, o regime francs. Disso se apercebia ao ver o aspecto alegre e marcial dos militares que o escoltavam, a ele e aos outros detidos, assim como o alto funcionrio francs que caminhava ao encontro deles, numa carruagem tirada por dois cavalos e guiada por um soldado. E tambm se apercebia disso mesmo ao ouvir os alegres compassos de uma banda regimental que chegavam at ele vindos do lado esquerdo da esplanada. Compreendeu-o e sentiu-o sobretudo nessa mesma manh quando o oficial veio fazer a chamada dos prisioneiros. Fora capturado por simples soldados, fora baldeado de um lado para o outro, de cambulhada com dezenas de outros indivduos. Podia ter pensado que iam esquec-lo, confundi-lo com os outros. Mas no: as suas respostas no interrogatrio pegavam-se-lhe ao corpo, aquele que no revela o seu nome. E sob essa designao, que o assustava agora, o levavam no sabia para onde, embora lesse na cara dos guardas saberem-no eles muitssimo bem, eles que os conduziam onde era mister. Sentia-se como o gro de p que cai na engrenagem de uma mquina desconhecida, mas que trabalha maravilhosamente.
      Conduziram Pedro e os seus companheiros ao campo Deviche, no longe o mosteiro, a uma grande casa branca cercada de extensos jardins. Era a casa, do prncipe Chteherbatov, que Pedro costumava frequentar, e onde residia, veio a sab-lo pelos soldados, o marechal prncipe de Eckmhl.
      Foram levados at ao alpendre e introduziram-nos dentro de casa um por um. Pedro foi o sexto a entrar. Atravs da galeria envidraada, do vestbulo e da antecmara, que Pedro conhecia muitssimo bem, fizeram-nos entrar num longo gabinete de tecto baixo  porta do qual havia um ajudante-de-campo.
      Davout estava sentado na extremidade da sala, os culos acavalados no nariz. Pedro aproximou-se. De olhos pousados no papel que procurava decifrar. Davout, perguntou em voz baixa: Quem sois?
      Pedro ficou calado, pois sentia-se incapaz de articular palavra. A seus olhos, Davout no era apenas um general francs, mas um homem de conhecida crueldade. Ao ver aquele rosto frio em que havia qualquer coisa da expresso de um pedagogo severo que condescende em esperar um instante pela resposta pedida. Pedro disse de si para consigo que cada segundo de hesitao que mostrasse lhe poderia custar a vida: e no entanto no sabia que dizer. Repetir o que dissera quando do primeiro interrogatrio parecia-lhe intil: revelar o seu nome e a sua situao no s seria perigoso mas vergonhoso. Ficou calado. Sem lhe dar tempo, porm, a que ele tomasse uma deciso, Davout ergueu a cabea, puxou os culos para a testa e piscou os olhos, fixando Pedro atentamente.
      - Conheo este homem - disse ele, num tom frio e montono, evidentemente para o assustar.
      Pedro sentiu que uma tenaz lhe apertava a testa.
      - Meu general, no me pode conhecer, eu nunca o vi...
      -  um espio russo - interrompeu Davout, dirigindo-se a outro general que estava presente e Pedro no vira.
      E Davout virou-lhe as costas. Pedro, subitamente, ps-se a falar em voz trmula.
      - No, monsenhor - disse ele, lembrando-se, de repente, que Davout era prncipe. - No, monsenhor, no me pode conhecer. Sou um oficial miliciano e nunca sa de Moscovo.
      - Como se chama? - repetiu o marechal.
      - Besouhoff.
      - Que  que me prova que no est a mentir?
      - Monsenhor! - exclamou Pedro, numa voz mais splice que ofendida.
      Davout ergueu os olhos e olhou-o fixamente. Assim estiveram a olhar-se um ao outro durante alguns instantes. Eis a salvao de Pedro. Aqueles olhares, que esqueciam a situao respectiva de dois inimigos, juiz e acusado, estabeleceram entre eles relaes simplesmente humanas. Ambos, naquele instante, sentiram, confusamente, muitas coisas, compreendendo que tanto um como outro eram feitos da mesma humanidade, dois irmos.
      Na altura em que Davout ergueu a cabea de cima da sua lista, onde os seres humanos e o seu destino no eram mais do que nmeros, Pedro, para ele, era apenas um incidente sem importncia.
      Sem receio de sobrecarregar a sua conscincia com qualquer m aco, t-lo-ia mandado fuzilar. Agora, porm, via nele um homem. Ficou um breve instante a reflectir.
      - Como me prova a verdade do que me est a dizer? - disse ele friamente.
      Pedro lembrou-se de Ramballe e citou o regimento deste, o seu nome e a rua onde ele vivia.
      - O senhor no  o que diz ser - repetiu Davout.
      Pedro, numa voz trmula e entrecortada, apresentou as provas do que afirmava.
      Nesta altura o ajudante-de-campo entrou na sala e comunicou qualquer coisa ao seu superior.
      Este pareceu sentir-se muito contente com a notcia e ps-se a abotoar o dlman para sair. Dir-se-ia ter esquecido Pedro por completo.
      O ajudante-de-campo, contudo, lembrou-lhe o prisioneiro que ele interrogava. Davout franziu o sobrolho, acenou com a cabea na sua direco e deu ordem para o levarem dali. Mas para onde? Eis o que Pedro ignorava. Lev-lo-iam para o barraco ou para o local do suplcio do campo Deviche, que lhe tinham mostrado?
      Voltou a cabea e viu o ajudante-de-campo que interrogava o marechal.
      - Sim... sem dvida! - replicou este. De que se tratava? No sabia.
      No foi capaz de saber, mais tarde, por quanto tempo havia caminhado e para onde o tinham levado. Num estado de completa, inconscincia, sem se dar conta do que se passava  sua roda, caminhou, caminhou, detendo-se quando os outros se detinham. Um nico pensamento o preocupava no fim de contas, quem o condenara  morte? No, com certeza, aqueles que o haviam interrogado: nenhum deles o teria feito nem o desejaria fazer. To-pouco Davout, que o olhara com tanta humanidade. Um pouco mais e Davout teria reconhecido estarem enganados a seu respeito, A chegada do ajudante-de-campo o impedira disso. Naturalmente esse oficial no procedera de m-f, mas teria sido prefervel que no aparecesse. Quem pois o queria supliciar, acabar-lhe com a vida, a ele, Pedro, com todas as suas recordaes, os seus desejos, as suas esperanas, os seus pensamentos? Quem? E conclua que afinal ningum.
      Se havia um culpado, era a ordem estabelecida, e essa ordem roubava-lhe a vida, aniquilava-o.
      

      
      
      
      Captulo XI
      
      Da casa, do prncipe Chtcherbatov, os prisioneiros foram conduzidos directamente, atravs do campo Deviche.  esquerda do Mosteiro Dievitchi, e fizeram-nos entrar num pomar onde estava erguido um poste. Na retaguarda deste havia um grande fosso, ladeado de um monte de terra recentemente removida, e em volta dele, em semicrculo, grande multido. Os russos eram poucos, e grande o nmero de soldados de Napoleo: alemes, italianos e franceses envergando os fardamentos mais variados. A direita e  esquerda do poste formava um destacamento de franceses, de arma ao ombro, capotes azuis, charlateiras vermelhas, polainas e barretinas.
      Os condenados foram colocados em filas pela ordem em que figuravam na lista, na qual Pedro era o sexto, e conduziram-nos at junto do poste. De sbito ouviu-se o rufar de tambores em vrios pontos. Ao ouvi-los, Pedro sentiu, por assim dizer, que a alma se lhe separava do corpo. Perdeu toda a capacidade de pensar e de se recordar. Apenas podia ver e ouvir. E s tinha um desejo: que aquela coisa horrvel acabasse o mais depressa possvel. Pousou os olhos nos seus companheiros.
      Os dois da extremidade eram presidirios e tinham a cabea rapada: um, grande e magricela, o outro, moreno, peludo, musculoso e de nariz achatado. O terceiro era um criado dos seus quarenta e cinco anos, de cabelo grisalho, corpulento e bem tratado. O quarto, um mujique, belo rapaz, de barba ruiva, em forma de leque, e olhos pretos, O quinto, um operrio fabril, rapazola amarelento e delgado, dos seus dezoito anos, que vestia um guarda-p.
      Pedro ouviu os franceses discutir entre si se deviam fuzila-los individualmente ou dois a dois. Dois a dois, respondeu, friamente, o oficial que comandava a fora. Houve agitao nas fileiras dos soldados e todos se deram pressa. No era a pressa de algum que quer realizar uma tarefa de bom grado aceite por todos, mas a pressa em dar por findo um trabalho necessrio, embora desagradvel e repugnante.
      Um funcionrio francs, de braadeira, aproximou-se pela direita das filas dos condenados e leu as sentenas em russo e francs. Em seguida, quatro soldados, dois a dois, a um sinal do oficial, tomaram conta dos penitencirios da extremidade. Estes marcharam direitos ao poste, pararam e, enquanto lhes preparavam os sacos para lhes enfiar na cabea, olharam  sua volta em silncio como a fera cercada pelos caadores que a vo abater.
      Um deles persignava-se e voltava a persignar-se, o outro coava as costas, esboando um movimento de lbios em que havia como que um sorriso. Os soldados, rapidamente, vendaram-lhes os olhos, enfiaram-lhes os sacos pela cabea e amarraram-nos ao poste.
      Doze atiradores saram das fileiras, em passo firme e cadenciado, e alinharam a uns oito passos do poste. Pedro virou a cara para no ver o que ia passar-se. De sbito soaram as detonaes, que lhe pareceram mais estrondosas que os mais medonhos troves, e de novo voltou a cara. Havia fumo no ar, e os franceses, plidos e de mos trmulas, faziam fosse o que fosse em volta do fosso. Os dois condenados seguintes foram levados tambm. Exactamente como os primeiros, e com os mesmos olhos, fitaram o pblico, como se no compreendessem nem pudessem acreditar no que lhes estava a acontecer. Impossvel. S eles sabiam o preo que a existncia tinha para eles e no podiam compreender nem acreditar que lhes tirassem a sua nica vida.
      Pedro, para no ver, voltou de novo a cara e uma nova e tremenda detonao lhe soou aos ouvidos. No mesmo instante subiu no ar o mesmo fumozinho, o sangue espalhou-se no cho, e os franceses, de rostos plidos e assustados, agitaram-se em volta do poste, empurrando-se uns aos outros com mos trmulas. Pedro, com um grande suspiro, olhou em roda de si, como se perguntasse o que significava tudo aquilo. E a mesma pergunta se lia em todos os olhos que os de Pedro interrogavam.
      Em todos os rostos, dos russos, dos soldados franceses, dos oficiais, em todos, sem excepo, encontrava o mesmo pavor, o mesmo horror, e tambm os mesmos sinais da luta travada em seus coraes: Quem foi, realmente? Todos sofrem o que estou a sofrer. Quem? Quem? E esses pensamentos perpassaram-lhe pelo esprito como um relmpago.
      Atiradores do 36, em frente!, gritou uma voz.
      Levaram o quinto prisioneiro, s esse, aquele que estava ao lado de Pedro. Mas no compreendeu logo que estava salvo, que tanto ele como os outros apenas ali tinham sido levados para assistir  execuo. Cada vez era maior nele o sentimento de horror. No sentia nem alegria nem apaziguamento. O quinto condenado era o operrio fabril de guarda-p. Assim que lhe puseram as mos em cima, deu um salto e agarrou-se a Pedro, que, estremecendo, horrorizado, procurou desembaraar-se dele. No era capaz de dar um passo. Arrastaram-no pelas axilas enquanto ele gritava, Ao chegar ao poste, calou-se subitamente. S agora parecia compreender. Teria percebido ser intil gritar ou pensaria no ser possvel que o fossem matar? E ali estava diante do poste, de p, aguardando que lhe vendassem os olhos, como aos outros, e, como eles, parecia o mesmo animal ferido olhando , sua roda com olhos alucinados.
      Pedro sentia no ser capaz de voltar de novo a cabea e fechar os olhos. Atingira o auge da curiosidade e da emoo, como todos os presentes, perante aquele quinto fuzilamento. E tambm aquele condenado, como os demais, parecia finalmente calmo: embrulhava-se no guarda-p enquanto esfregava um no outro os ps descalos.
      Quando lhe vendaram os olhos, ele prprio ajeitou na, nuca o n que o magoava e quando, em seguida, o amarraram ao poste ensanguentado, inclinou-se para trs, mas como essa posio tosse incmoda, voltou a endireitar-se e, de ps juntos, dcil, ps-se no lugar conveniente. Pedro, de olhos fitos nele, seguia-lhe os mais pequenos movimentos,
      Ouviu-se, naturalmente, a voz de fogo e os oito tiros soaram sem dvida ao mesmo tempo. Mas, por mais que Pedro o tentasse recordar depois, no se lembrava de ter ouvido qualquer detonao Apenas viu o rapaz escorregar, de sbito desamparado, no meio das cordas que o prendiam. Sangue lhe apareceu em dois pontos, as cordas bambearam sob o peso do corpo e o fuzilado, a cabea exageradamente pendida para diante, as pernas flectidas, sentou-se no cho. Pedro correu para ele. Ningum o reteve. Em volta do cadver moviam-se vultos plidos e assustados. O queixo de um velho soldado de grandes bigodes que desatava as cordas estremecia convulsivamente. O corpo caiu. Os soldados, apressados, arrastaram-no para alm do poste e jogaram-no na fossa.
      Dir-se-ia que todos se sentiam criminosos e que s queriam fazer desaparecer o mais depressa possvel os vestgios do seu crime.
      Pedro olhou para o fundo do fosso e viu l dentro o condenado, os joelhos ao p da cabea e um ombro mais alto do que e outro. Este ombro, em movimentos nervosos, baixava e subia regularmente. Mas as pazadas de terra principiavam j a cobrir o corpo. Um soldado, exasperado, gritou a Pedro que se afastasse. Este, sem perceber, continuou onde estava e ali ficou.
      Assim que o fosso ficou coberto de terra, soou uma voz de comando. Pedro foi reconduzido ao seu lugar e o destacamento francs formado aos lados do poste fez meia volta e desfilou, marcando passo. Os vinte e quatro atiradores que tinham feito fogo iam-se incorporando nas fileiras  medida que o destacamento passava diante deles.
      Pedro olhava agora sem ver os soldados que passavam diante dele dois a dois. Todos, menos um, reentraram nas suas companhias. Um soldado, muito novo, plido como um morto, barretina atirada para a nuca, a espingarda voltada para o solo, continuava de p diante do fosso no stio onde fizera fogo. Cambaleando como um brio, dava um passo em frente, outro  retaguarda, para, se, manter de p. Um velho sargento saiu das fileiras, pousou-lhe as mos nos ombros e arrastou-o  fora para o seu lugar, A multido ia dispersando.
      Todos caminhavam de cabea baixa, sem dizer palavra.
      - Isto os ensinar a deitar fogos! - exclamou um dos franceses.
      Pedro olhou para o soldado que falara: era algum que tentava desculpar o que se consumara. Sem concluir a frase, teve um gesto de indiferena e seguiu o seu caminho.
      

      
      
      
      Captulo XII
      
      Depois da execuo separaram Pedro dos outros e deixaram-no s numa igrejinha saqueada e em runas.
      Pela noite, o sargento da guarda penetrou na igreja acompanhado de dois soldados e comunicou-lhe que fora indultado e que transitaria dai para o futuro para o barraco dos prisioneiros de guerra, Sem perceber o que lhe diziam, levantou-se e seguiu os soldados. Conduziram-no  parte superior da esplanada, a uns barraces de pranchas e vigas queimadas e meteram-no num deles. Na obscuridade pode distinguir uns vinte homens. Olhou-os sem compreender quem eram e o que estavam ali a fazer. Percebia as palavras que diziam sem poder deduzir delas qualquer sentido. Nem sequer lhes compreendia o significado. Respondia as perguntas sem a mais pequena ideia de quem poderia ser que lhe falava e da maneira como compreenderia as respostas. Via diante de si figuras e corpos e tudo parecia no ter para ele o mais ligeiro significado.
      Desde o momento em que assistira quela terrvel chacina executada por quem a levara a cabo sem vontade prpria, dir-se-ia que na sua alma deixara de funcionar subitamente essa mola que tudo aguenta e d vida ao conjunto. Tudo nele parecia desmoronado e um monte informe de ferro-velho. Nele, sem que se desse conta, extinguira-se a f na harmonia do universo, na alma humana, na sua prpria alma e at em Deus. J passara por esse mesmo estado outrora, mas nunca sentira como agora os efeitos dessa crise. At ento, quando diante de uma dvida, era ele prprio, por sua culpa, o causador dela, Ento sen(ia, no fundo da sua alma, que a salvao lhe viria dos seus prprios excessos e das suas mesmas dvidas, Agora dava-se conta de que, sem que ele tivesse culpa, o mundo se desmoronava diante dos seus olhos e que dele no restavam mais que absurdas runas. Sentia no estar nas suas mos recuperar a f na vida.
      Distinguia, no meio da obscuridade, em volta de si, vultos que pareciam interessados na sua pessoa. Contavam-lhe coisas vrias, faziam-lhe perguntas: depois levaram-no dali e encontrou-se num recanto do barraco, ao lado de indivduos que se interpelavam mutuamente de vrias direces, rindo.
      - Ora a est ele, rapazes... esse prncipe que exclamou uma voz, no recanto oposto, pondo inteno particular na maneira como pronunciara aquele que.
      Calado e imvel, Pedro, sentado na palha, encostado ao tapume, ora abria ora fechava os olhos. Quando os fechava, revia o rosto terrvel do pobre operrio fabril, cuja simplicidade o tornava ainda mais pavoroso, e revia tambm as caras, ainda mais terrveis no seu pavor, dos assassinos obrigados. Depois tornava a abri-los e olhava em volta de si, no meio da obscuridade, com um ar estpido.
      A seu lado, debruado para ele, estava sentado um homenzinho cuja presena notara desde o primeiro instante graas ao cheiro a suor que dele se desprendia ao mais simples movimento.
      Esse homem cuidava dos ps no meio das trevas, e embora Pedro lhe no visse a cara sentia-lhe os olhos pousados nele. Tentando ver atravs da obscuridade, percebeu que procurava descalar-se. E a maneira como o fazia intrigava Pedro.
      Depois de ter desatado os trapos que envolviam uma das pernas, imediatamente tratou da outra, sempre a olhar para Pedro. Enquanto com uma das mos pendurava num prego os trapos, ia desfazendo os outros com a outra mo. Depois de se ter descalado, tambm com toda a cautela, em movimentos regulares, pacientes, sem pressa, dependurou as botas numa escpula que lhe ficava por cima da cabea, puxou de uma navalha, cortou qualquer coisa, voltou a fech-la, e depois de se sentar mais comodamente abraou os joelhos com as mos e fitou Pedro com insistncia. Uma agradvel sensao de apaziguamento e de doura se apoderava de Pedro observando os movimentos regulares daquele homem metdico ali no seu canto; at o cheiro que dele emanava lhe no era desagradvel e ele prprio se ps a olh-lo tambm obstinada mente.
      - Tem visto muita coisa na sua vida, cavalheiro? Hem? - exclamou, de sbito, o homenzinho.
      Na voz cantante daquele homem havia tal inflexo de carinho e simplicidade que Pedro, ao querer responder-lhe, sentiu que lhe tremia o queixo e que as lgrimas lhe subiam aos olhos.
      O homenzinho, sem lhe dar tempo a que se deixasse ganhar pela comoo, prosseguiu no mesmo tom:
      - No te aflijas, meu falcozinho - disse nessa voz terna e acariciadora to prpria das velhas russas. - No te aflijas, meu amigo; depois de uma hora de sofrimento, temos a vida inteira para viver,  o que te digo, meu amigo. E graas a Deus ainda estamos vivos e de boa sade, Tambm eles so homens, uns bons e outros maus... - E, dizendo isto, inclinou-se para diante, num movimento gil, levantou-se, tossindo, e afastou-se um pouco.
      - Eh!, patife! Ests a outra vez! - exclamou a mesma voz agradvel na outra extremidade do barraco. - Ests a outra patife! Lembras-te de mim? Bom, bom, basta.
      Enxotando um cachorrinho que pulava  roda dele o soldado voltou para o seu lugar e sentou-se de novo. Trazia qualquer coisa embrulhada num trapo,
      - Toma, come - disse, ele de novo em tom respeitoso. Tirou trapo batatas cozidas e ofereceu-as a Pedro. - Ao jantar houve sopa. Mas batatas, nem falar nisso!
      Pedro no comera durante todo o dia e o cheiro das batatas pareceu-lhe agradvel. Agradecendo ao soldado, ps-se a comer. 
      - Assim, uma por uma - interveio este, sorrindo, pegando numa das batatas. - Assim  que .
      De novo puxou da navalha, cortou a batata, na palma da no, em duas partes iguais, salpicou-a de sal que tinha dentro do trapo e apresentou-a a Pedro.
      - Batatas de primeira qualidade! - repetiu ele. - Come-as assim. - Dir-se-ia que, Pedro nunca em sua vida comera coisa to boa.
      Para mim tanto se me d - murmurou Pedro. - Mas porque fuzilaram eles aqueles desgraados? - O ltimo ainda no tinha vinte anos.
      - Chiu!... Chiu!... No diga isso, no diga isso - deu-se pressa em responder o homenzinho, e, como se as palavras lhe viessem por si mesmas  boca e sem que ele desse por isso, continuou:
      - Porque ficou o senhor em Moscovo?
      - No pensei que eles chegassem to depressa. Foi por acaso E assim apanharam-no em casa?
      - No, sa para ver o fogo e foi ento que eles me deitaram a mo e me julgaram como incendirio.
      - Onde h justia h injustia - comentou o homenzinho.
      - E tu, tu ests aqui h muito tempo? - interrogou Pedro, que acabara de comer a sua ltima batata.
      - Eu? No domingo apanharam-me no hospital de Moscovo.
      - s soldado?
      - Do regimento de Apcheron. Estava a morrer de febre. Nada nos disseram. ramos vinte ao todo. Nunca teramos pensado.
      - E aborreces-te aqui?
      - Como no hei-de eu aborrecer-me, meu falco? C por mim, chamo-me Plato e sou de Karataiev. - Acrescentou, para que a conversa corresse mais fcil para Pedro. - Na tropa chamavam-me Falcozinho. Ah. Dois no me havia de aborrecer? Moscovo  a me das cidades. Pois no hei-de estar triste com tudo isto? Sim, mas a lagarta come a couve e morre tambm. Os velhos tm razo - continuou, mudando de assunto.
      - Qu? Que disseste tu? - perguntou Pedro.
      - Eu? Eu disse que homem pe e Deus dispe - voltou, supondo repetir o provrbio que dissera antes. E prosseguiu: - E o senhor, o senhor, naturalmente, tem bens, tem casa? E a despensa sempre a abarrotar. E uma boa dona de casa? E os pais ainda vivos?
      Embora Pedro, na obscuridade, no lhe pudesse ver a cara, sentia que os lbios do soldado, ao dizerem estas coisas carinhosas, esboavam um sorriso corts. E grande foi a sua aflio quando Pedro lhe disse que no tinha parentes, especialmente que no tinha me.
      - A mulher, para dar conselhos; a sogra, para bem nos acolher, mas no que chegue  me. E tens filhos? - prosseguiu ele.
      A resposta negativa de Pedro, condoeu-se igualmente e apressou-se a acrescentar:
      - Ora, ora! Ainda s novo. Ainda podes ter filhos, graas a Deus! Desde que uma pessoa viva em paz...
      - Oh, agora -me indiferente! - disse Pedro, por dizer, sem dar por isso.
      - Eh, meu homem! - replicou o soldado. - A misria e  priso todos iro.
      Aninhou-se melhor, tossicou, dispondo-se, era bem de ver, para uma longa histria.
      - Sim, meu velho, tambm eu vivia na minha casa - principiou. - Vivamos numa rica propriedade, tnhamos muita terra nossa, os camponeses viviam folgados e ns tambm, graas a Deus. A colheita rendia sete por uma. Vivamos bem. ramos tementes a Deus. E at que um dia...
      E Plato Karataiev encetou uma histria compridssima: fora apanhar lenha  floresta vizinha, o guarda deitara-lhe a mo, fora vergastado, julgado e mandaram-no assentar praa.
      - E que julgas, meu falcozinho - prosseguiu, num tom em que se adivinhava o sorriso -, julgas que foi uma desgraa? Nada disso, tanto melhor assim! Se me no tivessem apanhado a mim, ao meu irmo competia assentar praa. E o meu irmo mais novo tinha cinco filhos  sua conta, enquanto que eu, eu, por mim, apenas deixei a mulher em casa. A filhinha que eu tive, Deus ma levou antes de assentar praa. Uma vez voltei a casa, de licena,  como te digo. Que vejo eu? Que todos viviam mais folgados do que antes: as capoeiras cheias de criao, as mulheres na lida da casa, os dois irmos a ganhar a vida l por fora. S o Mikaila, o mais novo, estava em casa. E o pai volta-se para mim e diz-me: Para mim, todos os filhos so iguais. Seja qual for o dedo que mordas, faz-te sempre doer. Se no te tivessem levado para a tropa a ti, Plato, tinham levado o Mikaila. Chamou-nos a todos e mandou-nos pr diante dos cones. Mikaila, disse ele, chega-te aqui, roja-te a no cho, e tu, mulher, faz o mesmo, e vocs, gente mida, tambm. Perceberam? E aqui tem, meu velho. O destino  que manda e ns passamos a vida a dar sentenas: no est certo, no  assim que deve ser. A nossa felicidade, meu amigo,  como a gua nas redes do pescador. Se puxamos por elas, as redes incham, mas quando as tiramos de dentro da gua j esto vazias.  assim mesmo.
      E Plato enterrou-se na sua palha.
      Aps alguns instantes de silncio, voltou a soerguer-se.
      - Quer-me parecer que ests com vontade de dormir - disse ele, e ps-se a benzer-se precipitadamente, murmurando:
      - Senhor Jesus Cristo, Santos Nicolau, Frol e Laura! Senhor Jesus Cristo, Santos Nicolau, Frol e Laura! Senhor Jesus Cristo, tem piedade de ns e salva-nos! - Finda a sua orao, prosternou-se no cho, voltou a erguer-se, suspirou e sentou-se na palha. - Faz com que durmamos como uma pedra, o Deus, e que acordemos como um calatch - murmurou ainda. Depois deitou-se, cobrindo-se com o capote.
      - Que orao  essa? - perguntou Pedro.
      - Que dizes? - retrucou Plato, que estava quase a dormir.
      - Que foi que eu rezei? Rezei a Deus. E tu, tu no rezas?
      - Rezo, sim, tambm rezo - volveu Pedro. - Mas que  isso de Frol e de Laura?
      - Hem? So os patronos dos cavalos - respondeu ele. - Tambm devemos ter piedade dos animais. Eh, patife! Enroscou-se todo. Est quentinha, a filha de uma cadela! - acrescentou, passando a mo pelo lombo da cadelita deitada em cima das suas pernas: depois voltou-se para o outro lado e adormeceu instantaneamente.
      L fora, na distncia, ouviam-se gritos e queixas e atravs das fendas das tbuas do barraco via-se luz. L dentro, porm, reinavam as trevas e a serenidade. Levou tempo antes que Pedro pudesse conciliar o sono e ali esteve estendido na palha, no meio das trevas, os olhos muito abertos, a ouvir o ressonar de Plato, deitado perto dele. Sentia que o mundo moral que se desmoronara na sua alma se ia reedificando, pouco a pouco, mais belo, e sobre alicerces novos e inalterveis.
      

      
      
      
      Captulo XIII
      
      No barraco onde estava Pedro, e onde passou quatro semanas, havia, entre os vinte e trs prisioneiros, trs oficiais e dois funcionrios.
      De toda essa gente apenas lhe ficou na memria uma plida lembrana, mas a figura de Plato Karataiev gravou-se-lhe nela para sempre, como a recordao mais viva e mais querida, como a personificao do que h de melhor e de mais so no povo russo. Quando no dia seguinte de madrugada lhe foi dado ver o rosto do seu vizinho, a impresso que tivera dos seus gestos envolventes confirmou-se. Com efeito, no seu capote de soldado francs cingido por uma corda, com o seu barrete e os seus laptis, todo ele era reboludo. Tinha a cabea redonda como uma bola; redondos eram tambm o seu dorso, o seu peito, os seus ombros e at os seus braos, que ele mantinha sempre numa postura envolvente, corao para acariciar algum. E at o seu sorriso e os seus grandes olhos castanhos e ternos eram redondos.
      Devia ter os seus cinquenta anos, a ajuizar pelas campanhas em que tomara parte jutrora como soldado. Mas ele prprio no saberia nem poderia uzer que idade tinha. Porm os seus dentes fortes, de uma brancuna esplendorosa, que mostrava, alinhados, quando ria, e ria a cada passo, eram sos e intactos, No havia um fio branco na sua barba e nos seus cabelos, e o seu corpo era elstico e sobretudo forte e resistente.
      Apesar de algumas rugas, no seu rosto havia inocncia e mocidade. Tinha uma voz agradvel e cantante. Uma das suas particularidades quando falava era a espontaneidade e a precipitao. Parecia no pensar nem no que dizia nem no que ia dizer, e esta presteza, a verdade das suas entoaIes, conferiam-lhe um penetrante dom de persuaso.
      Tais eram a sua resistncia fsica e a sua vivacidade nos primeiros tempos de cativeiro que a doena e a fadiga nada queriam com ele. Todos os dias, de manh e  noite, dizia: Faz com que durmamos como uma pedra. Senhor, e que nos levantemos como um calatch. De manh, ao erguer-se, tinha sempre o mesmo movimento de ombros e dizia: Quando nos deitamos, pomo-nos redondos, quando nos levantamos, estenderno-nos. E, realmente, assim que se deitava l estava ele a dormir como uma pedra, e assim que se estendia, sem um minuto de hesitao, punha-se logo a fazer qualquer coisa, exactamente como as crianas, que mal se levantam correm para o p dos seus brinquedos. Tudo sabia fazer, no com perfeio, mas ainda assim nada mal. Fazia o po, cozinhava, cosia, aplainava madeira, remendava as botas, Estava sempre ocupado e s  noite se permitia conversar, coisa de que, alis, muito gostava, e cantar. No o fazia como os profissionais, que se sabem escutados, mas como as aves, pois lhe era to necessrio emitir sons como estender os membros ou caminhar, e o que cantava era sempre suave, terno, quase feminino e melanclico. Enquanto cantava estava sempre muito srio.
      Desde que fora feito prisioneiro deixara crescer a barba e, abandonando por assim dizer tudo que nele era de emprstimo, estranho, soldadesco, ei-lo que volta a ser o que era, um mujique, um homem do povo.
      O soldado quando est de licena puxa a camisa para fora das calas (Voltar a ser mujique, pois o muiique usa a camisa por fora das calas, presa com um cinto. (N. dos T.), costumava dizer.
      No era do seu agrado falar do seu tempo de servio, embora no se queixasse dessa poca e repetisse muitas vezes que nunca fora castigado. Preferia contar histrias dos seus antigos tempos de cristo, como dizia, em lugar de dizer campons. Os provrbios de que esmaltava a conversa nada tinham que ver geralmente com esses ditos jocosos e inconvenientes de que tanto gosta, a soldadesca. Eram maneiras de dizer populares que, empregadas isoladamente, no tm sentido, mas, quando ditas a propsito, trasbordam de profunda sabedoria.
      Era frequente contradizer-se, embora fosse sempre acertado e que dizia. Gostava de falar, e falava bem, adornando a, sua palavra de diminutivos carinhosos ou adgios, de que ele proprio era autor, pensava Pedro. O maior encanto das suas histrias era o facto de os acontecimentos mais vulgares, que teriam passado completamente despercebidos, revestirem-se na sua boca de verdadeira grandeza, Gostava muito de ouvir as histrias, sempre as mesmas, que um soldado narrava ao sero, mas o que mais o interessava era o que se contava da vida real. Ento todo ele era alegria, e metia a sua colherada, fazia a sua pergunta, procurando extrair a moral do que se dizia. No tinha afectos nem amizades como Pedro as compreendia, mas vivia amistosamente com todos os que o rodeavam e no gostava mais deste ou daquele, em especial, mas em geral de todos na presena dos quais se encontrava. Queria ao seu cachorrinho, aos seus camaradas, aos franceses, gostava de Pedro, que era seu vizinho. Este, no entanto, percebia perfeitamente que, apesar de todas as atenes para com ele, homenagem involuntria do soldado s qualidades morais do seu companheiro, se ele partisse, no teria sofrido com a sua falta. E Pedro principiou a sentir por Karataicv os mesmos sentimentos.
      Plato Karataiev, para todos os seus demais companheiros de cativeiro, era um soldado como outro qualquer chamavam- -lhe Falcozinho ou Platocha, gracejavam com ele sem maldade, mandavam-no fazer isto e aquilo. Aos olhos de Pedro, contudo, ele era a imagem inacessvel, etcrna, do esprito de simplicidade, de franqueza e de verdade, e assim como o vira na primeira noite ele lhe ficara gravado para sempre na memria.
      Plato Karataiev nada sabia de cor alm da sua orao. Quando principiava a falar dir-se-ia no saber como acabaria. Quando Pedro, por vezes, maravilhado com o sentido das suas palavras, lhe pedia que repetisse o que dissera, j no era capaz de se recordar do que acabara de dizer, e por isso mesmo lhe era impossvel tambm repetir a letra da sua cano favorita. Falava-se a no meu querido lamo, dizia-se estou triste, mas no se lhe podia perceber qualquer sentido coerente. Ele prprio no compreendia e ser-lhe-ia de todo impossvel compreender o que significavam os termos isolados. Cada uma das suas palavras e cada um dos seus actos era a manifestao exterior de uma fora inconsciente, a sua prpria vida. E esta vida, tal qual ele a considerava, no tinha para ele qualquer sentido como vida em si mesma, s a compreendia como parte de um todo que ele a cada momento sentia presente. As suas palavras, os seus actos, emanavam dele to regular, necessria e espontneamente como o perfume emana de uma flor. Era-lhe impossvel conhecer o preo e o valor dos seus actos e das suas palavras considerados isoladamente.
      

      
      
      
      Captulo XIV
      
      Ao saber por Nicolau que seu irmo estava em Iaroslav com w Rostov, a princesa Maria, apesar das recomendaes da tia, resolveu partir imediatamente, levando consigo o sobrinho, No quis saber se era difcil ou no, se era mesmo impossvel. O seu dever no s consistia em estar junto do irmo, moribundo talvez, como fazer tudo o que estivesse nas suas mos para lhe levar o filho. Por isso se disps a partir. Se o prncipe Andr lhe no tinha escrito, era, sem dvida, por se encontrar em estado de fraqueza extrema, ou ento porque considerava aquela longa jornada muito difcil e perigosa para ela e para o filho.
      Em poucos dias se preparou para a viagem. A sua equipagem era formada pela grande berlinda do prncipe em que viera para Voroneje, e por algumas britchkas e galeras para as bagagens.
      Acompanhavam-na Mademoiselle Bourienne, Nikoluchka e o seu preceptor, a velha ama, trs criadas, Tikon, um criado moo e um heiduque que a tia lhe arranjara para a escolta.
      No se podia pensar em seguir a via ordinria para Moscovo. Assim, pois, tiveram de seguir por Lipetsk, Riazan, Vladimir, Chuia, muito mais longe, e caminho difcil, em virtude de se no encontrarem com facilidade estaes de posta, e perigoso, mesmo, pois se dizia haver franceses j nas imediaes de Riazan.
      Durante todo o penoso percurso a princesa Maria foi o espanto de Mademoiselle Bourienne, de Dessales e de toda a criadagem, to grandes a sua deciso e actividade. Era a ltima a deitar-se a primeira a levantar-se. Nenhuma dificuldade a fazia recuar. Graas a esta energia, grande estmulo para o moral de seus companheiros, puderam alcanar Iaroslav em duas semanas.
      Os ltimos dias da sua permanncia em Voroneje tinham sido para a princesa Maria os mais felizes da sua vida. O seu amor por Rostov j lhe no causava tormento nem inquietao. Enchia-lhe toda a alma, era, por assim dizer, parte integrante sua e deixara de lutar. Sem que o tivesse confessado a si prpria claramente, convencera-se entretanto de que era amada e de que amava. Disso tivera a certeza aquando da ltima entrevista com Nicolau, no dia em que ele lhe viera comunicar que o irmo estava junto dos Rostov. Nicolau no se referira  hiptese de qualquer reconciliao projectada entre Natacha e Andr no caso de este melhorar, mas lera-lhe no rosto que esta eventualidade o Preocupava. No entanto, a sua maneira de ser, discreta, terna e afectuosa, no se alterara; parecia, pelo contrrio, sentir-se feliz que a aliana projectada lhe permitisse exprimir mais livremente , amizade que sentia por ela e que era j amor. Assim, pelo merios, raciocinara a princesa Maria. Era a primeira e a ltima vez na sua vida que ela prpria amava e era amada, e nesta certeza se, sentia feliz e tranquila.
      A felicidade que isto lhe dava iro a impedia de sentir uma grande mgoa por causa do estado do irmo. A prpria traircluilidade moral de que, gozava favorecia nela os sentimentos de tristeza que dai lhe advinham. To inquieta se mostrara por isso mesmo durante os primeiros momentos,  partida de Voroneje, que as pessoas que a rodeavam, ao verem a sua expresso atormentada e o desespero que se lhe pintava no rosto, se convenceram de que ela ia adoecer durante a viagem. Felizmente as prprias dificuldades e preocupaes da jornada, ocupao de todos os seus momentos, salvaram-na momentaneamente da dor em que se abismava e reanimaram-lhe a energia.
      Como frequentemente acontece no decurso de uma viagem assim, absorvida pelas preocupaes materiais do caminho, esquecera, por assim dizer, o seu objectivo. Mas ao aproxi m arem- se de Iaroslav, e quando pde dar-se conta de que, no dentro de dias, mas de poucas horas, nessa mesma noite, as suas apreenses iam ser confirmadas, uma grande emoo tomou conta dela,
      O heiduque, enviado para se informar do domiclio dos Roslov em Iaroslav e do estado do prncipe Andr, ao reencontrar as portas da cidade a grande berlinda, que acabava de chegar, e, vendo a palidez mortal da princesa, que espreitara pela portiijhola, sentiu-se aterrado.
      - Informei-me de, tudo, Excelncia - disse ele. - Os Rostov vivemn na praa, na casa do comerciante Bronikov. No fica longe, mesmo na margem do Volga.
      A princesa, ao verificar que ele no respondera  principal pergunta, a que dizia respeito ao estado de seu irmo, olhou para c, criado apavorada. Mademoiselle Bourienne foi quem o interrogou em vez da princesa.
      - E o prncipe? - perguntou ela.
      - Sua Exclncia reside na mesma casa.
      Isso quer dizer que est vivo, disse de si para consigo a princesa, e perguntou em voz baixa:
      - Como est ele?
      - Os criados disseram-me que est sempre na mesma.
      A princesa no perguntou o que queriam eles dizer com isso e relanceando os olhos ao pequeno Nicolau, a criana de sete anos sentada diante dela muito contente por chegar a uma cidade, baixou a vista e nessa atitude se manteve at que a pesada carruagein, rangendo, oscilando e combaleando, se deteve finalmente, os estribos foram apeados com fragor.
      Abriam-se as portinholas. A esquerda estendia-se uma grande toalha de gua: era o rio:  direita um alpendre. No alpendre aguardavam-na os criados e uma rapariguinha, rosada e fresca, com uma grande trana preta, que, assim o julgou a princesa Maria, lhe sorriu um pouco afectadamente: era Soma. A princesa precipitou-se na escada, e ela disse-lhe: Por aqui, por aqui!  E viu-se, na antecmara, na presena de uma senhora idosa de tipo oriental, que vinha ao seu encontro, muito comovida. Era a velha condessa. Tomando nos braos a princesa Maria, beijou-a na cara.
      - Minha filha - exclamou ela. - Estimo-a muito e conheo-a h muito tempo.
      Apesar da emoo que sentia, a princesa Maria compreendeu de quem se tratava e disse de si para consigo que era preciso corresponder quela efuso. E, sem saber muito bem o que fazia, disse-lhe em francs algumas palavras corteses no tom em que a condessa o fizera para com ela, e perguntou-lhe: 
      - Ele como est?
      - O mdico diz que o perigo passou - respondeu a condessa, com um suspiro e os olhos no cu que pareciam desmentir as suas palavras.
      - Onde est ele? Pode ver-se, pode? - perguntou a princesa. - Imediatamente, princesa, imediatamente, miniia amiga.  o filho dele? - acrescentou ao ver entrar Nikoluchka na companhia de Dessales. - Caberemos todos, a casa  grande. Oh!, que encantadora erianal
      A condessa introduziu a princesa no salo. Snia falava com Mademoiselle Bourienne enquanto a condessa acariciava o pequeno.
      O velho conde veio cumprimentar a princesa. Mudara muito desde que ela o vira pela ltima vez. Ento era um velhinho folgazo, muito alegre, cheio de si: agora no passava de um pobre homem desorientado e digno de piedade. Enquanto falava  princesa ia olhando  sua roda, assustado, como se temesse no fazer o que devia. Arrancado aos seus hbitos pelo desastre de Moscovo e o da sua prpria runa, perdera todo o contacto com a realidade e sentia que j no tinha lugar nesta vida.
      Embora a dominasse o desejo de se ver na presena do irmo um pouco desorientada por lhe tomarem tanto tempo com as delicadezas e os cumprimentos pouco sinceros de que era alvo o sobrinho, a princesa ia fazendo as suas observaes sobre o que via e compreendia que era sua obrigao submeter-se, pelo menos provisoriamente, a maneiras de agir novas para ela. Isso era necessrio, era-lhe penoso, mas aceitava as consequncias.
      - Esta  a minha sobrinha - disse o conde, apresentando Snia -, ainda a no conhecia, no  verdade, princesa?
      A princesa Maria voltou-se para onde ela estava e, procurando dominar os sentimentos de hostilidade que sentira por essa rapariga, beijou-a. O que lhe era mais penoso era o facto de sentir que o estado de esprito dos que a rodeavam no rimava com o que se passava no seu prprio corao.
      - Onde est ele? - perguntou pela segunda vez, dirigindo-se a todos.
      - Est l em baixo. Natacha est junto dele - respondeu Snia, corando. - Foram preveni-la. Mas deve estar cansada, princesa?
      Lgrimas de despeito e e impacincia assomaram aos olhos dela. Desviou a cara e dispunha-se a perguntar  condessa por onde era o caminho para o quarto do irmo, quando uns passos leves, decididos, quase alegres, se ouviram  porta. A princesa voltou a cara e viu Natacha, que tanto lhe desagradara aquando da entrevista de Moscovo.
      Mas, assim que os seus olhos pousaram nela, logo compreendeu estar ali a sua sincera companheira de sofrimento e por conseguinte a sua amiga. Precipitou-se ao seu encontro, abraou-se a ela e rompeu em soluos encostada ao seu ombro.
      Assim que Natacha,  cabeceira do prncipe Andr, soubera da chegada de Maria, sara do quarto sem rudo, e no seu passo rpido, nesse seu passo de ritmo alegre que surpreendeu a visitante, correu ao encontro dela.
      Ao entrar no salo, o seu rosto emocionado s exprimia um sentimento, o amor, um amor sem limites por ele, por tudo que dizia respeito ao homem a quem amava, uma compaixo imensa pelos outros e um desejo apaixonado de se sacrificar. Naquele instante no seu corao no havia o mais pequeno pensamento egosta: uma possvel unio com ele no lhe passava pelo esprito.
      O instinto delicado de Maria levou-a a ler tudo isso na cara dela e foi com uma alegria em que se misturava sofrimento que se deixou chorar sobre o ombro de Natacha.
      - Vamos, vamos ter com ele, Maria - disse Natacha, levando-a consigo para outra sala.
      A princesa levantou a cabea, enxugou as lgrimas e quis interrog-la. Sabia que Natacha lhe diria a verdade.
      - Como... - disse ela, mas interrompeu-se imediatamente. Sentia que com palavras era incapaz de Interrogar e Natacha incapaz de responder, os seus olhos, a expresso do seu rosto falavam mais claramente.
      Natacha olhou para ela, mas estava cheia de ansiedade e de incerteza, Devia dizer-lhe ou no tudo o que sabia? Confusamente, sentia que na presena daqueles olhos luminosos que a penetravam at ao fundo da alma no lhe seria possvel no dizer tudo, toda a verdade, tal qual a sabia. Os lbios tremerem-lhe, um rieto se lhe esboou em torno da boca e soluou com a cabea nas mos.
      A princesa Maria compreendeu tudo.
      No entanto, ainda tinha alguma esperana e perguntou, sem que ela prpria acreditasse no que dizia:
      - E como est o seu ferimento? E o seu estado geral?
      - Vai ver... vai ver - foi tudo quanto Natacha pde articular.
      Ficaram alguns momentos num quarto vizinho do do prncipe para que desaparecessem os vestgios das lgrimas e pudessem chegar junto dele com o rosto sereno.
      - Como tem caminhado a doena? H muito que est assim pior? Quando aconteceu isso? - perguntou Maria.
      Natacha contou-lhe que nos primeiros tempos o seu estado febril e as dores lhe tinham posto a vida em perigo, mas que em Troitsa melhorara e o mdico nada mais receava ento seno a gangrena.
      Esse perigo fora evitado: em Iaroslav, no entanto, veio a produzir-se uma supurao e o mdico dissera que iria seguir, provavelmente, o seu curso regular. - Natacha estava perita em termos mdicos. - A febre declarara -se-lhe de novo: mas o mdico dizia que no tinha gravidade.
      - Finalmerite, antes de ontem - continuou Natacha, reprimindo as lgrimas- isso apareceu bruscamente... No sei como. Ver com os seus olhos o estado em que ele est.
      - Est mais magro? Emagreceu? - perguntou a princesa. 
      - No, no  isso,  pior. Ver. Ah! Maria.  bom de mais, no pode, no pode viver neste mundo, por isso...
      

      
      
      
      Captulo XV
      
      Quando Natacha, com um movimento habitual, abriu a porta, deixando passar na sua frente a princesa Maria, esta sentiu que os soluos a sufocavam. Conquanto estivesse preparada para o encontro, e embora fizesse tudo para estar serena, sentia que no tinha coragem de o ver sem chorar.
      Compreendera o que Natacha queria dizer com as suas palavras: Isso aconteceu-lhe antes de ontm. Percebera que aquilo queria dizer que ele se acalmara de repente e que essa acalmia, esse desprendimento, eram prenncios de morte. Revia, naquele momento, o pequeno Andr que ela ccithecera na sua infncia, esse rostozinho meigo, suave, humilde, essa expresso que ele to poucas vezes tivera depois e que to profundamente a comovia quando voltava a encontrar-lha no rosto. De antemo sabia que ele lhe iria dizer dessas palavras serenas e ternas como o pai lhe dissera antes de morrer e que no poderia suportar isso e que romperia a chorar. Mas, como mais tarde ou mais cedo tinha de contecer, resolveu entrar. Estava quase sufocada pelos soluos quando, com os seus ohos mopes, distinguiu os contornos do corpo do irmo e reconheceu os seus traos: o rosto dele estava diante de si e os seus olhos vieram pousar-se nos dela.
      Estendido num canap, amparado por duas almofadas, tinha um roupo forrado de zibelina. Estava magro e plido. Com uma das mos, transparente e quase descarnada, pegava num leno, enquanto com a outra, graas a imperceptveis movimentos dos dedos, retorcia o fino bigode, que crescera muito. Os seus olhos pousaram-se na pessoa que entrava.
      Ao ver aquela fisionomia e a expresso daquele olhar, Maria moderou o passo e sentiu que as lgrimas se lhe secavam rios olhos e os soluos se lhe retinham no peito. Aquela cara, aqueles olhos, intimidaram-na de sbito e sentiu-se como culpada.
      Culpada de qu?, perguntou-se a si prpria. De que tu vivas e que penses na vida, enquanto que eu... respondeu-lhe aquele frio e severo olhar.
      Quando dirigiu lentamente os olhos para a irm e para Natacha, no seu olhar profundo, que no olhava para fora, mas antes parecia olhar para dentro, quase havia dio.
      O prncipe beijou a irm, passando-lhe os braos em volta do pescoo, como era seu costume.
      - Bons dias, Maria, chegaste por fim? - disse numa voz to montona e to estranha como o seu olhar.
      Se se tivesse posto a gritar desesperadamente, teria causado menos horror  irm que o que lhe causara com o timbre daquela voz.
      - Trouxeste contigo tambm o Nikoluchka? - perguntou com a mesma voz montona e lenta, fazendo um grande esforo de memria.
      - Como te sentes agora? - disse Maria, surpreendida de poder fazer semelhante pergunta.
      - Minha querida amiga, isso deves pergunt-lo ao mdico - replicou ele, e, num esforco ainda para se mostrar amvel, acrescentou apenas dos lbios (via-se que no pensava no que dizia):
      - Muito obrigada, querida amiga, por ter vindo.
      A princesa Maria apertou-lhe a mo. Essa presso f-lo franzir as sobrancelhas imperceptivelmente. Calara-se e ela prpria no sabia que dizer. E ento compreendeu o que acontecera a Andr havia dois dias. Nas suas palavras, no tom da sua voz, sobretudo naquele frio olhar, quase hostil, adivinhava-se esse desprendimento de todas as coisas deste mundo to terrvel para quem est vivo. Parecia j nada compreender do inundo dos vivos, e no porque as suas capacidades intelectuais tivessem enfraquecido, mas porque o seu pensamento estava noutro lado, num mundo que no compreendem nem podem compreender os vivos e que por isso mesmo deles o afastava.
      - Ah! Que estranho foi connosco o destino! - disse ele, rompendo o silncio e apontando para Natacha: - Est a tratar-me, como vs.
      A princesa Maria ouvia-o, mas sem compreender o que ele dizia. Como podia ele, esse Andr, to delicado, to terno, falar assim na presena daquela a quem amava e que o amava? Se ele tivesse pensado que poderia vir a curar-se no falaria com aquela frieza, aquele tom quase ofensivo. Se ele no soubesse que ia morrer, no teria tido piedade dela? Teria podido exprimir-se assim? A nica explicao  que tudo se lhe tornara indiferente e que qualquer coisa se lhe revelara de muito mais importante.
      A conversa, a cada momento interrompida, era fria e sem continuidade.
      - Maria, passou por Riazan - disse Natacha.
      Andr no sentiu qualquer surpresa ao ouvir chamar assim sua irm, mas Natacha, que assim a chamara na presena dele, deu por isso pela primeira vez.
      - E ento? - inquiriu ele.
      - Contaram-lhe que Moscovo ardeu, est completamente em runas: que, ao que parece...
      Natacha calou-se: no podia continuar. Via-se que debalde ele tentava segui-la.
      - Sim, Moscovo ardeu, dizem. Que coisa triste -pronunciou ele, de olhos fixos, repuxando maquinalmente as guias do bigode.
      - Encontraste o conde Nicolau, Maria? - disse ele, de sbito, como se quisesse mostrar-se afectuoso. - Escreveu para c a contar que tu lhe agradas muito - prosseguiu ele, num tom simples e calmo como se no pudesse compreender inteiramente a importncia das suas palavras para a gente deste mundo. - Se ele te agrada tambm,  muito bom... casai-vos - concluiu, por fim, como se procurasse as palavras e tivesse acabado por encontrar a expresso desejada.
      A princesa Maria, ao ouvir tais palavras, compreendeu quo longe o seu irmo estava j do mundo dos vivos.
      - Porque falas tu de mim? - disse ela com calma, relanceando um olhar a Natacha.
      Esta, sentindo pousar-se nela esse olhar, no ergueu os olhos.
      O silncio continuou.
      - Andr, queres... queres ver o Nikoluchka? - exclamou Maria, de sbito, numa voz hesitante. - Est sempre a perguntar por ti.
      O prncipe Andr sorriu imperceptivelmente pela primeira vez, mas a irm, que conhecia muito bem o seu jogo fisionmico, descobriu, apavorada, que aquele sorriso no era de alegria ou de ternura por ouvir falar do filho, mas uma subtil zombaria para com ela, por t-la visto empregar este ltimo expediente na esperana de acordar nele qualquer sentimento.
      - Pois sim, gostava muito de o tornar a ver. Est bom?
      Quando lhe trouxeram o filho, que fitou o pai assustado, mas no chorou, pois ningum chorava, o prncipe Andr abraou-o sem saber que dizer-lhe.
      Levaram de novo a criana, e a princesa Maria aproximou-se mais uma vez do irmo, beijou-o, e, sem poder reprimir as lgrimas por mais tempo, rompeu em soluos.
      Andr olhou-a fixamente.
      - Choras por Nikoluchka? - perguntou ele.
      Maria respondeu com um aceno afirmativo de cabea.
      - Maria, tu conheces o Evange ... - E, de sbito, calou-se.
      - Que queres tu dizer?
      - Nada. No deves chorar assim - disse ele, olhando-a com o mesmo frio olhar.
      Quando a irm principiou a chorar, Andr compreendeu que ela chorava porque o pequeno Nicolau ia ficar rfo. Fez ento um grande esforo sobre si mesmo para retomar contacto com a vida e reaver o ponto de vista dos vivos.
      Sim, isso deve parecer-lhe triste, pensou ele, e no entanto  tudo que h de mais simples!
      As aves do cu no semeiam nem colhem, mas o nosso Pai celeste alimenta-as, pensou e veio-lhe  mente comunicar essa ideia  irm, Mas no, elas compreendero isto  sua maneira ou antes no o compreendero de todo! E o que elas no Podem compreender  que todos estes sentimentos que to caros lhes so nos so puramente pessoais, que so inteis estes pensamentos que tanto valor tm para ns. No nos poderemos compreender mais! E calou-se.
      O filhinho do prncipe ia fazer sete anos. Mal sabia ler. Ainda nada aprendera. No decurso da sua vida veio a adquirir numerosos conhecimentos, experincia, o dom de observao. Mas ainda que dispusesse naquele momento de toda a cincia que adquiriu mais tarde, no teria apreendido melhor nem teria penetrado mais profundamente o sentido da cena que se desenrolou entre seu pai, a princesa Maria e Natacha. Compreendeu muito bem, saiu sem verter uma lgrima, aproximou-se de Natacha em silncio, e, seguindo-a, olhou-a timidamente com os seus lindos olhos cismadores. Um movimento convulsivo lhe agitava o rosado lbio superior ligeiramente soerguido. Depois, escondendo a cabea no colo de Natacha, rompeu a chorar.
      Desse dia em diante evitou Dessales e esquivou-se s carcias da condessa. Ora se deixava estar sozinho, ora procurava a princesa Maria e Natacha, a qual parecia preferir  prpria tia e que, suave e timidamente, o acariciava.
      Maria, depois desta sua primeira visita ao irmo, compreendeu a expresso silenciosa do rosto de Natacha. No mais lhe falou em esperanas de cura. Alternadamente com ela, assistia-lhe  cabeceira da cama. No chorava, mas as oraes prorrompiam-lhe dos lbios mudos, elevando-se a toda a hora para o Ser Eterno e Inacessvel cuja presena to vivamente se manifestava junto do moribundo.
      

      
      
      
      Captulo XVI
      
      O prncipe Andr no s sabia que ia perecer como se sentia morrendo pouco a pouco, j estava meio morto. Tinha conscincia plena do seu desprendimento de tudo que era terreno e sentia na alma uma estranha sensao de alegria e bem-estar. Aguardava sem pressa nem inquietao o inevitvel. Essa coisa terrvel, etcrna, desconhecda, longnqua, que ao longo de toda a sua vida ele sentira sempre a seu lado estava agora realmente ali, e graas quele estranho bem-estar dir-se-ia quase compreensvel, tangvel.
      
      Outrora receara a moi-te. Por duas vezes j sentira com verdadeira angstia a sua aproximao, o fim, e agora deixara de ter inedo. A primeira vez fora quando aquela granada rodopiara diante dele: olhando os prados, as rvores, o cu, sabia a morte a pairar sobre ele. Quando voltou a si, na ambulncia, sentiu-se, de repente, como liberto da vida: na sua alma desabrochara essa flor do amor etcrno, livre, independente de todas as contingncias, e de ento para c deixara de ter medo da morte e no mais pensara nela. Nas horas de dolorosa solido e meio delrio aps ter sido ferido, quanto mais se deixava absorver por esse mundo que se lhe revelara impregnado de amor etcrno tanto mais se desprendia, sem que desse por isso, da existncia terrena.
      Amar tudo e todos, sacrificar-se sempre por amor, era como no amar algum, no viver vida terrelia. E  medida que inergulhava neste princpio de amor ia renunciando s coisas do mundo, ia vencendo a tremenda barreira que sem o amor se h-vanta entre a vida e a morte. E foi assim que durante este primeiro perodo da sua doena, sempre que pensava na morte prxima, para si mesmo dizia: Pois bem, tanto melhor!
      Mas depois daquela noite em Mitichtchi, quando, no meio do seu delrio, lhe apareceu aquela que ele desejara tornar a ver, e, pegando-lhe na mo, a levou aos lbios, lgrimas de uma suave alegria lhe encheram os olhos e o amor da mulher, insensivelmente, de novo se insinuou no seu corao, prendendo-o outra vez  vida. Assaltaram-no pensamentos ao mesmo tempo alegres e inquietos, Lembrando-se de Kuraguine, na ambulr.:ia, j no experimentava o sentimento de outrora. Agora atornienlava-o o desejo de saber se viveria e no ousava pergunt-lo os que o rodeavam.
      A enfermidade seguia o seu curso natural, mas a modificao de que Natacha falara apenas se produzira dois dias antes da chegada da princesa Maria. Era nicaniente a luta derradeira entre a vida e a morte, luta em que esta sairia vencedora. Era o reconhecimento de que ainda estimava a vida, que lhe oferecia o amor de Natacha. Era a ltima revolta de todo o seu ser perante o desconhecido.
      Anoitecia, o principe Andr, como era costume depois das re,feies, estava febril e os pensamentos circulavam-lhe no crebro com toda a nitidez. Snia sentava-se a seu lado, Andr dormitava. De sbito tornou-o um grande sentimento de felicidade. Oh! Ei-la que chega!, exclamou.
      Efectivamente, Natacha, que acabava de chegar sem rudo, tomava o lugar de Snia.
      Desde que ela o tratava que o prncipe Andr experimentava como que a sensao fsica da sua presena. Natacha ocupava uma poltrona voltada a trs quartos para ele. Por detrs ardia uma vela num castial. Fazia meia. Aprendera a fazer meia no dia em que Andr lhe dissera que ningum tratava melhor dos doentes que as velhas amas, a fazer meia, e que essa ocupao para ele era muito apaziguadora. Os seus delgados dedos manejavam gilmente as agulhas, e ele via-lhe perfeitimente o perfil cismador da cabeca inclinada. O novelo escorregou-lhe, dos joelhos, Natacha moveu-se para o ipanhar. Estremeceu, relanceou-lhe um olhar, colocando a mo diante dos olhos, para proteg-los da luz, e, rpida, ligeira, cautelosa, debruou-se, apanhou o novelo e retomou a posio primitiva.
      O prncipe Andr olhou-a, sem se mexer, e viu que, graas ac movimento que ela acabava de fazer, teria precisado de respirai fundo, mas que o no ousava, respirando a custo.
      No mosteiro de Troitsa tinham falado do passado, e ele dissera-lhe que, se se curasse, etcrnamente agradeceria a Deus aquele sofrimento que voltara a aproxim-los, A partir de ento, porm, nunca mais entre eles voltou a falar-se do futuro,
      Ser possvel que assim seja?, interrogava-se a si prprio, contemplando Natacha, ao mesmo tempo que ouvia o subtil ruido das agulhas de ao. No nos ter o destino reunido de maneira to estranha seno para eu morrer?... No se me teria revelado a verdade da vida seno para eu voltar a viver na mentira? Amo-a acima de todas as coisas neste mundo. Ora, se a arno assim, que me resta fazer? E de sbito um grande suspiro se lhe despren, deu do peito, hbito que lhe viera no meio dos muitos sofrimentos por que passara.
      Natacha, ao ouv-lo suspirar, pousou o brao, inclinou-se para ele, e, vendo que os olhos lhe brilhavam, aproximou-se mais no seu passinho leve.
      - No est a dormir?
      - No, estou a olh-la h muito tempo; senti-a entrar. S a Natacha me d este sossego to benigno... esta claridade. Apetec.e-me chorar de felicidade,
      Natacha aproximou-se ainda mais. No seu rosto havia uma inef vel alegria.
      - Natacha, amo-a de mais, amo-a acima de todas as coisas neste mundo.
      - E eu... - voltou-se, por instantes. - Ama-me de mais, porqu? -disse ela.
      - De mais porqu?... Acha, sente no fundo do seu corao que poderei salvar-me? Acredita que sim?
      - Tenho a certeza, tenho a certeza! - quase gritou Natacha, agarrando-lhe apaixonadamente as duas mos.
      O prncipe Andr ficou calado.
      - Era bom de mais! - E, pegando-lhe na mo, beijou-lha.
      Uma grande felicidade agitava Natacha, mas de sbito lembrou-se de que ele no devia excitar-se daquela maneira, que precisava de repouso.
      - Mas no dormiu - disse ela, refreando a felicidade que a tomava. - Procure descansar... peo-lhe.
      Depois de lhe apertar outra vez a mo, abandonou-a, e Natacha, voltando para o p da luz, retomou a sua primitiva atitude. Por duas vezes se voltou e por duas vezes viu que os olhos dele brilhavam ao encontrarem os seus. Ento fitou uma mancha de malha que tinha entre as mos e para si mesmo resolveu no voltar a olhar para Andr enquanto no chegasse quele ponto.
      Efectivamente, pouco depois, Andr fechava os olhos e adormecia. No dormiu por muito tempo. De repente acordou banhado de suores frios. A ideia da vida e da morte acompanhara-o no seu curto sono, especialmente a ideia da morte. Sentia-a cada vez mais prxima.
      O amor? Que  o amor?, pensava ele. O amor  o inimigo da morte. O amor  a vida. Tudo, absolutamente tudo que me  dado compreender, graas ao amor eu o compreendo. Tudo que , tudo que existe, pelo amor existe. O amor  Deus; morrer  regressar, eu, parcela desse amor,  fonte geral e etcrna. Estas ideias pareceram-lhe consoladoras, mas eram apenas ideias. Qualquer coisa lhes faltava, havia nelas fosse o que fosse de demasiado subjectivo, de demasiado ininteligvel. Faltava-lhe evidncia. E de novo recaiu nas suas inquietaes e incertezas. Acabou por adormecer outra vez.
      Sonhou estar deitado no quarto em que realmente se encontrava, mas de perfeita sade, sem estar ferido. Diante dele havia uma multido de pessoas vulgares indiferentes, e ele falava com elas, conversava disto e daquilo. Essas pessoas iam retirar-se. Andr, sentindo, confusamente, que nada disso tinha importncia e que outra coisa o preocupava, continua a trocar com essas pessoas, apesar da surpresa que o facto lhe causa, toda a espcie de ditos fteis e graciosos. Pouco a pouco, contudo, as figuras desvanecem-se, e ele s tem uma preocupao: fechar a porta. Levanta-se, disposto a correr o fecho e a cerr-la. Tudo agora depende de ser capaz de o conseguir. D-se pressa, as pernas no lhe obedecem, sabe que no chegar a tempo. Apodera-se dele uma tremenda angstia. Essa angstia  o medo da morte. A morte est ali, atrs da porta. E enquanto se extenua em esfor- os impotentes, eis que do outro lado um ser terrfico a fora. Esse ser, que nada tem de humano, e que  a mort, pretende arromb-la, e  preciso impedi-lo. Agarra-se  porta, num apelo a todas as suas foras para que ao menos o ajudem a deter aquele espectro, j que no  capaz de a fechar.  fraco, no pode mais, e a porta cede um pouco impelida por essa criatura horrenda.
      Tenta mais uma vez, mas a porta cede definitivamente. Esses seus ltimos esforos, verdadeiramente sobre-humanos, so inteis. Os batentes abrem-se sem rudo. Aquilo entra.  a morte. E o prncipe Andr sente-se morrer. Mas no instante, precisamente, em que a morte se apodera dele, lembra-se de que est a dormir, e, fazendo sobre si um grande esforo, acorda. Sim, era a morte, no havia dvida. Eu estava morto e acordei. Sim, a morte  um despertar. De sbito uma grande claridade lhe ilumina a alma e a cortina que at ento lhe escondia essa coisa desconhecida corre diante dele. Sentiu-se ento como que liberto da fora que at a o encadeava e foi nessa altura que experimentou aquela estranha sensao de leveza que nunca mais o abandonou.
      Tendo acordado banhado em suores frios, agitou-se no colcho, e Natacha perguntou-lhe o que tinha. Andr no lhe respondeu e, sem compreender o que ela dizia, fitou-a com uns olhos estranhos.
      Eis o que acontecera na antevspera da chegada da princesa Maria.
      A partir desse momento, assim o mdico o pde verificar, a febre baixa que o consumia transformou-se em febre perniciosa. Mas Natacha no prestava a mais pequena ateno ao que o mdico dizia. Para ela, mais assustador e mais certo ainda eram aqueles indcios morais do prximo fim.
      A partir desse dia, Andr, como se acabasse de sair de un, sonho, principiou a abandonar a vida. E como  sempre moroso o despertar de um sonho, o mesmo aconteceu ao seu despertar da vida.
      Este lento despertar no foi perturbado por qualquer incidente grave ou assustador.
      Os seus ltimos dias e as suas ltimas horas decorreram penosamente, como de costume. A princesa Maria e Natacha, que nunca mais o abandonaram, puderam verific-lo. J no choravam, j no estavam inquietas, e nos ltimos tempos elas prprias sentiam que no era a ele, prncipe Andr, que tratavam. Ele j ali no estava, deixara-as. Tratavam apenas a sua mais recente recordao, o seu despojo mortal, por assim dizer. To alto haviam subido os seus sentimentos que o espectculo terrvel da morte j no tinha poder sobre elas. Era intil avivarem mais a dor que as pungia, J no choravam nem na presena dele nem na sua ausncia, e nunca dele falavam entre si.
      Sentiam no poderem exprimir por palavras o que dentro delas se passava.
      Sempre, e cada vez mais, o viam, lentamente, tranquilamente, abismar-se no desconhecido, e era como se soubessem que assim tinha de ser e s assim estava certo.
      Confessou-se, recebeu a comunho. Toda a gente veio despedir-se. Quando lhe trouxeram o filho, pousou os lbios no rosto da criana e voltou a cara, no para esconder a mgoa e a dor, mas, assim, pelo menos, o pensaram a princesa e Natacha, por supor que era aquilo que lhe exigiam. Quando lhe pediram que lhe lanasse a bno assim o fez, e, olhando em roda, parecia perguntar se pretendiam ainda mais alguma coisa.
      A princesa Maria e Natacha estavam junto dele quando soltou o derradeiro suspiro.
      - Acabou! - disse a princesa Maria ao notar que o corpo, durante alguns instantes imvel, comeava a arrefecer, Natacha aproximou-se, viu-lhe os olhos sem vida e cerrou-lhes as plpebras. Fechou-lhe os olhos, mas no os beijou: limitou-se a inclinar-se sobre o que era a sua mais recente memria. Para onde foi ele? Onde estar agora?...
      Quando, vestido e lavado, estenderam o corpo no caixo em cima da mesa, todos se aproximaram, chorando.
      Nikoluchka soluava, o corao trespassado por uma perplexidade dolorosa. A condessa e Snia choravam de compaixo por Natacha e por aquele que j no era deste mundo. O velho conde, aflito, chorava pensando que no vinha longe a sua hora. E tambm Natacha e a princesa Maria choravam, no de dor, mas em virtude da piedosa emoo que lhes enchia a alma perante o simples e solene mistrio da morte que acabava de cumprir-se na sua presena.






SEGUNDA PARTE
      

      
      
      
      Captulo I
      
      A razo humana no pode compreender a correlao das causas e dos acontecimentos, mas a necessidade de em tudo achar uma causa  inerente ao esprito humano. Eis porque a inteligncia, incapaz de penetrar as razes infinitas e infinitamente complicadas dos acontecimentos, as quais, cada uma de per si, podem fazer figura de causa, lana mo da primeira que lhe aparece, seja a mais acessvel das coincidncias, e proclama: Esta  a causa! Nos factos histricos que tm por objecto de estudo as aces humanas a mais vulgar coincidncia costuma ser a vontade dos deuses, e depois a dos homens colocados em situao de destaque, os chamados heris da histria. Basta, no entanto, aprofundar um pouco qualquer facto histrico, isto , ver agir as massas de homens que tomaram parte nele, para nos persuadirmos de que no  a vontade deste ou daquele heri que conduz as massas, mas, muito pelo contrrio,  essa mesma massa que a todo o momento  conduzida. Dir-se- ser indiferente que os acontecimentos se expliquem desta ou daquela maneira. Mas entre aquele que afirma que os povos do Ocidente se dirigiram para o Oriente porque Napoleo assim o quis, e aquele que sustenta que tal coisa aconteceu porque assim tinha de acontecer, existe a mesma diferena que entre os que proclamam que a Terra est imvel e que os planetas giram em torno dela e os que confessam ignorar o que mantm a Terra no espao, embora saibam que h leis que regem o movimento da Terra e dos planetas. No h nem pode haver outras causas dos factos histricos que no seja a causa de todas as causas, mas h leis que as conduzem, umas vezes des- conhecidas, outras acessveis  nossa razo. A descoberta destas leis no  possvel todavia seno na medida em que renunciar-mos deliberadamente a atribuir as causas  vontade de um s homem, como acontece com a descoberta das leis do movimento planetrio, as quais apenas se tornaram viveis a partir da altura em que se ps de parte o princpio da imobilidade da Terra.
      Depois da batalha de Borodino, da ocupao e do incndio de Moscovo, o episdio mais importante da guerra de 1812 teria sido, na opinio dos historiadores, o movimento do exrcito russo ao deixar a estrada de Riazan para seguir pela de Kaluga, dirigindo-se para o campo de Tarutino, isto , aquilo a que se chamou a marcha de flanco para Krasnaia Pakra. Atribuem eles a glria deste acto genial a diferentes pessoas e discutem a quem pertence realmente. Os estrangeiros, de maneira geral, e os prprios Franceses, prestam jus ao gnio militar dos generais russos sempre que falam desta marcha de flanco. Mas difcil de compreender  a razo por que os escritores militares, e de todos os demais na sua esteira, admitem que esta famosa marcha de flanco seja uma inveno profunda de um indivduo determinado para salvar a Rssia e perder Bonaparte. Alis  difcil de compreender, de facto, a genialidade deste movimento, pois a verdade  que se no carece de grande rasgo de inteligncia para compreender-se que a melhor posio de um exrcito no atacado  aquela que lhe oferece mais nutrido abastecimento. Qualquer pessoa, at a menos esperta das crianas, sem grande esforo, compreenderia que, em 1812, a estrada de Kaluga era o caminho mais vantajoso para a retirada do exrcito depois da capitulao de Moscovo. E  impossvel compreender-se  custa de que dedues chegam os historiadores a atribuir tamanha profundeza a esta manobra. E ainda mais difcil  admitir como podem eles descobrir que esta manobra salvava os Russos e perdia os Franceses, quando  certo que, muito pelo contrrio, em consequncia das circunstncias que a precederam, a acompanharam ou se lhe seguiram, essa manobra poderia ter sido fatal para o exrcito russo, dando a vitria ao exrcito francs. Se, com efeito, a partir do momento em que esse movimento se realizou, a situao dos Russos beneficiou, no  razo para se dizer que a causa disso fosse esse mesmo movimento.
      No s podia no ter trazido qualquer vantagem ao exrcito russo esta marcha de flanco, como podia mesmo ter sido a causa da sua perda. Para isso bastava que outras circunstncias no tivessem surgido. Que teria acontecido se se no tivesse dado o incndio de Moscovo, se Murat no houvesse perdido o contacto com os Russos, se Bonaparte no tivesse sido forado  inaco, se o exrcito russo houvesse travado batalha em Krasnaia Pakra, como queriam Bennigsen e Barclay? Que teria acontecido se os Franceses tivessem atacado os Russos durante a marcha sobre Pakra ou se, em seguida, Napoleo houvesse atacado os Russos em Tarutino, apenas com a dcima parte da energia que empregara em Smolensk? Que teria acontecido se os Franceses tives- sem marchado sobre Petersburgo?... Em qualquer destas eventualidades a salvadora marcha de flanco teria redundado num desastre.
      Por ltimo, o que  ainda mais inconcebvel, as pessoas que estudaram a histria de peito feito no querem ver que a marcha de flanco no podia de maneira alguma ser atribuda  vontade de um s homem, que nunca ningum a previra, que esta manobra, tal como aconteceu com a retirada de Fili, nunca fora em verdade encarada por quem quer que fosse no seu conjunto, mas era apenas o resultado de um nmero infinito de circunstncias variadas, s sendo considerada em toda a sua amplitude quando se concluiu e j pertencia ao passado.
      No conselho de guerra de Fili o comando russo teve como ideia dominante a retirada, coisa bvia, em linha recta, isto , pela estrada de Njjni- Novgorod. A prova est no facto de a maioria das vozes se terem pronunciado nesse sentido e sobretudo na clebre conversa do general-chefe, aps o conselho, com Lanskoi, intendente -geral. Lanskoi informou Kutuzov de que os abastecimentos tinham sido principalmente concentrados ao longo do no Oka, atravs do qual seria impossvel transport-los nos prin- cpios do Inverno. Foi esta, portanto, uma das primeiras razes que determinaram o abandono do plano de retirada em linha recta, aparentemente o mais natural. As tropas mantiveram-se, pois, mais ao sul, na estrada de Riazan, mais prximas, por conseguinte, dos seus abastecimentos. Posteriormente, a inactividade dos Franceses, que chegaram, mesmo a perder o contacto com os Russos, a preocupao de defender as manufacturas de Tula e sobretudo a vantagem de estar mais perto dos abastecimentos ebrigaram o exrcito a obliquar mais para sul ainda, na direc- o da estrada de Tula. Depois de alcanarem, em marchas foradas, a estrada de Tula, era inteno dos chefes militares no fazerem alto seno em Podolsk, e no se falava sequer, ento, das posies de Tarutino, mas o caso  que uma srie de circunstricias diversas -a apario dos Franceses, que tinham voltado a estabelecer contacto com o exrcito russo, projectos de batalha e sobretudo a abundncia de provises em Kaluga- levou as tropas russas a descerem ainda mais para o sul a fim de se fixarem no centro do campo de abastecimentos, dirigindo-se da estrada de Tula na direco da de Kaluga, rumo a Tarutino. S quando as tropas chegaram a Tarutino, merc de um concurso de circunstncias, e que os homens principiaram a convencer-se de que tinham desejado aquela manobra e que a liaviam planeado havia muito.
      

      
      
      
      Captulo II
      
      A famosa marcha de flanco apenas consistiu, em ultinia analisu, no seguinte, os exrcitos russos, que at ai haviam retirado no sentido contrario ao da invaso, desviaram-se, uma vez que o movimento invasor cessou, da linha recta, ate ento seguida, e. w verificaram que no eram perseguidos, ericaminharam-se naturalmente, na direco das maiores reservas de abastecimentos.
      Admitindo que os exrcitos russos nenhum chefe militur genial tivessem a comand-los, que ningum tivessem, mesmo, a comand-los, no teriam podido fazer outra coisa, depois da sua retirada sobre Moscovo, seno descrever um arco de crculo na direco do local onde se encontravam os abastecimentos e em que havia abundncia de tudo.
      O movimento da estrada, de Nijm para a de Riazan. Tula e Kaluga era to bvo que nessa mesma direco seguiam os bandos de salteadores e de Petersburgo se impunha a Kutuzov o mesmo caminho. Em Tarutino foi por assim dizer repreendido pelo imperador por ter tomado a estrada de Riazan, e de Petersburgo indicaram-lhe essa mesma posico em frente de Kaluga, onde alis, ele j se eencontrava quando a carta do imperador lhe chegou s mos.
      Depois de rodar na direco que a batalha de Borodino lhe impusera, a bola que era ento o exrcito russo, aps a supresso da fora propulsora inicial, e na falta de novos impulsos, tomou o carninho que naturalmente se lhe impunha.
      O mrito de Kutuzov no est nessa manobra estratgica a que charnaramgenial, mas no facto de ter percebido por si o que, siignificava esse acto. S ele, a partir desse momento, compreendeu a importncia da inactividade do exrcito francs: s ele teimou em aflirmar que a batalha de Borodirio fora uma vitoria; e s ele empregou toda a sua energia em evitar que o exrcito se entregasse a combates inteis, embora, na sua qualidade de general-chefe devesse ser partidrio da da ofensiva.
      A fera atingida em Borodino continuava agora no ponto onde a linham deixado ao afastar-se, mas ainda no se sabia se estava viva, se se encontrava exausta ou se apenas o fingia. E de sbito a fera soltou um gemido.
      Esse gemido de fera atingida anunciando o aniquilamento foi o envio de Lauriston ao campo de Kutuzov com uma proposta de paz.
      Napoleo, persuadido, como sempre, de que tudo quanto fazia era perfeito, escreveu a Kutuzov nos termos que lhe vieram  cabea, sem se dar ao cuidado de saber se era sensato o que escrevia:
      
      Senhor Priucipe Kutuzov:
      
      Envio-lhe um dos meus ajudantes-de-cuinpo para lhe falar de alguns assuntos de importncia. Peo a Vossa Alteza que faa f no que ele lhe dir, sobretudo quando ele lhe exprimir os sentintentos de estima e de particular considerao que eu desde h muito nutro pela pessoa de Vossa Alteza. Como no e outro o firri, desta carta, iogo a Deus, Sr. Prncipe Kutuzov, que vos tenha sob a Sua santa quarda,
      
      Moscovo. 30 de Outubro de 1812,
      Assinado: Napoleo
      
      - Seria amaldioado pela posteridade se viesse a ser encarado como o primeiro motor de um acordo qualquer. Tal  o espirito presente da minha nao - respondeu Kutuzov, e continuou a fazer tudo ao seu alcance para impedir o exrcito russo de passar  ofensiva.
      Durante o ms em que o exrcito de Napoleo se entregara o saque de Moscovo e o russo acampava, tranquilamente, em Tarutino, uma mudana importante se verificara quer nas forcas dos dois adversrios, quer no espirito que os animava: o fiel da balana inclinou-se a favor dos Russos. Embora eles no conhecessem a situao exacta do exrcito francs e as mudanas tssaz rpidas que nele se tinham operado, a necessidade de passar a ofensiva traduzia-se agora em infinitos sintomas. Grande numero de razes os compelia a isso: a misso de Lauriston, abundncia de abastecimentos em Tarutino, as notcias provenientes de todos os lados sobre a inactividade das tropas francesas e as desordens que entre elas lavravam, a reconstituio dos regimentos russos pela incorporao de novos recrutas, tempo, o prolongado repouso de que os soldados tinham beneficiado, a impacincia que em geral se manifesta entre as tropas em descanso ansiosas de cumprir a sua misso, a curiosidade de saber o que acontecera ao exrcito francs que h tanto tinham perdido de vista, a audcia com que os postos avanados russos perseguiam os franceses desgarrados nas imediaes de Tarutino, os guerrilheiros e a emulao que da resultava, o desejo de vingana que exaltava a alma de cada russo desde que os Franceses se encontravam em Moscovo, principalmente o sentimento obscuro, latente em todos, de que se modificara a situao das tropas frente a frente, e que eram os Russos que tinham agora superioridade sobre o inimigo. Se a proporo das tropas era outra, a ofensiva tornava-se indispensvel. E o certo  que, tal como acontece ao relgio pronto a dar horas quando os ponteiros percorrem os devidos pontos do mostrador, assim tambm nas altas esferas principiara um movimento acelerado de acordo com a mudana produzida entre as tropas.
      

      
      
      
      Captulo III
      
      O exrcito russo era dirigido por Kutuzov e pelo seu estado-Maior e de Petersburgo pelo prprio imperador. Mesmo antes de receber a notcia do abandono de Moscovo, se estabelecera em Petersburgo o plano pormenorizado de toda a campanha, o qual fora remetido a Kutuzov para que este o pusesse em prtica. Apesar das modificaes ditadas pelas circunstncias, este plano fora adoptado pelo estado-maior e por ele posto em execuo. O general-chefe apenas observara que as disposies tomadas a distncia so sempre difceis de executar. Por isso, a fim de resolver as dificuldades que sobrevieram, a cada passo estavam a enviar mensageiros portadores de novas instrues para vigiar o cumprimento dessas ordens e transmitirem os seus relatrios, Alm disso, o estado-maior do exrcito passara por modificaes profundas. Era preciso substituir Bagration, que fora morto, e Barclay, que se afastara, ofendido por se ver em posio subalterna. Tinha-se examinado com a maior severidade e que era preciso fazer: dever-se-ia colocar A no lugar de B ou R no lugar de D, ou ento D onde estava A? Dir-se-ia que apenas se tratava de ser agradvel a A ou a B.
      Em consequncia da inimizade existente entre Kutuzov e o chefe do estado-maior. Bennigsen, merc das intrigas obradas pelas pessoas de confiana enviadas pelo imperador e das modificaes a fazer, os partidos achavam-se envolvidos numa rede muito mais complicada que de costume. A intrigava contra B, D contra C, etc., em todas as modificaes e combinaes possveis,
      O objectivo destas mltiplas intrigas estava sobretudo nas operaes militares que cada um queria orientar  sua maneira, quando a verdade  que as operaes prosseguiam independentemente de tudo o que se fizesse, consoante era mister que prosseguissem, isto , sem nunca coincidirem com o que congeminavam os homens, pois a verdade era serem uma consequncia das reaces mtuas das massas. Todas aquelas combinaes se cruzavam, se enredavam, reflectindo nas altas esferas a imagem exacta do que devia realizar-se.
      Numa carta endereada a Kutuzov no dia 2 de Outubro, a qual ele no viria a receber seno depois da batalha de Tarutino, dizia o imperador:
      
      Principe Mikail Ilarionovitch:
      Desde o dia 2 de Setembro que Moscovo est nas mos dos Franceses. Os seus ltimos relatrios so datados de 20 e durante todo este tempo no s nada fez contra o inimigo no sentido de libertar a nossa primeira capital, como, in- clusivamente, nesses relatrios participa que continua a recuar. Serpukov j se encontra ocupada por um destacamento e Tula, com as suas fbricas indispensveis ao exrcito, est em perigo. Por um relatrio do general Wintzengerode, verifico que um corpo de exrcito inimigo de dez mil homens avana pela estrada de Petersburgo. Outro, composto de alguns milhares, encaminha-se para Dmitrov. Um terceiro segue pela estrada de Vladimir. E um quarto, bastante importante, est concentrado entre Ruza e Mojaisk. No dia 25 o prprio Napoleo estava em Moscovo. De acordo com todas estas indicaes, e visto, que o inimigo dispersou as suas foras em destacamentos assaz iniportantes, e o prprio Napoleo ainda est em Moscovo com toda a sua guarda, ser possvel que as oras que se encontram na sua frente sejam to poderosas que no possa tentar a ofensiva?  de supor, muito pelo contrrio, com toda a verosimilhana, que o inimigo o esteja a perseguir com destacamentos ou, mais rigorosamente, com um corpo de tropas muito mais fraco que o exrcito que lhe esta confiado a si.  de crer que, tirando partido destas circunstncia, e lhe seja possvel, com vantagem evidente, atacar o inimigo, em nmero inferior s foras que comanda, e extermin-lo ou, pelo menos, obrig-lo a recuar, permitindo que continuem nas nossas mos a maior parte dos distritos actualmente ocupados, e deste modo afastando o perigo que pesa sobre Tula e as demais cidades do interior, Se o inimigo estiver em condies de marchar com um importante corpo de tropas sobre Petersburgo, a fim de ameaar esta capital, quase inteiramente desguarnecida, a responsabilidade ser sua, pois a verdade  que com o exrcito de que dispe, agindo com deciso e energia, tem nas suas mos todos os meios para evitar esta nova desgraa. Lembre-se de que j tem de prestar contas  Ptria, indignada pela perda de Moscovo. Sabe, por experincia, que estou sempre disposto a recompens-lo. Esta minha boa disposio no se pode dizer de qualquer modo afectada, mas tanto a Rssia como eu temos o direito de esperar de si todo o zelo, toda a firmeza e os xitos que a vossa inteligncia, os vossos talentos militares e a valentia das tropas que comanda nos autorizam a esperar.
      
      Esta carta prova que em Petersburgo se sabia com exactido qual o cmputo das tropas em presena, mas ainda ela vinha a caminho e j Kutuzov no podia impedir o exrcito sob o seu comando de tomar a ofensiva. A batalha j estava travada.
      No dia 2 de Outubro, o cossaco Chapovalov, no decurso de uma patrulha, matou uma lebre e feriu outra. Ao perseguir esta ultima foi levado para longe da floresta e deparou-se-lhe o flanco esquerdo do exrcito de Murat, que se encontrava nessas paragens sem qualquer precauo ou cobertura, Rindo, contou o cossaco aos camaradas como ia caindo nas mos dos Franceses. Ao ouvir isto, o capito contou o caso ao seu comandante.
      Mandaram chamar o cossaco, interrogaram-no: os coman- dantes lembraram-se de aproveitar esta circunstncia para capturar alguns cavalos, e um dos comandantes, que estava em relaes com graduados do exrcito, participou o caso a um general do estado-maior.
      Ultimamente a situao estava muito tensa no estado-maior. Ermolovo, alguns dias antes, viera procurar Bennigsen para lhe pedir que usasse da sua influncia sobre o general-chefe para que se desencadeasse a ofensiva.
      - Se eu o no conhecesse - replicou Bennigsen - diria que era exactamente o contrrio que pretendia, Basta que eu aconselhe seja o que for para o Serenssimo fazer exactamente o contrrio.
      A nova divulgada pelo cossaco, e confirmada por vrias patrulhas, veio demonstrar que as coisas estavam definitivamente maduras.
      As cordas distenderam-se, o relgio estremeceu e as horas ressoaram. Apesar de todo o seu presumvel poder, da sua inteligncia, do seu conhecimento dos homens. Kutuzov acabou por tomar em considerao no s o pedido de Bennigsen, que, alis, apresentara directamente ao imperador um relatrio da situao, mas o desejo unnime dos generais, o presurnvel apelo do imperador e as informaes prestadas pelos cossacos. No podendo deter um movimento que se tornara inevitvel, deu ordens para que se fizesse o que ele considerava intil e perigoso: aprovou o facto consumado.
      

      
      
      
      Captulo IV
      
      O relatrio de Bennigsen e as informaes dos cossacos confirmando que o flanco esquerdo dos Franceses se encontrava descoberto levaram definitivamente a fixar a ofensiva para o dia 5 de Outubro.
      No dia 4, de manh, Kutuzov assinou a respectiva ordem. Toll leu-a a Ermolov, propondo-lhe que se encarregasse de tomar as ltimas medidas.
      Est bem, est bem, agora no tenho tempo, disse este, e saiu.
      O dispositivo estabelecido por Toll era excelente. Como acontecera com o de Austerlitz, a se dizia, embora no em alemo: 
      A primeira coluna marcha em direco a tal parte, a segunda coluna marcha (Em alemo no texto original. (N. dos T.) em direco a tal outra, e assim por diante. Todas estas colunas, pelo menos no papel, chegavam ao local designado no momento previsto, esmagando o inimigo. Como sempre acontece em todo e qualquer dispositivo no papel, tudo estava admirvelmente organizado, mas a verdade  que, como alis sempre acontece com todos os dispositivos, nenhuma das colunas chegou a tempo aos lugares designados.
      Quando houve nmero suficiente de exemplares do dispositivo, chamou-se um oficial que foi enviado a Ermolov com a ordem de o mandar por em execuo. Este jovem oficial da guarda montada, ajudante-de-campo de Kutuzov, orgulhoso da misso que lhe tinham confiado, apresentou-se nas instalaes de Ermolov.
      - No est - volveu-lhe um impedido.
      O oficial dirigiu-se  instalao de um general onde Ermolov ia, muitas vezes.
      - O general no est.
      O oficial, montando de novo, dirigiu-se a casa de outro general.
      - No, o general saiu.
      Que grande contrariedade! Contanto que me no responsabilizem pelo atraso!, dizia ele, de si para consigo, enquanto percorria o acampamento de ponta a ponta. Houve quem lhe dissesse ter visto Ermolov com outros generais, e quem lhe sugerisse que naturalmente regressara ao seu aquartelamento. Sem comer, c oficial prosseguiu nas suas buscas at s seis horas da tarde. Ermolov no estava em parte alguma e ningum sabia do seu paradeiro. Comeu qualquer coisa, mesmo de p, em casa de um camarada, e voltou para os postos -avanados  procura de Miloradovitch, que tambm no estava. Disseram-lhe encontrar-se num baile em casa do general Kikine e que naturalmente Ermolov tambm a estaria.
      - E onde fica isso?
      - L adiante, em Etchkino - explicou- lhe um oficial de cossacos, apontando-lhe, na distncia, uma casa senhorial. - Qu? L adiante? Para l das linhas?
      - Mandaram para ali dois dos nossos regimentos. Esto numa pardia doida! Tm duas bandas regimentais e trs coros de cantores.
      O oficial dirigiu-se para os lados de Etchkino. J de longe, antes de chegar  casa senhorial, ouviu as notas alegres e bem destacadas de uma bailata de soldados.
      Pelos campos fora... Pelos campos fora.
      Pfaros e pandeiros acompanhavam o canto, e de quando em quando ouviam-se sons de vozes. Grande alegria sentiu o oficial ao ouvir aquelas canes, ao mesmo tempo que o acicatavam os remorsos por tanto tardar em transmitir a ordem importante de que era portador.
      J eram nove horas. Apeou-se do cavalo e subiu os degraus do alpendre da grande casa senhorial, intacta apesar de situada na linha entre Russos e Franceses. No vestbulo e na sala de jantar passavam correndo lacaios ajoujados com vinhos e manjares. Os cantores estavam ao p das janelas. Fizeram-no entrar e de sbito achou-se na presena de todos os principais generais do exrcito, inclusivamente da alta e imponente figur2 de Ermolov. De tnicas desabotoadas, muito corados, formando roda, riam a bom rir. No meio do salo, um deles, belo homem de pequena estatura, muito vermelho, bailava o trepak galhardamente.
      - Ah!, ah!, ah! Bravo, Nicolau Ivanovitch! Ah!, ah!...
      O mensageiro pensou que se se apresentasse naquele momento com ordens to importantes seria duas vezes culpado, e resolveu esperar. Mas um dos generais viu-o, e, como se soubesse a razo que o trazia ali, chamou para ele a ateno de Ermolov. Este dirigiu-se-lhe, contrariado, e, depois de ouv-lo, pegou no papel de que ele era portador, sem dizer palavra.
      - Julgas, talvez, que no desapareceu de propsito observou, nessa mesma noite, ao oficial emissrio o seu camarada do estado-maior, referindo-se a Ermolov. - Pois enganas-te. Foi de propsito, de caso pensado. Quer fazer uma partida a Konovnitzine. Vais ver o p-de-vento que se levanta amanh.
      

      
      
      
      Captulo V
      
      No dia seguinte, o velho Kutuzov, que dera ordens para que o chamassem muito cedo, fez as suas oraes, vestiu-se, e com a desagradvel impresso de que tinha de dirigir uma batalha nada do seu agrado, meteu-se na carruagem e dirigiu-se de Letachovka, a cinco verstas de Tarutino, para o local onde deviam reunir-se a, colunas que iam atacar. No caminho, quando no dormitava, apurava o ouvido, na esperana de ouvir o canhoneio que deveria principiar  direita da estrada, sinal do incio da operao. Mas nada ouvia, Era uma manh de Outono hmida e sombria. Ao aproximar-se de Tarutino notou que alguns soldados de cavalaria atravessavam a estrada por onde rodava a sua carruagem conduzindo, pela arreata, cavalos ao bebedouro. Atentou neles, mandou parar o carro e perguntou-lhes a que regimento pertenciam, Faziam parte da coluna que a essa hora devia encontrar-se j muito longe dali, pronta para uma emboscada. H engano, naturalmente, disse de si para consigo o velho general. Prosseguindo no seu caminho, viu regimentos de infantaria de armas ensarilhadas, cujos homens, em ceroulas, preparavam o rancho e acarretavam lenha. Mandou chamar um dos oficiais. Este disse-lhe no ter recebido qualquer ordem de ataque.
      - Como , que... - ia a dizer, mas calou-se e ordenou que chamassem o comandante. Entretanto apeou-se e, calado, ficou  espera, de cabea baixa, a respirao opressa, passeando de um lado para o outro. Assim que apareceu o oficial do estado-maior que ele tinha convocado, um tal Eichen, Kutuzov ficou muito corado, no porque esse oficial fosse culpado de alguma coisa, mas apenas por tratar-se de algum que podia ser vtima da clera em que refervia. Trmulo dos ps  cabea, ofegante, tamanha era a ira do velho general que dir-se-ia capaz de se rolar no cho, num ataque de raiva Assim se lanou sobre o oficial, de punhos erguidos, gritando e cobrindo-o de grosseiras
      Outro oficial que por acaso entretanto apareceu, o capito Brozine, e que, alis, nenhuma responsabilidade tinha no caso, teve de suportar os mesmos insultos-
      - E este canalha quem ? Fuzilem-no Miservel! - vociferava, rouco, gesticulando, cambaleante.
      Dir-se ia experimentar uma dor fsica, como era possvel que ele, generalissimo, Serenssimo, homem com poderes como ainda outro no tivera em toda a Rssia, se visse numa situao daquelas, ridicularizado por todo o exrcito? Foi ento debalde que tanto rezei por este dia? Foi em vo que levei a noite inteira acordado a fazer clculos minuciosos?, dizia de si para consigo. Quando eu era o fedelho de um oficial ningum se atreveria a fazer pouco de mim a este ponto, mas agora... E a dor fsica que sentia era a mesma que se lhe tivessem aplicado castigo corporal. No podia deixar de soltar gritos de raiva e dor. No tardou, porm, que as foras o abandonassem, e compreendendo ento que se zangara de mais, voltou a subir para a carruagem, regressando pelo mesmo caminho, sem dizer mais palavra 
      Este acesso de ira no voltou a repetir-se. Foi com um ligeiro piscar de olho que ele ouviu as justificaes, a defesa e as instncias de Bennigsen, de Konovnitzine e de Toll propondo-lhe que se transferisse para o dia seguinte o movimento que fracassara. Ermolov, esse, apenas apareceu dois dias depois. E Kutuzov teve de voltar a dar-lhe o seu consentimento.
      

      
      
      
      Captulo VI
      
      No dia seguinte, ao fim da tarde, as tropas concentraram-se nos lugares indicados e a partida principiou durante a noite.
      O tempo era bem de Outono. Havia nuvens no cu azul-violceo, mas no chovia. A terra estava impregnada de humidade, embora no houvesse lama. As tropas marchavam em silncio e so de vez em quando se ouvia o ressoar metlico da artilharia. Era proibido falar alto, fumar, riscar a pederneira. Tanto quanto possvel, procurava-se impedir os cavalos de relinchar. O mistrio que envolvia o empreendimento ainda o tornava mais atraente.
      As tropas marchavam alegres. Algumas colunas fizeram alto, os homens ensarilharam armas e estenderam-se na terra fria, julgando-se chegados ao seu destino. A maioria, porm, marchou toda a santa noite e como era natural as tropas no puderam chegar onde era mister que chegassem,
      O conde Orlov, Denissov e os seus cossacos, o destacamento menos numeroso, foram os nicos a chegar a horas ao local designado. Instalaram-se na orla extrema da floresta, ao longo do caminho que de Stromilovo levava a Dmitrovskoie.
      Ainda no era manh acordaram o conde Orlov, que dormi- tava. Tinham filado um desertor do campo francs. Era um sar,ento polaco do corpo de Poniatowski, Explicou, em polaco, que desertara, pois estava a ser vtima de uma injustia: h muito j que devia ter sido promovido a oficial, era o mais valente de todos. Por isso os abandonara, disposto a vingar-se. Dizia ele que Murat pernoitava a uma versta do local onde se encontravam e que, se lhe proporcionassem uma escolta de cem homens, tinha a certeza de o apanhar vivo. O conde Orlov-Denissov quis saber a opinio dos seus camaradas. A proposta era por de mais atraente para repeli-la. Todos queriam partir, todos eram de opinio de que se devia tentar o feito. Aps muitas discusses e conferncias, o general Grekov,  frente de dois regimentos de cossacos, resolveu acompanhar o desertor.
      - Mas lembra-te do que te digo - ameaou Orlov-Denissov, despedindo-o -; se mentiste, mando-te enforcar como um co, mas se falaste verdade tens cem ducados s tuas ordens.
      Sem responder a estas palavras, o sargento montou a cavalo e, resoluto, abalou seguido de Grekov. Desapareceram na floresta.
      O conde Orlov, tiritando - a manh estava fresca e a aurora Principiava a raiar-, apreensivo pela responsabilidade que assumira, depois de ceavalgar por algum tempo ao lado de Grekov, afastou-se da mata para perscrutar o campo inimigo, que vagamente se descobria agora a luz do sol-nascente e das fogueiras do bivaque que se iam apagando. As colunas russas deviam surgir pela direita, na vertente de uma colina descoberta. Olhou para esse lado, mas nada viu, embora o terreno fosse bem visvel. No acampamento francs. Iwito ciiianto lhe era dado perceber, e graas ao auxlio dos penetrantes olhos do seu ajudante-de -campo, parecia notar-se uma certa agitao.
      - Ah! Receio que seja tarde de mais - observou, depois do perscrutador olhar.
      Como costuma acontecer muitas vezes ao afastar-se algum da influncia do homem em quem confia, afigurou-se-lhe subitamente que o sargento era um traidor, que mentira, e que apenas quisera comprometer o xito do ataque distraindo aqueles dois regimentos s Deus sabia para onde.
      Em que cabea caberia poder surpreender-se o general-chefe no meio de tantas tropas!
      - No h dvida, aquele ladro mentiu - acrescentou. - Podemos mand-lo retroceder -arguiu algum do squito, que, como Orlov, duvidava do xito daquela empresa, agora diante do acampamento inimigo.
      - Sim, realmente! Que acha? Devemos mand-lo retroceder, ou no?
      - Quer que o v procurar?
      - Pois bem.  melhor! Que volte para trs - disse o conde, subitamente resoluto. E acrescentou, depois de consultar o relgio: - Tarde de mais, j  dia alto.
      O ajudante-de-campo, a galope, meteu pela floresta dentro, na inteno de alcanar Grekov. Quando voltou, o conde, excitado pelo fracasso da tentativa e da baldada espera das colunas de infantaria, que continuavam a no aparecer, e tambm pela proximidade do inimigo, resolveu atacar. Os homens do squito partilhavam dos seus sentimentos.
      Em voz baixa ordenou Montar!, e cada um se dirigiu para o seu posto, persignando-se.
      Que Deus nos proteja!
      Um hurra! ressoou floresta alm, e, peloto aps peloto, os cossacos dispersaram-se, como gros que cassem de um saco, e, de lana em riste, cavalgaram direitos ao campo inimigo atravessando um riacho.
      O primeiro francs que viu os cossacos soltou um grito de desespero e os outros, meio vestidos, acordados em sobressalto, abandonaram canhes, espingardas, cavalos e deram s de vila-diogo.
      Se os cossacos tivessem perseguido os fugitivos sem se preocupar com os despojos que estes deixavam aps si, teriam, por certo, apanhado Murat e todos os que com ele se encontravam. Eis, alis, o que os chefes pretendiam. Mas no foi possvel obrig-los a marchar enquanto houve que pilhar e prisioneiros a fazer. Ningum mais ouviu as ordens dos comandantes. Ali se fizeram mil e quinhentos prisioneiros, se tomaram trinta e oito bocas de fogo, bandeiras, e, coisa muito mais importante para cossacos, cavalos, selas, cobertores e grande nmero de diversos objectos. Era preciso pr em lugar seguro os prisioneiros e os canhes, dividir os despojos, discutir, chegar-se mesmo a vias de facto, e de tudo isto houve um pouco.
      Os Franceses, ao ver que no eram perseguidos, ganharam coragem, reuniram-se e abriram fogo. Orlov-Denissov, que continuava  espera das suas colunas, no avanou mais.
      Entretanto, em virtude do dispositivo: A primeira coluna marcha, etc., os soldados de infantaria das colunas atrasadas, comandadas por Bennigsen e superiormente dirigidas por TolI, tinham-se posto em marcha de acordo com o programa estabelecido, e, na verdade, cumprindo as ordens, chegaram quando deviam, mas no ao local que lhes havia sido designado. Como era de esperar, os homens, que alegremente tinham partido, no tardaram a aborrecer-se. Em alta voz havia quem mostrasse o seu descontentamento, a desordem surgiu entre as fileiras, alguns retrocederam. Os ajudantes- de -campo galopavam por aqui e por ali, os generais gritavam, colricos, discutiam entre si, diziam que se tinham enganado, que estavam atrasados, acusavam este ou aquele. Toda a gente, por fim, abandonou o terreno, e foi dali sem saber para onde. Havernos de ir parar a algures!, exclamavam. E, com efeito, acabaram por chegar, mas no onde era mister, e, se alguns chegaram, era tarde de mais e sem outra utilidade alm da de servirem de alvo ao inimigo. TolI, que nesta batalha desempenhara o papel de Weirother em Austerlitz, galopava em todos os sentidos, dando-se conta de que tudo se fizera ao contrrio do que era preciso. E assim veio a encontrar-se no meio da floresta com o corpo de exrcito de Bagovut j dia claro e quando havia muito devia estar junto dos cossacos de Orlov-Denissov. Fora de si por causa daquele fracasso e desejoso de encontrar algum sobre quem pudesse descarregar a sua ira, Toll galopou imediatamente ao encontro do comandante do corpo e ps-se a increp-lo violentamente e a dizer que o que ele pre- cisava era de ser fuzilado. Bagovut, velho e valente general, habitualmente sereno, exasperado tambm com todo aquele atraso, com aquelas ordens contraditrias e confusas, destemperou, ante a surpresa de todos, e, num ataque de clera completamente imprevisto no seu temperamento, respondeu  letra a Toll:
      No aceito lies seja de quem for, e sei morrer com os meus soldados to bem como qualquer outro, exclamou, prosseguindo avante, seguido da sua diviso.
      Ao chegar a campo aberto, sob a fuzilaria dos Franceses, o valente Bagovut, num acesso de fria, sem querer saber se era ou no til travar batalha naquela altura, s com a sua diviso, marchou direito ao inimigo. Eis do que precisava naquele momento: perigo, balas, projcteis. Uma das primeiras balas prostrou-o e as que logo se lhe seguiram abateram muitos dos seus soldados. E assim, sem qualquer necessidade, ali esteve, exposta ao fogo dos Franceses, aquela diviso.
      

      
      
      
      Captulo VII
      
      Entretanto, outra coluna devia atacar o inimigo, mas essa coluna estava junto de Kutuzov. Este sabia perfeitamente que daquela batalha, iniciada contra sua vontade, s podia resultar um fracasso, e por isso retinha as tropas tanto quanto lhe era possvel, No se movia do lugar em que estava.
      Montado no seu cavalito cinzento, ali permanecia, calado, respondendo, preguiosam ente, s propostas de ataque que lhe dirigiam.
      - No fala noutra coisa seno em atacar e est demonstrado que no sabemos fazer manobras complicadas - observou a Miloradovitch, que pedia que o deixasse seguir para a frente.
      - O senhor no soube esta manh deitar a mo a Murat nem chegar a tempo ao local que lhe estava designado. Agora nada mais h a fazer! - respondeu a outro general.
      Quando lhe vieram anunciar que na retaguarda dos Franceses, segundo informaes fornecidas pelos cossacos, desguarnecida at ento, se enccitravam agora dois batalhes polacos, relanceou a vista, pelo canto do olho, a Ermolov, pessoa a quem ele desde a vspera no dirigia a palavra.
      - Como v, reclamam uma ofensiva, poem-se em prtica diversos dispositivos, e quando chega o momento de agir nada est preparado, e o ininigo, prevenido, toma as suas precaues.
      Ermolov piscou o olho e sorriu ligeiramente ao ouvir estas palavras. Percebeu a tempestade passara e que Kutuzov se limitaria quela obse-vao.
      - Diverte-se  minha custa - murmurou Ermolov, em voz muito baixa, tocando no joelho de Raievski, que estava a seu lado.
      Pouco depois, Ermolov aproximou-se de Kutuzov e disse-lhe, respeitosamente:
      - Ainda  tempo, alteza, o inimigo ainda se no foi embora... Se quiser dar ordens para a ofensiva. De outra maneira, guarda nem sequer cheirar a plvora.
      Kutuzov no respondeu e quando lhe participaram que Murat se retirava, deu ordem de marcha, embora de cem em cem passos mandasse fazer alto por trs quartos de hora.
      Toda a batalha se resumiu, portanto,  expedio dos cossacos de Orlov-Denissov e  perda intil de algumas centenas de homens. O resultado desta batalha foi que Kutuzov recebeu uma condecorao de diamantes, e Bennigsen igualmente, alm de cem mil rublos; outros chefes obtiveram tambm pingues beneficios, consoante os postos, e houve de novo modificaes no estado-maior.
       sempre assim na Rssia, faz-se tudo ao contrrio!, diziam, depois de Tarutino, os oficiais e os generais russos, como ainda hoje o repetem, para darem a perceber que, se houve um imbecil que fez tudo ao contrrio, eles, no seu caso, teriam procedido de maneira muito diferente. A verdade, porm,  que aqueles que assim falam ou no conhecem o assunto de que se trata, ou ento se enganam redondamente. As batalhas, seja a de Tarutino, a de Borodino ou de Austerlitz, nunca decorrem segundo as previses daqueles que as dirigem. Eis um facto essencial.
      Nmero infinito de foras independentes -em nenhuma outra circunstncia  o homem mais livre que numa batalha, para ele questo de vida ou de morte - influem na marcha das operaes, e esta marcha nunca poder ser conhecida antecipadamente, nem nunca coincidir com a direco que lhe tenha fixado tal ou qual fora individual nica.
      Quando sobre um determinado corpo agem, ao mesmo tempo de vrios lados, variadas foras, a direco do movimento no pode ser a de nenhuma dessas foras, mas como que a mdia de todas elas, o que em mecnica costuma exprimir-se pela diagonal do paralelogramo das foras.
      Quando os historiadores, especialmente os franceses, afirmam que as suas guerras ou as suas batalhas se desenrolam segundo um plano antecipadamente estabelecido, a nica concluso que podemos tirar das suas descries  que so inexactas.
      O combate de Tarutino, evidentemente, no atingiu o resultado que Toll se propunha, isto , conduzir as tropas em perfeita ordem ao ponto fixado pelo dispositivo, nem to-pouco aquele que desejava o conde Orlov, isto , fazer prisioneiro Murat, ou o de Bennigsen e de outros, o de esmagar instantneamente o corpo inimigo; ou ainda o dos oficiais desejosos de tomarem Parte numa aco e de se distinguirem; ou o dos cossacos, que no conseguiram recolher todos os despojos que apanharam, e assim por diante. Mas se o objectivo real era justamente aquele que se alcanou e o que todos os russos unanimemente desejavam: expulsar os Franceses e destruir o seu exrcito.  evidente que a batalha de Tarutino, graas, precisamente, a isso mesmo, aos erros cometidos, foi a nica eficiente naquele momento da campanha. Era difcil e mesmo impossvel imaginar resultado de batalha mais favorvel. Com os mais mesquinhos esforos, no meio dos maiores erros, e com perdas quase insignificantes, adquiriram-se os maiores resultados de toda a campanha: pass.ou-se da retirada  ofensiva. Foi demonstrada a fraqueza dos Franceses, e os Russos provocaram o choque que os exrcitos de Napoleo esperavam para empreender a fuga.
      

      
      
      
      Captulo VIII
      
      Napoleo entra em Moscovo depois da brilhante vitria do Moskva; no h dvida de que a vitria foi dele, pois o campo de batalha ficou nas mos dos Franceses. Os Russos recuam e abandonam a capital. Moscovo, a abarrotar de provises, de armas, de munies e de riquezas sem conta, est nas mos de Napoleo.
      O exrcito russo, duas vezes mais fraco que o francs, durante trinta dias no esboa a mais pequena tentativa de ataque. No pode ser mais brilhante a posio de Bonaparte. Para cair com foras duas vezes superiores sobre os restos do exrcito russo e esmag-lo; para propor uma paz, vantajosa ou, em caso de recusa, esboar um movimento ameaador sobre Petersburgo; para, mesmo no caso de desastre, retirar sobre Smolensk ou Vilna, em vez de ficar em Moscovo; numa palavra, para conservar a situao admirvel em que os Franceses se encontravam, parece que no era necessrio ser-se um gnio militar extraordinrio. Bastava fazer a coisa mais simples e mais fcil deste mundo: impedir que as tropas se entregassem ao saque, preparar roupas de Inverno, roupas que Moscovo estava em condies de fornecer para o exrcito inteiro, e regulamentar a distribuio de alimentos, os quais, na opinio dos historiadores franceses, eram suficientes para seis meses. Napoleo, esse gnio dos gnios, senhor de plenos poderes sobre o exrcito, segundo referem os historiadores, no soube pr em prtica esta coisa simplssima.
      E no s nada disto fez, mas serviu-se de todo o seu poder para escolher, de entre todas as medidas a tomar, a mais absurda e a mais nefasta; de tudo o que podia fazer - hibernar em Moscovo, marchar sobre Petersburgo ou sobre Nijni-Novgorod, ou retroceder, quer pelo norte, quer pelo sul, pela estrada que depois seguiu Kutuzov-, escolheu a mais absurda e mais perigosa: ficar em Moscovo at Outubro, deixando que os seus soldados saqueassem a cidade, e em seguida hesitar entre manter uma guarnio na capital, sair dela ao azar, aproximar-se de Kutuzov, no decidir travar batalha, passar pela direita, alcanar MaloIaroslavets sem correr o risco de um recontro; o no tomar a estrada que seguira Kutuzov, mas regressar a Mojaisk pela estrada escalavrada de Smolensk. Nada se pode imaginar de mais insensato nem de mais nefasto, como ficou amplamente provado pelas consequncias. Admitindo que Napoleo tivesse como objectivo perder o seu exrcito, teria sido difcil aos mais hbeis estrategos imaginar plano de operaes mais eficaz para a destruio completa desse exrcito, e isso independentemente de tudo quanto o prprio exrcito russo pudesse ter feito nesse sentido!
      E no entanto foi isto mesmo que o genial Napoleo acabou por fazer. E, apesar de tudo, afirmar que este perdeu o seu exrcito porque quis ou porque no passava de um tolo seria to errado como dizer que ele levara as suas tropas at Moscovo por ter sido esse o seu desejo e porque era uma inteligncia e um gnio. Quer num quer no outro caso, a sua aco pessoal, no mais influente que a do mais insignificante dos seus soldados, limitou-se a conformar-se com as leis que presidiam ao acontecimento.
      Esto em erro os historiadores que nos apresentam Napoleo intelectualmente deprimido em Moscovo, simplesmente porque os resultados no justificam a sua aco. Nesse momento, como antes e depois, em 1813, Napoleo serviu-se de toda a sua fora moral para agir o melhor possvel no interesse prprio e no interesse do seu prprio exrcito. Ento a sua actividade no foi menos surpreendente do que a que empregou no Egipto, na Itlia, na ustria e na Prssia. A verdade  que no sabemos com preciso at que ponto se revelou o seu gnio no Egipto, onde quarenta sculos contemplaram a sua grandeza, visto os seus feitos nos terem sido relatados por franceses. -nos impossvel apreciar no seu justo valor o gnio por ele demonstrado na ustria e na Prssia, pois a verdade  que no podemos conhecer os seus actos seno atravs de fontes francesas e alems, e os Alemes no podem explicar a capitulao sem combate do seu corpo de exrcito e capitulao sem cercos em forma das suas fortalezas desde que no recorram ao reconhecimento do gnio que Bonaparte exibiu na guerra da Alemanha. No que diz respeito aos Russos, esses, graas a Deus, no tm qualquer razo para se inclinarem perante essas qualidades excepcionais no intuito de esconderem a sua vergonha. Os Russos pagaram caro de mais o direito de julgar os seus actos com justeza e sem disfarces e no esto dispostos a abandonar o diieito que lhes assiste.
      A actividade de Napoleo em Moscovo foi to espantosa e to inspirada pelo gnio como em qualquer outra parte. Ordens e planos no cessaram de lhe emanar da cabea desde que entrou em Moscovo at, que partiu da capital russa. No o impressionam nem a ausncia dos habitantes nem das deputaes, como o no impressiona o prprio incndio da cidade. No perde de vista nem o bem-estar do seu exrcito nem os movimentos do inimigo, to-pouco esquece o bem-estar das populaces russas, a administrao dos negcios pblicos de Paris e as consideraes diplornticas relativas s condies de paz.
      

      
      
      
      Captulo IX
      
      No ponto de vista militar, Napoleo, assim que entrou em Moscovo, deu ordens severas ao general Sebastiani para que seguisse exactamente os movimentos do exrcito russo e enviasse corpos de tropas em vrias direces, tendo prescrito a Murar que descobrisse o paradeiro de Kutuzov. Em seguida torna medidas severas para fortificar o Kremlin e estabelece um plano adinrvel para a sua futura campanha na Rssia.
      No ponto de vista diplomtico convoca o capito Iakovlev, irruinado e andrajoso, que no sabia como sair de Moscovo, para lhe expor detalhadamente a sua poltica, e a sua magnanimidade, e entrega-lhe uma carta para o imperador Alexandre, onde se, sente no dever de o pr ao corrente do comportamento censurvel de Rostoptchine, ordenando-lhe que a leve a Petersburgo. E expe igualmente os seus magnnimos projectos a Tutolmina e manda tambm este ancio a Petersburgo como parlamentrio.
      No que diz respeito a assuntos judiciais, aps os incndios ordena que se procurem e punam os culpados. E o malfeitor do Rostoptchine  castigado, ordenando-se que lhe deitem fogo s prprias casas.
      Em matria administrativa, oferece a Moscovo uma constituio. Cria-se uma municipalidade e afixa-se a seguinte proelamao:
      
      Habitantes de Moscovo!
      
      So grandes as vossas desgraas, mas Sua Majestade o Imperador e Rei quer pr termo aos vossos sofrimentos. Terrveis exemplos vos mostraram j a maneira como ele castiga a desobedincia e o crime. Severas medidas foram tomadas para acabar com as desordens e dar lugar a que se restabelea a segurana de todos os indivduos, Unta administrao paternal, composta de homens escolhidos de entre vs, formar a vossa municipalidade. O corpo administrativo chamar a si cuidar de vs, das vossas necessidades, dos vossos interesses. Os membros desta municipalidade distinguir-se-o por urra faixa vermelha a tiracolo.
      O governador civil, alm da faixa, tera uma cinta branca. Fora das horas de servio, porm, os membros da municipalidade apenas usaro hraadeira vermelha no brao esquerdo. A polcia municipal  instituda de acordo com o antigo regulamento, e graas  vigilneia por ela exercida a ordem na cidade j  outra. O Governo nomeou dois comissrios-gerais, ou police-meister, e vinte comissrios, ou tchastni pristavs, para todos os bairros da cidade. Conhecem-se pela braadeira branca no brao esquerdo. Vrias igrejas afectas a cultos diversos esto abertas e as solenidades religiosas realizam-se sem obstculos. Os vossos concidados esto todos os dias a regressar aos seus lares e deram-se nstrues para que lhes seja prestada ajuda e proteco, como  devido a quem sofre. Eis os meios pelos quais o Governo espera restabelecer a ordem e minorar as vossas privaes. Mas para se chegar a este objectivo  preciso que junteis os vossos esforos aos desta gente, que esqueceis, e for possvel, os sofrimentos por que acabais de passar, que tenhais esperanas num futuro menos cruel, que estejais convencidos de que a morte inevitvel e infamante pesar sobre todos aqueles que atentem contra a vossa vida ou contra a vossa propriedade, e sobretudo que no tenhais dvidas de que os vossos bens sero respeitados, que tal  o desejo do maior e do mais justo de todos os monarcas, Soldados e habitantes, seja qual for a vossa nacionalidade! Restabelecei a confiana pblica, essa fonte de felicidade de todos os governos, vivei em paz, ajudai-vos e protegei-vos uns aos outros, uni-vos para combater as tentativas dos criminosos; obedecei s autoridades militares e municipais e no tarda que deixem de correr lgrimas dos vossos olhos.
      
      No que dizia respeito a subsistncias, Napoleo ordenou s tropas que viessem  vez a Moscovo.  rapina, para assim arranjarem alimentos para que o exrcito pudesse fazer face ao futuro. No que tocava  religio, deu ordeni de trazerem os popes e de recomearem nas igrejas as cerimnias religiosas.
      Mandou afixar por toda a parte a seguinte proclamao, relativa s transaces comerciais e ao fornecimento de subsis- tncias ao exrcito:
      
      Pacficos habitantes de Moscovo, homens de artes e ofcios que as desgraas afastaram da cidade, e tambm vs outros agricultores dispersos, escondidos pelos campos, aterrorizados sem qualquer fundamento, ouvi! A calma res- tabeleceu-se na capital e a ordem reina por toda a parte. Os vossos compatriotas abandonam sem medo os seus refgios, pois sabem que sero respeitados. Qualquer acto de violncia exercido contra eles ou em prejuzo dos seus bens  punido acto contnuo. Sua Majestade o Imperador e Rei protege-vos e s considera inimigos aqueles que de entre vs desobedecerem s suas ordens.  seu desejo pr fim s vossas infelicidades e restituir-vos a vossos lares e a vossas famlias. Correspondei s suas benvolas medidas voltando a casa sem temor algum. Habitantes! Artesos e trabalhadores laboriosos! Retomai as vossas actividades: os vossos lares, as vossas tendas, protegidas por patrulhas, esperam-vos, e o vosso trabalho ser recompensado. E vs, camponeses, abandonai as florestas onde vos refugiastes levados pelo medo, regressai s vossas isbs, certos de que vos saberemos proteger. Criaram-se nas cidades grandes armazns onde os camponeses podenz colocar os produtos da lavoura que excedam as suas necessidades. Para garantir a livre circulao destes produtos, o Governo tomou as seguintes medidas: 1 De hoje em diante os camponeses, lavradores e demais habitantes dos arrabaldes de Moscovo, sem qualquer risco, podem trazer  capital os seus produtos e coloc-los em dois dos armazns montados para esse fim, um na Rua Mokovaia e outro no Mercado Okotni. 2 Estes produtos sero adquiridos ao preo que se convencione entre o vendedor e o comprador; porm se aquele que vende no encontrar quem lhe pague preo justo tem o direito de tornar a levar a sua mercadoria, sem que ningum o possa impedir. 3 Em vista disto, semanalmente, aos domingos e quartas-feiras, haver feiras, e para esse efeito aos sbados e teras-feiras sero destacadas tropas em nmero sujiciente para protegerem os comboios ao longo de todas as estradas, at certa distncia da capital. 4 Iguais medidas se adoptaram para proteger o regresso dos camponeses s suas aldeias. 5 Procurar-se-d restabelecer no prazo mais breve possvel os mercados ordinrios. Habitantes da cidade e das aldeias, e vs, artesos, operrios, qualquer que seja a vossa nacionalidade! Apelamos para vs, rogando-vos que vos conformeis com as paternais instrues de Sua Majestade o Imperador e Rei e que o ajudeis a contribuir para o bem-estar comum. Depositai a seus ps o respeito e a confiana e no vos demoreis a juntar-vos connosco!
      
      No intuito de elevar o moral das tropas e do povo, havia frequentes paradas e distribuam-se condecoraes. O imperador percorria as ruas a cavalo, consolando os habitantes, e apesar das muitas preocupaes que lhe causavam os negcios pblicos aparecia nos espectculos organizados segundo inspirao sua.
      No que diz respeito a beneficncia, a melhor virtude dos soberanos, Napoleo fez tambm tudo que dependia dele. Deu ordem para que se inscrevesse no fronto dos estabelecimentos de beneficnci,-: Casa de minha me, maneira de associar, assim, o terno afecto filial  magnanimidade do monarca. Visita o asilo das crianas abandonadas, d a beijar a sua branca mo aos rfos que salvou e conversa c ondescendentem ente com Tutolmine. Enfim, segundo o eloquente relato de Thiers, manda pagar o soldo dos seus soldados com o dinheiro russo por ele falsificada. Relevando o emprego dos seus recursos por um acto digno de si e do exrcito francs, mandou distribuir socorros aos sinistrados. Mas como os vveres eram demasiado preciosos para serem dados a estrangeiros, a maior parte dos quais inimigos, Napoleo preferiu distribuir-lhes dinheiro para que eles se abastecessem fora da cidade, e mandou distrbuir-lhes rublos-papel.
      Enfim, no, desejo de manter a disciplina do exrcito, constantemente expede ordens severas para que sejam punidas as infraces ao regulamento e o saque.
      

      
      
      
      Captulo X
      
      Mas, coisa estranha, todas estas medidas, todas estas ordens e todos estes planos, em nada piores que os tomados em circunstncias idnticas, no afectavam a essncia da questo, como acontece aos ponteiros de um quadrante que, quando desligados do maquinismo, giram arbitrariamente e sem objectivo, alheios s engrenagens que os accionam.
      No ponto de vista militar, este genial plano de campanha, a respeito do qual Thiers disse que o seu gnio nunca imaginara nada de mais profundo, de mais hbil e de mais admirvel, e a propsito do qual., na sua polmica com M. Fain, se empenha em demonstrar ter sido redigido no a 4, mas a, 15 de Outubro, este plano nunca foi nem nunca poderia ter sido executado, pois a verdade  que em coisa alguma se aplicava s eircunstneias de momento. A fortificao do KrernIin, que implicava a, demolio de a Mesquita, que assim chamava Napoleo  igreja de Baslio, o Bem- Aventurado, provou ser absolutamente intil. As minas cavadas no subsolo do Kremlin apenas serviram para ajudar o imperador a por em prtica o seu projecto de o fazer ir pelos ares aquando da sua partida de Moscovo, no mesmo esprito com que uma pessoa fustiga o soalho que fez cair uma criana.
      A perseguio do exrcito russo, que tanto o preocupou, proporcionou aos observadores um espectculo extraordinrio. Os generais franceses perderam a pista de sessenta mil russos, e, segundo Thiers, s graas  habilidade, e talvez mesmo ao gnio de Murat, foi possvel encontr-los, como se se tratasse de um simples alfinete perdido,
      Na actividade diplomtica, os argumentos que Napoleo desenrolou para demonstrar a sua generosidade e o seu esprito de justia diante de Tutolmina e de IakovIev, o qual, entre parntesis se diga, se preocupava sobretudo em arranjar um bom capote e uma carruagem, resultaram tambm inteis, Alexandre I no recebeu esses embaixadores e no respondeu s cartas de que eram portadores. E no que diz respeito s suas medidas judicirias? Apesar de ter sido executado grande nmero de falsos incendirios, o que restava de Moscovo acabou por arder.
      E quanto s suas medidas administrativas? A constituio de uma municipalidade no s no deteve o saque, como s foi til s pessoas que dela fizeram parte, as quais, a pretexto de manterem a ordem, se entregaram  pilhagem ou apenas se de- ram ao cuidado de proteger o que era seu contra a pilhagem alheia.
      No que toca a matria religiosa, as medidas postas em prtica no Egipto, como as visitas s mesquitas, que a deram to bons resultados, em Moscovo no produziram efeito algum. Os dois ou trs padres que estavam em Moscovo procuraram pr em execuo a vontade imperial, mas um deles foi esbofeteado por certo soldado francs durante o servio divino e acerca de outro escreveu um funcionrio de Napoleo o que se segue: O padre que eu descobrira, e a quem convidara a celebrar missa, limpou e fechou a igreja. Nessa noite vieram de novo arrombar as portas, partir os cadeados, rasgar os livros e praticar outras desordens.
      No que se refere a assuntos comerciais, a proclamao aos artesos e camponeses no encontrou o mais pequeno eco. J no havia trabalhadores laboriosos: e, quanto aos camponeses, esses deitaram a mo aos comissrios portadores das proclamaes que se aventuraram longe de mais e mataram-nos.
      To-pouco deram resultado os espectculos destinados a divertr o pblico e as tropas. Os teatros organizados no Kremlin e em casa de Posniakov foram imediatamente fechados, pois actores e actrizes viram-se despojados de tudo quanto tinham.
      Tambm a beneficncia foi estril. Moscovo viu-se inundada de papel-moeda, quer falso quer verdadeiro, que logo perdeu todo o seu valor, Os Franceses, s preocupados em encher as algibeiras, apenas queriam ouro. No s carecia de valor a moeda falsa que Napoleo distribua to generosamente pelos desgraados, como as prprias moedas de prata se trocavam por moedas de ouro muito abaixo do seu valor.
      Mas o exemplo mais impressionante da ineficcia das medidas tornadas nas altas esferas revelou-se na inutilidade dos esforos do imperador para deter a pilhagem e restabelecei, a disciplina.
      Eis aqui informaes das autoridades militares:
      
      O saque continua na cidade, apesar das ordens dadas para que cessasse. A ordem, por enquanto, no est restabelecida e ainda no lia um nico comerciante que pratique comrcio legal. Apenas os cantineiros se arriscam a vender, mas objectos proveiiientes do saque.
      A parte do meu bairro continua a ser saqueada pelos soldados do 3 corpo, os quais, no se contentando em arrancar aos desgraados refugiados nos subterrncos o pouco que lhes resta, se mostram to ferozes que os ferem  sabrada, como eu prprio Pude observar.
      Nada de novo, alm de que os soldados continuam a roubar e a saquear, 9 de Outubro.
      O roubo e o saque continuam. H um bando de ladres no nosso bairro que  preciso mandar prender por uma fora poderosa. 11 de Outubro.
      O imperador est muito descontente com o facto de, apesar das ordens severas dadas para se acabar com a pilhagem, s ver chegar ao Kremlini destacamentos de merodistas da guarda. Na velha guarda renovaram-se ontem e hoje com mais intensidade do que nunca os actos de pilhagem. O imperador tem o desgosto de verificar que soldados de escol, destinados a defender a sua prpria segurana, e que deviam dar exemplo de acatar as ordens, levam to longe a desobedincia que saqueiam os prprios armazns e as lojas preparadas expressamente para o exrcito. Alguns to baixo desceram que j no obedecem s sentinelas, antes as injuriam e as abatem a tiro.
      O grande marechal do palcio queixa-se, escrevia o governador, de que, apesar das reiteradas proibies, os soldados continuam a fazer as suas necessidades em todos os ptios e at mesmo debaixo das janelas do imperador.
      
      O exrcito francs, como um rebanho que pisasse aos ps o pasto destinado a salv-lo da fome, dispersava-se e perecia, pouco a pouco, merc daquela longa permanncia em Moscovo. E a verdade  que se no movia.
      No se moveu at ao dia em que de sbito o assaltou um medo pnico, e isso veio a dar-se quando os soldados souberam que haviam sido capturados comboios na estrada de Smolensk e que se dera a batalha de Tarutino. A notcia desta batalha, inopinadamente levada ao conhecimento de Napoleo durante uma parada militar, despertou no imperador o desejo de castigar os Russos, como refere Thiers, e foi ento que deu a ordem de marcha reclamada pelo exrcito inteiro.
      Ao abalarem de Moscovo, os soldados levavam consigo tudo quanto tinham podido apanhar. O prprio Napoleo fugia com o seu tesouro. Perante os pesados carregamentos que o exrcito levava, segundo diz Thiers, Napoleo ganhou medo. Mas, com a sua experincia da guerra, no mandou queimar todas as bagagens suprfluas, como fizera com as carroas de um dos seus marechais, ao aproximar-se de Moscovo. Ao ver essas seges e essas carruagens apinhadas de soldados, achou que estavam bem e que esses carros podenam vir a ser utilizados mais tarde para transportar abastecimentos, doentes e feridos.
      A situao do exrcito francs fazia lembrar a de uma fera atingida que sabe prximo o seu fim e j no atina com o que deve fazer. Estudar as hbeis manobras e os planos de campanha de Napoleo e do seu exrcito desde a entrada em Moscovo at  destruio deste  como estudar os pinchos e as convulses de um animal ferido de morte. Acontece muitas vezes que esse animal, assustado Por um rudo qualquer, se atira para debaixo da espingarda do caador, corre direito a ele, volta para trs, precipitando deste modo o seu prprio fim. Eis o que fez Napoleo sob a presso do seu exrcito. A notcia da batalha de Tarutino encheu de medo o animal, que se atirou para debaixo da espingarda, chegou at junto do caador, voltou para trs e, por fim, como sempre acontece, se precipitou no caminho mais desvantajoso e mais perigoso, pois os seus trilhos j lhe eram conhecidos.
      Tal como aos olhos dos selvagens a figura esculpida  proa do barco se lhes afigura a fora que o faz mover, Napoleo, que nos  apresentado como o dirigente de todo este movimento, na realidade, durante todo este perodo da sua vida, foi apenas a criana que, agarrada s correias do interior de um carro, julga estar a dirigi-lo.
      

      
      
      
      Captulo XI
      
      No dia 6 de Outubro, de manh muito cedo, Pedro saiu da sua barraca, e, ao regressar a ela, deteve-se no limiar da porta a brincar com um cachorrito pardacento de pernas curtas e tortas que pulava  sua volta. Este animalzinho vivia na barraca e dormia com Karataiev. As vezes ousava sair  rua, mas voltava sempre para casa. A ningum pertencia, naquele momento no era de quem quer que fosse e no dava por nome algum. Os Franceses chamavam-lhe Aor; um soldado apreciador de histrias, Femgalka; Karataiev e os outros, Sierii e s vezes Vislii (Nomes vulgarmente dados aos ces na Rssia (N. dos T.).
      O pobre animal parecia no se preocupar com o facto de no ter dono, nem nome, nem raa bem definida, nem cor muito distinta. Trazia a empenachada cauda bem alada, e as suas patitas tortas cumpriam to bem ou to mal a sua funo que, por vezes, esquecendo-se de usar das quatro pernas, soerguia uma das da retaguarda, graciosamente, e nas outras trs trotava agilmente. Para ele tudo era motivo de alegria: ora se esfregava no cho de barriga para o ar, ora se aquecia ao sol com modos pensativos e importantes, ou ainda brincava com um pedao de Pau ou um bocado de palha.
      Pedro, vestido com uma camisa suja esfarrapada, tudo quanto lhe restava dos seus antigos atavios, trazia pantalona de soldado amarradas nos artelhos, para andar mais quente, como o aconselhara Karataiev, um cafet e um gorro de campons. Mudara muito fisicamente. No parecia to gordo, embora mantivesse a mesma corpulncia e a mesma fora natural. Grande barba e farto bigode lhe revestiam os lbios e o mente. Por debaixo do gorro saam-lhe umas farripas muito crescidas e emaranhadas inadas de piolhos. Tinha no olhar Lima expresso decidida, serena e resoluta como nunca. O relaxamento que outrora se lhe lia nos olhos desaparecera para dar lugar a uma deciso e a uma energia prontas a agir e a lutar. Andava descalo.
      Pedro ora mirava os campos, onde nessa manh passavam comboios de carros e gente a cavalo, ora estendia a vista para alm do rio, um pouco mais para longe, ora ainda punha os olhos no cachorrito que fingia mord-lo, quando no rios seus prprios ps descalos, que se entretinha a mudar de posio, remexendo os sujos dedos polegares. De cada vez que fitava os ps descalos perpassava-lhe pelos lbios um sorriso de alegria e satisfao. Esse espectculo trazia-lhe a mente tudo quanto sofrera o tambm o muito que aprendera nos ltimos tempos e era-lhe agradvel lembrar-se de tudo isso.
      O tempo ultimamente estava calmo e lmpido, apenas pela manh havia ligeiras geadas brancas: era, ento, o Estio das mulheres.
      Ao ar livre, enquanto havia sol, estava quente, e este calor, aps o fresco estimulante das geadas matinais, no deixava, de ter os seus encantos.
      Todos os objectos, prximos ou distantes, pareciam mergulhar nessa claridade ferica e cristalina como s h nessa poca do Outono. Na distncia divisavam-se os montes Vorobi, com a sua povoao, a sua igreja e uma casa branca. E as rvores despidas, a areia, as pedras, os telhados, o cata-vento verde da igreja, os cunhais da casa branca, l longe, tudo isto, com uma nitidez quase irreal, se desenhava em finssimos cor)tornos atrs da atmosfera difana. Num plano mais perto perfilavam-se as runas dessa casa senhorial, meio lambida pelo fogo, ocupada pelos Franceses, com os canteiros de lilases que adornavam o jardim ainda vestidos da sua sombria verdura. E at dessa casa meio arruinada e suja, cuja fealdade era hostil em dias sombrios, agora, iluminada por essa luz imvel e viva, emanava uma espcie de apaziguadora beleza.
      Um cabo francs, que, para estar  vontade, desabotoara o dlman, de gorro de polcia e cachimbo nos dentes, saiu de um dos ngulos do abarracamento e, com uma amistosa piscadela de olhos, aproximou-se de Pedro.
      - Que sol, hem?, Monsieur Kiril, - assim lhe chamavam todos os franceses. - Parece que estamos na Primavera.
      Encostando-se  ombreira da porta, ofereceu-lhe uma cachimbada, coisa que Pedro sempre recusava.
      - Se tivssemos um tempo destes para caminhar - principiou ele.
      Pedro perguntou-lhe o que havia sobre a prxima partida, e por ele soube que quase todas as tropas iam deixar Moscovo e que naquele mesmo dia deveria sair uma ordem determinando o destino dos prisioneiros. Na barraca de Pedro havia um soldado. Sokolov de, nome, que estava na agonia, e Pedro chamou a ateno do cabo para, a necessidade de se tomarem quaisquer medidas acerca dele. Foi-lhe respondido que podia estar sossegado, que existiam ambulncias e hospitais permanentes, que os doentes seriam tratados e que alis as autoridades j tinham sido prevenidas.
      - E depois, Monsieur Kiril, basta que diga uma palavrinha ao capito, bem sabe. Oh!,  um b.... que nunca se esquece de nada. Diga ao capito, quando ele vier fazer a ronda, far tudo por si...
      Esse capito tinha s vezes longas conversas com Pedro e mostrava por ele certa parcialidade.
      - Ests a ver, Saint-Thomas, o que ele me dizia no outro dia: Kiril , um homem instrudo, que fala francs;  um fidalgo russo, que teve pouca sorte, mas e um homem. E ele l se entende, o b... Se ele quer alguma coisa, que mo diga, no se lhe recusa nada. Quando uma pessoa tem estudos, gosta da instruo e das pessoas decentes.  por si que eu digo isto, Monsieur Kiril. No caso do outro dia, se no fosse o senhor, aquilo acabava mal.
      Depois de dar  lngua ainda algum tempo, foi-se o cabo.
      O caso do outro dia a que ele se referira dizia respeito a uma altercao entre prisioneiros e franceses que Pedro conseguira harmonizar. Alguns dos presos que tinham ouvido a conversa entre o compatriota e o cabo francs perguntaram-lhe de que haviam falado. Como Pedro lhes dissesse que se falava numa prxima partida, um soldado francs, magro, amarelento e esfarrapado, aproximou-se deles. Enquanto levava dois dedos  pala da barretina, num gesto rpido e algo acanhado,  guisa de continncia, perguntou-lhe se o soldado Platoche, a quem confiara a camisa para remendar, no estaria por ali.
      Na semana anterior, os Franceses tinham recebido pano e cabedal para botas e haviam confiado aos prisioneiros o seu calado e as suas camisas para remendar.
      - Est pronta, est pronta, meu falcozito - exclamou Karataiev, que aparecera  porta com a camisa dobrada,
      Por causa do calor, e para estar mais  vontade, Karataiev estava apenas em ceroulas e vestia uma camisola negra como um tio.  maneira dos artesos, amarrara os cabelos com pedaos de cnhamo, e a sua cara redonda ainda parecia mais redonda agradvel do que habitualmente.
      - Contratos so contratos. Se eu disse que estava pronta sexta-feira, est pronta sexta-feira - rematou Plato, sorrindo enquanto desdobrava a camisa.
      O francs olhou inquieto  sua roda e, dominando a indeciso que o tomava, despiu rapidamente o uniforme e enfiou a camisa. Sobre o desnudo corpo delgado e amarelento trazia, a servir de camisa, um folgado colete de seda floreado, muito sebento, que mal lhe cobria a pele. Receando, sem dvida, que os prisioneiros se rissem dele, deu-se pressa em meter a cabea pelo decote da camisa. Mas ningum disse fosse o que fosse.
      - Fica-te bem - observou Plato, puxando-lhe pela camisa. Quando conseguiu meter a cabea e os braos dentro da camisa, o francs, sem erguer os olhos, ps-se a examinar as costuras.
      - Que queres tu, falcozito, isto aqui no  uma oficina de costura, faltam-me as ferramentas necessrias.  bem verdade o que se costuma dizer: sem ter com qu, nem a pulga um homem pode matar. - E todo ele, toda a redondeza da sua cara, era riso, satisfeitssimo com o seu trabalho.
      - Est bem, est bem, obrigado; mas tu deves ter pano de sobra - disse o francs.
      - E ainda te ficar melhor depois de se te ajeitar ao corpo - comentou Karataiev, que continuava a admirar a sua obra. - Vais-te sentir bem e  vontade.
      - Obrigado, obrigado, meu velho, o resto... - voltou o francs, sorrindo e metendo uma nota na mo de Karataiev. - Mas o resto...
      Pedro percebeu que Plato no tinha grande empenho em compreender o que dizia o seu cliente, e olhava para ambos sem abrir a boca. Karataiev agradecia o que lhe davam e continuava a admirar a sua obra. O francs teimava em que ele lhe desse o resto do pano, e acabou por pedir a Pedro que lhe servisse de intrprete.
      - E para que quer ele as sobras? - perguntou Karataiev. - Para ns podiam servir para fazermos umas ricas polainas para as pernas. Mas j que ele as quer...
      E, de sbito, numa expresso triste, tirou de dentro da camisa um embrulhito com umas sobras de pano e entregou-lho sem olhar para ele.
      - Que pena! - exclamou, voltando-lhe as costas. O francs ps-se a examinar os bocados de pano, pareceu indeciso, interrogou Pedro com os olhos e como se este lhe tivesse dito alguma coisa:
      - Platoche, ouve l, Platoche - gritou, corando. - Guarda-as para ti. - E, estendendo-lhe o embrulho com as sobras do pano, deu meia volta e afastou-se.
      -  como vs - comentou Karataiev, abanando a cabea. - Dizem que no so cristos. Mas sempre tm alma. Os velhos tm razo. Mo suada  dadivosa, mo enxuta  avara. Est nu e assim mesmo d-me as sobras.
      Karataiev ficou pensativo, calado, de olhos fitos nos bocados de pano.
      -  o que te digo, amigo, vou fazer daqui umas ricas polainas - comentou, voltando a entrar na barraca.
      

      
      
      
      Captulo XII
      
      Quatro semanas tinham decorrido desde que Pedro cara prisioneiro. Embora os Franceses o tivessem querido transferir da barraca dos soldados para a dos oficiais, continuara sempre naquela onde o tinham metido no primeiro dia.
      Em Moscovo, arruinada e incendiada, Pedro chegara quase ao limite extremo das privaes que um homem pode suportar, porm a sua forte constituio e a sua sade at ento nunca experimentadas, e sobretudo o facto de essas privaes se terem verificado pouco a pouco, fizeram que ele as suportasse no s com facilidade, mas at com alegria. Precisamente naquela altura atingia ele aquela serenidade e aquela satisfao de si prprio a que debalde aspirara outrora. Por muito tempo, no decorrer da sua vida, procurara, de vrios modos e em vrias direces, aquela tranquilidade, aquele acordo consigo prprio, que to profundamente o impressionara nos soldados durante a batalha de Borodino. Procurara-os na filantropia, na franco-maonaria, nas distraces da vida mundana, no vinho, na herica abnegao, no romanesco amor por Natacha; procurara-os pelas vias do puro pensamento e sempre e em toda a parte s encontrara decepes. Mas agora, espontaneamente, sem pensar nisso, ei-lo que achara essa serenidade nos horrores passados diante da morte, nas privaes, aceitando e compreendendo a alma de Karataiev.
      Os horrveis momentos que vivera durante a execuo dos incendirios pareciam ter-lhe varrido para sempre do esprito e da memria os pensamentos e os sentimentos que o inquietavam at ento e que to importantes se lhe afiguravam. J no pensava na Rssia, nem na guerra, nem na poltica, nem em Napoleo. Era evidente que nada disso lhe dizia respeito, que lhe no pertencia apreciar essas coisas e mesmo que o quisesse no podia. A Rssia e o Vero no se casaro, costumava dizer, repetindo certo dito de Karataiev, e estas palavras to simples davam-lhe uma serenidade estranha. Agora encarava como incompreensvel e at ridculo o seu projecto de matar Bonaparte e bem assim as suas lucubraes  volta do algarismo cabalstico e da Besta do Apocalipse. A ira que a mulher lhe despertara e o receio de que o seu nome tivesse sido desonrado pareciam-lhe agora no s coisas vs mas at ridculas.
      Que lhe importava a ele que essa mulher levasse a vida que queria? Que lhe importava a ele principalmente que soubessem ou no que aquele prisioneiro era o conde Bezukov?
      Pensava muitas vezes na conversa que tivera com o prncipe Andr e dava-lhe inteira razo, embora lhe interpretasse o pensamento de maneira um pouco diferente. O prncipe Andr pensava e dizia que a felicidade apenas tinha carcter negativo, e isto no sem que o dissesse e pensasse com um misto de amargura e ironia. Pensando assim, parecia querer dizer que todas as aspiraes do homem  felicidade positiva lhe no tinham sido dadas seno para o atormentar, insatisfeitas que sempre eram. Sem qualquer pensamento reservado, Pedro adoptara esta maneira de pensar. A ausncia da dor, a satisfao de todas as necessidades, e, como consequncia, a liberdade da escolha das suas prprias ocupaes, isto , do gnero de vida que mais lhe quadrava, afiguravam-se-lhe, a Pedro, incontestavelmente, o ideal da felicidade humana. Mas agora compreendera pela primeira vez o prazer de comer quando se tem fome, de beber quando se tem sede, de dormir quando se tem sono, de se aquecer quando se tem frio, de falar quando apetece ouvir uma voz humana. A satisfao das necessidades, uma boa alimentao, o asseio, a liberdade, agora, que estava privado de tudo isso, apareciam-lhe como o supra-sumo da felicidade, e a liberdade da escolha das suas ocupaes, isto ., a prpria vida, agora, que to limitada lhe estava essa escolha, parecia-lhe coisa to fcil que esquecia que o prprio excesso das comodidades da existncia destri toda a felicidade que resulta da satisfao das necessidades e que uma perfeita liberdade de aco, essa liberdade que lhe proporcionara a instruo, a fortuna, a posio na sociedade, torna a escolha das ocupaes excessivamente difcil e por isso mesmo destri a necessidade e o desejo de aco.
      Todos os pensamentos de Pedro se reportavam agora ao momento em que o restitussem  liberdade. E, no entanto, depois, e at ao fim dos seus dias, alegremente recordaria aquele ms de priso e com entusiasmo falaria das fortes e inapagveis alegrias que experimentara ento e sobretudo da serenidade moral perfeita, da completa liberdade interior que s nessa quadra da sua existncia profundamente conhecera.
      No primeiro dia de cativeiro, quando, depois de se levantar muito cedo, viu, ao sair da barraca, as cpulas e as cruzes sombrias do Mosteiro Novodievitchii, o orvalho gelado sobre a erva poeirenta, os cumes dos montes Vorobi e as orlas cobertas de arvoredo do no que serpeava perdendo-se na distncia violcea; quando sentiu a brisa fresca soprar-lhe na cara e ouviu o grasnido das gralhas que debandavam de Moscovo atravs dos campos, quando, de sbito, a luz surgiu do Oriente, o Sol se ergueu, solene, por cima das nuvens, e as cpulas, as cruzes, o orvalho, a distncia, o rio, tudo resplandeceu no meio dessa alegre claridade, uma felicidade nova, uma alegria nunca experimentada o tomou, enchendo-o de desconhecido jbilo.
      Este sentimento nunca o abandonara enquanto estivera prisioneiro. Pelo contrrio, fora crescendo  medida que se agravavam as dificuldades da sua situao.
      Nesta disposio de esprito e na aceitao de tudo que lhe acontecia e ainda no revigoramento das suas foras morais muito o ajudou a elevada opinio que dele tiveram sempre os seus companheiros de cativeiro desde que chegara ali. O saber vrios idiomas, o respeito que lhe testemunhavam os Franceses, a sua simplicidade, a maneira que tinha de dar tudo quanto lhe pediam, particularmente os trs rublos que semanalmente recebia como pr de oficial, a sua robustez fsica, que maravilhara os soldados ao verem-no enterrar com as mos alguns cravos na parede da barraca, a sua humildade no trato com os camaradas, as suas maneiras, para eles incompreensveis, ao quedar-se horas imvel e sem fazer nada, cismando, tudo isto junto lhe dera, aos olhos deles, ares de criatura misteriosa. Estas qualidades, que at ali, na sociedade em que vivera, apenas lhe tinham sido prejudiciais e embaraosas, a sua fora, o seu desprezo pelas comodidades da vida, o seu ar distrado, a sua simplicidade, ali, entre aquela gente, quase faziam dele um heri. E Pedro sentia que esta opinio a seu respeito lhe criava obrigaes.
      

      
      
      
      Captulo XIII
      
      Durante a noite de 6 para 7 de Outubro comeou a retirada dos Franceses. Demoliram-se as cozinhas e as barracas, carregaram-se as galeras, e soldados e bagagens puseram-se em marcha.
      As sete da manh um peloto de franceses com uniforme de campanha, barretinas, arma ao ombro, mochila s costas e grandes bornais a abarrotar, alinhou diante dos abarracamentos e foi um nunca acabar de gritos e graolas ao longo das fileiras.
      No interior das barracas todos estavam a postos, vestidos, calados, aguardando ordem de marcha. S Sokolov, o soldado doente, plido e magro, no estava nem equipado nem calado, Sentado no seu canto, os olhos fora das rbitas, de grandes olheiras, castigado pelo sofrimento, interrogava em silncio os seus companheiros indiferentes, gemendo de vez em quando. O que lhe ditava aquela queixa era menos a desinteria que o prostrava que o terror e a tristeza que lhe causavam a ideia de ficar s para ali.
      Pedro, com umas botifarras que Karataiev lhe fizera de um pedao de couro que um francs lhe trouxera para ele lhe pr meias solas numas botas,  cinta uma corda que lhe cingia os rins, aproximou-se do enfermo e agachou-se junto dele.
      - Escuta, Sokolov, eles no se vo embora de vez. Tm aqui um hospital. Naturalmente ainda vais ficar melhor do que ns - disse-lhe ele.
      - Ai, meu Deus! Vou morrer! Ai, meu Deus! - gemia o desgraado.
      - Eu vou falar com eles - animou-o Pedro, dirigindo-se para a porta da barraca.
      Nesse momento vinha entrando, acompanhado de dois soldados, o cabo que na vspera oferecera uma cachimbada a Pedro. Todos envergavam uniforme de campanha, com barretinas e bornais e o francalete por debaixo do queixo, o que lhes dava outro aspecto.
      O cabo recebera ordem para conservar a porta fechada. Antes da partida, tinha de proceder  chamada dos prisioneiros. 
      - Cabo, que vais tu fazer do doente?... - perguntou Pedro.
      E enquanto isto lhe dizia. Pedro perguntava a si prprio se realmente estaria falando com o cabo seu conhecido ou com outro homem, pois a verdade  que no parecia o mesmo.
      O cabo, ao ouvir as palavras de Pedro, franziu o sobrolho e fechou a porta ruidosamente, soltando uma grosseria. A barraca ficou imersa numa semi-obscuridade. O rufar de tambores que de repente se ouviu dos dois lados da barraca abafava as queixas do doente.
      Ah! A est outra vez... , pensou Pedro, e um calafrio lhe percorreu a espinha. Voltara a encontrar na fisionomia transfigurada do cabo, no tom da sua voz, no rufar ensurdecedor dos tambores que tocavam a reunir, aquela fora misteriosa e impassvel que levava os homens a matarem-se uns aos outros mesmo sem quererem, essa fora cujos efeitos vira aquando das execues. Ter medo, procurar evitar esta fora, suplicar ou admoestar aqueles que se lhe rendiam, era absolutamente intil. Eis o que Pedro compreendia agora.
      Era preciso esperar e ter pacincia. No voltou ao p do doente e no lhe disse qualquer outra palavra de consolo. Ali ficou, de p, junto da porta da barraca, mudo, as sobrancelhas franzidas.
      Quando as portas voltaram a abrir-se e os prisioneiros, como um rebanho de carneiros, empurrando-se uns aos outros, se amontoaram  sada, Pedro abriu caminho pelo meio deles e avanou at junto do capito que, no dizer do cabo, estava disposto a tudo fazer por ele. Tambm este capito envergava fardamento de campanha e no seu frio rosto reflectia-se essa mesma coisa terrvel traduzida nas palavras do cabo e no rufar dos tambores.
      - Toca a andar, toca a andar! - gritava ele, olhando severamente os prisioneiros que se comprimiam uns contra os outros na sua frente.
      Pedro, embora certo de que seria intil o que ia tentar, aproximou-se dele.
      - Ento, que  que h? - exclamou o oficial, relanceando-lhe um frio olhar, como se o no conhecesse.
      Pedro lembrou-lhe o doente.
      - Que diabo, ele pode caminhar! - replicou o capito, e sem olhar para Pedro: - Toca a andar, toca a andar! - prosseguiu.
      - No pode, est a morrer - insistiu Pedro. 
      - Fazem favor!... - gritou o capito iracundo.
      Tan, ratapl, continuavam os tambores. E Pedro compreendeu que aqueles homens estavam completamente dominados pelo poder da fora misteriosa que ele sentia ali presente e que era intil dizer fosse o que fosse.
      Separaram os soldados dos oficiais prisioneiros e, deram-lhes ordem de marchar na vanguarda. Com Pedro, eram trinta - os soldados eram trezentos.
      Pedro no conhecia os oficiais das outras barracas, que se apresentavam muito melhor. Olharam, desconfiados e hostis, Para ele e para as botas que tinha nos ps.
      
      Bastante perto dele marchava um gordo major, que parecia respeitado por todos os demais: vestia um roupo trtaro de Kazan, cingido por uma toalha, a sua cara, opada e amarelenta, tinha qualquer coisa de iracundo. Uma das mos, que segurava a bolsa do tabaco, apoiava-se na abertura da camisa e a no chibuque (Cachimbo turco (N. dos T.) . Resfolegando e soprando, resmoneava, zangado com toda a gente, dizendo que o empurravam, que todos estavam com pressa sem razo alguma, que no havia motivo para surpresas. Outro, pequenino e magricela, ia interrogando toda a gente, perguntando para onde os levavam o que percurso teriam de fazer naquele dia. Um funcionrio, de uniforme de comissrio e botas de feltro, corria daqui para ali, observando Moscovo e fazendo comentrios em volta sobre este e aquele bairro ainda fumegantes. Outro ainda, um polaco, a avaliar pelo sotaque, discutia com o funcionrio, pretendendo mostrar-lhe que se enganava a respeito dos bairros que ia designando.
      - Para que serve discutir? - exclamou o major colrico. - Tanto faz que seja S. Nicolau como Vlass:  o mesmo. Como vem, est tudo queimado e isso  um facto... Para que empurram? No lhes chega o espao que tm? - acrescentou, dirigido-se quele que vinha atrs dele e que o no empurrava de lacto.
      - Oh! Que terrvel coisa fizeram! - exclamavam os prisioneiros, contemplando as runas. - E o Zamoskvorietche e Zubovo e o Kremlin... Olhem, no ficou nem metade. Eu bem lhes disse que tinha ardido todo o Zamoskvorietche, e  verdade. A tm.
      - Bom, est bem, j sabem que ardeu a cidade inteira. De que lhes serve discutir? - resmungava o major.
      Ao atravessarem Kamovniki, um dos poucos bairros intactos, ao p da igreja, os prisioneiros correram de sbito todos para o mesmo lado, e ouviram-se exclamaes de horror e repulsa.
      - Oh! Que canalhas! Bem se v que no so cristos. Olhem, o morto, o morto... Borraram-lhe a cara.
      Pedro tambm se aproximou da igreja para saber a causa daquelas exclamaes, e viu ento qualquer coisa encostada ao muro do templo. Pelos seus camaradas, que viam melhor do que ele, soube que era um cadver de p contra a grade e ao qual tinham besuntado a cara com sebo.
      - Marchem, caramba... Marchem... trinta mil diabos! - vociferaram os soldados da escolta, e com renovada, ira puseram-se a destroar a coronhada a multido dos prisioneiros que ficara para trs olhando o cadver.
      

      
      
      
      Captulo XIV
      
      Pelas ruelas de Kamovniki foram seguindo os prisioneiros com a sua escolta, mais as carroas e as galeras que vinham atrs deles, sem encontrar ningum no caminho. Mas ao desembocarem junto dos armazns de subsistncias, deparou-se-lhes um grande comboio de artilharia que avanava, penosamente, entravado por um engarrafamento de viaturas particulares.
      Ao chegarem  ponte, tiveram de estacar para darem tempo a que passassem os que iam na vanguarda. Passada a ponte, puderam ver que tanto na sua frente como na sua retaguarda tudo eram filas interminveis de carros.  direita, no local em que a Calada de Kaluga forma uma curva diante de Neskutchni, perdendo-se na distncia, desfilavam filas imensas de soldados e de bagagens. Eram as tropas do corpo de Beauharmais, as primeiras a sair da cidade. Atrs, ao longo do cais e da ponte de Pedro, marchava, o corpo de exrcito de Ney, com as suas respectivas viaturas.
      As tropas de Davout, de que os prisioneiros faziam parte, atravessaram o vau de Krimski e meteram por um troo da Rua de Kaluga. Mas a fila era to longa que as ltimas viaturas de Beauharmais ainda no tinham sado de Moscovo quando a vanguarda das tropas de Ney principiava a desembocar na Grande Ordinka.
      Aps terem atravessado o vau de Krimski, os prisioneiros, depois de darem alguns passos, pararam, para de novo se porem em marcha: de todos os lados se comprimiam contra eles cada vez mais homens e viaturas. Levaram mais de uma hora para Percorrer a escassa centena de passos que separa a ponte da Rua de Kaluga, e, ao chegarem  praa onde a Rua de Zamoskvorietche se encontra com a de Kaluga, pararam, comprimidos numa massa compacta, e ali ficaram algumas horas naquela encruzilhada. Por toda a parte se ouviam, num rindo semelhante ao do mar, e rolar das rodas, os passos dos soldados e gritos furiosos e interminveis injrias. Pedro, de p, comprimido contra a parede de uma casa incendiada, ouvia aquele rumor que na sua imaginao se fundia com o rufar dos tambores.
      Alguns oficiais prisioneiros, para verem melhor, treparam ao alto das paredes da casa junto  qual se encontrava Pedro.
      - Tanta gente! Ah! Tanta gente!... At h homens em cima dos canhes! Olhem para as peles... Ah!, que crpulas! O que eles roubaram! Olha para aquele, o que ele leva no carro... Deve ter tirado aquilo a um cone... So alemes.  mais que certo! Onde esto os nossos camponeses?... Canalhas!... Olha para o que aquele leva. Nem pode andar! E aqueles, aqueles apanharam uma carruagem de fidalgo! E aquele alm! Sentado em cima dos bas! Ah! Santos Padres! Isto  que foi roubar!
      - Sim, sim! Chega-lhe nas ventas! Sim, senhor, no salinos daqui antes da noite! Olha, olha... Se calhar  do Napoleo. Repara! Que belos cavalos! Um escudo e a coroa! Parece uma casa desmontvel! Olha, aquele perdeu o saco e, no deu por isso. Qu, mais zaragatas? Uma mulher com o filho. No  qualquer peste. Claro, assim, ho-de deixar-te passar, Olhem! Nunca mais acaba! Moas russas, palavra de honra! Sim, moas russas1 Aquilo  que elas se rebolam nos carros.
      De novo um acesso de curiosidade, como junto da igreja de Kamovniki, precipitou os prisioneiros para diante, e Pedro, graas  sua estatura avantajada, pde ver por cima das cabeas o que assim chamava a ateno. Em trs carruagens.  mistura com os armes da artilharia, aglomeradas umas sobre as outras, viam-se umas mulheres muito pintadas, com vestidos ultragarridos, que gritavam em altos berros.
      Desde o momento em que Pedro dera pela presena daquela fora misteriosa e brutal que a certa altura se apodera dos homens, nada lhe parecia j estranho nem horrvel: nem aquele cadver borrado de sebo, nem aquelas mulheres empilhadas dentro de um carro, nem mesmo os escombros do incndio. J nada o comovia: dir-se-ia que a sua alma, preparando-se para uma luta difcil, repelia de si toda a emoo capaz de a debilitar.
      O carro das mulheres passara. Atrs dele vinha uma grande fileira de carroas, de soldados, de galeras: depois, de novo soldados, furges, veculos; e outra vez soldados, armes e mais soldados: de quando em quando algumas mulheres.
      Pedro ningum via individualmente, mas apenas massas de gente em movimento.
      Toda aquela gente, todos aqueles cavalos, pareciam impulsionados por uma fora invisvel. Em todos eles, afluindo das diversas ruas, no havia seno um nico e mesmo desejo: passar o mais depressa que pudessem. Empurravam-se, irritavam-se, agrediam-se, viam-se dentes ranger, franziam-se sobrancelhas, injuriavam-se uns aos outros, e todos os rostos reflectiam a mesma expresso resoluta, cruel, fria, a expresso que o impressionara logo pela manh na mscara do cabo, quando principiara a rufar o tambor.
      Para o fim da tarde, o comandante do comboio conseguiu agrupar o seu destacamento, que entre gritos e zaragatas acabou por unir-se aos demais comboios, e os prisioneiros, escoltados por todos os lados, entraram, a p, na estrada de Kaluga.
      A marcha foi rpida, sem interrupes, e apenas pararam ao pr do Sol. As carroas alinharam umas atrs das outras e os homens prepararam-se para passar ali a noite. Toda a gente parecia irritada e descontente. Por muito tempo se ouviram, por todos os lados, injrias, obscenidades, disputas. Uma carruagem que vinha atrs do comboio abalroou com uma carroa e meteu-lhe dentro os taipais com a lana dos cavalos. Acorreram vrios soldados: uns fustigavam a cabea das bestas atreladas  carruagem, para obrig-las a recuar, outros agrediam-se entre si, e Pedro viu um alemo gravemente ferido na cabea por uma espadeirada.
      Aquela gente, ali parada em pleno campo, no meio das fria, trevas de uma noite de Outono, experimentava a desagradvel sensao de quem desperta depois da confuso e da precipitao em que vivera  sada da capital. Todos pareciam compreender ser desconhecido o destino que levavam e que muitos tormentos e muitas dificuldades os aguardavam ainda.
      Neste primeiro descanso, os soldados da escolta ainda trataram os prisioneiros com mais dureza que no momento da partida. Pela primeira vez receberam como rao carne de cavalo.
      Desde os oficiais at ao mais humilde dos soldados, todos mostravam uma espcie de irritao particular para com os prisioneiros, contraste flagrante com o amistoso tratamento que at ento tinham tido.
      Essa irritao ainda mais se agravou quando, no momento de se fazer a chamada, verificaram que tinha fugido um soldado russo, que se queixara de uma indisposio de barriga. Pedro viu Um francs agredir um russo por se ter afastado da estrada e Ouviu o capito seu amigo repreender severamente o sargento por causa do desaparecimento do prisioneiro, ameaando-o com um conselho de guerra. Respondendo-lhe o sargento que o soldado estava, doente e no podia caminhar, o oficial replicou-lhe que havia ordens para fuzilar os retardatrios. Pedro sentiu que aquela fora fatal e bruta que pesara sobre ele na altura, da execuo dos incendirios, aligeirando-se durante o perodo do cativeiro, voltava de novo a impor-se-lhe. Um grande terror se apoderou dele: mas ao mesmo tempo sentia que, enquanto esta fora procurava esmag-lo, outra, poderosa e independente dela, espcie de energia vital, crescia e lhe fortalecia a alma
      Ceou papas de farinha e centeio e um pedao de carne de cavalo e ps-se a falar com os companheiros.
      Nem Pedro nem qualquer dos outros aludiu ao que tinham, visto em Moscovo, nem to-pouco  brutalidade dos Franceses nem  ordem de disparar sobre eles em caso de fuga. Como para contrabalanar a gravidade da situao que atravessavam, pareciam especialmente alegres e ruidosos. Lembravam recordaes pessoais, cenas cmicas a que tinham assistido durante a campanha, e as histrias que contavam faziam-nos esquecer o momento que passava.
      H muito que, se havia posto o Sol. Estrelas brilhantes surgiam aqui e ali no alto cu, O globo da lua cheia, cor de fogo, espalhava o seu fulgor no horizonte, balouando-se de maneira estranha no meio da bruma acinzentada. Era como se fosse dia claro. O crepsculo ainda no acabara e a noite ainda no principiara. Pedro, afastando-se do grupo dos seus novos amigos, atravessou pelo meio das fogueiras do acampamento para o outro lado da estrada onde lhe haviam dito haver tambm prisioneiros, Desejava conversar com eles. Uma sentinela francesa mandou-o fazer alto, ordenando-lhe que voltasse para trs.
      Pedro obedeceu-lhe, mas, em vez de voltar para o bivaque onde estavam os companheiros, encaminhou-se para uma carroa desatrelada em que ningum havia. Sentou-se no cho, acocorado, e de cabea baixa, sob a caixa da carroa, por muito tempo ali ficou imvel, absorto nos seus pensamentos. Passou-se mais de uma hora, Ningum se lembrava dele. De sbito rompeu uma gargalhada to franca e estrepitosa que toda a gente se voltou para ver donde partia aquela estranha jovialidade.
      Ah!, ah!, ah!, gargalhava Pedro. E em voz alta ia dizendo para si mesmo: O soldado no me deixou passar, apanharam-me, encarceraram- me, fizeram-me prisioneiro. Mas a quem? A mim.  minha alma imortal?
      Ah!, ah!, ah E de tanto rir enchiam-se-lhe os olhos de lgrimas.
      Um dos prisioneiros levantou-se e aproximou-se para ver qual a causa da hilaridade daquele homem gordo e estranho, Pedro deixou de rir, levantou-se e, afastando-se do indiscreto, olhou em torno de si.
      O acampamento, ainda h momentos animado pelo crepitar das fogueiras e das conversas ruidosas, serenara at onde a vista alcanava; as chamas vermelhas empalideciam e apagavam-se. A lua cheia estava agora l no alto do firmamento inundado de luar, As florestas e os campos, at ento invisveis para alm do acampamento, avultavam ao longe. E para alm dessas florestas , desses campos, a distancia infinita iluminada pelo luar parecia mover-se e cham-lo para si. Ergueu os olhos para o cu, para as profundezas onde se perdiam as estrelas cintilando. E tudo isto me pertence, tudo isto est em mim e tudo isto sou eu!, exclamou. E a tudo isto deitaram eles a mo e tudo isto enceraram numa barraca de madeira! Sorriu e foi deitar-se junto dos companheiros.
      

      
      
      
      Captulo XV
      
      Nos primeiros dias de Outubro. Kutuzov voltara ainda a receber uma carta de Napoleo, com propostas de paz, que lhe fora confiada por um parlamentrio, carta falsamente datada de Moscovo, pois o imperador j se encontrava para alm do exrcito russo, na velha estrada de Kaluga. Kutuzov repetiu o que respondera  primeira que lhe fora apresentada por Lauriston: que no queria ouvir falar em paz.
      Pouco tempo depois, o destacamento de guerrilheiros comandado por Dolokov, que operava  esquerda de Tarutino, comunicou que haviam desaparecido tropas francesas em Fominskoie, e que, essas tropas eram formadas pela diviso Broussier, a qual, isolada do resto do exrcito, facilmente podia ser dizimada. Soldados e oficiais exigiam, gritando, que os deixassem combater. Os generais do estado-maior, encorajados pela vitria fcil de Tarutino, insistiam com o generalssimo para que a proposta de Dolokov fosse aceite. Kutuzov continuava a considerar inoportuna qualquer actividade. Foi ento resolvido tomar uma medida intermdia: enviou-se um pequeno destacamento a Fominskoie com o propsito de atacar Broussier.
      Por um estranho acaso, esta misso - a mais difcil e a mais importante de todas, como depois se verificou - foi confiada a Dokturov, esse pequeno e modesto Dokturov, que ningum concebia a gizar planos de batalha, e lanar-se  frente dos seus regimentos, ou a espalhar cruzes s mos-cheias peias baterias, esse homem que tinha fama de indeciso, e que, no entanto, em todas as operaes contra os Franceses, de Austerlitz at 1813, estivera sempre na posio de comando onde a situao era mais difcil. Em Austerlitz fora o ltimo a abandonar o dique de Augezd, reunindo os regimentos, salvando o que podia, quando todos debandavam ou tinham sido mortos e mais nenhum general havia na linha de fogo, Enfermo e cheio de febre, acorreu a Smolensk com vinte mil homens para defender a cidade contra o exrcito de Napoleo. Em Smolensk, num grande acesso febril, passa pelo sono na Porta de Malakov. O tiroteio desperta-o e a cidade aguenta-se todo o dia, Em Borodino, depois que Bagration foi morto e os Russos perderam, na sua ala esquerda, um por cada nove soldados, e quando toda a artilharia francesa despejava metralha sobre eles.  ainda este indeciso e imprevidente Dokturov quem vai substituir um general mal escolhido numa infeliz deciso de Kutuzov. E apresenta-se este mido, este modestssimo Dokturov, e Borodino transforma-se numa das mais brilhantes glrias russas. No entanto, embora sejam muitos os heris celebrados em prosa e verso, de Dokturov ningum fala.
      Foi ainda Dokturov o general enviado a Fominskoie e da a Malii Iaroslavets, local em que se travou a ltima verdadeira batalha contra os Franceses, e onde, de facto, verdadeiramente, principiou a derrocada dos exrcitos napolenicos. E, embora sejam muitos os gnios e os heris glorificados desta campanha, de Dokturov ou no se fala ou apenas se lhe dedicam algumas palavras de elogio equvoco. O silncio  volta deste homem  a mais evidente prova dos seus mritos.
       natural que um homem que no conhece o funcionamento de uma mquina atribua grande importncia ao cisco que por acaso se introduziu nas suas engrenagens e a no deixa funcionar. Sem conhecer a sua construo, esse homem no pode compreender que o rgo essencial da mquina  a pequena roda que gira sem rudo.
      No dia 10 de Outubro, dia em que Dokturov, tendo percorrido metade do caminho para atingir Fominskoie, se deteve na povoao de Aristovo, onde se dispunha a executar com toda a exactido a ordem recebida, o exrcito francs, que, impelido por um movimento compulsivo, chegara at junto da posio ocupada por Murat para a travar batalha, segundo parece, imediatamente e sem motivo algum virou para a esquerda, pela estrada nova de, Kaluga, e penetrou em Fominskoie, onde at essa data s se encontrava Broussier. Naquele momento. Dokturov apenas tinha sob o seu comando o destacamento de Dolokov e dois outros, menos importantes, o de Figner e o de Sesslavine.
      Na noite de 11 de Outubro, Sesslavine chegou a Aristovo e apresentou-se na sede do comando com um soldado francs da Guarda que acabava de ser feito prisioneiro. Este disse que as tropas que nesse mesmo dia tinham entrado em Fominskoie constituam a guarda-avanada de todo o exrcito, que Napoleo se encontrava junto delas e que havia quatro dias que tinham deixado Moscovo. Nessa mesma noite, um criado-servo que chegava de Borovska, contou que vira um importante corpo de exrcito penetrar na cidade. Cossacos do destacamento de Dolokov confirmaram que a guarda francesa marchava pela estrada de Borovska. De harmonia com todas estas informaes, tornou-se evidente que naquele ponto, onde esperavam encontrar apenas uma diviso, se achava todo o exrcito francs, que deixara Moscovo, e o qual seguia direco imprevista, a velha estrada de Kaluga. Dokturov, hesitante, no sabia que deciso tomar, pois no via agora com clareza o que tinha a fazer. Recebera ordem para atacar Fominskoie. Mas a, onde anteriormente apenas se encontrava Broussier, estava agora todo o exrcito francs. Ermolov teria desejado agir a seu talante, mas Dokturov insistiu na necessidade de se recorrer  deciso do Serenssimo. E foi resolvido enviar-se um relatrio ao estado-maior.
      Para essa misso escolheu-se Bolkovitinov, um oficial inteligente, o qual, alm do relatrio escrito, devia prestar completas explicaes orais, A meia-noite, Bolkovitinov, depois de ter recebido o relatrio e as respectivas ordens verbais, partiu a galope ao encontro do estado-maior, seguido de um cossaco e de cavalos de muda.
      

      
      
      
      Captulo XVI
      
      A noite de Outono estava escura e quente. H trs dias que chovia, Depois de mudar duas vezes de cavalos e de ter percorrido trinta verstas em hora e meia, por uma estrada lamacenta e escorregadia, Bolkovitinov chegou a Letachovka s duas da madrugada. Apeando-se diante de uma isb em cuja porta havia um letreiro com a inscrio Estado- Maior, penetrou no vestbulo escuro.
      -  urgente, o general de servio! Extremamente urgente! - disse ele a um homem que se perfilou, sobressaltado, no meio das trevas.
      - Est muito doente desde ontem, ha duas noites que no dorme - deu-se pressa em responder um impedido baixando a voz. -  melhor acordar primeiro o capito.
      -  muito importante. Da parte do general Dokturov - insistiu Bolkovitinov, entrando, s apalpadelas - pela porta dentro.
      O impedido adiantou-se-lhe e fez meno de acordar algum que estava a dormir.
      - Excelncia, Excelncia, um correio.
      - Hem? Qu? Da parte de quem? - inquiriu uma voz ensonada.
      - Da parte de Dokturov, Alexis Petrovitch. Napoleo est em Fominskoie -- disse Bolkovitinov, que, na obscuridade, no conseguia ver a pessoa que falara, reconhecendo, no entanto, pela voz, que no era Konovnitsine.
      O homem ps-se a bocejar e a espreguiar-se.
      - No estou com vontade de o acordar - disse ele, tacteando nas trevas. - Est muito doente e naturalmente isso so boatos.
      - Aqui tem o relatrio - volveu Bolkovitinov - Tenho ordem de o entregar imediatamente ao general de servio.
      - Espere, vou acender a luz. Onde a meteste, malvado? - disse para o impedido o militar que acordara e, era Chtcherbinine, o ajudante-de-campo de Konovnitsine. - Ah! Aqui est ela, aqui est ela.
      O impedido riscou a pederneira enquanto o oficial procurava vela tacteando no escuro.
      - Ah, malandros! - exclamou, arreliado.
      A claridade das chispas, Bolkovitinov reconheceu a cara moa de Chtcherbinine, que tinha uma vela na mo, e a um canto, na sua frente, viu algum que dormia. Era Konovnitsine.
      Quando a chama da isca, primeiro azul, se tornou vermelha, Chtcherbinine acendeu a vela de sebo. As baratas que a devoravam fugiram e ele ps-se a examinar o mensageiro. Bolkovitinov, coberto de lama, ao tentar enxugar-se com a manga da farda, mascarrou a cara.
      - E quem prestou estas informaes? - perguntou Chtcherbinine, pegando no sobrescrito.
      - As informaes so de confiana - replicou o correio. Prisioneiros, cossacos, espies, so unnimes a dizer o mesmo.
      - No h outro remdio, tenho de o acordar - murmurou Chtcherbinine, erguendo-se e aproximando-se do homem que ressonava com a cabea metida num barrete de dormir e o capote por cima. - Piotre Petrovitch! - chamou ele, Konovnitsine no se mexeu. - Ao estado-maior! - acrescentou, sorrindo, certo de que estas palavras chegariam para o acordar.
      Com efeito, a cabea com o barrete de dormir soergueu-se imediatamente. O belo e enrgico rosto de Konovnitsine, afogueado pela febre, permaneceu ainda por momentos numa espcie de entressonho, muito longe, por certo, da realidade. Depois teve um sobressalto e recuperou a sua expresso habitual cheia de serenidade e firmeza.
      - De que se tratai? Da parte de quem? - perguntou imediatamente, mas sem grandes pressas, piscando os olhos em frente da luz da vela.
      Enquanto ouvia o relatrio oral do emissrio abriu o sobrescrito e percorrer a mensagem com os olhos. Assim que terminou a leitura, pousou no sobrado os ps, onde enfiara meias de l, e ps-se a calar as botas, Em seguida tirou o barrete de dormir, alisou o cabelo nas fontes e ps a barretina.
      - Vieste depressa! Vamos ao Serenssinio.
      Konovnitsine compreendera imediatamente a extrema importncia das notcias trazidas pelo correio e, que no havia tempo a perder. No sabia nem se perguntava a si mesmo se as notcias eram boas ou mas. No pensava nisso nem estava disposto a interrogar-se sobre o assunto. No o interessava. A guerra, para ele, no era nem questo de inteligncia nem de raciocnio. Era qualquer coisa de muito diferente. Tinha a convico profunda, e nunca expressa de que, evidentemente, tudo acabaria bem, mas que era preciso no acreditar em tal e muito menos no manifestar essa opinio. Havia apenas que cumprir a tarefa. E essa tarefa cumpria-a ele consagrando-lhe roda a sua energia.
      Piotre Petrovitch Konovinitsine, assim como Dokturov, parece no terem sido includos na lista dos heris de 1812 - os Barclay, os Raievski, os Ermolov, os Platov e os Miloradovitch - apenas por uma questo de pura formalidade. Tal como a de Dokturov, a sua reputao era a de um homem de min escassas capacidades, conhecimentos e, assim como o seu mulo, tambm ele nunca gizara planos de campanha, embora sempre viesse a encontrar-se nos pontos em que a situao era mais grave. Desde que fora nomeado general de servio que dormia de porta aberta e dava ordens para que o chamassem  chegada de qualquer correio, Era sempre o primeiro na linha de fogo Kutuzov repreendia-o por tanto se expor, e hesitava mesmo em dar-lhe ordens. Eis porque, como Dokturov, era uma dessas engrenagens invisveis que sem fazer qualquer rudo constituem um dos rgos essenciais de qualquer mquina.
      Ao ver-se exposto  humidade da escura noite, assim que saiu da isb, Konovnitsine sentiu-se mal, eram muito fortes as suas dores de cabea e a barafunda que aquelas notcias iam causar na esfera das gradas engrenagens do estado-maior, principalmente em Bennigsen, que desde Tarutino andava a ferro e fogo com Kutuzov, impressionava- o. Que propostas surgiriam? E as discusses que ia haver! As mudanas! Era penosa a impresso que lhe causava pensar nisso, tanto mais quanto considerava inevitvel o que ia acontecer.
      E, com efeito, Toll, a cujos aposentos se dirigiu para dar-lhe parte do ocorrido, ps-se imediatamente a expor as suas ideias ao general seu companheiro de casa, e Konovnitsine, que o ouvia sem dizer palavra, com um ar cansado, viu-se obrigado a lembrar-lhe a convenincia de apresentarem o caso ao Serenssimo.
      

      
      
      
      Captulo XVII
      
      Kutuzov, como todos os velhos, pouco dormia de noite. De dia acontecia-lhe muitas vezes cabecear com sono; de noite estendia-se na cama sem se despir, e geralmente pensava, no dormia.
      Era o que sucedia naquele momento. Estava estendido na cama, com a grande e pesada mscara, toda sulcada de cicatrizes, absorta em pensamentos e o nico olho muito aberto na escurido.
      Desde que Bennigsen, que mantinha correspondncia directa com o imperador e era preponderante no estado-maior, evitava Kutuzov, este sentia-se mais tranquilo, pois ningum apertava com ele para lanar as tropas em aventurosas ofensivas.
      A lio de Tarutino e do que se passara na vspera da batalha, lembrana que ainda o impressionava desagradavelmente, devia t-los feito reflectir.
      Devem compreender que s temos a perder tomando a iniciativa de atacar, pensava, A pacincia e o tempo, eis os meus dois grandes heris! Estava certo de que se no devia arrancar a ma da rvore enquanto ela estivesse verde. Quando amadurecer cair por si; apanhar a ma verde  estragar a fruta e a rvore. E a nica coisa que podemos ganhar  os dentes botos. Caador experimentado que era, estava seguro de que a fera fora atingida e ferida, sem dvida, depois de sentir o peso do poderio russo. Se a ferida era mortal ou no, isso ainda o no sabia. Naquele momento, depois das diligncias de Lauriston e de Berthier e das informaes colhidas pelos guerrilheiros, estava quase certo de que seria mortal. Mas era preciso obter provas irrefutveis esperar ainda,
      Esto sempre com vontade de ir ver se mataram a presa. Esperem, tero tempo de ver mais tarde, dizia ele de si para consigo. Manobras e mais manobras, ataques e mais ataques. Para qu? Para se distinguirem! Como se fosse coisa muito agradvel travar uma batalha! Parecem crianas. No so capazes de contar como as coisas se passaram. O que eles querem  mostrar que se bateram bem. Mas no  disso que se trata neste momento.
      E que manobras so essas que eles me esto sempre a propor? L porque imaginaram dois ou trs casos, acrescentou, pensando no general que lhe mandaram de Petersburgo, julgara ter previsto todos os que podem surgir. As contingncias so infinitas!
      Havia j um ms que Kutuzov perguntava a si mesmo ansiosamente se o ferimento de Borodino seria ou no mortal.  certo que os Franceses estavam na posse de Moscovo. Mas, por outro lado, sentia, com todas as fibras da sua alma, que o golpe terrvel que lhe vibrara com todas as tropas russas tinha de ser mortal. Em todo o caso precisava de provas e havia um ms que as esperava. E quanto mais o tempo ia passando mais impaciente parecia.
      Estendido na cama durante as longas insnias, fazia exacta- mente o mesmo que todos os seus jovens generais, aquilo mesmo por que os repreendia, Tal como eles, imaginava todos os casos possveis. S com uma diferena: que nada edificava sobre tais hipteses e que no formulava apenas duas ou trs, mas milhares. Quanto mais pensava maior era o nmero de circunstncias que via. Representava-se a si mesmo toda a espcie de movimentos do grosso do exrcito napolenico, em direco a Petersburgo ou apenas de uma das suas partes, avanando sobre ele, graas a um envolvimento, E pensava, e era o que mais temia, na hiptese de Napoleo empregar para com ele as mesmas armas de que ele prprio se utilizava: no caso de ele ficar em Moscovo aguardando-o. Admitia mesmo que os Franceses fizessem um movimento de recuo sobre Medine e Iuknev, E, no entanto, a nica coisa que no pudera prever fora precisamente o que veio a dar-se, a saber, esse vaivm de Napoleo, insensato, quase convulsivo, durante os onze dias aps a evacuao de Moscovo, vaivm que tornou possvel uma coisa em que Kutuzov no ousava ainda pensar: a destruio completa do exrcito francs. A informao de Dokturov sobre a diviso Broussier, as comunicaes dos guerrilheiros sobre a desorientao que se sentia no exrcito napolenico, o que constara acerca dos pormenores da partida de Moscovo, tudo confirmava a hiptese de que as tropas inimigas estavam perdidas e se dispunham a bater em retirada. No entanto, tudo isto eram suposies, talvez convincentes aos olhos de todos os jovens que o rodeavam, mas no aos seus. Com os seus sessenta anos de experincia, sabia a importncia que devia atribuir-se aos boatos. E tambm sabia que quando se deseja muito qualquer coisa, pode uma pessoa acabar por preparar as notcias de sorte a que elas confirmem o que se deseja, tendo o cuidado de guardar silncio sobre tudo que contradiga o que se pretende. Por isso, quanto mais desejava que fosse essa a soluo, menos se permitia a si prprio acreditar nela. O problema do estado do exrcito francs absorvia todas as suas faculdades intelectuais: o mais, para ele, era acessrio, o trem habitual da vida. Entre as suas ocupaes quotidianas figuravam as conversas com o estado-maior, a correspondncia com Madame de Stal, que punha em dia desde Tarutino, a leitura de romances, a distribuio de recompensas, as cartas que enviava para Petersburgo e outras coisas semelhantes, Porm, o seu nico e mais ardente desejo era a derrota dos Franceses, derrota que ele, alis, e s ele, previa.
      Na noite de 11 de Outubro Kutuzov ali estava, pois, com a cabea entre as mos, absorto em seus pensamentos.
      Um rudo se ouviu tio quarto contguo: era Toll, Konovnitsine e Bolkovitinov que chegavam.
      - Quem est a? Entre, entrem. Que h de novo? - interrogou ele.
      Enquanto o criado acendia uma vela, Toll p-lo ao corrente das notcias acabadas de chegar.
      - Quem as trouxe? - perguntou o generalssimo com tinia expresso to severa e fria que Toll se sentiu impressionado quando lhe pode ver o rosto.
      - Bolkovitivov, Excelncia. No pode haver dvidas.
      - Diga-lhe que entre, que entre!
      Kutuzov, sentado na cairia com uma das pernas pendentes, deixava descair a volumosa barriga sobre a outra perna encolhida. Piscando o nico olho para melhor ver o emissrio, procurava ler-lhe no rosto o que absorvia.
      - Conta, vamos, conta meu amigo. - disse ele a Bolkovitinov, na sua tranquila voz de ancio, apertando contra o peito a camisa entreaberta. - Vem c, aproxima-te. Que notcias me, trazes tu? Hem! Napoleo abandonou Moscovo?  verdade? Hem?
      Bolkovitinov ps-se primeiro a expor-lhe em pormenor as instrues orais que recebera.
      - Fala, fala depressa, no me atormentes - interrompeu- o Kutuzov.
      O emissrio, ao acabar a sua comunicao, calou-se, aguardando ordens. Toll tentou dizer fosse o que fosse, mas o general-chefe interrompeu-o com um gesto. Quis pronunciar qualquer coisa, mas o rosto contraiu-se-lhe de sbito; virou-se para o outro lado, para o recanto da isb onde estavam os cones.
      - Senhor, criador nosso! Ouviste a nossa orao... - exclamou em voz trmula, juntando as mos.- A Rssia est salva! Obrigado, meu Deus! - E rompeu a chorar.
      

      
      
      
      Captulo XVIII
      
      A partir daquele momento e at ao fim da campanha, Kutuzov no teve outro objectivo seno o de impedir pela autoridade, pela astcia ou pela splica que as suas tropas se metessem em ofensivas ou executassem manobras que conduzissem a recontros estreis com o inimigo, cuja perda desde esse momento era certa.  verdade que Dokturov se dirige para Maloiaroslavets, mas Kutuzov no se d pressa em fazer que todas as tropas o sigam e ordena a evacuao de Kaluga, retirada que lhe parece perfeitamente possvel.
      Kutuzov recua por toda a parte, mas o inimigo, sem esperar que ele recue, foge em direco oposta.
      Os historiadores de Napoleo descrevem todas estas hbeis manobras em direco a Tarutino e Maloiaroslavets e fazem prognsticos sobre o que teria acontecido se o imperador tivesse podido penetrar nas ricas provncias do Sul.
      Mas a verdade  que, alm de ningum o impedir de penetrar nessas provncias, uma vez que o exrcito russo lhe abria o caminho para elas, esses historiadores esquecem-se de que nada podia j ento salvar o exrcito napolenico, visto ele transportar consigo inevitveis germes de morte. Esse exrcito, que encontrara em Moscovo abundantes abastecimentos, e que, em vez de os conservar, os desperdiara por completo, esse exrcito, que ao chegar a Smolensk, em lugar de repartir os mantimentos entre os seus homens, deixara que os pilhassem, estaria esse exrcito em condies de recuperar foras na provncia de Kaluga, cujos habitantes sentiam e pensavam como os de Moscovo e tinham, como eles, o fogo  sua disposio?
      Tal exrcito iro tinha maneira de se refazer fosse onde, fosse. Depois de Borodino e do saque de Moscovo, havia nele elementos de decomposio por assim dizer qumicos,
      Os soldados deste, por assim dizer, ex-exrcito fugiam com os seus comandantes sem saber para onde, no desejando - tanto Napoleo como qualquer dos seus soldados - seno uma coisa: sair, pessoalmente, o mais breve possvel, daquela situao sem apelo, de que todos se davam conta, embora confusamente.
      Eis porque, em Maloiaroslavets, onde os generais, simulando um conselho de guerra, emitiram vrios pareceres, o ultimo, o do cndido soldado que era Mouton, exprimindo o que estava no pensamento de todos, que o que havia a fazer era abalarem o mais depressa possvel, tapou a boca a toda a gente e ningum, nem o prprio Napoleo, ousou objectar fosse o que fosse a essa indiscutvel verdade.
      No entanto, por mais que reconhecessem que era preciso partir, tinham vergonha ainda de confessar a necessidade da fuga. Era preciso um impulso exterior para vencer essa relutncia humana. E esse impulso veio a produzir-se no momento necessrio. Foi o que os Franceses chamaram o hurra do imperador.
      No dia seguinte, aps este conselho de guerra, Napoleo, de madrugada, com o pretexto de inspeccionar as tropas e o campo das batalhas passadas e futuras, aventurou-se com a sua escolta at s primeiras linhas. Alguns cossacos que andavam na pilhagem surpreenderam o imperador e por pouco no lhe deitaram a mo. Se desta vez o no apanharam, salvou-o, precisamente, o que fora a causa da derrota dos Franceses: o saque, que naquele caso, como antes, em Tarutino, levou os cossacos a no pensarem noutra coisa. Sem repararem em Napoleo, entregaram-se  pilhagem, e assim o imperador pode escapar-se-lhe das mos.
      Desde que os rapazes do Dom tinham a possibilidade de o apanhar no meio do seu prprio exrcito, era evidente no haver outra coisa a fazer seno fugir o mais depressa possvel pela estrada mais curta. Napoleo, com os seus quarenta anos e a sua barriguinha, j se no sentia com a elasticidade e a audcia de outrora, e compreendeu a advertncia. O medo que os cossacos lhe provocaram levou-o a aceitar imediatamente o parecer de Mouton. E deu ordem de retirar, assim o dizem os seus historiadores, pela estrada de Smolensk.
      O facto de Bonaparte se ter mostrado de acordo com Moutou e a circunstncia de o seu exrcito ter batido em retirada no provam de maneira alguma que a deciso haja partido dele, mas apenas que as foras ocultas, agindo sobre os seus homens, e impelindo-os a tomar a estrada de Mojaisk, tambm agiam sobre Napoleo.
      

      
      
      
      Captulo XIX
      
      Quando um homem se move, o seu movimento tem sempre uma finalidade. Para percorrer mil verstas  preciso, necessariamente, que o homem se figure que ao cabo dessas mil verstas h qualquer coisa de muito agradvel  sua espera. Para se resolver a marchar tem de apetecer a terra prometida.
      A terra prometida, para os Franceses, no momento em que invadiam a Rssia era Moscovo; na altura da retirada a terra prometida era a ptria. Mas a ptria estava muito longe, e o homem com mil verstas a percorrer tem, necessariamente, de principiar por se dizer a si prprio que far hoje quarenta verstas, ao cabo das quais poder descansar, dormir e olvidar o termo da jornada. O primeiro descanso f-lo esquecer a meta a atingir e todos os seus desejos e todas as suas esperanas a se concentram. E o que se verifica com o indivduo isolado em mais alto grau se observa quando se trata da multido.
      Para os Franceses em retirada pela antiga estrada de Smolensk, a ptria estava ainda muito longe e por isso o termo mais prximo a que aspiravam todas as suas energias, mais ardentes ainda por se tratar de um exrcito inteiro, era Smolensk. No que eles soubessem existir nessa cidade grandes reservas de mantimentos ou esperassem a encontrar tropas francesas - ningum lhes dissera uma coisa dessas, e no s os oficiais superiores como o prprio Napoleo sabiam perfeitamente serem escassos o mantimentos a existentes. No entanto, essa perspectiva dava-lhes coragem para caminhar e para suportar as privaes bem reais. E tanto os que sabiam como os que no sabiam, atrados elo engodo, se precipitaram em, direco a Smolensk como se caminhassem para uma terra da promisso.
      Assim que atingiram a estrada real, os Franceses, com uma energia extraordinria, uma rapidez incrvel, deram-se pressa de alcanar o fim almejado. Alm das razes j apontadas, nova causa os compelia para diante em massa compacta: o seu grande nmero. Esta enorme massa, graas  prpria lei da atraco, dos corpos, chamava a si os tomos individuais. Avanava num bloco de cem mil homens como se fosse um Estado inteiro em marcha.
      Cada um de per si apenas desejava uma coisa: cair prisioneiro. Era a maneira de se livrar de todos aqueles horrores e de todo aquele sofrimento. Em primeiro lugar, no entanto, a fora que os compelia para Smolensk arrastava-os a todos numa nica e mesma direco. E mais: no podia um corpo de exrcito inteiro entregar-se a uma simples companhia e conquanto os soldados aproveitassem todas as oportunidades para se separarem uns dos outros e se servissem do mais pequeno pretexto para se entregarem, as ocasies eram raras. A circunstncia de serem muitos e a rapidez da marcha que levavam tiravam-lhes a possibilidade de o conseguirem e tornava-se difcil, e por assim dizer impossvel para os Russos, deter um movimento em que punham toda a sua energia. O desgarramento interior deste corpo no podia acelerar alm de uma certa medida o processo de decomposio que o ameaava.
       impossvel derreter instantaneamente uma bola de neve. Tem de decorrer um certo lapso de tempo antes que o calor o consiga, por maior que seja. Pelo contrrio, quanto maior  o calor mais a neve endurece.
      Eis o que nenhum dos chefes russos compreendera,  excepo de Kutuzov. Desde que se teve a certeza de qual a direco que tomara o exrcito francs em fuga pela estrada de Smolensk, principiou a realizar-se o que Konovnitsine previra na noite de 11 de Outubro. Os altos postos no pensaram noutra coisa seno em distinguir-se, cortando a retirada aos Franceses, cercando-os, fazendo-os prisioneiros, aniquilando-os: todos,  compita, exigiam lima ofensiva.
      Kutuzov era o nico a empregar todas as suas foras - e as foras do comandante-chefe so por vezes escassas em casos destes - para se opor aos desgnios dos altos postos.
      No lhe era possvel argumentar com eles como agora pode argumentar-se. Para qu uma batalha? Para qu cortar-lhes as estradas, perder homens, chacinar desumanamente tantos desgraados? Para qu tudo isto, quando  certo que entre Moscovo e Viazma a tera parte deste exrcito se derreteu sem uma nica batalha em forma? Na sua sageza de velho apenas lhes dizia o que lhes era possvel, a eles, compreenderem, falando-lhes na ponte de ouro (Kutuzov dissera para o ingls que acompanhava as operaes como representante dos Aliados que preferia construir uma ponte de ouro par),; Franceses passarem que sacrificar os seus homens. (N. dos T.). E eles zombavam do velho, caluniavam-no, mostrando a sua bravura no lombo da fera morta.
      Em Viazma, Ermolov, Miloradovitch. Platov, ao verem-se perto dos Franceses, no puderam refrear os seus mpetos e aniquilaram dois corpos de exrcito inimigos. Para informarem Kutuzov da sua inteno enviaram ao Serenssimo, dentro de um sobrescrito.  guisa de relatrio, uma folha de papel em branco.
      E, apesar dos esforos do general-chefe para os reter, os soldados russos atacaram no intuito de tolher o passo aos Franceses. Segundo se disse, regimentos de infantaria marcharam para a linha de fogo com bandas e tambores  frente, perdendo e matando milhares de homens. Mas quanto a tolherem-lhes o passo, no tolheram coisa alguma nem aniquilaram ningum. E o exrcito francs, mais coeso graas ao perigo, prosseguiu na sua caminhada fatal em direco a Smolensk, esgotando-se pouco a pouco.







TERCEIRA PARTE
      

      
      
      
      Captulo 1
      
      A batalha de Borodino, a ocupao de Moscovo, que se lhe seguiu, e a retirada dos Franceses sem novos combates constituem acontecimentos histricos instrutivos.
      Todos os historiadores esto de acordo em afirmar que a actividade externa dos povos e dos imprios se traduz nas suas colises mtuas representadas pelas guerras e que a fora poltica dos pases aumenta ou diminui na razo directa dos xitos militares maiores ou menores.
      So sem dvida estranhas as descries dos historiadores em que se relata que tal ou qual rei ou imperador, em conflito com tal ou qual outro rei ou imperador, convocou o seu exrcito, se bateu contra o exrcito inimigo, saiu vitorioso, causou a morte de trs, cinco, dez mil homens, em virtude do que conquistou determinado Estado e um povo inteiro composto de muitos milhes de habitantes. Que a derrota de um exrcito, apenas a centsima parte das foras de um povo inteiro, leve  submisso desse povo, eis o que no pode deixar de ser incompreensvel. No entanto, estes factos, na medida em que chegam ao nosso conhecimento, confirmam a justeza do que se diz acerca das vitrias militares, causa essencial da grandeza dos povos. Ganha um exrcito uma batalha e imediatamente os direitos do vencedor prosperam em detrimento dos do vencido.  uma derrota que o atinge, e logo o povo perde os seus direitos na proporo do desastre sofrido, e se porventura o seu exrcito  esmagado no tem mais que submeter-se por completo.
      Assim tem sucedido, diz a Histria, desde os tempos mais recuados at aos nossos dias. Todas as guerras de Napoleo confirmam afinal esta regra. A medida que os exrcitos austracos so derrotados, a ustria perde certos dos seus direitos, enquanto os da Frana aumentam, crescendo o seu poderio proporcionalmente. As vitrias de Iena e de Auerstedt representam o fim da, independncia da Prssia.
      No entanto, em 1812, os Franceses obtm a vitria em Moscovo, ocupam a cidade, e o certo  que, sem novas batalhas, no  a Rssia que deixa de existir, mas, em primeiro lugar, esse imenso exrcito de seiscentos mil homens e depois a prpria Frana de Napoleo. Tentar pr de acordo os factos com as leis histricas, afirmar que o campo de batalha de Borodino ficou nas mos dos Russos, que depois de Moscovo se travaram combates que aniquilaram o exrcito napolenico, eis o que  impossvel,
      Aps a vitria dos Franceses em Borodino, no tornou a haver mais nenhuma batalha geral, nem sequer houve qualquer recontro importante, e, no entanto, o exrcito francs foi destrudo. Que significa isto? Se se tratasse de um acontecimento da histria da China, ainda poderamos sustentar que se no tratava de um fenmeno histrico, recurso habitual dos historiadores quando alguma coisa no joga perfeitamente com as suas teorias. E ainda se se no tratasse seno de um conflito bastante episdico, em que apenas tivesse tomado parte nmero restrito de tropas, isso ainda nos habilitaria a, sustentar que estvamos perante uma excepo. Mas o acontecimento deu-se quando os nossos pais eram vivos e se debatia a questo de vida ou de morte da sua ptria, e essa guerra foi a maior de todas as guerras conhecidas.
      O perodo da campanha de 1812 que vai de Borodino  expulso dos Franceses no s demonstrou que uma batalha vitoriosa no  s por si razo suficiente da conquista de um pas, mas nem sequer disso  mesmo sintoma. Provou, pelo contrrio, que a fora que decide do destino dos povos nem est nos conquistadores, nem nos seus exrcitos, nem mesmo nas batalhas que eles travam. Est em qualquer outra coisa.
      Os historiadores franceses, ao referirem-se  situao do exrcito napolenico antes da sua retirada de Moscovo, afirmam que a ordem reinava em todos os corpos excepto na cavalaria, na artilharia e no trem hipomvel, acrescentando existir falta de forragens para os cavalos e para o gado, penria irremedivel, uma vez que os camponeses dos arredores preferiam queimar a palha a, entreg-la aos Franceses.
      A vitria no trouxe consigo os resultados habituais, porque os camponeses, os Karp e os Vlas, trataram de saquear Moscovo quando os Franceses abandonaram a capital, no dando provas, em geral, de grande herosmo, e porque muitos outros preferiram queimar a palha a vend-la ao invasor por elevado preo.
      Imaginemos dois homens dispostos a bater-se em duelo  espada de acordo com todas as regras da esgrima. A peleja dura muito tempo. De sbito, um deles, ao sentir-se ferido e ao compreender que se no trata de uma brincadeira, pois  a sua prpria vida que est em risco, joga fora, a espada e, deitando a mo ao primeiro cacete que lhe aparece, pe-se a riscar com ele. Suponhamos porm que esse duelista que com tanta oportunidade empregou o melhor meio e o mais simples para conseguir os seus fins, animado pela tradio cavalheiresca, procura ocultar a verdade e insiste em dizer que venceu o seu rival com todas as regras. Poder-se- fazer uma pequena ideia da confuso que resultaria se ele porventura se pusesse a descrever o seu duelo?
      O esgrimista que exige que o combate decorra de acordo com todas as regras do duelo  o francs; o adversrio que jogou fora a espada e sacou do cacete  o russo:, as pessoas que procuram tudo explicar pelas regras da esgrima so os historiadores que se ocuparam do acontecimento.
      A partir do incndio de Smolensk principiou uma guerra a que se no pode aplicar qualquer das tradies guerreiras conhecidas at ento. O incndio das cidades e das aldeias, a retirada aps as batalhas, o golpe de Borodino e a nova retirada, os acontecimentos de Moscovo, a caa aos merodistas, a captura dos transportes., as guerras dos partidrios, tudo isto estava  margem das regras ordinrias e das tradies blicas.
      Napoleo deu por isso, e desde o momento em que se deteve em Moscovo na atitude correcta imposta pela esgrima e se deu conta de que o adversrio, em vez de brandir uma espada, manejava um cacete, logo se ps a queixar-se a Kutuzov e a Alexandre, alegando que a guerra estava a ser conduzida de maneira contrria a todas as regras, como se em verdade pudesse haver regras para matar criaturas humanas. Mas, apesar das queixas dos Franceses e da vergonha que sentiam certas altas personalidades russas por se verem obrigadas a bater-se com cacetes quando desejavam seguir as regras, colocando-se em posio de em quarta, ou em terceira, e atacando em primeira, etc., o certo  que o cacete da guerra civil nacional se levantou com fora majestosa e devastadora e sem querer saber dos gostos de cada um o das respectivas regras, simples e brutal, mas confiante nos seus golpes, caiu sobre os Franceses e zurziu-lhes as costas at os invasores ficarem completamente aniquilados.
      Ditoso o povo que, ao contrrio dos Franceses em 1813, os quais saudaram segundo os princpios da arte de esgrima, entregando a espada corts, graciosamente, ao magnnimo vencedor, ditoso do povo que, num momento de provao, sem querer saber como se conduziriam os outros em caso semelhante, ergue, fcil e simplesmente, o primeiro cacete que lhe vem s mos e zurze com ele o inimigo at que na alma lhe desponte, em vez da ofensa e da vergonha, o sentimento do desprezo e da compaixo.
      

      
      
      
      Captulo II
      
      Uma das mais impressionantes e fecundas excepes s pretensas leis da guerra  a aco de indivduos isolados contra as massas compactas de tropas. Eis um gnero de operaes que vem a produzir-se sempre nas guerras de carcter nacional. Em lugar de se oporem em massa, os homens dividem-se em pequenos destacamentos, atacam isoladamente e fogem desde que enfrentados por grandes foras, atacando outra vez logo que a oportunidade se oferece. Foi o que fizeram os guerrilheiros em Espanha, assim agiram os montanheses no Cucaso e os Russos em 1812 no procederam de outra maneira.
      A esta forma de combater deu-se o nome de guerra de guerrilhas e ao design-la dessa sorte pensou-se explicar a sua significao. Na verdade, pode considerar-se  margem de todas as regras e at mesmo em oposio aos princpios tcticos mais conhecidos e tidos por infalveis. Segundo esses princpios, aquele que ataca deve concentrar as suas tropas de maneira a que na altura do combate se encontre mais forte que o adversrio.
      A guerra de guerrilhas, sempre bem sucedida, como a histria o demonstra, desmente categoricamente tal princpio.
      A contradio deve-se ao facto de que a arte militar supe que a fora de um exrcito est em relao com o nmero dos seus homens. Segundo ela, quanto mais numeroso  um exrcito mais forte resulta.
      Os batalhes pesados tm sempre razo.
      Ao sustentar esta afirmao, a cincia militar parece-se com a teoria da mecnica afirmando que as foras esto na relao directa das massas e que as foras so iguais entre si consoante as massas so ou no iguais, tambm.
      A fora como quantidade de movimento  o produto da massa pela velocidade.
      Na guerra, a fora das tropas  realmente o produto das massas, mas multiplicado por uma incgnita x.
      A cincia militar, ao encontrar na histria numerosos exemplos em que a massa dos soldados no coincide com a sua fora real, pois pequenos destacamentos vencem por vezes grandes concentraes de tropas, admite confusamente a existncia desse multiplicador desconhecido e procura descobri-lo, quer na construo geomtrica de um plano, quer na superioridade do armamento, quer, mais geralmente, no gnio dos chefes. Mas os resultados obtidos por estes diversos multiplicadores esto longe de poderem explicar os factos histricos.
      Basta, porm, renunciar a atribuir importncia, como em geral acontece, para agrado dos heris, s disposies tomadas pelo alto comando durante uma guerra, para se descobrir, finalmente, essa famosa incgnita.
      Este x  o moral das tropas, isto , o desejo mais ou menos vivo de os homens de que se compe o exrcito se exporem ao perigo, independentemente da questo de saberem se se batem sob as ordens de um gnio ou no, em duas ou trs linhas, ou com cacetes ou espingardas capazes de disparar trinta tiros por minuto. Os que tiverem o desejo mais vivo de se bater sero os que se encontram nas condies mais favorveis para a luta.
      O moral das tropas, eis o multiplicador da massa cujo produto  a fora. Precisar e definir o valor do moral, esse multiplicador desconhecido, eis o que a cincia da guerra tem de fazer.
      A resoluo deste problema apenas se tornar possvel no dia em que deixemos de substituir arbitrariamente a incgnita, pelas condies que manifesta a fora, quer dizer, as disposies tornadas, o armamento, etc., atribuindo-lhes o valor do multiplicador e- reconhecendo essa incgnita, em toda a sua integridade, como um maior ou menor desejo de bater-se e de expor-se ao perigo. S ento, ao exprimir por equaes os factos histricos, e tendo em conta o valor relativo da incgnita, pode esperar-se encontrar esta ltima.
      Dez homens, dez batalhes ou dez divises, combatendo contra quinze homens, quinze batalhes ou quinze divises, vencem-nos, quer dizer, mataram e fizeram prisioneiros todos os seus inimigos, perdendo os vencedores quatro unidades. Por conseguinte, de um lado caram quatro e do outro quinze. Logo, 4  igual a 15, ou seja, 4x = 15y. Assim, pois, x:y = 15:4. Esta equao no d o valor da incgnita, mas a relao entre as duas incgnitas. Ao aplicar o sistema das equaes aos diferentes acontecimentos histricos considerados separadamente - batalhas, campanhas, perodos de guerra - poder-se- obter uma srie de nmeros em que devem existir leis susceptveis de se revelar.
      A regra tctica que prescreve que se deve agir por massas no ataque e em ordem dispersa na retirada confirma, involuntariamente, a verdade segundo a qual o poderio de um exrcito depende do esprito que o anima. Para se levarem os homens para a linha de fogo  preciso muito maior disciplina - e essa disciplina apenas se consegue pelas massas em movimento - do que para escapar aos assaltantes. Mas toda a regra que no tenha em conta a questo do moral das tropas  infalivelmente falsa e est mesmo em absoluta oposio com os factos, ali onde se manifestar uma violenta exaltao ou uma grande depresso no esprito do exrcito, principalmente nas guerras civis de carcter nacional.
      Os Franceses, durante a sua retirada de 1812, quando, segundo a tctica, deveriam defender-se, isoladamente, concentram-se, pelo contrrio, em massa, pois o certo  que, o moral das tropas estava de tal modo quebrantado que a massa era u nica forma de manter a unidade. Os Russos, que, segundo a tctica, deveriam atacar em massa, dispersam-se, pelo contrrio, uma vez que o seu moral era de tal ordem que os homens isolados no precisavam de ordem para combater os Franceses nem de disciplina para se exporem ao perigo e  fadiga.
      

      
      
      
      Captulo III
      
      A guerra de guerrilha, principiou no dia em que os Franceses entraram em Smolensk.
      Muito antes de esta guerra vir a ser reconhecida oficialmente pelo Governo russo, j muitos milhares de homens do exrcito inimigo - desertores, merodistas, forrageadores - haviam sido exterminados pelos cossacos e pelos camponeses e com to poucos escrpulos como se se tratasse de ces danados. Denis Davidov foi o primeiro, com o seu faro patritico, a reconhecer a importncia desta terrvel guerra de cacete, sem quaisquer preocupaes com as regras da arte militar, matava numerosos franceses, e a ele pertence a glria de, ter principiado por regularizar esta nova maneira de combater.
      No dia 24 de Agosto estava organizado o primeiro destacamento de guerrilheiros, e a ele logo se seguiram muitos outros. Quanto mais se prolongava a campanha maior era o nmero destes destacamentos.
      Os guerrilheiros iam destruindo, por partes, o grande exrcito. Varriam as folhas que caam da rvore seca que era o exrcito francs e por vezes chegavam a abanar-lhe o tronco. No ms de Outubro, enquanto os Franceses fugiam em direco a Smolensk, formavam-se centenas destes destacamentos com efectivos e carcter diferentes. Tinham uns a aparncia de tropas regulares, com infantaria, artilharia, estado-maior e fartos abastecimentos: outros apenas eram constitudos por cavalaria e cossacos; havia alguns, pouco importantes, formados por tropas mistas de infantaria e de cavalaria; e outros, enfim, compostos de camponeses e de proprietrios rurais, completamente desconhecidos. S um sacristo,  frente de um grupo de guerrilheiros, conseguiu num ms fazer centenas de prisioneiros, e a mulher de um estaroste, uma tal Vassilissa, dizimou um centenar de franceses.
      Nos ltimos dias de Outubro atingia a guerra de guerrilhas seu apogeu. Passara o perodo inicial durante o qual os guerrilheiros se surpreendiam com a sua prpria audcia, receando a cada momento ver-se cercados pelos Franceses. Quase no desmontavam dos seus cavalos e escondiam-se nas florestas, sempre a espera de serem perseguidos. Agora as guerrilhas estavam organizadas, e todos sabiam claramente o que podiam ou no fazer para atacar o inimigo. S os comandantes de destacamento, que no squito do estado-maior, consoante as ordens recebidas, se mantinham afastados dos Franceses, consideravam impossvel certos empreendimentos. Os comandantes dos pequenos grupos de guerrilheiros, j bastante experimentados e que perseguiam o inimigo de perto, consideravam realizveis coisas em que os demais nem sequer teriam ousado pensar. Quanto aos cossacos e aos camponeses que se infiltravam nas prprias linhas inimigas, esses pensavam que doravante tudo era possvel.
      No dia 22 de Outubro. Denissov, que comandava um destacamento de guerrilheiros, encontrava-se, tanto ele como os seus companheiros, em pleno entusiasmo pela nova guerra. Desde madrugada que andava em campo com os seus homens. Durante o dia inteiro tinham espiado, atravs das grandes florestas que marginavam a estrada, um imenso comboio de material de cavalaria e de prisioneiros russos, o qual, separado do resto do exrcito, se dirigia para Smolensk, fortemente escoltado, como tinham sabido por alguns espies e por prisioneiros evadidos. A passagem deste comboio havia sido assinalada no s a Denissov e a Dolokov, o qual, comandante tambm de um pequeno grupo de guerrilheiros, operava nas mesmas paragens, mas outrossim aos comandantes de fortes destacamentos e aos respectivos estados-maiores.
      Toda a gente estava, pois, avisada e, como dizia Denissov, todos aguavam o dente de antemo. Dois dos comandantes destes destacamentos, um polaco e outro alemo, quase ao mesmo tempo, mandaram pedir a Denissov que se juntasse a eles para atacarem juntos.
      - No, amigo, eu sei o que fao - disse Denissov, depois de ler as duas missivas. E respondeu ao alemo que, apesar do sincero desejo que tinha de obedecer s ordens de um general to brilhante e to ilustre, se via obrigado a privar-se dessa honra, uma vez que se encontrava j sob as ordens do polaco. E com a mesma pena escreveu ao general polaco informando-o de que se encontrava j comprometido com o alemo.
      Se tomou estas disposies foi porque tinha a inteno, sem informar disso o alto comando, de atacar o comboio de acordo com Dolokov e de se apoderar dele com os seus escassos recursos, No dia 22 de Outubro dirigia-se da povoao de Milculino para a de Chamchevo. A esquerda da estrada, entre essas duas aldeias, sucediam-se matas espessas, que por vezes vinham mesmo bordejar o caminho, afastando-se dele, outras vezes, para cima de uma versta. Foi essa floresta que Denissov bateu todo o dia, ora entrando por ela dentro at ao mais espesso da mata, ora surgindo na sua orla, sem nunca perder de vista os movimentos dos Franceses. De manh, no muito longe de Mikulino, num dos pontos em que as rvores chegavam  estrada, os seus cossacos haviam capturado dois carros cobertos carregados de selas de cavalaria e arreios, os quais tinham cado num atoleiro. Desde ento e at  noite observara o inimigo sem o atacar. Era preciso no dar o alarme para que os Franceses se aproximassem tranquilamente de Chamchevo, e ento, reunindo-se a Denissov, que  noitinha devia encontrar-se em certo local da floresta, a uma versta da povoao, para com ele estabelecer contacto, cairiam, dos dois lados ao mesmo tempo, inesperadamente, sobre o comboio e de uma s vez apoderar-se-iam dele, destruindo-o.
      Na retaguarda, a duas verstas de Mikulino, num ponto em que a floresta vinha at  estrada, tinham ficado seis cossacos emboscados para dar o alarme assim que aparecessem novas colunas francesas.
      Para l de Chamchevo, Dolokov devia igualmente explorar a estrada na inteno de saber a que distncia poderiam encontrar-se outras tropas inimigas. Calculavam-se em mil e quinhentos os homens que serviam de escolta ao comboio. Denissov dispunha de duzentos homens: Dolokov pouco mais teria. Mas a superioridade numrica do inimigo no detinha Denissov. A nica coisa que queria saber  que tropas eram essas; e com esse objectivo precisava de prendre langue (Expresso em francs no texto original. (N. dos T.), isto , capturar um prisioneiro. O ataque matutino s carroas cobertas fora to inesperado que os franceses da escolta tinham sido todos mortos e apenas haviam aprisionado vivo um pequeno tambor, o qual, porque seguia na retaguarda, nada pde dizer de preciso acerca da composio da coluna.
      Tentar um segundo ataque afigurava-se perigoso a Denissov, pois no convinha alertar a coluna inteira. Eis porque enviou a Chamchevo um campons chamado Tikon Chtcherbatov, um dos ,seus partidrios, com a misso de capturar pelo menos um dos furriis franceses da vanguarda que se deviam encontrar ali.
      

      
      
      
      Captulo IV
      
      Era um dia de Outono chuvoso e temperado. O cu e o horizonte estavam envoltos na mesma aguada turva. Ora tombava uma espcie de neblina ora, de repente, se punham a cair obliquamente grossas gotas de gua.
      Denissov, envolto numa burka (Capote sem mangas. (N. dos T.) e de gorro de peles na cabea, ensopado at aos ossos, montava um cavalo de raa, magro e de flancos escorridos. Tanto ele como a montada, que abanava a cabea e arrebitava as orelhas, se encolhiam e olhavam desassossegados sob a chuva que os fustigava. O rosto de Denissov, esqulido e picado por uma espessa e curta barba preta, parecia desconfiado e pouco contente.
      A seu lado cavalgava o ajudante, um capito de cossacos, fardado da mesma maneira, montando um corcel do Dom muito bem tratado.
      O terceiro companheiro era o capito de cossacos Lovaiski, que vestia idntico fardamento. Tratava-se de um homem comprido e chato como uma prancha, louro, de tez branca, com uns olhitos claros e um ar de calma segurana que lhe transparecia no s no rosto como em todo o corpo. Embora no fosse fcil dizer em que consistia a particularidade daquele cavaleiro e do seu cavalo, bastava relancear-lhe um olhar para se ver que, se Denissov, encharcado e de m catadura, dava a impresso de algum que monta a cavalo um pouco por acaso, o capito de cossacos, esse, pelo contrrio, parecia  sua vontade, tranquilo como sempre, e que ele e o seu cavalo dir-se-iam uma s pea. A frente cavalgava o guia, um campons, molhado at aos ossos, de cafet cinzento sujo e gorro branco.
      A retaguarda, a certa distancia, montado num cavalo quirguiz magro e franzino, de grandes crinas e cauda farta, a boca ensanguentada pelo freio, trotava um jovem oficial com o capote azul dos Franceses.
      A seu lado cavalgava um hssar que levava na garupa um garoto fardado  francesa, todo esfarrapado e de qupi azul na cabea, Fincado com as mos vermelhas de frio s costas do hssar, para as aquecer batia com as pernas nuas contra os flancos do cavalo enquanto relanceava olhares assustados  sua roda. Era o tamborzito capturado pela manh.
      Atrs deles, alinhados a trs e quatro de fundo, trotavam os hssares pela estreita vereda coberta de folhas da floresta, depois vinham os cossacos, uns envoltos em burkas, outros envergando capotes franceses e outros ainda com as gualdrapas dos cavalos pela cabea. Os ginetes, quer os baios quer os alazes, pareciam pretos tanta a chuva que os ensopava. As crinas encharcadas colavam-se-lhes s cabeas singularmente delgadas, Um vapor espesso irradiava-lhes do corpo. Fardas, selas, arreios, tudo estava ensopado, viscoso, lustroso, como, alis, a terra e as folhas mortas que recobriam o caminho. Os homens, direitos nas selas, mantinham-se imveis para que a gua que lhes escorria pelo corpo pudesse aquecer e para que os no trespassasse a que continuava a cair-lhes em cima. No meio dos cossacos rodavam duas carroas cobertas, tiradas por cavalos franceses, selados  cossaca, que faziam estalar os ramos secos e esparrinhar a gua das poas.
      Ao contornar um lodaal do caminho, o cavalo de Denissov ladeou e o cavaleiro bateu com um joelho numa rvore. Diabos te levem!, gritou ele, furioso. E, rangendo os dentes, fustigou o cavalo com duas ou trs chicotadas que o esparrinharam de lama a ele e aos companheiros. No estava de boa catadura. Sentia-se ensopado e faminto, pois desde manh que nada comia. E depois Dolokov ainda no dera sinal de vida o soldado que fora prendre tangue nunca mais aparecera.
      No se arranja outra oportunidade como esta para assaltarmos um comboio. Atacar sozinho seria muito arriscado e adiar a expedio  o mesmo que dizer que outro destacamento de mais peso nos levar a presa, dizia ele com os seus botes, sempre de olhos fitos no horizonte, na esperana de descobrir o mensageiro esperado que Dolokov lhe enviaria. Ao chegarem a uma clareira, que deixava a descoberto o horizonte  direita, Denissov estacou.
      - Vem l gente - disse.
      O capito olhou para onde Denissov apontava.
      - So dois, um oficial e um cossaco. Mas o tenente-coronel que no. - observou o capito de cossacos, que gostava de empregar palavras pouco usadas entre os seus homens.
      Os referidos cavaleiros, que desciam uma encosta, deixaram de ver-se, para voltarem a aparecer alguns minutos depois. A frente, e chicoteando o cavalo para o manter a galope, vinha um oficial esguedelhado, molhado at aos ossos, com as calas arregaadas at aos joelhos. Atrs dele, de p nos estribos, trotava um cossaco. O oficial, rapazola muito novo, gordalhudo e rubicundo, os olhos muito vivos, alegrssimos, aproximou-se de Denissov e entregou-lhe um sobrescrito todo molhado.
      - Da parte do general - disse ele - Desculpe se vem um pouco molhado...
      Denissov, franzindo as sobrancelhas, pegou no sobrescrito e abriu-o.
      - S me diziam que era perigoso, muito perigoso - ia dizendo o oficial, voltado para o capito de cossacos, enquanto Denissov lia a mensagem. - Por isso o Komarov e eu tratmos de tomar as nossas precaues - acrescentou, apontando o cossaco que o acompanhava. - Cada um traz duas pisto... O que ? - perguntou ao ver o tamborzito. - Um prisioneiro? J se bateram? Posso falar com ele?
      - Hem? Rostov? Ptia! - exclamou subitamente Denissov, que tinha acabado de ler a missiva - Porque no disseste que eras tu? - E Denissov, voltando-se para o oficial, estendeu-lhe mo, muito sorridente: era Ptia Rostov.
      Todo o caminho Ptia estudara a atitude que devia tomar diante de Denissov, a atitude que convinha a um homem feito, a um oficial, sem fazer a mais pequena aluso ao seu antigo conhecimento. Mas assim que Denissov se sorriu para ele, a cara de Ptia iluminou-se, corou de satisfao e esqueceu-se por completo do ai, marcial que estudara para a oportunidade. Ps-se a contar-lhe como passara diante dos Franceses e a satisfao que sentia por cumprir a misso que lhe fora confiada e como j estivera sob o fogo do inimigo em Viazma, onde por sinal se distinguira o hssar que era ele prprio.
      - Pois  verdade, estou contentssimo por te ver - interrompeu Denissov, em cujo rosto reaparecera a expresso preocupada.
      - Mikail Feoklitich - exclamou, virando-se para o capito de cossacos. - C temos outra vez o alemo. Este est adido a ele.
      E explicou que o papel que acabavam de lhe entregar encerrava um novo pedido do general alemo para que Denissov se lhe juntasse no intuito de atacarem o comboio.
      - Se no nos apoderamos dele amanh, deitam-lhe a mo mesmo nas nossas barbas - concluiu.
      Enquanto Denissov falava com o capito, Ptia, desorientado pelo tom frio do oficial e persuadido de que a causa disso eram as suas calas arregaadas, tratou de as puxar para baixo dissimuladamente, procurando assumir uma atitude o mais marcial que podia.
      - Que ordens tem Vossa Excelncia a dar-me? - inquiriu de Denissov, levando a mo  pala da barretina e retomando a postura de um ajudante-de-campo na presena do seu general, a tal atitude que ele estudara de antemo. - Ou deverei continuar aqui ao p de Vossa Excelncia?
      - Ordens?... - repetiu Denissov pensativo. - Podes ficar aqui at amanh?
      - Oh! Com todo o gosto... Posso ficar ao p de si? - inquiriu Ptia.
      - Que ordens te deu o general, no fim de contas? Que voltasses imediatamente? - perguntou Denissov.
      Ptia corou.
      - Nada me disse. Ento? Posso ficar? - interrogou ele. - Bom, fica.
      E, voltando-se para os subordinados, Denissov deu-lhes instrues para a fora se dirigir ao ponto designado na floresta e ai fazer alto. Em seguida mandou o oficial que montava o cavalo quirguiz, desempenhando junto dele funes de ajudante-de-campo, saber onde se encontrava Dolokov e se chegaria pela noite. Entretanto, ele prprio, na companhia do capito de cossacos e de Ptia, pensava dirigir-se para a orla da floresta, nas imediaes de Chamchevo, no intuito de observar a posio dos Franceses, que atacaria no dia segui-te.
      - Vamos, barbaas - ordenou ele para o campons que desempenhava as funes de guia. - Leva-nos a Chamchevo. Denissov, Ptia e o capito, seguidos de alguns cossacos e do hssar encarregado do prisioneiro, tomaram o caminho  esquerda, atravs de uma ravina, na inteno de alcanarem a orla da floresta.
      

      
      
      
      Captulo V
      
      A chuva cessara, caa apenas uma cacimba e os ramos das rvores gotejavam. Denissov, o capito e Ptia seguiam silenciosos o campons, de gorro na cabea e laptis nos ps, que caminhava ligeiro e sem rudo por cima das razes e das folhas molhadas, encaminhando-se para a orla da floresta.
      Ao chegar a um talude, o guia parou e, depois de inspeccionar o stio, dirigiu-se para um renque de rvores bastante afastadas umas das outras. Quando chegou junto de um carvalho, ainda coberto de folhagem, ps-se a chamar com um misterioso aceno de mo.
      Denissov e Ptia aproximaram-se. Dali podiam ver-se os Franceses. Logo adiante da floresta havia um campo de trigo sobre uma colina.  direita, para alm de uma abrupta ravina, descobria-se um povoado e uma casa senhorial com o telhado desmantelado. Na povoao, na casa, ao longo da colina, no jardim, junto do poo e ao p do tanque, em todo o percurso da estrada que da ponte subia para a aldeia, numa distncia de mais de duzentas sagenas, entreviam-se grupos de homens atravs da neblina flutuante. Ouviam-se distintamente os gritos, que soltavam em lngua estrangeira, incitando os animais a transpor a rampa e chamando uns pelos outros,
      - Traz o prisioneiro - disse Denissov, em voz baixa, sem perder de vista os Franceses.
      O cossaco apeou-se, ajudou o garoto a desmontar e conduziu-o junto de Denissov. Este apontou-lhe os Franceses e perguntou-lhe que tropas eram aquelas. O prisioneiro, que enfiara as mos transidas de frio nas algibeiras, ergueu os olhos assustados para o oficial e, embora fosse seu desejo dizer o que sabia, de tal modo se lhe entaramelou a lngua que apenas se limitou a responder afirmativamente s perguntas que lhe faziam. Denissov franziu as sobrancelhas, voltou-lhe as costas e disse para o capito de cossacos quais as suas intenes.
      Ptia, azafamado e curioso, ora fitava o tamborzito, ora Denissov, ora o capito de cossacos, ora ainda os Franceses l adiante, na aldeia, e na estrada alm, para nada perder do espectculo.
      - Quer o Dolokov venha ou no, temos de cair em cima deles, no acham? - exclamou Denissov esfregando as mos e os olhos a brilhar de satisfao.
      - Sim, o stio  bom - confirmou o capito de cossacos.
      - Destacaremos a infantaria pela parte de baixo, pelo lado dos pntanos - prosseguiu Denissov. - Infiltrar-se- at ao jardim. Tu e os cossacos saltam por ali - continuou, apontando para a mata por detrs da povoao - e eu, com os meus hssares, por aqui. E ao primeiro tiro de espingarda...
      - No se pode atravessar o barranco, h ali um lodaal. Os cavalos so capazes de se atolar.  preciso ir um pouco mais pela esquerda.
      Quando assim conversavam em voz baixa, no barranco, para lados do tanque, soou um tiro, viu-se um fumozinho branco, e logo outro tiro, seguido de grande algazarra, jovial, ao que parecia, de todos os franceses que estavam na ladeira. No primeiro momento, Denissov e o capito de cossacos recuaram. To perto estavam do inimigo que supuseram serem eles a causa dos tiros e os gritos. Mas no, No terreno pantanoso, em baixo, patinhava um homem vestido de encarnado. Eis, evidentemente, a causa dos tiros e do clamor.
      - Mas e o nosso Tikon - exclamou o capito.
      - Realmente.  ele!
      - Patife! - vociferou Denissov.
      - Escapar? - murmurou o capito, piscando os olhos.
      O homem, a quem chamaram Tikon correu para o rio, e chafurdando, com a gua a saltar de todos os lados, desapareceu por momentos, para logo em seguida, coberto de lodo negro, emergir da gua, de gatas, afastando-se a correr. Os Franceses, depois de o perseguirem algum tempo, acabaram por desistir
      - No  peco! - comentou o capito.
      - Que grande animal! - voltou Denissov, enfadado com o que via. - Que ter estado ele a fazer ate agora?
      - Quem ? - inquiriu, Ptia.
      -  o nosso espio. Tinha-o mandado saber coisas.
      - Ah!, sim! - acrescentou Ptia, aprovando com um aceno de, cabea, embora no tivesse percebido patavina do que Denissov dissera.
      
      Tikon Chtcherbatii, dos homens mais teis do grupo, era um campons de Pokrovskoie, dos stios de Gjat. Quando no princpio da sua actividade de guerrilheiro. Denissov apareceu naquela terreola, e, consoante o seu costume, falou com o estaroste sobre o que havia acerca dos Franceses, este respondeu-lhe, como alis todos os seus parceiros, cheio de prudncia, dizendo que para falar a verdade no sabia coisa alguma. Mas como Denissov lhe explicasse que pensava atacar os Franceses e lhe perguntasse se no havia, inimigos por aqueles stios, o funcionrio acabou por dizer que vira, realmente, alguns salteadores, mas que em todo o povoado s uma pessoa sabia do assunto, um tal Tikon Chtcherbatii. O oficial mandou chamar Tikon, felicitou-o, e, na presena do estaroste, disse-lhe qualquer coisa a respeito da fidelidade ao czar e  ptria e do dio que todos os seus filhos deviam alimentar pelos Franceses.
      - No fizemos mal algum aos Franceses - disse Tikon, um pouco embaraado com os elogios de Denissov. -  como quem diz, apenas rios divertimos com eles. Matmos a duas dzias de salteadores, mas no lhes fizemos mal algum...
      No dia seguinte, quando Denissov, que j esquecera o tal campons, deixava a aldeia, vieram dizer-lhe que Tikon se juntara ao grupo dos guerrilheiros e pedia licena para se alistar. Denissov consentiu.
      Ao princpio Tikon foi encarregado dos servios mais pesados, de acender o lume, de ir buscar gua, de esfolar os cavalos, mas no tardou a mostrar ser excelentemente dotado para aquele gnero de guerra. A noite despedia para os assaltos e voltava sempre com roupas e armas que pilhara aos Franceses e quando para tal recebia ordens regressava, mesmo, com os seus prisioneiros. Denissov dispensou-o, pois, dos trabalhos pesados, passou a, lev-lo consigo nas suas expedies e colocou-o entre os cossacos.
      Tikon no gostava por a alm de montar a cavalo. Preferia caminhar a p, sem nunca se distanciar muito dos cavaleiros. Andava armado com um mosquete, que trazia consigo mais por graa que por outra coisa, com um chuo e com um machado, de Que se servia como o lobo se serve dos dentes, to capaz de com ele matar pulgas como de quebrar os ossos mais duros. To habilmente rachava ao meio, de um s golpe, uma prancha de madeira como aparava finas rguas ou talhava uma colher pegando no machado pela cabea. Desempenhava no grupo um cargo particular, excepcional. Sempre que havia qualquer coisa a fazer perigosa ou especialmente difcil, como desatolar um carro.  fora de msculos, ou arrancar de um atoleiro, puxando-lhe pela cauda, o cavalo que se atolou ou ainda arrancar-lhe a pele ou infiltrar-se pelo meio dos Franceses, ou percorrer numa s jornada cinquenta verstas, chocarreando, toda a gente apontava Tikon.
      - Que diabo, faz isso com uma, perna s costas, ningum pode com a vida dele! - diziam.
      Certo dia um francs a quem Tikon acabava de deitar a mo alvejou-o  queima-roupa, atingindo-o nas espduas. E este ferimento, que Tikon tratou a sua maneira, com copinhos de aguardente por dentro e por fora, converteu-se em pretexto de interminveis gracejos por todo o destacamento, gracejos a que ele, alis, se prestava de bom grado.
      - Que contas tu de novo, irmo? Chegaram para ti, hem? - diziam, rindo, os cossacos.
      Tikon, de cariz macambzio e mal humorado, ia cobrindo os Franceses de divertidos improprios. O resultado desta aventura foi passar a no trazer to frequentemente como at ai prisioneiros franceses.
      Era o mais til e o mais valente de todos os homens do grupo. Ningum sabia to bem como ele preparar uma emboscada, nem ningum matara ou capturara tantos franceses. E assim se converteu no bobo favorito de todos os hssares e cossacos, aceitando de boa mente a promoo. Nessa mesma noite, efectivamente, tinham-no enviado a Chamchevo colher informaes. Mas ou fosse porque se no contentara em abordar s um francs, ou porque dormira toda a noite, escondido atrs de uns arbustos, ei-lo que, mal desponta o dia, tenta introduzir-se no meio do inimigo. E foi assim que viera a ser descoberto, como Denissov pudera ver do alto do seu observatrio.
      

      
      
      
      Captulo VI
      
      Depois de trocar ainda algumas impresses com o capito de cossacos acerca do projectado ataque do dia seguinte, por que definitivamente se decidira, em virtude da proximidade dos Franceses. Denissov virou de rdea, voltando ao ponto de partida.
      - Bom, amigo, agora vamos tratar de nos enxugarmos - disse para Ptia.
      Quando chegaram  casa do guarda na floresta, parou, inspeccionando os arredores. E viu, ento, avanando do matagal, um homem de longas pernas e grandes braos balouantes. De cafet curto, laptis nos ps e um gorro de Kazan na cabea, trazia uma espingarda em bandoleira e um machado  cinta. Ao ver Denissov tratou de arremessar qualquer coisa para uma moita e, tirando o gorro encharcado, de abas cadas, aproximou-se do chefe. Era Tikon. As suas faces picadas das bexigas e sulcadas de rugas, os olhitos pespontados, resplandeciam de satisfao. Erguendo muito a cabea e como se fizesse o possvel para no rir, parou diante de Denissov.
      - Onde te meteste, homem? - perguntou-lhe este.
      - Eu? Andei  caa aos Franceses - deu-se pressa em dizer Tikon resolutamente na sua rouca voz de baixo, mas cantante.
      - Que estavas tu ali a fazer em pleno dia, animal? Ento, apanhaste algum?...
      - Apanhar, apanhei - respondeu ele.
      - E onde est?
      - Sim, apanhei um logo de princpio; ainda no nascera o dia - prosseguiu Tikon, afastando os ps chatos enfiados nos laptis - e levei-o comigo para a floresta. Mas s ento vi que para nada prestava. E disse com os meus botes: Volto l e apanho outro que me sirva melhor.
      - Ah, patife! Foi por isso - exclamou Denissov para o capito de cossacos. - E porque o no trouxeste, ento?
      - Para que o queria eu? - interrompeu Tikon de m catadura. - Para nada prestava. Como se eu no soubesse do que o meu oficial precisa?
      - Sempre me saste um animal! E ento?...
      - Fui arranjar outro - prosseguiu Tikon. - Arrastei-me at  floresta e deitei-me no cho. - E ei-lo que se atira ao cho de barriga para baixo a explicar o que fizera. - E l vem um. Salto-lhe em cima deste jeito. - E dizendo o que, d um pulo cheio de agilidade. - Vamos, virei-me para ele. toca da para o meu coronel. Ento o homem no se me pe a gritar? E a me caem em cima mais quatro, de baionetas desembainhadas. Mas eu saco do machado e a vai disto. Vamos, desamparem-me a loja!, ameacei-os. - E Tikon ps-se a repetir com o brao o gesto que fizera, assumindo uma expresso terrvel e arqueando o peito.
      - Sim, sim, ns bem vimos do nosso esconderijo como davas s de vila-diogo pelo pntano dentro - disse o capito, cujos olhos cintilavam.
      Ptia a custo reprimia o riso, fazendo-o apenas porque os outros se conservavam muito srios. E ia fitando Denissov, depois o capito e Tikon, sem poder compreender o que tudo aquilo significava.
      - Bom, deixa-te de tolices - disse Denissov, que parecia furioso. - Porque no trouxeste tu o primeiro?
      
      Tikon, coando as costas com uma das mos e a cabea com a outra, ps-se de sbito a rir, um franco riso animal, que lhe descobria a cova de um dente, origem da alcunha por que era conhecido: Chtcherbatii. Denissov sorriu e Ptia prorrompeu numa alegre gargalhada, que Tikon acompanhou.
      -  o que lhe digo, para nada prestava - continuou ele. - Estava muito mal vestido; para que teria servido traz-lo? E que insolente, Excelncia. Eu, um filho de um amaral (Palavra francesa deformada pelo povo russo. Queria dizer general. (N. dos T.), dizia ele, No vou!
      - Animal! - voltou Denissov. - Era interrog-lo...
      - Mas eu interroguei-o - continuou Tikon. - E ele disse-me: No sei coisas por a alm. Sim, os nossos so muitos, mas no valem nada. Basta dar-lhes um grito e eles caem-vos todos no papo.  - E Tikon, enquanto falava, ia fixando o chefe com, o seu olhar alegre e decidido.
      - Bom, estou a ver que tenho de aplicar-te o correctivo se continuas a fazer-te parvo - disse Denissov severamente.
      - - Para que se h-de zangar? - voltou Tikon. - Julga que eu no sei o que so os seus Franceses? Deixe s que escurea um pouco, e eu lhe trarei quantos quiser, trs de uma s vez, se for preciso.
      - Vamos, a caminho - exclamou Denissov, e at chegarem ao posto conservou-se calado e com cara de poucos amigos. Tikon ia atrs e Ptia ouvia os cossacos que riam com ele e o troavam por causa das botas que ele escondera numa moita. Quando se lhe foi o riso que lhe provocaram as palavras de Tikon, Ptia percebeu que este matara o francs e um sentimento de desgosto o pungiu. E depois, pousando os olhos no pobre tambor, o corao apertou-se-lhe, Mas foi obra de um momento, Percebeu que devia conservar a cabea direita, mostrar-se mais marcial, e com um olhar cheio de embfia interrogou o capito de cossacos sobre o empreendimento do dia seguinte, para que o no julgassem indigno da companhia em que estava.
      O oficial que Denissov expedira veio ao seu encontro, no meio do caminho, com a notcia de que Dolokov ia chegar de um momento para o outro e que da sua parte tudo caminhava bem.
      De sbito Denissov recuperou a, sua boa disposio e, chamando Ptia, ps-se a conversar com ele:
      - Vamos, conta-me o que tens feito.
      

      
      
      
      Captulo VII
      
      Ptia, ao sair de Moscovo e depois de se ter separado dos pais, juntara-se ao seu regimento, sendo da a pouco colocado como oficial de ordenana de um general que comandava um importante destacamento. Desde que fora promovido a oficial, e sobretudo desde que ingressara no exrcito activo, tomando parte na batalha de Viazma, estava sempre num estado de esprito alegre e excitado, pois se sentia um homem e no queria perder a ocasio de se comportar como heri. Tudo quanto vira e experimentara no exrcito o encantava, embora tivesse a impresso de que onde ele no estava  que se praticavam os mais belos actos de bravura. Assim vivia no desejo de estar onde no estava.
      No dia 21 de Outubro, quando o general falou em designar algum para delegado junto do destacamento de Denissov, tais foram os pedidos que ele lhe fez que este lhe no pde recusar autorizao de partir. Lembrando-se, porm, da loucura que Ptia cometera em Viazma, pois, em vez de seguir por onde o tinham mandado, se pusera a galopar para as linhas inimigas debaixo do fogo dos Franceses, disparando a pistola, proibiu-o, formal- mente, de tomar parte fosse em que operao fosse sob o comando de Denissov. Eis porque Ptia corara e se sentira embaraado quando Denissov lhe perguntou se podia ficar junto dele. Antes de chegar  orla da floresta, dissera de si para consigo que ia voltar imediatamente, mas assim que viu os Franceses e Tikon e que soube que nessa mesma noite, naturalmente, haveria um ataque, graas a mobilidade de ideias a que os jovens so sujeitos, resolveu que o seu general, a quem at ai respeitara, no valia grande coisa, pois era alemo, e que Denissov, esse, era um heri e que o capito de cossacos tambm e que Tikon ia pelo mesmo caminho, e que seria uma vergonha abandon-los naquela difcil emergncia.
      J era noite quando os trs chegaram  casa do guarda. Na semi-obscuridade lobrigavam-se cavalos selados, cossacos, hssares, que armavam tendas na clareira ou acendiam fogueiras no fundo de um barranco para que os Franceses no vissem fumo. No vestbulo da pequena isb, um cossaco, de mangas arregaadas, trinchava um cordeiro e, na sala viam-se trs oficiais do destacamento de Denissov que preparavam uma mesa servindo-se de uma porta. Para se enxugar, Ptia despiu o uniforme molhado e ps-se imediatamente a ajudar os oficiais a dispor a mesa para a ceia. Passados dez minutos, estava pronta a mesa com a sua toalha e os seus guardanapos. Havia vodka, um frasquito de rum, po branco, sal e cordeiro assado.
      Abancado  mesa na companhia dos oficiais, Ptia partia  mo o cordeiro suculento e oloroso, cuja gordura lhe escorria pelos dedos, expandindo-se numa ternura infantil por toda a gente, certo de que todos sentiam o mesmo por ele.
      - Que acha, Vassili Fedorovitch? - perguntou a Denissov. - Acha que no faz mal que eu aqui fique at amanh? - E, sem esperar resposta, ele prprio respondeu: - Sim, deram-me ordens para me informar, e  o que estou a fazer... Mas s lhes peo uma coisa, que me deixem ir ao ponto principal... No preciso de recompensas... Mas gostaria...
      De dentes cerrados, lanou um olhar cheio de altivez  sua roda, erguendo a cabea e fazendo um gesto ameaador.
      - Sim, onde a batalha for mais acesa - confirmou Denissov, sorrindo.
      - Sim, por favor, dem-me um comando qualquer, por mais insignificante que seja, que eu comande, pelo menos. Sim, que lhes custa? Ah! Quer a minha navalha? - continuou, dirigindo-se a um dos oficiais que se preparava para trinchar a carne. E puxou da navalha. O oficial achou-a muito bonita.
      - Fique com ela, faa favor. Tenho muitas iguais... - disse Ptia corando. - Ah! Santos Padres! Tinha-me esquecido completamente - exclamou, de sbito. - Tenho ali umas passas magnficas, sem grainhas, sabe. Temos um cantineiro novo. Que coisas ptimas ele tem! Comprei-lhe dez libras de passas. Estou habituado as guloseimas. Querem?... - E precipitou-se para o vestbulo,  procura do seu cossaco, voltando da a pouco com uma alcofa com umas cinco libras de passas. - Toca a comer, meus senhores, fazem favor de se servir. No precisaro de uma cafeteira? - continuou, dirigindo-se ao capito de cossacos - Comprei uma de primeira ordem ao meu cantineiro! Tem coisas to bonitas! E  um homem srio. E isso  o mais importante. Vou mandar-vo-lo. Talvez as vossas pederneiras estejam gastas, isso acontece. Tenho algumas comigo. Ali, naquele saco, umas cem. Comprei-as baratssimas. Faam favor, tirem as que quiserem, todas, se for preciso...
      De sbito calou-se, muito enleado, corando, como se se perguntasse se no estaria dizendo muita tolice.
      E relembrou tudo o que se passara horas atrs, procurando inteirar-se se no teria cometido outras tolices, A figura do tamborzito veio-lhe  memria. Ns, aqui, que bem que estamos, mas ele, que ser feito dele? Onde o teriam metido? Ter-lhe-iam dado de comer? No lhe teriam feito mal? Ao lembrar-se, porm, de que mentira a propsito das pederneiras, nada ousou perguntar a respeito dele.
      Se eu lhes perguntasse, seriam capazes de dizer que era um garoto a perguntar por outro garoto!, disse com os seus botes. Mas amanh eu lhes direi se sou um garoto! Que vergonha haveria em perguntar por ele? Ora, tanto faz! E, de sbito, corando muito e olhando bem para os oficiais, como para ver se eles no troariam dele, acrescentou:
      - Do-me licena que eu mande chamar o rapazito prisioneiro? No lhe poderamos dar qualquer coisa a comer?...
      Claro, pobre pequeno - contraveio Denissov, que nada tinha a censurar  ideia do moo oficial. - Chama-o. Chama-se Vincent Bosse. Chama-o.
      - Vou busc-lo - disse Ptia.
      - Muito bem, muito bem, vai, anda. Coitado do pequeno! - repetiu Denissov.
      Ptia j ia a caminho da porta, porm voltou para trs, aproximou-se de novo dos oficiais e chegou-se a Denissov.
      - Consinta que o beije, meu amigo - exclamou. - Ah! Assim, sim, como  bonito da sua parte!
      E, depois de o beijar, saiu correndo.
      - Bosse! Vincent! - gritou no limiar da porta.
      - Quem chama, meu oficial? - respondeu uma voz na obscuridade.
      Ptia explicou que chamava o rapazito que fora feito prisioneiro nesse dia.
      - Ah! Vessionii! - exclamou o cossaco.
      Os cossacos de Vincent j o tinham feito nada menos que Vessionii enquanto os camponeses e os soldados lhe chamavam Vissnia. Em qualquer dos casos, a aluso  Primavera assentava como uma luva, na juventude do tamborzito (Vesna quer dizer a Primavera, vession primaveril. (N. dos T)
      .- Est a aquecer-se l em baixo no acampamento. Eh! Vissnia! Vissnia! Vessionii! - gritavam vozes na obscuridade  mistura com a sua gargalhada. - Ah!, o garoto  manhoso! - exclamou um cossaco ao lado de Ptia. - Ainda agora lhe deram de comer, Aquilo  que era uma fome!
      Ouviram-se passos nas trevas, ps descalos que chapinhavam na lama e o tambor apareceu  porta da isb.
      - Ah!, sois vs! - disse-lhe Ptia. - Quer comer? No tenha medo, ningum lhe faz mal. - E, timidamente, carinhosamente, pousou-lhe a mo no brao. - Entre, entre.
      - Obrigado, senhor - murmurou o garoto, numa voz hesitante e quase infantil, limpando os ps cheios de lama no limiar da porta.
      Ptia tinha vontade de lhe dizer muita coisa, mas no ousava. Ali, estava de p, ao lado dele, no vestbulo, sem saber o que havia de fazer. Por fim, pegou-lhe na mo e apertou-a entre as suas.
      - Entre, entre - repetia, em voz baixa e com todo o carinho. 
      Ah! Que poderei eu fazer por ele?, disse de si para consigo, ao abrir a porta e deixando que ele passasse adiante. Assim que o garoto entrou na sala, Ptia conservou-se afastado dele, pensando que naturalmente lhe no ficaria bem dar-lhe importncia de mais. Limitou-se a apertar, na algibeira, o dinheiro que trazia consigo, pensando se no lhe ficaria mal passar-lho para as mos.
      

      
      
      
      Captulo VIII
      
      Denissov mandou que dessem ao tamborzito vodka e um pedao de cordeiro e que lhe vestissem um cafet russo, para que ele se no confundisse com os demais prisioneiros, no intuito de o conservar no seu destacamento. Mas a ateno de Ptia em breve se desviou do pobre pequeno graas  chegada de Dolokov. Ouvira falar muito da extraordinria bravura deste homem e da sua crueldade para, com os Franceses. Assim que ele entrou, nunca mais Ptia o perdeu de vista, procurando assumir ares importantes, de cabea muito erguida, para no parecer indigno da companhia, O aspecto exterior de Dolokov impressionou o jovem oficial pela sua extrema correco.
      Denissov envergava o tchekmene (Cafet curto. (N. dos T.), usava a barba crescida e trazia ao peito uma imagem de Nicolau, o Taumaturgo. Tanto na sua maneira de falar como nos seus modos, procurava dar a entender que no pertencia ao exrcito regular. Pelo contrrio, Dolokov, que outrora, em Moscovo, dava nas vistas com o seu trajo persa, apresentava-se agora como o mais elegante dos oficiais da Guarda. Escrupulosamente barbeado, vestia a tnica almofadada do seu regimento, com a cruz de S. Jorge na botoeira, e na cabea trazia um gorro pequeno muito simples. Depois de despir o capote todo molhado, sem cumprimentar ningum, aproximou-se de Denissov e imediatamente se ps a falar do ataque. Este explicou-lhe quais as intenes dos grandes destacamentos quanto  captura do comboio, falou-lhe da misso de Ptia e da resposta que dera aos dois generais. Por fim, p-lo ao corrente de tudo quanto sabia acerca do destacamento francs.
      - Est bem, Mas  preciso saber que tropas so estas e de quantos homens dispem - observou Dolokov. -  preciso ir ver. No nos devemos meter nisto sem sabermos ao certo quantos homens temos pela frente, Gosto de fazer as coisas com limpeza. No haver aqui algum, entre os senhores oficiais, que esteja disposto a acompanhar-me ao acampamento inimigo? Tenho um uniforme francs a mais.
      - Eu, eu, eu acompanho-o! - exclamou Ptia,
      - No , preciso - atalhou Denissov -  E, quanto a ti, no te deixarei sair daqui por nada deste mundo.
      - Que histria  esta? - volveu Ptia - Porque no posso eu ir?
      - Porque  intil.
      - Perdo, porque... porque... vou mesmo, e  que vou! Leva-me? - inquiriu, dirigindo-se a Dolokov.
      - E porque no?... - replicou este, distraidamente, pois estava a observar o tambor francs - H muito que tens contigo este garoto? - perguntou a Denissov.
      - Aprisionaram-no hoje, mas nada sabe e resolvi conserv-lo ao p de mim.
      - Ah! E os outros, onde os guardas? - inquiriu Dolokov. 
      - Onde os guardo? Expeo-os contra recibo - volveu Denissov, muito corado. - E posso dizer que nenhuma morte me pesa na conscincia. Pois no ser mais simples evacuar trinta ou trezentos homens para a cidade, com uma boa escolta, a manchar a nossa honra de soldado?
      - Ora a est uma dessas gentilezas que ficariam bem na boca deste condezito de dezasseis anos - volveu Dolokov, com um frio sorriso. - Mas tu h muito que te devias ter deixado disso.
      - Eu nada digo, insisto apenas em ir consigo.
      - Quanto a ns, amigo, j  tempo de pormos de lado todas estas lindas coisas - prosseguiu Dolokov, como se sentisse prazer especial em falar de um assunto que exasperava Denissov. - Vamos a ver porque ficaste com este? Naturalmente porque tiveste perna dele. E depois a gente sabe muitssimo bem o valor que eles do aos tais recibos. Remetes-lhes cem, e ao destino chegam apenas trinta. Ou morrem de fome ou matam-nos pelo caminho. Pois no dar o mesmo resultado deixarmo-nos de fazer prisioneiros?
      O capito de cossacos, que piscava os olhos claros, aprovou com um aceno de cabea.
      - No discuto se o resultado  ou no o mesmo. Seja como for o que no quero  tomar essa responsabilidade. Achas tu que eles morrem da mesma maneira?  possvel, mas no nas minhas mos.
      Dolokov soltou uma gargalhada.
      - Julgas que no tero recebido mais de vinte vezes ordem para me apanharem? E o certo  que se nos apanhassem, a mim ou a ti, apesar de todos os teus sentimentos cavalheirescos, amos acabar igualmente enforcados. - E aps alguns momentos de silncio: - E no ficamos por aqui. Precisamos de falar a srio. O meu cossaco que me traga a minha bagagem. Tenho dois uniformes franceses. Bom!
      - Vens ento comigo, no  verdade? - perguntou a Ptia.
      - Vou, vou, est decidido - exclamou o rapaz, que fitara Denissov, corando muito.
      Durante a discusso dos dois oficiais acerca da maneira de tratar os prisioneiros, Ptia sentira-se embaraado, embora no tivesse percebido muito bem o que eles pensavam, realmente, a respeito desses homens. Se as pessoas de idade e experimentadas pensam assim.  que assim tem de ser, com toda a certeza, dizia ele com os seus botes. Assim  que est certo. Mas  preciso que Denissov se no convena de que eu estou disposto a obedecer-lhe em tudo, que me pode dar ordens. Seja como for, hei-de acompanhar Dolokov ao acampamento francs. Se ele o pode fazer, porque no hei-de eu faz-lo tambm?
      A todas as admoestaes de Denissov, Ptia replicou que tambm ele estava habituado a fazer as coisas como era mister, e no  maluca, e que de resto nunca pensava no perigo.
      - E a verdade, tem de o confessar.  que se no soubermos precisamente quantos soldados eles tm... arriscamo-nos a expor a vida de centenas de homens, e ns, ns somos apenas dois. Enfim, quero tanto ir que vou seja como for. E no procure impedir-me - acrescentou - porque ento ainda seria pior.
      

      
      
      
      Captulo IX
      
      Depois de enfiarem os capotes franceses e de se cobrirem com as barretinas do exrcito napolenico, Ptia e Dolokov dirigiram-se  clareira donde Denissov examinara o acampamento do inimigo, Assim que saram da floresta, protegidos pelas trevas cerradas da noite, desceram at ao fundo do barranco. Ao chegarem a, Dolokov disse aos cossacos que o acompanhavam que esperassem por ele ali, e a trote meteu pela estrada em direco  ponte. Ptia, emocionadssimo, cavalgava a seu lado.
      - Se eles nos atacarem, vivo  que me no apanham. Tenho a minha pistola - disse em voz baixa.
      - No fales russo - ripostou Dolokov em voz baixa tambm. Nesse instante, nas trevas, soou o grito: Qui vive?, ao mesmo tempo que se ouvia o engatilhar de uma espingarda.
      Ptia sentiu que o sangue lhe subia  cara e levou a mo  pistola.
      - Lanceiros do 6 - gritou Dolokov, sem travar a marcha do seu cavalo.
      A negra figura da sentinela destacava-se na ponte. 
      - A senha.
      Dolokov refreou o cavalo e continuou a passo.
      - Diga-me c, o coronel Grard est a? - perguntou.
      - A senha - repetiu a sentinela, sem responder e atravessando-se no caminho.
      - Quando um oficial faz a ronda, as sentinelas no pedem a senha... - exclamou Dolokov fora de si, arrojando o cavalo sobre a sentinela. - Pergunto-te se est c o coronel.
      E sem esperar resposta da sentinela, que se afastara, indiferente, ps-se a subir a ladeira a passo.
      Ao divisar a silhueta de um homem que atravessava a estrada, mandou-o parar para lhe perguntar onde estavam o comandante do regimento e os respectivos oficiais. O soldado, que levava um saco s costas, parou, aproximou-se do cavalo de Dolokov, passou-lhe a mo pelo lombo e contou, com a maior simplicidade e no tom mais amistoso deste mundo, que os oficiais estavam um pouco mais acima, na rampa,  direita, no ptio de uma quinta, que assim designou a casa senhorial.
      Dolokov prosseguiu estrada alm. Dos dois lados, nos acampamentos, ouviam-se conversas em francs. Entrou no ptio da casa senhorial. Junto do porto desmontou, aproximou-se de uma grande fogueira em volta da qual um grupo de homens conversava em voz alta. Numa marmita, sobre as chamas, fumegava o rancho de um soldado, o qual, de qupi e capote azul, todo banhado pela luz da fogueira, remexia a panela com uma vareta de espingarda.
      - Oh!,  duro de roer - dizia um dos oficiais na sombra, do outro lado.
      - Este lhes dar o arroz, cambada - respondeu outro, rindo. Ambos se calaram ao ouvirem, no meio das trevas, os passos de Dolokov e de Ptia, que se aproximavam com os cavalos pela arreata.
      - Bom dia, meus senhores! - saudou Dolokov em voz clara e vibrante.
      Os oficiais agitaram-se no escuro e um deles, um alto, de pescoo esgalgado, deu a volta  fogueira para se aproximar.
      -  voc, Clment? - exclamou ele. - Donde diabo...? - Mas no concluiu a frase, reconhecendo o engano em que cara. Franziu as sobrancelhas e saudou Dolokov como desconhecido, que era, perguntando-lhe que desejava.
      Dolokov contou-lhe que ele e o seu camarada procuravam reunir-se ao seu regimento, e em seguida, dirigindo-se ao grupo, perguntou se eles no saberiam, porventura, onde se encontrava o 6.o de lanceiros. Ningum sabia, e Ptia percebeu que os estavam examinando com hostilidade e desconfiana. Toda a gente se calou por momentos.
      - Se conta com a sopa da noite, chega tarde - disse, junto da fogueira, a voz de algum que continha o riso.
      Dolokov respondeu que j haviam comido e que tinham de prosseguir no seu caminho aquela mesma noite.
      Entregou as rdeas do cavalo ao soldado que mexia o rancho e ps-se de ccoras diante das chamas, ao lado do oficial do pescoo esgalgado. Este, mirando Dolokov com obstinao, perguntou-lhe mais uma vez a que regimento pertencia. Dolokov fingiu no ouvir e ps-se a fumar por um cachimbo curto, francs, que retirara da algibeira enquanto perguntava aos oficiais se as estradas estavam em segurana, pois dizia-se que os cossacos andavam pelos campos.
      - Esses bandidos esto em toda a parte - replicou o oficial que estava perto da fogueira.
      Dolokov sustentou que os cossacos no eram perigosos seno para os retardatrios como ele e o seu companheiro, mas que no seriam capazes de atacar os grandes destacamentos. Ningum respondeu.
       agora que ele se vai embora, dizia Ptia com os seus botes, de p diante da fogueira, escutando a conversa. Dolokov rompeu o silncio para perguntar quantos homens tinham eles no batalha, quantos batalhes havia e quantos eram os prisioneiros. A propsito destes, observou:
      - Que raio de ideia trazer esses cadveres a reboque. Era melhor fuzilar essa canalha. - E ao dizer isto, soltou uma gargalhada to estranha que. Ptia, pensando que os franceses iam descobrir o embuste, deu um passo  retaguarda.
      Ningum respondeu fosse o que fosse  gargalhada de Dolokov, e um dos oficiais na sombra, enrolado no capote estendido no cho, soergueu-se, e murmurou qualquer coisa ao ouvido de, um camarada. Dolokov ergueu-se ento e chamou o soldado que segurava os cavalos.
      Teremos cavalos ou no?, murmurou Ptia de si para consigo, aproximando-se de Dolokov.
      Os cavalos apareceram.
      - Bom dia, meus senhores - disse Dolokov.
      Ptia teria gostado de pronunciar boa noite, mas foi-lhe impossvel articular a palavra. Os oficiais sussurraram qualquer coisa entre si. Dolokov levou tempo a montar, porque o cavalo no havia maneira de estar quieto. Depois saiu a passo pelo porto do ptio. Ptia acompanhava-o, desejoso de se voltar para ver se no eram perseguidos, mas no ousava faz-lo. Ao atingir a estrada, Dolokov, em vez de se meter pelos campos, seguiu ao longo da povoao. A determinada altura parou para escutar. Ests a ouvir?, murmurou. Ptia reconheceu que se falava russo ali, e junto das fogueiras viu as silhuetas negras dos prisioneiros. Depois de terem descido at  ponte, cruzaram a sentinela que continuava de guarda, e nada lhes disse, alcanando em seguida o barranco onde os esperavam os cossacos.
      - Bom, agora adeus. Diz ao Denissov que l o espero de madrugada, ao primeiro tiro - observou Dolokov, afastando-se. Ptia, porm, agarrou-o, por um brao.
      - Ah!  um heri! Ah! Que bem! Magnfico! Muito gosto de si!
      - Bom, bom - replicou Dolokov.
      Ptia, porm, no o largava, e Dolokov viu, no meio das trevas, que o rapaz se debruava para ele, querendo beij-lo. Dolokov beijou-o, rindo, e dando meia volta desapareceu no meio da noite.
      

      
      
      
      Captulo X
      
      No regresso  casa do guarda, Ptia encontrou Denissov no vestbulo. Agitado, inquieto, furioso consigo prprio por t-lo deixado partir, estava  espera dele.
      - Louvado seja Deus! Sim, louvado seja Deus! - repetia enquanto ia ouvindo o relato entusiasta de Ptia. - Diabos te levem, tiraste-me o sono! Graas a Deus, agora vai deitar-te. Ainda podemos dormir um bocado at de madrugada.
      - No, no - discordou Ptia. - No tenho sono. E se adormeo, j sei, no acordo mais. De resto, no costumo dormir antes das batalhas.
      Ptia permaneceu, pois, ainda algum tempo na isb, recordando os pormenores da expedio e pensando no que iria suceder no dia seguinte. Depois, vendo que Denissov adormecera, levantou-se e saiu.
      C fora as trevas eram cerradas. A chuva deixara de cair, mas as folhas das rvores gotejavam. Ali perto via-se o vulto negro das tendas dos cossacos e dos cavalos atados uns aos outros. L para trs desenhava-se o perfil de dois carroes rodeados de cavalos e na ravina as fogueiras apagavam-se. Nem todos os cossacos e hssares estavam a dormir: aqui e ali.  mistura com o rudo das gotas de gua que caam e do mastigar dos cavalos que roam a sua aveia, ouviam-se vozes murmurar.
      Ptia saiu do vestbulo, perscrutou a obscuridade e aproximou-se dos carroes. Estendido sobre um deles um homem ressonava, enquanto  sua volta cavalos selados comiam aveia. Nas trevas reconheceu o seu cavalo, o Karabak, e aproximou-se dele.
      - Eh, Karabak, amanh temos que fazer - disse-lhe, beijando-lhe o focinho.
      - Ainda est acordado? - murmurou o cossaco estendido em cima do carroo.
      - Estou, mas escuta... Chamas-te Likatchov, no ? Acabo de chegar. Fomos visitar os Franceses.
      E Ptia contou ao cossaco, por mido, no s a expedio em que tomara parte, mas porque participara nela e como era prefervel arriscar a vida a deixar que os outros fossem s cegas para o combate.
      - Sim, sim, mas era melhor que dormisse - observou o cossaco.
      - No, estou habituado - replicou ele. - As pederneiras da tua pistola no esto gastas? Se quiseres algumas, tenho aqui. Se precisas, toma l.
      O cossaco ergueu a cabea e espreitou c para fora, para melhor examinar o que se passava.
      - Gosto de fazer as coisas com todo o cuidado - continuou Ptia. - H alguns que no tomam precaues e depois  tarde. No gosto disso.
      - Tem razo - volveu o cossaco.
      - E olha, espera l, rapaz, afia-me o sabre, se queres. Est rombo... - Mas, para no mentir, calou-se. Nunca mandara afiar o sabre. - Posso contar contigo?
      - Claro, porque no?
      Likatchov levantou-se, remexeu no fundo da carroa, e da a pouco Ptia ouvia o rudo bem marcial do ao contra a pedra de afiar. Trepou para cima do carroo e sentou-se. O cossaco continuava a sua tarefa.
      - E os rapazes, esto todos a dormir? - perguntou Ptia. 
      - Uns dormem, outros no.
      - E o garoto, que est ele a fazer?
      - Vessionii? Est l adiante, deitado no vestbulo. Depois de tanto medo que teve, adormeceu. Que contente ele estava!
      Ptia ficou depois calado por muito tempo, sempre de ouvido  escuta. Ouviram-se passos na escurido e um vulto apareceu.
      - Que estas tu a afiar? - perguntou o recm-chegado, aproximando-se.
      - O sabre deste senhor.
      - Muito bem - replicou o homem que Ptia sups ser um hssar. - No haver por aqui uma tigela?
      - H, sim, ali, ao p da roda.
      O hssar pegou na tigela.
      - No falta muito para amanhecer - disse ele, bocejando, enquanto se afastava.
      Ptia sabia que estava no meio da floresta, entre os soldados de Denissov, a uma versta da estrada real. Sabia que estava sentado em cima de uma carroa apanhada aos Franceses,  volta da qual havia cavalos amarrados, sabia que ali ao p estava o cossaco Likatchov tratando de lhe afiar o sabre, sabia que aquela mancha negra l adiante era a casa do guarda e que a mancha vermelho-clara em baixo era a fogueira do bivaque que se apagava, sabia que o homem que viera buscar a tigela era um hssar com sede, Sabia tudo isto, e era como se de nada quisesse saber. Flutuava num reino encantado onde nada se parecia com a realidade. Talvez que aquela mancha preta fosse, de facto, a casa do guarda, mas tambm podia ser uma caverna que se abria at s entranhas da Terra. E talvez que efectivamente aquela mancha encarnada fosse, realmente, lume, mas tambm podia ser o olho de um monstro enorme. Bem podia ser estar sentado numa carroa, mas talvez aquilo no fosse uma carroa, mas uma torre altssima, do alto da qual, se porventura lhe acontecesse vir a cair, voaria na direco da terra durante um dia, durante um ms, sem nunca mais poder chegar ao cho. Era possvel que ao p da carroa apenas estivesse o cossaco Likatchov, mas tambm podia acontecer que esse homem fosse o homem melhor, mais valente, mais extraordinrio, maior, que existisse no mundo, um homem que ningum conhecesse. E tambm podia ser que houvesse por ali um hssar procurando gua no barranco, mas tambm podia acontecer que se tivesse desvanecido e desaparecido e ningum o tivesse visto.
      Nada o surpreendia mais do que o que os seus olhos viam. Ei-lo num mundo encantado onde tudo era possvel.
      Ergueu os olhos ao cu. E o cu, tal qual como a terra, era um stio encantado. Iluminava-se e no topo das rvores corriam nuvens rpidas que pareciam descobrir as estrelas, As vezes parecia que o firmamento se limpava por inteiro e via-se ento aparecer um cu negro e puro. Ora aquelas manchas escuras lhe pareciam nuvens, ora a abbada celeste se lhe afigurava muito alto por cima da sua cabea, ora descer de tal sorte que lhe seria possvel tocar-lhe com a ponta dos dedos.
      Ptia fechou os olhos e sentiu que a cabea lhe andava  roda Ouviam-se as gotas de gua que continuavam a cair, as conversas sussurradas, os cavalos a escarvar o cho e a agitar-se, algures o ressonar de algum.
      Zig, zig, zig.... fazia o ao do sabre que o cossaco afiava e de sbito Ptia ouviu uma orquestra harmoniosssima, que tocava um hino qualquer desconhecido e de uma solene suavidade. Como Natacha, e ainda mais que Nicolau, tambm ele gostava muito de msica, mas nunca pensara aprender a tocar, por isso os motivos que espontaneamente lhe chegaram ao ouvido lhe pareciam to novos. E a msica era cada vez mais vibrante. A melodia ampliava-se como se de um instrumento fosse passando a outro. Era uma fuga, mas Ptia no fazia a mais pequena ideia disso. Cada um dos instrumentos, ora como se fossem violinos, ora como se fossem trombetas, embora de som muito mais fino e muito mais puro, tocava o seu motivo prprio, que, sem chegar ao fim da sua modelao, se fundia noutro, que principiava por assim dizer o mesmo motivo, e depois ainda com outro e com outro ainda, confundindo-se todos, por fim, para se separarem e voltarem a confundir-se num cntico religioso e solene ou numa ria triunfal clara e brilhante.
      Ah!, mas estou a sonhar, dizia Ptia de si para consigo, perdendo por assim dizer o equilbrio. So os meus ouvidos que ressoam. Ou talvez seja a minha orquestra prpria a tocar. Ento, mais uma vez. Vamos, minha orquestra! Vamos!..
      Fechou os olhos. E de todos os lados, como se viessem de muito longe, vibravam acordes em unssono ou se dissipavam, para de novo se fundirem, e outra vez o hino recomeava, solene e cheio de suavidade. Ah! Que maravilha! E pelo tempo que quero e como quero!, dizia de si para consigo. E tentava reger aquela imensa orquestra.
      Mais piano, agora mais piano, at deixar de se ouvir. E os sons obedeciam-lhe. V, agora mais alto, mais alegre. Mais, mais, mais alegre. E de desconhecidas profundezas irradiavam acordes largos e magnficos. E agora, vs, as vozes!, comandava ele. E vozes de homem chegavam da distncia, e em seguida vozes de mulher, e essas vozes iam crescendo, pouco a pouco, at atingirem tinia imponente vibrao. Ptia sentia-se ao mesmo tempo temeroso e fascinado com aquela surpreendente beleza.
      O canto alargava, transformando-se numa solene marcha Triunfal, enquanto as rvores continuavam a gotejar, o ao a ranger e os cavalos a relinchar e a escarvar o cho, sem que nada perturbasse o coro, mas como se fizesse parte nele.
      Ptia no saberia dizer o tempo que isto teria durado. Sentia um infinito prazer, estava como que deslumbrado e s lamentava no poder partilhar com outro tudo quanto experimentava. Foi a voz afvel de Likatchov que o acordou.
      - Aqui o tem, Excelncia. Pode rachar um francs ao meio.
      Ptia despertou do seu torpor.
      - J  manh, j  dia! - exclamou ele.
      Agora j se viam os cavalos, at ento invisveis. Atravs dos ramos despidos de folhas transparecia uma claridade hmida. Ptia espreguiou-se, saltou do alto da carroa, puxou de um rublo da algibeira e deu-o a Likatchov. Depois brandiu o sabre, para o experimentar, e enfiou-o a seguir na bainha. Os cossacos, entre- tanto, selavam os cavalos.
      - A vem o comandante - exclamou Likatchov.
      Denissov, que saa da isb, chamou Ptia e deu-lhe ordem de se preparar para partir.
      

      
      
      
      Captulo XI
      
      Rapidamente, na semi-obscuridade, cada um lanou mo do seu cavalo, ajustou o selim e ocupou o seu lugar. Denissov, de p junto da casa do guarda, dava as suas ordens. A infantaria, patinhando na lama, foi a primeira a partir, desaparecendo da a pouco, por entre as rvores, no meio da neblina matinal. O capito de cossacos deu as instrues aos seus homens. Ptia, com o cavalo pela arreata, aguardava, impaciente, o momento de montar. Embora tivesse mergulhado a cara em gua fria, sentia no rosto, e especialmente nos olhos, um ardor febril. J no tinha arrepios ao longo da espinha, mas todo o seu corpo se agitava em movimentos nervosos.
      - Est tudo pronto? - interrogou Denissov. - Venham os cavalos!
      Os cavalos apareceram. Denissov repreendeu o seu cossaco porque a sela estava mal afivelada, depois saltou para a, garupa do ginete. Ptia meteu o p no estribo. Como de costume, o cavalo procurou mordisca-lo na perna, mas ele, leve como uma pluma, saltou-lhe para cima e lanando um golpe de vista aos hssares que principiavam a mover-se na sua retaguarda aproximou-se de Denissov.
      - Vassili Federovitch, no se esquece de me dar um comando, no  verdade? Peo-lhe - disse ele.
      Dir-se-ia que Denissov se esquecera da existncia de Ptia. Relanceou-lhe um olhar.
      - S te peo uma coisa - disse-lhe com severidade - que me obedeas e que no metas o nariz onde no s chamado. Durante o resto do percurso, Denissov no voltou a trocar palavra com ele, cavalgando em silncio. Principiava a clarear por sobre os campos quando chegaram  orla da floresta. Denissov disse qualquer coisa em voz baixa ao capito de cossacos e os seus homens desfilaram diante deles. Depois de eles passarem, Denissov ps-se a descer a encosta atrs da coluna, Escorregando e retesando as patas, atingiram os cavalos o fundo do barranco. Ptia ia ao lado de Denissov. Cada vez tremia mais. O dia ia raiando e a neblina apenas envolvia agora os objectos muito distantes. Ao chegar ao fundo, Denissov, voltando-se, fez um aceno de cabea ao cossaco mais perto dele.
      - O sinal! - ordenou.
      O cossaco ergueu a mo e um tiro ressoou. No mesmo instante, os cavalos despediram a galope, enquanto se ouviam gritos de todos os lados e novos tiros ressoavam.
      No mesmo momento, igualmente, Ptia esporeou o cavalo e soltou-lhe as rdeas, e sem ouvir Denissov, que o chamava, aos gritos, debandou a galope. Afigurara-se-lhe, de sbito, no momento em que ressoou o primeiro tiro, que tudo ficara claro como se fosse dia alto. Alcanou a ponte. Os cossacos galopavam diante dele. Em cima da ponte esbarrou com um retardatrio e continuou galopando. Por diante dele, alguns homens, franceses, naturalmente, passavam, assodados, do lado direito da estrada para e, lado esquerdo. Um deles estatelou-se na lama mesmo debaixo das patas do seu cavalo.
      A porta de uma casa um grupo de cossacos fazia fosse o que fosse. Um grito terrvel saiu do grupo. Ptia, que passava nesse instante a galope, a primeira coisa que viu foi o rosto plido e convulsionado de um francs que sustinha a vara de uma lana apontada ao peito.
      Hurra!... Rapazes!..., gritou Ptia. E esporeando o cavalo, excitado pela corrida, meteu pela rua da povoao. Diante dele ressoaram tiros. Cossacos, hssares e prisioneiros russos esfarrapados corriam pelos dois lados da rua, soltando gritos estridentes e ininteligveis. Um francs, de cabea descoberta, o rosto vermelho e crispado, de capote azul, defendia-se dos hssares com a baioneta. Quando Ptia chegou junto dele, j estava prostrado no cho. Outra vez tarde de mais, disse de si para consigo o moo oficial, num relmpago, e dirigiu-se para o ponto onde a fuzilaria era mais nutrida. No ptio da casa senhorial em que estivera nessa mesma noite com Dolokov o tiroteio crepitava. Os Franceses, entrincheirados atrs da espessa sebe do jardim, visavam os cossacos amontoados junto da porta principal. Assim que chegou ali, Ptia viu logo, atravs da fumarada. Dolokov, o rosto plido e esverdeado, que gritava aos seus homens:
      - Cerquem-nos pelo outro lado! Esperem a infantaria! 
      - Qu? Esperar?... Hurra! - exclamou Ptia e, sem mais detenas, avanou para o local onde o tiroteio e a fumarada eram maiores.
      Uma salva se ouviu, balas perdidas assobiaram e vieram cravar-se aqui e ali. Dolokov e os cossacos enfiaram, atrs de Ptia, pelo porto do ptio. Os Franceses, no meio de uma densa fumarada, atiravam fora as armas e saam da sebe para se precipitar em na direco dos cossacos, enquanto outros galgavam a encosta em direco ao tanque. Ptia continuava a galopar pelo ptio dentro, mas abandonara as rdeas, os braos gesticulavam-lhe de maneira estranha e ia tombando cada vez mais para cima da sela. O cavalo, que pousara as patas sobre os carves ardentes de uma fogueira visvel graas  claridade da manh, parou bruscamente e o cavaleiro foi precipitado no cho, Os cossacos ainda viram agitar-se os braos e as pernas de Ptia enquanto a cabea lhe descaa sem vida. Uma bala atravessara-lhe o crnio.
      Depois de trocar algumas palavras com o comandante do destacamento francs que sara do edifcio com um leno amarrado  ponta da espada, em sinal de rendio, Dolokov desmontou e aproximou-se de Ptia, estendido no cho, imvel, com os braos em cruz.
      - Este j tem a sua conta - disse, franzindo o sobrecenho. E foi ao encontro de Denissov, que nessa altura aparecia  porta do ptio.
      - Morto? - exclamou, ao ver o corpo de Ptia estendido no cho e evidentemente sem vida.
      - J tem a sua conta - repetiu Dolokov, como se sentisse prazer em empregar essa expresso, e seguiu na direco dos prisioneiros que os cossacos cercavam. - Nada de prisioneiros! gritou ele para Denissov.
      Denissov no respondeu. Aproximou-se de Ptia, desmontou, e de mos trmulas voltou para si o rosto do moo, empapado em sangue e lama, j de uma palidez cadavrica.
      Estou habituado s guloseimas, ptimas passas, tomem-nas todas...  Lembrava-se das palavras dele Os cossacos olhavam-no estupefactos: soluos em que havia fosse o que fosse dos uivos de um co lhe saam do peito, enquanto desviava a cabea e, cambaleante, se aproximava da sebe para se segurar de p.
      Entre os prisioneiros russos libertos por Denissov e Dolokov encontrava-se Pedro Bezukov.
      

      
      
      
      Captulo XII
      
      As autoridades francesas no tinham tomado novas disposies para o transporte do destacamento de prisioneiros de que fazia parte Pedro durante a retirada. No dia 22 de Outubro j no se encontrava com as tropas com que sara de Moscovo. Metade do comboio de biscoitos que os seguira durante as primeiras jornadas fora pilhada pelos cossacos e a outra metade seguira adiante. Dos cavaleiros que abriam a marcha, nem falar: todos tinham desaparecido, A artilharia, que nos primeiros dias constitura a guarda avanada, fora substituda pelas imensas bagagens do marechal Junot, que eram escoltadas pelos westfalianos. Atrs dos prisioneiros vinham as bagagens da cavalaria.
      A partir de Viazma, as tropas, que at a marchavam em trs colunas, transformaram-se num verdadeiro rebanho. Os indcios de desorganizao que Pedro observara j durante a primeira jornada eram agora evidentes.
      A estrada, de um lado e outro, estava juncada de cadveres de cavalos; soldados esfarrapados, retardatrios de diversas armas, que se sucediam continuamente, ora se reuniam  coluna em marcha, ora ficavam de novo para trs.
      Por vrias vezes, durante a marcha, houvera rebates falsos. Os soldados da escolta pegavam nas armas, disparavam ao acaso, fugiam a mais no poderem, esbarrando uns nos outros, e depois tornavam a formar, acusando-se mutuamente dos seus loucos terrores. O depsito da cavalaria, os prisioneiros e as bagagens de Junot, que compunham a coluna, formavam ainda uma espcie de todo, mas esse mesmo todo ia-se desfazendo rapidamente. O depsito, que de princpio era formado por cento e vinte viaturas, estava reduzido a sessenta no mximo: todas as outras tinham sido pilhadas ou abandonadas. Algumas das viaturas das bagagens de Junot tambm se haviam perdido. Trs, pelo menos, tinham sido assaltadas por retardatrios do corpo de exrcito de Davout. Pedro percebera, pelas conversas dos alemes, que esse comboio era guardado com mais cuidado que o dos prisioneiros e que um soldado que fazia parte da escolta, um alemo, fora fuzilado por ordem do marechal, por lhe terem encontrado uma colher de prata com as suas insgnias.
      Mas o grupo mais reduzido era o dos prisioneiros. Dos trezentos e trinta homens que o formavam  partida de Moscovo, restavam agora menos de cem. E causavam maior embarao s tropas que os escoltavam que o depsito de cavalaria ou as bagagens de Junot. Esses soldados compreendiam muito bem que as selas de cavalaria ou as colheres do Sr. Marechal podiam tentar este ou aquele, mas para que estarem de sentinela, eles, cheios de fome e de frio, a esses russos, esfomeados e transidos como eles, que iam ficando pelo caminho ou enregelavam nos acampamentos e contra os quais havia ordem de fuzilamento? Eis o que no podiam compreender e os descorooava. Eles, tia mesma penosa condio, tinham medo de se deixar comover diante desses desgraados, agravando a sua prpria situao, e esse o motivo por que os tratavam cada vez mais severamente.
      Em Dorogobuje, enquanto os soldados da escolta, depois de fecharem os prisioneiros numa cavalaria, foram pilhar as lojas, alguns dos cativos abriram um buraco na parede e fugiram. Apanhados da a pouco, eram passados pelas armas.
      O regime fixado na altura da sada de Moscovo, segundo o qual os oficiais deviam estar separados dos soldados, h muito fora abolido. Todos os que podiam caminhar seguiam juntos, e Pedro, aps a terceira jornada, voltara a encontrar-se com Karataiev e o seu cozito arruivado, de pernas tortas, que o adoptara como dono.
      Dois dias aps a partida de Moscovo, Karataiev fora de novo acometido p(,.Ias febres que o tinham levado ao hospital e  medida que piorava Pedro afastava-se dele instintivamente. No dava muito por isso, mas o certo  que devia fazer um grande esforo sobre si mesmo para se aproximar dele, os gemidos do desgraado quando se deitava no fim da jornada e o cheiro acre que exalava afastavam Pedro e tornavam menos ntimas as suas relaes. Enquanto estivera fechado no abarracamento, Pedro adquirira a convico, no racional, mas graas ao sentimento ntimo de todo o seu ser, de que o homem nascera para a felicidade, de que a felicidade estava nele, homem, na satisfao das suas tendncias naturais, e de que todas as desgraas eram antes consequncia de excessos que propriamente de privaes. Mas depois daquelas trs ltimas semanas de marcha, nova e consoladora verdade se lhe revelara, a saber, que neste mundo nada h de verdadeiramente terrvel. Assim como o homem nunca consegue ser perfeitamente feliz e livre, tambm no h situao alguma em que seja completamente infeliz e escravo, Assim como h limite para o sofrimento, tambm h limite para a liberdade, e esses limites tocam-se mutuamente. Agora sabia que o homem que sofre porque, deitado em cama de rosas, o magoa uma ruga das suas ptalas, era to infeliz como ele prprio, dormindo na terra hmida e nua, com frio por um lado e calor pelo outro. Lembrava-se de que quando, outrora, enfiava nos ps uns escarpins de baile muito apertados sofria tanto ou mais que actualmente, que caminhava descalo, pois as botas h muito as no podia calar e tinha os ps cobertos de pstulas. Sabia que na altura do seu casamento, na aparncia perfeitamente livre, no era mais livre que neste momento, que passava a noite fechado numa cavalaria. De todos os sofrimentos de que mais tarde se lembrava, e ento o deixavam quase insensvel, o pior fora o ver os ps cheios de feridas e crostas.
      A carne de cavalo agradava-lhe e era nutritiva; essa espcie de sabor a plvora do sal de nitro empregado em vez do sal propriamente dito era mesmo agradvel; o frio no era muito intenso: de dia tinham sempre calor durante as marchas e  noite acendiam fogueiras; os piolhos que o devoravam aqueciam-no. S uma coisa o fizera sofrer realmente nos primeiros tempos: os ps.
      Na segunda jornada, ao examinar as feridas ao claro das fogueiras, dissera de si para consigo que no poderia dar mais um passo; mas quando os companheiros se puseram a caminho l os foi seguindo, embora coxeando, e assim que os ps lhe aqueceram no mais os sentiu, embora ficasse aterrado quando  noite tornou a olhar para eles. E decidiu no lhes pr mais a vista em cima e pensar noutra coisa.
      S agora, realmente, sabia at que ponto o homem pode resistir e quanto valia o poder de distraco que lhe foi dado, espcie de vlvula de segurana das caldeiras a vapor para quando a presso ultrapassa a normal.
      No queria ver nem ouvir fuzilar prisioneiros retardatrios, embora para cima de cem j l ficassem para trs. J no pensava em Karataiev, que, de dia para dia mais fraco, no tardaria, evidentemente, a ter o destino dos demais. E nele prprio ainda pensava menos. Quando mais difcil se tornava a situao, quando mais sombrio se lhe antolhava o futuro, mais ele se desprendia de tudo o que o cercava e mais suaves e consoladores eram os seus pensamentos, as suas recordaes e os seus devaneios de imaginao.
      

      
      
      
      Captulo XIII
      
      A 22, por volta do meio-dia, subia Pedro uma ladeira coberta de lama escorregadia, atento s irregularidades do terreno e aos stios em que punha os ps. De quando em quando erguia os olhos para o grupo dos companheiros e de novo voltava a pous-los no cho. No assistia a um espectculo novo. Sierii, o cachorrito das pernas tortas, pulava pela berma da estrada, e de vez em quando, para mostrar ligeireza e contentamento, erguia uma das patas traseiras e trotava nas outras trs, voltando da a pouco ., trotar nas quatro para ladrar aos corvos que pousavam em cima dos cadveres. Sierii sentia-se ali muito mais feliz e contente que em Moscovo. Por toda a parte havia cadveres de cavalos e de homens, em variado estado de decomposio, em que ele podia saciar-se  vontade, e o trnsito contnuo das tropas, mantendo os lobos a distncia, permitia-lhe refastelar-se.
      Desde manh que chovia, e no havia esperana de deixar de chover, pois, mesmo quando o cu clareava, era para chover ainda mais, aps uma breve pausa. A estrada, alagada, no podia absorver mais gua e as valetas eram verdadeiros rios.
      Pedro, de olhos no cho,  medida que caminhava, contava pelos dedos, de trs em trs passos. Para si mesmo, pensando na chuva, dizia: Vamos, vamos, mais, mais, continua.
      Dir-se-ia j no ter em que pensar, mas na realidade a sua alma cada vez mergulhava mais fundo em pensamentos graves e consoladores. Eis a subtil lio que extraa da conversa da vspera com Karataiev.
      Na vspera, durante o descanso da noite, transido de frio junto de uma fogueira apagada, Pedro levantara-se e aproximara-se da fogueira vizinha, que ardia melhor. Junto dela, Plato, envolto na sua capa, como um padre na sua casula, contava aos soldados, na sua voz de enfermo, cheia e agradvel, mas fraca, uma histria que Pedro j conhecia. Passava da meia-noite. Era , hora em que lhe descia o febro e o deixava habitualmente mais animado. Assim que Pedro se aproximou da fogueira, ouviu a voz dbil do pobre homem e lhe viu o lastimoso rosto vivamente iluminado, sentiu confranger-se-lhe o corao. Quis afastar-se, tanto o afligia o estado do desgraado, mas, como no havia outra fogueira acesa, acocorou-se ali mesmo, procurando no olhar para ele.
      - E ento, como vai essa sade? - perguntou-lhe Pedro.
      - A sade? Chorarmos a nossa sade no impede que Deus nos d a morte - respondeu Karataiev, que logo continuou a sua histria.
      - E aqui tens, meu amiguinho - prosseguiu, com um sorriso que lhe iluminava o plido e magro rosto e os olhos brilhantes. - Aqui tens, meu amiguinho...
      H muito que Pedro conhecia aquela histria. Karataiev contara-lha cinco ou seis vezes, sempre com grande satisfao. Mas, embora a conhecesse muito bem, dir-se-ia ouvi-la pela primeira vez. A animao contida do narrador comunicava-se-lhe a ele, Era a histria de um velho mercador que vivia no meio dos seus, honestamente e no temor de Deus. Certo dia, com um dos seus camaradas, dirigiu-se , feira de Makari.
      Pernoitaram numa estalagem, e no dia seguinte o seu companheiro foi encontrado morto e roubado. Debaixo da almofada do honesto mercador encontraram uma faca cheia de sangue. Julgaram-no, flagelaram-no, arrancaram-lhe as narinas como era de justia e de acordo com as leis estabelecidas, acrescentava, Karataiev, e por fim foi enviado para as gals.
      -...E aqui tens, meu amiguinho. - Nesta altura da histria que Pedro apareceu. - Passaram dez ou mais anos, E o velho nas gals, obediente a tudo, sem fazer mal a ningum. S pedia a Deus que o levasse. Pois bem! - Uma noite os condenados reuniram-se, como ns neste momento. O velhinho estava com eles. E puseram-se a contar uns aos outros porque tinham sido condenados e porque eram culpados perante Deus. rodos contaram a sua histria: um deles matara um homem, outro, dois; este era incendirio, aquele, servo fugitivo. Interrogaram o velho: E tu, av, porque padeces? Eu, meus irmos, disse ele, eu sofro pelos meus pecados e pelos pecados dos outros, E a verdade  que no matei nem furtei o que era de outros, muito pelo contrrio, costumava dar aos pobres. Eu, meus irmos, era mercador e tinha o meu p-de-meia. Eis, palavra por palavra, o que ele lhes disse. E contou-lhes, por mido, tudo o que se passara, Por mim, disse-lhes ele, no me queixo. Isto s quer dizer que Deus me escolheu. S tenho pena de uma coisa, da minha velha e dos meus filhos. E ento ps-se a chorar. E eis que por acaso, no meio deles, est o homem que matara o mercador. Onde foi isso, av?, inquiriu ele. H quanto tempo? Em que ms? - E o velho deu conta de tudo. O corao do outro confrange-se-lhe. Eis que se aproxima do velho e, zs, ajoelha-se-lhe aos ps.  por minha causa, diz ele,  por minha causa, velho, que aqui ests. Podem crer, rapazes, este homem est inocente. Fui eu, confessou, que matei o homem e escondi a faca debaixo da almofada enquanto ele dormia. Perdoa-me, av, perdoa-me em nome de Cristo!
      Karataiev calou-se, os olhos fitos na chama, sorrindo docemente. Depois ajeitou as achas.
      - E o velho disse: Deus te perdoar: de resto, todos somos pecadores diante de Deus.  pelos meus pecados que sofro. E ele prprio se ps a chorar amargamente. E que pensas tu, meu falcozinho - acrescentou Karataiev, cujo rosto se iluminava por uma espcie de sorriso de triunfo, como se, no que tinha a dizer agora, estivesse todo o encanto e todo o valor da sua histria. - Que te parece? o verdadeiro assassino foi confessar-se s autoridades. Matei, disse ele, matei seis almas humanas - era um grande malfeitor - mas a que me mete mais d  a deste pobre velho. No quero que ele chore por minha causa. Escreveram tudo num papel e mandaram esse papel para a justia, Era muito longe, foi preciso muito tempo para que o tribunal resolvesse, para que escrevessem todos os papis que eram precisos, como as autoridades costumam fazer, claro est. A questo foi at  presena do czar. Por fim veio o ucasse do imperador: Ponha-se o mercador em liberdade e d-se-lhe uma recompensa, de acordo com o que foi resolvido. Chegou o papel. Puseram-se  procura do velho. Onde est esse velho condenado inocentemente? Chegou o papel do czar. Procuram. - Aqui o queixo de Karataiev teve um tremor convulsivo. - Deus j lhe tinha perdoado. Morrera. Pois  o que te digo, meu falcozinho - concluiu ele; por muito tempo, calado, sorrindo, ficou a olhar o espao diante dele. No era a histria em si, mas o seu misterioso significado e aquela serena exaltao que iluminava o rosto de Karataiev enquanto ele falava, o misterioso significado dessa exaltao, era tudo isso que enchia agora a alma de Pedro de uma felicidade indefinvel.
      

      
      
      
      Captulo XIV
      
      - A postos! - gritou, de, sbito, uma voz. Uma alegre agitao se produziu entre os prisioneiros e os soldados da escolta, na esperana de um acontecimento importante e feliz. Por todos os lados se ouviram vozes de comando, e  esquerda da coluna apareceram, galopando, cavaleiros bem vestidos, montados em bons cavalos. Todos os rostos exprimiram a tenso que em geral se produz aquando da chegada de grandes personalidades. Os prisioneiros amontoaram-se a um lado para deixar a estrada desimpedida. Os soldados da escolta alinharam:
      - O imperador! O imperador! O marechal! O duque!
      Mal acabara de desfilar a escolta, chegava uma carruagem tirada por cavalos cinzentos, no meio de grande fragor. Pedro viu,  passagem, uma figura de rosto sereno, cheio e branco, com um bicorne na cabea. Era um dos marechais. O seu olhar deteve-se na alta estatura de Pedro que sobressaa no meio da multido, e, pela maneira como franziu as sobrancelhas e virou a cara, a prisioneiro julgou perceber que procurava ocultar um sentimento de piedade.
      O general comandante do depsito, muito corado e cara de susto, esporeou o cavalo para seguir a carruagem. Alguns oficiais formaram grupo e os soldados juntaram-se em torno deles. Todos pareciam perturbados e inquietos.
      - Que  que h? Que disse ele? - repetiam.
      Enquanto o marechal passava, como os prisioneiros se tinham aglomerado, Pedro viu Karataiev, em quem ainda no pusera os olhos nessa manh. Embrulhado no capote, estava sentado, encostado a um lamo. No seu rosto, com a mesma expresso de enternecida suavidade que tinha na vspera ao contar a sua histria, havia agora um calmo sorriso.
      Fitava Pedro com os seus bondosos olhos redondos velados de lgrimas, e via-se que o chamava, como se lhe quisesse falar. Mas Pedro tinha medo de si mesmo. Fingiu no ver esse olhar e desviou a cara apressadamente.
      Quando a coluna retomou a marcha, Pedro olhou para trs. Karataiev continuava sentado  beira da estrada, encostado ao lamo; dois franceses, apontando-o, diziam qualquer coisa entre si. No mais se voltou e subiu a ladeira a coxear. L para trs, para o stio onde estava Karataiev, um tiro soou. Ouviu-o nitidamente, mas nesse mesmo instante lembrou-se de que quando o marechal aparecera calculava ele o nmero de jornadas que ainda teriam at Smolensk. Voltou aos seus clculos. Dois soldados franceses, um dos quais com a espingarda ainda fumegante, passaram por ele a correr. Muito plidos, enquanto um deles o olhava com timidez, Pedro descobriu-lhe no rosto a mesma expresso que vira estampada na cara do soldado aquando da execuo dos incendirios. E Pedro reconheceu-o: era o mesmo que na antevspera queimara a camisa estando a enxug-la na fogueira do bivaque e que fora troado pelos camaradas.
      L para trs, para onde ficara Karataiev, um co uivou. Porque est aquele imbecil a uivar?, disse Pedro com os seus botes. Os soldados prisioneiros que marchavam a seu lado no voltaram a cabea, como ele, para onde soara o tiro e depois o uivo do co. Uma expresso sinistra se lhes pintava na cara.
      

      
      
      
      Captulo XV
      
      O depsito de cavalaria, os prisioneiros e as bagagens do marechal fizeram alto na aldeia de Chamchevo. Toda a gente se juntou em volta dos bivaques. Pedro aproximou-se de uma das fogueiras, comeu um pedao de carne de cavalo, deitou-se, de costas para a fogueira, e adormeceu imediatamente. Mergulhou num sono to pesado como em Mojaisk, depois da batalha de Borodino.
      Tal como ento, tambm agora os acontecimentos reais se confundiram com vises imaginrias, e uma voz, a sua prpria voz ou a de qualquer outra pessoa, repetiu-lhe as mesmas frases que ouvira nessa altura.
      - A vida  tudo. A vida  Deus. Tudo vai e vem, tudo se move, e esse movimento  Deus. E enquanto h vida, h a satisfao de reconhecermos a divindade. Amar a vida  amar a Deus. O mais difcil e meritrio  amar a vida nas suas dores, nos seus sofrimentos imerecidos.
      Karataiev! Esse nome surgiu-lhe de sbito no pensamento, e de sbito viu, como se estivesse vivo, um velho mestre, de que h muito se esquecera, que na Sua lhe ensinara geografia. Espera, dizia-lhe o velho, mostrando-lhe o globo terrestre. Esse globo era uma esfera viva, oscilando e sem contornos definidos. Toda a sua superfcie era formada por gotas de gua muito uni- das umas s outras, e essas gotas de gua evoluam, deslocavam-se, ora unindo-se numa gota mais grossa, ora dividindo-se de novo. Cada gota procurava dilatar-se, ocupar o maior espao possvel, mas, como as outras faziam o mesmo, apertavam-na, obrigando-a a desaparecer, por momentos, e misturando-se com ela outras vezes.
      Eis a imagem da vida, dizia-lhe, o velho.
      Como  simples e claro, pensava Pedro. Com o no compreendi eu h mais tempo?
      Deus est no centro e cada uma das gotas tenta alargar-se, na esperana de O reflectir na sua maior extenso. E cresce, alarga-se, comprime-se e desaparece da superfcie, mergulha e volta depois a sobrenadar. Por exemplo, Karataiev dilatou-se e desapareceu. Compreende, meu filho?, dizia-lhe o mestre.
      - Compreendeu. Caramba! - gritava uma voz, e Pedro acordou.
      Endireitou-se, ficando sentado no cho. Ao claro da fogueira, sentado de ccoras, um francs, que acabava de empurrar um soldado russo, assava um pedao de carne na ponta da vareta de uma espingarda. As suas mos vermelhas e peludas, de dedos curtos e musculosos, manejavam a vareta com percia. O seu rosto, de cor terrosa e sobrecenho franzido, recebia em cheio o claro das brasas.
      - Isso -lhe indiferente - resmungou, dirigindo-se a um soldado de p atrs dele. - Bandido! Ala!
      O soldado que manuseava a vareta da espingarda relanceou um soturno olhar para o lado onde estava Pedro. Este voltou-se e ps-se a fitar o escuro. Um dos prisioneiros, esse mesmo que o francs empurrara, estava sentado junto da fogueira e parecia acariciar com a mo fosse o que fosse. Pedro olhou mais atentamente e viu o cachorrito arruivado abanando a cauda, ao p do soldado.
      - Ah!, voltou? - disse Pedro. - Eh! Pla. Mas no pode concluir.
      De sbito, na imaginao, misturaram-se-lhe ao mesmo tempo e olhar que lhe lanara Plato sentado de encontro  rvore, o tiro que ressoara para esses lados, os uivos o co e a expresso comprometida dos dois franceses passando a correr diante dele, com a espingarda ainda fumegante. E juntando a isso o desaparecimento de Karataiev s ento pareceu compreender que o desgraado fora abatido. No mesmo instante, porm, sem saber como, passou-lhe por diante dos olhos a varanda da sua casa de Kiev, onde passara uma noite de Vero com uma linda polaca, Sem relacionar estas lembranas com as impresses de momento, e sem nada concluir, Pedro fechou os olhos, e o quadro que evocara - a noite de Estio -, trazendo-lhe  ideia um banho refrescante e a esfera lquida em movimento, f-lo sentir-se afundar numa massa de gua onde todo ele desaparecia.
      Antes do nascer do Sol acordou com um vivo tiroteio e uma grande algazarra. Os franceses corriam como loucos.
      - Os cossacos - gritava um deles e instantes depois Pedro estava rodeado de caras russas.
      Levou tempo a compreender o que se passava. Ouviam-se por todos os lados exclamaes entusiastas dos seus compatriotas.
      - Meus irmos! Meus amigos! Meus queridos camaradas! - gritavam, com as lgrimas nos olhos, velhos soldados, apertando nos braos cossacos e hssares.
      Estes cercavam os prisioneiros e ofereciam-lhes,  discrio, po, roupas, botas. Pedro, no meio deles, soluava, incapaz de articular palavra. Porm, tomando nos braos o primeiro soldado que lhe apareceu, beijou-o, chorando.
      Dolokov estava de p diante do porto da casa em runas assistindo ao desfile das tropas francesas desarmadas. Estas, desorientadas com o que acontecera, falavam entre si em alta voz, mas, ao passarem diante de Dolokov, que fustigava as botas com a chibata, fitando-as com olhos frios e vidrados, onde nada de bom se lia, calavam-se. Ao lado dele, o cossaco contava os prisioneiros, marcando a giz, na porta, centena por centena.
      - Quantos? - perguntou-lhe Dolokov.
      -  a segunda centena - respondeu-lhe ele.
      - Toca a andar, toca a andar! - dizia Dolokov, que aprendera com os franceses esta expresso. E o seu olhar, quando se encontrava com o dos prisioneiros, despedia centelhas de crueldade.
      Denissov, de ar triste e cabea descoberta, seguia atrs dos, cossacos que transportavam o corpo de Ptia Rostov, que ia a enterrar num fosso aberto no jardim.
      

      
      
      
      Captulo XVI
      
      A partir de 28 de Outubro, data em que principiaram os frios, a retirada francesa assumiu um aspecto trgico. Alguns homens morriam gelados, outros tentavam aquecer-se junto de fogueiras; outros ainda, embrulhados em quentes pelias, continuavam a fuga, levando nas seges os bens do imperador, dos reis e dos duques. No conjunto, porm, nada mudara no estado de decomposio do exrcito em retirada.
      De Moscovo a Viazma, os seiscentos e treze mil homens de que se compunha o exrcito francs ficaram reduzidos a pouco mais de trinta e seis mil, sem contar a Guarda, a qual, durante toda a campanha, outra coisa no fizera que pilhar. Dos seus trinta e seis mil homens, no mximo no apareceram no campo de batalha mais de cinco mil. Eis o primeiro termo da proporo que pode determinar exactamente o que veio a ocorrer depois. O exrcito francs liquefez-se e desapareceu, na mesma proporo, de Moscovo a Viazma, de Smolensk ao Beresina, do Beresina a Vilna, independentemente do frio mais ou menos intenso, em consequncia da perseguio que lhe moviam os Russos, dos obstculos que encontravam no caminho ou de todas as outras circunstncias isoladamente. Berthier escrevia ao amo nos termos seguintes, e toda a gente sabe quanto se afastam da verdade os chefes que descrevem a situao do seu exercito:
      
      Creio dever levar ao conhecimento de Vossa Majestade o estado das suas tropas nos vrios corpos de exrcito, o qual pude verificar em diferentes pontos de h dois ou trs dias para c. Esto por assim dizer em debandada. Os soldados que seguem as bandeiras so apenas a quarta parte dos efectivos em todos os regimentos; os demais marcham isoladamente, em diversas direces, e por conta prpria, na esperana de encontrarem que comer e para se verem livres da disciplina. Em geral consideram Smolensk o ponto onde se reorganizaro. Nestes ltimos dias, numerosos soldados deitaram fora as armas e os cartuchos. Perante tal estado de coisas, o servio de Vossa Majestade exige, sejam, quais forem os objectivos ulteriores, que as tropas se reorganizem em Smolensk, principiando por desembara-las dos no combatentes, ou seja, dos homens a p, das bagagens inteis e do material de artilharia, em desproporo com as foras actuais. Alm de dias de descanso so necessrios mantimentos para os soldados extenuados pela fome e pela fadiga; nos ltimos dias morreram muitos nas estradas e nos bivaques. Este estado de coisas vai de mal a pior e faz-nos recear, caso se lhe no d pronto remdio, no termos mo nas tropas para as obrigar a combater.
      9 de Novembro, a trinta verstas de Smolensk.
      
      Ao atingirem Smolensk, para os soldados uma espcie de terra de promisso, matam-se uns aos outros pelo po para a boca, assaltam os seus prprios armazns e quando tudo se acaba continuam a sua rota.
      Todos caminhavam sem saber porque avanavam nem onde iam e ainda menos do que ningum o sabia o prprio Napoleo, esse gnio, ele que no recebia ordens de quem quer que fosse. Mas nem por isso deixavam de seguir os velhos hbitos, ele e os seus generais; l continuavam, como sempre, a expedir instrues, mensagens, relatrios, ordens do dia, e a dizer uns para os outros: Sire, meu primo, prncipe de Eckmhl, rei de Npoles. No entanto, todas estas ordens, todos estes relatrios, no passavam do papel. J nada se executava, porque nada podia ser executado, e, apesar de todos os pomposos ttulos que se davam uns aos outros, sentiam que no passavam de pobres e miserveis criaturas, que muito mal haviam feito, e agora tinham de prestar contas. E, embora se fingissem interessados pelo destino do exrcito, s numa coisa pensavam, l no seu ntimo: fugirem o mais depressa que pudessem e salvarem-se, se ainda fossem a tempo.
      

      
      
      
      Captulo XVII
      
      Os movimentos das tropas russas e francesas durante a retirada de Moscovo ao Nimen fazem lembrar o jogo da cabra-cega. E como se vendassem os olhos dos jogadores, e um deles, de tempos a tempos, tocasse numa sineta a desafiar o outro. De princpio, toca destemido, mas, quando se v em posio desvantajosa, trata de fugir do parceiro em silncio; e, no entanto, cai-lhe amide nas mos.
      Nos primeiros tempos, os exrcitos de Napoleo assinalavam a sua presena: foi isso no incio da retirada pela estrada de Kaluga. Mais tarde, quando meteram pela de Smolensk, fugiram, com o badalo da sineta bem seguro, e por mais de uma vez, pensando que escapavam, foram cair no papo dos Russos.
      Graas  rapidez da fuga dos Franceses perseguidos pelos Russos, e  fadiga dos cavalos que da resultava, a melhor maneira de conhecerem, aproximadamente, a posio do inimigo, isto , os reconhecimentos de cavalaria, era coisa que no existia. Alm disso, resultado das mudanas rpidas na situao recproca dos dois exrcitos, as informaes, quaisquer que fossem, no chegavam a tempo. Se no dia 2 do ms vinham a saber que e exrcito inimigo se encontrava no dia 1 em tal stio, no dia 3, data em que era possvel empreender qualquer aco, o dito exrcito j fizera duas jornadas de marcha e ocupava outra posio,
      Um dos exrcitos fugia, o outro perseguia-o. A partir de Smolensk, vrias eram as estradas que se ofereciam aos Franceses. Era de supor que aps quatro dias de permanncia ali lhes fosse possvel saber com exactido onde estava o inimigo, permitindo-lhes traar um plano favorvel e tentar nova campanha. Mas, passados esses quatro dias, os bandos escaparam-se pela direita e pela esquerda, sem um movimento definitivo ou um percurso previsto, tomando a antiga estrada, a mais perigosa, a estrada por Krasnoie e Orcha, via j por eles percorrida.
      Supondo terem o inimigo na retaguarda, e no na vanguarda, fugiram, deixando entre eles intervalos de mais de vinte e quatro horas de marcha. A frente vinha o imperador, depois os reis e os duques. O exrcito russo, persuadido de que Napoleo ia meter pela direita e atravessar o Dniepre, alis a nica estrada razovel, seguiu esta direco, desembocando na estrada real para Krasnoie. E foi ali, como se jogassem a cabra-cega, que os Franceses encontraram a vanguarda russa. Tomados de pnico perante a inesperada apario, pararam, mas depressa se puseram em fuga, abandonando os que vinham atrs deles. Eis (,orno, durante trs dias, passaram corpos separados uns atrs dos outros atravs da torrente das foras russas, primeiro o do vice-rei, depois o de Davout, em seguida o de Ney, Abandonaram-se mutuamente  sua infeliz sorte, perdendo as bagagens, a artilharia, metade dos homens, fugindo, com um nico pensamento: contornarem os Russos pela direita a coberto da noite..
      Ney, que, apesar da infeliz situao das tropas , talvez precisamente por essa circunstncia, ficara para trs ocupado a fazer saltar as muralhas de Smolensk, que a ningum incomodavam, s para castigo da terra que determinara a sua perda, era o ltimo a marchar com o seu corpo de dez mil homens. Reunira-se a Napoleo em Orcha, reduzido a mil homens, depois de ter espalhado o resto, bem como os canhes, em marchas nocturnas atravs dos bosques para alcanar o Dniepre.
      De Orcha prosseguiram a sua rota para Vilna, sempre a jogar  cabra-cega com o exrcito que os perseguia. No Beresina, nova confuso: muitos afogaram-se, outros renderam-se: mas os que conseguiram atravessar o no l continuaram. Entretanto o seu grande chefe enfiava uma pelia, sentava-se num tren e fugia sozinho, abandonando os companheiros. Os que puderam fizeram o mesmo, os que no puderam deixaram-se apanhar ou morreram.
      

      
      
      
      Captulo XVIII
      
      Dir-se-ia que perante esta fuga doida dos Franceses, quando eles faziam tudo para se perderem a si mesmos, quando todos os seus movimentos, desde o desvio pela estrada de Kaluga at  fuga atrs do chefe do exrcito, eram desprovidos de qualquer bom senso, dir-se-ia que, ao menos, para este primeiro perodo da campanha, os historiadores, que atribuem a aco das massas  vontade de um s homem, confessassem o erro das suas teorias ao descreverem esta retirada. Montanhas de livros se escreveram sobre esta campanha e em toda a parte se encontram exaltadas as disposies tomadas por Napoleo, a argcia dos seus planos e das suas manobras e o gnio dos seus marechais.
      Explicam-nos, por uma srie de profundos raciocnios, o motivo da retirada dos Franceses de Maloiaroslovets por uma estrada devastada quando se lhes deixava a passagem livre por uma regio rica em abastecimentos e se lhes oferecia o caminho paralelo que seguiu posteriormente Kutuzov para os perseguir. Tambm se nos explica assim a retirada de Smolensk para Orcha. Em seguida traam-nos um quadro do comportamento herico de Napoleo em Krasnoie, onde, ao que parece, teve inteno de travar batalha e pr-se  frente das suas tropas. E mostram-no-lo de um lado para o outro, com uma vara de olmo na mo, dizendo 
      - J estou farto de fazer de imperador,  tempo de fazer de general. - O que o no impediu, pouco depois, de prosseguir na fuga, abandonando  sua triste sorte todos os corpos de exrcito dispersos que o seguiam.
      Descrevem-nos igualmente a bravura dos marechais, particularmente a de Ney, bravura que se limitou a operar um desvio pela floresta a fim de atravessar o Dniepre de noite e fugir na direco de Orcha, depois de perder as bandeiras, a artilharia e nove dcimos dos efectivos.
      Enfim, o abandono pelo grande imperador do seu herico exrcito -nos apresentado como uma grande aco e um rasgo de gnio. At mesmo o empreendimento final da sua fuga, que em qualquer lngua s pode ter um nome, a ltima das cobardias, acto que envergonharia uma criana, at mesmo isso encontra a sua justificao na pena dos historiadores.
      Quando j lhes no  possvel estenderem mais o fio elstico dos raciocnios, quando o acto  realmente contrrio ao que os homens chamam o bem e a justia, recorrem.  mngua de argumentos.  noo de grandeza. A grandeza parece excluir a possibilidade de apreciar o bem e o mal. O mal no existe para o que  grande. Quem  grande nunca poder ser acusado de uma atrocidade.
       grande!, dizem os historiadores, e ento deixa de existir o bem e o mal, para s haver o que  grande e o que no  grande. O que  grande  o bem, o que no  grande , o mal. O grande , segundo eles, privilgio de indivduos especiais que recebem a classificao de heris. Napoleo, muito bem embrulhado numa pelia, volta para casa, deixando morrer no s companheiros, mas pessoas que, assim ele o confessou, arrastara atrs de si. Para si mesmo diz: sou o grande, e a alma tranquiliza-se-lhe.
      Do sublime ao ridculo vai apenas um passo, dizia Napoleo, e o sublime era ele prprio. E de h cinquenta anos para c o universo inteiro repete: Sublime! Grande! Napoleo, o Grande! Do sublime ao ridculo vai apenas um passo!
      E a ningum ocorre que confessar que a grandeza est para alm do bem e do mal  como reconhecer ao mesmo tempo a sua inferioridade e a sua infinita pequenez. Para ns, que recebemos de Cristo a medida do bem e do mal, nada existe fora dessa medida. No h autntica grandeza sem espontaneidade, bondade e verdade.
      

      
      
      
      Captulo XIX
      
      Haver algum russo que ao ler as descries do ltimo perodo da campanha de 1812 no tenha experimentado um penoso sentimento de despeito, descontentamento e inquietao? Quem no ter perguntado a si prprio: porque no fizeram prisioneiros, porque no exterminaram todos os franceses, tendo trs exrcitos muito superiores em nmero a cerc-los, e eles, em debandada, morrendo de fome e de frio, se entregavam em massa, e sabendo ns, assim no-lo diz a histria, que o objectivo dos Russos era precisamente deter, cortar a retirada e capturar todos os franceses?
      Como se explica que o exrcito russo, menos numeroso que o francs, tenha travado a batalha de Borodino e no haja atingido o seu objectivo quando cercava o inimigo por trs lados e a sua inteno era aniquil-lo? Tinham ento os Franceses to grande superioridade sobre ns que os no podamos bater mesmo cercados por foras esmagadoras? Como pde acontecer uma coisa destas?
      A histria, pelo menos a que se vangloria de tal nome, responde que a culpa foi de Kutuzov, Tormassov, Tchitchagov, deste e daquele, que no fizeram estes ou aqueles movimentos.
      Mas porque no fizeram eles esses movimentos? Partindo do princpio de que eram culpados de no terem sabido atingir o objectivo previsto, porque no foram eles submetidos a conselho de guerra e devidamente castigados? E, se se admite que Kutuzov, Tchitchagov e os outros so culpados de tais reveses, no se compreende, mesmo nas condies em que se encontravam as tropas russas em Krasnoie e no Beresina - e em ambos os casos a sua superioridade era esmagadora -, no se compreende porque o exrcito francs no foi capturado com os seus marechais, os seus reis e o seu imperador, uma vez que essa era a finalidade dos Russos.
      A explicao deste facto estranho, dada pelos historiadores russos, qual seja que Kutuzov se teria oposto ao ataque, cai pela base, pois toda a gente sabe que a vontade do general-chefe no evitara o ataque em Viazma e em Tarutino.
      Porque  que este exrcito russo, que, com foras inferiores, em Borodino, alcanou uma vitria sobre um inimigo em pleno vigor, veio a ser vencido por bandos desorganizados de franceses em Krasnoie e no Beresina, quando dispunha, ento, de superioridade esmagadora?
      Se o objectivo dos Russos era cortar a retirada ao exrcito francs e aprisionar o imperador e os seus marechais, o certo  que esse objectivo no s no foi alcanado, como todos os esforos no sentido de o conseguir foram malogrados de maneira lamentvel, de tal modo que o ltimo perodo da campanha se apresenta, com justa razo, como uma srie de vitrias dos Franceses e que os historiadores russos se enganam redondamente ao consider-lo vitorioso.
      Os historiadores russos, forados a admitir a lgica, chegam fatalmente a esta concluso, e a verdade  que, no obstante as suas pomposas frases sobre a coragem e a dedicao, se vem obrigados a admitir que a retirada de Moscovo  assinalada por uma srie de vitrias de Napoleo e de derrotas de Kutuzov.
      No entanto, pondo de parte todas as questes de amor-prprio nacional, sente-se que esta concluso encerra em si uma contradio, pois essa srie de vitrias levou os Franceses ao aniquilamento total, enquanto as derrotas dos Russos os levaram ao esmagamento do inimigo e  libertao da Ptria.
      A razo desta contradio est no facto seguinte: que os historiadores, que estudam os acontecimentos de harmonia com a correspondncia dos imperadores e dos generais e segundo relatrios, relaes ou planos, pressupem um objectivo errado, que nunca existiu no perodo final da guerra de 1812, o qual era cortar a retirada aos exrcitos franceses e capturar Napoleo com os seus marechais. Nunca existiu semelhante objectivo, nem podia existir, visto no ter o mais pequeno sentido e ser absolutamente impossvel de alcanar.
      Semelhante finalidade no tinha o mais pequeno sentido, primeiro porque o exrcito derrotado de Napoleo fugia da Rssia o mais depressa que podia, isto , procedia exactamente de acordo com os desejos dos Russos.
      Para qu operaes contra os Franceses, quando eram eles prprios quem retirava a toda a pressa?
      Em segundo lugar, era absurdo cortar a retirada a quem se empenhava em fugir com toda a fora.
      Em terceiro lugar, era estpido sacrificar as prprias foras para esmagar os exrcitos franceses, os quais, sem causas exteriores, desapareciam numa proporo tal que, sem que se opusesse qualquer obstculo  sua fuga, se lhes tornava mesmo assim impossvel transpor a fronteira (como o vieram a conseguir em Dezembro) seno reduzidos  centsima parte dos seus efectivos.
      Em ltimo lugar, o projecto para aprisionar o imperador, os reis e os duques era ridculo, pois a captura de tais personalidades s teria servido para prejudicar a poltica russa, como o reconheceram os melhores diplomatas da poca. Joseph de Maistre e outros. E ainda era mais insensato quererem os Russos apoderar-se dos corpos franceses quando as tropas russas estavam reduzidas a metade antes de Krasnoie e seria precisa uma diviso de escolta para guardar os prisioneiros, quando era certo que os soldados russos nem sempre tinham a sua rao completa e que os franceses j capturados morriam de fome.
      Esta profunda concepo segundo a qual se deveria cortar a retirada aos exrcitos franceses e aprisionar Napoleo faz lembrar a atitude de um hortelo que para enxotar o gado que lhe espezinha a horta corre  porta da quinta e se pe a bater na cabea dos animais. S um excesso de ira justificaria semelhante atitude. Mas nem isto era de invocar para justificao dos autores do projecto, pois a verdade  que no tinham tido sequer o horto espezinhado.
      Alis, cortar a retirada a Napoleo e ao seu exrcito era uma operao no s absurda, mas impossvel.
      Impossvel, primeiro, porque, se  verdade que a experincia ensina que um movimento executado a cinco verstas de um campo de batalha nunca se harmoniza com o plano primitivo, era to inverosmil que Tchitchagov, Kutuzov e Wittgenstein chegassem a tempo ao local determinado que pode dizer-se impossvel. Tal a opinio de Kutuzov ao saber da existncia do plano, dizendo que uma diverso a grandes distncias no pode dar o resultado esperado.
      Em segundo lugar, impossvel porque, para se conseguir paralisar a fora da inrcia que fazia recuar o exrcito francs, era preciso dispor de tropas a incomparavelmente superiores quelas que os Russos tinham.
      Em terceiro lugar, ainda impossvel porque a expresso militar de cortar a retirada a um exrcito no tem sentido. Pode cortar-se um bocado de po, mas um exrcito, de maneira nenhuma. Cortar a retirada a um exrcito, isto , cortar-lhe o caminho, no  coisa que se possa fazer, pois h sempre maneira de contornar o obstculo, e h a noite, durante a qual todo e qualquer movimento se torna desapercebido, coisa de que os especialistas militares Puderam persuadir-se graas a Krasnoie e ao Beresina.  absolutamente impossvel aprisionar seja quem for, a menos que o aprisionado consinta, pela mesma razo de que ento  possvel apanhar uma andorinha, a no ser que ela venha pousar na nossa mo. Capturam-se aqueles que se entregam, como os Alemes, segundo as regras da estratgia e da tctica. Mas os Franceses no viam nisso vantagem alguma, pois em fuga ou capturados s a fome e o frio os esperavam.
      Em quarto lugar, sobretudo, deve considerar-se que desde que o mundo  mundo nunca houve guerra em condies to terrveis como a de 1812, e que os exrcitos russos, para perseguirem os Franceses, haviam posto em jogo todas as suas foras e no podiam fazer mais sem se aniquilarem a si prprios.
      Durante a sua marcha de Tarutino para Krasnoie, os Russos Perderam cinquenta mil doentes e retardatrios, quer dizer, um nmero de homens igual  populao de uma importante cidade de provncia. Metade do exrcito perdeu-se, sem combate.
      A propsito deste perodo da campanha em que as tropas, sem botas e sem agasalhos, com abastecimentos insuficientssimos, sem vodka, tiveram de passar as suas noites, durante meses, no meio da neve, com temperaturas de quinze graus negativos em que os dias apenas tinham sete ou oito horas de luz solar e as noites eram sem fim, o que tornava impossvel toda a disciplina eficaz: em que os homens, no como numa batalha, onde no vem a morte diante dos olhos seno durante algumas horas, Passavam meses inteiros receando, a cada instante, morrer de fome e de frio; em que, no decurso de um ms, metade do exrcito soobrou, a este propsito vm os historiadores contar-nos tranquilamente como Miloradovitch se viu obrigado a fazer uma marcha de flanco em tal stio, Tormassov em tal outro e Tchitchagov se viu forado a deslocar-se para determinado ponto, deslocao levada a cabo com neve para cima dos joelhos dos homens, e como fulano caiu em cima do inimigo e lhe cortou a retirada, etc.
      Os Russos, reduzidos, por morte, a metade dos seus efectivos, fizeram tudo o que puderam e deviam fazer para atingir um objectivo digno e a culpa no  sua se outros russos houve que, fechados em quartos confortveis, gizaram planos que se no podiam pr em prtica.
      Esta contradio estranha, que se no compreende nos nossos dias, entre os factos e as descries dos historiadores resulta apenas de estes terem querido fazer a histria dos belos discursos de certos generais em vez de contarem os acontecimentos.
      Interessante para eles so as palavras de Miloradovitch, as condecoraes recebidas por este ou por aquele general, os planos propostos. Os cinquenta mil desgraados que ficaram nos hospitais ou caram por terra no lhes interessam, porque no dizem respeito aos seus estudos.
      E, no entanto, basta voltarmos as costas ao exame dos relatrios e dos planos para vermos remexer essas centenas de milhares de homens que tomaram parte directa e imediata nos acontecimentos e tudo o que anteriormente nos parecia insolvel se nos apresentar desde logo como a soluo mais fcil e mais simples.
      O intento de cortar a retirada a Napoleo e ao seu exrcito apenas existiu na imaginao de meia dzia de indivduos. Era irrealizvel, por absurdo e impossvel.
      O povo s queria uma coisa: libertar o solo ptrio da invaso. Esse objectivo alcanou-se, primeiro sem a interveno fosse de quem fosse, visto que os Franceses fugiam e bastava deix-los fugir; em segundo lugar, graas  guerra patritica que exterminava os Franceses; e por fim porque um poderoso exrcito russo seguia de perto o inimigo, pronto a utilizar a fora caso os Franceses parassem no caminho.
      O exrcito russo devia agir como o chicote no dorso do animal que foge. E os pastores hbeis sabem que a melhor maneira de conduzir o gado  segurar o chicote ameaador no ar sem fustigar a cabea dos animais.







QUARTA PARTE
      

      
      
      
      Captulo I
      
      Quando o homem v morrer um animal, fica aterrorizado. A qualidade de ser vivo de que ele prprio participa desaparece diante dos seus olhos, deixa de existir. Mas quando aquele que morre  um ser humano, e um ser querido, alm desse horror perante a vida que desaparece, o homem sente um dilaceramento, uma ferida moral que, como o ferimento fsico, em certos casos leva  morte, noutras cura-se e por vezes tambm continua sensvel e receia os contactos exteriores.
      Depois da morte do prncipe, Natacha e a princesa Maria passaram ambas por essa experincia. Prostradas moralmente, esmagadas sob a terrvel nuvem da morte que se estendera sobre elas, deixaram de ser capazes de olhar a vida cara a cara. Preservavam cuidadosamente a sua ferida, que ainda sangrava, contra qualquer contacto capaz de a irritar. Uma carruagem que passava depressa de mais na rua, o anunciarem estar o jantar na mesa, a pergunta de uma criada relativa ao fato que era preciso preparar, e, ainda mais, uma palavra de simpatia pouco sincera, ou expressa de maneira superficial, tudo lhes irritava dolorosamente a ferida, produzindo-lhes a impresso de um ultraje, rompendo a calma que lhes era necessria para estarem atentas ao coro terrvel e severo que no deixava de lhes ressoar na imaginao e as impedia de contemplar as distncias misteriosas e infinitas que por instantes se haviam desvendado diante delas.
      S quando estavam ss nada as feria ou lhes fazia mal. Trocavam poucas palavras entre si. Quando falavam, era das coisas mais insignificantes. Tanto uma como outra evitavam toda a espcie de aluses ao que pudesse ser o futuro.
      Admitirem sequer a possibilidade de um futuro era uma ofensa  sua saudade. E ainda eram mais cautelosas em evitar que nas suas conversas se filtrasse fosse o que fosse alusivo ao defunto. Afigurava-se-lhes que as provas e as impresses por que tinham passado no podiam exprimir-se por meio de palavras.
      Parecia-lhes que qualquer aluso a pormenores da sua vida quebrava a majestade e a santidade do mistrio que passara diante dos seus olhos.
      A discrio que punham rias palavras, o silncio em relao a qualquer coisa que o pudesse lembrar, a maneira de se manterem sempre na reserva, s concorriam para lhes aguar a sensibilidade.
      Mas  to impossvel uma dor pura e perfeita como uma pura e perfeita alegria, A princesa Maria, de ento para c nica senhora do seu destino, tutora e educadora do sobrinho, foi a primeira a ouvir a voz da vida chamando-a para fora dessa atmosfera de tristeza em que vivera as duas primeiras semanas. Teve de responder a cartas de parentes seus. O quarto em que dormia Nikoluchka era hmido e a criana principiou a tossir.
      Alpatitch chegou a Iaroslav com as suas contas, propondo e aconselhando o regresso a Moscovo, pois a casa da Vozdvienka ficara intacta e apenas precisava, para ser ocupada, de algumas pequenas reparaes. A vida no parava e era preciso viver. Por mais penoso que fosse para ela sair daquela solido contemplativa em que vivera at a, por mais escrpulos e por mais que lhe custasse deixar Natacha sozinha, a vida reclamava-a, e ela no tinha outro remdio se no submeter-se-lhe. Verificou as contas de Alpatitch, aconselhou-se com Dessales a respeito do sobrinho e preparou as coisas para regressar a Moscovo.
      Natacha, s, evitava v-la sequer desde que ela se pusera a preparar a partida.
      A princesa Maria pediu licena  condessa para que Natacha a acompanhasse, e o pai e a me consentiram da melhor vontade, pois notavam que as foras fsicas da filha diminuam a olhos vistos. Pensavam que uma mudana de ares lhe seria favorvel e que podia consultar os mdicos de Moscovo.
      - No irei a parte alguma - respondeu Natacha s propostas que lhe fizeram -, s desejo uma coisa, que me deixem em paz - E dizendo isto fugiu, retendo dificilmente as lgrimas menos de dor que de despeito e clera.
      Desde que se sentira abandonada pela companheira e entregue sozinha  sua dor passava a maior parte do tempo no quarto, enterrada no canto do div, entretendo os dedos finos e geis nalgum trabalho maquinal, os olhos fixos obstinadamente, e sem verem, num ponto qualquer na sua frente. Esta solido esgotava-a, fazia-lhe mal, mas era-lhe necessria. Quando algum entrava no quarto, levantava-se imediatamente, mudava de atitude, modificava a expresso do olhar e punha-se a ler ou a coser, esperando, impaciente, que o importuno voltasse a sair. Parecia-lhe sempre estar a ponto de compreender e penetrar o terrvel e, acabrunhador problema que lhe tomava todas as foras espirituais.
      No fim de Dezembro, com um vestido de l preto, a trana negligentemente amarrada no alto da cabea, magra e plida, Natacha estava acocorada no seu div, desfiando inconscientemente a ponta do cinto, os olhos fitos no rigulo da porta.
      Olhava o ponto donde ele partira para a outra vida. E essa outra vida em que ela no pensara antes, que se lhe afigurava to distante, to inverosmil, era-lhe agora prxima e familiar, muito mais inteligvel que a vida presente, onde s havia futilidades e runas, sofrimento e dor.
      Olhava para o ponto onde ela sabia que ele estava, mas no podia v-lo seno como o vira nos ltimos tempos. Via-o como ele estava em Mitichtchi, em Troisa, em Iaroslav.
      Via-lhe o rosto, ouvia-lhe a voz, repetia as suas prprias palavras e as que ele lhe dirigia e por vezes imaginava ainda frases que poderiam ter trocado.
      Ele ali estava, estendido na poltrona, com o casaco forrado de veludo, a cabea apoiada na mo magra e plida. Tem o peito metido para dentro e os ombros salientes, os lbios cerrados, os olhos brilhantes e rugas lhe aparecem e desaparecem na testa plida. Uma das suas pernas agita-se nervosamente de maneira quase insensvel. Natacha pensa que ele est lutando naquele momento contra uma dor pungentssima. Que dor? Porqu essa dor? Que sente ele? Que espcie de dor  a sua?, pensa Natacha. Ele, porm, reparou que ela est inquieta, ergueu os olhos e ps-se a falar sem sorrir.
      Que coisa horrvel ligar-se uma mulher para toda a vida a um homem doente.  um suplcio perptuo. E, falando assim, olhava-a escrutadoramente. Natacha, como sempre, responde-lhe sem reflectir no que lhe diz: Isso no pode continuar assim, no pode ser, h-de recuperar a sade por completo.
      S agora podia ler no seu pensamento e reviver os seus sentimentos de ento. Lembrava-se do triste e severo olhar que por muito tempo pousara nela quando falara e compreendeu a espcie de reproche e de desespero que esse olhar encerrava.
      Era de considerar, dizia ela agora, horrvel ele permanecer sempre naquele sofrimento. Falei ento desse modo porque, efectivamente, seria horrvel para ele, mas ele interpretou as minhas palavras de outra maneira. Julgou que eu queria dizer que seria horrvel para mim. Nessa altura ainda ele tinha amor  vida, ainda tinha medo de morrer. Fui estpida, brutal. Falei sem reflectir. Estava a pensar em coisa muito diferente. Se eu me tivesse expressado como realmente pensava, ter-lhe-ia dito que seria feliz vendo-o agonizante, sempre agonizante diante dos meus olhos, que preferia isso a sofrer como hoje sofro. Hoje nada mais existe, ningum. Teria ele compreendido o fundo do meu pensamento? No, no o compreendeu nem nunca o poder conhecer. E agora nunca, nunca mais poderei reparar a falta que cometi. E l est ele a dirigir-lhe as mesmas palavras e mental- mente ela a responder-lhe de maneira totalmente diferente. F-lo calar e diz-lhe: Isso  horrvel para si, mas no para mim. Sem si, a vida, para mim, no tem sentido, e sofrer consigo seria, para mim, a maior das felicidades. E ele, ento, pega-lhe na mo e aperta-a entre as suas, como nessa medonha noite, quatro dias antes do fim. E imaginava palavras de ternura e amor que ento lhe no saram dos lbios, mas que lhe dizia agora, Amo-te!... Sim, amo-te, amo-te, repetia ela, juntando convulsivamente as mos e apertando os dentes uns contra os outros com a maior violncia.
      E ento invadia-a uma dor menos amarga e as lgrimas saltavam-lhe dos olhos. De sbito, porm, perguntava a si prpria a quem estava a falar. Onde est ele e quem  ele agora? E de novo se sentia submersa numa cruel incerteza, que lhe detinha as efuses, e de sobrancelhas carregadas fixava os olhos no espao, na direco onde ele podia estar. E pouco a pouco julgava ter penetrado o mistrio... No momento, porm, em que julgava que o incognoscvel se lhe ia revelar, um golpe violento no fecho da porta lhe impressiona o ouvido. Sem pedir licena, o rosto plido e descomposto, entra no quarto Duniacha, a criada.
      - Depressa, o pai, depressa - exclama Duniacha vivamente e retendo os soluos. - Uma desgraa, Piotre Ilitch... Uma carta.
      

      
      
      
      Captulo II
      
      A averso que Natacha sentia por toda a gente ainda era mais acentuada pelas pessoas da famlia. Todos os seus, o pai, a me, Snia, lhe eram to prximos, to familiares, via-os tanta vez, que as suas palavras, os sentimentos que eles exprimiam, lhe pareciam uma ofensa a esse mundo ideal em que vivia naqueles ltimos tempos, e testemunhava-lhes no s indiferena, mas uma espcie de hostilidade. Ouviu sem compreender Duniacha, que lhe falava de Piotre Ilitch e de uma desgraa.
      De que desgraa me est ela a falar, que desgraa pode ter acontecido? Para eles, os dias decorrem sempre da mesma maneira, por hbito, tranquilamente, dizia de si para consigo.
      Ao entrar no salo viu o pai sair bruscamente do quarto da condessa, o rosto contrado e banhado de lgrimas. Via-se que sara do quarto contguo para poder expandir a sua dor. Ao ver Natacha fez um gesto de desespero e soltou uns soluos convulsivos que lhe contraram a grossa e plcida figura.
      - Ptia... Ptia... Depressa... Ela... chama-te. - E, a chorar como uma criana, aproximou-se, em passos midos, de uma cadeira, as pernas a tremer. Deixou-se cair nela, cobrindo a cara com as mos.
      De sbito como que uma descarga elctrica percorreu Natacha dos ps  cabea. Sentiu um golpe terrvel no corao, Julgou que qualquer coisa se rompera nela e que ia morrer. Mas a dor foi imediatamente seguida do sentimento de se haver libertado da interdio de viver que sobre ela pesava. A presena do pai, os gritos medonhos e selvagens da me, ressoando no aposento vizinho, fizeram-na esquecer a sua prpria dor.
      Correu para o pai, mas este, num gesto impotente, indicou-lhe a porta do quarto. A princesa Maria, plida e trmula, surgiu no limiar da porta, e, pegando na mo de Natacha, disse-lhe qualquer coisa. Natacha, sem a ver, sem a ouvir, encaminhou-se rapidamente para o quarto contguo, parou, irresoluta, alguns instantes, depois correu para a me.
      A condessa estava estendida numa poltrona, sacudida por estranhas convulses nervosas, e batia com a cabea na parede. Snia e a criada seguravam-lhe os braos.
      - Natacha, chamem a Natacha!... No  verdade... Mentem... Onde est a Natacha? - gritava, repelindo as pessoas que a rodeavam. - Vo-se todos embora, no  verdade! Mataram-no!... Ah! Ah! Ah!... No  verdade!
      Natacha ajoelhou-se, inclinou-se para ela, tornou-a nos braos, levantou-a com uma fora inesperada e, voltando para a sua a cara da me, encostou-lhe os lbios.
      - Me!... Mezinha!... Estou aqui, minha mezinha dizia-lhe ela muito baixinho e incessantemente.
      No a deixou um s minuto; lutava ternamente contra ela, pedia almofadas, gua, desapertava-lhe o vestido.
      - Minha querida me!... Minha mezinha! - continuava, beijando-a na cabea, nas mos, nas faces, e sentindo lgrimas inexaurveis correr-lhe, em torrente, pela cara abaixo.
      A condessa apertou-lhe a mo, fechou os olhos e serenou por momentos. De sbito ergueu-se com uma energia insuspeitada, lanou  sua volta um olhar esgazeado, e, vendo Natacha, estreitou-lhe com toda a fora a cabea entre as mos. Em seguida, voltando contra o seu esse rosto contrado pela dor, fitou-o longamente.
      - Natacha, gostas de mim? - disse-lhe muito baixinho, num tom confiante - Natacha, tu no me enganas? Vais dizer-me toda a verdade.
      Natacha fitou-a com os olhos velados pelas lgrimas. Parecia implorar-lhe o seu perdo e o seu amor.
      - Minha querida mezinha - repetia, dilatando todas as f oras do seu amor, como a tentar chamar a si parte da dor que esmagava a me.
      E na sua luta impotente contra a realidade, esta, recusando-se a acreditar que pudesse continuar a viver, uma vez que o seu querido filhinho morrera na flor da idade, de novo se evadiu para o mundo do delrio, fugindo, assim,  terrvel evidncia.
      Natacha nunca soube dizer depois o que passara naquele dia, naquela noite, no dia seguinte e na noite do dia seguinte. No dormiu e no deixou a me um s instante. O seu amor obstinado, paciente, que no procurava explicar nem consolar, envolvia-a por todos os lados e a cada momento numa ternura que era como que um apelo  vida.
      Na terceira noite a condessa serenou por alguns instantes e Natacha aproveitou a circunstncia para fechar os olhos, a cabea apoiada no brao de uma poltrona. Ao ouvir a cama ranger abriu os olhos e viu a me sentada no leito a falar baixo sozinha.
      - Como me sinto feliz que tenhas voltado. Ests cansado, meu menino, queres tomar ch?
      Natacha, ao ouvir estas palavras, aproximou-se da cama. - Que grande e lindo que tu s! - continuava a condessa, apertando o brao da filha.
      - Mezinha, que ests tu a dizer? - Natacha, acabou-se, acabou-se.
      E, abraando a filha, pela primeira vez rompeu a chorar.
      

      
      
      
      Captulo III
      
      A princesa Maria adiara a partida. Snia e o conde haviam tentado debalde substituir Natacha. Reconheciam que s ela seria capaz de deter a me  beira de um desespero vizinho da loucura. Durante trs semanas Natacha manteve-se continua- mente ao lado da condessa; dormia numa poltrona, dava-lhe de comer e beber, falava-lhe constantemente, pois sabia que s a sua voz terna e carinhosa a podia serenar.
      A ferida moral da pobre senhora no podia curar-se. A morte de Ptia levara-lhe o melhor da sua vida. Um ms depois de ter conhecimento da terrvel notcia, essa mulher de cinquenta anos, gil e robusta, ao voltar a sair pela primeira vez, no passava de uma velha meio morta, sem o mais pequeno interesse na vida. No entanto a ferida que fulminara a condessa, por sua vez chamara  vida Natacha.
      Por estranha que parea, a verdade  que a ferida moral produzida por um desregramento do esprito cicatriza-se, pouco a pouco, como uma ferida fsica, renovando ela prpria os seus tecidos, graas  fora vital que vem de dentro.
      Assim cicatrizou a ferida de Natacha. Julgava ela que a vida se lhe acabara. Mas, de sbito, o amor pela me deu-lhe a prova de que a essncia da sua vida, o amor, continuava a viver dentro dela. Despertando o amor, tambm despertara a vida.
      Os ltimos dias do prncipe Andr j tinham unido Natacha e a princesa Maria. Esta nova desgraa ainda mais as aproximou. Maria adiara para mais tarde a sua partida e durante aquelas trs ltimas semanas cuidara de Natacha como de uma criana doente. As semanas passadas ao p da me tinham abalado gravemente as foras fsicas da jovem.
      Certa vez a princesa Maria, ao reparar que Natacha, em pleno dia, tinha arrepios de febre, levou-a para o seu quarto e obrigou-a a deitar-se, mas quando Maria, depois de puxar os estores, ia sair, chamou-a.
      - No me apetece dormir, Maria. Fica ao p de mim. 
      - Ests fatigada, procura dormir.
      - No, no. Porque me trouxeste para aqui? Ela vai chamar-me.
      - Est muito melhor. Falou hoje com muito juzo - disse Maria.
      Natacha, estendida na cama, olhava para Maria na obscuridade do quarto.
      Parece-se com ele?, interrogava-se ela. Parece-se e no se parece. H nela qualquer coisa de particular, de estranho, de completamente novo, que eu no conheo. E gosta de mim. Que haver no seu corao? Nada que no seja de primeira ordem. Mas em que pensa ela? Que opinio tem de mim? Sim.  uma bela alma.
      - Macha - chamou-a timidamente, puxando para si a mo da amiga. - Macha, no vs pensar que sou m. Sim, Macha, minha querida Macha. Gosto muito de ti. Sejamos amigas, amigas completas.
      E Natacha, abraando-a, beijou-lhe o rosto e as mos. A princesa Maria, um pouco confusa, respondeu, no entanto, com alegria a estas efuses.
      A partir daquele dia houve entre elas uma amizade apaixonada e carinhosa, s possvel entre mulheres. Beijavam-se a todo o momento, diziam uma  outra palavras ternas e passavam quase todo o tempo juntas. Quando uma se ausentava, logo a outra ficava inquieta e se dava pressa em ir ao seu encontro. Sentiam-se mais em paz consigo prprias juntas que quando separadas e entregues a si mesmas. Um sentimento mais forte mesmo que a amizade as unia: a convico de no poderem viver uma sem a outra.
      Algumas vezes ficavam horas inteiras sem falar; outras, assim que se deitavam, punham-se a tagarelar at de manh. A princesa Maria falava da sua infncia, da me, do pai, dos seus sonhos; e Natacha, que outrora se afastara com tranquila indiferena daquela vida de abnegao e submisso, dessa abnegao crist de que desconhecia a poesia, agora, que estava unida a Maria por laos to ternos, adorava o seu passado, compreendia uma vida cujo sentido at a lhe escapara. No pensava em praticar aquela submisso e aquela abnegao absolutas, pois estava habituada a outras satisfaes, mas compreendia e apreciava noutrem virtudes que antes lhe eram inacessveis. A princesa Maria, ao ouvir a histria da infncia e da primeira juventude de Natacha, descobriu, pela sua parte, um mundo desconhecido para ela: a f na vida e nos seus prazeres.
      Quase nunca falavam dele, realmente, para no perturbarem, assim pelo menos o supunham, a elevao dos sentimentos que lhes enchiam a alma, e o silncio que mantinham fizera que elas, Pouco a pouco, sem mesmo darem por isso, acabassem por esquec-lo.
      Natacha estava magra e plida, e to fraca que todos se preocupavam com a sua Sade, o que lhe dava um certo prazer. Outras vezes, porm, sentia-se subitamente dominada, seno pelo medo da morte, pelo menos pelo receio de estar doente, de per- der as foras e a beleza, e surpreendia-se a contemplar espantada as suas mos descarnadas ou, pela manh, a mirar no espelho o rosto que se lhe afigurava repuxado e doentio. De si para consigo dizia que assim tinha de ser, mas nem por isso deixava de ser triste e assustador.
      Um dia, depois de subir umas escadas apressadamente, sentiu-se sufocar. Acto contnuo imaginou um motivo para voltar a descer as escadas e de novo subi-las, na inteno de observar e medir as suas foras.
      De outra vez, ao chamar Duniacha, faltou-lhe a voz. Chamou-a de novo, embora estivesse a ouvir-lhe os passos, com essa voz do peito que usava para cantar e ficou-se  escuta.
      No o sabia nem poderia acreditar que assim fosse, mas a verdade  que sob a espessa camada de hmus que lhe revestia a alma, parecia despontar j uma plantazinha tenra que no tardaria a crescer e a estender os seus vigorosos rebentos sobre a dor que a esmagava, dor que no tardaria muito a no ser visvel nem perceptvel. A sua ferida cicatrizara pelo interior.
      No fim de Janeiro a princesa Maria partiu para Moscovo e o conde insistiu para que Natacha a acompanhasse na inteno de consultar os mdicos.
      

      
      
      
      Captulo IV
      
      Depois do choque dos exrcitos em Viazma, onde Kutuzov no pudera refrear o desejo das suas tropas ansiosas por aniquilar e cortar a retirada ao inimigo, o movimento de recuo dos Franceses, perseguidos pelos Russos, continuou at Krasnoie sem outra batalha. A fuga era to rpida que o exrcito russo no podia acompanhar os Franceses. Havia falta de cavalos na cavalaria e na artilharia e no se sabia com preciso onde o inimigo estava.
      Os homens, extenuados por esta marcha ininterrupta,  razo de quarenta verstas em vinte e quatro horas, no podiam andar mais depressa.
      Para que possa compreender-se o grau de esgotamento do exrcito russo basta verificar-se o seguinte: se desde Tarutino esse exrcito no perdera, entre mortos e feridos, mais de cinco mil homens, alm de uma centena de prisioneiros, e se  sada de Tarutino contava cem mil homens, o certo  que, ao chegar a Krasnoie os seus efectivos no iam a mais de cinquenta mil,
      A rapidez da perseguio agia sobre o exrcito russo de maneira to dissolvente como a fuga no exrcito francs. A nica diferena estava nisto: que o exrcito russo avanava a seu talante, sem a ameaa que a cada momento pesava sobre o exrcito francs, que via os retardatrios doentes carem nas mos do inimigo. Os Russos sempre estavam em sua casa. A causa principal das perdas do exrcito napolenico foi a rapidez da sua marcha e a prova incontestvel est nas perdas idnticas das tropas russas.
      Kutuzov, tanto em Tarutino como em Viazma, fez tudo o que pde para no entravar a retirada mortfera dos Franceses, como queriam Petersburgo e os generais do exrcito, antes, pelo contrrio, favoreceu-a, facilitando o movimento avante dessas tropas.
      Mas, alm da lassido das tropas e das perdas que sofreram, consequncia da marcha acelerada. Kutuzov ainda tinha outro motivo para moderar os seus mpetos e ganhar tempo. Evidentemente que o objectivo dos Russos era perseguir os Franceses. A estrada que estes seguiam no era conhecida da, quanto mais os Russos lhe seguiam o rastro, mais distanciados eles estavam. S seguindo-os a uma distncia respeitvel era possvel, metendo por atalhos, cortar os ziguezagues que o inimigo efectuava na sua marcha. As sbias manobras propostas pelos generais traduziam-se em toda a sorte de movimentos de tropas, numa multiplicao das jornadas e a nica coisa razovel a fazer era reduzir o nmero destas marchas. Foi esse o objectivo que Kutuzov procurou realizar energicamente, durante toda a campanha, de Moscovo a Vilna, no temporariamente ou ao acaso, mas com um tal esprito de continuidade que dele se no desviou uma s vez.
      Kutuzov, no graas a um esforo de raciocnio ou merc dos seus conhecimentos militares, mas instintivamente, com todas as fibras do seu ser, sentia que todos os seus soldados acreditavam na derrota dos Franceses, que o inimigo fugia e que era necessrio reconduzi-lo. Ao mesmo tempo, porm, tanto ele como os seus homens, davam-se conta do fardo que representava esta campanha inaudita na sua rapidez e na estao do ano em que se realizava.
      Quanto aos generais, sobretudo os que no eram russos, e no queriam outra coisa seno distinguir-se, provocar surpresa, aprisionar um duque ou um rei, esses eram de opinio de que, para travar batalha e vencer, o movimento era preciso. E nada teria sido mais absurdo e mais culpvel. Kutuzov limitava-se a encolher os ombros quando general aps general lhe vinham apresentar os seus planos de movimentos com soldados mal calados, sem roupas quentes e esfomeados. Num ms, sem travar batalha, o exrcito russo perdera metade dos seus efectivos, e nas condies mais favorveis ainda tinha de percorrer at  fronteira uma distancia maior do que a que percorrera j.
      Esta nsia de se distinguirem, de manobrarem, de esmagarem ou cortarem a retirada ao inimigo, manifestava-se sobretudo sempre que os Russos vinham a encontrar-se na presena do exrcito francs.
      Assim aconteceu em Krasnoie, onde julgaram ter pela frente uma das trs colunas francesas e onde vieram a defrontar o prprio Napoleo e dezasseis mil homens. Apesar de todos os esforos de Kutuzov para evitar um conflito funesto e poupar os seus homens, as tropas russas extenuadas levaram trs dias a aniquilar os bandos franceses.
      Toll redigiu o dispositivo: die erste Kolonne marschirt (Em alemo no texto original A primeira coluna marcha, etc.. (N dos T.), etc., E, como sempre, nada se fez segundo o dispositivo. O prncipe Eugnio de Wurtemberg fuzilava do alto de um monte os franceses que fugiam e pedia reforos, que nunca chegaram. Os Franceses, iludindo os Russos, durante a noite, espalharam-se, esconderam-se lias florestas e acabaram por escapar-se-lhes.
      Milarodovitch, que dizia no querer saber das necessidades materiais do seu destacamento, e nunca ningum encontrava onde era preciso, esse cavaleiro sem medo e sem mcula, como se cognominava a si mesmo, esse amador de entendimentos com os Franceses, enviou-lhes parlamentrios com a intimao de se renderem, perdeu o seu tempo e acabou por fazer, precisamente, que lhe no tinham ordenado.
      - Rapazes, ofereo-vos esta coluna - dizia ele para os seus soldados de cavalaria, mostrando-lhes os Franceses.
      E a cavalaria, em cima de cavalos que mal se podiam mexer, instigados  fora de espora e sabre, marchou a trote curto, penosamente, sobre a coluna que ele lhe oferecia, isto , sobre um bando de homens mortos de fome e enregelados. E a coluna, lanando fora as suas armas, fez o que h muito desejava: rendeu-se.
      Em Krasnoie fizeram vinte e seis mil prisioneiros, tomaram centenas de canhes e um basto, que se dizia ser de marechal, houve discusses sobre quem mais se distinguira, e sentiram-se contentes com isso, lamentando muito, todavia, no terem capturado Napoleo ou outro qualquer heri, um marechal, por exemplo, e disso se acusaram uns aos outros, responsabilizando sobretudo Kutuzov.
      Estes homens, que s davam ouvidos s suas prprias paixes, no passavam de cegos instrumentos de uma triste e inexorvel fatalidade. Mas estavam convencidos de que eram heris e julgavam cumprir a mais bela e a mais nobre das misses. Acusavam Kutuzov e diziam que desde que a campanha principiara no fizera outra coisa seno impedi-los de vencer Napoleo, que apenas pensava em satisfazer as suas paixes e no queria abandonar as suas casas de pano, pois s a se sentia em sossego: que em Krasnoie detivera o exrcito, pois, ao saber da presena de Napoleo, perdera por completo a cabea; que estava em contacto com ele e que fora comprado pelo imperador dos Franceses, etc. (Memrias de Wilson. (Nota de Tolstoi).
      No s os contemporneos, cegos de paixo, falaram assim. A posteridade proclamou Napoleo grande e os historiadores estrangeiros disseram que Kutuzov era um velho corteso, dbil, manhoso e corrupto. E os Russos, esses, pintaram-no como uma criatura indefinvel, espcie de palhao, apenas til em determinado momento, graas ao seu nome essencialmente eslavo.
      

      
      
      
      Captulo V
      
      Durante os anos de 1812 e 1813, Kutuzov foi francamente acusado pelos seus erros. O imperador estava descontente com ele. Uma histria escrita nessa altura dizia que ele era um corteso lisonjeador e embusteiro, que tremia s de ouvir o nome de Napoleo e, merc dos erros que cometera em Krasnoie e no Beresina, privara o exrcito russo de obter uma completa vitria sobre os Franceses (Histria do Ano 1812, por Bogdanovitch; retrato de Kutuzov e dissertaes sobre os resultados insuficientes da batalha de Krasnoie. (Nota de Tolstoi)..
      Tal  o destino dos homens superiores que no se atribuem a si prprios o ttulo de grandes homens, to contrrio ao temperamento russo, dessas raras e nicas personalidades que, interpretando os desgnios da Providncia, a ela submetem os seus prprios. O dio e o desprezo da multido castigam estes homens por haverem previsto leis superiores.
      Para os historiadores russos, por estranho e penoso que isso parea, Napoleo, esse insignificante instrumento da histria, que nunca e em circunstncia alguma, nem mesmo no exlio, deu provas de dignidade humana, esse Napoleo  motivo de entusiasmo e exaltaes:  grande. Kutuzov, pelo contrrio, ele, que desde o comeo, em 1812, at ao fim da sua aco, de Borodino a Vilna, nem uma s vez se contradisse por palavras ou actos, esse homem, que  o exemplo mais notvel da histria de sacrifcio e clarividncia do futuro na realidade presente. Kutuzov, aos olhos deles, no passa de qualquer coisa de indefinvel e lamentvel e parece quase sempre envergonhado de falar de si prprio e dos acontecimentos em que participou.
      E no entanto  difcil conceber uma personagem histrica cujos actos tenham sido dirigidos com maior perseverana para um s e nico fim.  difcil imaginar escopo mais nobre e mais de acordo com a vontade de todo um povo. E ainda  mais difcil encontrar na histria um objectivo de antemo assinalado que haja sido mais completamente realizado que aquele que se props Kutuzov em 1812.
      Kutuzov nunca falou dos quarenta sculos que nos contemplam do alto das Pirmides, dos sacrifcios que fez pela ptria, do que tencionava fazer ou do que realizou; nunca falou propriamente de si prprio, nunca se props representar um papel. Sempre teve o aspecto do homem mais simples e mais comum, dizendo as coisas mais simples e mais banais. Escrevia s filhas e a Madame de Stal, lia romances, gostava do convvio das mulheres bonitas, gracejava com os generais, os oficiais e os soldados, e nunca desmentia as pessoas que lhe queriam provar fosse o que fosse. Quando Rostoptchine, na ponte de Iauza, lhe veio fazer censuras pessoais, acusando-o de responsvel pela perda de Moscovo e declarando-lhe: Pois qu, o senhor prometera entregar a cidade sem combate?, ele respondeu-lhe: Mas no a entregarei sem combate!, quando  certo que a cidade a essa hora j cara nas mos dos Franceses.
      Quando, tendo-o procurado em nome do imperador, Araktcheiev lhe disse ser preciso nomear Ermolov para o comando da artilharia, ele respondeu-lhe: Sim, era precisamente isso que eu dizia, embora momentos antes tivesse dito exactamente o contrrio. Que lhe importava a ele, a nica pessoa no meio daquela gente absurda que o cercava que compreendia ento o sentido formidvel dos acontecimentos, que lhe importava que a infeliz sorte da capital fosse atribuda a Rostoptchine ou a ele prprio? E se isso lhe no importava, como lhe havia de importar o nome do comandante da artilharia?
      No s nestes casos, mas constantemente, este velho, que adquirira, pela sua experincia da vida, a convico de que tudo quanto se possa pensar ou dizer est longe de influir na direco dos homens, apenas dizia palavras insignificantes, as primeiras que lhe vinham  cabea. Contudo este homem, que to pouca importncia atribua s suas palavras, nunca em toda a sua vida activa pronunciou uma palavra que no tivesse em vista o objectivo nico que se propusera no decurso de toda a guerra. No entanto, a involuntariamente,  certo, apesar de ter a certeza, bem triste, de que o no compreenderiam, mais de uma vez, em circunstncias muito diferentes, exprimiu o fundo do seu pensamento. No foi ele, depois da batalha de Borodino, causa inicial das dissenses com os homens que o rodeavam, o nico a exprimir a opinio de que aquela batalha constitua uma vitria, opinio que repetiu tanto oralmente como nos seus relatrios e at nos seus relatos, at  sua derradeira hora? S ele tambm se atreveu a dizer que a perda de Moscovo no era a perda da Rssia. Na sua resposta a Lauriston, que pedia a paz, no  certo ter afirmado que a paz no era possvel porque o povo a no queria? No foi ele o nico, durante a retirada dos Franceses, que garantiu que os movimentos russos eram inteis, que as coisas se arranjariam por si melhor do que o que se podia desejar, que ao inimigo que foge ponte de euro, que no tinham sido necessrios nem o combate de Tarutino nem os de Viazma ou de Krasnoie, que era preciso atingir a fronteira com foras suficientes, que no daria um soldado russo por dez franceses?
      E foi s ele, esse homem que nos pintam como se fosse um corteso, e que dizem ter mentido a Araktcheiev para agradar ao imperador, foi ele quem ousou, em Vilna, sabendo que desagradava ao seu monarca, afirmar que a continuao da guerra para l da fronteira seria prejudicial e sem sentido.
      No disse estas palavras apenas para provar que compreendia muitssimo bem o sentido dos acontecimentos. Os seus actos, todos, sem excepo alguma, visaram este trplice objectivo: concentrar todas as suas foras no intuito de fazer frente aos Franceses, vencer o, inimigo e por fim expuls-lo da Rssia, minorando quanto possvel os sofrimentos do povo e do exrcito.
      S ele, Kutuzov, o contemporizador, cujo lema era: Pacincia e Tempo, s ele, o inimigo dos actos decisivos, trava a batalha de Borodino dando aos preparativos dela uma solenidade sem exemplo. Esse Kutuzov, que em Austerlitz previra que a batalha seria perdida em Borodino, a despeito da opinio dos generais que afirmavam certa a derrota, a despeito do exemplo nico na histria de um exrcito vitorioso que abandona o campo de batalha, afirma, s e at  morte, contra a opinio de todo o mundo, que essa batalha constitui uma vitria. S ele, enquanto dura a retirada, insiste para que se no travem novos combates, que eram inteis, sustentando que se no devia comear nova guerra, nem atravessar a fronteira.
      Hoje, desde que se ponham de lado todos esses objectivos que s um reduzido nmero de homens concebia,  fcil darmo-nos conta dos acontecimentos, pois esto a ver-se agora todas as suas consequncias.
      Mas como  que esse velho, sozinho contra a opinio de todos os outros, pde adivinhar to bem o instinto popular na inteligncia dos factos que nunca o atraioou?
      Essa extraordinria clarividncia tinha a sua fonte no sentimento patritico que nele vibrava em toda a sua fora e em toda a sua pureza.
      O povo, por estranhas vias, soube reconhecer naquele homem esse sentimento intenso e escolher esse velho, ento do desagrado do monarca, contra a vontade do czar, para que fosse ele a, conduzir a guerra patritica. E s esse sentimento o colocou em tal altura moral e fez que, generalssimo, empregasse todos os seus esforos, no para que fossem mortos e exterminados os seus homens, mas salvos e poupados.
      Esta figura simples, modesta e por conseguinte magna figura, no podia amoldar-se  forma mentirosa do heri europeu, pseudo-dominador dos povos, que a histria imaginou.
      No h grandes homens para o seu criado de quarto, porque o criado de quarto tem a sua maneira pessoal de compreender a grandeza.
      

      
      
      
      Captulo VI
      
      O dia 5 de Novembro foi o primeiro dia da batalha conhecida pela batalha de Krasnoie. Para a noite, depois de muitos debates e de falsas manobras dos generais, aps numerosas expedies de ajudantes-de-campo portadores de ordens contraditrias, quando se tornou evidente que o inimigo fugia por todos os lados e que era impossvel travar batalha, Kutuzov seguiu de Krasnoie para Dobroie, para onde fora transferido, durante o dia, o quartel-general.
      Fazia um tempo claro e frio. Kutuzov, seguido de uma imponente comitiva de generais, que em voz baixa exprimiam o seu descontentamento, dirigia-se para Dobroie, montado no seu bem nutrido cavalo branco. Ao longo da estrada, em volta das fogueiras, juntavam-se os prisioneiros franceses capturados durante o dia, num total de sete mil. A pequena distncia da aldeia um grande grupo desses prisioneiros esfarrapados, embrulhados nos primeiros trapos que tinham encontrado  mo, falava em tom elevado, junto de uma longa fila de peas francesas desatreladas. Quando o general-chefe se aproximou, as conversas cessaram e todos os olhares convergiram para Kutuzov, que, com um gorro branco de rebordos vermelhos, embrulhado numa capa almofadada, caminhava lentamente, as costas vergadas e esbarrondado sobre o cavalo. Um general ia-lhe explicando onde tinham sido apreendidas as peas e capturados os prisioneiros.
      Kutuzov, preocupado, no ouvia o que lhe diziam. Piscava o seu nico olho com uma expresso descontente e observava os prisioneiros, de aspecto particularmente lamentvel. A maior parte deles tinham as faces e o nariz gelados e os olhos vermelhos, inchados e lacrimosos.
      Um grupo encontrava-se mesmo junto do caminho, e dois soldados, um dos quais com a cara cheia de pstulas, rasgavam  mo um pedao de carne crua. No olhar furtivo que lanaram aos generais havia qualquer coisa de terrvel e bestial e o soldado do rosto em ferida teve uma expresso feroz quando viu Kutuzov, voltando-se em seguida e continuando a sua tarefa.
      O general-chefe contemplou por algum tempo esses dois soldados. Com uma expresso cada vez mais preocupada, abanava pensativamente a cabea. Noutro ponto reparou num soldado russo que, rindo e batendo familiarmente no ombro de um francs, lhe falava amistosamente, Kutuzov teve idntico abanar de cabea.
      - Que ests tu a dizer? - perguntou ele ao general que continuava a fazer o seu relatrio, procurando chamar-lhe a ateno para as bandeiras francesas capturadas que, hasteadas, se encontravam diante do regimento Preobrajenski.
      - Ah! As bandeiras! - exclamou Kutuzov, arrancando-se, penosamente, ao curso das suas reflexes.
      E lanou  sua roda um olhar distrado. Milhares de olhos,  sua volta, se fixaram nele, aguardando o que ele ia dizer. Diante do regimento Preobrajenski parou, soltou um profundo suspiro e fechou os olhos. Algum da comitiva fez sinal aos soldados que empunhavam as bandeiras para que se aproximassem e estes agruparam-se em volta do general-chefe, empunhando os estandartes. Kutuzov esteve calado alguns instantes, e, sem grande prazer, apenas como se se submetesse s circunstncias, ergueu a cabea e ps-se a falar. A chusma dos oficiais envolveu-o. Kutuzov percorreu-os atentamente com o olhar, reconhecendo alguns.
      - Agradeo-vos a todos! - disse, primeiro virado para os soldados e depois para os oficiais. E no silncio que reinava as suas palavras destacavam-se nitidamente. - Agradeo-vos o vosso penoso e fiel servio, A vitria  completa e a Rssia no vos esquecer. Que a glria seja convosco para sempre!
      Calou-se e olhou em volta de si.
      - Abaixa-lhe, abaixa-lhe a cabea! - gritou ele a um soldado que inclinava, sem querer, a guia francesa diante da bandeira do regimento Preobrajenski. - Mais, mais para baixo, assim. Hurra!, rapazes! - gritou, dirigindo-se aos soldados com uma contraco nervosa do queixo.
      - Hurra! Hurra! - rugiram milhares de vozes.
      Enquanto os soldados gritavam, ele, debruado sobre a sela, inclinava a cabea, e pelo seu nico olho perpassou-lhe um lampejo ligeiramente trocista.
      - Ouam-me, rapazes - principiou, quando as vozes se calaram.
      E de sbito a sua voz e a expresso do rosto mudaram por completo. J no era o general quem falava, mas um velho, simplesmente, que queria agora comunicar coisas urgentes aos seus camaradas.
      Houve uma agitao no meio dos oficiais e nas fileiras dos soldados, todos tentando ouvir o melhor possvel o que ele ia dizer.
      - Ouam, rapazes. Eu bem sei que  duro, mas que havemos de fazer? Tenham pacincia. J no  por muito tempo. Vamos acompanhar os nossos hspedes e depois toca a descansar. O czar no esquecer os vossos servios.  duro, mas, seja como for, vocs esto naquilo que vos pertence: em vossa casa. Mas esses, olhem para eles, onde esto eles? - acrescentou, apontando para os prisioneiros. - Esto em pior estado que os mais miserveis bandidos, Quando eram poderosos, no tnhamos que nos compadecer deles, mas agora tambm os podemos lamentar. So homens como ns. No  verdade, rapazes?
      Kutuzov olhou  sua volta, e em todos os olhares atentos, respeitosamente interrogadores, fixados nele, havia simpatia pelas suas palavras. O rosto cada vez se lhe iluminava mais do seu bom sorriso de velho, que lhe abria estrelas de rugas nas comissuras dos lbios e no canto dos olhos. Calou-se e baixou a cabea: dir-se-ia irresoluto.
      - Mas, para falar verdade, quem os mandou c vir?  bem feito, com mil bombas! - disse, de sbito, erguendo a cabea. Brandindo o ltego, abalou a galope, pela primeira vez em toda a campanha, no meio dos risos e dos hurras alegres dos soldados, que principiavam a destroar.
      Evidentemente que nem todos os soldados tinham compreendido as palavras de Kutuzov. Ningum seria capaz de repetir textualmente este discurso, solene no princpio e de uma simplicidade cheia de bonomia nas suas ltimas frases. A verdade, porm,  que o seu sentido ntimo no s foi bem compreendido, mas chegou ao fundo da alma dos soldados. Esses sentimentos de grandeza majestosa aliados  piedade para com o inimigo e  conscincia de que a razo estava do seu lado, expressos na imprecao caracterstica do velho, correspondiam ao que eles prprios sentiam, Essa a razo por que soltaram prolongadas e alegres aclamaes. Quando em seguida um dos generais veio perguntar ao generalssimo se ele queria seguir de carruagem. Kutuzov respondeu-lhe com um soluo, to viva era a emoo que, sentia.
      

      
      
      
      Captulo VII
      
      A 8 de Novembro, ltimo dia dos combates de Krasnoie, j era noite quando as tropas chegaram aos bivaques. O dia fora tranquilo, frio e com alguns raros flocos de neve que esvoaavam pelo ar. Para a noite o tempo clareou: atravs da neve ligeira surgiu um cu estrelado, negro-violeta, e o frio tornou-se mais vivo.
      O regimento de fuzileiros, que partira de Tarutino com trs mil homens e estava agora reduzido a novecentos, foi um dos primeiros a chegar ao ponto indicado, uma aldeia situada na estrada real. Os forrageiros que tinham sado ao seu encontro declararam que todas as isbs estavam ocupadas por doentes ou cadveres de franceses, a cavalaria e o estado-maior. Apenas restava uma para o comandante do regimento.
      Este ltimo dirigiu-se  isb devoluta. O regimento atravessou a povoao e ensarilhou armas nas ltimas casas  beira da estrada.
      Como um grande animal de muitos braos, o regimento ps-se a organizar o seu alojamento e a tratar do rancho. Parte dos soldados, com neve at aos joelhos, dispersou-se pela mata de lamos,  direita da aldeia, e logo se ouviram machados e pederneiras, estalar de ramos quebrados e vozes joviais; outra parte azafamava-se em volta das viaturas regimentais e dos cavalos agrupados no mesmo stio. Dos carros tiraram marmitas e biscoitos e deram aos cavalos a sua rao. Ainda outros soldados se espalharam pela aldeia em busca de instalaes para o estado-maior, retirando os cadveres dos franceses que atulhavam as isbs, arrastando pranchas, lenha ou palha arrancada dos tectos das casas para alimentar as fogueiras, demolindo os tabiques para com eles arranjar abrigos.
      No extremo da povoao, uns quinze homens tratavam de derrubar, no meio de alegre gritaria, o alto tabique de uma granja cujo telhado j fora arrancado.
      - Fora, fora, empurremos todos juntos! - gritavam, e no meio das trevas ouvia-se o rudo seco da divisria que estremecia, completamente coberta de neve. O rangido era cada vez maior e por fim toda aquela massa cedeu com os soldados que a ela se apoiavam. Ouviram-se grandes risadas e altos gritos.
      - Agarrem-na os dois. Tragam uma alavanca! Assim! Onde  que te meteste?
      - Fora! Todos ao mesmo tempo!... Fora, rapazes!... Cantem... A compasso!
      Todos se calaram: depois uma voz bastante fraca, de timbre agradvel, entoou uma cano. No final da terceira estrofe, quando a ltima nota se extinguiu, vinte vozes gritaram em coro: - Uuupa! - Uuupa! Todos  uma, rapazes! Isto vai!
      Apesar dos esforos de todos, o tabique no se movia, e no meio do silncio que reinou de novo ouviu-se o resfolgar dos peitos cansados.
      - E ento vocs, os da 6! Diabos vos levem! Ajudem aqui!... A gente depois vos ajudar noutra coisa!
      Uns vinte homens da 6 companhia que iam passando juntaram-se aos que faziam fora, e da a pouco o tabique, que tinha cinco sagenas de comprido por uma de altura, seguia aos ombros dos soldados, ajoujados, pelas ruas da povoao alm.
      - Eh, tu, l adiante! Porque pras? Assim no. - Os gracejos, as interpelaes joviais sucediam-se.
      - Que esto vocs a fazer? - gritou, de sbito, um sargento, numa voz de comando, correndo atrs dos homens que levavam s costas o tabique - Esto a os patres! Est a o general! Ah!, seus malandros! Eu ajustarei contas com vocs! - E deixou cair o punho fechado em cima do primeiro soldado que lhe passou  mo. - No podem fazer menos barulho?
      Os soldados calaram-se. Aquele que apanhara o murro do sargento, resmoneando, ps-se a limpar a cara, que sangrava por ter batido contra o tabique.
      - Ah! Raios o partam! Isto  maneira de bater num homem? Ps-me a cara em lindo estado! - exclamou, sem levantar a voz, quando o sargento se afastou.
      - Hem? No gostaste!? - gracejou um deles. E os soldados prosseguiram a sua marcha, procurando no gritar num tom to elevado.
      A sada da aldeia tornaram de novo  risota e aos ditos inofensivos.
      Na isb diante da qual os soldados tinham passado estava reunido o alto comando, e enquanto bebiam ch os oficiais iam discutindo animadamente o dia que findara e as manobras projectadas para depois. Tinham proposto uma marcha de flanco sobre a esquerda, cortando a retirada ao vice-rei e capturando-o.
      Quando os soldados chegaram com o tabique demolido, j por toda a parte estavam acesas as fogueiras do rancho. A lenha estralejava, a neve derretia-se e as sombras negras dos soldados enchiam o espao coberto de gelo espezinhado.
      Por todos os lados se ouviam machados e pederneiras. Tudo se fazia sem ordens de comando. Acumulavam lenha para a noite, levantavam barracas para os comandantes, a sopa cozia nas marmitas, limpavam-se as espingardas e os fardamentos.
      O tabique que a 8 companhia transportara foi colocado em semicrculo do lado do vento, firmado no cho por estacas, e, abrigado por ele, montaram um bivaque. Tocou a recolher, fez-se a chamada, os homens cearam e aninharam-se para a noite diante das fogueiras, uns remendando as botas, outros fumando cachimbo, outros despindo-se para catar os piolhos.
      

      
      
      
      Captulo VIII
      
      Dir-se-ia que nas condies extremamente penosas em que se encontravam naquele momento os soldados russos, sem botas de Inverno nem pelias e acampando a cu aberto, com temperaturas de dezoito graus abaixo de zero, sem mesmo saberem o que era rancho regulamentar, pois a pitana nem sempre chegava a horas, deviam oferecer o mais lamentvel e o mais desolador dos espectculos. E no entanto nunca os soldados tinham estado to alegres e animados, nem mesmo durante a poca em que se encontravam em situao material mais favorvel. E isto explica-se, pois,  medida que o tempo ia passando, do meio deles desaparecia tudo quanto era tristeza e fraqueza. Todos os que se haviam debilitado fsica ou moralmente ficavam para trs. O que estava ali agora era a fina flor do exrcito, do ponto de vista moral e do vigor fsico.
      Atrs do abrigo da 8 companhia abrigara-se uma grande multido. Tinham-se-lhe juntado dois sargentos e as fogueiras ardiam ali melhor que em qualquer outra parte. Para se ter o direito de estar sentado atrs do tabique era mister fornecer lenha para o fogo.
      - Eh! Makaiev, que ests a fazer?... Perdeste-te ou foste comido pelos lobos? Anda, traz-me lenha - gritava um soldado ruivo de ventas iluminadas, com os olhos vermelhos muito piscos por causa do fumo, e que nem assim deixava a fogueira. - Anda, traz lenha, vadio! - dizia ele para o camarada.
      No era sargento nem cabo, mas soldado vigoroso, por isso se dava ao luxo de mandar nos mais fracos. O soldado magro, pequenito, de nariz aguado, a que ele chamara vadio, ergueu-se docilmente e preparava-se para cumprir a ordem recebida quando surgiu junto da fogueira a silhueta fina e agradvel de um moo soldado sobraando um molho de lenha.
      - Traz para aqui! Bem bom!
      Quebraram os ramos, deitaram-nos na fogueira, e, soprando e agitando os capotes, no tardou que o lume, reanimado, se pusesse a crepitar. O moo soldado de, bela figura firmou as mos na cinta e ps-se a bater vigorosamente  com os ps no cho.
      - Ah, mezinha, a cacimba est fria, mas  bonita!  - cantarolou ele, suspirando entre cada slaba da cano.
      - Eh!, era melhor que remendasses as botas em vez de danares! - gritou-lhe o soldado ruivo ao ver a badalar uma das solas do danarino.
      O danarino deteve-se, arrancou o bocado de sola e atirou com ela para a fogueira.
      -  o que ests vendo, irmo - disse ele, sentando-se. E tirou do bornal um pedao de pano azul, resto de um uniforme francs, e embrulhou-o em volta do p. - As duas l se foram acrescentou, estendendo os ps para a fogueira.
      - No tarda que nos estejam a dar umas novas. Segundo dizem, quando chegar o fim, recebemos o pr a dobrar.
      - Pois no queres saber? Esse filho de uma cadela do Petrov ficou pelo caminho - disse um sargento.
      - Sim, j tinha dado por isso h tempo - comentou outro. - Que queres? Soldados de papelo!...
      - Na 3, parece que ontem faltaram nove a chamada. - Sabes?, quando nos gelam os ps, a gente no pode andar, - Deixa-te de tolices! - comentou o sargento.
      - Querias tu, naturalmente, que te sucedesse o mesmo - disse um velho soldado dirigindo-se, mal-humorado, ao que falara em ps gelados.
      - E que julgas tu? - interveio, de sbito, soerguendo-se, numa voz estrdula e trmula, o soldado de nariz aguado a quem tinham chamado vadio. - Por mais que uma pessoa esteja fresca e bem disposta, vamos emagrecendo, apesar de tudo, e quando a gente emagrece l est a morte  nossa espera. Olhem, eu no posso mais - acrescentou, de repente, em tom enrgico, dirigindo-se ao sargento. - Mande-me baixar ao hospital. Estou tolhido de reumatismo, De outra maneira, acabo pelo caminho, como os outros.
      - Basta, basta! - disse tranquilamente o sargento.
      O soldado enfezado calou-se e a conversa continuou.
      - Isso  que foi hoje um apanhar de franceses! Mas a respeito de botas, valha a verdade, nem um par para amostra comentou um soldado para mudar de assunto.
      - So os cossacos quem lhas tiram. Limparam a isb para instalar o coronel e tiraram-nos todos l de dentro. Corta o corao v-los, rapazes - exclamou ento o soldado que danara. - Tiraram-lhes tudo. Um deles ainda estava vivo, e l ia dizendo qualquer coisa na sua lngua.
      - E  gente apurada, rapazes - voltou o primeiro. - So brancos, brancos como os lamos, E alguns parecem valentes,  o que te digo, e h os que so nobres.
      -  verdade, tens razo. Recrutam homens de todas as classes.
      - E no sabem uma palavra de russo - prosseguiu o outro com um ingnuo espanto. - Perguntei a um a que coroa pertencia, e ele ps-se a arengar qualquer coisa l na lngua dele. So tipos estranhos.
      - Sim, rapazes,  curioso - continuou o que se surpreendera com a brancura da pele dos Franceses. - Disseram os camponeses que em Mojaisk, quando contaram os mortos, depois da batalha, que ho-de eles ver? Havia quase um ms que tinham morrido. E estavam ali estendidos, diziam eles, brancos como uma folha de papel, e limpos, nem sombra de cheiro.
      - Ora,  por causa do frio - objectou um deles.
      - Sempre s muito esperto! O frio? Mas fazia calor! E se fosse por causa do frio tambm os nossos no apodreciam. E quando aparecia um dos nossos estava sempre coberto de bichos, e de tal maneira, diziam eles, que era preciso pr um leno na boca e virar a cara para o lado quando carregavam com eles. No se podia aguentar. Enquanto os franceses estavam brancos como uma folha de papel, e nem sombra de cheiro.
      Toda a gente se calou.
      -  talvez por causa do que comem - disse o sargento. - Comem que nem senhores.
      Ningum objectou fosse o que fosse.
      - E esse campons de Mojaisk, onde se travou a batalha, contou que evacuaram mortos de mais de dez aldeias, que os andaram a acarretar durante vinte dias e que no conseguiram lev-los todos. E que havia por l cada lobo, dizem eles...
      - Sim, aquela, sim, foi uma verdadeira batalha - comentou o velho soldado. - Nunca mais a esqueceremos. Mas o que depois aconteceu... S para fazer sofrer os soldados.
      - Queres saber, tio? Antes de ontem foram atrs deles. E eles no nos deixam sequer aproximar. Deitam fora as armas e pem-se logo de joelhos! Perdo!, dizem eles. E aqui tens outra. Parece que o Platov j por duas vezes esteve a ponto de deitar a mo ao prprio Polio. Mas ele no sabe a palavra mgica. Prende-o, prende-o, mas a est, o outro, uma vez nas suas mos, transforma-se num pssaro e l vai ele a voar, a voar. E dizem tambm que no h maneira de o matarem.
      - s danado para a mentira, Kisseliev! 
      - Qu? Mentiras?  a verdade pura!
      - Pois bem, eu, se o tivesse apanhado, tinha-o enterrado vivo. E com uma estaca de faia, ainda por cima. A gente que ele tem matado!
      - Seja como for, h-de ter a sua conta, no escapa. - concluiu o velho soldado, bocejando.
      A conversa ficou por ali e os soldados aninharam-se para dormir.
      - Olha l para cima. Aquilo  que so estrelas! Que me dizes? As mulheres puseram a roupa a, enxugar! - disse um soldado que admirava a Via Lctea.
      -  sinal de que vamos ter ano farto, rapazes!
      - Era precisa mais lenha na fogueira.
      - Temos as costas quentes e a barriga fria, No  brincadeira!
      - Oh! Deus meu!
      - Que ests tu a empurrar,  s para ti o fogo, porventura? No querem ver como ele se estende!
      No meio do silncio que se comeava a estabelecer ouviu-se o ressonar de alguns homens. Os outros continuavam a dar voltas e reviravoltas para se aquecerem, trocando entre si raras palavras. De um bivaque afastado um cento de passos chegava um rumor de gargalhadas.
      - Ests a ouvir o que eles se divertem na 5? - disse um soldado. - E a quantidade de gente que eles l tm! Levantou-se para ver o que se passava na 5 companhia. - Tem graa! - disse ele, quando voltou. - Apareceram dois franceses. Um deles est todo gelado, mas o outro, aquilo  que  divertido! Est a cantar cantigas l deles.
      - Ento vamos ouvi-lo.
      E alguns soldados encaminharam-se para a 5 companhia.
      

      
      
      
      Captulo IX
      
      A 5 companhia estava mesmo junto da floresta. Uma grande fogueira ardia no meio da neve, iluminando os ramos das rvores carregados de gelo.
      No meio da noite, os homens daquela companhia tinham ouvido, na floresta, um rudo de passos e de ramos pisados. 
      - Rapazes! Um urso! - disse um deles.
      Todos levantaram a cabea, de ouvido alerta, e viram surgir da floresta, iluminadas pela chama da fogueira, duas formas humanas amparando-se uma  outra, estranhamente vestidas.
      Eram dois franceses que se haviam escondido na mata. Pronunciando palavras numa voz rouca em lngua desconhecida dos soldados, aproximaram-se da fogueira. Um deles, bastante alto, de barretina de oficial, parecia muito debilitado. Assim que chegou, deixou-se cair praticamente no cho. O outro, soldado raso, mais pequeno, gordinho, com os queixos amarrados, parecia em melhor estado. Ajudou a erguer o companheiro e pronunciou algumas palavras mostrando a boca. Os soldados russos juntaram-se  sua volta, estenderam uma manta sobre o doente e deram-lhes cacha e vodka.
      O oficial doente era Ramballe e o soldado dos queixos amarrados o seu impedido, Morel.
      Morel, depois de emborcar a vodka e engolir uma marmita de cacha, sentiu-se, de repente, tomado por um verdadeiro acesso de alegria, e ps-se, sem se calar, a contar uma quantidade de coisas absolutamente incompreensveis para os soldados russos. Ramballe no quis comer e ficou encostado, sem dizer palavra junto da fogueira, fitando os soldados russos com os seus olhos vermelhos vazios de expresso. De vez em quando soltava um profundo suspiro, depois voltava a ficar silencioso. Morel, apontando-lhe para as charlateiras, procurava explicar aos soldado que era oficial e que era preciso aquec-lo. Um oficial russo que se aproximara mandou perguntar ao coronel se no quereria dai, hospitalidade a um oficial francs. O coronel deu ordem para o conduzirem e os soldados persuadiram Ramballe a aceitar o convite. Este ergueu-se e tentou caminhar, mas tropeou e teria cado se um soldado o no tem amparado.
      - Ento, que  isso? No podes andar? - disse a Ramballe um soldado, trocista.
      - Imbecil! Que ests tu a dizer? - acorreram logo outros, indignados com o gracejo do camarada. - No passas de um rstico, sim, de um rstico.
      Rodearam Ramballe, dois pegaram-lhe por debaixo dos braos e transportaram- no para a isb do coronel. Ramballe, com os braos  roda do pescoo dos que o levavam, murmurava em voz lamentosa:
      - Oh!, meus valentes, oh!, meus valentes, meus bons amigos! Isto  que so homens! Oh!, meus valentes, meus bons amigos! - E, como uma criana, deixava descair a cabea ora no ombro de um ora no ombro do outro dos homens que o ajudavam. Entretanto, Morel instalara-se no melhor lugar, no meio de uma roda de curiosos.
      O atarracado francs, de olhos inchados e lacrimosos, o leno amarrado aos queixos como uma mulher, tinha vestido uma pelia de senhora. Naturalmente j de gro na asa, abraava-se ao soldado que lhe ficava ao lado e cantava, em voz entrecortada rouca, uma cano francesa. Os soldados riam a bandeiras despregadas.
      - Anda, ensina-nos a cantiga. Como  isso? Eu apanho logo msica. Como  isso? - pedia-lhe o rstico, apreciador de cantigas, que Morel abraava carinhosamente.
      - Viva Henrique IV! Viva esse valente rei! - cantarolava Morel, piscando os olhos. - Esse diabo a quatro...
       - Vivarik! Vif seruvaru!, sidiablaka... (Algaravia russa que pretende reproduzir a letra da melodia francesa. (N. dos T.) - repetia o soldado gesticulando e seguindo, realmente, a msica da cano.
      - Bravo! Bravo! exclamavam vrias vozes,  mistura com gargalhadas.
      Morel ria tambm.
      - Bem, anda, mais, mais!
      - Que teve o triplo talento de beber, de batalhar e de ser um galanteador...
      - Caramba! Isto soa bem ao ouvido! Agora tu, Zaletaiev, repete!...
      - Kiu, kiu, kiu... - entoou Zaletaiev com dificuldade, fazendo um momo com os lbios - lietriptala di bu di ba a dietravagala (Algaravia russa que pretende reproduzir a letra da melodia francesa. (N. dos T.).
      - Muito bem! Muito bem! Pareces mesmo um francs! Ah! Ah! Ah! Olha l, ainda tens fome?
      - D-lhe mais cacha. No  to depressa que ele se ,ai sentir farto.
      Deram-lhe uma nova tigela de cacha e Morel, muito risonho, ps-se logo a emborc-la. A soldadesca nova estava alegre na sua companhia. Os velhos soldados, que achavam, imprprias aquelas necedades, formavam grupo  parte, mas de quando em quando, soerguendo-se nos cotovelos, olhavam para o francs e sorriam.
      - Eles tambm so homens - observou um deles, e aconchegando-se no capote. - At o absinto deita razes. (O absinto  considerado planta de mau agoiro. (N. dos T.)
      - Oh! Meu Deus, meu Deus! Tantas estrelas! Que geleira a vem!
      Tudo foi serenando As estrelas, como se soubessem que j mais ningum havia para as ver, iam cintilando, qual delas a mais brilhante, no cu de breu. Ora chispando, ora apagando-se ou chispando ainda mais, dir-se-ia participarem umas as outras qualquer misteriosa e alegre notcia.
      

      
      
      
      Captulo X
      
      As tropas francesas continuavam a decompor-se regularmente segundo uma progresso matemtica. A travessia do Beresina, sobre que se escreveu tanta coisa, no foi mais que um incidente intercalar na obra de destruio e de modo algum um episdio decisivo da campanha. Se muito se escreveu, se ainda continua a escrever-se a este respeito,  que, do lado francs, esta ponte, que foi pelos ares, sintetizava, por assim dizer, as desgraas, at a mais ou menos iguais umas s outras, experimentadas pelo exrcito francs, num espectculo trgico, que para sempre ficou na memria de todos. Se os Russos, pela sua parte, muito comentaram este caso,  porque, longe do teatro da guerra, em Petersburgo, um plano estabelecido por Pfuhl previra a ratoeira estratgica do Beresina. Ali toda a gente estava, convencida de que na realidade tudo se passaria como estava previsto no plano e por isso mesmo atriburam  passagem do no a perda dos Franceses. A verdade, porm.  que as consequncias foram muito menos desastrosas para eles, em homens e canhes, que as de Krasnoie, por exemplo, como se pode provar com algarismos.
      O caso do Beresina s numa coisa  importante: em ter demonstrado de maneira evidente e incontestvel que todos os planos para cortar a retirada ao inimigo eram errados e que a nica coisa sensata era o que exigia Kutuzov e a massa das tropas, isto , que se seguisse o inimigo de perto. Os Franceses fugiam cada vez mais depressa, no pensando noutra coisa seno em chegar onde queriam. Fugiam como um animal ferido e no lhes era possvel deterem-se no caminho. E isso ficou bem demonstrado menos pela prpria organizao da travessia do no que pela passagem das pontes. As pontes tinham ido pelos ares, e toda aquela gente, soldados desarmados, habitantes de Moscovo, mulheres e crianas que acompanhavam as bagagens dos Franceses, graas  velocidade adquirida, em vez de se resignar a esperar, precipitou-se para a frente, para dentro das barcas, e para cima das guas geladas.
      Compreendia-se esta precipitao. To m era a situao dos que fugiam como a dos que os perseguiam. Conservando-se ao lado dos seus, na sua desgraa, cada um esperava o auxlio do camarada, tinha o seu lugar entre eles. Se se entregassem aos Russos, era para continuarem na mesma desgraada situao, passando a ser contados entre os ltimos com direito a receber mantimentos. Os Franceses no precisavam de informaes precisas para saberem que metade dos prisioneiros nas mos dos Russos - e o certo  que estes no sabiam que destino dar-lhes, por mais que quisessem salv-los - morriam de fome e de frio. Pressentiam que assim tinha de ser. Os chefes russos mais compassivos e que mais simpatias tinham pelos Franceses, os prprios franceses ao servio dos Russos, nada podiam fazer pelos prisioneiros. A ma situao em que se encontrava o exercito russo concorria para a perdio dos Franceses. Era impossvel tirar po e roupa a soldados esfomeados e cheios de privaes para d-los aos Franceses, evidentemente inofensivos, nem sequer hostis ou culpados, simplesmente inteis. Alguns o fizeram, mas s excepcionalmente.
      Voltar para trs era a perdio certa: avanar, a esperana. Tinham-se queimado as embarcaes, s havia uma salvao, a fuga em comum, e todas as foras francesas tendiam para essa meta
      Quanto mais demorada era a retirada, mais lamentvel o aspecto que ofereciam os restos do exrcito francs, sobretudo depois do Beresina, que fizera nascer, graas ao plano de Petersburgo, esperanas particulares, e mais se exasperavam as paixes dos chefes russos, que se culpavam uns aos outros e principalmente Kutuzov. Diziam que ele seria chamado  responsabilidade pelo malogro do plano do Beresina estabelecido em Petersburgo, o que tornava maior o descontentamento, o desdm e a troa que ele inspirava. Claro que tanto a troa, como as provas de desconsiderao exprimiam-se de uma forma respeitosa, e de tal sorte que o prprio interessado nem sequer podia perguntar de que o acusavam. No lhe falavam a srio; quando lhe apresentavam qualquer informao ou lhe pediam uma deciso, dir-se-ia cumprirem uma cerimnia fnebre. Por detrs das suas costas piscavam o olho uns aos outros e faziam o que podiam para o enganar.
      Todos aqueles homens, precisamente porque o no podiam compreender, estavam convencidos de que era intil discutir com semelhante velho, incapaz de entender jamais a profundidade dos seus planos, o qual sempre lhes respondia com uma das suas frases, para eles frases apenas, como a da ponte de ouro e que no era possvel chegar  fronteira com aqueles bandos de esfarrapados, e coisas no mesmo gnero. H muito que lhe conheciam semelhante estribilho. Tudo quanto ele dizia: que era preciso esperar pelos mantimentos, que os homens no tinham botas para calar, tudo era de uma simplicidade infantil, enquanto eles propunham coisas complicadssimas e sbias. E da tornar-se evidente que Kutuzov no passava de um velho imbecil enquanto eles, cabos-de-guerra geniais, ali estavam sem poderes para realizar o que congeminavam.
      Depois da juno do exrcito de Kutuzov com o do preclaro almirante Wittgenstein, heri de Petersburgo, todas essas malvolas disposies e todas essas intrigas do estado-maior se agravaram ainda mais. Kutuzov, ao dar por isso, limitava-se a despedir um suspiro e a encolher os ombros. S uma vez, depois do Beresina, se zangou e escreveu a Bennigsen, o autor das informaes particulares enviadas ao imperador, a carta seguinte:
      
      Rogo a Vossa Excelncia que, ao receber esta carta, se apresente em Kaluga, em virtude do seu estado de sade pouco satisfatrio, onde aguardara ordens ulteriores de Sua Majestade Imperial.
      
      Como resultado do afastamento de Bennigsen, o gro-duque Constantino Pavlovitch, que havia tomado parte na primeira fase da campanha e fora afastado por Kutuzov, foi reintegrado no exrcito. Ao chegar informou o general-chefe de que o czar estava muito descontente com os ligeiros xitos das tropas russas e a lentido dos seus movimentos e anunciou-lhe que o imperador tinha a inteno de visitar pessoalmente, o exrcito. Kutuzov, esse velho, to experimentado corteso quo bom militar, que em Agosto desse ano fora nomeado generalssimo contra a vontade do imperador, que determinara o abandono de Moscovo, esse homem compreendeu imediatamente que a sua hora tinha soado, que o seu papel acabara e que os supostos poderes que ainda lhe pertenciam lhe iam ser retirados. E no s como corteso compreendia que assim era. Percebia que a aco militar em que desempenhara o seu papel estava no fim, que a sua misso terminara. Por outro lado, principiava ao mesmo tempo a sentir que o corpo, quebrado pela idade, cansado, pedia descanso.
      

      
      
      
      Captulo XI
      
      No dia 29 de Novembro, Kutuzov entrou em Vilna, na sua querida Vilna, como ele dizia. Duas vezes na sua carreira fora governador da cidade. Na rica Vilna, que se conservava intacta, alm das comodidades de que por tanto tempo estivera privado, encontrava velhos amigos e boas recordaes. Liberto, de sbito, de todas as preocupaes oficiais e militares, entregou-se a uma vida regular e tranquila, na medida em que o permitiam as paixes que germinavam  sua roda, como se tudo que se estivesse a passar naquele momento, e que ainda tinha de se cumprir como acontecimento histrico, lhe fosse de todo indiferente.
      Tchitchagov um dos mais ardorosos partidrios da ideia de se cercarem e derrotarem os Franceses, que a princpio quisera levar a cabo uma diverso militar na Grcia, e depois em Varsvia, mas que nunca se apresentava onde o mandavam, esse homem clebre pela ousadia com que falara ao imperador, que ao mesmo se considerava protector de Kutuzov, pois, quando si fora  Turquia, em 1811, incumbido da misso de concluir a paz, ao saber que a paz j fora concluda, dissera ao imperador que o mrito de tal misso pertencia a Kutuzov - Tchitchagov foi o primeiro a receber o generalssimo junto do castelo de Vilna, onde este devia hospedar-se. Com o seu uniforme de marinheiro, de espada  cinta, o chapu debaixo do brao, apresentou a Kutuzov o seu relatrio sobre o estado da guarnio e as chaves da cidade. A deferncia um tanto desdenhosa que a juventude testemunhava a um velho que ela entendia chegado  segunda meninice traduzia-se no mais alto grau na maneira de agir de Tchitchagov, ao corrente das acusaes que faziam ao generalssimo.
      Na conversa que teve com ele, Kutuzov dissera-lhe, entre outras coisas, que as suas bagagens tornadas em Borissov, com toda a sua baixela, estavam intactas e lhe iam ser entregues.
      -  para me dizer que eu no tenho que comer... Estou habilitado, pelo contrrio, a fornecer-lhe seja o que for, mesmo que pretenda oferecer banquetes - respondeu-lhe Tchitchagov acaloradamente. Queria mostrar-se importante em cada uma das palavras que dizia e estava persuadido de que essa era a inteno do seu interlocutor.
      Kutuzov teve um sorriso fino e penetrante e respondeu encolhendo os ombros:
      -  apenas para lhe dizer o que lhe estou a dizer.
      Ao contrrio do que o imperador queria, o generalssimo mandou que se detivesse em Vilna a maior parte das suas tropas. Na opinio das pessoas que o rodeavam, decara muito fisicamente durante a sua permanncia nesta cidade. S muito ao de leve se preocupava com os assuntos militares, deixando que os generais fizessem tudo, e enquanto aguardava a chegada, do imperador entregava-se ao prazer.
      Tendo sado de Petersburgo com a sua comitiva no dia 7 de Dezembro - o conde Tolstoi, o prncipe Volkonski, Araktcheiev e outros - o imperador chegou a Vilna no dia 11, dirigindo-se imediatamente ao castelo no seu tren de viagem.
      Apesar do frio que fazia, esperavam-no, c fora, uma centena de generais e de oficiais do estado-maior, de uniforme de gala, bem como uma guarda de honra do regimento Semionovski.
      O correio que precedia o czar chegou ao castelo, numa troika, coberto de suor, e gritou:
      - O imperador!
      Konovnitsine precipitou-se no vestbulo para advertir Kutuzov, que esperava no compartimento do porteiro.
      Um minuto depois, Kutuzov, no seu uniforme de gala, com todas as condecoraes e cobrindo-lhe o peito por completo, uma faixa a apertar-lhe o ventre, surgia no alpendre em passos titubeantes. Cobriu a cabea, como se estivesse a comandar o exrcito, pegou nas luvas, desceu com dificuldade os degraus do alpendre e pegou no relatrio que ia ser apresentado ao czar.
      Um grande alarido se ouviu, uma troika passou vertiginosa a toda a gente fixou os olhos no tren que chegava, a galope, onde se destacavam as silhuetas do imperador e de Volkonski.
      Apesar de mais de cinquenta anos de experincia, esta chegada no deixou de impressionar, como sempre, o velho general. Apalpou-se, febrilmente,  pressa, ajeitou o gorro e as condecoraes, enquanto o imperador, apeando-se do tren, erguia para ele os olhos. Depois apresentou-lhe o relatrio, dominando a emoo que o tomava, sem perder o aprumo militar, e ps-se a falar numa voz comedida e insinuante.
      O imperador olhou-o rapidamente da cabea aos ps, franziu as sobrancelhas por segundos, mas, dominando-se imediatamente, aproximou-se e, de braos abertos, apertou-o contra o peito, Esta atitude do imperador, acordando-lhe velhas impresses e pensamentos ntimos, produziu em Kutuzov o efeito habitual: rompeu em soluos.
      O imperador saudou os oficiais, a guarda de honra do Semionovski e, apertando mais uma vez a mo do generalssimo, penetrou com ele no castelo.
      Quando ficou s com o marechal exprimiu-lhe o seu descontentamento por causa da morosidade na perseguio dos Franceses, dos erros cometidos em Krasnoie e no Beresina e p-1o ao corrente dos seus planos sobre a futura campanha no estrangeiro. Kutuzov no fez a mais pequena observao nem teve o mais pequeno comentrio. No seu rosto havia a mesma expresso submissa de sete anos antes, ao receber as ordens do soberano no campo de batalha de Austerlitz.
      Quando, no seu andar pesado e cambaleante, saiu do gabinete do imperador e, de cabea baixa, atravessou o salo, uma voz deteve-o.
      - Serenssimo! - dizia-lhe algum.
      Kutuzov ergueu a cabea e ficou a olhar por muito tempo o conde Tolstoi, que estava diante dele, com um minsculo objecto dentro de uma salva de prata. Dir-se-ia no compreender o que queriam dele.
      De sbito pareceu recordar-se, um sorriso imperceptvel lhe perpassou pelo rosto entumecido, e, inclinando-se respeitosamente, numa grande vnia, pegou no objecto que estava na salva. Era a cruz de S. Jorge de 1 classe.
      

      
      
      
      Captulo XII
      
      No dia seguinte, o marechal ofereceu um jantar seguido de baile, que o imperador honrou com a sua presena. Kutuzov recebia a cruz de S. Jorge de 1 classe; o imperador prestava-lhe as maiores honras; mas o descontentamento do soberano no era segredo para ningum. Tinham-se respeitado as convenincias e ele fora o primeiro a dar o exemplo. Mas toda a gente sabia que o velho era culpado e j para nada prestava. Como Kutuzov ordenasse, de acordo com um velho costume dos tempos de Catarina, que no momento em que o imperador entrasse na sala de baile lhe depusessem aos ps os estandartes tomados ao inimigo, o soberano, descontente, franziu o sobrolho e pronunciou algumas palavras, onde alguns julgaram surpreender esta frase: Velho comediante! 
      O descontentamento do czar ainda se tornou mais evidente durante a permanncia em Vilna quando verificou que Kutuzov no queria ou no podia compreender a utilidade da campanha projectada. No dia seguinte ao da sua chegada, o imperador dissera aos oficiais reunidos  sua volta:
      - Os senhores no salvaram apenas a Rssia, os senhores salvaram a Europa. - E ento todos compreenderam que a guerra no findara.
      S Kutuzov no podia compreender e dizia a quem o queria ouvir que uma nova guerra no melhoraria a situao nem aumentaria a glria da Rssia, mas, muito pelo contrrio, concorreria para piorar e diminuir o alto prestgio de que o pas ento desfrutava, segundo ele. Esforava-se por demonstrar ao imperador a impossibilidade de convocar mais tropas, aludindo ao penoso estado das populaes,  possibilidade de qualquer malogro, etc. Era evidente que, numa tal disposio de esprito. Kutuzov no podia deixar de constituir um empecilho para a guerra prevista.
      Para evitar qualquer conflito com o velho, acharam perfeitamente natural uma escapatria, como se fizera com Barclay aquando de Austerlitz e no comeo da campanha: retirar o poder ao generalssimo para o confiar ao prprio imperador, sem rudo nem inteis explicaes.
      Nessa inteno, procedeu-se, pouco a pouco, a uma reorganizao do estado-maior e todo o poder efectivo de Kutuzov foi suprimido e transmitido ao imperador. Toll, Konovnitsine, Ermolov, foram encarregados de outras misses. Dizia-se abertamente que o marechal estava muito enfraquecido e de sade abalada.
      Era preciso, realmente, que a sua sade estivesse muito abalada para transmitir as suas funes quele que o devia substituir. E de facto estava enfermo.
      Tal como vera outrora da Turquia, o mais natural e simplesmente que  possvel, a fim de reunir a milcia em Petersburgo e depois colocar-se  frente do exrcito no momento em que era indispensvel, agora, o mais natural e simplesmente, e da mesma forma progressiva, terminado o seu papel, substituam-no por uma nova engrenagem, a engrenagem que a situao requeria.
      A guerra de 1812 no devia conservar o seu carcter estritamente russo de guerra patritica, mas assumir outro, tornar-se uma guerra europeia.
      Depois da marcha dos povos do Ocidente para o Oriente, devia verificar-se uma, marcha do Oriente para o Ocidente, e para levar a cabo esta nova guerra era necessrio um homem novo, dotado de qualidades que Kutuzov no tinha, com outras vistas, outros objectivos. Para realizar esta marcha dos povos em sentido inverso e restabelecer as fronteiras, Alexandre I, eis o homem indispensvel, to indispensvel quanto o fora Kutuzov para salvao e glria da Rssia.
      Kutuzov era refractrio a estas noes: Europa, equilbrio, Napoleo. No podia entend-las. O representante do povo russo, esse russo, enquanto russo, j nada tinha a fazer naquela hora em que o inimigo estava esmagado e a Rssia liberta e no pinculo da glria. O representante da guerra patritica s tinha agora um caminho a seguir: morrer, E assim o fez.
      

      
      
      
      Captulo XIII
      
      Pedro, como sempre costuma acontecer, s sentiu o peso das privaes a que estivera sujeito durante o cativeiro no dia em que as desventuras acabaram. Assim que foi posto em liberdade, dirigiu-se a Orel e no dia seguinte, na altura de se meter a caminho para Kiev, adoeceu. Trs meses ficou de cama em Orel. Segundo os mdicos, sofria de uma febre biliosa. Apesar de todos os cuidados que lhe dispensaram, no obstante as sangrias e os remdios, conseguiu recuperar a sade.
      Pouca impresso lhe ficou do perodo que decorreu entre a sua libertao e o ter adoecido. Ficara-lhe apenas a lembrana de um tempo hmido e sombrio, ora de chuva ora de neve, de um enfraquecimento fsico considervel, de dores nos ps e nas ilhargas; de uma srie de pessoas infelizes e sofredoras: da curiosidade importuna dos oficiais e dos generais que lhe faziam perguntas; das dificuldades que tivera para arranjar um carro e cavalos: e, acima de tudo, do adormecimento moral que o prostrara durante todo esse tempo, No dia em que fora libertado vira passar o corpo de Ptia Rostov; soube tambm que o prncipe Andr ainda vivera um ms depois de ferido e que s recentemente morrera em Iaroslav, em casa dos Rostov. Denissov, ao participar-lhe esta notcia, aludiu, de passagem,  morte de Helena, pois supunha que Pedro estivesse informado disse, h muito. Todos estes pormenores o deixaram, porm, ento quase indiferente. Sentia-se incapaz de apreciar a importncia de todos estes acontecimentos. S uma coisa o preocupava abandonar o mais depressa possvel aquelas paragens, onde os homens se matavam uns aos outros, em busca de um refgio mais sossegado em que pudesse coordenar as suas ideias, repousar e reflectir sobre todas essas coisas estranhas e novas que acabava de saber. Mas assim que, chegou a Orel caiu de cama. Quando melhorou, descobriu junto da sua cabeceira, alm dos seus dois criados. Terenti e Vaska, vindos de Moscovo, a princesa mais velha, sua prima, que vivia numa propriedade de Pedro em Elets e que viera trat-lo ao saber que ele fora libertado e estava doente.
      Durante toda a sua convalescena, as impresses daqueles ltimos meses, que se lhe tinham tornado familiares, apenas se foram apagando pouco a pouco. Lentamente se ia habituando a no ser enxotado todas as manhs como se fosse um animal, a no ser expulso da sua cama quente, ter todos os dias jantar, ch e ceia. Mas, a dormir, sonhava muitas vezes encontrar-se ainda na penosa situao do cativeiro. E levou muito tempo igualmente a compreender as coisas que lhe contaram: a morte do prncipe Andr, a morte da mulher, a derrota dos Franceses.
      A sua alma sentia-se invadida por um agradvel sentimento de liberdade completa, inata no homem e que se lhe no pode arrebatar, a liberdade que sentira pela primeira vez durante a jornada que fizera ao sair de Moscovo. O que o surpreendia, porm,  que a liberdade moral, independentemente, de facto.
      das circunstncias exteriores, lhe fosse concedida com tal liberdade, tal abundncia, ao mesmo tempo que a liberdade material, Estava s numa cidade estranha onde ningum conhecia. Ningum exigia dele fosse o que fosse; ningum lhe dava ordens. Tinha tudo que podia desejar; a lembrana da mulher, que fora para ele um tormento constante, desaparecera, visto ela prpria ter desaparecido tambm.
      Oh, que bem que se est! Que bom que !, dizia de si para consigo, quando aproximavam dele uma mesa limpa e bem posta, com um prato de sopa bem cheiroso em cima, ou ento quando,  noite, se deitava na sua cama macia e asseada ou ainda se lembrava que a mulher j no existia e que os Franceses tinham sido derrotados. Ah!, que bom! Que bom!
      E apenas por hbito antigo perguntava a si mesmo: E agora? Que vou eu fazer agora? Ao que respondia imediatamente: Nada. Vou viver. Ah!, que bom!
      J no existia para ele o problema de um objectivo na vida, problema que tanto o atormentara outrora e que to afincadamente procurara resolver. Esse objectivo j no era sequer um objectivo provisrio, vlido apenas para o momento presente: sentia que fora completamente abolido e que na realidade j no podia existir. E esta ausncia completa de objectivo na vida dava-lhe a alegre sensao de uma liberdade sem limites, que o enchia de felicidade.
      No podia ter um objectivo, porque agora tinha f, no f em certas regras, em certas palavras ou pensamentos convencionais, mas num Deus vivo e sempre presente. Outrora procurava Deus nas misses que a si prprio se impunha. Quando procurava um objectivo para a vida, era Deus que no fim de contas procurava. E de repente, durante o cativeiro, descobrira, no por meio de palavras ou raciocnios, mas graas a uma espcie de ntima revelao, o que a sua velha ama tantas vezes lhe dissera: Deus est em toda a parte. No cativeiro aprendera que o Deus de Karataiev era bem maior, mais infinito, mais inacessvel que o Grande Arquitecto do Universo dos franco-maes. Dir-se-ia que achara a seus ps o que andava buscando muito longe de si. Toda a sua vida pusera os olhos l longe, por cima da cabea da multido, quando no tinha mais que olhar para diante de si. At ento no conseguia descobrir em parte alguma o inacessvel, o grande, o infinito. Apenas sentia que o infinito existia algures e procurava-o. Em tudo o que o rodeava, em tudo o que lhe era dado compreender, s via interesses acanhados, mesquinhos, absurdos, os interesses que a vida nos revela. E armava-se de uma espcie de culo moral para olhar ao longe, para onde esses interesses mesquinhos, essas pequenas coisas exteriores, escondidas na nvoa da distncia, se lhe afiguravam como que revestidas de grandeza, verdadeiras imagens do infinito, pela simples razo de que as no via com nitidez. Assim se lhe entremostrava a vida europeia, a poltica, a maonaria, a filosofia, a filantropia. Agora, porm, que se dava conta da sua fraqueza, quando o seu esprito penetrava nessas misteriosas profundezas, era para descobrir a tambm essa mesma mesquinhez, esse mesmo absurdo, existentes na vida quotidiana. Agora aprendera a ver o infinito em toda a parte, em tudo, por isso achava perfeitamente natural que para usufruir da contemplao das coisas eternas j no precisasse desse culo que lhe permitia lobrigar para alm dos homens; admirava,  sua volta, com alegria, o espectculo eternamente mutvel, eternamente grande, inacessvel e infinito da vida. E quanto mais de perto olhava esse espectculo mais tranquilo e feliz se sentia. O terrvel porqu que outrora fazia ruir todas as construes do seu esprito deixara de existir para ele. Agora essa interrogao angustiosa tinha uma resposta simples. Deus existia, esse Deus - o assentimento do qual nem um s cabelo cair da cabea !o homem.
      

      
      
      
      Captulo XIV
      
      Pedro pouco mudara exteriormente. Na aparncia era o mesmo de sempre. Como antigamente, era uma pessoa triste e menos preocupada com o que tinha diante dos olhos do que com o que ocorria dentro dele prprio. A nica diferena entre o passado e o presente era que, nos tempos antigos, quando se esquecia do que estava  sua roda, e no percebia o que lhe diziam, tinha uma expresso preocupada e inquieta, como se procurasse compreender qualquer coisa longnqua que lhe escapava. Agora, quando estava distrado, tinha nos lbios um imperceptvel sorriso, um pouco irnico, para com o que estava diante dos seus olhos, para ouvir o que lhe diziam, estando, claro est, a pensar numa coisa completamente diferente. Outrora, conquanto tivesse sempre um ar bondoso, parecia infeliz; por isso, sem querer, afastava de si a simpatia. Hoje, no seu rosto pairava sempre um sorriso de homem contente com a vida, nos seus olhos havia bondade para todos e parecia perguntar: Estaro todos satisfeitos como eu? E as pessoas sentiam-se bem na sua presena.
      Antigamente falava muito, entusiasmava-se a falar e pouco ouvia os demais. Agora raramente achava interesse em falar e sabia ouvir to bem que lhe confiavam espontaneamente os segredos mais ntimos.
      Sua prima, a princesa, que nunca gostara dele e que nutria mesmo por ele uma certa hostilidade aps a morte do velho conde, pois ficara na sua dependncia, depois daquele tempo, em Orel, onde viera para mostrar a Pedro que, apesar da ingratido, entendera dever seu assistir-lhe na sua doena, com grande surpresa sua, e no sem despeito, principiara a sentir por ele uma certa afeio. E a verdade  que Pedro nada fizera pai ganhar a sua simpatia. Limitara-se a examin-la com curiosidade. At a ela sentira no olhar dele indiferena e ironia, e diante dele, como diante de muitas outras pessoas, retraa-se, para apenas lhe mostrar a sua hostilidade combativa. Agora, pelo contrrio, tendo percebido que ele penetrava no mais recndito da sua natureza, primeiro desconfiada, depois grata, mostrou-lhe os lados melhores do seu carcter.
      O mais astucioso dos homens no teria sido capaz de ganhar a confiana da princesa ainda que evocasse as melhores recordaes da sua juventude e lhe falasse comovidamente. A astcia de Pedro limitou-se a mostrar interesse em acordar sentimentos humanos naquela criatura azeda, seca e orgulhosa.
      Sim,  um homem de bom corao quando no est sob influncia de gente m mas de pessoas como eu, dizia ela com os seus botes.
      A mudana que nele se operara fora notada igualmente, de certo modo, pelos prprios criados Terenti e Vaska. Achavam-no agora muito mais simples. As vezes Terenti, depois de ajudar a despir o amo, tomando conta das botas e do fato, desejava-lhe boas-noites e demorava-se junto dele antes de sair, na esperana de que ele lhe dirigisse a palavra. Geralmente Pedro, quando percebia que o criado tinha vontade de falar, retinha-o junto de si.
      - Conta-me l, como arranjavam vocs de comer? - perguntava-lhe.
      E Terenti punha-se a descrever-lhe as runas de Moscovo, a falar-lhe do falecido conde, e ali ficava, por muito tempo, com a roupa nos braos, falando ou ouvindo o amo, e quando se afastava era com o sentimento agradvel de se sentir muito prximo de Pedro e quase seu amigo.
      O mdico que o tratava e o visitava todos os dias, embora se julgasse na obrigao, como todo o mdico que se preza, de se dar ares de quem no tem um minuto a perder, pois o seu tempo  precioso para a humanidade que sofre, passava horas junto dele a contar-lhe as suas anedotas favoritas e a fazer observaes sobre a sua clientela em geral e em particular as senhoras.
      -  verdade, d prazer falar com um homem assim.  raro na provncia - dizia ele.
      Em Orel encontravam-se alguns oficiais do exrcito francs prisioneiros e o mdico trouxe um dia consigo um deles, um italiano.
      Passou ento a visitar Pedro e a princesa achava graa  ternura que ele mostrava para com o primo.
      Via-se que o italiano s se sentia feliz junto de Pedro e a conversar com ele, contando-lhe o seu passado, as suas questes de famlia, os seus amores, expandindo-se contra os Franceses e particularmente contra Napoleo.
      - Se todos os russos se parecem consigo - dizia-lhe ele -,  um sacrilgio guerrear um povo como o vosso. Embora eles vos tenham feito sofrer tanto, no se sente em vs qualquer dio contra eles.
      E Pedro apenas conquistara esta apaixonada simpatia do italiano pelo facto de lhe ter revelado os tesouros que guardava na alma e despertado nele admirao.
      Nos ltimos tempos que passou em Orel foi visitado por um dos seus antigos conhecidos do mundo manico, o conde Villarski, o mesmo que em 1807 o recebera na loja em que ele ingressara.
      Villarski casara com uma russa muito rica, com grandes propriedades na provncia de Orel, e naquela altura desempenhava funes provisrias na intendncia local.
      Ao saber da presena de Bezukov em Orel, embora nunca tivesse sido da sua intimidade, veio visit-lo, dando-lhe muitas provas de amizade e simpatia, como geralmente acontece com as pessoas que se encontram no meio de um deserto. Enfadava-se em Orel e era com grande satisfao que se encontrava com algum do seu meio, e preocupado, assim ele o supunha, com interesses semelhantes aos seus.
      Mas, com grande surpresa sua, Villarski bem depressa se deu conta de que Pedro no o acompanhava no seu interesse pela vida actual e que se deixara cair, assim ele o pensava, pelo menos, na apatia e no egosmo.
      - Est a ficar bota-de-elstico, meu caro - dizia-lhe ele.
      No entanto, o convvio com Pedro dava-lhe muito mais satisfao agora que antigamente e vinha visit-lo todos os dias. Quanto a Pedro, a presena de Villarski, as suas conversas, faziam-lhe parecer estranho e inverosmil o facto de ele prprio, e muito recentemente, ter podido ser um homem do mesmo gnero.
      Villarski, casado e pai de famlia, ocupado ao mesmo tempo com os interesses da mulher, as suas funes e os filhos, considerava estas diversas preocupaes como obstculo  realizao da sua vida e menosprezava-as por o obrigarem a no pensar seno no seu bem-estar pessoal e no dos seus. As questes militares, administrativas, polticas e os problemas manicos absorviam-lhe por completo a ateno. E Pedro, sem pretender lev-lo a modificar o seu ponto de vista, sem se atrever a julg-lo, com o seu ar manso e a sua tranquila ironia, que no o deixava nunca, ia estudando aquele fenmeno estranho, mas to das suas relaes.
      No seu trato com Villarski, com a princesa, com o mdico, com toda a gente com quem privava ento, evidenciava-se-lhe um novo trao de carcter que atraa as simpatias gerais: o reconhecer a toda a gente o direito de pensar, de sentir e de encaixar as coisas  sua maneira e a certeza de que no era possvel convencer fosse quem fosse com palavras. As particularidades individuais que outrora o irritavam profundamente eram agora, por assim dizer, a razo do interesse apaixonado que votava aos homens. As diferenas, as contradies, por vezes radicais, que verificava entre as diversas opinies e as suas prprias davam-lhe satisfao e provocavam-lhe um sorriso ligeiramente irnico e condescendente.
      Nas coisas prticas sentia em si, com surpresa, como que um ponto de apoio que outrora lhe faltava. Antigamente todos os problemas monetrios, sobretudo os pedidos de dinheiro que na sua qualidade de homem rico o assediavam com frequncia, lanavam-no em grandes incertezas e em embaraos inextricveis Dou ou no dou?, interrogava-se a si prprio. Eu tenho dinheiro e ele no o tem e precisa dele. Mas fulano ainda tem mais necessidade. Qual deles ter mais preciso? E no sero ambos dois intrujes? E no saa disto, acabando por dar dinheiro aos dois, por dar todo o dinheiro que tinha. E mostrava a mesma indeciso perante as questes que pusessem em jogo os seus interesses, por um lado entendendo que era assim que devia proceder e pelo outro que devia agir precisamente ao contrrio.
      Actualmente, com grande surpresa sua, no via nestas questes a mais pequena dvida e a menor dificuldade. Havia nele um juiz, o qual, regendo-se por leis desconhecidas dele prprio, decidia o que devia fazer-se ou no.
      Em assuntos de dinheiro, continuava, como sempre, desinteressado. Mas agora sabia, sem contestao, o que devia ou no fazer. Teve ocasio, pela primeira vez, de aplicar os seus novos princpios quando, certo dia, um coronel francs prisioneiro o veio visitar, lhe falou largamente dos seus empreendimentos e por fim quase lhe exigiu quatro mil francos para remeter  mulher e aos filhos. Pedro recusou-se a emprestar-lhos sem a mais pequena hesitao e o menor embarao, ele prprio surpreendido com a simplicidade e a facilidade com que decidira o que outrora lhe teria parecido extraordinariamente difcil. E, ao mesmo tempo que se recusava a emprestar dinheiro ao coronel, conseguia que o italiano, ao deixar Orel, aceitasse uma determinada importncia que com certeza lhe fazia muita falta. Procedeu de maneira idntica quando chegou o momento de resolver a questo das dvidas da mulher e da reedificao das suas casas na cidade e na aldeia.
      Recebeu em Orel a visita do principal administrador das suas propriedades e procedeu com ele ao balano dos prejuzos que tivera. O incndio de Moscovo, de acordo com os seus clculos, custara-lhe aproximadamente dois milhes de rublos.
      O administrador, em compensao, fez-lhe ver que, apesar destes prejuzos, os seus rendimentos no s no tinham diminudo, mas aumentariam mesmo caso ele se recusasse a pagar as dvidas da condessa, que ningum o podia obrigar a satisfazer, e desistisse de reconstruir as suas casas de Moscovo e as da aldeia, que lhe custavam oitenta mil rublos por ano e no lhe davam o mais pequeno rendimento.
      - Sim, sim, tem razo - disse ele com ar satisfeito. - Sim, sim, tem razo, nenhuma necessidade tenho disso. A minha runa ainda me enriqueceu mais.
      Mas em Janeiro chegou Savelitch de Moscovo, que lhe falou tia situao da cidade, do oramento que o arquitecto fizera para a restaurao das casas e apresentou-lhe o caso como coisa arrumada.
      Entretanto, Pedro recebia cartas do prncipe Vassili e de vrios amigos de Petersburgo. Falavam-lhe nas dvidas da mulher. E ele ento disse de si para consigo que as sugestes do administrador, que de princpio o haviam encantado, no eram de aproveitar e que devia ir a Petersburgo regularizar os assuntos da mulher e a Moscovo restaurar casas. No sabia, porque devia agir deste modo, mas tinha a certeza de que assim  que estava certo. Em virtude desta deciso, os seus rendimentos diminuam de trs quartas partes. Mas assim tinha de ser: era o que ele sentia.
      Como Villarski tinha de ir a Moscovo, decidiram partir juntos. Durante todo o perodo da sua convalescena em Orel, Pedro experimentara um sentimento de alegria, de liberdade, como que um recomear da, vida. E agora, no decurso da viagem, em contacto com o ar livre, as suas impresses ainda mais se exaltaram. Sentia o contentamento de um estudante em frias. As pessoas que encontrava, o postilho, os donos das estaes de muda, os mujiques que via na estrada ou nas povoaes, todos assumiam a seus olhos um sentido novo. A presena de Villarski, as suas observaes, as suas contnuas queixas contra a pobreza, a grosseria, o atraso da Rssia em relao  Europa, despertavam nele uma alegria compassiva. Onde Villarski via fermentos de morte via ele um poder vital extraordinariamente rico, graas ao qual, no meio daqueles vastos espaos cobertos de neve, se mantinha so esse povo to particular e nico no seu gnero. No discutia as opinies do amigo, parecia mesmo estar de acordo com ele, pois de si para consigo dizia que a melhor maneira de evitar discusses sem qualquer resultado era fingir que concordava com ele. E sorria, divertido, enquanto ele falava.
      

      
      
      
      Captulo XV
      
      Assim como  difcil explicar as idas e vindas das formigas quando vem o seu formigueiro arrasado, umas carregando os ovos e os cadveres e outras voltando ao ninho, tropeando, perseguindo-se, lutando, tambm no seria fcil dizer o que impelia os Russos, depois da partida dos Franceses, a agrupar-se naquele local a que outrora se dera o nome de Moscovo. Se se observarem as formigas dispersas em volta do seu formigueiro, compreender-se- que, apesar da runa completa do seu lar, merc da sua tenacidade, da sua energia, da actividade daqueles inumerveis insectos, tudo perderam, salvo o princpio inabalvel e imaterial que constitui a fora da sua colnia. O mesmo acontecia em Moscovo em Outubro. Embora estivesse privada das suas autoridades, das suas igrejas, das suas riquezas, das suas casas, a cidade era a mesma que fora em Agosto. Tudo estava destrudo salvo o que nela havia de imaterial, de verdadeiramente pode roso e de indestrutvel.
      Os objectivos que impeliam todos aqueles que, vindos de toda a parte, afluam a Moscovo depois de evacuada pelo inimigo, eram os mais diversos, e sobretudo pessoais, e principalmente, nos primeiros tempos, de uma natureza bestial e perfeitamente selvagem. Um nico sentimento era comum a todos: o desejo de regressar ao local onde fora Moscovo para cada um se entregar  sua prpria actividade.
      Ao fim de uma semana, Moscovo contava j quinze mil habitantes, duas semanas mais tarde tinha vinte e cinco mil e assim por diante. No Outono de 1813, aumentando sempre, a populao da cidade atingia um nmero de almas muito superior ao da populao de Moscovo de 1812.
      Os primeiros russos que deram entrada em Moscovo foram os cossacos do destacamento Wintzengerode, os mujiques das aldeias vizinhas e os habitantes que tinham fugido, escondendo-se nos arredores. Estes, ao entrarem na cidade em runas e encontrando-a a saque, saquearam-na tambm. Continuaram o que os Franceses tinham principiado. Os mujiques, com as suas carroas, vinham buscar o que se encontrava abandonado nas casas e ao longo das ruas. Os cossacos levaram consigo, para o seu acampamento, o que puderam; os proprietrios de imveis apoderavam-se do que encontravam nas casas alheias e diziam que tudo isso era seu.
      Depois dos primeiros saques, vieram outros, e outros ainda, e a pilhagem,  medida que aumentava o nmero dos salteadores, tornava-se mais difcil e obedecia a normas mais metdicas.
      Os Franceses tinham encontrado a cidade abandonada, mas haviam conservado todas as formas de uma administrao regular, com o seu comrcio, os seus ofcios, as reparties pblicas, a religio. A maior parte das vezes tratava-se de corpos sem vida, mas que ainda assim mesmo existiam. Ainda havia galerias comerciais, lojas, armazns, entrepostos de farinhas, bazares, oficinas, ateliers, geralmente abastecidos de mercadorias; e havia palcios, casas ricas cheias de luxuosos artefactos; havia hospitais, prises, escritrios, igrejas, catedrais.  medida que os Franceses foram ficando, todas estas formas de vida urbana desapareciam pouco a pouco e por fim a cidade transformara-se num vasto campo de saqueio.
      Quanto mais se prolongava o saque dos Franceses tanto mais se esgotavam as riquezas de Moscovo e os recursos dos prprios saqueadores. Pelo contrrio, o dos Russos, nos primeiros dias do seu regresso  capital, quanto mais se prolongava tanto maior era o nmero dos que nele tomavam parte, contribuindo para restabelecer rapidamente a riqueza da cidade e a sua vida regular.
      Assim como o sangue aflui ao corao, afluam a Moscovo, vindos de diversos pontos, alm dos saqueadores, pessoas de toda a sorte, atradas quer pela curiosidade, quer pelo desejo de se tornarem teis, quer por interesse, proprietrios, eclesisticos, pequenos e grandes funcionrios, comerciantes, artesos, mujiques.
      Ao cabo de uma semana, os mujiques que entravam na cidade com os seus carros vazios para levarem os objectos que encontravam eram detidos pelas autoridades e obrigados a transportar os mortos para fora da cidade. Outros, ao saberem do que sucedera aos companheiros, trouxeram trigo, aveia, feno, e em virtude da concorrncia que faziam uns aos outros, os preos baixaram a um nvel inferior ao antigo. Os artels (Associaes de trabalho comunitrio. (N dos T.) dos carpinteiros, atrados pelos bons salrios, apareciam todos os dias e por toda a parte reconstruam ou reparavam as casas que tinham ardido. Comerciantes abriam lojas em abarracamentos. Nas runas iam-se organizando estalagens, hotis. O clero restabelecia o servio religioso em muitas das igrejas que haviam ficado intactas. Donatrios traziam alfaias religiosas que haviam sido roubadas. Funcionrios instalavam em pequenas divisrias as suas mesas cobertas de pano preto e as suas estantes. As autoridades e a polcia procediam  distribuio dos bens abandonados pelos Franceses. Os proprietrios das casas em que os Franceses tinham acumulado muitos objectos valiosos diziam que estavam a ser lesados, porque tudo fora levado para o Palcio das Facetas. Outros sustentavam que os Franceses tinham concentrado num mesmo local muitos objectos roubados de diversas casas e diziam no ser justo entregarem aos proprietrios essas casas com tudo o que l estava dentro. Insultavam a polcia, tentavam suborn-la. Duplicavam o valor dos bens do Tesouro queimados, exigiam socorros em dinheiro. O conde Rostoptchine redigia, as suas proclamaes.
      

      
      
      
      Captulo XVI
      
      No fim de Janeiro, Pedro chegava a Moscovo e instalava-se numa das alas da sua residncia que ficara intacta. Visitou Rostoptchine, algumas das suas relaes que tinham regressado  capital e disps-se a partir no dia seguinte para Petersburgo. Toda a gente celebrava a vitria: a vida formigava na capital em runas, que principiava a renascer. Todos o acolhiam com satisfao; todos o queriam ver para saber das suas aventuras. Pedro, evidentemente, mostrava-se bem disposto com toda a gente que encontrava. Mas mantinha uma certa reserva, para no se comprometer com coisa alguma. A todas as perguntas que lhe faziam, importantes ou insignificantes, como, por exemplo: Onde ia instalar-se? Reconstituiria o seu palcio? Quando partia para Petersburgo? No se importava de tomar conta daquela caixinha?, respondia: Sim, talvez, acho que...
      Soubera que os Rostov estavam em Kostroma, e raramente pensava em Natacha. Se por acaso isso acontecia, era como se se tratasse de uma agradvel recordao de um passado que acabara. Sentia-se feliz no s por se ter visto livre das obrigaes da vida, mas tambm por um sentimento que, pensava ele, voluntariamente a si mesmo impusera.
      Trs dias depois de ter chegado, soube por Drubetslkoi que a princesa Maria estava em Moscovo. A morte, os sofrimentos, os ltimos dias do prncipe Andr, vinham-lhe frequentemente ao esprito e agora muito mais vivamente do que nunca. Tendo sabido durante o jantar que a princesa Maria estava instalado na sua casa de Vozdvijenka, poupada pelo fogo, ali se apresentou nessa mesma noite.
      Pelo caminho ia pensando no seu amigo, nas varias vezes em que estivera com ele e sobretudo no seu ltimo encontro em Borodino. Ser possvel que ele tenha morrido no estado de irritao em que eu o vi nessa altura?, perguntava a si mesmo. <No se lhe teria revelado a vida antes de morrer? E pensava em Karataiev, na morte desse homem, e involuntariamente comparava um com o outro, to diferentes e ao mesmo tempo to prximos pelo afecto que ambos lhe inspiravam e pela maneira como ambos tinham vivido e haviam morrido.
      Os pensamentos mais graves o dominavam ao aproximar-se da antiga casa do velho prncipe. A casa pouco sofrera. Via-se que fora atingida aqui e ali, mas mantinha ntegro o seu carcter. O velho lacaio que o acolheu, de rosto severo, parecendo querer lembrar ao visitante que a ausncia do prncipe em nada alterava a ordem estabelecida, disse-lhe que a princesa acabava de se recolher para os seus aposentos, e que recebia aos domingos.
      - Vai dizer-lhe que estou aqui. Talvez ela me queira receber - volveu-lhe Pedro.
      - s suas ordens - replicou o criado. - Queira ter a bondade de entrar para o salo dos retratos.
      Alguns minutos depois, o lacaio voltou a aparecer acompanhado de Dessales. Este ltimo fez saber a Pedro, da parte da princesa, que era com o maior prazer que o recebia, e lhe pedia, se no se importava de lhe perdoar a sem-cerimnia, que subisse aos seus aposentos.
      A princesa estava numa salinha iluminada apenas por uma vela e junto dela via-se algum vestido de preto. Pedro lembrou-se de que era costume ter sempre a seu lado damas de companhia, em que ele mal reparava. Deve ser uma das damas de companhia, dizia com os seus botes ao ver a senhora de preto.
      A princesa ergueu-se, pressurosa, ao v-lo entrar, e estendeu-lhe a mo.
      - Sim - disse ela, depois de ele lhe beijar a mo, surpreendida com a mudana que notava no seu rosto -, aqui est a situao em que nos voltamos a ver. Nos ltimos dias falou vrias vezes de si - prosseguiu ela, volvendo os olhos para a senhora de preto, com um embarao que no escapou  observao de Pedro.
      - Fiquei to contente quando soube que tinha sido posto em liberdade. Foi essa a nica alegria que temos tido h j muito tempo.
      De novo lanou um olhar inquieto  sua companheira e quis continuar, mas Pedro interrompeu-a.
      - Imagine que eu nada sabia a respeito dele - disse-lhe. - Julguei que tinha sido morto. Tudo que soube me chegou por terceiras pessoas. Disseram-me que ele encontrara os Rostov... Que estranha coincidncia!
      Pedro falava animadamente. Por sua vez, volveu os olhos para a pessoa presente e, ao ver a simpatia e a curiosidade com que ela o ouvia, pensou, como acontece muitas vezes no decurso de uma conversa, que aquela senhora era uma criatura bondosa e simptica, que de modo algum seria a mais naquela conversa ntima com a princesa Maria.
      As suas ltimas palavras relativas aos Rostov pareceram aumentar mais ainda o embarao da sua interlocutora. Os olhos dela afastaram-se de novo de Pedro para pousarem na senhora desconhecida, e disse:
      - Ser possvel que a no reconhea?
      Pedro examinou mais atentamente o rosto plido e delgado, de olhos pretos, da desconhecida, cuja boca se arrepanhava de maneira estranha. Aquele olhar atento pousado nele afigurava-se-lhe o olhar de uma parente, tinha qualquer coisa de ntimo, de que ele perdera o hbito.
      No, no pode ser, disse de si para consigo. Este magro, plido e severo rosto, estes traos envelhecidos! No pode ser! Trata-se de uma iluso! Mas nesse mesmo instante a princesa pronunciou o nome de Natacha e aquele rosto cujos olhos estavam fitos nele, penosamente, com esforo, como uma porta enferrujada que se abre, foi iluminado por um sorriso e aquela porta subitamente aberta projectou nele uma lufada dessa felicidade que h muito esquecera e em que, sobretudo naquele instante, estava muito longe de pensar. Esta lufada de ar fresco apoderou-se dele, envolveu-lhe o ser inteiro. Quando a desconhecida principiou a sorrir, acabaram as dvidas: era realmente Natacha e ele amava-a.
      Instantaneamente, revelava-lhe a ela e a Maria, e sobretudo a si prprio, um segredo que at ento ignorava. Corou sob a impresso de uma alegria em que havia qualquer coisa de doloroso, Quis dissimular a sua emoo. Mas quanto mais se esforava por isso tanto mais proclamava, e mais eloquentemente do que o poderiam fazer as palavras mais claras, a Maria, a si prprio e igualmente a Natacha que a amava, que amava Natacha.
      Naturalmente  o resultado da surpresa, pensava ele. Mas assim que retomou a conversa com a princesa Maria, assim que olhou de novo Natacha, uma vermelhido mais intensa ainda se lhe espalhou pela cara e mais do que nunca se sentiu tomado por uma suave e alegre angstia. Enredou-se no seu discurso e calou-se.
      No reparara nela de principio porque no esperava de maneira alguma encontr-la ali, e no a reconhecera porque uma mudana muito grande se operara nela. Emagrecera e empalidecera. Mas no fora apenas isso que o impedira de a reconhecer, Esse rosto, esses olhos, onde outrora a alegria de viver estampava um riso permanente, quando ele entrou e quando a viu de princpio, tinham perdido por completo essa iluminao interior. Apenas lhe restava o olhar, atento e bom, cheio de uma afectuosa tristeza.
      A perturbao de Pedro no se reflectiu em Natacha, mas um prazer muito vivo lhe iluminou quase invisivelmente o rosto.
      

      
      
      
      Captulo XVII
      
      - Veio passar alguns dias comigo - disse a princesa Maria. -
      O conde e a condessa esto a chegar de um momento para o outro. Natacha precisa de consultar um mdico. Trouxe-a  fora.
      - Sim, todas as famlias tm os seus desgostos - disse Pedro, dirigindo-se a Natacha. - Sabe que isso se deu no prprio dia em que fomos libertados? Eu estava presente. Que rapaz encantador ele era!
      Natacha olhou-o e apenas respondeu com um cintilar dos olhos cheios de lagrimas.
      - Que havemos de fazer para a consolar? - continuou ele. - Porque havia de morrer esse rapazinho to gentil e cheio de vida? - Sim, que difcil deve ser viver no nosso tempo sem o amparo da f... - acorreu a princesa Maria.
      - Sim, sim, tem toda a razo - deu-se pressa em responder Pedro.
      - Porqu? - perguntou Natacha, fitando Pedro nos olhos.
      - Como! Porqu? - continuou a princesa. - S a ideia do que nos espera ali...
      Natacha, sem a deixar concluir, interrogou de novo Pedro com os olhos.
      - Porque - prosseguiu Pedro - s aquele que cr num Deus que nos encaminha pode suportar uma perda como a da princesa... ou como a sua.
      Natacha j entreabria a boca para falar, mas calou-se. Pedro voltou-se para a princesa Maria e interrogou-a sobre os ltimos dias do amigo.
      A emoo de Pedro desaparecera quase por completo, mas ao mesmo tempo sentia que se desvanecera tambm toda a sua liberdade de outrora. Dizia para si mesmo que da para o futuro todas as suas palavras, todos os seus actos estariam submetidos a um juiz a cuja opinio queria mais que a qualquer outra coisa neste mundo. Quando falava, preocupava-o agora a impresso que as suas palavras podiam ter em Natacha. No procurava adrede dizer o que porventura lhe agradasse, mas, dissesse o que dissesse, submetia-se ao ponto de vista dela.
      A princesa Maria, contrariada, como sempre, falou-lhe dos ltimos momentos do prncipe Andr. Mas as perguntas de Pedro, o seu olhar inquieto, a emoo que se lhe denunciava no rosto, obrigaram-na a descer a pormenores que ela receava recordar.
      - Sim, sim... - dizia Pedro, debruando-se todo para a princesa Maria e seguindo avidamente a sua narrativa. - Sim, sim, ento sossegou? Acalmou-se? Com todas as foras da sua alma s desejava uma coisa, ser perfeitamente bom, no temer a morte. Os seus defeitos, se porventura os tinha, no vinham dele. Com que ento serenou? Que felicidade para ele ter tornado a v-la. - acrescentou, voltando-se, bruscamente, para Natacha, e fitando-a com os olhos cheios de lgrimas.
      Percorreu-a um estremecimento nervoso, Franziu as sobrancelhas e por instantes baixou os olhos. Hesitou: devia ou no falar dele?
      - Sim, foi uma grande felicidade - disse ela, em voz grave e serena. - Para mim foi uma grande felicidade. - Calou-se. - E ele... ele... tambm me disse que realizara os seus desejos quando me viu junto de si.
      A voz quebrou-se-lhe. Corou, apoiou convulsivamente as mos nos joelhos e, fazendo um grande esforo sobre si mesma, ergueu a cabea e ps-se a falar com emoo.
      - De nada sabamos quando samos de Moscovo. No tinha tido coragem de perguntar por ele. Foi Snia quem me disse de repente que ele estava ali connosco. No podia pensar, no me podia passar pela cabea o estado em que ele estava. S tinha um desejo: v-lo, estar com ele - acrescentou, numa voz trmula e entrecortada.
      E, sem deixar que a interrompessem, contou o que ainda a ningum confidenciara, tudo quanto sofrera durante as trs semanas que durara a viagem e que estivera em Iaroslav.
      Pedro escutava-a, de boca aberta, sem afastar os olhos cheios de lgrimas do rosto de Natacha. Naquele momento no pensava nem no prncipe Andr, nem lia sua morte, nem no que ela contava. Ouvindo-a, apenas sentia uma grande piedade pela dor que ela experimentava contando-lhe o passado.
      A princesa, que fazia tudo para conter as lgrimas, estava sentada ao lado de Natacha ouvindo pela primeira vez a histria que unira o irmo e Natacha durante os ltimos dias.
      Dir-se-ia que Natacha aliviava a alma com aquelas palavras que ao mesmo tempo a atormentavam dolorosamente e lhe davam uma espcie de secreta alegria.
      Misturava os pormenores mais pueris s minudncias mais ntimas e dir-se-ia que no podia calar-se mais. Por vrias vezes repetiu as mesmas coisas.
      A voz de Dessales ressoou  porta, perguntando se Nikholuchka podia entrar para dar as boas-noites.
      - E aqui tem.  tudo .. - disse Natacha por fim,
      Ergueu-se apressadamente no momento em que entrava Nikholuchka, correu para a porta e, batendo com a cabea no batente oculto por detrs do reposteiro, saiu, violentamente, soltando um doloroso gemido, em que o desgosto e a dor se confundiam.
      Pedro, de olhos fitos na porta por onde ela desaparecera, perguntava a si mesmo porque sentira subitamente que ficava s neste mundo.
      A princesa Maria arrancou-o da sua meditao, apresentando-lhe o sobrinho, que acabava de entrar no quarto.
      Nikholuchka, que se parecia muito com o pai, to profundamente impressionou Pedro, sobretudo na disposio de esprito em que se encontrava, que este se levantou apressadamente depois de o beijar, retirou-se para o vo de uma janela e puxou do leno para esconder as lgrimas. Quis despedir-se da princesa Maria, mas esta reteve-o.
      - Natacha e eu estamos s vezes acordadas at s trs horas da manh. Fique, peo-lhe. Vou mandar servir a ceia. Desa; ns vamos j ter consigo.
      No momento em que ele sala, a princesa disse-lhe: - Foi a primeira vez que falou dele assim.
      

      
      
      
      Captulo XVIII
      
      Conduziram Pedro a uma grande sala de jantar bastante iluminada e alguns minutos depois ouviram-se os passos da princesa e de Natacha, que entravam. Natacha estava serena e retomara o seu ar severo, em que se no traa o mnimo sorriso. A princesa Maria, Natacha e Pedro sentiam todos esse mal-estar que se segue habitualmente a um desabafo ntimo e srio: no  possvel retomar a conversa, porque receamos dizer futilidades; ficar calados embaraa-nos, pois desejaramos falar, e o mutismo em que se cai parece forado. Sentaram-se  mesa em silncio. Os criados afastaram as cadeiras e depois aproximaram-nas da mesa. Pedro desdobrou o guardanapo, decidido a romper o silncio, e olhou para as duas senhoras. Tambm elas no desejavam outra coisa: nos seus olhos brilhava a alegria de viver e pareciam confessar que na vida, alm da dor, h outras coisas.
      - Quer vodka, conde? - disse a princesa Maria, e estas simples palavras bastaram para dissipar as sombras do passado. - Fale-nos de si - acrescentou ela. - O que se diz de si  extraordinrio.
      -  verdade - replicou Pedro, com esse sorriso de doce ironia, habitual agora no seu rosto. - A mim prprio me contaram coisas to extraordinrias que nem em sonhos podem acontecer. Maria Abramovna, aquando de uma das minhas visitas, contou-me tudo que me aconteceu ou tudo que me deve ter acontecido. Stepan Stepanitch, esse ensinou-me o que eu devia dizer. Estou quase convencido de que  coisa cmoda ser-se um homem interessante. Sou convidado para toda a parte e ningum se cansa de me contar histrias a meu prprio respeito.
      Natacha, sorridente, abriu a boca para falar. 
      - Contaram-nos - acudiu a princesa, interrompendo-a. - que o incndio de Moscovo lhe custou dois milhes.  verdade? 
      - A verdade  que sou hoje trs vezes mais rico do que era replicou ele. 
      Embora a liquidao das dvidas da mulher e o restauro das suas casas muito reduzissem a sua fortuna, continuava a dizer estar trs vezes mais rico.
      - Seja como for, o que eu certamente ganhei com tudo isto foi a liberdade... - principiou ele, num tom srio, mas no quis continuar, compreendendo que o assunto era demasiado pessoal.
      - E conta reconstruir as suas casas?
      - Conto, o Savelitch assim o quer.
      - Diga-me, ainda estava em Moscovo quando soube da morte da condessa? - perguntou a princesa Maria, que logo corou, pois dera-se conta de que esta pergunta, depois de ele aludir  sua liberdade, podia lev-lo a atribuir a estas palavras uma inteno que elas no tinham.
      - No - respondeu Pedro, sem ver nada de embaraoso na interpretao que a princesa parecia dar  sua referncia  liberdade. - Soube-o em Orel e no pode calcular quanto essa notcia me emocionou. Nada tnhamos de um casal exemplar - prosseguiu ele com vivacidade, ao notar que Natacha parecia curiosa de saber como ele se referiria  mulher. - Mas a sua morte causou-me uma tremenda impresso. Quando duas pessoas discutem uma com a outra, acabam ambas por andar mal. E o remorso de uma, se a outra desaparece, torna-se repentinamente horrvel. E depois uma morte daquelas... sem amigos, sem consolaes. Tenho muita, muita pena dela. - E ao concluir estas palavras pde verificar com satisfao que Natacha as aprovava.
      - E eis como o senhor est de novo celibatrio e candidato ao casamento - observou a princesa Maria.
      De repente Pedro corou muito e procurou no erguer os olhos para Natacha. Quando, por fim, voltou a olhar para ela, Natacha tinha um ar frio, severo, at mesmo um pouco desdenhoso - pelo menos assim lhe pareceu.
      -  verdade que viu Napoleo e que falou com ele, como nos disseram? - perguntou a princesa Maria.
      Pedro ps-se a rir.
      - No, de maneira nenhuma, As pessoas julgam que ter estado prisioneiro  como ter sido hspede de Napoleo. No s nunca o vi, como nem sequer ouvi mesmo falar dele. A gente com quem eu estava era de muito mais baixa condio.
      A ceia chegava ao fim, e Pedro, que de princpio se recusara a falar do seu cativeiro, pouco a pouco foi mudando de inteno.
      - E tambm no  verdade ter ficado em Moscovo para matar Napoleo? - perguntou-lhe Natacha, com um imperceptvel sorriso. - Foi o que eu pensei quando se encontrou com certas senhoras ao p da Torre Sukariev. Lembra-se?
      Pedro confessou que ela adivinhara, e da a pouco, para responder s perguntas de Maria, e principalmente s de Natacha, estava a fazer um relato pormenorizado das suas aventuras.
      De princpio exprimiu-se com essa indulgente ironia que punha agora nos seus juzos sobre os outros e sobre ele prprio, mas depois, quando chegou  altura de falar dos horrores e dos sofrimentos a que assistira, entusiasmou-se, sem dar por isso, e falou com a emoo contida de um homem que recorda momentos pungentes da sua existncia.
      A princesa Maria olhava ora Pedro ora Natacha com um meigo sorriso. Em tudo quanto ele contava s via Pedro e a sua grande bondade. Natacha, com os cotovelos em cima da mesa, seguia a narrativa, mudando de expresso  medida que Pedro falava, e parecendo viver com ele todos os pormenores. O seu olhar, as suas exclamaes, as suas breves perguntas, mostravam que ela apreendia justamente o sentido das coisas. Via-se que no compreendia apenas a trama da histria, mas o seu significado ntimo, significado que as prprias palavras no podiam exprimir. O episdio da mulher e da criana a quem ele procurou socorrer, causa do seu cativeiro, contou-o ele da seguinte maneira: O espectculo era horrvel, havia crianas abandonadas, outras que morriam no meio das labaredas... Vi arrancar uma s chamas mesmo diante de mim... A algumas mulheres tiravam-lhes,  fora, o que traziam em cima de si, at lhes arrancavam os brincos das orelhas... Nesta altura Pedro corou, balbuciando: - Ento apareceu uma patrulha, que levou todos os homens, todos os homens que no andavam a saquear. E eu l fui, levado com eles.
      Parece-me que no est a dizer tudo. Naturalmente fez alguma coisa - disse Natacha, que acrescentou: -... alguma coisa bonita.
      Pedro prosseguiu na sua narrativa. Quando chegou  altura do episdio da execuo dos incendirios, quis evitar referir-se aos pormenores demasiadamente impressionantes, mas Natacha exigiu que ele no omitisse fosse o que fosse.
      Pedro, que se levantara da mesa e andava de um lado para o outro, seguido pelo olhar atento de Natacha, ia nesse momento principiar a falar de Karataiev, mas calou-se.
      - No, no podero compreender tudo o que me ensinou esse analfabeto, esse inocente.
      - Podemos, sim, podemos, fale! - interveio Natacha. - Que lhe aconteceu?
      - Mataram-no quase  minha vista.
      E Pedro contou o que se passara quando arrastado na retirada do exrcito francs, e numa voz trmula de emoo referiu a doena e a morte de Karataiev.
      As suas aventuras nunca lhe tinham avultado diante dos olhos como agora, que a elas se referia. Tudo por que passara tomava a seus olhos como que um sentido novo. Enquanto contava a Natacha o que lhe acontecera, sentia esse prazer raro do homem a quem as mulheres escutam, no essas mulheres espirituosas, que apenas se preocupam em fixar algumas frases do que ouvem para com elas guarnecer o seu repertrio e na primeira altura ornamentarem com elas as sentenas que lhes saem do acanhado crebro, mas esse prazer que d o ser-se ouvido por uma dessas autnticas mulheres capazes de saber discernir e chamar a si o que h de melhor no que se lhes comunica. Natacha, sem dar por isso, toda ela era ouvidos: no perdia uma entoao, um olhar, um estremecimento do rosto ou um gesto de Pedro. Apanhava no ar, mal lhe saa da boca, cada uma das suas palavras e guardava-as no fundo do corao, entreaberto para receb-las. Adivinhava o misterioso trabalho que se estava a realizar na alma daquele que falava.
      A princesa Maria ouvia, interessada, a narrativa, mas outra coisa nesse momento lhe absorvia a ateno: dava-se conta de que era possvel que Natacha e Pedro se amassem e pudessem vir a ser felizes. E esta ideia, que pela primeira vez lhe ocorria, inundava-a de jbilo.
      Eram trs horas da manh. Criados de rosto triste e severo vieram substituir as velas sem que ningum desse por isso. Pedro conclua a sua narrativa. Natacha continuava a fitar nele, obstinadamente, o seu olhar brilhante e cheio de animao, como se quisesse adivinhar qualquer coisa que ele no dissera. Pedro, perturbado e feliz, olhava-a de soslaio e ia pensando no que poderia dizer agora para mudar o curso da conversa. A princesa Maria continuava calada. Nenhum deles se lembrava de que eram trs horas da madrugada e boas horas para se irem deitar.
      - Queixamo-nos das desgraas e dos sofrimentos - disse Pedro -, mas se neste mesmo instante me viessem dizer: Queres voltar ao que eras antes do cativeiro ou preferes tornar a viver o que passaste?, eu responderia: Por Deus! Antes uma vez mais o cativeiro e a carne de cavalo! Julgamos ns que ao sermos atirados para fora do caminho trilhado tudo est perdido, quando, pelo contrrio,  ento que comea uma nova vida, a verdadeira vida. Enquanto h vida h felicidade. H muita, muitssima esperana no futuro. E  pensando em si, Natacha, que eu principalmente o digo.
      - Tem razo, tem razo - exclamou Natacha, seguindo os seus prprios pensamentos. - Eu prpria no desejava outra coisa seno tornar a viver o que vivi.
      Pedro olhou-a atentamente.
      - Sim, no queria mais nada! - afirmou ela.
      -  falso,  falso - gritou Pedro. - Tenho culpa porventura de estar vivo e de querer continuar a viver? E esse  o seu caso.
      De sbito, Natacha apertou a cabea nas mos e principiou soluar.
      - Que tens tu, Natacha? - inquiriu Maria.
      - Nada, no tenho nada. - E sorriu para Pedro no meio das suas lgrimas. - Adeus, so horas de dormir.
      Pedro levantou-se e pediu licena para se retirar.
      
      Como de costume, a princesa Maria e Natacha reuniram-se no quarto de dormir e trocaram impresses sobre o que Pedro dissera. Maria, porm, no emitiu qualquer juzo acerca do comportamento de Pedro; e Natacha to-pouco.
      - Bom, adeus. Maria! - disse Natacha. - Queres saber? AS vezes tenho medo de acabarmos por esquec-lo, caso continuemos a no querer falar dele.
      Referia-se ao prncipe Andr. Maria suspirou fundo e com esse suspiro queria dizer que pensava da mesma maneira. Mas no ousou traduzi-lo em palavras.
      - Ser possvel esquecer? - disse ela.
      - No calculas o bem que me fez ter contado hoje o que se passou - voltou Natacha. - Foi penoso, doloroso, mas fez-me bem, muito bem. Estou convencida de que foi realmente amigo dele. E por isso lhe contei tudo... Achas que fiz mal? - perguntou, de sbito, corando.
      - Ao Pedro? Ah! No! Ele  to bom, to bom! - disse Maria.
      - Notaste, Maria? - prosseguiu ela, com um ligeiro sorriso travesso, que a princesa h muito lhe no via. - Agora est muito limpo, muito asseado, muito fresco, parece que acabou de sair do banho, de um banho moral, entenda-se. No achas?
      - Acho - assentiu a princesa Maria. - Mudou muito, e para melhor.
      - E traz um redingote de bom talhe e j no usa os cabelos compridos. No h dvida, parece que acaba de sair do banho... Como o pai, antigamente...
      - Agora compreendo porque ele no gostava de mais ningum como gostava dele - replicou Maria, pensando no irmo.
      -  verdade. E no entanto nada se parecem. H quem diga que as amizades entre homens se fundam sempre nos contrastes. Acho que deve ser verdade. Crs, realmente, que ele se no parece com ele em coisa alguma?
      - Seja como for,  uma ptima pessoa.
      - Bem, adeus - rematou Natacha.
      E o sorriso trocista continuou por muito tempo a errar-lhe no rosto.
      

      
      
      
      Captulo XIX
      
      Levou tempo primeiro que Pedro se decidisse a deitar-se naquela noite. Andava de um lado para o outro no seu quarto, era franzindo o sobrolho, como se lhe atravessassem o crebro penosos pensamentos, ora encolhendo os ombros, com um sbito estremecimento, ora com um sorriso feliz nos lbios.
      Pensava no prncipe Andr, em Natacha, no amor. Tinha cimes do passado, censurava-se a si prprio por esses mesmos sentimentos, desculpava-se. Eram seis horas da manh e ainda ele continuava a passear de um lado para o outro.
      Mas que h-de uma pessoa fazer se as coisas so assim? Que h-de fazer? Era preciso que tudo se tivesse passado assim, dizia de si para consigo. E, despindo-se rapidamente, deitou-se, feliz e comovido, mas liberto de toda a incerteza. Por mais extraordinrio e por impossvel que parea esta felicidade,  preciso fazer tudo para casarmos um com o outro, pensava ele.
      Alguns dias antes deste encontro fixara para a sexta-feira seguinte o dia da sua partida para Petersburgo. Quando acordou no dia imediato, quinta-feira, Savelitch veio pedir instrues para preparar as malas.
      Que vou fazer a Petersburgo? Que tenho l que fazer? Quem preciso de visitar ali?, perguntava-se a si mesmo, muito surpreendido. Ah! Sim, resolvera ir a Petersburgo h muito j, antes de isto ter acontecido. Mas para fazer o qu? No entanto sempre irei, provavelmente. Que bom e atencioso ele ! Pensa em tudo!, cismava, olhando para a boa e velha pessoa do Savelitch. E que sorriso agradvel ele tem!
      - Decididamente, ests resolvido a continuar servo, Savelitch? - perguntou-lhe ele.
      - Que hei-de fazer da liberdade, Excelncia? Estava aqui bem no tempo do falecido senhor conde, que Deus tenha em descanso! E com V. Ex.a  o mesmo, a gente no tem razo de queixa. E os teus filhos?
      Os meus filhos continuaro como ns, Excelncia. Quando os amos so como V. Ex.a, a vida no  difcil.
      - Sim, mas os meus herdeiros? - disse Pedro - Posso vir a casar-me...  coisa que muito bem pode acontecer - acrescentou, com um ligeiro sorriso.
      - E permita que lhe diga, Excelncia, era muito acertado que o fizesse.
      Julga ele que  coisa simples, disse Pedro com os seus botes. No sabe quanto  grave, quanto  medonho! Ou  muito cedo ou tarde de mais...  medonho!
      - Que manda V, Exa? Sempre parte amanh? - inquiriu Savelitch.
      - No, ainda no. Eu prevenir-te-ei. Desculpa as maadas que te dou - observou ele, e, olhando para o criado, sorrindo, disse de si para consigo:  extraordinrio que ele no perceba que j se no trata de Petersburgo e que antes de mais nada  preciso resolver este caso. De resto, estou certo de que ele sabe, mas finge ignor-lo. Devo falar-lhe nisso? Que pensar ele? No, para outra vez.
      Ao almoo. Pedro contou  prima a visita que fizera na vspera  princesa Maria e como encontrara em casa dela, com grande surpresa sua, Natacha Rostov.
      Ela fingiu nada ver nisso de extraordinrio: era como se ele lhe dissesse que vira uma Ana Semionovna qualquer.
      - Conhece-a? - perguntou Pedro.
      - Conheo a princesa - replicou ela. - Ouvi dizer que a casam com o jovem Rostov. Era para eles um bom casamento. Parece que esto completamente arruinados.
      - No me refiro  princesa Maria, mas a Natacha. Conhece-a?
      - Ah!, sim, ouvi falar nessa histria.  muito triste!
      No me entende ou finge que no entende, disse Pedro para si mesmo.  melhor nada lhe dizer.
      A prima preparara-lhe as coisas para a viagem.
      Ah! So muito bons para mim!, pensou Pedro. Porque trazem eles tudo isto? No  possvel que seja por interesse. Que estranho! 
      Nesse dia o chefe da polcia veio avis-lo de que convinha mandar um homem de confiana ao Palcio das Facetas tomar parte na distribuio dos objectos que estavam a repartir entre os proprietrios.
      E tambm este, pensou Pedro, olhando com curiosidade para o polcia, que desempenado oficial, que belo homem e que boa pessoa! Hoje, ocupar-se com futilidades destas! E, no entanto, dizem que no  srio e que obtm lucros ilcitos. Que estupidez! E de resto porque no h-de ele obter lucros ilcitos? Foi educado assim! Fazem todos o mesmo, Mas que bela cabea! Que ar amvel! E que sorriso agradvel quando olha para ns!
      Pedro foi jantar a casa da princesa Maria.
      Ao atravessar as ruas, pelo meio das casas incendiadas, sentiu-se impressionado com a beleza das runas. Aquelas chamins, aquelas paredes derrudas, lembravam-lhe o Reno e o Coliseu, em longas filas nos bairros devastados pelo fogo. Os cocheiros, os carroceiros que ele encontrava, os carpinteiros que serravam vigas, os comerciantes e os lojistas, todos acolhiam Pedro com caras radiosas e pareciam dizer-lhe: Ah! C est ele! Vamos l a ver o que vai passar-se!
      Ao entrar na casa da princesa Maria pareceu-lhe ter-se enganado: que no estivera ali na vspera, que no se encontrara com Natacha nem lhe falara. No teria eu inventado tudo isto? Naturalmente vou entrar e ningum vejo! Mas, assim que entrou em casa, por todo o ser, graas a uma espcie de imediata privao do livre arbtrio, sentiu a presena dela. Vestia o mesmo vestido preto de harmoniosas pregas e estava penteada como na vspera, e no entanto muito diferente. Se ela estivesse na noite anterior como naquele momento, t-la-ia reconhecido assim que chegara.
      Estava tal qual como ele a conhecera ainda quase criana e depois quando noiva do prncipe Andr. Uma centelha de ingnua alegria lhe inundava a face; um ar gracioso e estranhamente travesso lhe amenizava a expresso.
      Pedro jantou e teria ficado at tarde, mas a princesa Maria tinha de assistir aos ofcios da noite, e ele acompanhou-as. No dia seguinte chegou muito cedo, comeu l em casa e demorou-se tanto que, no obstante a satisfao que lhes dava a presena do hspede, e apesar do prazer que Pedro tinha em estar naquela casa, a conversa esmoreceu da a pouco, arrastando-se sobre assuntos insignificantes e por vezes com as suas pausas. De vez em quando Maria e Natacha entreolhavam-se como a perguntar uma  outra quando se retiraria ele. Pedro percebeu, e apesar disso no foi capaz de se resolver a partir. Sentia-se embaraado, pouco  vontade, mas ia ficando sempre; no podia levantar-se e despedir-se.
      A princesa Maria, que no via soluo para o caso, tratou de se levantar e despedir-se, pretextando uma enxaqueca.
      - Com que ento, parte amanh para Petersburgo? - disse-lhe ela.
      - No, no parto - replicou Pedro vivamente, num tom surpreendido e quase zangado. - Ou talvez sim, Veremos amanh. Em todo o caso, fao teno de lhes apresentar as minhas despedidas. Virei receber as suas ordens. - Enquanto falava, estava de p, corando diante da princesa, sem se decidir a partir.
      Natacha estendeu-lhe a mo e desapareceu. A princesa Maria, em lugar de a imitar, deixou-se cair numa poltrona e ps-se a fixar Pedro, severa e atentamente, com o seu olhar luminoso e profundo. A lassido que ela sentira at a desaparecera agora por completo. Soltou um prolongado suspiro e pareceu disposta a ter com ele uma longa conversa.
      Toda a perturbao e todo o embarao de Pedro desapareceram mal Natacha sara da sala, dando lugar a uma viva animao. Aproximou a poltrona da da interlocutora.
      - Eu queria dizer-lhe... - principiou ele, respondendo ao olhar da princesa, como se de facto ela lhe tivesse falado. - Princesa, socorra-me. Que hei-de eu fazer? Acha que posso esperar? Princesa, minha querida amiga, oua-me. Eu sei, eu bem sei que a no mereo. Sei que no  altura de lhe falar. Mas eu queria ser para ela como um irmo. Ou antes, no, no quero isso; nem quero nem penso...
      Calou-se, e passou a mo pelos olhos.
      - Ah! - prosseguiu, fazendo um grande esforo para falar coerentemente. - No sei desde quando a amo. Mas a ela, s a ela amei na minha vida, e amo-a tanto que no posso conceber a vida sem ela. No  fcil resolver-me a pedir-lhe neste momento que case comigo, mas cada vez que me lembro de que ela poder vir a ser minha mulher e posso deixar passar a oportunidade... sim, a oportunidade...  terrvel. Diga-me, acha que posso ter esperana? Minha querida princesa! - Calou-se alguns instantes e, vendo que ela no lhe respondia, pegou-lhe na mo.
      - Estou a pensar no que me disse - respondeu ela por fim. - E aqui tem a minha opinio a esse respeito. Tem razo em pensar que falar-lhe neste momento em amor...
      No prosseguiu. Queria dizer que falar-lhe agora de amor no era possvel; mas calou-se, porque na antevspera, verificara, ao reparar na alterao sbita da, fisionomia de Natacha, que esta, em vez de se ofender, no caso de Pedro lhe declarar os seus sentimentos, dir-se-ia, no fundo do seu corao, no desejar outra coisa
      -... falar-lhe agora...  impossvel - concluiu, no entanto, a princesa.
      - Ento, que hei-de fazer?
      - Confie em mim - volveu ela. Eu sei...
      Pedro fitou-a nos olhos.
      - O qu, o qu?... - implorou ele.
      - Eu sei que ela gosta de si... ou, antes, que vir a gostar de si - rectificou.
      Ainda no acabara de pronunciar estas palavras j Pedro lhe agarrava nas mos desvairadamente.
      - Porque diz isso? Acha que posso esperar? Acha?...
      - Acho - afirmou a princesa, sorrindo. - Escreva aos pais e deixe-me preparar as coisas. Falar-lhe-ei quando o momento se oferecer.  esse o meu desejo e o corao diz-me que tudo se arranjar.
      - Ah! Ser possvel? Que feliz eu sou! Ser possvel? Ser possvel?... To grande felicidade? - balbuciou ele, beijando-lhe is mos.
      - V para Petersburgo: parece-me ser o melhor. Eu lhe escreverei... - disse ela.
      - Ir-me embora? Para Petersburgo? Sim, est bem. Mas amanh, ainda posso vir amanh?
      Pedro veio no dia seguinte apresentar as suas despedidas. Natacha estava menos animada que nos dias anteriores: mas, pousando nela os olhos. Pedro sentia nada mais existir no mundo, nem ele, nem ela, alm da sua prpria felicidade. Ser possvel? No, no pode ser, repetia a cada olhar, a cada gesto e a cada palavra dela, sentindo a alma a transbordar de jbilo.
      Quando, na altura das despedidas, lhe pegou na mo fina e plida, reteve-a por instantes entre as suas.
      Ser possvel que esta mo, este rosto, este tesouro de sedues que eu desconheo, ser possvel que tudo isto venha a pertencer-me para sempre, a serem-me coisas familiares? Ah!, no  possvel!...
      - Adeus, conde - disse-lhe ela a meia voz. - Esper-lo-ei com impacincia - acrescentou muito baixinho.
      Estas palavras to simples, o olhar e a expresso que as acompanharam, constituram para ele, durante os dois meses de ausncia, a constante saudade e os felizes sonhos. <Esper-lo-ei com impacincia... Sim, sim, pois no foi isso que ela me disse? Que me esperaria com impacincia? Ah!, que feliz eu sou! como se pode ser to feliz?, repetia ele a cada passo de si para consigo.
      

      
      
      
      Captulo XX
      
      Pedro nada sentia agora que se pudesse parecer com o que experimentara em circunstncia semelhante, aquando do seu noivado com Helena.
      No repetia agora, como ento, com uma secreta vergonha, as palavras que lhe dizia. No dizia, como nessa altura, para consigo mesmo: Ah!, porque lhe no disse eu isto, porqu? Porque lhe disse Amo-vos!? Agora, pelo contrrio, tanto as suas palavras como as dela, repetia-as para si mesmo, com todos os jogos da fisionomia e os sorrisos que acompanhavam as palavras, sem querer alterar nada, nem acrescentar fosse o que fosse. Nem estava sempre a perguntar-se a si mesmo se fazer isto ou aquilo seria bem ou mal. Uma nica apreenso acompanhava os seus devaneios: No ser tudo isto um sonho? No se teria enganado a princesa Maria? No estarei a ser demasiado presunoso e confiante? Tenho confiana, mas de repente pode muito bem acontecer que a princesa Maria lhe fale de mim e ela lhe responda, sorrindo:  curioso! Com certeza est enganado. Pois ser possvel que ele no veja que  um homem, um homem simples, enquanto que eu .. Sou to diferente, sou-lhe to superior!.
      Eram frequentes nele estas angstias. E no fazia qualquer projecto. A sua felicidade afigurava-se-lhe to inverosmil que, se, viesse a realizar-se, nada mais poderia existir para ele. Acabar-se-ia todo.
      Uma espcie de loucura da felicidade, de que no se julgaria capaz, se apoderara dele de repente. A existncia, no s para ela mas para o universo inteiro, parecia resumir-se exclusivamente no seu amor e na esperana de vir a ser amado, Outras vezes toda a gente lhe parecia preocupada com uma nica coisa: a sua, felicidade futura. Afigurava-se-lhe que todos os que o rodeavam estavam alegres como ele, procurando apenas dissimular a sua alegria, fingindo-se ocupados com isto e aquilo. A mais pequena palavra, o mais pequeno gesto, pensava. eram uma aluso a sua felicidade. As pessoas que o encontravam surpreendiam-se, frequentem ente, com o seu piscar de olhos e os seus sorrisos, que pareciam atribuir-lhes uma conivncia secreta. Quando dava porque podiam desconhecer-lhe a felicidade, punha-se a lamentar de todo o corao essa pessoa e sentia-se na obrigao de explicar que tudo quanto podia preocup-la no passava de futilidades, coisas indignas de reter a ateno de quem quer que fosse.
      Quando lhe propunham que aceitasse determinadas funes ou emitiam qualquer opinio diante dele sobre a poltica ou a guerra, sugerindo que este ou aquele resultado podiam determinar o bem-estar geral, ele ouvia com o seu sorriso doce e compassivo e causava o espanto dos interlocutores graas s inslitas observaes que fazia. Mas, em compensao, tanto os que lhe pareciam compreender verdadeiramente a vida, isto , os seus prprios sentimentos, como os infelizes, que o no compreendiam, todos se lhe apresentavam naquela altura sob a luz resplandecente dos seus prprios sentimentos. Sem o mais pequeno esforo, via em todos o que cada um tinha de bom e de digno de ser amado.
      Depois de examinar os assuntos e a papelada da mulher, apenas sentiu por ela um profundo sentimento de piedade, pois que Helena no conhecera a felicidade que era a sua ento. O prncipe Vassili, muito orgulhoso com o seu novo lugar e, a sua nova condecorao, para ele no passava agora de um pobre e digno velho.
      Mais tarde Pedro veio a recordar muitas vezes estes dias de louca felicidade. Todos os juzos que ento fizera a respeito das pessoas e das circunstncias ficaram para ele como juzos exactos para sempre. No s no renegou depois as suas opinies de antanho sobre os homens e as coisas, mas, pelo contrrio, quando tinha dvidas e incertezas intimas, recorria s opinies que tivera nessa altura e verificava serem sempre exactas.
       possvel, dizia ele com os seus botes, que eu fosse ento estranho e ridculo, mas no era to louco como parecia. Pelo contrrio, nessa altura sentia-me mais perspicaz e inteligente do que nunca. Compreendia tudo o que valia a pena compreender na vida, porque... era feliz.
      A sua loucura consistia em no espera.-, como anteriormente, para gostar das pessoas, razes pessoais para o fazer, consequncia do que ele chamava o mrito de cada um. O amor transbordava-lhe do corao; no tinha necessidade de pretextos para amar ou ento encontrava razes s mos-cheias para justificar o amor que sentia.
      

      
      
      
      Captulo XXI
      
      Desde a noite em que Natacha, depois da partida de Pedro, dissera  princesa Maria, com um sorriso alegre e irnico, que Pedro parecia ter acabado de sair do banho, na sua alma surgiu um sentimento oculto e desconhecido Para ela, mas invencvel.
      Subitamente, a sua expresso, o seu andar, o seu olhar, a sua voz, tudo se modificou nela. Uma vida nova, aspiraes inesperadas  felicidade, despertaram nela e exigiram satisfao. Desde essa mesma noite pareceu esquecer tudo o que lhe acontecera. Da para o futuro no voltou a queixar-se uma nica vez, no tornou a fazer qualquer aluso ao passado e no mais hesitou em fazer projectos para o futuro. No falava muito de Pedro, mas quando a princesa Maria se lhe referia, uma chama, de h muito apagada no seu olhar, inflamava-se e os lbios crispavam-se-lhe num estranho sorriso.
      A princesa Maria comeou por estranhar a mudana que se operara em Natacha, e, quando lhe percebeu a causa, sentiu como que mgoa. Tinha to pouco amor a meu irmo que bem depressa o pde esquecer?, interrogava-se ela a si mesma quando sozinha. Na presena de Natacha, porm, no dava a perceber qualquer azedume e no fazia referncia a coisa alguma. A energia vital que se apoderara da sua amiga era to irresistvel e to inesperada em si mesma que no se sentia no direito de a acusar, sequer na intimidade da sua alma.
      Quanto a Natacha, essa, entregava-se to completamente e com tanta sinceridade aos seus novos sentimentos que nem sequer procurava esconder que a alegria tomara nela o lugar da tristeza.
      Depois da explicao que a princesa Maria tivera com Pedro, naquela noite, ao entrar no quarto. Natacha deteve-a no limiar da porta.
      - Disse qualquer coisa, no disse? Disse qualquer coisa? - repetiu ela,
      E havia nela uma alegria, ao mesmo tempo ligeiramente pesarosa, como se estivesse a pedir desculpa de se sentir to alegre.
      - Tive tentaes de escutar  porta, mas tinha a certeza de que me dirias tudo.
      Era sincera a maneira como a olhava e comovedora a emoo que a agitava, mas, apesar disso, a princesa Maria no deixou de principiar por se sentir ferida.
      A lembrana do irmo e do amor que ele tivera por Natacha de novo lhe veio ao esprito.
      Mas que havemos de fazer? No pode ser de outra maneira, disse para si mesma.
      E, com tristeza e certa severidade, repetiu a Natacha o que Pedro lhe dissera. Grande foi a surpresa de Natacha ao saber que ele ia partir para Petersburgo.
      - Qu? Para Petersburgo? - repetia ela, como se no compreendesse-
      Ao reparar porm na tristeza que se pintara no rosto da princesa Maria, percebeu porqu, e de sbito rompeu a chorar, - Maria - exclamou ela - indica-me o que devo fazer. Tenho medo de ser m. Tudo que disseres eu o farei orienta-me... Gostas dele?
      - Gosto - disse Na tacha, em voz surda.
      - Porque choras ento? Sinto-me feliz por ti - continuou Maria, que, graas quelas lgrimas, lhe perdoava inteiramente a alegria.
      - No ser to depressa. Pensa s que grande felicidade para ns quando eu for a mulher dele e tu a mulher de Nicolau.
      - Natacha, peo-te, no falemos nisso. Falemos s de ti. Ficaram ambas caladas.
      - Mas diz-me uma coisa: porque vai ele para Petersburgo? - voltou Natacha, de sbito. E como que respondendo a, si mesma: - Assim deve ser... No , Maria? Assim deve ser...







Eplogo







PRIMEIRA PARTE
      

      
      
      
      Captulo 1
      
      Sete anos tinham passado. O agitado mar que submergira a Europa regressara s suas margens. Parecia ter sossegado, mas as foras que haviam impelido a humanidade, ocultas porque as leis a que obedecem nos no so conhecidas, continuavam a actuar. Embora tudo parecesse tranquilo  superfcie das guas, a humanidade continua a estar submetida a um movimento ininterrupto, como o do tempo. Diversos agrupamentos humanos se combinaram, para em seguida se dissolverem, causas novas de formao e deslocao dos estados, de amlgamas de naes se preparam,
      As vagas no se encaminham agora, como antes, de uma s vez, de uma margem  outra: a tempestade ruge nas profundezas. As personalidades histricas no so como outrora arrastadas pelas vagas de uma margem para a outra: parecem agora turbilhonar no mesmo stio. Outrora presidiam,  frente das tropas, aos movimentos das massas, por meio de guerras, de campanhas, de batalhas; agora tomam parte nos surdos movimentos da tempestade por meio de combinaes polticas e diplomticas, de leis, de tratados...
      Esta interveno de certas personagens tem para os historiadores o nome de reaco.
      As descries que eles fazem da aco que, segundo eles, veio a provocar o que chamam a reaco, trasbordam de severas crticas. Toda a gente notvel da poca, de Alexandre e Napoleo a Madame de Stal, Fotius. Schelling, Fichte, Chateaubriand, etc., passaram diante deste severo tribunal, onde foram absolvidos ou condenados, consoante contriburam para o progresso ou para a reaco.
      Segundo eles, durante este perodo houve igualmente uma reaco na Rssia, cujo principal obreiro foi Alexandre I, esse mesmo Alexandre que, sempre na sua opinio, consideram o iniciador das medidas liberais do seu reinado e o salvador da Rssia.
      Hoje, na Rssia, desde o mais humilde dos estudantes ao mais sbio dos historiadores, no h uma s pessoa que no atire pedras a Alexandre pelos erros por ele praticados nessa altura.
      Devia ter procedido desta e daquela maneira. Em tal circunstncia procedeu bem, em tal outra procedeu mal. Comportou-se muitssimo bem nos primeiros tempos do seu reinado e em 1812; mas procedeu mal concedendo uma constituio  Polnia, organizando a Santa Aliana, dando plenos poderes a Araktcheiev, encorajando Galitsine e o misticismo e depois Chichkov e Fotius. Procedeu mal ocupando-se das questes internas do exrcito e deslocando o regimento Semionovski.
      Seriam precisas pginas e pginas para enumerar todos os reproches que lhe fazem os historiadores em nome do bem da humanidade, de que dispem a sua talante.
      Que significam estes reproches?
      Os actos de Alexandre que eles aprovam, a saber: as tentativas liberais do seu reinado, a luta contra Napoleo, a sua firmeza em .1812, a campanha de 1813, no provm da mesma fonte - tradies de famlia, razes de educao, experincia constituinte da prpria personalidade do imperador - que os que eles censuram, a saber: a Santa Aliana, a restaurao da Polnia, a reaco dos anos 20.
      Mas em que consistem em essncia esses reproches? Consistem em dizer que uma personagem histrica como Alexandre, colocada no ponto mais alto do poder humano, no ponto onde converge, por assim dizer, a luz deslumbrante que vem de toda a parte, exposta, por isso mesmo,  mais poderosa das influncias que se conhecem, a intriga, o ludibrio, a lisonja e o orgulho, inseparveis do Poder; sentindo-se a todo o momento responsvel por tudo o que estava a realizar-se na Europa; personagem, alis, que nada tem de imaginria, mas que  viva, e bem viva, to viva como qualquer de ns com os seus hbitos, as suas paixes, as suas inclinaes para o bem, o belo e o verdadeiro; que uma tal personagem, h uns cinquenta anos atrs, no tenha sido, no dizem um prodgio de virtude, disso no a acusam, mas que no tenha tido sobre o bem da humanidade as mesmas ideias que actualmente qualquer professor dado  cincia desde a juventude, isto , habituado a tomar notas, a frequentar cursos e a regist-los em seguida por escrito.
      Mas se se supe que Alexandre se enganou, h cinquenta anos, sobre o bem dos povos, somos levados a presumir que o historiador que hoje em dia emite tais juzos muito bem poder, dentro de alguns anos, parecer errado igualmente no que hoje se julga ser o mesmo bem. Tal suposio  tanto mais natural e necessria que, se se acompanhar a evoluo da histria, ver-se- que com cada novo autor muda o ponto de vista sobre o em que consiste esse bem da humanidade. De tal maneira que o que parecia ser bem passou a ser mal dez anos depois e reciprocamente. E, o que  mais, simultaneamente surgem opinies contraditrias sobre o mesmo assunto. H historiadores que consideram mrito de Alexandre a constituio da Polnia e a Santa Aliana, e h os que consideram esses mesmos actos motivos de reproche.
      Quer se trate de Alexandre ou de Napoleo, no pode dizer-se que a sua aco foi til ou nociva, uma vez que se no sabe em que ordem de coisas foi ela til ou nociva Se os seus actos desagradam a este ou quele  apenas porque vo de encontro  noo limitada que este ou aquele tm do que  o bem. Se o bem para mim est no facto de a casa de meu pai no ter sido destruda em Moscovo em 1812 ou na glria dos exrcitos russos, ou na prosperidade das Universidades de Petersburgo ou outras ou na liberdade da Polnia, no poder da Rssia, no equilbrio europeu ou ainda numa civilizao europeia de um gnero a que se d o nome de progresso, devo confessar que, alm destes escopos, esta ou aquela personagem histrica tinha outros, mais gerais, que eu no posso compreender.
      Admitamos que a pretensa cincia tem o poder de reduzir todas as contradies e que dispe para as personagens e os acontecimentos histricos de um modo infalvel de medir o que  o bem e o que  o mal.
      Suponhamos que Alexandre poderia proceder de maneira completamente diferente. Suponhamos que tinha podido, de acordo com as indicaes dos que o acusam, dos que pretendem conhecer os objectivos finais da humanidade, que ele tinha podido cumprir o programa de interesse nacional, de liberdade, de igualdade e de progresso que os seus crticos actuais acham que devia ter realizado e, segundo eles.  o nico vlido.
      Suponhamos que um tal programa era possvel e prtico e que Alexandre o pudera aplicar. Que teria acontecido  aco dos indivduos que se opuseram s tendncias do governo de ento, essa aco que, segundo os historiadores, foi boa e til? Nada do que fizeram teria sido realizado: toda a vida teria sido extinta.
      Pretender-se que a vida dos homens seja sempre dirigida pela razo  destruir toda a possibilidade de vida.
      

      
      
      
      Captulo II
      
      Se admitirmos, como os historiadores, que os grandes homens conduzem a humanidade para determinados objectivos - a grandeza da Rssia ou da Frana, o equilbrio europeu, a expanso das ideias revolucionrias, o progresso geral ou qualquer outra coisa - ento  impossvel explicar os fenmenos histricos sem recorrer  interveno do azar e do gnio.
      Se a finalidade das guerras do princpio do sculo foi a grandeza da Rssia, esta podia ter sido alcanada sem qualquer das guerras precedentes e sem a invaso, Se essa finalidade era a grandeza da Frana, tinha sido possvel alcan-la sem a Revoluo e sem o Imprio. Se fosse a propagao de certas ideias, a imprensa tinha-a podido realizar muitssimo melhor do que os soldados. Se era o progresso da civilizao, ternos de concordar que h meios mais eficazes que a destruio das pessoas e das riquezas.
      Porque se passaram ento as coisas assim, e no de maneira diferente? Muito simplesmente porque foi assim que se passaram, O azar estabeleceu determinada situao: o gemo tirou dela partido, dizem os historiadores. Mas que vem a ser o azar? Que  o gnio?
      Como estas palavras nada significam de realmente existente, no se podem definir. Apenas indicam uma certa maneira de compreender os fenmenos. Ignoro a causa de determinado acontecimento; reconheo que a no posso vir a conhecer, e por isso falo no azar. Vejo uma fora que produz resultados que ultrapassam a craveira dos acontecimentos ordinrios: no compreendo como as coisas se deram, e invoco o gnio.
      Num rebanho de carneiros, o carneiro que o pastor fecha todas as noites num cercado especial para que seja alimentado  parte e venha a ficar duas vezes mais nutrido do que os outros deve necessariamente parecer um gnio. E pelo facto, precisamente, de este carneiro ter sido criado  parte, com uma alimentao especial, o ser vendido para o talho deve considerar-se uma circunstncia genial ligada a toda uma srie de circunstncias extraordinrias.
      Basta, porm, que os outros carneiros deixem de acreditar que o que acontece  apenas o resultado de se pretender realizar os objectivos prprios dos criadores de gado; basta-lhes admitir que os objectivos em vista podem ser-lhes ininteligveis, para que eles encarem a engorda de um dos seus pares um acontecimento com a sua unidade e o seu desenvolvimento lgico. Ignorando a razo desse acontecimento, sabero pelo menos que ele se no produziu de improviso e que no tero necessidade de recorrer nem ao azar nem ao gnio.
      S quando renunciamos a conhecer a meta prxima e compreensvel, e ao admitirmos que a meta final nos  inacessvel, podemos ver encadeamento e lgica na vida das personagens histricas; descobriremos a razo da desproporo existente entre os seus tetos e, a capacidade comum a toda a gente e dispensaremos de uma vez para sempre tanto o azar como o gnio.
      Basta reconhecermos que, a razo das agitaes dos povos europeus nos  desconhecida, que apenas conhecemos factos, primeiro as matanas em Frana, depois na Itlia, em frica, na Prssia, na ustria, na Espanha, na Rssia, e que tudo isso no passa de uma deslocao do Ocidente para o Oriente, depois do Oriente para o Ocidente, para que no s renunciemos a admitir qualquer coisa de excepcional e de genial nos caracteres de Napoleo e de Alexandre, mas at para que no seja possvel vermos neles homens diferentes dos outros. No teremos mais necessidade de explicar por um feliz azar as mnimas circunstncias que fizeram destes homens o que eles foram; tornar-se-nos- evidente que essas circunstncias eram necessrias.
      Se renunciarmos a conhecer a meta final das coisas, compreenderemos que, da mesma maneira que uma planta no pode ler outra cor nem outras sementes, no podemos imaginar duas pessoas cujos actos correspondam melhor que os dos dois imperadores, numa tal escala e at nos mais pequenos pormenores,  misso que lhes foi atribuda.
      

      
      
      
      Captulo III
      
      O facto essencial e fundamental dos acontecimentos do princpio do sculo XIX consiste numa deslocao em massa dos povos da Europa Ocidental para o Oriente, depois do Oriente para o Ocidente. Para que os povos do Ocidente tenham podido levar a marcha blica at Moscovo foi necessrio: 1, que formassem um conjunto militar suficientemente poderoso para suportar o choque da massa dos guerreiros do Oriente; 2, que renunciassem a todas as suas tradies e aos seus hbitos; 3, que, para levar a bom termo o seu empreendimento, tivessem  sua frente um homem capaz de justificar aos seus prprios olhos e aos olhos deles as fraudes, os saques e as chacinas que o acompanharam.
      O primeiro grupo, oriundo da Revoluo Francesa, insuficientemente forte, dissolve-se depressa; ao mesmo tempo so destrudos os velhos hbitos e as tradies antigas; depois forma-se, pouco a pouco, um novo grupo e mais considervel, novas tradies se estabelecem e ento prepara-se para desempenhar o seu papel o homem que ir colocar-se  frente do futuro movimento e chamar a si toda a responsabilidade dos acontecimentos que devem seguir-se.
      Este homem, sem convices, sem passado, sem tradies, sem nome, que nem sequer  francs, graas a um concurso de circunstncias, insinua-se entre os partidos que agitam ento a Frana e sem fazer parte de nenhum deles vem a ser guindado a uma alta esfera.
      A grosseria dos seus companheiros, a fraqueza e a nulidade dos seus adversrios, o cinismo na mentira, a mediocridade brilhante e vaidosa desse homem, levam-no ao comando do exrcito. O ar espaventoso das tropas de Itlia, a nula vontade de se baterem que tinham os seus rivais, a sua audcia e a sua vaidade pueril asseguram-lhe a glria das armas. Uma srie de circunstncias felizes acompanha-o por todos os lados. O afastamento em que os dirigentes o mantm -lhe til. As tentativas que faz para mudar de rota no frutificam: recusam aceitar os seus servios na Rssia, falha igualmente na Turquia. Durante a guerra de Itlia, por vrias vezes, v-se a dois passos da perdio e sempre qualquer circunstncia imprevista o livra de apuros. Os exrcitos russos, precisamente os que lhe podiam ofuscar a glria, merc de vrias combinaes diplomticas, no pem o p na Europa enquanto ele ali se mantm.
      No seu regresso de Itlia encontra o governo de Paris num tal estado de decomposio que aqueles que dele fazem parte tm fatalmente de se apagar e desaparecer. E espontaneamente se lhe apresenta a maneira de sair de uma situao perigosa: a expedio  frica, absurda e sem qualquer razo de ser. E os mesmos felizes acasos o acompanham. Malta, considerada inexpugnvel, rende-se sem um tiro. Os actos mais imprudentes so coroados de xito. A armada inimiga, que pouco depois no deixar passar um nico barco, deixa as guas livres a uma esquadra inteira. Em frica comete-se toda uma srie de abominaes sobre uma populao quase desarmada. E os homens que cometem esses crimes, e sobretudo o seu chefe, esto persuadidos de que tudo isso  herico, que esto a cobrir-se de glria e que os seus empreendimentos so dignos de rivalizar com os de Csar e de Alexandre da Macednia.
      Este ideal de glria e de grandeza que consiste no s em no recuar perante seja que crime for, mas em vangloriar-se disso mesmo, atribuindo aos crimes uma espcie de valor sobrenatural, esse ideal que, de ento para o futuro, ser o escopo desse homem e dos seus aclitos, elabora-se plenamente em frica. Tudo o que faz o faz com xito. A peste no o contagia. As cruis chacinas de prisioneiros no lhe so imputadas como crime. A sua partida de frica, de uma imprudncia infantil, que nada justifica, acto de flagrante ingratido para com os seus companheiros em desgraa,  considerada um mrito, e pela segunda vez a armada inimiga o deixa fugir.  ento que, aturdido pelos crimes praticados e que lhe deram sorte, pronto a desempenhar o seu papel, mas ainda sem objectivo, chega a Paris. A decomposio do governo republicano, que um ano antes o teria podido perder, atingiu o mais alto grau, e a presena desse homem novo, alheio aos partidos, s pode concorrei- para a sua salvao,
      No tem qualquer plano. Tem medo de tudo, mas os partidos agarram-se a ele e pedem-lhe auxlio.
      Com o ideal de glria e de grandeza que forjou na Itlia e no Egipto, com a louca admirao de si prprio, com a audcia revelada para o crime, com o cinismo que pratica na mentira, s ele  capaz de justificar os acontecimentos que vo seguir-se.
       o homem necessrio para o lugar que o espera e  por isso que, independentemente da sua vontade, apesar da sua irresoluo, da sua falta de planos, de todos os erros que comete,  arrastado a uma conspirao para tomar conta do Poder e essa conspirao  coroada de xito.
      Introduzem-no  fora numa reunio do Directrio. Assustado, quer fugir, julgando-se perdido. Finge uma sncope. Diz coisas insensatas, que lhe poderiam ter sido fatais, Mas os membros do Directrio, at ento altivos e prudentes, ao perceberem que desempenharam o seu papel, ainda se mostram mais perturbados do que ele prprio, e dizem exactamente o contrrio do que deviam para manterem o Poder e aniquilar o adversrio.
      Um azar, milhes de azares concedem-lhe o Poder e todos os homens parecem combinados para lhe consolidar a autoridade. , o azar que leva os governantes da Frana de ento a inclinarem-se diante dele  o azar que determina Paulo I a reconhec-lo; , o azar que contra ele trama uma conspirao, a qual, em vez de lhe abalar o Poder, o consolida.  o azar que pe a merc dele o duque de Enghien e o compele, inopinadamente, a mand-lo assassinar, demonstrando  populaa, desta sorte - meio mais poderoso que nenhum outro -, que o direito lhe pertence, visto que dispe da fora.  o azar que o faz reunir todos os recursos de que dispe para levar a cabo uma expedio contra a Inglaterra, empreendimento que evidentemente lhe poderia ser fatal, mas a expedio no se realiza, caindo, de sbito, sobre Mack e os Austracos, que se rendem sem combate.  o azar, secundado pelo gnio, que lhe concede a vitria em Austerlitz e  ainda graas ao azar que no s a Frana, mas todas as naes da Europa, com excepo da Inglaterra, a qual no tomar parte nos acontecimentos subsequentes, que todos os povos, apesar do horror e da averso que os crimes deste homem lhes inspiram, e conhecem o seu poder, o ttulo que a si prprio se atribuiu e o seu ideal de grandeza e de glria, que todos acham magnfico e sensato.
      Como para se exercitarem e prepararem para se porem em movimento, as foras do Ocidente, por vrias vezes, em 1805, 1806, 1807, 1809, dirigem-se para o Oriente, cada vez mais poderosas e mais numerosas. Em 1811, o grupo de homens que se formou em Frana une-se, numa massa considervel, com os povos do Centro da Europa, A medida que esta massa de homens vai crescendo, maiores as razes de se justificar assistem quele que as comanda. Durante os dez anos de preparao deste grande movimento estabelece entendimentos com todos os monarcas da Europa. Os poderosos deste mundo, despojados de toda a autoridade, para opor a este ideal de glria e de grandeza encarnado num Napoleo, e desprovido de todo o bom senso, no dispem de qualquer outro ideal razovel. Um por um se do pressa de mostrar-lhe a sua insignfic1cia. O rei da Prssia manda a prpria mulher solicitar as boas graas do grande homem: o imperador da ustria considera alta merc o facto de ele se dignar receber no seu leito a filha dos Csares: o Papa, guardio do sagrado tesouro espiritual dos povos, pe a religio ao servio da glorificao deste homem. No  Napoleo quem se prepara para desempenhar o seu papel mas so aqueles que o rodeiam quem o compele a aceitar a responsabilidade dos acontecimentos presentes e futuros. No era acto, crime, desonestidade, cometido por ele que se no transforme imediatamente em grande faanha na boca dos que o rodeiam. Os Alemes, para o lisonjear, nada tm de melhor que celebrarem as vitrias de Iena e de Auerstedt,. No  s nele que reside a grandeza, mas nos antepassados, nos irmos, nos sobrinhos, nos cunhados. Tudo para o despojar dos ltimos lampejos da razo, preparando-o para o seu terrvel papel. E quando chega o momento de estar preparado tudo  sua volta est preparado tambm.
      A invaso avana para o Oriente, atinge o seu objectivo final: Moscovo. A capital  tomada. O exrcito russo encontra-se num estado de aniquilamento tal como nenhum outro exrcito o esteve nas precedentes guerras, de Austerlitz a Wagram. E de sbito, em vez destes golpes do gnio e do azar que de maneira to persistente o conduziram, graas a uma cadeia ininterrupta de xitos, ao objectivo previsto, surge uma srie inumervel de azares contrrios, desde a constipao de Borodino at ao gelo e  centelha que incendiou Moscovo, e o gnio  substitudo por rasgos de estupidez e de vilania sem precedentes.
      A invaso precipita-se, pe-se em fuga de novo e tudo desde ai passa a ser, constantemente, no a seu favor, mas contra ele. Produz-se um movimento em sentido inverso, do Oriente para o Ocidente, em tudo parecido com o anterior, do Ocidente para o Oriente.
      As mesmas tentativas prvias como em 1805, 1807, 1809, antes da marcha geral; a mesma aglutinao dos diversos elementos para se formar a massa colossal: a mesma adeso dos povos do centro da Europa: a mesma hesitao a meio do caminho e a mesma multiplicao da velocidade  medida que se aproxima da meta.
      Paris, o objectivo ltimo,  atingida. O governo imperial e o exrcito so destrudos. Napoleo j no tem razo de ser: todos os seus actos de ento para c so lamentveis e repugnantes. Mas eis que um acaso inexplicvel se produz. Os aliados odeiam esse homem, a quem atribuem todas as suas infelicidades. Despojado da sua fora e do seu poderio, convicto de crimes e de perfdias, deveria ter-lhes surgido diante dos olhos como lhes aparecera dez anos antes: um verdadeiro bandido  margem da lei. Graas, porm, a uma estranha circunstncia, ningum o viu nesse aspecto. Ainda no estava terminado o seu papel. Este homem, este bandido fora da lei,  enviado para uma ilha, apenas a dois dias de jornada da Frana, cuja jurisdio lhe  entregue, com um corpo de guarda prprio e milhes que lhe pagam no se sabe porqu.
      

      
      
      
      Captulo IV
      
      O fluxo da mar dos povos principia a recolher-se aos limites das suas margens. As vagas refluem e sobre o apaziguado mar flutuam os diplomatas, convencidos de que esse apaziguamento  obra sua.
      Mas, de sbito, o mar agita-se de novo. Os diplomatas persuadem-se de que so eles e que  o desacordo que lavra entre si que constitui a causa deste novo afluxo de violncias: aguardam a guerra entre os soberanos; a situao afigura-se-lhes insolvel. No entanto, a mar, o refluxo que eles esperam, no surge do lado donde supunham que viria, A mesma vaga se levanta do mesmo ponto de partida, de Paris. Produz-se ento o ltimo movimento vindo do Ocidente, agitao nova que deve resolver as dificuldades diplomticas, que parecem insolveis, e pr fim aos movimentos blicos desse perodo-
      O homem que arrasou a Frana volta s, sem conspirao prvia, sem soldados. Qualquer sentinela o podia, ter prendido, mas, por estranho azar, no s ningum lhe deita a mo como todos acolhem, entusiasmados, o homem a quem na vspera maldiziam e a quem iro amaldioar um ms depois.
      Este homem era, necessrio ainda para justificar o ltimo acto. O ltimo acto terminou.
      Depois de representar o seu papel, o actor recebe ordem para despir as roupas de cena e para se despojar dos adereos: ningum j precisa dele. Alguns anos decorrem ainda em que ele, na solido da sua ilha, continua a representar para si prprio uma miservel comdia, intrigando e mentindo, para justificar os seus actos, quando essa justificao  intil e prova ao mundo inteiro o que em verdade era o que todos supunham ser a fora numa poca em que uma mo invisvel a guiava.
      Uma vez terminado o drama e despojado o actor das suas roupas de cena, o encenador apontava para ele:
      - Aqui tendes aquele em quem acreditastes! Ei-lo! Vede agora como no era ele, mas eu quem o conduzia.
      Cegos pela violncia do impulso recebido, os povos levaram tempo a perceber.
      Sequncia e fatalidade maiores ainda se encontram na vida de Alexandre I, ele que se achou  frente do movimento em sentido inverso, o do Oriente para o Ocidente.
      Que era preciso ao homem que, eclipsando todos os demais, se encontrava a dirigir esse movimento?
      Sentimento da justia, viso geral dos interesses europeus no obscurecidos por mesquinhas consideraes. Ascendente moral superior sobre os demais soberanos da poca. Qualidades pessoais de doura e seduo. Ter sido pessoalmente ofendido por Bonaparte. E tudo isso se associou em Alexandre I. Tudo isso fora preparado pelos numerosos azares que tinham semeado a sua vida passada: a educao, as tendncias liberais, os conselheiros que o rodeavam, Austerlitz, Tilsitt, Erfurth.
      Durante a guerra patritica, a sua personalidade apaga-se, pois no  necessria. Mas, logo que surge a necessidade de uma guerra europeia geral, ei-lo que aparece no seu lugar no momento dado; e, promovendo a unio de todos os povos, condu-los ao fim em vista.
      O objectivo  finalmente atingido. Depois da ltima guerra de 1815 encontra-se com poderes como homem algum ainda tivera. Como usou deles?
      Alexandre, o pacificador da Europa, esse homem que desde a sua mais tenra juventude s pensou na felicidade dos seus povos, esse homem que foi o primeiro iniciador das reformas liberais na sua ptria, agora que, ao que parecia, dispunha do mais lato poder, e por conseguinte dos meios de realizar a felicidade com que sonhara, ao mesmo tempo que Napoleo, no exlio, se entrega a planos mentirosos e pueris, destinados, segundo ele, a promover a felicidade da humanidade, caso lhe voltassem a conceder os poderes de que desfrutara, Alexandre, que cumprira a sua misso e se sente nas mos de Deus, reconhece, de sbito, a inanidade de todo esse falso poder, retira-se, confia o Poder a homens a quem despreza e contenta-se em murmurar:
      - No  por ns, no  por ns, mas por Ti, Eterno! Sou um homem como qualquer outro; deixem-me viver como um simples mortal e pensar na minha alma e em Deus!
      Assim como o Sol e cada tomo do ter constituem esferas perfeitas em si, nada mais que tomos do todo imenso, cuja imensidade  inacessvel ao homem, cada indivduo transporta consigo os seus prprios fins ao mesmo tempo que serve fins comuns incompreensveis  humanidade.
      A abelha pousada numa flor picou uma criana. Esta tem medo das abelhas e diz que esses insectos s servem para picar os homens. O poeta, por sua vez, admira a abelha que esvoaa na corola das flores e afirma que o seu papel consiste em extrair o nctar das plantas. O apicultor, notando que as abelhas recolhem o plen e o transportam para as colmeias, conclui que o papel delas  recolher o mel. E aqueloutro que estudou de perto a vida do enxame mantm que a abelha recolhe o plen para sustento das abelhas jovens e a criao da rainha e que o seu papel, por conseguinte,  o da conservao da espcie. O botnico observa que a abelha, transportando o plen da planta diica para o rgo feminino, o fecunda, e nesta fecundao v ele o papel do insecto. Outro, ao estudar as variaes das plantas, descobre que a abelha contribui para essa variao e julga-se no direito de concluir que foi criada para desempenhar tal papel. Na realidade, nenhuma das observaes que o esprito humano est em condies de fazer atende ao objectivo derradeiro da abelha, Quanto mais a inteligncia procura erguer-se  compreenso das razes ltimas, tanto mais evidente se lhe torna que essas razes lhe so inacessveis.
      O homem apenas pode atingir a correlao existente entre a vida da abelha e os demais fenmenos vitais. E o mesmo acontece com a penetrao das razes ltimas dos factos histricos relativos aos indivduos e aos povos.
      

      
      
      
      Captulo V
      
      O casamento de Natacha e Bezukov, que se realizou em 1813, foi o ltimo acontecimento feliz da velha famlia Rostov, Nesse mesmo ano morria o conde Ilia Andreitch e, como sempre acontece em tais circunstncias, o desaparecimento do chefe provocou a dissoluo de toda a famlia.
      Os acontecimentos do ano anterior, o incndio de Moscovo, a fuga da famlia, o falecimento do prncipe Andr, o desespero de Natacha, a morte de Ptia, a grande dor da condessa, todas estas coisas, umas atrs das outras, tinham prostrado o velho conde, Parecia no atingir ou no ter foras para compreender a gravidade de todas estas desgraas, e, vergando a cabea, branca diante da crueldade do destino, dir-se-ia aguardar e desejar mesmo que novas catstrofes pusessem termo aos seus dias, Ora parecia esmagado e abatido ora tomado de uma agitao e de uma actividade sem sentido.
      O casamento de Natacha entreteve-o, temporariamente enquanto se ocupava dos seus preparativos solenes. Organizou jantares e ceias e fez tudo para se mostrar alegre, mas a sua alegria no era como a de outrora, comunicativa: naqueles que o conheciam e estimavam causava um efeito penoso.
      Depois da partida dos noivos, recaiu na sua modorra e principiou a queixar-se de tdio. Alguns dias mais tarde caiu doente e recolheu  cama, Desde o princpio da doena, e apesar do que diziam os mdicos, convenceu-se de que no tornaria- a levantar-se. A condessa passou quinze dias sentada  sua cabeceira, sem se despir. Cada vez que lhe apresentava os remdios, o conde beijava-lhe a mo em silncio e soluava. Horas antes da sua morte, pediu perdo  mulher, de lgrimas nos olhos, e mentalmente ao filho por haver dilapidado os seus bens, o maior pecado de que se acusava. Depois de ter comungado e recebido a extrema-uno, morreu tranquilamente. No dia seguinte a residncia dos Rostov estava cheia de amigos que vinham prestar as ltimas homenagens ao defunto. Muitas vezes tinham jantado e danado em sua casa, no poucas vezes haviam zombado dele, mas, comovidos e unnimes em reconhecer quo injustos haviam sido, diziam, como para se desculpar: Sim, apesar de tudo, era boa pessoa. J no h hoje homens assim... E, depois, fraquezas toda a gente as tem...
      Ocorreu a morte inesperada do conde precisamente na altura em que os seus negcios estavam to embrulhados que ningum podia dizer o que teria acontecido se a situao se mantivesse por um ano mais.
      Nicolau encontrava-se em Paris com o exrcito russo quando soube da morte do pai. Pediu imediatamente para passar  reserva, e, sem mesmo aguardar esse facto, solicitou uma licena e partiu para Moscovo. O estado das finanas familiares tornou-se conhecido um ms depois da morte do conde e grande foi a surpresa de toda a gente perante a imensidade do total que atingiram as dvidas de que ningum sabia a existncia. O passivo elevava-se ao dobro dos bens existentes.
      Os parentes e os amigos aconselharam Nicolau a renunciar  herana. Este entendia, porm, que semelhante procedimento, seria como uma censura  sagrada memria do pai, e recusou-se a fazer o que lhe aconselhavam, aceitando a herana com o encargo de pagar as dvidas.
      Os credores, que se haviam mantido calados enquanto o (,onde vivera, coibidos pelo sentimento de simpatia que lhes inspirava a sua generosidade, decidiram todos fazer valer os seus direitos. Todos queriam ser os primeiros a receber, como sempre acontece, e os que tinham em seu poder letras de crdito, como Mitenka e outros, foram os mais exigentes. Nicolau no tinha descanso e os que se haviam mostrado condescendentes com o velho conde, responsvel pelos seus prejuzos, se porventura prejuzos tinham, no mostravam agora para com o jovem herdeiro a mais ligeira benevolncia, embora ele no tivesse culpa do que acontecera e apenas houvesse aceitado espontaneamente o encargo de os indemnizar.
      Nenhuma das combinaes propostas por Nicolau veio a ser aceite. As propriedades foram vendidas em hasta pblica por preo irrisrio e ainda ficou por pagar metade das dvidas. Nicolau aceitou os trinta mil rublos que lhe ofereceu o cunhado Bezulcov para satisfazer as dividas de dinheiro. E para pagar as demais e evitar a cadeia com que os credores o ameaavam arranjou um emprego.
      Tornar a vestir a farda, retomando o seu lugar no exrcito, onde, na primeira vaga, seria nomeado comandante de regimento, era coisa em que no podia pensar, pois agora a me agarrava-se a ele como a uma tbua de salvao.
      Eis porque, apesar da pouca vontade de permanecer em Moscovo, entre as pessoas que o tinham conhecido nos velhos tempos, aceitou um emprego na administrao civil, e, despindo a farda que tanto estimava, instalou-se com a me e Snia num andarzinho de Sivtsev-Vrajek.
      Natacha e Pedro viviam ento em Petersburgo, sem suspeitarem da situao de Nicolau. Depois do dinheiro que aceitara emprestado do cunhado, fez o possvel para lhe ocultar a indigncia em que vivia. As suas dificuldades eram tanto maiores quanto era certo que, com os mil e duzentos rublos dos seus honorrios, no s tinha de manter Snia, a me e a si prprio, mas guardar uma aparncia que no deixasse a condessa suspeitar do estado de pobreza a que tinham chegado. A velha condessa no compreendia a vida sem os hbitos de luxo a que estava afeita desde a infncia, e a cada momento, ignorando o mal que fazia ao filho, estava a reclamar ora a carruagem, que no tinham, para visitar qualquer amiga, ora uma iguaria cara para si, ora vinhos finos para o filho ou dinheiro para uma surpresa a Natacha, a Snia ou ao prprio Nicolau.
      Snia governava a casa, cuidava da tia, lia-lhe em voz alta, aturava os seus caprichos e a sua secreta inimizade e ajudava Nicolau a esconder da velha senhora a situao em que se encontravam. Nicolau sentia ter contrado uma dvida para com Snia, que de maneira nenhuma poderia pagar, por tudo que ela fizera pela me, e, apesar de deslumbrado com a sua pacincia e a sua dedicao, evitava, no entanto, manter com ela qualquer intimidade.
      Era como se no seu foro ntimo a censurasse por ser to perfeita e em tudo irrepreensvel. Snia dispunha de tudo que mais estimado  pelo mundo; mas pouco tinha daquilo que  preciso para uma mulher ser amada. E Nicolau compreendia que quanto mais apreciava a dedicao dela menos seria capaz de a amar. Tomara  letra a carta em que ela lhe restitura a liberdade e agora a atitude que mantinha para com Snia era a de quem quer frisar que o que entre eles ocorrera pertencia ao passado e no podia repetir-se.
      A situao financeira de Nicolau ia de mal a pior. A ideia que alimentara de poder vir a entesourar algum dinheiro dos seus honorrios no passara de sonho. No s no pde economizar, mas viu-se obrigado, dentro de pouco, para ocorrer s exigncias da me, a contrair pequenas dvidas. No via maneira de evitar aquele beco sem sada. Repugnava-lhe a ideia de desposar uma herdeira rica, como lhe aconselhavam alguns dos seus parentes. A outra soluo, a morte da me, era coisa em que no queria pensar. Nada desejava, no contava com coisa alguma e no fundo do seu corao sentia uma espcie de sombrio e amargo refrigrio na aceitao resignada do seu destino. Procurava evitar os antigos conhecimentos, que lhe prodigalizavam consolaes ao mesmo tempo que lhe faziam ofertas humilhantes: fugia de distraces e divertimentos; em casa a sua nica ocupao era fazer pacincias com a me, andar no quarto para trs e para diante sem dizer palavra e fumar cachimbo sobre cachimbo. Dir-se-ia querer preservar ciosamente aquela triste disposio de esprito, a nica coisa que o ajudava a suportar a penosa situao em que vivia.
      

      
      
      
      Captulo VI
      
      No princpio do Inverno, a princesa Maria chegou a Moscovo. A maledicncia da cidade logo a ps ao corrente da triste situao dos Rostov: O filho estava a sacrificar-se pela me, eis o que se dizia.
      Era o que eu esperava, dizia ela de si para consigo, sentindo com alegria que aquilo s podia fortalecer o seu amor por Nicolau. Em virtude das suas relaes amistosas e quase familiares com todos os Rostov, tratou de os visitar. No entanto alguma inquietao sentia ao lembrar-se do que se passara em Voroneje entre ela e Nicolau. Fazendo um grande esforo sobre si mesma, decorridas que foram algumas semanas, decidiu, apesar de tudo, levar a cabo essa visita.
      Foi Nicolau quem a veio receber em primeiro lugar, pois, para atingir os aposentos da condessa, era preciso atravessar o seu quarto. Ao v-la, em vez de se mostrar contente, como Maria esperava, assumiu um ar frio, seco e altivo que ela lhe desconhecia. Inquiriu da sua sade, conduziu-a junto da me e desapareceu aps alguns minutos de conversa.
      Quando Maria saiu dos aposentos da condessa, Nicolau, com ares cerimoniosos e ostensiva reserva, acompanhou-a at ao vestbulo. No respondeu palavra s perguntas que ela lhe fez sobre a sade da condessa. Isso que lhe importa? Deixe-me em paz, parecia ler-se-lhe nos olhos.
      - E que vem ela fazer aqui? De que precisa? No posso aturar estas damas e as suas amabilidades! - exclamou, em voz alta, sem poder dominar-se, quando a carruagem da princesa se afastou.
      - Ah! Parece impossvel falares assim, Nicolau - replicou Snia, dissimulando a custo a alegria que sentia. -  to boa rapariga e a me gosta tanto dela!
      Nicolau no respondeu e teria desejado no voltar a falar desta visita. Mas a velha condessa a cada passo lha recordava, Elogiava Maria, teimava com o filho para que lhe fosse pagar a visita, manifestava desejos de a ver mais vezes, e, no entanto, sempre que falava dela, estava mal disposta. E Nicolau procurava calar-se de propsito quando ela abordava o assunto e o silncio do filho exasperava a me.
      -  uma rapariga muito digna e encantadora - dizia-lhe a condessa-  preciso que a vs visitar. Ser para ti pelo menos uma distraco; muito te deves aborrecer connosco.
      - No penso nisso, me.
      - Antigamente procuravas v-la e agora dizes que no pensas nisso. Realmente no te compreendo, meu filho. Aborreces-te e depois, de repente, preferes no ver ningum.
      - Nunca disse que me aborrecia.
      - Qu? Acabas de dizer-me que a no queres ver. Mas ela  uma menina muito digna e que sempre te agradou, e agora dizes o que te vem  cabea s para a no visitares. Escondem-me seja o que for.
      - Nada lhe escondemos, me.
      - Ainda se eu te estivesse a pedir qualquer coisa desagradvel, mas no, apenas te peo que faas uma visita. Parece-me um dever de cortesia... Sim, pedi-te, mas no volto a falar-te nisso, visto que tens segredos para tua me.
      - Est bem, irei, j que assim, o quer.
      - Por mim, tanto se me d.  por ti que o desejo.
      Nicolau suspirou, mordeu o bigode, e principiou uma pacincia, procurando distrair a ateno da me.
      No dia seguinte e nos dias que se lhe seguiram deu-se a mesma cena.
      Depois da visita aos Rostov e aps o acolhimento frio e inesperado que Nicolau lhe fizera, a princesa Maria teve de reconhecer que lhe no competia tornar a visit-los.
      No esperava outra coisa, dizia para si mesma, ferida no seu amor-prprio. Nada tenho de comum com ele e apenas desejava ver aquela pobre velha que sempre foi boa para mim e a quem muito devo.
      No entanto estas reflexes no bastavam para sosseg-la. Estava arrependidssima de ter dado aquele passo. Embora tivesse tornado a firme resoluo de no mais voltar a pr os ps naquela casa e de esquecer tudo o que se passara, o certo  que se sentia sempre numa posio falsa. E quando a si prpria perguntava o que a atormentava tanto tinha de reconhecer serem as suas relaes com Rostov. Sentia perfeitamente que no podiam ser os sentimentos ntimos que ele nutria por ela que lhe haviam ditado ,aquele tom friamente corts e para si mesma dizia que esse tom escondia fosse o que fosse... Tinha de esclarecer por qualquer preo aquele ponto e compreendia que sem isso lhe no seria possvel recuperar a paz de esprito.
      Certo dia, em pleno Inverno, encontrava-se ela na sala de estudo do sobrinho, auxiliando-o nos seus deveres, quando lhe vieram anunciar a chegada de Nicolau Rostov. Na firme resoluo de no trair o seu segredo e de no deixar transparecer a sua perturbao, mandou chamar Mademoiselle Bourienne para que ela a acompanhasse ao salo. Assim que olhou para Nicolau compreendeu que ele viera apenas pagar uma dvida de cortesia, e a si mesma jurou no abandonar o tom reservado que ele prprio usava para com ela.
      Falaram da sade da condessa, dos seus amigos comuns, das ultimas notcias sobre a guerra e, assim que decorreram os dez minutos impostos pelas convenincias sociais, Nicolau ergueu-se, pedindo licena para se retirar.
      Com a ajuda de Mademoiselle Bourienne, a princesa pudera manter muitssimo bem a conversa travada, mas no ultimo instante, quando Nicolau se levantou, sentiu-se to cansada de falar de coisas que de maneira nenhuma lhe interessavam, pesou-lhe tanto a ideia de que nunca tivera por assim dizer alegrias na vida, que, abandonando-se aos seus pensamentos, os olhos muito brilhantes fitos diante de si, assim ficou, imvel, sem reparar mesmo em que ele se erguera para sair.
      Nicolau pousou nela o olhar e, para fingir que no dera pela distraco da princesa, dirigiu algumas palavras a Mademoiselle Bourienne, continuando a olhar para Maria. A princesa permanecia imvel e no seu delicado rosto pintava-se um profundo sofrimento. Ento uma grande piedade se apoderou repentinamente dele e confusamente sentiu ser talvez a causa da dor que se pintava nos seus traos. Desejou ampar-la, dizer fosse o que fosse de amvel, mas nada lhe ocorreu.
      - Adeus, princesa - articulou.
      Como se tivesse despertado, a princesa, muito corada, suspirou.
      - Ah, queira perdoar-me! - exclamou ela. - Vai-se j embora, conde? Bem, adeus! E a almofada para a condessa?
      - Espere, eu vou busc-la - acorreu Mademoiselle Bourienne, saindo da sala.
      A princesa e Nicolau ficaram diante um do outro, calados, olhando-se de vez em quando.
      -  verdade, princesa - disse, por fim. Nicolau, com um sorriso triste. - Parece que foi ontem, mas o tempo que l vai desde o dia em que nos vimos pela primeira vez em Bogutcharovo! Que infelizes nos sentamos ento e no entanto que no daria eu para voltar atrs... mas o passado no volta.
      A princesa, enquanto ele falava, pousava nele os olhos cintilantes, Parecia querer perscrutar o significado oculto das suas palavras para compreender os sentimentos que ele sentia por ela.
      -  verdade, sim - assentiu. - Mas no tem que deplorar o passado, conde. E pelo que sei da sua vida actual, alguma coisa de muito terno ficar para sempre em si, pois a abnegao que tem mostrado...
      - No quero os seus elogios - atalhou ele, interrompendo-a com vivacidade - Muito pelo contrrio, passo a vida a acusar-me... Mas no vale a pena falar nisso,  um assunto bastante triste e pouco interessante.
      E de novo o seu olhar assumiu a expresso fria e seca que tivera antes. A princesa, porm, vira nele o homem a quem conhecera e amara e era com esse mesmo homem que estava falando.
      - Pensei que me permitiria que lhe falasse assim - disse ela. - Havia tanta intimidade... consigo e com a sua famlia, que julguei no ser indiscreta a simpatia que lhe mostrasse. Mas enganei-me - acrescentou com tremor na voz.- No sei por- qu - continuou ela, com mais firmeza- antigamente era outro e eu...
      - H muitas razes para isso - replicou ele sublinhando as ltimas palavras. - Muito obrigado, princesa. - s vezes acontecem tantas coisas... - acrescentou em voz baixa.
       isso ento?  isso ento!, disse a princesa consigo mesma, ouvindo uma voz secreta que lhe falava. Ah!, o que eu amava nele no era apenas este olhar alegre, franco e bom, no era s o seu aspecto exterior que me agradava; adivinhava nele uma alma nobre e ntegra, cheia de abnegao. Agora est pobre e eu sou rica...  isso... Sim, se no fosse isso... E recordando-se da carinhosa simpatia que ele lhe testemunhara outrora, ao ver o seu rosto bom e triste, compreendeu, de sbito, a razo da sua frieza.
      - Porqu, conde, porqu? - quase gritou, de repente, aproximando-se dele involuntariamente. - Porqu? Diga-me. Tem de me dizer. - E porque ele se calasse, ela prosseguiu: - No sei que razes so as suas, conde. Mas sofro... confesso-lhe. No me retire a sua boa amizade de outrora. Ser-me-ia to penoso! - E ao dizer isto tinha lgrimas na voz.- Tenho tido to poucos momentos felizes na vida, que tudo que perco me  penoso... Perdoe-me, adeus! - E, rompendo em soluos, deu alguns passos para a porta.
      - Princesa! Por amor de Deus! Um instante! - exclamou ele, tentando ret-la. - Princesa!
      A princesa voltou-se. Olharam-se por momentos de olhos nos olhos em silncio e o passado longnquo e impossvel tornou-se, de sbito, qualquer coisa de prximo, de possvel e de certo.
      

      
      
      
      Captulo VII
      
      No Outono de 1813, Nicolau desposou a princesa Maria e veio instalar-se com a mulher, a condessa Rostov e Snia em Lissia Gori.
      Em quatro anos, sem tocar nos bens da mulher, conseguiu pagar o resto das dvidas e reembolsar, mesmo. Pedro, graas  pequena herana que recebera de uma prima.
      Trs anos mais tarde, em 1820, to bem gerira as suas terras que pde comprar uma pequena propriedade nas vizinhanas de Lissia Gori e encetara negociaes para recuperar Otradrioie, seu sonho favorito.
      Tendo comeado por se ocupar das suas coisas apenas por necessidade, de tal modo se apaixonou pela explorao agrcola que dela fez por assim dizer sua nica ocupao. Tornou-se proprietrio de hbitos muito simples. No apreciava as inovaes, principalmente inglesas, ento na moda, troava dos tratados de agricultura, no gostava dos produtos manufacturados, dos produtos caros, das sementes de trigo seleccionadas e em geral no se dedicava a qualquer cultura especial. Tinha sempre em vista a propriedade inteira, na sua totalidade, e no uma das suas partes. Para ele o que importava no era o azoto e o oxignio que se encontram no solo e no ar nem a charrua ou o adubo especial, mas sim o instrumento que pe em aco ao mesmo tempo o azoto, o oxignio, o adubo e a charrua, isto , o trabalhador, o campons. Desde que meteu ombros aos trabalhos agrcolas e lhes pode estudar todos os aspectos, o principal objecto das suas preocupaes foi o trabalhador. No era este, para ele, um instrumento, seno um fim em si mesmo e um verdadeiro Juiz. Tratou, em primeiro lugar, de lhe compreender as necessidades, tentando saber o que para ele era bom e o que era mau. Fingindo tomar decises e dar ordens, aprendia com ele, estudando os seus mtodos, ouvindo o que dizia e o que aconselhava a respeito do que devia ou no fazer-se. E s no dia em que compreendeu os gostos e os desejos dos camponeses, no dia em que aprendeu a falar com eles e atingiu o sentido oculto das suas palavras, no dia em que se sentiu no meio deles como no seio de uma verdadeira famlia, se votou, ardorosamente, a dirigi-los, isto , a prestar-lhes os servios que estava no direito de exigir E o certo e que a administrao de Nicolau deu os mais brilhantes resultados.
      Assim que chamou a si a administrao das terras, nomeou, sem se equivocar, por uma espcie de intuio, para as funes de administrador, de estaroste e de delegado aqueles indivduos que os prprios mujiques teriam escolhido se a eles competisse esse direito; nunca tinha necessidade de os substituir. Antes de analisar as qualidades qumicas do adubo, antes de se entregar clculos do deve e haver, como costumava dizer por brincadeira, queria saber o nmero de cabeas de gado de que dispunham os seus mujiques, fazendo o possvel para que eles tivessem mais. Conservava as famlias numerosas, no consentindo que elas se pulverizassem. Perseguia, e, expulsava-os at, em caso de necessidade, os preguiosos, os depravados e os que torciam o nariz ao trabalho.
      Durante as sementeiras, as mondas e as colheitas vigiava com iguais cuidados as suas culturas e as elos seus camponeses. E poucos proprietrios tinham as suas terras to bem tratadas fecundas como as dos seus homens.
      No gostava de tratar com os dvoroviii: chamava-os parasitas e, segundo se dizia, dava-lhes demasiada liberdade, estragando-os muitas vezes. Quando se via obrigado a proceder contra qualquer deles, sobretudo quando se tratava de castigar algum, era grande o seu embarao e pedia conselho a toda a gente em casa, mas no hesitava em oferecer para soldado qualquer dvorovii (servos domsticos. (N. dos T.) em lugar de um mujique. Em relao a estes nunca mostrava hesitao nas medidas a tomar. De antemo sabia que iria ser aprovado por todos, quer se tratasse de um ou mais indivduos.
      No se permitia sobrecarregar de trabalho ou castigar qualquer campons a seu bel-prazer, nem to-pouco recompens-lo para sua satisfao pessoal. No lhe seria fcil dizer em que cdigo se baseava para fazer isto ou no fazer aquilo, mas o certo  que tinha a lei gravada no fundo da alma, firme e inaltervel.
      Por vezes, perante um fracasso ou uma desordem, falava com despeito do novo povo russo, com quem no queria tratar, e estava persuadido de que detestava o mujique.
      A verdade, porm.  que lhe queria muito, ao novo povo russo, e  sua maneira de viver, e essa era a razo por que compreendera to bem e to bem assimilara o nico mtodo que dava bom resultado na explorao das terras.
      A condessa Maria tinha cimes do amor do marido pelo povo e lamentava no poder compartilhar dele, mas era-lhe impossvel compreender as alegrias e as preocupaes que Nicolau encontrava junto de um mundo to afastado e to diferente do seu. No podia compreender porque tinha ele modos to animados e satisfeitos quando, a p desde alta madrugada, e depois de passar toda a manh no campo ou na eira, voltava a casa para tomar ch, depois das sementeiras, da monda ou da colheita. No compreendia donde lhe vinha o entusiasmo ao contar-lhe a ela como o abastado campons Matvei Ermichne e sua famlia passara a noite inteira a recolher as sementes quando os demais ainda no tinham principiado a colheita e ele j levantara medo nas suas terras. No compreendia a alegria que ele mostrava quando, ao passar pela varanda, sorria piscando-lhe o olho se via cair sobre os ressequidos campos de aveia uma chuvinha tpida ou se, em dias de monda ou de colheita, quando o vento afastava as nuvens tempestuosas, chegava, muito corado, coberto de suor, vindo da eira, com o cabelo a cheirar a artemisa e hortel-pimenta, e dizia, esfregando as mos: Bom, bom, mais um dia e estar concluda a nossa colheita e a dos mujiques.
      A princesa Maria ainda mais surpreendida ficava quando, ao transmitir a Nicolau - to bom corao e sempre pronto a fazer-lhe todas as vontades- o pedido de algum campons ou de alguma mulher, que lhe rogavam intercedesse para que os isentassem do trabalho, o via recusar obstinadamente, zangando-se muito e aconselhando-a a que no voltasse a interferir no que no lhe dizia respeito. Compreendia ento que ele vivia num mundo  parte, um mundo a que apaixonadamente se votara, e que se regia por leis muito acima do seu entendimento.
      s vezes, quando procurava entend-lo e lhe falava do mrito que ele tinha ao promover o bem-estar dos seus camponeses, Nicolau, enfadado, repontava. No  nada disso. Nunca tal coisa me passou pela cabea. Nada fao a pensar neles. O bem-estar do prximo no passa de romantismo e sentimentalidade, histrias de mulheres. O que  preciso  que os nossos filhos no venham a cair na misria. Tenho de consolidar a nossa fortuna enquanto estou vivo, e nada mais. E para isso convm que as coisas estejam cada uma no seu lugar. Preciso de disciplina... S isso e nada mais!, acrescentava cerrando os punhos com vigor. E depois  justo que assim seja, pois se o campons andar nu, tiver fome e no possuir seno um cavalo, no poder trabalhar nem para mim nem para ele.
      A verdade  que, naturalmente porque Nicolau no pensava fazer fosse o que fosse pelos outros, levado por qualquer noo de virtude, tudo em que se metia resultava prspero. Os seus bens aumentavam a olhos vistos; os camponeses das vizinhanas acorriam a pedir-lhe que os comprasse, e por muito tempo, depois da sua morte permaneceu entre aqueles povos a memria do seu bom governo: Era um patro s direitas... Em primeiro lugar estava o interesse do campons e depois o dele.  certo que nos no poupava. Mas a verdade  que era um verdadeiro patro!
      

      
      
      
      Captulo VIII
      
      A nica coisa que s vezes atormentava Nicolau nas suas relaes com os servos era o seu carcter impulsivo, agravado por velhos costumes de hssar que o levava a ter a mo leve. Ao princpio nada via nisso de repreensvel, mas, no segundo ano de casado, as suas ideias sobre a matria sofreram modificao.
      Um dia, em pleno Estio, convocara ele o estaroste de Bogutcharovo, o sucessor do falecido Drone. Acusavam-no de vrios roubos e negligncias. Viera ao encontro do homem at ao alpendre e s primeiras respostas que ele lhe deu no vestbulo ressoaram gritos e pancadas. Ao regressar a casa para almoar procurou a condessa, que estava a trabalhar, de cabea baixa, no bastidor, e contou-lhe, conforme seu hbito, o que fizera nessa manh e especialmente a histria do estaroste. A condessa Maria, ora muito corada ora plida, escutava-o, imvel, sem levantar a cabea, e nada disse em resposta s palavras do marido.
      - Canalhas! - exclamava ele, exaltando-se s de pensar na cena que houvera. - Ainda se ele me tem dito que era por estar bbedo, mas nem isso... Que tens tu, Maria? - perguntou, de sbito.
      A mulher ergueu a cabea, quis dizer fosse o que fosse, mas de novo se inclinou, cerrando os lbios.
      - Que tens? Que tens tu, minha querida?
      A condessa Maria, que estava longe de ser uma beldade, ficava sempre bonita quando chorava. Nunca a dor fsica ou o despeito a faziam chorar, mas apenas a mgoa e a piedade. E ento os seus olhos luminosos transpareciam de um inexprimvel encanto.
      Nicolau pegara-lhe na mo, e ela, incapaz de se conter, rompeu a chorar.
      - Nicolau, eu vi tudo... Sim,  culpado, mas tu, porque  que tu... Nicolau. - E tapou a cara com as mos.
      Nicolau no disse palavra, corou muito e, afastando-se, ps-se a andar de um lado para o outro na sala. Compreendera o que provocara as lgrimas da mulher, mas no lhe era possvel, assim, de repente, reconhecer que ela tinha razo, que o que ele estava habituado a ver desde criana, o que ele considerava a mais trivial das coisas, podia ser digno de censura. So esquisitices, delicadezas, coisas de mulheres. E da quem sabe se ela ter razo?, perguntava-se a si prprio. Sem considerar o caso arrumado, voltou a olhar para aquele rosto em que se misturavam o amor e a mgoa e compreendeu ento que ela tinha razo e que ele prprio se sentia culpado aos seus prprios olhos havia muito tempo j.
      - Maria - disse-lhe ele, em voz baixa, aproximando-se dela - Isto no voltar a acontecer, dou-te a minha palavra de honra, Nunca mais - repetiu em voz trmula, como uma criana que pede perdo.
      As lgrimas da condessa correram mais ainda. Pegou-lhe na mo e beijou-a.
      - Nicolau, quando quebraste o teu camafeu? - disse ela, para mudar de conversa, fitando a mo onde ele usava um anel com a cabea de Laocoonte.
      - Foi hoje. Ainda por causa disso. Oh, Maria, no me tornes a falar em tal - exclamou, corando. - Dou-te a minha palavra de honra que isto no tornar a acontecer. E que este anel sirva para eu me lembrar pelo tempo for - acrescentou, mostrando o camafeu partido.
      Desde ento, sempre que tinha qualquer explicao com os estarostes ou com os feitores e sentia o sangue afluir-lhe  cabea e crisparem-se-lhe os punhos, fazia girar o anel no dedo e baixava os olhos diante daquele que era causa do seu exaspero. No entanto, por duas vezes no mesmo ano perdeu a cabea e das duas vezes tratou de se confessar  mulher renovando-lhe a promessa de ser aquela a ltima vez.
      - Maria, deves desprezar-me, com certeza - dizia-lhe ele. -  o que eu mereo.
      - Se sentes que no s capaz de te dominar, afasta-te, afasta-te quanto antes - respondia a condessa, contristada, para o consolar.
      Entre os nobres da provncia, Nicolau gozava de considerao, mas era pouco querido. Os interesses da nobreza no lhe davam cuidado. Por isso uns o consideravam orgulhoso e outros pouco inteligente. Todo o seu tempo, das sementeiras da Primavera at s colheitas, o dedicava aos cuidados das suas terras. No Outono, com o mesmo interesse com que cuidava os campos, ia  caa, demorando-se s vezes a caar um ms ou dois. No Inverno ia de visita s povoaes afastadas ou ento entretinha-se a ler. Gostava, sobretudo, de livros de histria: e todos os anos destinava determinada verba para esse fim. E assim ia organizando uma biblioteca sria, como costumava dizer, impondo-se a si mesmo a obrigao de ler, de fio a pavio, os livros que comprava. Quando se instalava para ler no seu gabinete assumia uns ares especiais: a ocupao que de princpio a si prprio impusera como uma disciplina tornara-se-lhe depois familiar, proporcionando-lhe uma satisfao de certa espcie, como a que se costuma sentir quando se faz uma tarefa muito sria. Excepto quando tinha de sair por causa da sua vida de lavrador, passava a maior parte do tempo, durante o Inverno, na intimidade dos seus, preocupando-se, nos mnimos pormenores, com a vida dos filhos e da me. A sua unio com a mulher era cada vez mais completa e de dia para dia descobria nela novos tesouros de bondade.
      Snia vivia com eles desde o casamento de Nicolau. Algum tempo antes da boda, este, censurando a conduta que tivera e louvando a da jovem, contou  futura mulher tudo que entre eles se passara. Pedira-lhe que fosse afectuosa e boa para a prima. Maria deu-se bem conta de quanto o marido era culpado e ela prpria se sentira responsvel para com Snia. Concluiu que fora a sua situao financeira que decidira a escolha de Nicolau e que nada tinha que censurar  rapariga, procurando estim-la quanto pudesse, Mas a verdade  que no s o no conseguia, como dava, frequentemente, porque ele no queria bem, no podendo evitar que assim fosse.
      Um dia abriu-se com Natacha, acusando-se de se sentir injusta.
      - Sabes? - disse-lhe Natacha. - Lembras-te, com certeza, do Evangelho. Pois h l um passo que diz respeito exactamente  situao de Snia.
      - Qual? - perguntou Maria, surpreendida.
      - Porque a qualquer que tiver ser dado e ter em abundncia: mas o que no tiver, at o que tem ser tirado. (S. Mateus, XXV, 29) Lembras-te?  ela quem no possui. Porqu? No sei. No creio que haja nela a mais pequena sombra de egosmo: e no entanto tiram-lhe tudo, tudo lhe tiraram, Por vezes sinto por ela uma piedade imensa. Muito desejei outrora v-la casada com Nicolau mas tive sempre o pressentimento de que isso nunca aconteceria. Snia  a flor estril. Sabes? Como aquela que cresce junto dos morangueiros. Por vezes tenho pena dela, mas outras chego a pensar que ela no sente estas coisas como nos as sentiramos.
      E apesar de Maria ter explicado a Natacha que as palavras do Evangelho tinham uma significao diferente daquela que ela lhes dava, no podia impedir-se, sempre que via Snia, de dizer que Natacha tinha razo. Com efeito, dir-se-ia que Snia no era muito afectada pela situao e que se resignara ao fado de flor estril!. Parecia gostar menos das pessoas, individualmente, que da famlia no seu conjunto. Era como o gato, que se prende mal,  casa que aos habitantes dela. Cuidava da velha condessa, acarinhava e enchia de mimos as crianas, estava sempre pronta a prestar pequenos servios de que era capaz, e toda a gente aceitava os seus cuidados, a verdade diga-se, com bem fraco reconhecimento por ela...
      A quinta de Lissia Gori fora restaurada, mas nunca mais mantida no p em que estivera no tempo do falecido prncipe.
      As construes, levadas a cabo no tempo em que havia dificuldades, eram muito modestas. A grande casa, com os seus antigos alicerces de alvenaria, era de madeira, argamassada apenas no interior. Os grandes quartos, de soalho de madeira, por pintar, tinham divs muito duros e muito simples, poltronas, mesas e cadeiras de abeto, cortado na prpria quinta, e feitas pelos marceneiros servos. A casa era espaosa, com dependncia para a criadagem, e quartos particulares para hspedes. Os parentes dos Rostov e dos Bolkonski vinham muitas vezes a Lissia Gori com toda a sua famlia, e ali ficavam meses inteiros, chegando a trazer consigo dezasseis cavalos e dezenas de criados. Alm disso, quatro vezes por ano, por altura do aniversrio e dos santos dos nomes dos donos da casa, chegavam a apresentar-se ali quase cem convidados de uma s vez, que ficavam um ou dois dias. No resto do tempo a vida dos Rostov decorria regularmente no meio das suas ocupaes habituais, os seus chs, os seus jantares, as suas ceias, em geral preparados com os produtos da quinta.
      

      
      
      
      Captulo IX
      
      Era o dia 5 de Dezembro de 1820, vspera de S. Nicolau. Nesse ano, Natacha, marido e filhos desde o Outono se encontravam em casa do irmo. Pedro partira para Petersburgo, onde fora por assuntos particulares e, segundo dissera, por umas trs semanas. Mas j l iam mais de seis e ele ainda no voltara. Era esperado de um momento para o outro.
      Alm dos Bezukov, era hspede dos Rostov, nesse dia 5 de Dezembro, um velho amigo de Nicolau, o general reformado Vassili Fedorovitch Denissov.
      Nicolau sabia que no dia 6, em que se celebrava a sua festa e os hspedes afluam, tinha de despir o bechm (Jaqueta comprida, bordada. (N. dos T.), enfiar o redingote, calar botas finas e, dirigindo-se  nova igreja que ele prprio mandara construir, receber as felicitaes, oferecer refrescos, falar das eleies da nobreza e das colheitas. Julgava-se, porm, no direito de passar a vspera desse dia como habitualmente. Antes de jantar, verificou as contas do bormistra de uma aldeia de Riazan, na propriedade do sobrinho da mulher, escreveu duas ou trs cartas de negcios e deu uma volta pela eira, o curral e a cavalaria. Depois de tomar medidas preventivas contra a bebedeira geral prevista para o dia seguinte, dia da festa da parquia, entrou na sala de jantar e, sem ter tempo sequer de trocar duas palavras a ss com a mulher, foi sentar-se  longa mesa de vinte talheres onde estava toda a gente da casa. Sentados estavam a me, a velha Madame Bielova, dama de companhia da condessa, a mulher, os seus trs filhos, a preceptora, Snia, Denissov, Natacha, os trs filhos desta, a respectiva preceptora e o velho arquitecto do prncipe Mikail Ivanitch, que vivia os seus ltimos dias em Lissia Gori.
      A condessa Maria sentava-se na outra cabeceira da mesa. Mal o marido se instalara no seu lugar, logo ela concluiu, pela maneira como desdobrou o guardanapo e afastou, com um gesto brusco, os copos que tinha diante, que ele no estava bem disposto, coisa que, alis, lhe acontecia algumas vezes, sobretudo antes da sopa e quando sucedia sentar-se  mesa vindo directamente das terras. Maria conhecia muito bem os seus hbitos e quando ela prpria estava de mar aguardava, tranquilamente, que ele ingerisse a sopa para principiar a conversar com ele, obrigando-o a reconhecer no ter razo para estar de mau humor. Mas naquele dia esquecera-se completamente de o observar; entristecia-a o facto de estar zangado com ela sem razo e sentia-se muito infeliz. Perguntou-lhe onde estivera. Nicolau respondeu muito secamente. Inquiriu ainda se as coisas corriam bem na propriedade. O tom um pouco afectado que ela tomara ao fazer-lhe essa pergunta levou-o a franzir o sobrolho. E respondeu com duas palavras.
      No me enganei, pensou Maria, mas o que o teria irritado contra mim? A maneira como ele respondera dava-lhe claramente a entender ser ela a causa da sua m disposio e que era com ela que no queria falar. Embora compreendendo no se lhe dirigir em tom natural, a condessa Maria no pde impedir-se a si prpria de lhe fazer algumas perguntas.
      Entretanto a conversa, graas a Denissov, tornou-se mais geral e animada, e a condessa Maria no voltou a dirigir directamente a palavra ao marido. Quando se levantaram da mesa e todos foram cumprimentar a condessa velha, Maria pegou na mo de Nicolau, beijou-a e perguntou porque estava ele zangado.
      - Sempre tens cada ideia! Nunca me passou pela cabea estar zangado - respondeu ele.
      Maria, porm, pela maneira como Nicolau acentuou a palavra sempre, percebeu que ele queria dizer: Efectivamente estou zangado, mas no direi porqu.
      Entendiam-se to bem os dois que a prpria Snia e a velha condessa, que, por cime, teriam desejado que eles se no entendessem, nada lhes podiam assacar a tal respeito. Mas a verdade  que tinham os seus momentos de mau humor. Por vezes aps uma quadra de bom tempo fixo, sentiam, de sbito, um contra o outro, uma espcie de hostilidade; isso dava-se geralmente durante os perodos de gravidez da condessa: eis o que acontecia naquela altura.
      - Senhores e senhoras, tenho a dizer-lhes que estou a p desde as seis horas da manh - exclamou Nicolau, em voz alta, num tom brincalho, que a condessa julgou adrede para a irritar. - Amanh tenho de continuar. Por isso me vou deitar.
      E sem nada mais dizer  condessa Maria retirou-se para o gabinete, onde se estendeu num div.
       sempre assim, disse Maria consigo mesma. Dirige a palavra a toda a gente excepto a mim. Sim, bem vejo que lhe inspiro repugnncia. Sobretudo quando estou neste estado. Relanceou um olhar ao ventre soerguido e no espelho viu o rosto afilado, amarelento e plido e os seus olhos ainda maiores.
      Tudo lhe deixou uma impresso penosa: os gritos e as risadas de Denissov, a conversa de Natacha e sobretudo o olhar que lhe deitou Snia.
      Snia era para ela motivo de perptua irritao.
      Depois de ter estado algum tempo com os convidados, sem nada compreender, de resto, do que eles diziam, saiu em bicos de ps e dirigiu-se para o quarto das crianas.
      Os pequenos, com cadeiras, brincavam s viagens a Moscovo e convidaram a me a acompanh-los. Ps-se a brincar com eles, mas sempre atormentada com a ideia do marido e do mau humor que ele mostrara. Levantou-se e encaminhou-se, na ponta dos ps, pesadamente, para o gabinete do div.
      Talvez ele no esteja a dormir: podemos ter uma troca de palavras, dizia ela consigo mesma. Andriucha, o filho mais velho, viera atrs dela, caminhando igualmente nas pontas dos ps. A me no dera por ele.
      - Querida amiga, parece-me que ele est a dormir; est fatigado - disse Snia, que estava no salo. - Cuidado, no o acorde o Andriucha.
      Maria tinha a impresso de que encontrava Snia a todo o momento no seu caminho.
      Voltando a cabea, a condessa viu atrs dela o pequeno, c, reconhecendo que Snia tinha razo, e, precisamente por isso. ,o muito a custo no pronunciou uma palavra dura, Nada disse, e, para fingir que lhe no dava ouvidos, deixou que Andriucha a acompanhasse: depois de levar o dedo ao nariz, a recomendar silncio, aproximou-se da porta. Snia saiu por outra. Do quarto em que, Nicolau dormia vinha a sua respirao pausada da qual ela conhecia, os mais tnues matizes. Ouvi-la era quanto bastava para que Maria visionasse a sua bela e grande testa, os seus bigodes, o conjunto desse rosto que, no silncio da noite, tantas vezes contemplara enquanto ele dormia. Nicolau, de sbito, agitou-se e tossiu. E na mesma altura, atrs da porta. Andriucha ps-se a gritar: Pai, olhe a mezinha. Maria, empalideceu, fez sinal ao filho para que se calasse. Este no tornou a abrir a boca e houve uns segundos de penoso silncio. Ela sabia que o marido no gostava que o acordassem. Ouviu-se atrs da porta outro tossicar e a voz enfadada de Nicolau que dizia:
      - No posso descansar um minuto que seja. Maria, s tu? Para que o trouxeste contigo?
      - Foi apenas de passagem. No sabia... Desculpa...
      Nicolau tossicou ainda e depois calou-se. Maria afastou-se levando o pequeno para o quarto das crianas. Cinco minutos depois. Natacha, menina dos seus trs anos, de lindos olhos pretos, a preferida do pai, ao saber que este estava a dormir que a me se encontrava no salo, correu para junto dele sem me dar por isso. Fez ranger a porta, empurrando-a com deciso e, em passinhos apressados, aproximou-se do div, erguendo-se em bicos de ps para beijar a mo do pai, que estava deitado, de costas para ela, com a cabea apoiada num dos braos. Nicolau voltou-se: no seu rosto havia um sorriso de enternecimento.
      - Natacha! Natacha! - murmurou a condessa Maria, em voz abafada, atrs da porta. - O paizinho quer dormir, Anda!
      - No, mezinha, ele no quer dormir - replicou Natacha com deciso. - Est a rir-se.
      Nicolau pousou os ps no cho, levantou-se e tomou a nos braos.
      - Entra. Macha - disse para a mulher. Esta entrou e sentou-se ao p do marido.
      - No sabia que ele vinha atrs de mim  explicou timidamente. - Vim sem pensar.
      Nicolau, com a filha nos braos, ergueu os olhos para ela ao ver o embarao que se lhe pintava no rosto, enlaou-a com o outro brao e beijou-lhe os cabelos.
      - Ds licena que eu d, um beijo  mezinha? - perguntou  pequena.
      Esta, risonha e, travessa, apontou-lhe para o stio onde ele beijara a me:
      - Outra vez - exclamou.
      - No sei onde foste descobrir que eu estava mal disposto. - disse Nicolau, respondendo deste modo  pergunta que lia nos lbios da mulher.
      - No podes calcular como me sinto infeliz quando est assim.. Penso sempre...
      - Maria, ento, no digas tolices. No tens vergonha? - exclamou Nicolau, jovial.
      - Julgo sempre que no podes gostar de mim, que sou feia... e sobretudo... agora, neste...
      - Oh, que tola me saste! No  belo o que  belo, mas sim o que agrada. S das Malvinas (Romance muito popular na Rssia de que as Malvinas eram as conhecidas protagonistas. (N. dos T.) se gosta por serem belas; mas gosto eu da minha mulher da mesma maneira? No. Gosto dela de outro modo, como no sei dizer. Quando no ests ao p de mim ou entre ns se levanta qualquer arrufo.  como se me sentisse perdido: para mais nada sirvo. E que diabo, amo eu os meus dedos? No. E no entanto que experimentem cortar-me algum.
      - Sim, bem sei, compreendo. Ento no me queres mal? - Tremendamente! - exclamou ele, sorrindo. Depois levantou-se, e, passando a mo pelos cabelos, principiou a andar no quarto de um lado para o outro.
      - Sabes, Maria, de que me lembrei? - principiou, agora que reinava a paz entre os dois e como se pensasse em voz alta. Nem sequer se perguntava a si prprio se ela estaria disposta a ouvi-lo: isso pouco lhe importava. Desde que pensava em qualquer coisa, tambm ela o devia acompanhar. E falou-lhe no desejo que tinha de persuadir Pedro a ficar com eles at  Primavera.
      Maria ouviu-o sem o interrogar proferiu, depois, as suas observaes e por sua vez ps-se a pensar tambm.
      Os seus pensamentos tinham por objecto os filhos.
      - J tem maneiras de mulher - disse em francs, apontando para a pequenita Natacha- Vocs acusam-nos de no termos lgica. Se eu lhe digo: O pai quer dormir, ela responde-me: No, est a rir-se. E tem razo - acrescentou, sorrindo com um ar feliz.
      -  verdade!  verdade!
      E Nicolau, tomando-a nos braos vigorosos, ergueu-a ao ar, empoleirou-a nos ombros, segurou-a pelas pernas e ps-se a andar de um lado para o outro. Pai e filha estavam no cu.
      - Fazes mal, no  justo - murmurou Maria, muito baixo, em francs. - Estrag-la.
      - Que queres que eu faa?... Procuro no o dar a entender...
      Neste momento, no vestbulo e na antecmara ouviu-se como que o rudo de um objecto levantado com esforo e passos que pareciam de algum que entrava.
      - Chegou algum.
      - Deve ser o Pedro. Vou ver - disse Maria, saindo,
      Durante a ausncia da mulher, Nicolau entregou-se a um galope,  volta do quarto, com a filha s cavaleiras. Quando estava sem flego, tirou-a dos ombros e apertou-a contra o peito. Os passos que acabara de dar lembravam-lhe passos de baile e ao contemplar aquele rostozinho redondo e resplandecente de alegria pensou no que ela viria a ser mais tarde, quando ele, j velho, a levasse pela primeira vez ao baile. E isso recordou-lhe o falecido pai a danar com a filha do Danilo Cooper.
      -  ele,  ele. Nicolau - exclamou da a pouco a condessa Maria, entrando no quarto. - Ah!, agora a nossa Natacha j volta  vida.  ver como ela est animada e como acaba de o receber, por ele vir atrasado. Vamos, depressa, corramos. Deixa-a agora em paz - acrescentou, sorrindo para a pequenita, que se estreitava contra o pai.
      Nicolau saiu levando a filha pela mo. Maria ficou s por momentos.
      Ah! Nunca, nunca na minha vida pensei que algum pudesse ser to feliz!, murmurou ela. Um sorriso lhe iluminou o rosto. Mas no mesmo momento teve um suspiro e no seu olhar profundo uma suave tristeza se reflectiu. Alm da felicidade que ela sentia naquele momento existia outra, inacessvel nesta vida, e naquele instante foi nessa felicidade que pensou.
      

      
      
      
      Captulo X
      
      Natacha casara-se nos primeiros dias da Primavera de 1813: em 1820 j tinha trs filhas e um filho, o benjamim, que ela tanto desejara e criava ao peito. Engordara, e era difcil reconhecer nesta me nova e vigorosa a frgil e inquieta Natacha de outrora. Tinham-se-lhe acentuado os traos fisionmicos e na sua doura um pouco flcida havia qualquer coisa de ntido. J no tinha aquela animao fogosa que era o seu grande encanto de outros tempos. Agora s transparecia nela a exuberncia da vida fsica, a alma no se lhe via. Era uma formosa fmea, possante e fecunda. Raramente se acendia nela a chama de outrora. S em circunstncias como a daquele dia, quando o marido voltava a casa depois de uma longa ausncia, quando qualquer dos filhos principiava a convalescer aps um perodo de doena ou quando recordava, junto da condessa Maria, o prncipe Andr, pois nunca falava dele diante do marido - para lhe no despertar cimes, muito raramente ainda quando, em condies verdadeiramente excepcionais, era levada a cantar, prenda que abandonara desde que se casara. Mas nos raros momentos em que esta antiga chama e reanimava, a encantadora mulher ressurgia ainda mais sedutora,
      Desde que se casara vivera com o marido em Moscovo, em Petersburgo, nas propriedades dele nos arredores daquela cidade, e junto da me, isto , em casa de Nicolau. A jovem condessa Bezukov frequentava pouco a sociedade e aqueles que a tinham conhecido no simpatizavam muito com ela. No era nem muito graciosa nem muito amvel. No  que gostasse da solido, no sabia se gostava ou no de estar s e pendia a crer at que no, mas, por assim dizer grvida todo o tempo ou a criar os filhos, ocupada com os mil pormenores da vida do marido, no podia entregar-se a tudo isso seno renunciando  vida da sociedade. Todos os que a tinham conhecido em solteira se surpreendiam com a transformao que nela se operara, como se isso fosse realmente qualquer coisa de extraordinrio. S a velha condessa compreendera, com o seu instinto maternal, que os arrebatamentos da jovem Natacha apenas se traduziam, no fundo no desejo de encontrar um marido e de fundar uma famlia, como, alis, ela prpria o proclamara certo dia em Otradnoie, por brincadeira, embora mais a srio do que pensava. E grande era o espanto da condessa perante a surpresa das pessoas que no compreendiam a sua Natacha, repetindo-lhes que ela sempre disse que viria a ser esposa e mulher modelos.
      - Exagera tanto o seu amor pelo marido e pelos filhos  - acrescentava - que chega a parecer absurdo.
      Natacha no seguia a regra ideal que certos homens superiores aconselham, principalmente franceses, segundo a qual uma mulher depois de casada no deve desleixar-se, pondo de lado todos os recursos da valorizao dos seus encantos: pelo contrario, deve cuidar ainda mais de si que antes do casamento e procurar seduzir o marido como o tentara fazer antes de casada, Natacha abandonara de vez todos os cuidados com os seus atractivos e entre eles o mais poderoso: o talento de cantora. Renunciara ao canto precisamente por ser esse o maior dos seus encantos. No se preocupava agora em ter boas maneiras, em falar com elegncia, em assumir diante do marido as atitudes que mais a valorizassem, nem em vestir lindos vestidos, ou ter exigncias que o poderiam vir a importunar. Procedia de maneira inteiramente oposta aos conselhos que  costume dar-se a uma rapariga. Sentia que os atractivos que o instinto outrora lhe (-,usinara a utilizar seriam agora simplesmente ridculos aos olhos do marido, a quem ela se entregara, desde o primeiro minuto, completamente, com toda a sua alma, sem nada lhe ocultar dos seus sentimentos mais ntimos. Compreendia que o vnculo que os uma nada tinha que ver com toda essa poesia que o atrara para ela: era feito de coisas indefinveis e bem mais slidas, muito parecidas com os laos que prendem a alma ao corpo.
      Fazer caracis, usar anquinhas, cantar romanzas na inteno de prender o marido, parecia-lhe coisa to despropositada como adornar-se para agrado de si mesma. Arranjar-se para agradar aos outros talvez lhe desse satisfao, nem ela sabia: mas a verdade  que no tinha tempo para isso. A principal razo que a levava a menosprezar ao mesmo tempo o canto, a maneira de vestir e a distino na linguagem era apenas esta: no ter tempo para nada.
       sabido que o homem tem a faculdade de se deixar absorver completamente por um nico objecto, por mais insignificante que seja. E tambm  sabido que no h objectos insignificantes em si mesmos que se no tornem de uma importncia extraordinria desde que a ateno se concentre neles.
      O absorvia Natacha por completo era a famlia, isto , o marido, que havia mister manter de portas adentro, para que lhe pertencesse a ela e a mais ningum, e as crianas, que era preciso dar  luz depois cri-las e educ-las.
      E depois ela dava-se, no apenas em esprito, mas com toda a alma, com todo o ser, s suas ocupaes, e quanto mais estas ganhavam importncia a seus olhos menos se sentia capaz de se entregar a qualquer outra ocupao: concentrava sobre o mesmo objectivo toda a sua actividade e no tinha tempo sequer de lazer o que lhe parecia necessrio.
      As discusses e os argumentos acerca dos direitos da mulher, c12s relaes entre cnjuges, das liberdades e direitos que a cada um deles competem, embora no constitussem, como hoje, problemas, j ento existiam, mas tais questes eram-lhe completamente alheias e nem sequer as entendia.
      Esses problemas, ento, como alis hoje em dia, s existiam para as pessoas que encaravam o casamento apenas pela satisfao que os esposos eram capazes de proporcionar um ao outro, Isto , por um dos seus aspectos, e no pelo seu verdadeiro fim, que  a famlia.
      Se queles que entendem que a finalidade das refeies  a alimentao dos indivduos no se pode perguntar se este ou aquele manjar lhes proporciona prazer, o mesmo acontece com os que s vem no casamento uma maneira de constituir famlia.
      Se a finalidade de uma refeio  alimentar o corpo, aquele, que ingira sucessivamente duas refeies obter, talvez, grande satisfao, mas no o fim proposto, pois a verdade  que o estmago no poder digerir essas duas refeies.
      Se a finalidade do casamento  a famlia, aquele ou aquela que queira ter vrias mulheres ou vrios homens, talvez venha a tirar da grande prazer, mas o que no ter, em caso algum,  uma famlia.
      Dado que a finalidade do comer  alimentar-se o homem e a do casamento constituir famlia, o problema resume-se a no se comer mais do que o estmago pode digerir e a no se ter mais mulheres ou mais maridos do que os necessrios para a famlia, isto , a no se ter mais do que uma mulher ou mais do que um marido. A Natacha era necessrio um marido. Tinha um. Esse marido dava-lhe uma famlia. E assim no s no sentia necessidade de ter um marido melhor, mas tambm, como as suas energias morais s a compeliam a consagrar-se a esse marido e  sua famlia, no via qualquer interesse em pensar no que poderia acontecer caso as coisas se passassem de outra maneira.
      Em geral, a sociedade no lhe agradava; preferia muito mais o convvio dos parentes, da condessa Maria, do irmo, da me, de Snia. Esta sociedade agradava-lhe porque lhe permitia, sem estar penteada, sem estar arranjada, em trajes matinais, sair precipitadamente do quarto das crianas, a alegria no rosto, mostrando as fraldas raiadas de amarelo em vez de verde e poder dizer que o seu filho estava agora muito melhor.
      A tal ponto Natacha se mostrava descuidada no seu porte, que o penteado, as palavras que lhe saam pela boca fora, os cimes que sentia de Snia, da preceptora, de todas as mulheres, fossem belas ou feias, era assunto habitual das zombarias daqueles que a rodeavam. A opinio geral era que Pedro estava sob o taco da bota da mulher, e em verdade assim parecia.
      Desde os primeiros dias do seu casamento que Natacha lhe fizera saber quais as suas exigncias. Pedro surpreendeu-se muito com a atitude da mulher - nova para ele -, segundo a qual todos os minutos da sua vida, dele, marido, dali para diante, deviam pertencer-lhe a ela e  famlia. E se estas exigncias o surpreendiam, ao mesmo tempo, lisonjeado, ia-se submetendo a elas.
      A submisso de Pedro era tal que no s, claro est, se no atrevia a fazer a corte ou mesmo a falar um pouco mais amavelmente a outra mulher, como no ousava ir jantar mais ao seu clube, sem outra inteno apenas que matar o tempo, ou fazer qualquer despesa suprflua ou empreender qualquer longa viagem, a menos que fosse para tratar de negcios, incluindo no nmero destes as suas ocupaes intelectuais, inacessveis  inteligncia dela, mas a que no entanto atribua alta importncia, Em compensao, Pedro em casa tinha plenos direitos para dispor no s de si mesmo, mas de toda a famlia. Natacha, na intimidade do lar, era escrava do marido; em casa, tinham de andar em bicos de ps quando Pedro lia ou escrevia fechado no gabinete. Qualquer fantasia que ele tivesse imediatamente a via realizada. E bastava que exprimisse um desejo para Natacha se precipitar a satisfaz-lo.
      Toda a casa se movia sob as pseudo-ordens de Pedro, isto , de harmonia com os seus gostos, que a mulher tudo fazia por adivinhar.
      O seu modo de vida, o ponto onde deviam residir, os conhecimentos, as amizades, as ocupaes de Natacha, a educao das crianas, tudo obedecia  vontade de Pedro, tratando ela de lhe adivinhar os mais pequenos desejos. E na verdade conseguia surpreender os mnimos pensamentos do marido, e desde que se julgava na posse deles com firmeza sustentava o que julgava ter previsto. Se o prprio Pedro mudava ento de parecer, era ela a primeira a combat-lo com as prprias armas.
      Foi o que aconteceu, por exemplo, durante a poca difcil, memorvel para Pedro, em que Natacha, depois do nascimento do seu primeiro filho, assaz dbil, se viu obrigada a tomar, sucessivamente, trs amas, caindo doente, tanto a incomodou este percalo, e ele lhe exps, um dia, as ideias de Rousseau, com as quais estava inteiramente de acordo, acerca dos perigos da amamentao antinatural pelas amas. Aquando do segundo parto, e apesar da oposio da me, dos mdicos e do prprio marido, que todos se opunham a que ela amamentasse a criana, alegando ser coisa ento inaudita e at funesta, teimou em faz-lo e a partir de ento foi ela quem deu de mamar aos filhos.
      Acontecia frequentemente, em momentos de m disposio, questionarem os dois esposos, mas passado tempo, com grande surpresa e no menor alegria, Pedro vinha a verificar, tanto nas palavras como nos actos da mulher, a influncia das ideias causa da disputa. E no s verificara que eram as suas prprias que ela punha em prtica como se apercebia de que essas ideias estavam agora despojadas dos exageros a que o conduzira a paixo no momento em que as sustentara.
      Depois de sete anos de casado, Pedro adquiria, com grande satisfao, a conscincia de que no era m pessoa, sobretudo pelo facto de se ver reflectido na mulher. Sentia que nele o bom e o mau se misturavam, neutralizando-se mutuamente. Na mulher, porm, apenas se reflectia o que nele era verdadeiramente bom: tudo o que no tinha essa qualidade via-se posto de parte. E no era a lgica que intervinha nesta penetrao das inteligncias, mas uma fora misteriosa e imediata.
      

      
      
      
      Captulo XI
      
      Dois, meses antes, Pedro, j em casa dos Rostov, recebera un carta do prncipe Fedor chamando-o a Petersburgo para discutir importantes assuntos que iriam ser debatidos pelos membros de uma sociedade de que ele era um dos principais fundadores.
      Ao ler esta carta, Natacha, que lia toda a correspondncia do marido, embora muito lhe custasse separar-se de Pedro, logo a o entusiasmou a ir a Petersburgo. Atribua grande importncia s actividades intelectuais e abstractas do marido, embora as no compreendesse, e receava ser, a este respeito, um empecilho na sua vida. Pedro, depois de ler a carta, e de lhe ter perguntado, com um tmido olhar, que pensava ela do caso, ouviu-a dizer que partisse, embora fixando-lhe desde logo o dia em que deveria voltar. E foi assim que ele teve uma folga de quatro semanas.
      Havia j quinze dias que o prazo findara e Natacha passava a vida receosa, triste e irritada.
      Denissov, que aparecera em Lissia Gori por aqueles dias, descontente como estava, velho militar que era, com o facto de se ver na situao de general reformado, encarava com desapontamento, e tambm uma certa tristeza, a Natacha que em nada se parecia com aquela criatura a quem quisera outrora.
      Tudo quanto via e ouvia agora na feiticeira de tempos idos eram olhares repassados de tristeza e enfado, respostas incoerentes ou tagarelices sobre as crianas.
      Durante todo aquele tempo mostrara-se sempre macambzia e irritada, sobretudo quando a me, o irmo, Snia ou a, condessa Maria, para a consolar, procuravam desculpar Pedro e aventar hipteses sobre os motivos do seu atraso.
      - Sempre essas tolices, essas burrices, essas dissertaes que para nada servem e essa absurda sociedade - dizia Natacha, sem reparar que falava de coisas a que atribua a mais alta importncia.
      E l ia para o quarto das crianas, dar de mamar a Ptia, o seu filhinho. Ningum era capaz de lhe dizer nada mais razovel e, consolador que esse ser de trs meses, suspenso do seu seio, quando lhe sentia o remexer da boca e o bafo do narizito.
      Aquele ser minsculo dizia-lhe: Ests irritada, ests cheia de cimes, desejarias vingar-te dele, ests com medo, mas eu sou ele. Eu sou ele. E a isto nada havia a responder. Era a pura verdade.
      Natacha durante, aqueles quinze dias de inquietao muitas vezes procurou consolar-se junto da criana, e tantos cuidados lhe deu que a aleitou de mais e ela caiu doente. Se, por um lado, isso a atormentou muito, pelo outro era o que lhe convinha de momento. Os cuidados que teve de ter com a criana fizeram-na suportar mais facilmente a ausncia do marido. Dava de mamar ao filho quando a carruagem de Pedro se ouviu junto do alpendre e a criada velha, que sabia quanto isso poderia alegrar a ama, apareceu subitamente, e sem dizer nada, , porta do quarto, o rosto banhado de alegria.
      - Chegou? - inquiriu Natacha, vivamente, num sussurro, sem fazer o mais pequeno movimento, no fossa acordar o filho.
      - Chegou, sim, minha ama - disse a criada em voz baixa.
      O sangue, subiu-lhe  cara e involuntariamente fez meno de se erguer, mus era-lhe impossvel correr ao encontro do marido. A criana abriu os olhos: Ests a, parecia dizer, e preguiosamente ps-se a remexer os lbios  procura do peito. 
      Natacha retirou-lhe, suavemente o seio, embalou-o, entregou-o  criada e, apressada, dirigiu-se para a sada. Ao p da porta deteve-se, como que movida por um sentimento de remorso, pois to grande era a sua alegria que ia deixar o filho antes do tempo, e voltou-se. A criada, com o cotovelo erguido, deitava a criana no bero.
       - V v. Minha senhora, v descansada murmurou ela, sorrindo, com a familiaridade que habitualmente havia entre ambas.
      E Natacha, em passos rpidos, dirigiu-se para o vestbulo. 
      Denissov, que vinha a sair do gabinete, de cachimbo na boca, para se dirigir ao salo, viu nela, imediatamente, a antiga Natacha. Do seu rosto, como que transfigurado, emanava uma luz clara e radiante,.
      - Chegou! - exclamou ela, ao passar, correndo, e Denissov sentiu que o regresso de Pedro, de quem ele no gostava, alis, o encantava afinal. Quando chegou ao vestbulo, Natacha viu um homem de alta estatura, com uma pelia, que desatava o n da manta do pescoo,  ele!  verdade. Ele a est, dizia ela para si mesma. E, correndo para ele, enlaou-o, apertou-o ele, encontro ao peito, depois, afastando-se, fitou o rosto vermelho e feliz de Pedro, coberto de geada. Sim,  ele, feliz, contente...
      E de sbito vieram-lhe  lembrana as inquietaes que a tinham atormentado naqueles ltimos quinze dias. A alegria que lhe inundava o rosto desvaneceu-se; franziu as sobrancelhas e lanou sobre Pedro uma torrente de reproches e de palavras pouco amveis.
      - Sim, sentes-te feliz, ests muito contente, fartaste-te de te divertir... E eu, durante todo este tempo?... Ao menos que te lembrasses das crianas. Estou a amamentar, o leite estragou-se... Ptia esteve a morrer. E tu, todo este tempo, sentias-te alegre. Olhem que alegre ele est...
      Pedro sabia que no era culpado, pois lhe fora impossvel voltar mais cedo; sabia que aquele destempero da mulher era despropositado e que, alis, estaria sanado dentro de dois ou trs minutos; sabia, sobretudo, que ele prprio estava muito bem disposto. Teria gostado de sorrir, mas no ousou sequer pensar nisso. Com uma expresso assustada e lastimosa, baixava a cabea.
      - No me foi possvel. Juro-te por Deus! E o Ptia, como est ele?
      - Agora j est bom. Vamos v-lo. No tens vergonha! Se visses o estado em que me encontro quando tu no ests, o que me atormentei...
      - No ests doente?
      - Vamos, anda - continuou ela, sem lhe largar o brao.
      E entraram nos aposentos que ocupavam.
      Quando Nicolau e a mulher se puseram  procura de Pedro, estava ele no quarto dos filhos e tinha na sua enorme mo direita o beb, que acabara de acordar. Fazia-lhe festas e a redonda carinha da criana, de boca desdentada, muito aberta, iluminava-se com um sorriso feliz. A borrasca passara e agora um sol alegre iluminava o rosto de Natacha, que contemplava enternecidamente o marido e o filho.
      - E sempre falaste com o prncipe Fedor? - perguntou ela.
      - Sim, falei.
      - Vs como ele a segura bem? - Natacha referia-se  cabea da criana. - Ah!, o medo que eu tive!... Viste a princesa, a nossa prima?  verdade estar enamorada desse...
      - Imagina, sim...
      Nesse momento entraram Nicolau e a condessa Maria. Pedro, sempre com o filho ao colo, debruou-se e beijou os dois, enquanto ia respondendo s perguntas que lhe faziam, Mas, de facto, apesar do interesse que a conversa podia ter, o que absorvia por completo a ateno do pai era o beb, com a sua touquinha e a sua cabea pouco segura.
      - Que lindo! - dizia a condessa Maria, mirando o pequeno e fazendo-lhe festas. - O que no compreendo - prosseguiu ela, voltando-se para o marido -  que tu no aprecies o encanto destes maravilhosos pedacinhos de carne.
      -  verdade, no posso - volveu Nicolau, olhando para o petiz friamente - Esse pedao de carne. Anda da, Pedro. - Isso no o impede de ser um pai carinhoso  acrescentou ela, como para desculpar o marido -, mas s quando os filhos tm mais de um ano, ou ento...
      - O Pedro, esse, sabe muito bem servir de ama-seca - exclamou Natacha. - Diz que a mo  precisamente do tamanho do rabinho dele, Olhem.
      - Sim, sim, mas para isto no - protestou Pedro, rindo, e, pegando na criana, entregou-a  criada.
      

      
      
      
      Captulo XII
      
      Como sempre acontece em todas as famlias, em Lissia Gori formavam-se vrios mundos distintos, os quais, conservando embora as suas particularidades, graas a mtuas concesses, se fundiam num todo harmonioso. O mais pequeno incidente que se verificasse em casa, alegre ou triste para um grupo, era importante para todos; no entanto, cada um deles tinha motivos particulares para se sentir contente ou para se afligir com este ou aquele incidente.
      Assim, a chegada de Pedro foi considerada acontecimento alegre e importante para todos.
      Os criados, os juizes mais fiis dos seus amos, pois os julgam no por conversas ou manifestaes exteriores, mas pelos seus actos e conduta, estavam satisfeitos com o regresso do marido de Natacha. Sabiam que enquanto ele ali estivesse o conde no iria todos os dias percorrer as propriedades e seria mais alegre e mais indulgente, e, alm disso, porque nos dias de festa todos receberiam bons presentes.
      As crianas e as suas preceptoras tambm estavam contentes, porque ningum havia como ele para animar as pessoas. S Pedro sabia executar no cravo a escocesa - a nica pea que tocava -, capaz de servir, dizia ele, para acompanhar todas as danas deste mundo, e de resto tambm lhos teria trazido presentes.
      Nikolenka, que ento andava pelos quinze anos, rapazinho de cabelos louros encaracolados e lindos olhos, de expresso inteligente, embora doente e delicado, no podia conter a sua alegria, pois o tio Pedro, como ele lhe chamava, era objecto de toda a sua admirao e do seu entusiasmo. Ningum particularmente o ensinara, contudo, a gostar de Pedro, a quem s via de longe em longe. A condessa Maria, que o educara, servira-se de toda a sua influncia para que o sobrinho gostasse do tio Nicolau como ela prpria gostava: Nikolenka, gostava, realmente, dela, mas na sua afeio havia uma certa dose de reserva. Pelo contrrio, adorava o tio Pedro. No aspirava a ser nem hssar, nem a ter a cruz de S. Jorge como Nicolau: queria ser instrudo, inteligente e bom como Pedro. Na presena deste, o rosto do pequeno iluminava-se, e quando ele lhe dirigia a palavra, corando de satisfao, a comoo embargava-lhe a voz. Escutava com avidez tudo quanto ele dizia, e depois, com Dessales ou sozinho consigo mesmo, lembrava-se do que ouvira e comentava as suas palavras.
      O passado do tio, as suas desditas antes da guerra de 1812, de que ele, pelo que sabia, pudera engendrar uma confusa e potica imagem, as suas aventuras em Moscovo, o seu cativeiro, Plato Karataiev, de que Pedro lhe falara, o seu amor por Natacha, a quem ele tambm amava  sua maneira, sobretudo a amizade pelo pai, de quem ele se no recordava, tudo isto o revestia a seus olhos de qualquer coisa de sagrado e lhe dava o prestgio de um heri.
      As palavras que lhe ouvira referentes ao pai e a Natacha, a emoo de Pedro sempre que falava do defunto, o enternecimento contido e piedoso quando se aludia ao seu nome, deixavam adivinhar a esse rapazinto, em quem o amor despontava, que o amara aquela senhora e a confiara, ao morrer, ao seu amigo. E esse pai, de quero ele no podia lembrar sequer os traos, era para ele como que uma divindade, de que ningum podia aproximar-se e em quem no podia pensar sem o corao apertado e os olhos cheios de lgrimas de orgulho Por isso foi grande a sua alegria ao ver chegar Pedro.
      Os convidados tambm se sentiam felizes por tornar a v-lo estava sempre animado e servia de agente de ligao entre todos os membros da sociedade.
      Os adultos da casa, sem contar a mulher, mostravam-se contentes com um amigo que punha toda a gente  vontade e a ningum maava.
      As mulheres de idade, alm de estarem muito satisfeitas com as lembranas que ele lhes trouxera, sentiam-se felizes por ver Natacha retomar a sua boa disposio.
      Pedro dava por todas estas diferenas no acolhimento que recebia de toda aquela gente e procurava content-la.
      Pedro, o homem mais distrado e esquecido que existia, comprara, de acordo com um rol feito pela mulher, tudo o que era necessrio, sem esquecer as encomendas da me e do irmo, nem o tecido para o vestido de Madame Bielova, nem os brinquedos para os sobrinhos. Nos primeiros tempos do seu casamento, esta exigncia da mulher nada esquecer do que era preciso comprar- parecera-lhe estranha e surpreendeu-se muito ao v-la zangada e muito vermelha quando, da primeira vez que se ausentara, se esquecera, efectivamente, de tudo. Mas depois habituou-se.
      Sabendo que Natacha nada lhe pedia para ela prpria e que s o encarregava de trazer coisas para os outros quando ele se oferecia. Pedro experimentava agora um prazer infantil, que estava longe de imaginar, em encarregar-se de comprar todas estas lembranas e nunca se esquecia de ningum. Se porventura ,acontecia a mulher repreend-lo era apenas porque adquiria coisas em excesso e demasiadamente caras. A todos os seus restantes defeitos, na opinio da maior parte das pessoas, como desleixo no vestir, qualidade aos olhos de Pedro, juntava agora Natacha o ser tambm avarenta.
      Desde que vivia em famlia, e famlia que obrigava a grandes despesas. Pedro notara, com grande surpresa, que despendia duas vezes menos que anteriormente e que a sua fortuna, afectada nos ltimos tempos, sobretudo por causa das dvidas da sua primeira mulher, principiava a restabelecer-se.
      As suas despesas tinham diminudo porque levava uma vida mais regular. Vira-se livre do luxo a que o obrigava a mudana constante de trem de vida e o certo  que de maneira nenhuma desejaria voltar atrs. Costumava dizer de si para consigo que da em diante e at ao fim dos seus dias tudo seria imutvel m sua vida, que no estava nas suas mos mudar fosse o que fosse nos seus hbitos, e era isso que diminua muito as suas
      Radiante. Pedro ia abrindo os seus embrulhos.
      -  bonito, no ? - exclamava, desdobrando um corte de tecido como um mercador que elogia a mercadoria.
      Natacha, sentada diante dele, com a filha mais velha rios joelhos, ia olhando, com os olhos muito vivos, ora o marido ora o que ele mostrava.
      - Este  para Madame Bielova? Muito bem. - E apalpava o tecido para apreciar a qualidade. - Foi a um rublo a archina, no  verdade?
      Pedro disse o preo.
      -  caro - observou Natacha.- Muito vo gostar as crianas, e a me tambm. Mas fizeste mal em comprares-me isso - acrescentou, mirando, sorridente, uma travessa de ouro, cravejada de prolas, como ento se usava.
      - Foi Madame Adle quem insistiu para que eu a comprasse - explicou ele. - Compre, compre, disse-me ela.
      - Quando terei ocasio de a pr? - murmurou Natacha, pondo-a na cabea. - Ser para a Machenka quando for senhora. Talvez ainda ento estejam na moda. Bom, agora vamos. 
      Depois de juntarem as prendas, dirigiram-se em primeiro lugar ao quarto das crianas, depois aos aposentos da condessa. Esta, como de costume, na companhia de Madame Bielova, entregava-se  tarefa de fazer pacincias, quando Pedro e Natacha entraram no salo com os embrulhos debaixo dos braos.
      J fizera sessenta anos a condessa. Tinha os cabelos todos brancos e sobre eles usava uma touca cuja fita lhe passava por debaixo do queixo. Muito cheia de rugas, tinha o lbio superior metido para dentro e os olhos nublados.
      Depois da morte do filho e do marido, sucessivamente e num curto espao de tempo, vivia sob a impresso de estar esquecida neste mundo, j sem finalidade e sem razo de ser. Comia, bebia, dormia, velava, mas realmente no vivia. A vida j lhe no dava qualquer sensao, boa ou m. S dela esperava descanso, e esse descanso apenas o podia encontrar na morte. Mas como a morte ainda no chegara, no tinha remdio seno ir vivendo enquanto esperava ou pelo menos ir-se servindo do que lhe restava de vida. Nela se notava em alto grau o que sempre pode observar-se nas crianas de tenra idade ou nas pessoas muito idosas. Dir-se-ia no ter qualquer objectivo exterior  sua prpria vida, mas apenas a necessidade de pr em aco as suas diversas inclinaes e aptides. Precisava de comer, de dormir, de reflectir, de conversar, de chorar, de fazer pequenos trabalhos, de se encolerizar, somente porque tinha estmago, crebro, msculos, nervos ou fgado. Todos estes actos os realizava ela sem a isso ser provocada por qualquer coisa de exterior, ao contrrio das pessoas na fora da vida, que desenvolvem actividade na medida em que podem alcanar o objectivo que visaram. No falava, por exemplo, seno por necessidade fsica de utilizar os pulmes e a lngua. Como uma criana, chorava pela necessidade que tinha de se assoar. O que para os outros era um fim, para ela era mero pretexto.
      Eis porque, pela manh, quando se dava o caso de ter comido na vspera qualquer coisa pesada, sentia a necessidade de se encolerizar e ento servia-se do primeiro pretexto que lhe aparecia, como a surdez de Madame Bielova.
      Da outra extremidade da sala, dizia-lhe, por exemplo, em voz baixa:
      - Quer-me parecer que hoje est mais calor, minha querida. 
      E Madame Bielova respondia-lhe:
      -  verdade, chegaram!
      Ento ela resmungava, num assomo de ira: 
      - Meu Deus, que surda e que estpida!
      Outro pretexto para se encolerizar era o rap, que ora lhe parecia demasiadamente seco ora demasiadamente hmido ou mal raspado. Estes acessos de ira faziam-lhe afluir a blis ao rosto e as criadas tinham assim indcios certos de quando voltaria Madame Bielova a estar surda e hmido o rap. Assim como tinha necessidade de fazer circular a blis, tambm precisava, de tempos a tempos, de exercitar o que ainda lhe restava de inteligncia, e para isso recorria s pacincias. Se precisava de chorar, tinha  sua disposio o falecido conde. Se precisava de preocupaes, tinha Natacha e a sade dela. Se porventura carecia de dizer coisas desagradveis, ali estava a condessa Maria. Se precisava de pr  prova os seus rgos vocais, o que em geral acontecia, depois da sesta, no quarto penumbroso, o pretexto era contar sempre as mesmas histrias ao mesmo auditrio.
      Toda a gente compreendia o estado da velha condessa, embora ningum falasse disso, e todos procuravam esforar-se por lhe satisfazer os desejos. Apenas certos olhares ou alguns tristes sorrisos trocados entre Nicolau, Pedro, Natacha ou Maria davam a perceber que compreendiam a situao.
      Estes olhares ainda queriam dizer outra coisa. Diziam que ela chegara ao fim da sua tarefa nesta vida, que nem sempre fora o que era agora, que todos ns chegaremos um dia a ser como ela, e que deviam dar graas a Deus por aturar-lhe os caprichos, suportando essa criatura outrora to querida, outrora to cheia de vida como eles e agora digna de piedade. Com essa troca de olhares queriam apenas dizer, memento mor.
      E em casa s as pessoas ms ou pouco inteligentes, ou ento as crianas, no compreendiam isso e troavam da condessa.
      

      
      
      
      Captulo XIII
      
      Quando Pedro e a mulher chegaram ao salo, a condessa, como de costume, estava ocupada, a exercer as suas faculdades intelectuais numa grande pacincia, Embora tivesse por hbito repetir, sempre que Pedro ou o filho voltavam de fora, invariavelmente, as mesmas palavras: J era tempo, meu filho: muito temos esperado. Enfim! Louvado seja Deus!, ou ento, quando lhe entregavam uma lembrana: No  pelo presente, meu filho... Obrigado por teres pensado numa velha como eu..., desta vez era notrio que o regresso de Pedro lhe no dava satisfao alguma, pois a obrigava a interromper a pacincia. Dando-a por finda, dedicou ento a sua ateno aos presentes, Estes eram um lindo estojo com um baralho de cartas, uma chvena de porcelana de Svres, azul-claro, em cujo pires havia um friso de pastorinhas, e uma tabaqueira de ouro com o retrato do conde, que Pedro encomendara a um miniaturista de Petersburgo, objecto que a condessa h muito ambicionava. Como no queria chorar naquela altura, deixou de lado o retrato e interessou-se, principalmente, pelo estojo,
      - Obrigada, meu amigo, deste-me muita satisfao - disse-lhe ela, repetindo o que dizia sempre. - Mas o melhor de tudo foi teres voltado. No calculas o que por c vai quando tu no ests. Tens de ralhar com a tua mulher. Que significa, isto? Sem ti anda como doida. Nada v, de nada se lembra. Olha para isto, Ana Timofeievna - acrescentou -, que ]indo estojo o nosso filho nos trouxe.
      Madame Bielova elogiou os lindos presentes e admirou a sua riqueza.
      Pedro, Natacha, Nicolau, a condessa Maria, Denissov, todos tinham muita coisa a dizer mas no diante da velha condessa, no para esconderem dela qualquer coisa, mas porque a pobre senhora estava sempre to longe da maior parte dos assuntos que eles viam-se obrigados a responder a mil e uma perguntas. s vezes nada oportunas, e a repetir o mesmo muitas vezes, explicando-lhe que este morrera, aqueloutro casara, coisas que ela no havia maneira de compreender. Apesar disso, todos se reuniram, como de costume, no salo, em volta do samovar, e Pedro viu-se obrigado a responder a vrias perguntas suprfluas, que a ningum interessavam e que a condessa lhe fez, inquirindo se o prncipe Vassili estava mais velho, se a condessa Maria Aleksieevna se lembrava dela e se lhe mandara cumprimentos, etc.
      Esta conversa, para todos enfadonha, mas obrigatria, ocorreu durante o ch. Em volta da mesa redonda do samovar, presidida por Snia, reuniam-se, todos os adultos. As crianas, as preceptoras e os preceptores j tinham tomado ch e tagarelavam na sala vizinha. Cada um dos presentes ocupava o seu lugar habitual. Nicolau estava junto do fogo, diante da mesinha onde era servido, Deitada junto dele, numa poltrona, via-se a velha cadela Milka, filha da primeira Milka, com o focinho todo branco, onde avultavam uns grandes olhos negros. Denissov, de cabelos frisados, bigodes e suas grisalhos, estava ao p da condessa Maria, o dlman de general desabotoado. Pedro sentava-se entre a mulher e a condessa velha. Contava-lhes coisas que, pensava ele, talvez pudessem interessar  pobre senhora e que ela seria capaz de compreender. Referia-lhe toda a sorte de acontecimentos mundanos, a respeito de pessoas que outrora tinham pertencido ao seu meio, meio ento cheio de vida e actividade, mas que, actualmente, quase todas dispersas pelo mundo, findavam os seus dias como ela, colhendo as ltimas sementes da rica sementeira da mocidade. O certo  que estes contemporneos da velha condessa, a seus olhos, eram a nica gente sria que em verdade ainda existia no mundo. Pela expresso animada do marido, Natacha podia depreender quo interessante fora a sua viagem, e que muitas coisas teria a contar se tivesse ousado faz-lo diante da condessa. Denissov, que no era da famlia e que por conseguinte no podia acompanhar a descrio de Pedro, interessava-se muito, homem descontente que era, pelo que se passava em Petersburgo, instigando Bezukov, constantemente, a que lhe fornecesse pormenores quer sobre a histria recente do regimento Semionovski, quer sobre Araktcheiev, quer sobre a sociedade bblica, Pedro, uma vez por outra, deixava-se conduzir e principiava a contar, mas Nicolau e Natacha l estavam que logo o foravam a repetir o que havia sobre a sade do prncipe Ivan ou da condessa Maria Antonovna.
      - E que vm a ser todas essas loucuras de um tal Gossner e da Tatarinovna? - perguntava Denissov, - Isso continua?
      - Se continua? - exclamou Pedro. - Evidentemente. A sociedade bblica, mas  o governo em peso!
      - Que queres dizer, meu caro amigo? - interrompeu a condessa, que, tendo acabado de tomar o seu ch, procurava agora um pretexto para zangar-se. - Que ests tu para a a dizer do governo? No percebo nada.
      - Sim, me, a me sabe - interveio Nicolau, ciente de como deviam traduzir-se aquelas novidades na lngua da velha condessa. - Foi o prncipe A. N. Galitsine quem organizou uma sociedade; e dizem que muito poderosa.
      - Araktcheiev e Galitsine - explicou Pedro, imprudentemente. - O governo agora so eles. E que governo! Vem conspiraes por todo o lado, tm medo de tudo.
      - Qu? O prncipe Alexandre Nikolaievitch, de que o acusam?  um homem s direitas. Conheci-o, noutros tempos, em casa de Maria Antonovna - replicou a condessa, mortificada. E ofendida porque todos se calavam, continuou:- No  bonita essa maneira de acusar toda a gente. Que mal pode haver numa sociedade evanglica?- E levantou-se, no que todos a imitaram, afastando-se, com uma expresso severa, para sentar-se diante de uma mesa na sala contgua.
      Houve um silncio embaraoso, de repente interrompido por vozes e gargalhadas das crianas na sala ao lado, Era evidente que alguma coisa de invulgar acontecera entre a crianada.
      - Pronto! Pronto! - gritava a pequenina Natacha mais alto que todas as outras crianas,
      Pedro relanceou um olhar  condessa Maria e a Nicolau - entretanto no perdia de vista Natacha - e sorriu de contentamento.
      - Que linda msica! - exclamou.
      - Foi a Ana Makarovna quem acabou as meias - disse a condessa Maria.
      - Vamos ver! - props Pedro, levantando-se de um salto. Sabes porque gosto tanto desta msica? - acrescentou, detendo-se  porta. - So eles os primeiros a anunciar-me que tudo corre bem. Hoje, quando cheguei,  medida que me aproximava de casa, crescia o receio em mim. Mas mal entrei no vestbulo, que ouo eu? Andriucha na s gargalhadas e pensei: Ento tudo corre bem...
      - Sim, tens razo, j sei o que  - confirmou Nicolau. - No preciso de l ir. As meias so uma surpresa para mim. Pedro entrou na sala das crianas; os gritos e os risos cresceram.
      - Ento? Ana Makarovna! - dizia a voz de Pedro - Chega-te aqui para o meio da sala. Sou eu quem manda. Quando eu disser: um, dois, trs, pe-te aqui neste lugar e mostra as tuas mos. Bom, comecemos - e depois de uma curta pausa: - um, dois, trs!...
      - Duas! Duas! - gritaram as crianas entusiasmadas. Tratava-se das duas meias que Ana Makarovna, graas a um segredo s dela, sabia fazer ao mesmo tempo. No fim, terminado o trabalho, retirava uma das meias de dentro da outra, solenemente, na presena das crianas.
      

      
      
      
      Captulo XIV
      
      Pouco depois, as crianas entraram no salo para dar as boas-noites. Beijaram toda a gente; preceptores e preceptoras, com uma vnia, saram. Apenas ficou Dessales com o seu aluno. Dessales, em voz baixa, disse entretanto a Nikolenka, ainda no salo, que se retirasse.
      - No, Monsieur Dessales, vou pedir  minha tia para me deixar ficar - replicou Nikolenka, em voz baixa tambm.
      E dirigindo-se  tia:
      - Tia, consente que eu fique?
      Havia uma expresso de splica no rosto emocionado da criana. A condessa Maria, ao v-lo to agitado, no pde deixar de dizer a Pedro:
      - Quando o Pedro aqui est, no pode separar-se de si.
      - Eu j lho levo, Monsieur Dessales; boa noite - disse Pedro, apertando a mo do preceptor suo: depois, sorrindo, dirigiu-se  criana: - Efectivamente ainda no nos tnhamos visto. Oh, Maria, que parecido ele est... - acrescentou.
      - Com meu pai? - inquiriu o rapazinho, que corou muito, enquanto olhava Pedro dos ps  cabea, com olhos brilhantes e cheios de entusiasmo.
      Pedro respondeu com um aceno de cabea afirmativo e prosseguiu a conversa interrompida. A condessa Maria trabalhava ao bastidor; Natacha seguia o marido com os olhos. Nicolau e Denissov levantaram-se, pediram os respectivos cachimbos, acenderam-nos, enquanto Snia, triste e obstinadamente sentada ao lado do samovar, lhes servia ch. Interrogavam Pedro sobre a viagem. Nikolenka, com o seu ar enfermio, o cabelo encaracolado e os olhos brilhantes, permanecia sentado a um canto, sem que ningum desse por ele. De quando em quando voltava para Pedro a cabea encaracolada e o pescoo delgado, que emergia do colarinho revirado da camisa, e estremecia, murmurando fosse o que fosse para si mesmo, como se experimentasse um sentimento violento e novo.
      A conversa girava em torno das intrigas das altas esferas administrativas, onde em geral se concentra todo o interesse da poltica interna de um pais. Denissov, descontente com o governo por causa dos seus fracassos no servio, saboreava com prazer todos os disparates que, segundo ele, se estavam a praticar em Petersburgo, comentando o que dizia Pedro em termos enrgicos e duros.
      - Antigamente era preciso que uma pessoa fosse alem, agora  necessrio danar com a Tatarinova e Madame de Kdner, ler... Eckartsliausen e quejandos. Ah! No aparecer ai outra vez o nosso valente Bonaparte. Acabava-lhes com a parvoce. Parece impossvel, confiarem a um alemo o regimento Semionovski! - vociferava ele.
      Embora Nicolau no tendesse, como Denissov, a achar tudo reprovvel, o certo  que tambm considerava coisa importante e digna de ateno criticar o governo a propsito da nomeao de Fulano para ministro ou de Sicrano para governador de tal provncia, ou o que dissera o imperador ou certo ministro. Graas  interveno destes dois interlocutores, a conversa ficou-se pela intriga habitual dos meios administrativos.
      Natacha, que conhecia os mnimos gestos e pensamentos do marido, adivinhou que ele teria desejado conduzir a conversa noutro sentido e abordar o objecto da sua preocupao ntima - o assunto que o levara a Petersburgo para se aconselhar com o seu novo amigo, o prncipe Fedor- e, perguntando-lhe em que situao estavam as coisas, conseguiu o que ele desejava.
      - De que se trata? - perguntou Nicolau,
      - Da mesma coisa de sempre - respondeu Pedro olhando em torno de si. - Toda a gente reconhece que as coisas vo mal, que isto no pode durar e que o dever de todo o homem de bem  reagir na medida das suas foras.
      - E que podem fazer os homens de bem? - interrogou Nicolau, franzindo ligeiramente as sobrancelhas.- Que  possvel fazer?
      - A est...
      - Vamos para o meu gabinete - disse Nicolau.
      Natacha, sempre  espera que a chamassem para dar de ma- mar ao beb, ao ouvir a voz da criada dirigiu-se para o quarto das crianas. A condessa Maria acompanhou-a- Os homens encaminharam-se para o gabinete e Nikolenka Bolkonski, sem o tio dar por isso, seguiu atrs deles, sentando-se, no escuro, perto da janela, junto da secretria do tio,
      - Bom, que propes tu? - perguntou Denissov.
      - Sempre as mesmas quimeras! - comentou Nicolau.
      - Bom, trata-se do seguinte - principiou Pedro, sem se sentar, caminhando de um lado para o outro, ou detendo-se bruscamente, com silvos na voz e gestos bruscos. - Trata-se da situao em Petersburgo. O imperador j de nada quer saber. Est inteiramente entregue ao misticismo. (Pedro, por ento, no perdoava a ningum tendncias msticas.) S pensa no sossego prprio e esse sossego s o pode conseguir graas a essas criaturas sem, eira nem beira, que perseguem e oprimem toda a gente, os Magnitski, os Araktcheiev e tutti quanti - Tens de concordar que se te no ocupasses pessoalmente das tuas terras e apenas quisesses viver sossegado, quanto mais cruel fosse o teu administrador tanto mais facilmente conseguirias o que desejavas, no  verdade? - disse Pedro, dirigindo-se a Nicolau.
      - Sim, claro, isto  - - balbuciou este.
      - Por conseguinte, tudo vai por terra. Nos tribunais prevarica-se; no exrcito reina a violncia: o passo de parada, as colnias militares. O povo vive tiranizado; toda a cultura est asfixiad2. Tudo que  novo, tudo que  honesto,  perseguido. Todos compreendem que isto no pode durar muito. Est muito esticada a corda e ter de acabar por partir-se. - Pedro falava como ,s fala sempre que se julgam os actos de qualquer governo desde que no mundo h governos. - E aqui tm o que eu lhes disse em Petersburgo.
      - A quem? - perguntou Denissov.
      - Sabes bem a quem me refiro - replicou Pedro, olhando-o com um olhar significativo -: ao prncipe Fedor e a todos os outros. Fomentar a instruo  excelente, bem entendido,  um belo programa, e pronto. Mas nas circunstncias presentes  precisa outra coisa.
      Nesta altura Nicolau deu conta de que o sobrinho os acompanhara. Afivelando uma expresso sombria, aproximou-se dele.
      - Que fazes tu aqui?
      - Deixa-o! - interveio Pedro, e travando-lhe do brao continuou. - No basta - disse-lhes eu -, agora  precisa outra coisa. Visto estarem todos para ai, sem bulir um dedo,  espera que a corda se parta, e visto que todos so de opinio de que vai dar-se uma inevitvel catstrofe, e preciso que o maior nmero possvel de homens se encontre reunido e de mos dadas para resistir  convulso geral. Toda a juventude, toda a forca e sente para ali atrada, e ali se corrompe, A este so as mulheres que o perdem: quele o favoritismo queloutro a vaidade e o dinheiro, e assim passam para o outro campo. Pessoas independentes e livres como vocs e eu j no existem. Disse-lhes: ampliai a vossa esfera de aco, que a vossa palavra de ordem no ,c.a apenas a virtude, mas a independncia e a actividade.
      Nicolau que esquecera completamente o sobrinho, puxou duma cadeira, num gesto brusco, sentou-se e, enquanto ouvia Pedro, o seu descontentamento acentuava-se, tossindo e franzindo cada vez mais as sobrancelhas.
      - E qual o objectivo dessa actividade? - exclamou. - Quais sero as vossas relaes com o governo?
      - As nossas relaes? As de verdadeiros colaboradores. Se o governo reconhecer a nossa sociedade, no precisa de ser secreta. No s lhe no ser hostil, como ser formada de autnticos conservadores. Ser uma associao de cavalheiros em toda a acepo da palavra. Estaremos presentes para impedir que um Pugatchov acabe por estrangular os teus filhos e os meus e que um Araktcheiev me mande para uma colnia militar, Para isso mesmo nos uniremos, com esse objectivo nico: o bem e a segurana de todos.
      - Sim, mas ser uma sociedade secreta, e por conseguinte hostil ao governo e prejudicial portanto. S poder vir a fazer mal.
      - Porqu? A Tugendbund, que salvou a Europa - ainda ento ningum ousava dizer que fora a Rssia que a salvara -, fez algum mal? A Tugendbund, pelo contrrio,  a linha da virtude,  o amor, a assistncia mtua, o que Cristo pregou na cruz...
      Natacha, que entrara no meio da discusso, contemplava o marido, desvanecida. No eram as suas palavras que a comoviam. Nem sequer lhe interessavam. Era to simples o que ele dizia! De h tanto conhecia as suas ideias! De resto, sabia sempre de antemo o que emanava da sua alma. Se estava desvanecida, era apenas em virtude da animao e do entusiasmo que lhe via no rosto.
      Esquecido por todos, Nikolenka contemplava Pedro com uma expresso de alegria e entusiasmo ainda mais viva do que a de Natacha. As palavras de Pedro inflamavam-lhe o corao. Enquanto ouvia ia quebrando, num gesto maquinal, a cera e as penas que estavam em cima do tampo da secretria do tio.
      - No se trata, de resto, exactamente do que tu pensas: eis o que era a Tugendbund alem e aquilo que eu proponho.
      - Sim, sim, filho, isso  bom para os devoradores de salsichas, essa tal Tugendbund. C, por mim, no a compreendo, nem a admito - exclamou Denissov, numa voz forte e enrgica. Tudo vai de mal a pior, concordo; mas, quanto a essa Tugendbund, nada percebo. Mas, em compensao, o bund (Jogo de palavras com o vocbulo Bund, que em alemo quer dizer unio e em russo significa Sublevao. (N. dos T.)  outra coisa. Eu sou o homem que lhes convm ! (Liga secreta russa. N. dos T.)
      Pedro sorriu, e Natacha tambm, mas Nicolau franziu ainda mais as sobrancelhas, descontente, tentando provar a Pedro no haver que recear qualquer convulso e que o perigo de que ele falava s existia na sua cabea. Pedro demonstrou-lhe o contrrio e, como sabia melhor e mais habilmente defender a sua tese, no tardou que Nicolau se visse derrotado. Ento perdeu a cabea, e com tanto mais energia quanto era certo l no fundo, graas a uma intuio mais poderosa que toda a sorte de raciocnios, saber que incontestavelmente tinha razo.
      - Pois eu dir-te-ei - exclamou ele, erguendo-se e atirando fora o cachimbo, num gesto brusco - No posso apresentar-te provas. Entendes que tudo vai mal e que haver uma revoluo, pois eu no vejo as coisas dessa maneira. Dizes que o juramento  coisa convencional. Eis o que te responderia. Tu bem sabes que s o meu melhor amigo. Pois bem: se tu constitusses uma sociedade secreta, se te pusesses a fazer uma poltica de oposio ao governo, fosse ela qual fosse, o meu dever seria colocar-me ao lado deste. E, supondo que Araktcheiev me dava ordens nessa altura para eu marchar contra vocs  frente de um esquadro e de vos passar a fio de espada, no hesitaria um segundo. E depois disto podes dizer o que quiseres.
      Aps estas palavras reinou no gabinete um silncio embaraoso. Natacha foi a primeira a falar para defender o marido e atacar o irmo. A sua defesa, posto dbil e inbil, atingiu o alvo. A conversa prosseguiu, mas j no naquele tom hostil e irritado que Nicolau lhe imprimira.
      Quando se levantaram para cear, Nikolenka Bolkonski aproximou-se de Pedro, muito plido, os olhos luminosos e cintilantes.
      - Tio Pedro... Tu... No... Se meu pai fosse vivo... seria da sua opinio? - perguntou- lhe.
      Pedro compreendeu imediatamente a que complicado, estranho e intenso trabalho se dera, durante a discusso o crebro do rapazinho. E, recordando-se do que dissera, lamentou que ele o tivesse ouvido. No entanto era preciso responder-lhe.
      - Acho que sim - disse, um pouco embaraado, afastando-se.
      O jovem Nicolau baixou a cabea e foi ento que reparou nos estragos que fizera na secretria. Corou e disse para o tio, mostrando-lhe os restos da cera e das penas partidas:
      - Desculpe-me, tio, foi sem querer.
      - Est bem, est bem - tornou-lhe Nicolau, ainda agitado pela ira, sacudindo tudo aquilo de cima da secretria.
      Dominando, a custo, a irritao, acrescentou, enquanto se retirava:
      - Nada tinhas que fazer aqui.
      

      
      
      
      Captulo XV
      
      Durante a ceia no mais se falou de poltica nem de sociedades secretas. A conversa abordou, com grande satisfao ele Nicolau, as recordaes de 1812, que Denissov evocara, e Pedro mostrou-se particularmente bem disposto e inspirado. Quando se separaram, estavam de novo os melhores amigos deste mundo Depois da ceia, Nicolau despiu-se no gabinete, deu ordens ao seu administrador e em seguida, de roupo, dirigiu-se ao quarto de cama onde a mulher ainda estava sentada  secretria a escrever.
      - Que estas a escrever. Maria? - perguntou.
      A condessa Maria corou. Teve receio de que o marido no aprovasse o que ela escrevia.
      Efectivamente desejava esconder-se dele, embora lhe desse satisfao ter sido por ele surpreendida e sentir-se obrigada a desvendar-lhe o seu segredo.
      -  o meu dirio. - disse ela, mostrando-lhe um caderninho azul, enegrecido pela sua caligrafia mida e firme.
      - Um dirio? - exclamou Nicolau, com certa zombaria, pegando no caderno.
      Eis o que estava ali escrito em francs:
      
      4 de Dezembro. Hoje, Andriucha, o meu filho mais velho, ao acordar, no quis vestir-se, e Louise mandou-me chamar.
      Tivera um capricho e estava birrento. Tentei repreend-lo, mas ainda ficou mais irritado. Ento resolvi deix-lo ficar, levei comigo os outros, com a criada, e disse-lhe que j no gostava dele. Ficou muito tempo calado, surpreendido com o que eu dissera, e depois abraou-se a mim a chorar, de tal maneira que me custou consol-lo. Via-se que o que mais o penalizava era eu estar zangada.  noite, quando lhe entreguei o boletim do dia, ps-se de novo a chorar, abraado a mim. Com ternura tudo se pode conseguir dele.
      
      - Que vem a ser isto do boletim do dia? - inquiriu Nicolau. Dou agora, todas as noites, aos mais velhos, notas pelo seu comportamento.
      Nicolau fitou os olhos radiantes da condessa Maria pousados nele, e continuou a folhear o caderno. No dirio da condessa estava anotado tudo que a me julgava digno de registo na vida de seus filhos, com observaes sobre o carcter de cada um e ideias gerais acerca dos mtodos educativos.
      Na maior parte no passavam de pormenores insignificantes, embora o no parecessem aos olhos da me e at do pai quando pela primeira vez veio a tomar conhecimento deles.
      Com data de 5 de Dezembro, lia-se o seguinte:
      
      Mtia fez travessuras  mesa. O pai deu ordem para lhe no servirem a sobremesa, e assim fizeram. Mas que ar lastimoso e vido o seu enquanto olhava para os irmos comendo o doce! E conclu que castig-lo daquela forma, privando-o de guloseimas, apenas servir para lhe espicaar a gula. Hei-de falar nisto a Nicolau.
      
      Nicolau pousou o caderno e ps-se a olhar a mulher, os luminosos olhos da condessa, fitos nele, pareciam perguntar se ele aprovava ou reprovava o dirio. No havia dvida de que aprovava e que todo ele era admirao pela mulher.
      Naturalmente, no valia a pena descer a tantos pormenores, nem mesmo seria preciso semelhante dirio, pensava Nicolau, mas aquela permanente e continuada conteno de esprito da mulher, exclusivamente concentrada nos filhos, no podia deixar de lhe causar admirao. Se Nicolau tivesse podido analisar os seus prprios sentimentos, compreenderia que no fundo do grande e dedicado amor que a mulher lhe inspirava havia uma profunda admirao pelo seu estofo moral, por esse mundo superior em que ela naturalmente vivia e lhe era quase inacessvel a ele.
      Orgulhava-se de a ver to inteligente e to boa, confessava ser-lhe muito inferior no ponto de vista da elevao dos sentimentos e era grande a satisfao que sentia ao pensar que uma alma assim no s lhe pertencia como era parte de si mesmo.
      - Aprovo-te completamente, inteiramente, minha querida - disse-lhe compenetrado, e aps uma pequena pausa continuou: - Hoje portei-me mal. Tu no estavas presente nessa altura. Tivemos uma discusso, o Pedro e eu, e perdi a cabea. Mas no podia deixar de ser.  uma verdadeira criana. As vezes pergunto a mini prprio que seria dele se Natacha o no trouxesse to aperreado.
      - Queres saber o que ele foi fazer a Petersburgo?... Organizaram l...
      - Sim, bem sei - atalhou Maria. - Natacha contou-me. 
      - Pois calcula - continuou Nicolau, exaltando-se  lembrana da discusso que tivera -, quer fazer-me acreditar que o dever de todo o homem de bem  conspirar contra o governo, quando o juramento e o dever... Tenho pena de que no estivesses presente. Caram-me todos em cima, inclusivamente o Denissov e a Natacha... Natacha tem muita graa. Embora o tenha debaixo do taco do sapato, quando h qualquer discusso, nada sabe dizer; repete o que ele diz,- Enquanto falava, Nicolau, sem querer, recaa numa tendncia natural: criticar as pessoas que mais caras lhe eram e a quem mais estimava.
      Esquecia, no entanto, que o que afirmava de Natacha se lhe aplicava a ele e  mulher, ponto por ponto.
      - Sim, j tinha notado - corroborou Maria.
      - Quando lhe disse que o dever e o juramento prestado estavam acima de tudo, respondeu-me no sei como. Tenho pena de que no estivesses presente. Que lhe terias respondido?
      - Por mim acho que tens toda a razo. E foi o que disse  Natacha. Pedro acha que a misria e o sofrimento so gerais hoje em dia, que a imoralidade triunfa por toda a parte, e que  nosso dever ajudar o prximo. Claro que tem razo, mas esquece que temos outras obrigaes mais instantes que Deus nos imps, e que, se  justo que nos arrisquemos, no devemos arriscar os nossos filhos.
      - Pois. Foi isso mesmo que eu lhe disse - continuou Nicolau, que, realmente, julgava ter pronunciado precisamente aquelas palavras. - Mas eles teimaram nas suas ideias do amor do prximo e do cristianismo. E tudo isto diante de Nikolenka, que se meteu no escritrio - me ps tudo de pernas para o ar.
      - Ah! Muito me preocupa o Nikolenka.  uma criana to fora do vulgar! Tenho medo de que os cuidados com os nossos filhos me obriguem a esquec-lo um pouco. Todos ns temos os nossos filhos, a nossa famlia, mas ele, ele no tem ningum. Est sempre s com os seus pensamentos.
      - Ento, no acho que tenhas razo para te censurares, Tens sido para ele uma verdadeira me, a mais carinhosa das mes. E, podes crer, estou muito contente com isso.  um rapaz encantador, um ptimo rapaz. Dir-se-ia em xtase, hoje, a ouvir o Pedro. E calcula, no momento em que nos levantmos para cear, reparei que partira tudo que estava em cima da minha secretria. Alis, foi ele o primeiro a acusar-se. Nunca o apanhei a dizer uma mentira. Sim,  uma criana encantadora, um ptimo rapaz! - repetiu Nicolau, que, bem no fundo, no gostava muito do sobrinho, aproveitando, no entanto, todas as oportunidades para o elogiar.
      - Mas nada h que chegue a uma me - replicou a condessa Maria. -  bem verdade e isso  que me atormenta.  uma criana maravilhosa: mas preocupa-me muito. No lhe faz bem viver isolado.
      - Evidentemente, e no ser por muito tempo. Este Vero levo-o a Petersburgo - disse Nicolau-  No h dvida, o Pedro sempre foi e ser sempre um luntico - prosseguiu, voltando ao assunto da discusso, que parecia t-lo impressionado muito. E a mim que me importa o que est a passar-se para esses lados e que Araktcheiev seja m rs? Em que me poderia isso ter interessado, por exemplo, quando me casei? Estava to cheio de dvidas que por pouco no me metiam na cadeia e minha me nada podia ver nem compreender? Depois vieste tu, os filhos, a nossa vida. Julgas que me agrada trabalhar de manh at  noite? Mas esta  a verdade, eu sei que tenho de trabalhar para garantir a tranquilidade da me, pagar o que te devo e no deixar que os meus filhos fiquem to pobres como eu.
      Maria teria gostado de lhe observar que os homens no vi- vem s de po, que ele atribua demasiada importncia ao que chamava os seus negcios, mas para si mesma dizia que no devia falar assim e que se o fizesse seria intil. Contentou-se em pegar-lhe na mo e beij-la. Nicolau interpretou este gesto da mulher como uma aprovao e a confirmao do que ele acabava de dizer, e depois de ter permanecido algum tempo calado, a pensar, continuou, em voz alta, o curso dos seus pensamentos.
      - Sabes, Maria - prosseguiu -, chegou hoje o Ilia Mitrofanovitch (era o administrador). Vem da aldeia de Tambov e disse-me que ofereceram oitenta mil rublos pela floresta.
      E ps-se a contar-lhe, muito animado, que dentro de muito pouco lhe seria possvel voltar a comprar Otradnoie: 
      - Dentro de dez anos posso deixar os nossos filhos numa excelente situao.
      A condessa Maria ouvia o marido sem perder o mais pequeno pormenor do que ele dizia. Quando sucedia Nicolau principiar a pensar assim em voz alta, s vezes interrogava-se sobre o que dissera e quando percebia que ela estivera a pensar noutra coisa, ficava furioso. Eis porque ela se via obrigada a um grande esforo, uma vez nada daquilo lhe interessar por a alm. Olhava-o, e, se no pensava noutra coisa, pelo menos os seus sentimentos estavam muito longe. Sentiu um amor submisso e terno por esse homem cuja inteligncia no conseguia chegar por vezes ao seu nvel e nem por isso o amava menos, antes mais e com apaixonada ternura. Alm deste amor que a absorvia por completo e a impedia de compreender todos os pormenores dos projectos do marido, outros pensamentos lhe vinham  cabea perfeitamente estranhos ao assunto da conversa. Pensava no sobrinho. O que o marido dissera acerca da comoo que ele sentira escutando Pedro impressionara-a muito: recordava certos aspectos do seu carcter delicado e sensvel, e ao mesmo tempo pensava nos filhos. No fazia distino entre uns e o outro, mas, ao comparar os seus sentimentos, notava, com tristeza, faltar qualquer coisa no seu afecto por Nikolenka.
      As vezes queria parecer-lhe que esta diferena era o resultado da idade, mas no fundo sentia-se culpada para com ele e no seu foro ntimo prometia corrigir-se e fazer o impossvel, isto , querer, neste mundo, ao marido, aos filhos, a Nikolenka e ao prximo em geral como Cristo  humanidade. Na sua alma havia sempre uma aspirao ao infinito, ao eterno e  perfeio, por isso nunca podia ter sossego. No seu rosto havia severos vestgios dos profundos tormentos secretos de uma alma oprimida pelo corpo. Nicolau contemplava-a nesse momento.
      Meu Deus!, pensava, que seria de ns se ela nos faltasse? Eis o que me pergunto sempre que a vejo com esta expresso! E de p, diante do cone, ps-se a rezar as oraes da noite.
      

      
      
      
      Captulo XVI
      
      Quando ficaram ss, Natacha e o marido principiaram a conversar como apenas o sabem fazer os casados, isto , trocando entre si breves pensamentos, compreendendo-se por meias palavras, sem lgica, graas a qualquer coisa de muito especial. To habituada estava Natacha a falar com o marido desta maneira que lhe bastava ouvi-lo pr uma certa sequncia nas ideias para compreender que no estavam perfeitamente de acordo. Quando ele principiava a argumentar, falando muito devagar, e ela tambm, era certo e sabido que acabariam zangados.
      Mal ficaram ss, Natacha, os olhos muito abertos, repassados de alegria, aproximou-se de Pedro e, pegando-lhe bruscamente na cabea, apertou-a contra o corao, exclamando: - Ah, agora s meu e s meu! J no te deixarei mais! - E ento travou-se entre eles uma dessas conversas alheias  lgica. E o certo  que a multiplicidade dos assuntos abordados, em vez de prejudicar a clareza do que diziam, apenas significava que se entendiam perfeitamente.
      Assim como no sonho tudo  inverosmil e absurdo menos o sentimento que o conduz, tambm naquela troca de ideias, contraria a toda a lgica, apenas era claro e compreensvel o sentimento que animava o que diziam.
      Natacha contava a Pedro a maneira de viver do irmo, o que ela prpria sofria quando ele. Pedro, no estava em casa e o muito que gostava de Maria, cada vez mais, a quem considerava muito melhor do que ela prpria. E ao dizer que confessava, sinceramente, reconhecer a superioridade de Maria, exigia, ao mesmo tempo, que ele, Pedro, a preferisse a ela. Natacha, a preferisse a Maria e a todas as demais mulheres e que lho provasse, agora sobretudo, depois de ter estado em Petersburgo, onde vira tantas outras mulheres.
      Pedro contou-lhe ento que lhe tinham parecido insuportveis todas essas reunies e todos esses jantares com as senhoras da alta sociedade.
      - Perdi o costume de falar com senhoras - disse ele. Nada h mais enfadonho, De resto tinha muito que fazer. - Natacha olhou-o fixamente e continuou:
      - Maria  encantadora! E como ela compreende as crianas! Parece que lhes l na alma. Ontem, por exemplo, o Mitenka leve um ligeiro capricho...
      - Parece-se tanto com o pai! - atalhou Pedro.
      Natacha percebeu porque fizera Pedro aquela observao; a lembrana da discusso com o cunhado era-lhe penosa e queria saber o que pensava disso Natacha.
      - Tens razo. Nicolau tem a fraqueza de s admitir o que todos reconhecem. Por mim compreendo perfeitamente que tu no aches isso bom seno enquanto serve para encetar uma carreira - disse ela, repetindo o que lhe ouvira a ele um dia.
      -  verdade - continuou Pedro. - Para Nicolau as ideias e os raciocnios so um divertimento, uma espcie de passatempo. Est a formar uma biblioteca e imps a si mesmo que no comprar qualquer novo livro enquanto no tiver lido o que comprou antes, seja ele de Sismondi, de Rousseau ou de Montesquieu - acrescentou, sorrindo. - De resto, sabes to bem como eu... - Com estas palavras quis deitar um pouco de gua na fervura, mas Natacha, para dar-lhe a perceber que era intil, interrompeu-o.
      - Dizes tu, ento, que para ele as ideias no passam de divertimento...
      - Para mim, pelo contrrio, s o que no so ideias e divertimento. Durante a minha estada em Petersburgo via-os a todos como num sonho. Quando uma ideia me preocupa, tudo o mais, para mim,  apenas um espectculo divertido.
      - Que pena tenho de no ter assistido ao teu encontro com os pequenos! - exclamou Natacha. - Qual se mostrou mais alegre? Lisa, naturalmente?
      - Sim - replicou Pedro, retomando o curso das suas preocupaes. - Nicolau entende que no temos necessidade de pensar. A esta uma coisa impossvel para mim. Em Petersburgo posso dizer-to, tinha a impresso de que, sem mim, tudo iria por gua abaixo, cada um puxava a brasa  sua sardinha. Consegui reuni-los a todos e ento a minha ideia tornou-se simples e clara. No digo que nos devamos opor a este ou quele. Podemos enganar-nos. O que digo  o seguinte: caminhemos de mos dadas com todos os que amam a justia e tenhamos todos uma s bandeira, a bandeira da virtude militante. Sim, esse prncipe Srgio  homem inteligente e bela pessoa.
      Natacha no tinha dvidas quanto ao valor da ideia de Pedro, mas uma coisa a perturbava: Pedro era seu marido. Poder um homem to importante e to til  sociedade ser ao mesmo tempo meu marido? Como foi possvel? E apetecia-lhe dizer isso mesmo. Quem so as pessoas competentes para julgar se realmente ele  superior a todos os outros?, perguntava ela a si mesma enquanto fazia perpassar pela mente todas as pessoas a quem Pedro tinha em alta estima. Pelo que ele lhe dissera, nenhuma lhe merecia o respeito de Plato Karataiev.
      - Sabes em quem estou a pensar? - perguntou-lhe ela. - Em Plato Karataiev! Que faria ele? Aprovar-te-ia neste momento? Pedro no se surpreendeu com a pergunta. Apreendera o pensamento ntimo da mulher.
      - Plato Karataiev? - repetiu ele, e ficou pensativo, procurando, sinceramente, fazer uma ideia do que pensaria esse homem dos seus projectos.- No compreenderia, e, quem sabe?, talvez no fim de contas os aprovasse.
      - Quero-te muito! - exclamou, de sbito. Natacha. - Muito 
      - No, no os aprovaria - acrescentou Pedro, depois de curta reflexo. - A nossa vida conjugal, sim, essa aprov-la-ia. Tanto desejava encontrar por toda a parte a felicidade, a beleza, a tranquilidade! Teria orgulho -m que ele nos pudesse ver. Ests sempre a queixar-te da separao. Mas no podes calcular a plenitude de sentimentos que inspiras depois de uma separao...
      - Era o que faltava a - principiou Natacha.
      - Mas no. Nunca deixo de te querer muito. E no se pode gostar mais, mas sobretudo... - No terminou a frase, e os seus olhares, que se encontraram, concluram o seu pensamento.
      - Que tolice - exclamou Natacha, subitamente. - Fala-se muito costuma dizer-se que  nos primeiros da lua-de-mel e tempos de casadas que as pessoas so mais felizes. No, pelo contrrio.  depois, o melhor tempo  agora. Se ao menos no tivesses de te ausentar... Recordas-te do que discutamos? E a culpa era sempre minha, era eu sempre a culpada. E agora nem sequer me lembro porque discutamos.
      - Era sempre a mesma coisa - disse Pedro, sorrindo-se. - O cime.
      - No digas isso, no me faas sofrer! - exclamou Natacha, enquanto nos seus olhos brilhava uma chama fria e maldosa. - Viste-a? - acrescentou, depois de um breve silncio.
      - No e mesmo se a visse no a reconheceria. 
      Calaram-se ambos.
      - Queres saber? Quando estavas a falar no gabinete de Nicolau, eu olhava para ti - voltou ela, tentando dissipar a nuvem que se erguera- Parecem-se como duas gotas de gua, tu e o pequeno - referia-se ao filho. - Ah!, tenho de ir v-lo... So horas... E tenho pena de me ir embora.
      Calaram-se de novo por momentos. Depois, repentinamente, voltaram-se ao mesmo tempo um para o outro e puseram-se a conversar. Pedro retomou a conversa, animado e cheio de convico, Natacha sorrindo, meigamente, com um ar feliz. Calavam-se, alternadamente , para que o outro falasse.
      - Que queres dizer? Fala, anda, fala tu primeiro. 
      - Fala tu; eu nada tenho para dizer - replicou Natacha. 
      Pedro continuou a falar do assunto que abordara. Expunha com satisfao o tema do xito das negociaes de Petersburgo. Estava convencido, de facto, naquele momento, de que fora chamado a imprimir uma direco nova  sociedade russa e ao mundo inteiro.
      - Queria apenas dizer que as ideias com grande projeco so sempre muito simples. No fundo a minha ideia  que se os criminosos esto unidos entre si, e so uma fora, o mesmo devem fazer as pessoas de bem.  muito simples!
      - 
      - E tu, que querias dizer?
      - Nada, tolices.
      - Mas, seja como for, fala...
      - Nada,  o que te digo, tolices - insistiu Natacha, radiante, com um sorriso nos lbios, cada vez mais resplandecente. - Queria apenas falar-te do Ptia, Hoje a criada veio busc-lo quando eu o tinha ao colo. Ps-se a rir, fechou os olhos e agarrou-se a mim. Pensava ele que escondendo-se o no viam. Que engraado! L est ele a chorar. Adeus! - E Natacha desapareceu.
      Entretanto, no andar inferior, no quarto de dormir de Nikolenka Bolkonski, estava acesa, como sempre, uma lamparina, pois a criana tinha um medo irreprimvel da escurido, Dessales dormia, as costas apoiadas em quatro almofadas, e o seu perfil grego desenhava-se na penumbra, enquanto ressonava calmamente. Nikolenka acabara de acordar, repassado de suores frios, os olhos muito abertos, e, sentado na cama, olhava, fixamente diante dele. Acordara no meio de um tremendo pesadelo. Sonhara que ele e Pedro estavam de capacete como numa das estampas do seu Plutarco. Iam os dois  frente de um grande exrcito. Esse exrcito eram linhas brancas oblquas que enchiam o espao como essas teias de aranha que se vem, em pleno Outono, flutuar nos ares e a que Dessales chamava os fios da Virgem. Diante deles estava a glria, representada por aqueles fios areos, apenas um pouco mais consistentes. Ambos se deixavam levar, alegres e ligeiros, aproximando-se cada vez mais do objectivo. De sbito, os fios que os faziam avanar principiam a enfraquecer e a misturar-se, e um grande peso no os deixa caminhar. Nicolau Ilitch, o tio, para diante deles numa atitude severa e, ameaadora. Foram vocs quem fez isto, diz-lhe, apontando os pedaos da pena e da cera. Sou vosso amigo, mas Araktcheiev ordenou e eu vou matar o primeiro de vs que der mais um passo. Nikolenka relanceou um olhar a Pedro: mas Pedro desaparecera. Quem o substitua era o pai, o prncipe Andr. No tinha forma nem contornos definidos, mas era ele, com certeza. Ao v-lo, Nikolenka sente que o amor o enfraquece: sente que no tem fora, que se transformou em qualquer coisa mole, quase fluida. O pai acaricia-o e consola-o. Mas eis que o tio Nicolau Ilitch continua a caminhar para eles. Cheia de terror, a criana acorda. Vi meu pai, que me acariciou, disse para si mesmo. Apesar de haver em casa dois retratos do prncipe Andr, muito parecidos. Nikolenka nunca o vira representado sob forma humana. Sim, era meu pai que ainda h Pouco estava comigo e me acariciava. Aprovava a minha conduta e a do tio Pedro. Diga-me o que disser, obedecer- lhe- ei. Mucius Scevola queimou a mo. Pois no terei oportunidade de fazer o mesmo na minha vida? Eles querem, bem sei, que me instrua. Serei sbio. E quando acabar a minha instruo, ento agirei. S peo a Deus que venha um dia a encontrar-me na situao dos grandes homens de Plutarco, Farei o que eles fizerem. Farei mesmo melhor. Toda a gente o saber, todos gostaro de mim, elogiar-me-o. De repente sentiu que os soluos lhe estrangulavam a garganta e principiou a chorar.
      - Est mal disposto? - perguntou Dessales.
      - No - respondeu Nikolenka, voltando a deitar-se.
       bom, e eu gosto dele.  um homem excelente, murmurou pensando em Dessales. E o tio Pedro? Oh!, que maravilha, E meti pai? Meu pai! Sim, farei tudo para que ele se orgulhe de mim..







SEGUNDA PARTE
      

      
      
      
      Captulo 1
      
      = objecto da histria  a vida dos povos e da humanidade. Mas abarcar com palavras, sem outros intermedirios, descrever, em suma, no a vida da humanidade, mas a de um nico povo, pode parecer tarefa impossvel.
      Todos os historiadores antigos, para descreverem e abarcarem a vida de um povo e conseguirem isso, que parece impossvel, adoptam um nico e mesmo processo, Descrevem os actos dos indivduos que governam esse povo, e esses actos para eles  como se fossem os actos desse povo inteiro.
      Quando se lhes perguntava como podiam esses indivduos separados fazer agir os povos a seu talante e quem dirigia a vontade desses indivduos, respondiam que a vontade divina submetia os povos  vontade de um homem eleito e depois Que esta mesma divindade dirigia a vontade desse homem para um objectivo previamente estabelecido.
      Para os antigos, portanto, a, questo ficava resolvida pela f numa interveno imediata da divindade nas aces humanas. A histria moderna rejeitou estas duas afirmaes.
      Pareceria que ao rejeitar a crena dos antigos na subordinao dos homens  vontade divina e a um objectivo determinado para o qual so conduzidos, a histria moderna, em vez de estudar as manifestaes da autoridade, devia investigar as causas do seu estabelecimento. No entanto, eis o que a histria moderna no faz. Rejeitando, em teoria, os pontos de vista dos historiadores antigos, na prtica segue-lhes os passos.
      No lugar dos indivduos dotados de poder divino e guiados pela vontade divina coloca ou heris providos de qualidades extraordinrias e sobre-humanas ou simplesmente indivduos de mritos muito diversos, quer sejam monarcas, quer simples jornalistas, dirigindo as massas. No lugar dos fins institudos outrora pela divindade a certos povos, Judeus, Gregos ou Romanos, arrastando a humanidade, coloca o bem do povo francs, alemo ou ingls, ou ainda, merc de uma generalizao mais abstracta, o bem da civilizao em geral, representado, vulgarmente, pelos povos que habitam o pequeno recanto noroeste do grande continente.
      A histria moderna desprezou as teorias dos antigos sem as substituir na realidade por outras novas, e a lgica obrigou os historiadores, que por assim dizer renegaram o poder divino dos reis e o /atum dos antigos, a admitirem por uma outra via uma concluso semelhante, qual seja, primeiro, que os povos so conduzidos por indivduos particulares, e, segundo, que existe um objectivo para o qual se encaminham as naes e a humanidade. Todos os historiadores modernos, de Gibbon a Buckle, apesar do seu desacordo aparente, no obstante a dessemelhana dos seus pontos de vista, reconhecem, no fundo, estes dois princpios inevitveis:
      Em primeiro lugar, o historiador no tem que descrever seno os actos dos indivduos separados que, na sua opinio, dirigem a humanidade. Para uns, esses indivduos so os monarcas, os grandes capites, os ministros; para outros, alm dos monarcas, os oradores, os sbios, os reformadores, os filsofos, os poetas. Em segundo lugar, o historiador conhece o objectivo para o qual a humanidade se encaminha: para uns,  a grandeza de Roma, da Espanha, da Frana: para outros, a liberdade, a igualdade, a civilizao, de um certo gnero, desse pequeno recanto do mundo que se chama Europa.
      Em 1789 estalou uma revoluo em Paris; essa revoluo cresceu, alastrou e tornou-se por fim num movimento dos povos do Ocidente para Oriente. Por vrias vezes esse movimento se produz e vem a chocar com um movimento contrrio de Oriente para Ocidente. Em 1812 o referido movimento chegou ao seu ponto extremo, Moscovo: depois, um movimento perfeitamente simtrico com o primeiro se realiza em sentido contrrio, arrastando consigo, tal qual como da primeira vez, os povos centro-europeus. Este segundo movimento atinge o seu ponto de origem, Paris, e apazigua-se,
      Durante este perodo, que abrange quase vinte anos, uma grande superfcie de terra fica em pousio, casas so queimadas, o comrcio muda de direco: milhes de indivduos se arruinam, enriquecem, emigram, e milhes de cristos que professam a lei do amor do prximo matam-se mutuamente.
      Que significam estes factos? Donde veio tudo isto? Quem levou esta gente a queimar as casas e a matar os seus semelhantes? Quais as causas destes acontecimentos? Que fora obrigou os homens a agir deste modo? Eis as simples, ingnuas e mais que legtimas perguntas que a humanidade formula quando encontra diante de si os monumentos e as tradies deste movimento pretrito.
      Para resolver essas questes, o bom senso dirige-se  cincia histrica, cujo objectivo  o estudo dos povos e da humanidade.
      Se a histria ainda admitisse as teorias dos historiadores antigos, responderia que a divindade, para recompensar ou castigar o seu povo, deu a Napoleo o poder e dirigiu-lhe a vontade no sentido de atingir os seus fins divinos. E a resposta seria completa e clara. Pode crer-se ou no na misso divina de Napoleo; para aquele que acredita, porm, tudo se torna inteligvel na histria desse tempo e nada h nela que surpreenda.
      Mas os historiadores modernos no podem responder desta forma. A cincia j no admite, como os antigos, a interveno da divindade; por isso as suas respostas tm de ser outras.
      Dizem eles ento: se quereis saber o que significa este movimento, donde saiu e qual a fora que produziu esses acontecimentos, escutai:
      Lus XIV era muito orgulhoso e autoritrio; tinha estas e aquelas amantes e estes e aqueles ministros e governou mal a Frana. Os seus sucessores eram criaturas fracas, que por sua vez tambm governaram mal. Tiveram estes favoritos e aquelas amantes. Alm disso, por esse tempo homens houve que escreveram livros. No fim do sculo XVIII reuniram-se em Paris algumas dzias de indivduos que principiaram a dizer que todos os homens eram iguais e livres. E isto fez que em toda a Frana os homens principiassem a matar-se uns aos outros. Foram eles quem mandou matar o rei e muito mais gente. Nessa mesma altura havia em Frana um homem de gnio, Napoleo, Por toda a parte saa vitorioso, quer dizer, fazia que se matasse muita gente e isso lhe conferia o gnio. No se sabe porque carga de gua foi, inclusivamente, matar africanos e to bem lhes tratou da pele, to manhoso e inteligente era, que no regresso a Frana submetia todo o mundo  sua vontade. E todo o mundo lhe obedecia. Depois de se ter proclamado imperador, foi de novo matar gente na Itlia, na ustria e na Prssia, E aqui matou mesmo muita gente. Na Rssia vivia ento o imperador Alexandre, que decidira restabelecer a ordem na Europa, e por esse motivo travava luta com Napoleo. De sbito, porm, no ano de, 1807, tornou-se seu amigo, embora em 1812 de novo se zangue com ele e ambos recomecem a matar muita gente. E Napoleo levou consigo seiscentos mil homens at a Rssia e conquistou Moscovo, fugindo, em seguida, repentinamente, desta cidade, e foi ento que o imperador Alexandre, graas aos conselhos de Stein e de outros, soube unir a Europa e arm-la contra o perturbador da sua tranquilidade. Todos os aliados de Napoleo se tornaram, subitamente, inimigos seus e toda essa gente marchou contra as novas foras reunidas por ele. Os aliados venceram Napoleo, entraram em Paris, obrigaram-no a renunciar ao trono e mandaram-no para a ilha de Elba, sem o privarem do titulo de imperador e dando-lhe as maiores provas de considerao, quando cinco anos antes e um ano mais tarde o considerariam um bandoleiro fora da lei. E Lus XVIII principiou a reinar, esse mesmo rei de quem os Franceses e os aliados at ento sempre haviam troado, Quanto a Napoleo, depois de chorar diante da sua velha guarda, abdicava e partia para o exlio. Em seguida hbeis estadistas e diplomatas, principalmente Talleyrand, que, conseguindo sentar-se primeiro que ningum em certa poltrona, pudera por esse meio fazer recuar as fronteiras da Frana, conferenciaram em Viena, e esta conferncia tornou os povos felizes ou infelizes. E eis que de um momento para o outro diplomatas e monarcas principiam a guerrear-se e esto de novo prestes a dar ordens aos seus soldados para voltarem a matar-se uns aos outros.  ento que Napoleo desembarca, com um batalho de soldados, e os Franceses, mesmo os que o odiavam, se lhe submetem todos. Os monarcas aliados zangam-se e mais uma vez marcham para a guerra a combater os Franceses. E venceram esse gnio que era Napoleo e levaram-no para a ilha de Santa Helena, proclamando, de sbito, que ele era um bandoleiro. Ali, o exilado, longe dos seus dilectos e da sua bem-amada Frana, morre aos poucos, legando os seus grandes feitos  posteridade. E na Europa produziu-se uma reaco e todos os soberanos recomearam a oprimir os seus povos.
      Seria errneo pensar que estamos brincando e que acabamos de fazer uma caricatura da histria. Pelo contrrio, apenas demos uma plida imagem das explicaes absurdas e incoerentes que nos proporcionam todos os historiadores sem excepo, desde os autores de memrias e de histrias dos diversos povos at aqueles que escreveram histrias universais ou tratados de um novo gnero acerca da evoluo das civilizaes.
      O que h de estranho e de cmico em semelhantes dedues resulta do facto de a histria moderna ser semelhante a um homem surdo que responde a perguntas que ningum lhe faz.
      Se o objectivo da histria est nas descries dos movimentos da humanidade e dos povos, a primeira pergunta que se lhe deve fazer, e  qual deve responder, para que tudo o mais se torne inteligvel,  a seguinte: qual a fora que move os povos? A esta pergunta a histria moderna d-se pressa em responder dizendo-nos ou que Napoleo era um homem de gnio ou ento que Lus XIV era muito orgulhoso, ou ainda que vrios escritores escreveram certos livros.
      Tudo isto  muito possvel e a humanidade est pronta a aceitar que assim seja, mas no  isso que ela quer saber. Tudo isso poderia ser interessante se admitssemos que um poder divino, que s de si dependesse e que fosse sempre igual a si mesmo, governasse os povos por intermdio dos Napolees, dos Luses XIV ou destes ou daqueles escritores. Ns, porm, no admitimos um poder desse gnero. Por isso, antes de se falar hoje de todos estes grandes homens,  preciso mostrar as relaes que existem entre eles e o movimento dos povos.
      Se em lugar deste poder divino aparece uma fora nova,  preciso explicar em que consiste essa nova fora, pois  ela que confere todo o seu valor  obra da histria.
      Os historiadores parecem supor que esta fora se explica por si mesma e  conhecida de todos. No entanto, apesar do desejo que se possa ter de a supormos conhecida, o leitor de grande nmero de obras histricas ser levado a duvidar de que esta fora, compreendida de maneira to diferente pelos prprios historiadores, seja, de facto, de todos conhecida.
      

      
      
      
      Captulo II
      
      Qual  ento a fora que move os povos?
      Os autores de biografias individuais e os historiadores dos povos tornados separadamente admitem que essa fora seja como que um poder inerente aos heris e s grandes personalidades. Segundo eles, os acontecimentos produzem-se exclusivamente graas  vontade dos Napolees, dos Alexandres ou de cada uma das personagens de que a histria escreve a vida. As respostas que eles do s perguntas formuladas so satisfatrias, mas apenas quando consultamos um historiador para- cada acontecimento.
      Assim que os historiadores das diversas nacionalidades ou de diferentes opinies se pem a descrever um mesmo acontecimento, as suas afirmaes perdem imediatamente todo o valor, pois a verdade  que a fora em causa cada um deles a interpreta no s de maneira diferente, mas, por vezes, de maneira absolutamente oposta. Este sustenta que determinado acontecimento foi provocado pela fora de Napoleo, aquele pela de Alexandre e um terceiro pela de uma terceira personalidade, seja ela qual for. Alm disso, os historiadores desta categoria opem-se uns aos outros inclusivamente para explicarem a fora sobre a qual repousa o poder de uma s e mesma personalidade. Thiers, que  bonapartista, afirma que o poder de Napoleo se fundava nas suas virtudes e no seu gnio: Lanfrey, que  republicano, afirma que era baseada no bandoleirismo e na mentira, E, assim, ao mesmo tempo que invalidam, mutuamente, as suas asseres, destroem pela mesma razo esta noo de uma fora causa de acontecimentos, no proporcionando resposta alguma ao problema essencial da histria.
      Os historiadores da histria universal, que tm de se ocupar de todos os povos, parecem combater os pontos de vista dos historiadores da histria particular no que respeita  fora que conduz os acontecimentos. Para eles esta fora no  o poder inerente aos heris e aos potentados, mas a resultante de muitas outras foras dirigidas em sentidos diversos. Quando descrevem uma guerra ou uma conquista, procuram as causas dos acontecimentos no no poder de um nico indivduo, mas nas mtuas reaces de grande nmero de pessoas ligadas a esses acontecimentos.
      De acordo com esta teoria, sendo o poder das personagens histricas a resultante de muitas foras, no poderia ser considerado, ao que parece, como uma fora que por si mesma, e s por si, conduzisse os acontecimentos tendo com eles uma relao de causa e efeito. Ora pensam que a personagem histrica  o produto do seu tempo e que o seu poder no  mais que o resultado de foras diferentes, ora que o seu poder  essa mesma fora que conduz os acontecimentos. Gervinus, Schlosser, por exemplo, e outros, ora demonstram que Napoleo  produto da Revoluo Francesa, das ideias de 1789, etc., ora afirmam terminantemente que a campanha de 1812 e outros acontecimentos com que no simpatizam apenas so o resultado da vontade de Napoleo falsamente dirigida e que as ideias de 1789 foram detidas no seu desenvolvimento pela arbitrariedade do imperador. As ideias da Revoluo Francesa e a predisposio geral dos espritos produziram o poder de Napoleo. E este mesmo poder abafou as ideias e essa corrente geral.
      Esta estranha contradio no  acidental. No s se encontra a cada passo, como de uma longa srie de semelhantes contradies  feita a histria escrita pelos autores de que falmos. Essa contradio provm de que, ao entrarem na anlise, os historiadores universais se detm a meio caminho.
      Para se encontrarem resultados iguais s foras componentes ou que fazem as suas vezes  necessrio que a soma das resultantes seja igual  das componentes. Eis uma das condies que nunca  realizada pelos historiadores universais, pois, para explicar a fora que lhes serve de componente, devem necessariamente admitir, alm das resultantes insuficientes, uma fora ainda inexplicada agindo como componente.
      O historiador particular, ao descrever, quer a campanha de 1813, quer a restaurao dos Bourbons, afirma claramente que esses acontecimentos foram provocados apenas pela vontade de Alexandre, Mas o historiador universal Gervinus, para contrabalanar semelhante opinio, esfora-se por mostrar que estes dois acontecimentos so devidos, no s a Alexandre, mas  aco de Stein, de Metternich, de Madame de Stal, de Talleyrand, de Fichte, de Chateaubriand e de outros. Sem dvida, o historiador subdividiu o poder de Alexandre nos seus componentes: Talleyrand. Chateaubriand, etc.: a soma destes componentes, a saber, a aco mtua de Chateaubriand, de Talleyrand, de Madame de Sta1 e de outros no , evidentemente, igual  resultante ou ao que faz as suas vezes, isto , ao facto de, milhes de franceses se terem submetido aos Bourbons. Do facto de Chateaubriand, Madame de Stal e outros terem trocado entre si tais ideias resulta apenas que entre eles havia essas relaes, mas no que milhes de homens tenham obedecido a este ou quele. E a fim de explicar como esta submisso de tanta gente  uma consequncia das relaes entre si destas personagens, ou seja, que os componentes iguais a A do um resultado igual a mil A, o historiador v-se obrigado a, admitir a forca do poder que ele nega, visto que a considera apenas como o resultado de outras foras, quer dizer, deve admitir uma fora inexplicvel que actua segundo a resultante. E  o que fazem, efectivamente, os historiadores universais. E por esse motivo no s contradizem os historiadores particulares como se contradizem tambm a si mesmos.
      A gente do campo, consoante quer que chova ou faa bom tempo, como no faz ideia clara do que se passa na atmosfera, diz que o vento dissipa as nuvens ou que o vento as concentra. Agem da mesma maneira os historiadores universais. s vezes quando esto para a virados, quando isso est de acordo com as suas teorias, afirmam que o Poder  uma consequncia dos acontecimentos: outras, quando tm necessidade de provar qualquer outra coisa, sustentam que, pelo contrrio,  o Poder que os produz.
      Uma terceira categoria de historiadores, os que se consideram historiadores das civilizaes, acertando o passo pelos historiadores da histria universal, que consideram, por vezes, os escritores, senhoras mesmo, como foras conduzindo os acontecimentos, compreendem, no entanto, essa fora de maneira completamente diferente. Encontram-na naquilo a que chamam civilizao, numa actividade moral dos povos.
      Estes historiadores so partidrios decididos dos seus predecessores, os historiadores da histria universal. Com efeito, se se podem explicar os acontecimentos histricos pelas relaes que existem entre estes ou aqueles indivduos, porque no explic-los pelo facto de Sicrano ou Beltrano ter escrito este ou aquele livro? Esses historiadores elegem, entre os numerosos indcios que acompanham cada fenmeno humano, aqueles que tm valor moral e sustentam que esses indcios so a causa deles. Mas, apesar de todos os esforos neste sentido.  preciso muito boa vontade para se admitir que exista alguma coisa de comum entre a aco moral das ideias e o movimento dos povos. Pode dizer-se mesmo que em caso nenhum  de admitir que essa aco dirija os actos dos homens. Fenmenos tais como as chacinas da Revoluo Francesa, consequncia da propagao das ideias de igualdade, as guerras cruis e as execues, resultado da predicao da lei do amor, contradizem uma tal suposio.
      Admitamos mesmo que todas as dissertaes confusas e subtis que as histrias nos proporcionam so exactas. Admitamos que os povos so conduzidos por essa fora indefinvel a que se chama ideia, o problema essencial da histria fica, no obstante, sem soluo, ou, ento, ao antigo poder dos monarcas,  influncia j admitida dos conselheiros e outras personalidades vir justificar-se a nova fora da ideia, cuja relao com as massas se torna necessrio explicar. Pode admitir-se que, tendo Napoleo o Poder, determinado acontecimento se haja dado: pode admitir-se, com, um pouco de boa vontade, que Napoleo tenha sido, simultaneamente com outras foras actuantes, a causa dos acontecimentos; mas que um livro como o Contrato Social tenha compelido os Franceses a matarem-se uns aos outros, eis o que se no pode compreender sem se explicar a causa da relao desta fora nova com o prprio acontecimento.
      No ha dvida de que existe uma relao entre todos os que vivem numa mesma poca, e que, portanto, pode estabelecer-se uma certa relao entre a aco intelectual dos indivduos e os movimentos histricos, da mesma maneira que se pode estabelecer relao entre os movimentos da humanidade e o comrcio, os misteres, a arte da jardinagem e tudo quanto se quiser. Mas como pode esta actividade intelectual surgir aos olhos dos historiadores da civilizao como a causa ou a expresso de todo um movimento histrico, eis o que  difcil compreender. S  possvel explicar essa concluso da maneira seguinte: em primeiro lugar, a histria  obra dos sbios e por isso lhes  natural e agradvel pensar que graas a eles e aos da sua classe a humanidade inteira se agita, como seria natural e agradvel aos comerciantes, aos agricultores, aos soldados, pensarem a mesma coisa, embora estes nada digam porque no escrevem histria; em segundo lugar, a aco moral, a actividade espiritual, a civilizao, a cultura, o poder das ideias, todas estas coisas so noes obscuras e indeterminadas.  sombra das quais  muito cmodo empregar palavras que tm uma significao ainda menos definida e que por isso mesmo esto aptas a servir a qualquer teoria.
      Mas sem falar j da qualidade intrnseca da histria deste gnero, pois ser til sem dvida a algum ou servir para qualquer coisa, a histria da civilizao, com que principiam a estar cada vez mais de acordo as histrias universais,  notvel pelo facto de, ao estudar detalhadamente as diferentes doutrinas religiosas, filosficas e polticas, tomando-as como causa dos acontecimentos, de cada vez que tem de escrever um facto verdadeiramente histrico, como, por exemplo, a campanha de 1812, o relata, a seu pesar, como o produto do Poder, dizendo abertamente que a referida campanha  uma consequncia da vontade de Napoleo. E, ao falarem deste modo, os historiadores, inconscientemente, mostram-se em contradio consigo mesmos ou admitem que esta fora histrica nova que imaginaram no d a explicao dos fenmenos e que a nica maneira de os compreender e admitir o poder de um s que eles parecem no reconhecer.
      

      
      
      
      Captulo III
      
      Urna locomotiva movimenta-se. Pergunta-se porqu. O campons diz que  o Diabo que a empurra Outro que ela se desloca porque as rodas giram. Um terceiro afirma que a causa do movimento  o fumo que o vento leva.
      Nada h a objectar ao campons. Para isso seria preciso demonstrar-lhe que o Diabo no existe ou que outro da sua classe lhe explicasse que no  o Diabo, mas um alemo que a pe em marcha. S assim, merc da contradio, se daria conta de que nem um nem outro tem razo. No que diz respeito ao que atribui o movimento ao girar das rodas contradiz-se a si prprio, pois, uma vez no campo da anlise, ser obrigado a avanar um pouco mais: ser-lhe- necessrio explicar o movimento das rodas. E s ter o direito de se deter na busca dos motivos quando tiver chegado  ltima causa do movimento da locomotiva, ao vapor comprimido dentro do mbolo. Para aquele que explica o movimento pelo fumo que o vento leva, ao notar que a explicao pelas rodas nada explica, lanar mo do primeiro indcio que lhe apareceu para apresent-lo como uma causa.
      A nica noo capaz de explicar o movimento da locomotiva  a de uma fora igual ao movimento visvel.
      A nica noo por meio da qual se pode explicar o movimento dos povos  a de uma fora igual a esse movimento geral dos povos.
      No entanto, os diversos historiadores compreendem neste conceito foras muito diversas e em nenhum caso iguais ao movimento verificado. Uns falam de uma fora inerente aos heris, da mesma maneira que o campons fala no Diabo no caso da locomotiva; outros, de uma fora que na realidade  produzida por diversas outras foras, como aquele que invoca o movimento das rodas: outros, por fim, a influncia moral, como acontece com aquele que alude ao fumo que o vento leva.
      Enquanto se no escreverem seno histrias particulares, a dos Csares, dos Alexandres, dos Luteros ou dos Voltaires, e no a de todos os indivduos, sem excepo alguma, que tomaram parte num acontecimento, no haver possibilidade de descrever os movimentos da humanidade sem a noo de uma fora compelindo-os para um fim. E a nica noo no gnero que os historiadores conhecem  a do Poder.
      Esta noo  o nico mecanismo que permite manipular os materiais da histria no seu estado actual e aquele que o quis quebrar, como Buckle, sem nada ter para o substituir, mais no fez que privar-se a si mesmo do ltimo expediente ao seu alcance para desempenhar o seu papel. A noo do Poder na explicao dos fenmenos da histria  indispensvel e a melhor prova disso est no facto de os autores da histria universal ou da civilizao que pretendem renunciar a ela, a ela recorrem, inevitavelmente, a todo o instante.
      At agora, as obras histricas, no que diz respeito s questes que interessam a humanidade, parecem-se muito com a moeda corrente: notas de banco e moeda sonante. As biografias e histrias dos povos parecem-se com as notas de banco. Podem circular e cumprir a sua funo, sem prejuzo seja para quem for, e at com vantagem, enquanto no se pe o problema de quem garante o seu valor. Basta pormos de lado o que dizem a propsito da interveno da vontade dos heris nos acontecimentos, e as histrias de Thiers so interessantes, instrutivas, e tero, inclusivamente, uma certa poesia. Mas da mesma maneira que se pe em dvida o valor real das notas de banco quando se diz que a facilidade com que so fabricadas d lugar a que se faam em grande nmero, ou quando chega o momento de as converter no ouro que representam, tambm se duvida do valor exacto das histrias deste gnero quando se considera que h realmente demasiadas ou quando nos perguntamos com ingenuidade qual poder ter sido a fora que fez que Napoleo fizesse tudo isso, isto , quando se quer trocar essas notas de banco em circulao pelo ouro puro das realidades.
      Os autores de histrias universais ou da civilizao assemelham-se s pessoas que, para ocorrer aos inconvenientes das notas de banco, decidissem fabricar moeda sonante, e apenas sonante. As notas de banco ainda podem induzir em erro aqueles que nada conhecem; a moeda sonante, mas sem valor real, a ningum pode enganar. Da mesma maneira que o ouro s  verdadeiramente ouro quando pode ser empregado, alm de moeda de troca, como valor intrnseco, assim os autores de histrias universais no disporo de um valor ouro seno quando forem capazes de responder a esta questo essencial: que poder  esse? Esses historiadores respondem contraditoriamente a essa pergunta, enquanto os que escrevem sobre a civilizao a eliminam inteiramente e falam de outra coisa. E da mesma maneira que as moedas que se parecem com o ouro se no podem usar seno entre as pessoas que consentem em aceit-las nessas condies ou entre as que ignoram o que vale o ouro, assim os historiadores referidos, sem responderem aos Problemas essenciais da humanidade, procuram, por fins particulares, essa moeda corrente para as universidades e a uma quantidade de leitores amadores de livros srios, como eles costumam dizer.
      

      
      
      
      Captulo IV
      
      Ao repelir o critrio dos antigos sobre a submisso divina da vontade do povo a um ser eleito e sobre a submisso desta vontade  divindade, o historiador no pode dar um passo sem se contradizer, caso no escolha uma destas duas alternativas: regressar  crena dos antigos na participao directa da divindade nas obras humanas ou explicar concretamente a significao da fora que produz os acontecimentos histricos e a que se d o nome de, Poder.
      Regressar  primeira alternativa  impossvel. A crena est destruda: e eis porque  necessrio explicar o que significa o Poder.
      Napoleo ordenou que se reunisse um exrcito e que se marchasse para a guerra. To habituados estamos a formular as coisas desta maneira, de tal modo penetrou nos hbitos semelhante pensamento que se nos afigura mesmo absurdo perguntarmos como estes seiscentos mil homens pegaram em armas pelo facto de Napoleo ter pronunciado estas ou aquelas palavras. Napoleo dispunha do Poder, por isso as suas ordens foram cumpridas.
      Semelhante resposta  satisfatria se acreditarmos que o Poder lhe foi dado por Deus. Mas desde que no admitamos semelhante hiptese torna-se necessrio definir o que vem a ser este Poder de um nico homem sobre todos os demais.
      Esse Poder no pode consistir numa superioridade fsica do ser forte sobre o fraco, superioridade esta baseada na aplicao ou na ameaa de aplicao da fora fsica: por exemplo, o caso de Hrcules. To-pouco se pode basear na preponderncia da fora moral, como pensam, na sua ingenuidade, certos historiadores ao afirmarem que as personagens histricas so os heris, isto , criaturas dotadas desse poder particular da alma e da inteligncia a que se d o nome de gnio. No pode basear-se nesta superioridade porque, sem nada dizer acerca desses heris, como Napoleo, cujas qualidades morais so muito discutveis, a histria no prova que os Luses XI ou os Werniches, que tiveram  sua merc milhes de homens, possurem qualquer qualidade moral particular, pois a verdade  terem sido geralmente inferiores, no ponto de vista moral, a qualquer dos milhes de indivduos a quem governaram.
      Se a origem do Poder no reside, portanto, nem nas qualidades fsicas nem nos mritos morais da pessoa detentora do Poder, torna-se evidente ser preciso procur-la, fora dessa pessoa, nas suas relaes com as massas.
      Assim interpreta o Poder a cincia do direito, essa caixa de cambio da histria, a qual oferece ouro puro em troca da concepo histrica do Poder.
      O Poder  a soma das vontades das massas transportada, graas a um consentimento tcito ou explcito, para os governantes eleitos por aquelas.
      No domnio da cincia jurdica, em que se raciocina de maneira puramente abstracta sobre a forma de pr de acordo o Estado e o Poder, tudo isso  muito fcil; mais, quando aplicada  histria, esta definio exige esclarecimentos.
      A cincia do direito considera o Estado e o Poder da mesma maneira que os antigos consideravam o fogo, como uma coisa que existe em si mesma. Para a histria, pelo contrrio, o Estado e o Poder no passam da essncia de um fenmeno, tal como para a fsica moderna o fogo j no  um elemento, mas um fenmeno.
      Desta diferena fundamental da concepo da histria e da cincia do direito resulta que esta pode dissertar livremente sobre a maneira como se deve, segundo ela, organizar o Poder e sobre o que  esse Poder considerado fora do tempo, mas no pode dar soluo alguma aos problemas histricos relativos ao Poder quando submetido s flutuaes da temporalidade.
      Se o Poder  a soma das vontades transmitida ao governo, representar Pugatchev a vontade das massas? E, se assim no , porque havia de a representar Napoleo I? Porque  que Napoleo III, ao ser preso em Bolonha, foi considerado um criminoso e porque foram dados como criminosos tambm, mais tarde, todos aqueles que o prenderam?
      Nas revolues palacianas, em que se encontram envolvidas, por vezes, apenas duas ou trs pessoas, a vontade das massas tambm  transmitida a nova personagem? Quando se trata de conflitos internacionais,  a vontade das massas transmitida ao conquistador? Teria sido transferida, em 1808, a Napoleo a vontade da Liga do Reno? E a vontade do povo russo tambm lhe teria sido transferida, igualmente, em 18O9, quando as tropas russas, aliadas s francesas, marcharam contra a ustria?
      Todas estas perguntas admitem uma trplice resposta, Primeira. Reconhecendo que a vontade das massas  sempre incondicionalmente transmitida quele ou aqueles que elas escolheram como governantes e que, por conseguinte, toda a interveno de um novo poder, toda a luta contra o poder transmitido, no deve ser considerada como uma violao do poder verdadeiro.
      Segunda. Reconhecendo que a vontade das massas se transmite aos governantes sob determinadas condies e mostrando que toda a restrio, e inclusivamente a anulao do Poder, provm das infraces cometidas pelos governantes relativamente s condies sob as quais lhe foi outorgado o Poder.
      Terceira. Reconhecendo que a vontade das massas se transmite aos governantes condicionalmente, mas segundo condies desconhecidas e indefinidas, e que a apario de vrios poderes, as suas lutas e as suas derrotas provm to-s de um maior ou menor cumprimento pelo governante dessas condies desconhecidas, segundo as quais a vontade das massas se transmite de um a outro indivduo.
      Os historiadores explicam de uma destas trs maneiras a relao das massas com os seus governantes.
      Certos historiadores no compreendem a significao do Poder por razes de ingenuidade. Os mesmos historiadores particulares e bigrafos de que falmos anteriormente parecem reconhecer que a soma da vontade das massas se transmite incondicionalmente s personagens histricas. Por isso, ao descreverem um s poder qualquer, supem que  esse o absoluto e verdadeiro, e que qualquer outro que o contradiga no  um poder, mas um atentado, isto , uma violncia.
      A sua teoria, boa para os perodos primitivos e pacficos da histria, aplicada aos perodos complicados e tempestuosos da vida dos povos, durante os quais surgem outros poderes, que lutam entre si, apresenta um inconveniente, por exemplo: o historiador legitimista tratar de demonstrar que a Conveno, o Directrio e Bonaparte apenas eram violaes do Poder, enquanto o republicano e o bonapartista querero provar, aquele, que o verdadeiro Poder reside na Conveno e, este, que se radica no Imprio e que tudo o mais no passa de violao.  evidente que, perante todas estas contradies, as explicaes dadas pelos historiadores apenas podem convir a crianas muito crianas.
      Reconhecendo o erro de semelhante concepo, outros historiadores dizem que o Poder  fundado sobre a transmisso condicional aos governantes da soma das vontades das massas e que as personagens histricas s dispem desse Poder nas condies necessrias  execuo do programa que a vontade do povo lhes prescreve por acordo tcito. Mas em que consistem estas condies, eis o que eles no dizem e, se porventura o fazem,  contradizendo-se mutuamente a cada instante.
      Cada historiador, segundo a opinio que tem acerca do que constitui o objectivo do movimento dos povos, representa essas condies na grandeza, na riqueza, na liberdade, na instruo dos cidados franceses ou de outra nao. Mas, sem falar das contradies dos historiadores em relao a estas condies, e admitindo, inclusivamente, a existncia de um programa comum a todos, veremos como os factos histricos contradizem quase sempre essa teoria. Se as condies segundo as quais o Poder  transmitido consistem na riqueza, na liberdade e na instruo do povo, porque reinaram felizes Lus XIV ou Ivan IV at ao fim dos seus reinados e Lus XVI e Carlos I foram sentenciados pelo povo? A esta pergunta os historiadores respondem que a actividade de Lus XIV, contrria ao programa traado, veio a reflectir-se em Lus XVI. Mas porque no ter-se reflectido em Lus XIV ou em Lus XV? Porque havia de reflectir-se precisamente em Lus XVI? Qual o prazo em que se exerce essa reflexo? No h nem pode haver resposta para estas perguntas. De acordo com este critrio, to-pouco  possvel explicar como a soma das vontades permanece durante sculos nas mos de determinados governantes e cios seus herdeiros e depois, repentinamente, pelo espao de cinquenta anos, se transmite  Conveno, ao Directrio, a Napoleo, a Alexandre, a Lus XVIII, de novo a Napoleo, a Carlos X, a Lus Filipe, ao governo republicano e a Napoleo, o Pequeno. Ao explicar estas transferncias, que se cumprem to rapidamente, das vontades de uma personagem a outra personagem, e sobretudo as relaes internacionais, as conquistas, as alianas, os historiadores devem reconhecer, a seu pesar, que uma parte desses acontecimentos no  j a essncia da transferncia regular das vontades, mas apenas o azar, que depende ora da astcia, ora do erro, ora da perfdia ou da debilidade de um diplomata, de um monarca ou de um chefe de partido. De maneira que a maior parte dos fenmenos histricos, os distrbios, as revolues e as conquistas no se apresentam aos olhos desses historiadores como transferncias livres de vontades, mas como o resultado da vontade falsamente dirigida de uma ou vrias pessoas, isto , ainda uma transgresso do Poder. Eis porque os acontecimentos histricos so infraces  teoria dos historiadores referidos.
      Estes historiadores so no gnero desses botnicos que, tendo observado que certas plantas nascem das sementes de dois cotildones, sustentam que tudo quanto cresce sai de dois cotildones e que a palmeira, o cogumelo e at o carvalho, quando em sua plena florescncia, j sem duas folhas iguais, so excepes  regra.
      Os historiadores da terceira categoria reconhecem que a vontade das massas se transmite condicionalmente s personagens histricas, mas que desconhecemos essas condies. Dizem que essas personagens histricas tm o Poder apenas por serem portadoras da vontade das massas, a qual lhes  transmitida-
      Mas, ento, se a fora que move os povos no est nas personagens histricas, mas no prprio povo, em que consiste a importncia dessas personagens?
      Os historiadores dizem que so eles quem exprime a vontade das massas, que os seus actos representam exactamente a vontade do povo.
      Neste caso, porm, surge a seguinte pergunta: so todos os actos destas personagens ou s uma parte da sua actividade que exprimem a vontade das massas? Se toda a actividade destes homens  o reflexo dessa vontade, como pensam alguns, as biografias de Napoleo e de Catarina II, cheias de pequeninas intrigas de corte, sero a expresso da vida dos povos, o que , evidentemente, uma insensatez, Mas se  apenas um parte dos seus actos que representa a vida dos povos, como pensam outros historiadores mais filsofos, ento, para se definir qual o lado da actividade da personagem histrica que exprime a vida do povo.  preciso saber antes em que consiste essa vida.
      Ao defrontarem-se-lhes estas dificuldades, os historiadores referidos inventam uma espcie de entidade muito vaga e inconsistente, dentro da qual pode classificar-se grande nmero de acontecimentos possveis, e sustentam que esta pura abstraco , o objectivo do movimento da humanidade, As abstraces mais vulgares admitidas por quase todos os historiadores so a liberdade, a igualdade, a instruo, o progresso, a civilizao, a cultura. Admitindo como objectivo do movimento da humanidade qualquer destas abstraces, pegam nas pessoas que deixaram atrs de si maior nomeada, os reis, os ministros, os grandes capites, os grandes escritores, os reformadores, os papas, os jornalistas, e estudam-nos na medida em que eles teriam, na sua opinio, favorecido ou combatido esta ou aquela entidade reconhecida. Mas como no esta provado que o objectivo da humanidade consiste na liberdade, na igualdade, na instruo ou na civilizao, e j que o vnculo entre as massas e os governantes ou os propagadores da cultura se baseia apenas na suposio arbitrria de que a vontade das massas se transmite sempre s personagens de primeira plana, a actividade de milhes de homens que emigram, incendeiam as suas casas, abandonam o cultivo das terras e se matam uns aos outros nunca se explica pelos actos de uma dezena de personagens que no queimam as suas casas, no se dedicam  agricultura e no matam o seu semelhante.
      A histria demonstra isto cada passo. Porventura o movimento dos povos do Ocidente, nos fins do sculo XVIII, e a sua marcha para o Oriente, se explica pela actividade de Lus XIV, Lus XV, Lus XVI ou das suas amantes, dos seus ministros, ou pela vida de Napoleo, de Rousseau, de Diderot, de Baumarchais e de outros? Porventura o movimento do povo russo para Oriente - para Kazan ou para a Sibria - se explica pelos pormenores que se conhecem do carcter doentio de Ivan IV e pela sua correspondncia com Kursbski?
      Porventura pode explicar-se o movimento dos povos durante as cruzadas pela vida dos Godofredos, dos Luses e das suas esposas? Para ns, o movimento dos povos para Oriente permanece incompreensvel, sem qualquer objectivo, sem chefe, com uma multido de vagabundos, e Pedro, o Eremita,  frente. E ainda  mais incompreensvel a cessao desse movimento na altura em que as personagens histricas activas lhe tinham encontrado um fim razovel e santo: a libertao de Jerusalm. O papa, os reis e os cavaleiros incitavam o povo a libertar a Terra Santa, mas o povo negava-se a faz-lo, pois a causa desconhecida que o havia impulsionado antes j no existia. A histria dos Godofredos e dos trovadores no pode englobar a vida dos povos. Esta histria continua a ser o que foi, e a vida dos povos, as suas aspiraes, permanecem desconhecidas.
      A histria dos escritores e dos reformadores explica-nos ainda menos a vida dos povos.
      Uma histria da civilizao pode proporcionar-nos esclarecimentos sobre as aspiraes, a vida ou as ideias de um escritor ou de um reformador. Sabemos que Lutero tinha, um feitio assomadio e pronunciou estas e aquelas palavras: sabemos que Rousseau era desconfiado e escreveu estes e aqueles livros; mas no podemos saber porque, depois da Reforma, os povos se mataram uns aos outros e porque, depois da Revoluo Francesa, fizeram o mesmo.
      Unir estas duas histrias, como o fazem os historiadores modernos,  escrever a histria de monarcas e escritores, mas no a histria dos povos.
      

      
      
      
      Captulo V
      
      A vida dos povos no pode confundir-se com a de um reduzido nmero de indivduos, uma vez que se no conhece o vnculo que une uns aos outros. A teoria segundo a qual este vnculo se baseia na transmisso da sorna das vontades s personagens histricas  uma hiptese que a experincia histrica no confirma.
      Esta teoria pode, sem dvida, explicar muita coisa no domnio jurdico;  talvez necessria para os seus prprios fins, mas aplicada  histria, assim que surgem revolues, conquistas, guerras civis, logo que aparece a verdadeira histria, nada mais explica.
      Esta teoria parece irrefutvel precisamente porque o acto da transmisso da vontade do povo no pode ser verificado, visto nunca ter existido.
      Seja qual for o acontecimento que se realize, seja qual for a personagem que o dirige, a teoria est sempre a tempo de dizer que esta personagem veio a encontrar-se  frente do acontecimento porque a soma das vontades lhe foi transmitida-
      As solues que esta teoria traz aos problemas histricos parecem-se com o que diria um homem que, ao ver um rebanho em marcha, sem se preocupar com as diversas condies do pastoreio, os diferentes lugares do campo ou a direco dada pelo pastor, atribusse a causa desta ou daquela direco que o rebanho tome ao animal que vai adiante.
      O rebanho caminha nesta direco porque o animal que vai  frente o conduz e a soma das vontades de todos os outros  transferida para esse chefe. Assim falam os historiadores da primeira categoria, os que admitem a transferncia absoluta do Poder.
      Se os animais que caminham na vanguarda do rebanho porem substitudos,  porque a soma das vontades de todos os animais passa de um dirigente para outro, desde que esse animal os conduz na direco que todo o rebanho escolheu. Assim se exprimem os historiadores que admitem que a soma da vontade das massas  transferida aos dirigentes em condies que eles julgam conhecer. Nesse caso acontece multas vezes que o historiador observador do movimento, ao encarar a direco escolhida, considera como guias aqueles que, no momento da mudana de direco das massas, j no se encontram  cabea, mas ao lado, e algumas vezes mesmo atrs.
      Se os animais que vo  frente mudam a todo o momento e se a direco seguida pelo rebanho muda tambm constantemente, isso  o resultado do facto de os animais, para tomarem a direco que antecipadamente conhecemos, transmitirem as suas vontades a certos animais mais em evidncia do que outros. Por isso, para se estudar o movimento do rebanho, temos de observar todos os animais que vemos e que seguem em qualquer parte do rebanho. Assim falam os historiadores da terceira categoria, que reconhecem como expresso de uma certa poca todas as personagens histricas, desde os monarcas aos jornalistas. A teoria da transferncia da vontade das massas a uma personagem histrica no passa de uma perfrase, quer dizer, a repetio da mesma pergunta por outras palavras.
      Qual a causa dos acontecimentos histricos? O Poder. Que  o Poder? O Poder  a soma das vontades transferidas para uma s personagem. Em que condies se transmitem as vontades das massas a uma nica personagem? Quando essa personagem exprime a vontade de todos os outros. Por outras palavras, o Poder  o Poder, Como quem diz: o Poder no  mais que o Poder. Por outras palavras ainda, o Poder no  mais que uma palavra cujo significado nos  desconhecido.
      Se o domnio do conhecimento se limitasse s noes abstractas, submetendo ao exame do esprito crtico a explicao que a cincia nos d do Poder, concluiramos que o Poder mais no  que uma palavra e que na realidade esse Poder no existe. Mas para o conhecimento dos fenmenos possui o homem, alm das noes abstractas, a arma da experincia, com a qual comprova os resultados das suas ideias puras. E a experincia proclama que o Poder no  uma palavra, mas um fenmeno que realmente existe.
      Sem falar que nenhuma descrio da actividade colectiva se pode fazer sem compreender o Poder, a existncia do Poder fica demonstrada tanto pela histria como pela observao dos acontecimentos contemporneos.
      Cada vez que tem lugar um acontecimento histrico, aparecem um ou vrios homens graas  vontade dos quais esse acontecimento se realiza. Sob o mando de Napoleo III, os Franceses vo ao Mxico. O rei da Prssia e Bismark ordenam, e o exrcito dirige-se para a Bomia. Napoleo I d as suas ordens e os exrcitos marcham contra a Rssia. Alexandre I faz um gesto e os Franceses submetem-se aos Bourbons. A experincia mostra-nos que, seja qual for o acontecimento que se produz, esse acontecimento depende sempre da vontade de uma ou de vrias pessoas que o ordenaram.
      Segundo o velho costume de se reconhecer a participao divina nas obras humanas, os historiadores querem ver a causa do acontecimento na expresso da vontade da personagem investida do Poder; mas esta concluso no est confirmada nem pelo raciocnio nem pela experincia.
      Por um lado, o raciocnio demonstra que as expresses da vontade do homem, as suas palavras, no so mais que, uma parte da actividade geral que se exprime mediante um acontecimento, como, por exemplo, uma guerra ou uma revoluo. Por isso, desde que se no admite uma fora incompreensvel e sobrenatural, um milagre, tambm se no pode admitir que as palavras sejam a causa directa do movimento de milhes de homens, Por outro lado, se se admite, inclusivamente, que as palavras no so a causa de um acontecimento, a histria demonstra que, em muitas ocasies, a expresso da vontade das personagens histricas no produz qualquer efeito, quer dizer que, com frequncia, no s se no cumprem as suas ordens como tambm que s vezes sucede o contrrio do que se ordenou.
      Sem admitir a participao divina nas obras da humanidade, no podemos aceitar o Poder como causa dos acontecimentos.
      Do ponto de vista da experincia, o Poder no  mais que uma dependncia entre a expresso da vontade de uma personagem e o cumprimento dessa vontade por outros homens.
      Para explicarmos as condies desta dependncia, antes de mais nada devemos restabelecer o conceito da expresso da vontade, relacionando-o com o homem e no com a divindade.
      Se a divindade d ordens e, exprime ,a sua vontade, como nos mostra a histria dos antigos, ento a expresso dessa vontade no depende do tempo e no  provocada por coisa alguma, uma vez que a divindade no se encontra em relao com o acontecimento. Mas, ao falar-se de ordens, quer dizer, da expresso da vontade dos homens que actuam no tempo e esto vinculados entre si, para explicarmos o vnculo existente entre as ordens e os acontecimentos devemos estabelecer o seguinte:
      Primeiro: as condies de todos os acontecimentos que se realizam, a continuidade do movimento ininterrupto no tempo, assim como a da pessoa que d as ordens. Segundo: a condio do vnculo necessrio em que se encontra a pessoa que, d as ordens em relao queles que as cumprem.
      

      
      
      
      Captulo VI
      
      S a expresso da vontade da divindade, que no depende do tempo, pode relacionar-se com uma srie de acontecimentos que devem realizar-se dentro de alguns anos ou de alguns sculos, e s a divindade, que no  provocada por coisa alguma, pode determinar, por sua prpria vontade, a direco do movimento da humanidade, enquanto o homem actua sempre no tempo participando ele prprio no acontecimento.
      Restabelecendo a primeira condio admitida, a condio do tempo, veremos que nem uma nica ordem pode cumprir-se sem outra precedente que torne possvel a execuo da ltima.
      Nunca ordem alguma aparece arbitrariamente, sem conter em si mesma toda uma srie de acontecimentos. Cada ordem dada deriva de outra e nunca est relacionada com um conjunto de acontecimentos, mas sempre com um s momento do acontecimento.
      Quando, por exemplo, dizemos que Napoleo ordenou s suas tropas que marchassem para a guerra, unimos, numa mesma ordem expressa, uma srie de ordens consecutivas dependentes umas das outras. Napoleo no podia ordenar a marcha sobre a Rssia e nunca fez semelhante coisa. Um dia deu ordem para se escreverem estes ou aqueles documentos destinados a Viena, a Berlim e Petersburgo; no dia seguinte publicou este ou aquele decreto ou ordem do dia ao exrcito,  armada,  intendncia, etc. Deu milhares de ordens, as quais formaram uma srie de acontecimentos que conduziram as tropas francesas  Rssia.
      Durante todo o seu reinado, Napoleo foi dando ordens relativas  expedio a Inglaterra. A nenhum outro empreendimento consagrou tantos esforos nem tanto tempo e, no entanto, nem uma s vez tentou levar a cabo o seu projecto. Em compensao, organizou a marcha sobre a Rssia, pas com o qual, repetira vrias vezes, considerava vantajoso aliar-se. Isto quer dizer que a suas primeiras ordens no correspondem a uma srie de acontecimentos, coisa que sucede s segundas.
      Para que se cumpra com toda a segurana o que o homem ordena, tem de tratar-se de uma ordem susceptvel de ser executada. No entanto,  impossvel saber de antemo o que pode e o que no pode executar-se, no s num acontecimento to complicado como a campanha da Rssia, em que tomaram parte milhes de, homens, mas, inclusivamente, num acontecimento mais simples, pois quer num quer no outro podem surgir sempre numerosos obstculos. Por cada ordem executada h sempre numerosas ordens que o no chegam a ser. As ordens impossveis no esto vinculadas ao acontecimento e no podem ser cumpridas. S se levam a cabo as que so possveis, as que se encadeiam na srie consecutiva de ordens que correspondem a uma srie de acontecimentos.
      A ideia falsa de que a ordem que precede o acontecimento  a causa desse mesmo acontecimento deriva do facto de, no momento em que o acontecimento se produz, as nicas ordens entre os milhares de ordens dadas de acordo com o acontecimento foram executadas e esquecemos as que o no foram porque o no podiam ser. Alm disso, a fonte principal do nosso erro a este respeito provm de que, nos relatos histricos, toda uma srie inumervel de pequenos e muito variados factos, como, por exemplo, tudo que podia atrair as tropas francesas  Rssia, se confunde num acontecimento nico, segundo o resultado que produziu, e para responder a esta confuso toda uma srie de ordens igualmente se funde na expresso nica de uma vontade.
      Diremos: quis fazer a campanha da Rssia e f-la. Na realidade, nunca encontrmos nos seus actos fosse o que fosse de parecido com a expresso de semelhante vontade, enquanto descobrimos sries de ordens ou de expresses da sua vontade dirigidas da maneira mais diversa e mais indeterminada. Da soma de ordens de Napoleo no cumpridas derivou uma srie levada a cabo na campanha de 1812, no porque estas ordens se distinguissem das outras, das no cumpridas, mas porque coincidiam com uma srie de factos que conduziram as tropas francesas  Rssia. Quando se pinta com um modelo  vista, o pintor no tem de se preocupar com a maneira de usar as tintas e o sitio do que as h-de aplicar, pois as tintas se encontram colocadas de acordo com os contornos da figura desenhada do modelo.
      Da mesma maneira, ao examinar, no tempo, a, relao existente entre as ordens e os acontecimentos, vemos que em nenhuma circunstncia podem ser aquelas as causas dos acontecimentos, apenas existindo entre umas e outras certa dependncia.
      Para se compreender em que consiste essa dependncia , necessrio restabelecer-se a outra condio omitida de cada ordem, que no provm da divindade, mas do homem e se estriba no facto de que aquele que ordena participa pessoalmente no acontecimento.
      A relao entre o que ordena e os que recebem as ordens, eis, precisamente, o que se chama Poder. Esse Poder consiste no seguinte:
      Para uma aco comum, os homens formam sempre certos grupos nos quais, apesar da diferena dos objectivos visados por cada um na aco conjunta, as relaes entre os que nela tomam parte so sempre as mesmas.
      Ao unirem-se desta maneira tm sempre em si relaes tais que o maior nmero deles toma a maior parte da participao directa no empreendimento e o menor numero a mais pequena De todos os agrupamentos formados pelos homens para realizar actos colectivos, um dos mais concretos e definidos  o exrcito.
      Todo o exrcito se compe de membros os mais humildes na hierarquia militar, soldados rasos, sempre o maior nmero, de outros, de patente mais elevada, os cabos, os sargentos, menos numerosos, e ainda de outros de patente ainda mais elevada, menos numerosos ainda, e assim por diante at  mais alta autoridade militar, a qual  constituda apenas por uma s pessoa.
      A organizao do exrcito poder-se-ia perfeitamente representar por um cone cujo maior dimetro seria ocupado pelo soldado raso, as seces menores, ocupadas pelas patentes sucessivamente mais elevadas, at ao topo do cone, onde estaria o general-chefe.
      Os soldados, que so os mais numerosos, formam a parte inferior e a base.  o soldado, directamente, quem fere, corta, queima, saqueia, e para executar estas tarefas recebe sempre ordens dos que esto situados na escala acima; o soldado raso, por si, nunca d ordens. Os sargentos, menos numerosos, raramente executam a mesma tarefa que o soldado raso; mas j do ordens. O oficial ainda mais raramente age, e d mais ordens. O general limita-se a dizer s tropas que marchem e quase nunca se serve das suas prprias armas. O com andante- chefe no pode tomar j parte directa na aco e limita-se a emitir as medidas gerais que fazem mover as massas. Eis o que se passa exactamente com qualquer reunio de indivduos associados numa aco comum, quer seja um empreendimento agrcola, comercial ou de qualquer outra espcie.
      Assim, pois, sem separar artificialmente as partes que formam o cone, e se confundem entre si, isto , as patentes do exrcito ou ttulos e situaes de qualquer organizao colectiva, depreende-se da lei que os homens, para levarem a bom termo uma obra de iniciativa comum, combinam de tal sorte a aco que empreendem que quanto mais directa  a parte que tomam nessa obra menos tm que dar ordens e tanto mais numerosos so. Quanto menos nela participam directamente tanto mais ordens do e menos numerosos so, e erguendo-se, assim, desde as camadas inferiores, chega-se a um nico e derradeiro indivduo, que participa directamente na obra menos que todos os outros e mais do que nenhum exerce a sua influncia por meio de ordens.
      Esta  a relao entre os homens que comandam e aqueles que recebem as ordens, relao que constitui a essncia do conceito chamado Poder.
      Ao restabelecer as condies do tempo em que se cumprem os acontecimentos, conviemos que uma ordem se executa unicamente quando est relacionada com uma srie de factos correspondentes.
      Ao restabelecer as condies necessrias da unio entre o que ordena e o que executa, vimos que quem ordena toma menor parte no acontecimento e que a sua actividade est consagrada exclusivamente ao exerccio das funes do mando.
      

      
      
      
      Captulo VII
      
      Quando se est a produzir um acontecimento qualquer, os homens exprimem as suas opinies e os seus desejos em relao a ele, e, embora o prprio acontecimento derive da aco colectiva de muitos homens,  evidente que uma das expresses ou desejos formulados se realiza sem falta, ainda que seja de maneira aproximada. Quando uma das opinies manifestadas se realiza, encadeia-se ao acontecimento como se fosse a ordem que o precedeu.
      Um grupo de homens arrasta um tronco. Cada um deles d a sua opinio sobre a maneira de o arrastar e o local para onde deve ser conduzido. Concluda que seja a tarefa, verifica-se ter sido realizada como o dissera um dos trabalhadores. E foi ele quem deu a ordem. E eis aqui a ordem e o poder sob a sua forma primitiva: aquele que mais trabalhou com as suas prprias mos foi o que menos pde reflectir sobre o que fazia e, por conseguinte, o que menos pde pensar no que resultaria da aco comum. No podia dar ordens. O que deu mais ordens pde actuar menos com as mos merc da actividade verbal que exerceu. Numa reunio de homens que dirigem a sua actividade para um objectivo nico, a categoria dos que tomam parte directa na obra comum encontra-se tanto mais fraccionada quanto maior a actividade que desenvolvem para dar ordens.
      Quando actua s, o homem leva sempre dentro de si um certo nmero de consideraes, que j guiaram, pensa ele, a sua actividade passada, capazes de justificar os seus actos presentes e dirigi-los na previso do que far. Os grupos de homens agem precisamente da mesma maneira quando deixam queles que no tomam parte na aco o cuidado de imaginar as consideraes, as justificaes, as previses aplicveis ao acto comum.
      Por causas que nos so conhecidas ou desconhecidas, os Franceses matam-se uns aos outros. E em relao com tal acontecimento surge a justificao concomitante, que consiste em sustentar que isso era necessrio para o bem da Frana, a liberdade e a igualdade. Os homens deixam de se matar uns aos outros, e imediatamente chega a justificao do acontecimento pela, necessidade que havia de manter a unidade de Poder, da luta contra a Europa, etc. Caminha-se do Ocidente para o Oriente matando o semelhante, e a empresa  acompanhada de discursos sobre a glria da Frana, a baixeza da Inglaterra, etc. A histria mostra-nos como estas justificaes nada tm que ver com o bom senso, se contradizem umas s outras, da mesma maneira que o assassinato de um homem para proclamar os direitos do homem e a matana de milhes de homens para humilhar a Inglaterra. Mas estas justificaes, no ponto de vista dos contemporneos, tm uma importncia decisiva e eliminam a responsabilidade moral dos homens que originam os acontecimentos. Os fins provisrios lembram as escovas colocadas diante da viatura destinada  limpeza da via pblica: limpam o caminho da responsabilidade moral dos homens. Sem tais justificaes no se poderia explicar o problema extremamente simples que se nos apresenta quando examinamos qualquer acontecimento. Como  possvel que milhes de homens cometam colectivamente crimes, guerras, matanas, etc.?
      Dadas as complicadas formas actuais da vida poltica e social da Europa, poder-se- imaginar um acontecimento qualquer que no esteja prescrito, decretado, ordenado pelos soberanos, os ministros, os parlamentos, os jornais? Haver qualquer obra colectiva que no encontre a sua justificao na unidade do Estado, nas necessidades nacionais, no equilbrio europeu, na civilizao? Deste modo todo e qualquer acontecimento que venha a cumprir-se coincide necessariamente com algum desejo expresso, e uma vez que encontra uma justificao passa a ser encarado como obra da vontade de uma ou mais pessoas.
      Qualquer que seja a direco de um navio ver-se- sempre diante dele a corrente das ondas que ele corta. Para as pessoas que se encontram a bordo o nico movimento visvel ser o dessa corrente.
      S ao observarmos de perto, momento a momento, esse movimento das ondas e ao compar-lo ao movimento do navio nos convenceremos de que o movimento da corrente est definido a cada momento pelo navio e que camos nesse erro pelo facto de avanarmos imperceptivelmente.
      Chegaremos  mesma concluso se seguirmos passo a passo os movimentos das personagens da histria (quer dizer, ao restabelecer as condies necessrias de tudo que se realiza, as condies da continuidade do movimento no tempo) sem perder de vista o vnculo necessrio entre as personagens histricas e as massas.
      Suceda o que suceder, sempre resultara que o acontecimento era o previsto e ordenado. Seja qual for a direco do navio, a corrente, que no contribui nem para o guiar nem para aumentar a sua velocidade, produz-se  proa e de longe ter para ns o efeito de uma agitao absolutamente independente e que ainda por cima parece dirigir o navio.
      Ao examinar somente as expresses da vontade das personagens histricas que podem relacionar-se com os acontecimentos sob a forma de ordens, os historiadores supem que os factos esto subordinados s ordens. Ao examinar os mesmos acontecimentos e a relao em que se encontram as massas com as personagens histricas, chegamos  concluso de que as personagens histricas e as suas ordens se encontram na dependncia dos acontecimentos. A prova indiscutvel desta concluso reside no facto de que, seja qual for o nmero de ordens dado, o acontecimento no chega a produzir-se se no existem alm delas outros motivos. Mas enquanto um acontecimento qualquer se realiza entre todas as vontades que incessantemente se manifestam, acharemos alguma de tal natureza que em virtude do seu sentido e do tempo pode considerar-se como uma ordem ao relacion-la com o acontecimento,
      Ao chegar a esta concluso, estamos capazes de responder concreta e positivamente aos dois problemas essenciais da histria:
      Primeiro: que  o Poder?
      Segundo: qual a fora que produz os movimentos dos povos? Primeiro: o Poder  a relao entre uma personagem determinada e outros homens, segundo a qual, quanto menos intervenha aquela na aco tanto mais opinies, suposies e justificaes exprime a respeito da obra comum que se realiza.
      Segundo: no  o Poder, a actividade intelectual, e nem mesmo a unio das duas coisas, que produz o movimento dos povos, como pensam os historiadores, mas a actividade de todos os homens que tomam parte num acontecimento e que se agrupam sempre de tal maneira que os que participam de modo mais directo aceitam uma menor responsabilidade e vice-versa.
      Do ponto de vista moral, o Poder  o que se rios apresenta como causa de um acontecimento, Do ponto de vista fsico, aqueles que se submetem ao Poder  que parecem ser a sua causa. Mas como a actividade moral no  possvel sem a actividade fsica, a causa de um acontecimento no se encontra numa nem na outra, mas na unio das duas.
      Por outras palavras: o conceito da causa  inaplicvel ao fenmeno que estudamos.
      Em ltima anlise, chegamos ao crculo eterno, a esse limite extremo a que chega, em todos os domnios do pensamento, o esprito humano quando no pretende jogar com o assunto, A electricidade produz o calor, o calor gera a electricidade. Os tomos atraem-se, os tomos repelem-se.
      Quando falamos das reaces recprocas do calor e da electricidade ou dos tomos, nada podemos dizer da causa dos fenmeno dizemos que isso se produz assim porque  absurdo que acontea de outra maneira, porque assim deve ser, porque  essa a lei. O mesmo se d com os fenmenos histricos. Ignoramos por- que se deu esta ou aquela revoluo, apenas sabemos que para a realizao deste ou daquele acto os homens se uniram de tal maneira, e que todos tomaram parte nisso, e acrescentamos que  assim por ser inadmissvel de outra maneira, por ser essa a lei.
      

      
      
      
      Captulo VIII
      
      Se a histria tivesse de se ocupar de fenmenos exteriores, bastaria a prova desta lei to simples e evidente para a nossa misso estar terminada, Mas a lei da histria aplica-se ao ser humano. Uma pequena partcula de matria no nos pode dizer que no sente em absoluto a necessidade da atraco ou da repulso e que essa necessidade no  certa, Em compensao o homem, que  o objecto da histria, diz sem rodeios: Sou livre e no me submeto a qualquer lei.
      Este problema do livre arbtrio, ainda que no expresso, est presente a cada passo na histria.
      A todos os historiadores srios veio a deparar-se-lhes, a pesar seu, este problema. Todas as contradies, todas as incertezas da histria, todas as falsas vias em que se insinua, no so mais que o resultado de este problema estar por resolver.
      Se a vontade do homem  livre, isto , se cada um de tios pode agir como quer, a histria inteira no passa de uma srie de azares incoerentes.
      Se num perodo de mil anos surgisse, entre milhes de homens, um s com a possibilidade de proceder livremente, quer dizer, de proceder a seu talante,  evidente que esse acto livre, contrrio s leis, destruiria a possibilidade da existncia de leis, fossem elas quais fossem, relativas  humanidade.
      E basta que exista uma s lei capaz de dirigir as aces dos homens para no poder haver livre arbtrio, uma vez que, em tal caso, a vontade dos homens deve submeter-se  referida lei.
      Nesta contradio se resume o problema do livre arbtrio, com que se tm preocupado, desde os mais remotos tempos, as melhores inteligncias humanas, e que desde esses recuados tempos se apresenta em toda a sua importncia.
      Este problema consiste em que, ao tomar o homem como objecto de observao de um ponto de vista qualquer, seja teolgico, histrico, tico ou filosfico, nos encontramos com a lei geral da necessidade a que est submetido, como tudo o que existe. Mas se o considerarmos do nosso prprio ponto de vista, o ponto de vista da nossa conscincia, sentimo-nos livres.
      Esta conscincia  um elemento do nosso conhecimento absolutamente separado e independente da razo. Graas  razo, observa-se o homem a si mesmo: mas  s pela conscincia que ele se conhece.
      Sem conscincia, nenhuma observao  possvel, nenhuma aplicao da razo.
      Para compreender, observar, concluir, o homem deve, antes de tudo, ter a conscincia de que est vivo. E o homem s se reconhece vivo enquanto se reconhece dotado de vontade, ou, como quem diz, quando tem conscincia da sua vontade. E a vontade do homem, a essncia da sua existncia, no a concebe ele nem a pode conceber seno livre.
      Quando, no decurso das observaes que faz sobre si mesmo, o homem descobre que a sua vontade encontra pela frente sempre a mesma lei, quer seja a necessidade de se alimentar ou o funcionamento do seu crebro ou qualquer outra coisa, esta necessidade no a pode ele compreender seno como uma restrio ao exerccio da sua vontade. O que no  livre no pode ser limitado. A vontade do homem aparece ilimitada precisamente porque ele a concebe e no pode conceb-la seno livre.
      Quando uma pessoa diz: No sou livre, e no entanto levanto e deixo cair a minha mo, todos compreendem que esta resposta ilgica  a prova indiscutvel da liberdade.
      Esta resposta  a expresso da conscincia no submetida  razo. Se a conscincia da liberdade no fosse uma fonte particular e independente da razo, estaria submetida ao raciocnio e  experincia. Mas na realidade essa dependncia nunca se verifica e  inconcebvel.
      Uma srie de experincias e de raciocnios prova a cada homem que, tomado como objecto de observao, est submetido a certas leis, e que o homem se submete a elas e no luta contra a lei da atraco ou da impenetrabilidade. Mas a mesma srie de experincias e de raciocnios mostra-lhe ser impossvel a liberdade absoluta que reconhece em si mesmo, que todos os seus actos dependem do seu organismo, do seu carcter e das causas que actuam sobre ele. O homem, porm, nunca se submete s concluses dessas experincias e desses raciocnios.
      Uma vez que a experincia e o raciocnio lhe fizeram compreender que a pedra cai de cima para baixo, o homem cr, indiscutivelmente, nisso, e em todas as circunstncias aguarda que se cumpra a lei que aprendeu.
      Mas, ao verificar, tambm de modo indiscutvel, que a sua vontade est submetida a leis, no cr nem pode crer nesse fenmeno,
      Ainda que a experincia e o raciocnio mostrem ao homem que, estando nas mesmas condies e dotado do mesmo carcter, tara sempre o mesmo, ao encontrar-se pela milionsima vez perante o acto que vai realizar sente a indiscutvel segurana de que pode proceder de outra maneira, isto , a seu talante. Todo o homem, selvagem ou pensador, a quem se demonstre, mediante a lgica e os raciocnios, ser impossvel imaginar dois actos diferentes nas mesmas condies, sente que sem essa representao insensata - a essncia da liberdade - no pode conceber a vida. Sente que isso existe, por impossvel que parea, pois sem essa representao da liberdade no s no compreenderia a vida, como no poderia viver um instante que fosse.
      No poderia viver porque todas as aspiraes dos homens, todas as exigncias da vida, so apenas desejos de aumentar a liberdade.
      A riqueza e a pobreza, a glria e a obscuridade, o Poder e a submisso, a fora e a fraqueza, a sade e a doena, a cultura e a ignorncia, o trabalho e o cio, a saciedade e a fome e a virtude e o vcio mais no so que graus maiores ou menores da liberdade.
      Imaginar um homem privado de liberdade  imagin-lo privado de vida.
      Se o conceito de liberdade se apresenta  razo como uma contradio insensata, como a possibilidade de cometer dois actos e diferentes nas mesmas circunstncias, ou como um acto sem causa, isso prova somente que a conscincia no est submetida a razo. Sem esta conscincia de uma liberdade indestrutvel, irrefutvel, no submetida  experincia nem  razo, reconhecida e sentida por todos os homens sem excepo.  impossvel representar-se o ser humano, e isto constitui o outro aspecto do problema.
      O homem  uma criatura de Deus todo-poderoso, misericordioso e omnisciente. Que , pois, o pecado, cujo conceito deriva da conscincia da liberdade do homem? Eis um problema de teologia.
      Os actos dos homens esto submetidos a leis gerais e imutveis que se traduzem pela estatstica. Em que consiste, pois, a responsabilidade do homem ante a sociedade, cujo conceito deriva do reconhecimento da liberdade? Eis um problema de direito.
      Os actos dos homens so uma consequncia do seu carcter inato e das influncias que sobre ele actuam. Qual, pois, a noo do bem e do mal para actos que se dizem livres? Eis um problema de tica.
      O homem, fundido com a vida geral da humanidade, est submetido s leis que regem esta vida. Mas o mesmo homem diz-se independente do resto dos seus semelhantes e representa-se a si mesmo como livre. Como deve considerar-se o passado dos povos e da humanidade? Eis um problema de histria.
      Somente no nosso tempo, nestes tempos de vulgarizao da cincia, graas  arma mais poderosa que se conhece para combater a ignorncia, que  a imprensa, o problema do livre arbtrio se encontra num terreno em que nem sequer pode existir. Na nossa poca, a maioria dos homens considerados de ideias avanadas, quer dizer, uma turba de ignorantes, aceitou os trabalhos dos naturalistas que se ocupam apenas de um aspecto do problema como uma soluo do mesmo.
      No h alma nem liberdade, porque a vida de um homem se traduz no movimento dos msculos e os movimentos destes esto submetidos  actividade dos nervos. No h alma nem liberdade, porque num remoto perodo de tempo desconhecido descendemos do macaco. Eis o que dizem, escrevem, imprimem, sem suspeitar que h mil anos todas as religies e todos os pensadores no s reconheceram, como nem sequer se lembraram de repelir a mesma lei da necessidade, que com tanto zelo tratam de demonstrar, agora por meio da fisiologia e da zoologia comparadas. No se do conta de que nesse problema o papel das cincias naturais apenas serve de instrumento para esclarecer uma parte do problema, pois o facto de que, do ponto de vista da observao, a razo e a vontade no passam de secrees do crebro, e o homem, seguindo a lei geral, pode proceder de animais inferiores num remoto perodo de tempo desconhecido, no faz mais que explicar, por um lado novo, a verdade reconhecida h milhares de anos por todas as religies e todas as teorias filosficas, a saber: que do ponto de vista da razo o homem est submetido s leis da necessidade. Mas no do um passo mais alm na soluo do problema, que tem outra faceta: a do reconhecimento da liberdade.
      Que os homens descendam do macaco num remoto perodo desconhecido de tempo  to compreensvel como o facto de terem sido formados de um pedao de barro num perodo determinado (no primeiro caso x  o tempo; no segundo, o processo) e a pergunta acerca de como pode concordar a conscincia da liberdade do homem com a lei da necessidade, a que est sujeito, no pode resolver-se atravs da filosofia nem da zoologia comparadas, pois na r, no coelho e no macaco somente podemos observar a actividade muscular e nervosa, enquanto que no homem verificamos existir alm disso a conscincia dessas actividades.
      Os naturalistas e os seus mulos que esperam resolver esse problema fazem-nos lembrar estucadores a quem tivessem mandado estucar um dos lados da parede de uma igreja, os quais, aproveitando a ausncia do contramestre, num acesso de zelo, cobrissem de gesso as janelas, as imagens, as vigas e as paredes, tudo, regozijando-se por terem levado a cabo um trabalho irrepreensvel do ponto de vista do seu ofcio.
      

      
      
      
      Captulo IX
      
      A soluo do problema da liberdade e da necessidade na histria oferece esta vantagem sobre os outros ramos da cincia em que o mesmo problema  debatido: que, na histria, no diz respeito  essncia mesma da vontade humana, mas s manifestaes dessa vontade no passado e em condies determinadas.
      A histria, na resoluo deste problema, relativamente s outras cincias, encontra-se na situao de uma cincia experimental em face das cincias puramente especulativas.
      A histria no tem por objecto a prpria vontade do homem, mas a ideia que fazemos dela.
      Eis porque, no que diz respeito a histria, no nos encontramos - esse o caso da teologia, da moral ou da filosofia - na presena do mistrio insolvel dos dois contrrios, a liberdade e a necessidade, A histria estudou aspectos da vida humana em que a unio destes dois contrrios  j um facto consumado.
      Na vida real, cada acontecimento histrico, cada acto humano, compreendem-se com muita clareza e nitidez, sem que se lhes note qualquer espcie de contradio, embora todos os acontecimentos nos apaream em parte livres e em parte necessrios.
      Para resolver o problema da unio da liberdade com a necessidade, da essncia destas duas noes, a filosofia da histria pode e deve enfronhar-se numa via contrria  que tomam as outras cincias. Em vez de se esforar por definir em si mesmas as noes de liberdade e de necessidade e de submeter os fenmenos vitais s definies obtidas, a histria deve extrair da enorme massa dos fenmenos que se lhe apresentam, sempre na dependncia da liberdade e da necessidade, uma definio destas duas noes.
      Seja como for que examinemos os actos de um homem ou de vrios, no podemos conceb-los seno como o produto da liberdade, por um lado, e das leis da necessidade, pelo outro.
      Que se trate das migraes dos povos e das invases dos brbaros, da poltica de Napoleo III ou do acto de um homem realizado apenas h uma hora e que consistiu em escolher este ou aquele caminho, entre vrios, para um passeio, nunca nos encontramos diante da mnima contradio. A parte da liberdade ou da necessidade que dirigiu os seus actos est claramente definida para ns.
      Muito amide se verificam divergncias de opinio sobre a maior ou menor liberdade de determinado acto, consoante o ponto de vista de que se examine o fenmeno; mas sempre, em todos os casos, nos aparece o acto humano como uma certa mistura, de liberdade e necessidade.
      Em cada caso examinado vemos uma certa dose de liberdade e uma certa dose de necessidade. E quanto mais liberdade descobrimos num acto tanto menos necessidade e reciprocamente.
      A relao entre a liberdade e a necessidade diminui e aumenta consoante o ponto de vista em que nos colocamos, mas conserva-se sempre inversamente proporcional.
      O homem que se afoga e ao querer salvar-se se agarra a outro e o arrasta consigo, a me esfomeada que, extenuada de amamentar o filho, rouba para comer, aquele que, submetido a disciplina militar, mata um homem Indefeso, so menos culpados, isto , menos livres e mais sujeitos  lei da necessidade aos olhos daquele que sabe em que condies essas pessoas se encontravam, mais livres, pelo contrrio, aos olhos daquele que ignora que esse homem se estava a afogar, que aquela me tinha fome, que aquele soldado estava nas fileiras, etc. Da mesma maneira, o homem que cometeu um crime vinte anos atrs, e que depois viveu tranquilamente sem ser nocivo  sociedade, nos aparece menos culpvel vinte anos depois, por se encontrar sujeito s leis da necessidade; mas quem examine o seu acto no dia seguinte ao crime v nele uma manifestao do livre arbtrio. Qualquer acto de um louco, de um bbedo ou de um homem excitado  menos livre e mais sujeito s leis da necessidade aos olhos daquele que conhece o estado em que se encontrava o seu autor, mais livre e menos sujeito s leis da necessidade aos olhos do que ignora esse estado. Nestes vrios casos, a noo da liberdade aumenta ou diminui consoante aumenta ou diminui o conceito de necessidade, dependendo sempre do ponto de vista de que se ajuza o acto. Assim, pois, quanto maior nos parece a necessidade, menor se nos antolha a liberdade, e vice-versa.
      A religio, o bom senso, a cincia do direito e a prpria cincia histrica no interpretam de outra maneira as relaes entre a necessidade e a liberdade.
      Todos os casos, sem excepo, nos quais aumenta ou diminui a ideia que temos da liberdade e da necessidade, podem resumir-se em trs.  preciso examinar o autor de um acto em relao a: 1, o mundo exterior: 2, o tempo: 3, as causas que o determinaram.
      A primeira base de observao considera as relaes mais ou menos visveis do indivduo com o mundo exterior, a ideia mais ou menos clara que se pode ter do lugar definido que ele ocupa no meio em que vive, como consequncia deste exame  que o homem que se afoga  menos livre e mais sujeito s leis da necessidade que aquele que se encontra em terra firme e que os actos do homem que vive em estreitas relaes com os outros homens, numa localidade muito povoada, ou os de um homem tolhido pela famlia, pela funo que desempenha, pelos seus empreendimentos, so incontestavelmente menos livres e mais sujeitos  necessidade que os de um homem s e isolado.
      Se examinarmos um indivduo isolado sem o relacionarmos com o que o rodeia, todos os seus actos nos parecem livres. Mas se virmos a mnima relao entre esse homem e quanto o rodeia, as suas relaes com o homem que lhe fala, com o livro que l, com o trabalho que est fazendo, inclusivamente com o ar que respira ou com a luz que banha os objectos  sua roda, verifica-mos que cada uma dessas circunstncias exerce influncia sobre ele e guia, pelo menos, uma parte da sua actividade. E quantas mais influncias destas observamos mais diminui a ideia que fazemos da sua liberdade, aumentando a ideia que fazemos da necessidade a que est submetido.
      A segunda base consiste na relao temporal, mais ou menos visvel, de um homem com o mundo, o conceito mais ou menos claro do lugar que ocupam no tempo os actos do homem. Eis a base graas  qual a queda do primeiro homem, que teve por consequncia, a origem do gnero humano, se apresenta, evidentemente, menos livre que o casamento de um homem contemporneo: eis a base graas  qual a vida e a actividade dos homens que viveram h sculos e esto ligados a mim pelo tempo no podem parecer-me to livres como a vida contempornea, cujas consequncias ignoro ainda.
      Neste aspecto, a gradao da liberdade e da necessidade maiores ou menores depende do lapso de tempo maior ou menor desde a realizao do acto at  apreciao desse mesmo acto.
      Se examino um acto que pratiquei h um minuto em condies quase as mesmas em que me encontro actualmente, esse acto parece-me absolutamente livre. Mas se aprecio um acto realizado h um ms, ao encontrar-me em circunstncias diferentes, a meu pesar, se no tivesse realizado esse acto, no existiriam muitas coisas inteis, agradveis e necessrias que derivam dele. Se me traslado com a memria a um acto mais remoto, a um acto de h dez anos ou mesmo mais, ento as suas consequncias ainda se me apresentaro mais evidentes e ser-me- difcil representar-me seja o que for, caso aquele acto remoto nunca tivesse existido.
      Quanto mais retroceder na minha memria, ou, o que vem a dar na mesma, quanto mais projectar no futuro o meu juzo, tanto mais duvidosos me parecero os meus raciocnios acerca, da liberdade do acto realizado,
      A guerra austro-prussiana -nos apresentada como uma consequncia indiscutvel dos actos do astuto Bismarck, etc.
      As guerras napolenicas, ainda que no sem certas reservas, apresentam-se-nos ainda como resultado da vontade de heris. Mas nas cruzadas, em compensao, vemos um acontecimento que ocupa um lugar determinado e sem o qual no teria existido a histria moderna da Europa, embora, segundo o critrio dos historiadores contemporneos das cruzadas, aquele feito se apresentasse apenas como o resultado da vontade de vrias personagens. Quando se trata, por exemplo, da migrao dos povos, a nenhuma pessoa do nosso tempo ocorreria pensar que a renovao do mundo europeu dependera da vontade de tila. Quando mais para trs transportamos o objecto da observao, mais duvidosa rios parece a liberdade dos homens que produzem os acontecimentos e mais evidente a lei da necessidade.
      A terceira base  o maior ou menor acesso para ns a esse vnculo infinito de causas que exige a razo e em que cada fenmeno compreensvel, e por conseguinte cada acto de um homem, deve ter o seu lugar determinado, como a continuao dos actos precedentes e a causa dos actos seguintes.
       a base graas  qual os nossos actos e os dos nossos semelhantes nos aparecem tanto mais livres e menos sujeitos s leis da necessidade quanto mais conhecemos as leis fisiolgicas, psicolgicas e histricas do acto. Por outras palavras, quanto mais simples o acto observado tanto menos complicaes apresenta ao esprito do homem cujo acto merece a nossa ateno.
      Quando no conseguimos compreender a causa de uma aco realizada, como seja um crime, um facto virtuoso ou ainda um facto indiferente do ponto de vista do bem e do mal, atribumos aquela uma maior parte de liberdade. Se se tratava de um crime, exigimos o castigo: se se tratava de um acto virtuoso,  quando mais apreciamos a aco. No raso de uma aco indiferente reconhecemos uma maior originalidade e liberdade. Mas, se apenas conhecemos uma das numerosas causas, admitimos j uma certa parte de necessidade, somos menos exigentes relativamente  vingana do crime, reconhecemos um mrito menor no acto virtuoso e menos liberdade no que nos parecia original. O facto de um criminoso ter sido educado entre meliantes atenua a sua culpabilidade.  mais compreensvel o sacrifcio de um pai ou de uma me - sacrifcio com possibilidades de recompensa - que um sacrifcio sem causa.
      Assim, pois, o primeiro nos parece menos meritrio e menos livre.
      Admiramos menos o fundador de uma seita ou de um partido, ou um inventor, quando sabemos como e com qu a sua actividade foi levada a cabo. Se os actos examinados so simples e dispomos de grande soma de actos semelhantes para as nossas observaes, a ideia que teremos da sua necessidade ainda ser mais completa.
      O acto vergonhoso do filho de um pai desonrado, a m conduta de uma mulher cada em certo meio, o regresso  embriaguez de um bbedo, etc., eis actos que nos parecero tanto menos livres quanto melhor compreendemos a causa. Se o homem cuja conduta examinamos foi pouco desenvolvido no ponto de vista da inteligncia, se for uma criana, um louco, um tolo, desde que sabemos as causas dos seus actos e a inconscincia do seu carcter e do seu esprito, vemos nisso j uma to grande parte de necessidade e uma to pequena de liberdade que desde logo reconhecemos a causa que provocou a aco: teramos, inclusivamente, podido prev-la.
      Nestes trs elementos de apreciao se baseia a irresponsabilidade dos crimes reconhecida, em todas as legislaes, bem como a existncia das circunstncias atenuantes. A responsabilidade parece maior ou menor consoante o conhecimento das condies em que se encontra o homem cujo acto julgamos, segundo o maior ou menor lapso de tempo transcorrido desde a realizao do acto at ao momento de ser julgado e segundo a maior ou menor compreenso do mesmo,
      

      
      
      
      Captulo X
      
      Assim, pois, a ideia que fazemos da liberdade e da necessidade de um acto diminui ou aumenta gradualmente segundo so maiores ou menores a conexo com o mundo exterior, a perspectiva do tempo e a dependncia das causas do fenmeno da vida do homem que estudamos.
      De maneira que, se examinarmos uma situao em que o vnculo do homem com o mundo exterior  mais conhecido, maior o perodo do tempo desde a realizao do acto at ao momento de o ajuizarmos e as causas da referida aco mais evidentes, recebemos a representao de uma necessidade maior e de uma liberdade menor. Mas, se ajuizarmos o homem numa menor dependncia das condies exteriores, se um acto foi levado a cabo num momento muito prximo do tempo presente e se as causas que o motivaram no so incompreensveis, ento recebemos a representao de uma necessidade menor e de uma liberdade maior.
      Mas tanto num como no outro caso, por muito que alteremos o nosso ponto de vista, por mais esforos que faamos para explicarmos a relao em que se encontra o homem com o mundo exterior, por mais compreensvel que se nos afigure, por mais que tratemos de alargar ou encurtar o perodo de tempo, por mais que nos paream compreensveis ou incompreensveis as causas, nunca poderemos representar-nos a necessidade completa nem a liberdade absoluta.
      Primeiro, De qualquer modo que se nos represente o homem livre das influncias do mundo exterior, nunca atingiremos o conceito da liberdade no espao. Cada acto humano se encontra inevitavelmente submetido a certas condies em virtude do que o rodeia, inclusivamente sujeito ao seu prprio corpo. O meu acto parece-me livre, mas, ao perguntar a mim mesmo se me seria possvel levantar a mo em todas as direces, vejo que a levantei naquela em que havia menos obstculos para levar a cabo o acto realizado, obstculos que se encontram nos corpos que me rodeiam, assim como na constituio do meu prprio corpo. Se de todas as direces possveis escolho uma, fao-o por ser a que apresenta menos obstculos. Para que o meu acto seja livre  necessrio que no haja nenhum. Para representarmos a ns prprios um homem completamente livre temos de imagin-lo fora do espao, o que evidentemente  impossvel.
      Segundo. Por mais que nos aproximemos do momento que julgamos o tempo presente, nunca conseguiremos obter o conceito de liberdade no tempo, pois, se examinamos um acto cometido h um segundo, devemos no obstante reconhecer a no liberdade deste, uma vez que est encadeado ao momento que se cumpriu. Posso levantar a mo? Levanto-a; mas pergunto a mim prprio se podia no a ter levantado nesse momento que j passou. Para convencer-me disso, no momento que se segue no levanto a mo. Mas no a levantei precisamente no momento em que me perguntava a mim mesmo se tinha liberdade de aco?
      O tempo passou e no est na minha mo det-lo; a mo que levantei ento no  a mo que se move agora, assim como a atmosfera que me envolvia quando fiz esse movimento no  j a mesma. O momento em que se realizou o primeiro movimento  irrevogvel, e ento s pude fazer um movimento, qualquer que fosse, mas s um. O facto de no momento seguinte no ter levantado a mo no demonstra que a no podia levantar. Mas, como apenas pude fazer um movimento num momento determinado, no h dvida de que no podia ser outro. Para conceber livre o referido movimento precisamos de o representar no momento presente, no limite do tempo passado e do futuro, quer dizer, fora do tempo, o que  impossvel.
      Terceiro. Por maiores que sejam as dificuldades de compreenso da causa, nunca chegaremos a representar-nos a liberdade completa, quer dizer, a ausncia da causa. Por mais incompreensvel que nos parea a causa da manifestao da vontade de um acto qualquer, nosso ou do nosso semelhante, a primeira exigncia do esprito consiste na suposio e na busca, mas o facto de querer cometer um acto que carea de causa  a causa do meu acto.
      Mas supondo mesmo que imaginvamos um homem completamente livre de toda a influncia, apenas encarando um seu acto momentneo e partindo do princpio de que esse acto no era determinado por causa alguma, se admitirmos o resto infinitamente pequeno da necessidade igual a zero, nem sequer ento chegaramos ao conceito da liberdade completa do homem, pois o ser que no aceita as influncias do mundo exterior, que est fora do tempo, e no depende das causas, j no  homem sequer.
      Mesmo assim, nunca poderemos representar-nos os actos de um homem submetido apenas  lei da necessidade sem interveno da liberdade.
      Primeiro. Por maior que seja o nosso conhecimento das condies do espao em que o homem se encontra, esse conhecimento nunca poder ser completo, visto o nmero dessas condies ser infinitamente grande, tal qual como o espao, que  infinito. Assim, pois, desde que todas as condies, todas as influncias a que o homem est sujeito, no esto definidas, no se pode falar em necessidade absoluta, subsiste uma parte de liberdade.
      Segundo. Por mais que alarguemos o perodo do tempo da realizao do fenmeno ao momento em que o julgamos, esse perodo de tempo ser finito, enquanto que o tempo  infinito. Eis porque to-pouco nesse aspecto poder existir liberdade completa.
      Terceiro. Por mais compreensvel que seja a srie de causas de um acto qualquer, nunca a conheceremos toda, visto ser infinita e nunca podermos obter uma necessidade absoluta.
      Alm de tudo isto, se admitssemos, inclusivamente, que o resto da liberdade  igual a zero e reconhecssemos, num caso qualquer, como, por exemplo, no de um homem moribundo, de um embrio ou de um idiota, a ausncia completa de liberdade, aniquilaramos por esse facto a ideia mesma que examinamos, pois desde o momento em que no h liberdade no existe o homem. Assim, pois, a representao do acto de um homem submetido apenas  lei da necessidade, sem o mais pequeno vislumbre de liberdade,  to impossvel como a representao de um acto humano inteiramente livre.
      Por conseguinte, para se representar o acto de um homem sujeito unicamente  lei da necessidade, sem liberdade, tem de admitir-se o conhecimento de uma quantidade infinita de condies no espao durante um perodo infinitamente grande no tempo e uma srie infinita de causas.
      Para representarmos, pelo contrrio, um homem absolutamente livre, no sujeito  lei da necessidade, teramos de o figurar fora do espao, do tempo e, da dependncia de causas.
      No primeiro caso, seria, necessrio rejeitar a necessidade sem a liberdade, pois chegaramos a formular as leis da necessidade, quer dizer, obteramos um continente sem contedo.
      No segundo caso, se a liberdade fosse possvel sem a necessitaramos uma liberdade incondicionada fora do espao, do tempo e das causas, que, pelo prprio facto de ser incondicionada e no limitada por coisa alguma, nada seria em si mesma seria mais que um contedo sem continente.
      Chegaramos, assim, a estes dois princpios de que se compe toda a filosofia do homem: afloraramos a essncia inacessvel da vida e das leis que a definissem.
      A razo proclama: l, o espao, com todas as formas que lhe do o aspecto que ele assume, a matria,  infinito, e no pode ser concebido de outra maneira: 2, o tempo  um movimento infinito que nunca se detm e no pode ser concebido de outra maneira: 3, o encadeamento das causas e dos efeitos no tem princpio e no pode ter fim.
      A conscincia diz: 1, s eu existo e nada mais pode existir seno eu, por conseguinte, eu contenho o espao; 2, eu meo o tempo que corre mediante o momento imvel do presente, nico em que me reconheo vivo, por conseguinte, estou fora do tempo; 3, estou fora das causas, pois sinto-me a mim prpria a causa de todas as manifestaes da vida.
      A razo formula as leis da necessidade, a conscincia exprime a essncia, da liberdade.
      A liberdade, que nada limita,  a essncia da vida na conscincia do homem. A necessidade sem contedo  a razo do homem com as suas trs formas.
      A liberdade  o objecto do exame. A necessidade, a que examina. A liberdade, o contedo, a necessidade, o continente. 
      Separando estas duas fontes do conhecimento, uma para outra na relao do continente para o contedo, chega-se a noes que se excluem mutuamente, e que so incompreensveis, acerca da liberdade e da necessidade.
      S pela sua, unio se pode chegar a ter uma ideia clara do homem.
      Fora destas duas noes, as quais, na sua opinio, so relaes do continente para o contedo, no h possibilidade de compreender-se a vida.
      Tudo que dela sabemos se resume numa relao entre a liberdade e a necessidade, isto , entre a conscincia e as leis da razo.
      Tudo quanto sabemos do mundo da natureza se limita a uma certa relao entre as foras da natureza e a necessidade ou entre a essncia da vida e as leis da razo.
      As foras vitais da natureza esto colocadas fora de ns e no so apreensveis pela nossa conscincia; chamamos-lhes atraco universal, inrcia, electricidade, fora vital, etc., mas a fora vital do homem  apreendida pela nossa conscincia e chamamos-lhe liberdade.
      Mas da mesma maneira que esta fora da atraco universal que todo o homem verifica  inacessvel na sua essncia e no pode ser compreendida seno na medida em que conheamos as leis da necessidade  qual ela est sujeita, desde o conhecimento primitivo de que todos os corpos so pesados at  lei de Newton, tambm  inacessvel em si mesma esta fora da liberdade de que todo o homem tem conscincia e no nos  inteligvel seno na medida em que conheamos as leis da necessidade s quais ela se encontra sujeita, principiando pelo facto de que todo o homem  mortal, at ao conhecimento das leis mais complicadas da economia e da histria.
      Cada um dos nossos conhecimentos no  mais que a adaptao da essncia da vida s leis da razo.
      A liberdade do homem distingue-se de qualquer outra fora, porque  reconhecida pela nossa conscincia, mas aos olhos da razo em nada se distingue das outras. As foras da atraco, da electricidade ou da afinidade qumica apenas se distinguem umas das outras pelo facto de serem definidas separadamente pela razo.
      Assim, a fora da liberdade humana, aos olhos da razo, no se distingue das outras foras da natureza seno pela definio que dela d esta mesma razo. Quanto  liberdade sem a necessidade, isto , sem as leis da razo que traam os seus limites, em nada se distingue da fora da atraco ou do calor ou da fora germinativa, para a razo no passa de uma manifestao sensvel, momentnea e indeterminada da vida.
      E da mesma maneira que o estudo da essncia indeterminada da energia que move os corpos celestes, do calor, da electricidade, da afinidade qumica ou da fora vital constituem a astronomia, a fsica, a qumica, a botnica, a zoologia, etc., tambm a essncia da fora que  a liberdade forma o objecto da histria. Mas da mesma maneira que as manifestaes dessa essncia desconhecida da vida constituem o objecto de cada cincia, quando a sua essncia em si  da esfera da metafsica, tambm as manifestaes da liberdade no espao, no tempo e na sua dependncia das causas so o objecto da histria, embora a liberdade em si mesma releve a metafsica.
      Nas cincias experimentais, ao que nelas nos  conhecido chamamos leis de necessidade; ao que nelas nos  desconhecido, fora vital. A fora vital  o resduo desconhecido do que sabemos da essncia da vida.
      Seja como for, na histria, ao que nos  conhecido chamamos as leis da necessidade, ao que nos  desconhecido, liberdade. A liberdade, para o historiador, mais no  que esse resduo desconhecido do que chamamos as leis da vida.
      

      
      
      
      Captulo XI
      
      A histria estuda as manifestaes da liberdade humana nas suas ligaes com o mundo exterior, no tempo e na sua dependncia das causas, isto , delimita esta liberdade com as leis da razo. Eis por que a histria s pode ser uma cincia na medida cm que esta liberdade for delimitada por essas leis.
      Em histria, reconhecer a liberdade humana como uma fora capaz de influir tios acontecimentos histricos, isto , no sujeitos s leis,  como admitir em astronomia o livre movimento dos corpos celestes.
      Aceitar semelhante liberdade  suprimir a possibilidade de leis, quer dizer, a possibilidade da prpria cincia. Basta que haja um acto humano livre para no existirem nem leis histricas nem qualquer possibilidade de nos darmos conta dos factos histricos.
      Na histria, as vontades humanas parecem mover-se segundo uma linha com uma das extremidades no infinito e a outra no espao, no tempo e na dependncia das causas, a conscincia que se tem da liberdade humana no instante presente.
      Quanto mais se afasta, aos nossos olhos, o campo deste movimento tanto mais visveis se tornam as leis que o dirigem, Apreender e definir estas leis, eis a misso da histria.
      Se nos quedarmos no ponto de vista em que a cincia actualmente se coloca, se continuarmos a seguir o caminho por onde ela se insinua e buscarmos as causas dos fenmenos no livre arbtrio humano, torna-se impossvel formular-se leis, pois, por mais que se limite a liberdade humana, desde o momento em que a reconhecemos como uma fora no sujeita as leis, toda a existncia de leis se torna impossvel.
      S limitando esta liberdade at ao infinito, isto , considerando-a como uma grandeza infinitesimal, nos convenceremos da impossibilidade absoluta de atingir as causas, e  ento que, em vez da procura das causas, a histria considerar misso sua a procura das leis.
      A procura destas leis de h muito foi iniciada e os novos processos de pensamento de que a histria deve apoderar-se elaboram-se ao mesmo tempo que a antiga histria se destri a si mesma, separando cada vez mais as causas dos fenmenos.
       o caminho de todas as cincias humanas. Ao chegar ao infinitamente pequeno, a matemtica, a mais exacta das cincias, abandona o mtodo da separao e aceita o novo processo de totalizao dos desconhecidos infinitamente pequenos.
      Sob outra forma, mas por este mesmo caminho, seguem as outras cincias. Quando Newton formulou a lei da, gravitao, no disse que o Sol ou a Terra tinham a propriedade de se atrarem mutuamente, disse que todos os corpos, do maior ao mais pequeno, se comportavam como se se atrassem uns aos outros, isto , deixando de lado o problema da causa do movimento dos corpos, enunciou uma propriedade comum a todos, do infinitamente grande ao infinitamente pequeno. As cincias naturais procedem da mesma maneira: abandonam a procura das causas para pesquisarem as leis. Tambm a histria segue esse caminho. E se o objecto da histria  o estudo dos movimentos dos povos, e no a descrio de alguns episdios da vida dos homens, ei-la que deve, afastando a noo das causas, procurar as leis comuns a todos os elementos infinitamente pequenos da liberdade, iguais, indissoluvelmente vinculados entre si e infinitamente pequenos.
      

      
      
      
      Captulo XII
      
      Desde que foi descoberta e provada a lei de Coprnico, basta o facto de, se reconhecer que no  o Sol, mas a Terra, que se move para toda a cosmografia dos antigos ficar aniquilada. Rebatendo este sistema, podia regressar-se  antiga opinio sobre o movimento dos corpos, mas sem isso no era possvel, ao que parece, continuar o estudo do mundo de Ptolomeu. No entanto, mesmo depois da descoberta do sistema de Coprnico, o mundo de Ptolomeu continuou a ser por muito tempo objecto de estudo.
      Desde que se provou que a percentagem de nascimentos e de crimes est sujeita a leis matemticas e que certas condies geogrficas, polticas ou econmicas definem tal ou qual forma de governo e certas relaes entre a populao e a Terra so as causas dos movimentos dos povos, as bases sobre que se edificava a histria caram por terra.
      Repelindo as leis novas, era possvel conservar a antiga opinio acerca da histria, mas, no o fazendo, parecia impossvel continuar o estudo dos acontecimentos histricos admitindo serem estes produzidos pelo livre arbtrio dos homens, pois, se, graas a certas condies geogrficas, etnogrficas ou econmicas, se forma qualquer constituio ou se produz qualquer movimento de um povo, no poderia examinar-se como causa a vontade daqueles homens a quem ns imaginamos estabelecendo uma constituio ou incitando o movimento de um povo.
      No entanto, a histria antiga continua a ser estudada com as leis da estatstica, da geografia, da economia poltica, da filologia comparada e da geologia, as quais contradizem rotundamente o citado princpio.
      Durante muito tempo houve na filosofia fsica uma luta pertinaz entre as correntes antigas e as modernas. A teologia defendia o ponto de vista antigo e acusava o novo de atacar a revelao. Mas, quando a verdade venceu, a teologia estabeleceu-se no novo terreno com a mesma firmeza de antes.
      Existe igualmente uma luta tenaz nos tempos actuais entre a velha e a nova opinio no domnio da histria, e a teologia defende igualmente a velha corrente e acusa a nova de destruir a revelao.
      Tanto num como no outro caso e tanto de uma parte como da outra, a luta provoca paixes e asfixia a verdade. Por um lado, surge o medo e a compaixo pelo edifcio erecto atravs dos sculos; pelo outro, a paixo de destruir.
      Os homens que lutavam contra a verdade nascente da filosofia fsica julgavam que, ao reconhecer a sobredita verdade, a f em Deus e na criao do mundo cairia por terra. Os defensores das leis de Coprnico e de Newton, como Voltaire, por exemplo, julgavam que as leis da astronomia destronavam a religio e empregavam como arma, contra ela, as leis da atraco.
      Da mesma maneira dir-se-ia que no nosso tempo bastaria reconhecer a lei da necessidade para se aniquilar o conceito da alma, do bem e do mal, bem como todas as instituies governamentais e eclesisticas assentes nesse conceito.
      Como Voltaire, no seu tempo, os defensores no reconhecidos da lei da necessidade empregam hoje a referida lei como uma arma contra a religio. Mas, como as leis de Coprnico na astronomia, a lei da necessidade na histria no s no se destri como se afirma cada vez mais no terreno no qual esto assentes a instituies do Estado e da Igreja.
      Como antigamente, em relao ao problema da astronomia, agora, em relao  histria, todas as opinies distintas assentam em reconhecerem ou no a unidade absoluta que serve de medida para os fenmenos visveis. Na astronomia essa medida era a imobilidade da Terra; na histria, a independncia do indivduo, a liberdade.
      Assim, como, para a astronomia, a dificuldade do reconhecimento do movimento da Terra provinha do facto de haver que renunciar  sensao espontnea da imobilidade da Terra e dos planetas, para a histria, a dificuldade do reconhecimento da submisso do indivduo s leis do espao, do tempo e das causas consiste em renunciar  sensao espontnea da dependncia da individualidade. Mas, da mesma maneira que, na astronomia, a nova opinio sustentava:  verdade que no sentimos o movimento da Terra, mas, admitindo a sua imobilidade, depara-se-nos o absurdo: pelo contrrio, se reconhecemos que se move, embora no a sentindo mover,  a lei que encontramos, na histria, a corrente nova diz:  verdade que no sentimos a nossa dependncia: mas, ao admitirmos a nossa liberdade, encontramos o absurdo: pelo contrrio, reconhecendo a nossa dependncia do mundo exterior, do tempo e das causas,  a lei que encontramos.
      No primeiro caso era preciso renunciar  conscincia da imobilidade no espao e reconhecer um movimento que no se sen- tia: no segundo, tambm  necessrio renunciar  liberdade, que no existe, e reconhecer a dependncia, que no sentimos.
      
      FIM
      
      

      
      
      
     Apndice
      
     Algumas palavras de Leon Tolstoi 
     sobre Guerra e Paz
      
      O momento em que entra no prelo a obra em que trabalhei durante cinco anos de maneira ininterrupta e exclusiva, nas mais favorveis condies, desejaria,  guisa de prefcio ao livro, expor aqui o que penso dela e antecipar-me, portanto, aos mal-entendidos que porventura vierem a surgir no esprito do leitor. No queria que o leitor visse e encontrasse nesta obra o que eu no quis ou no soube l introduzir e gostaria que ele se mostrasse atento, precisamente, ao que eu l quis meter, embora, nas condies em que me encontrava, no viesse a propsito insistir. Nem as circunstncias nem o meu saber me permitiriam realizar plenamente o que era minha inteno e aproveito a hospitalidade que me oferece uma revista da especialidade para expor em resumo e em poucas palavras, dirigindo-me queles a quem o assunto possa interessar, a opinio do autor sobre a sua prpria obra.
      Em primeiro lugar, que vem a ser Guerra e Paz? No  um romance, um poema muito menos, e no  sequer uma crnica histrica. Guerra e Paz  o que o autor quis e pde exprimir pela forma como o exprimiu. Semelhante declarao de indiferena relativamente s formas convencionais da produo artstica em prosa talvez pudesse parecer presunosa se fosse intencional e se no houvesse j exemplos, anteriores. A histria da literatura russa, de Puchkine para c, no s nos proporciona muitos exemplos de idntico afastamento das formas recebidas da Europa, como nos no d mesmo qualquer exemplo contrrio. A principiar nas Almas Mortas, de Gogol, e a acabar na Recordao da Casa dos Mortos, de Dostoievski, no existe na nossa literatura qualquer obra em prosa, que se eleve um pouco acima do normal, que se haja submetido inteiramente  forma do romance, do poema ou da novela.
      Em segundo lugar, o carcter da poca, como mo fizeram ver numerosos leitores na altura do aparecimento da primeira parte desta obra, parece insuficientemente definido. Eis o que tenho a dizer quanto a esta observao. Sei muitssimo bem qual  esse carcter do tempo que se no encontra no meu romance: os horrores da servido, o encarceramento das mulheres, a flagelao dos filhos adultos, a Saltitchika, etc., mas o certo  que, embora essas circunstncias sejam de todos conhecidas, no creio que sejam exactas e no quis reproduzi-las. O estudo da correspondncia, das memrias, das tradies da poca, no me, revelou exemplos de horror e violncias piores que os que vemos actualmente e que sempre vimos. Nesse tempo, tal como hoje, amava-se, desejava-se, procurava-se a verdade, a virtude, era-se arrastado por paixes; a vida intelectual e moral era to complicada como hoje, por vezes, mesmo, at mais requintada nas altas esferas. Se essa poca ficou na memria das pessoas pelo seu carcter arbitrrio e grosseiro, foi apenas porque as tradies, as memrias, os romances e as novelas nos transmitiram os seus casos mais tpicos em matria de violncia e de brutalidade.
      Concluirmos, pois, que o carcter dominante desses tempos era a grosseria  to injusto como depreendermos que em tal ou qual localidade apenas existem rvores pelo simples facto de s rvores se verem da eminncia donde as olhamos. Esta poca tem, evidentemente, um carcter prprio, como acontece a todas as pocas, carcter que lhe vem do afastamento em que viviam as altas esferas das outras classes sociais, da filosofia re1iantc, das particularidades da educao, do uso da lngua francesa e de outras coisas equivalentes. Eis o carcter que procurei conservar o melhor que pude.
      Em terceiro lugar, referir-me-ei ao emprego da lngua francesa numa obra russa. Porque fiz eu falar no s os russos, mas os franceses tambm, ora russo ou francs? Esta censura, a de fazer falar francs personagens e escrever em francs num livro russo, assemelha-se  que algum fizesse ao ver num quadro manchas pretas, sombras, que no existissem na realidade. O pintor no tem culpa de que a sombra representada no seu quadro se afigure a alguns observadores como uma mancha negra que no existe na realidade: s lhe poderemos assacar responsabilidades se as suas sombras estiverem mal colocadas ou demasiado carregadas. Pintando a poca dos princpios do sculo  representando personagens russas de certa sociedade e Napoleo e franceses que tomaram parte to directa na vida de ento, deixei-me arrastar mais do que seria preciso a imprimir forma e boleio francs  minha linguagem e ao meu pensamento. Eis porque sem negar que as sombras que - apliquei no meu quadro possam ser inexactas e pouco fluidas, apenas desejaria que aqueles que acham ridculo Napoleo falar ora francs ora russo se dessem conta de que isso no acontece seno porque, como sucede  pessoa que olha para um retrato, no vem o rosto com a sua luz e as suas sombras, mas apenas a mancha negra em cima do nariz.
      Em quarto lugar, os nomes dos meus actores, Bolkonski, Drubetskoi, Bilibine, Kuragume, lembram nomes russos conhecidos. Ao colocar, ao lado de personagens histricas, outras que nada tm de histrico, no me soava bem ao ouvido fazer falar o conde Postoptchine com um prncipe Pronski, Strielski ou com qualquer outro prncipe ou com qualquer outro conde cujos nomes inventasse. Os nomes de Bolkonski ou Drubetskoi, conquanto no sejam nem Volkonski nem Trubestjoi, soam como nomes conhecidos e naturais no meio aristocrtico. No me era possvel inventar sempre para as minhas personagens nomes que, como os de Bezukov ou de Rostov, ressoassem de molde a no destoar, e consegui iludir a dificuldade recorrendo, ao acaso, a nomes de famlias conhecidas, aos quais apenas mudei algumas letras. Ser-me-ia muito desagradvel que a semelhana destes nomes fictcios com nomes reais pudesse fazer acreditar ter eu querido representar algum realmente existente, tanto mais quanto  certo que o gnero literrio que em geral se ocupa de personagens ainda vivas ou tendo existido nada tem de comum com aquele que cultivo.
      Maria Dmitrievna Akrosimova e Denissov so as nicas personagens a quem eu, involuntariamente, e por descuido, atribui nomes muito prximos de duas pessoas reais particularmente caractersticas e estimadas na sociedade do tempo. A minha nica desculpa est s no relevo particular que estas duas personagens assumem na, obra e a culpa que me cabe a tal respeito limita-se apenas  sua apresentao, estando eu certo de que o leitor concordar que nada lhes acontece que no se parea com a realidade. Todas as demais so inteiramente inventadas e no tm para mim prottipos, quer no passado quer no presente.
      Em quinto lugar, aludirei ao desacordo que se verifica entre as minhas descries dos factos histricos e as narrativas dos historiadores. O historiador e o artista, na descrio de uma poca, tm objectivos totalmente diferentes. Assim como no faria sentido que o historiador apresentasse uma personagem histrica no seu conjunto com toda a complicao dos pormenores da sua existncia, tambm falsearia o seu objectivo se representasse o seu heri sempre numa atitude histrica, Kutuzov no estava sempre montado num cavalo branco com um culo na mo ,i examinar o inimigo. Rostoptchine no tinha sempre um archote na mo para deitar fogo  sua casa de Voronovo, coisa que alis nunca chegou a fazer; a imperatriz Maria Feodorovna no estava sempre de p, com um manto de arminho, a mo apoiada no cdigo. A imaginao popular  que representa assim as figuras histricas.
      Para o historiador, desde que se trate da colaborao desta ou daquela personalidade numa grande obra, existem heris; para o artista, no ponto de vista das reaces perante os mil incidentes da existncia, no pode nem deve haver heris, mas homens apenas. O historiador  por vezes obrigado a forar a verdade para fazer com que concordem todos os actos de uma personagem histrica com a ideia que ele faz dela. O artista, pelo contrrio, considera esta ideia preconcebida incompatvel com o seu desgnio e trata apenas de compreender e de nos mostrar, no o autor deste ou daquele acto, mas um homem.
      Na descrio dos prprios acontecimentos, a diferena ainda  mais pronunciada e essencial.
      O historiador apenas se ocupa do resultado adquirido, o artista ocupa-se do facto em si mesmo. O historiador, quando descreve uma batalha, diz: O flanco esquerdo de tal exrcito, transferido para tal localidade, derrotou o inimigo, mas foi obrigado a retroceder; ento a cavalaria, que se lanou ao ataque, derrotou o inimigo, etc. No se pode exprimir de outra maneira. Mas, para o artista, estas palavras no tm o mais pequeno sentido e nada tm que ver mesmo com o prprio assunto. O artista, guiado pela sua prpria experincia ou instrudo pela leitura de correspondncias, memrias ou narrativas, faz uma ideia do acontecimento que teve lugar e muitas vezes, como, por exemplo, no caso de uma batalha, a deduo que o historiador se permite extrair da interveno destas ou daquelas tropas  absolutamente oposta  do artista. A divergncia dos resultados explica-se pelas fontes em que um e outro colheram os seus elementos. Para o historiador, prosseguindo com o exemplo da batalha, a fonte principal est nos relatos dos diversos comandantes e do general-chefe. O artista, esse, nada pode colher de tais relatos; nada lhe dizem, nada lhe explicam. Pelo contrrio, evita-os, pois acha-os foradamente mentirosos. No  preciso dizer-se que em matria de batalhas cada um dos adversrios pinta os acontecimentos de maneira inteiramente oposta; em todas as descries de batalhas h necessariamente mentiras, consequncia da obrigao de se descrever em poucas palavras os actos de milhares de indivduos espalhados por reas de muitas verstas, dominados por uma grande excitao moral, resultado do medo, da vergonha e da morte.
      Nas descries de batalhas dizem-nos, geralmente, que determinadas tropas foram lanadas na refrega em tal ponto, que depois receberam ordem de recuar, etc., como se a disciplina que submete dezenas de milhares de homens  vontade de um s no papel pudesse ter o mesmo efeito quando se joga a vida e se est diante da morte. Todo o homem que algum dia fez a guerra sabe a que ponto isto  inexacto (Quando apareceu a primeira parte da minha obra e a minha descrio da batalha de Schoengraben, vieram contar-me o que disseram Nicolau Nikolaievitch Muraviov-Karski dessa descrio e as suas palavras fortaleceram a minha convico. N. N. Muraviov, comandante-chefe, declarou que nunca lera uma descrio mais fiei da batalha e que a sua experincia pessoal o convencera de que no  possvel, no decurso de um combate, executar as ordens do general-chefe.). No entanto  sobre suposies deste gnero que se baseiam os relatos, e por conseguinte as descries militares. Visitai o campo de batalha depois do combate, um ou dois dias mesmo mais tarde, antes de redigidos os relatos, e interrogai os soldados, os chefes, grandes e pequenos, acerca da forma como as coisas se passaram. Esses homens dir-vos-o o que sentiram e viram e de todos esses relatos ficar-vos- uma imagem penosa e confusa, embora grandiosa, complicada e variada at mais no poder; e ningum, nem mesmo o general-chefe, esse ainda menos do que os outros, vos poder dizer como as coisas se passaram realmente. Dois ou trs dias mais tarde, no entanto, principiaram a chegar os relatos; os tagarelas pem-se a contar como decorreram as coisas que eles no viram: enfim, fixa-se um relato geral de acordo com o qual se forma a opinio do exrcito. Todos se sentem contentes por poderem confrontar as suas dvidas e as suas incertezas com esse quadro cheio de mentiras, embora claro e lisonjeiro. Decorrido seja um ms ou dois, interrogar algum que tenha tomado parte na operao; no seu relato j no existe aquela impresso fresca e directa da vida que anteriormente nos impressionara. Agora j fala de acordo com um texto escrito. Foram desse gnero os relatos que me fizeram de Borodino muitos dos que nessa batalha tomaram parte, pessoas inteligentes e de esprito amplo. Todos me diziam as mesmas coisas, ora de acordo com a descrio inexacta de Mikailovski-Danilevski, ora de acordo com a de Glinka e de outros. At mesmo os pormenores que me proporcionavam, embora os narradores tivessem estado a muitas verstas de distncia uns dos outros, eram idnticos.
      Depois da tomada de Sebastopol, o comandante da artilharia, Krijanovki, comunicou-me os relatos dos oficiais do seu corpo de exrcito dos diferentes basties e pediu-me que reunisse num s todos estes relatos, mais de vinte. Tenho pena de os no ter copiado. Era um espcime tpico da mentira ingnua e obrigatria inerente a todo o relato militar. Suponho que muitos dos meus camaradas autores desses relatos ao lerem estas consideraes lero vontade de rir, lembrando-se como, por ordem dos seus comandantes, escreveram o que no tinham podido saber.
      Todos os que estiveram na guerra sabem quanto os Russos so capazes de cumprir bem o seu dever e quanto, pelo contrrio, so capazes de descrever o que viram com as lisonjas mentirosas habituais em semelhantes casos. Toda a gente sabe que nos exrcitos russos so em geral estrangeiros que recebem a misso de relatar tais acontecimentos.
      Tudo isto me ocorre para mostrar que a mentira  obrigatria nas descries militares que serviram de documentos aos historiadores e ajudar a fazer compreender por isso mesmo que o artista se encontra, inevitavelmente, muitas vezes em desacordo com o historiador na maneira de compreender os acontecimentos. Mas, alm desta inexactido, por assim dizer forada, dos historiadores da poca que me interessa, verifiquei neles uma maneira de falar particularmente resumida, naturalmente por virtude do agrupamento dos factos, pondo-os d acordo com o carcter trgico dos acontecimentos, dando-lhes um tom de relato particular, enftico, em que a mentira e a alterao da verdade prevalecem no s sobre os mesmos factos, mas tambm sobre o seu significado. Por vezes, ao ler as duas principais obras histricas sobre esta poca, a de Thiers e a de Mikailovski-Danilevski, me perguntei a mim mesmo como era possvel publicarem-se semelhantes livros e terem leitores. Sem falar na exposio feita em tom srio e compenetrado dos mesmos acontecimentos documentados com referncias de maneira diametralmente oposta num e noutro, encontrei nos dois relatos descries tais que me deixaram perplexo, sem saber se devia rir ou chorar, sobretudo depois de mo inteirar de que tais obras constituem os nicos monumentos histricos que se referem a esta poca e contam milhes de leitores. Apenas citarei um exemplo colhido no ilustre historiador Thiers. Depois de ter referido que Napoleo levou consigo notas falsas, acrescenta:
      Ressalvando o emprego destes meios por um acto de benemerncia digno dele e do exrcito francs, mandou distribuir socorros s vtimas dos incndios. Mas como os vveres eram demasiado preciosos para serem repartidos por muito tempo a estrangeiros, a maior parte dos quais inimigos. Napoleo preferiu dar-lhes dinheiro, e mandou-lhes distribuir rublos-papel.
      Lido ao acaso, este passo choca pelo seu estouvamento - para no dizer a sua imoralidade -, j que resulta simplesmente absurdo. No entanto, no contexto do livro, no seu devido lugar, j no choca, pois corresponde inteiramente ao tom geral do relato, que  enftico, solene e desprovido de sentido preciso.
      Eis, pois, como as tarefas do historiador e do artista so inteiramente diferentes e como o meu desacordo com os historiadores na descrio dos acontecimentos e no retrato das personagens a ningum deve surpreender. Mas o artista no deve perder de vista que a ideia que o povo tem das personagens e dos acontecimentos no provm da fantasia, mas, sim, da forma como os documentos foram agrupados pelos histor1adores. E eis aqui porque, apesar de compreender de maneira diferente estas personagens e estes acontecimentos, o artista, tal qual como o historiador, deve guiar-se pelos documentos histricos. Em todas as pginas do meu romance em que falam e actuam personagens histricas nada inventei, mas servi-me de materiais que encontrei e que constituram, no decorrer do meti trabalho, toda uma biblioteca. Se me no parece oportuno agora citar aqui os ttulos das obras consultadas, estou pronto a faz-lo quando foi, necessrio.
      E, finalmente, a minha sexta argumentao, e a mais importante, diz respeito ao valor mnimo que tomam os pseudo-grandes homens nos acontecimentos histricos,
      Graas ao estudo de uma poca to trgica, to rica em acontecimentos considerveis e to prxima de ns, cujas tradies, as mais diversas, ainda se mantm to vivas, cheguei a absoluta convico de que a nossa inteligncia no pode apreender causas dos acontecimentos que se produzem. Dizer-se,, o que parece muito simples para todos, que as causas dos acontecimentos de 1812 foram o esprito de conquista, de Napoleo e a firmeza, patritica de Alexandre Pavlovitch  to absurdo como afirmar que as causas da queda do Imprio Romano devem procurar-se no facto de um certo brbaro ter encaminhado os seus povos para o Ocidente quando um imperador romano governava mal os seus estados, ou como sugerir que uma grande montanha que foi minada acabou por ruir merc de golpe de picareta do ltimo trabalhador que a escavou.
      Um acontecimento de tal magnitude, em que milhes de indivduos se mataram uns aos outros, em que caiu mais de meio milho de homens, no pode ter sido causado pela vontade de uma pessoa. Da mesma maneira que um s trabalhador no pode ter escavado toda uma montanha, tambm um s homem no pode ter conduzido  morte quinhentos mil homens. Mas ento onde procurar as causas? Certos historiadores do como causa desse acontecimento o esprito de conquista dos Franceses, o patriotismo da Rssia. Outros falam das ideias democrticas que os exrcitos de Napoleo difundiram e da necessidade que tinha a Rssia de entrar em relaes com a Europa, etc.... Mas como se mataram uns aos outros milhes de homens? Quem lhes deu essa ordem? Parece evidente para todos que nenhum deles podia estar melhor e que todos estavam ameaados de se encontrarem depois muito pior. Porque terem, ento, praticado esse acto? Podem fazer-se e fazem-se inmeras dedues retrospectivas sobre as causas desse absurdo acontecimento, mas todas essas explicaes, to numerosas, todas tendentes ao mesmo fim, apenas provam que essas causas so muitas mas que nenhuma delas pode ser a causa.
      Porque se mataram uns aos outros estes milhes de homens quando  certo que desde que o mundo  mundo se sabe, que, quer do ponto de vista fsico quer do moral, isso constitui uma m aco?
      Porque isso era inevitvel  que, agindo desta sorte, obedeciam a uma lei zoolgica elementar, como as abelhas cujos zngos, no Outono, se exterminam uns aos outros. No pode dar-se outra resposta a esta terrvel pergunta.
      Eis aqui uma verdade no s evidente mas de tal modo inata em todos os homens que no careceria de demonstrao se por outro lado no tivssemos a conscincia de ser livres sempre que realizamos qualquer acto, seja ele qual for.
      Considerando a histria de um ponto de vista universal, estamos incontestvel mente persuadidos da existncia de uma lei eterna que preside aos acontecimentos. Mas ao consider-la de um ponto de vista pessoal, convencemo-nos do contrrio.
      O homem que mata o seu semelhante; Napoleo, mandando transpor o Nimen; eu ou vs, apresentando um requerimento para obter determinado lugar, levantando ou baixando a mo, todos estamos absolutamente convencidos de que os nossos actos se fundamentam em razes e dependem do nosso livre arbtrio e que s de ns depende agir desta ou daquela maneira. E esta convico de tal modo  natural em ns e to cara nos  que, apesar das dedues da histria e da estatstica criminal, que nos provam a ausncia de liberdade nos actos dos outros, generalizamos a todos os actos a nossa conscincia de sermos livres.
      A contradio parece irredutvel. Quando ajo estou persuadido de que sigo o meu livre arbtrio, mas quando encaro o meu acto no quadro geral da vida da humanidade, no seu sentido histrico, fico convencido de que era predestinado e inevitvel. Onde est, ento, o erro?
      As observaes psicolgicas sobre a tendncia do homem para introduzir fraudulentamente e de maneira instantnea em cada facto realizado toda uma srie de raciocnios pressupostamente livres, o que noutra parte explicarei mais pormenorizadamente, confirmam a afirmao de que a conscincia que ele tem de ser livre ao cumprir uma certa espcie de actos  errnea. Mas as mesmas observaes provam que existe uma outra srie de actos em que a conscincia de se ver livre no  retrospectiva, mas instantnea e indiscutvel. Eu posso, indiscutivelmente, digam o que disserem os materialistas, praticar um acto ou abster-me de o praticar desde o momento em que o acto no me diz respeito s a mim. Acabo neste momento, indiscutivelmente, graas  minha exclusiva vontade, de levantar ou de baixar a mo. Posso neste momento deixar de escrever. Indubitavelmente, sem qualquer obstculo e graas unicamente  minha vontade, transporto-me, em pensamento, neste instante  Amrica ou formulo no meu esprito um problema qualquer de matemtica. Para experimentar a minha liberdade, posso erguer e baixar com fora a minha mo. Fao esse gesto. Mas junto de mim est uma criana, ergo para ela a mo e com fora equivalente quero baix-la sobre a criana. Mas no o posso fazer. Um co lana-se sobre essa criana, no posso no erguer a mo para o co. Sou um soldado que est nas fileiras e no posso deixar de acompanhar os movimentos do regimento. No posso, durante uma batalha, deixar de partir para o ataque com os meus camaradas e no fugir quando todos fogem  volta de mim. No posso, sendo testemunha de defesa de um acusado, abster-me de falar ou no saber antecipadamente o que vou dizer. No posso deixar de piscar os olhos quando vejo iminente sobre mim qualquer pancada.
      Assim, h actos de duas espcies, uns dependentes, outros que no dependem da minha vontade. E o erro que determina esta oposio provm apenas de que a conscincia que eu tenho de ser livre, a qual legitimamente acompanha cada um dos actos referentes ao meu eu, na mais alta abstraco do meu ser, transporto-a ilegalmente queles dos meus actos realizados em relao com outros homens e que dependem da concordncia de outras vontades com as minhas.  muitssimo difcil fixar-se os limites do domnio da liberdade e da dependncia e esta delimitao constitui o papel essencial e nico da psicologia. Mas quando observamos as condies em que se revela a nossa maior liberdade e a nossa maior dependncia, no podemos deixar de ver que quanto mais abstractos os nossos actos e por menos relacionados com os actos dos outros, mais livres so, e que quanto mais solidrios dos outros, menos livres so. Ao elo mais forte, mais indestrutvel, mais penoso e mais durvel que nos une aos nossos semelhantes  que se d o nome de poderio, poderio este que, no seu verdadeiro sentido, mais no  que a maior dependncia que pode ter-se da parte dos outros.
      Com razo ou sem ela, plenamente convencido destas verdades, no decurso do meu trabalho, ao descrever os factos histricos de 1805, 1807 e sobretudo de 1812, nos quais se revela, com maior relevo, esta lei da fatalidade ( preciso notar que quase todos os que escreveram sobre o ano de 1812, viram nesses acontecimentos qualquer coisa de particular e de fatal.), no me [foi possvel atribuir valor excepcional aos factos e aos gestos que, ao que parece, dirigiram tais acontecimentos, mas os quais, menos ainda que os outros autores do drama, neles introduziram uma parte de actividade verdadeiramente humana e livre. Esses actos no me interessam seno na medida em que ilustra nesta lei da fatalidade, a qual, na minha opinio, rege a histria e essa outra lei psicolgica que compele o homem que realiza o acto menos livre possvel a imaginar imediatamente toda uma srie de dedues retrospectivas destinadas a provar a si prprio que  livre.
      
      Conde Leon Tolstoi
      
      Arquivos Russos, 1868.
      
      
      
      
      
      
      
      
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